SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue1Social psychology, community and contemporaneityThe child in contemporary society: from ‘not yet’ to the exercise of citizenship author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.1 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000100009 

Comportamento humano numa vila global: uma perspectiva pós-moderna (construtiva) sobre psicologia comunitária do terceiro mundo1

Eros DeSouza 2
Illinois State University, EUA

 

 


Resumo
Este artigo discute a concepção da Psicologia, com suas bases positivistas, e instiga os psicólogos brasileiros, especialmente os psicólogos comunitários, a examinar seus valores e agir sobre eles para criar uma Psicologia com uma significância prática para a cultura brasileira. Especificamente, é sugerido que os pesquisadores brasileiros formem "colaborações horizontais" com agências nacionais e regionais para trabalhar com problemas práticos em populações analfabetas e pobres (rurais e urbanas). Um equilíbrio deve ser alcançado entre os seguintes valores, igualmente importantes: respeito e empatia, auto-determinação, diversidade humana, colaboração e participação democrática, e justiça distributiva, como descrito por Prilleltensky (1997). Nosso desafio é buscar mudanças estruturais no tecido social se quisermos evitar um futuro catastrófico para a humanidade.
Palavras-chave: Psicologia euro-americana, populações oprimidas, valores.

Human behavior in a global village: a (constructive) post-modern perspective on third world community psychology

Abstract
This article discusses the inception of psychology, with its positivistic underpinnings, and challenges Brazilian psychologists, especially community psychologists, to examine their values and act upon them to create a psychology with practical cultural significance. Specifically, it is suggested that Brazilian researchers form "horizontal collaborations" with national and regional agencies to address practical problems with largely illiterate and poor populations (both rural and urban). A balance should be reached among equally worth values of caring and compassion, self-determination, human diversity, collaboration and democratic participation, and distributive justice, as described by Prilleltensky (1997). Our ultimate challenge is to bring about structural changes in the social fabric if we are to avert a gloomy future for humankind
Key words: European-Americana Psychology, values, opressed population.


 

 

Há dois anos atrás, eu participei do I Encontro Nacional de Psicologia Comunitária, realizado em Porto Alegre. O Encontro foi muito bem sucedido, com sua ênfase na pesquisa com crianças em situação de rua, além da subsequente adoção dos princípios da Psicologia Comunitária (por exemplo: prevenção, capacitação, ecologia) no currículo de Mestrado e Doutorado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (DeSouza, 1996). Contudo, uma tendência um pouco indesejável persistiu neste Encontro: a continuidade da dependência de especialistas estrangeiros. Aparentemente, muitos pesquisadores brasileiros se sentem mais confortáveis ou ganham mais status estabelecendo atividades de pesquisa colaborativa com instituições estrangeiras (mantendo uma parceria vertical ou assimétrica na qual pesquisadores brasileiros "transplantam" teorias estrangeiras, utilizando métodos e traduzindo instrumentos estrangeiros). Ao invés disso, poderiam estabelecer canais de comunicação horizontal e atividades de pesquisa colaborativa com universidades e agências regionais e nacionais. Se os psicólogos brasileiros continuarem a imitar a pesquisa euro-americana, eles sempre permanecerão um passo atrás. Como Freire (1989) colocou:

"O saber superado já é uma ignorância ..." (p. 29) Quando o ser humano pretende imitar a outrem, já não é ele mesmo. Assim também a imitação servil de outras culturas produz uma sociedade alienada ou sociedade-objeto" (p. 35).

O II Encontro Nacional de Psicologia Comunitária ocorre este ano, exigindo um novo olhar sobre a Psicologia Comunitária do Terceiro Mundo. Os objetivos deste artigo são dois: (1) examinar criticamente o papel tradicional da psicologia e sua moderna visão do mundo, e (2) discutir (construtivamente) valores pós-modernos e trabalhar baseado nestes valores para atingir metas dialéticas (complementares) de auto-afirmação e união com a comunidade e a natureza. Em outras palavras, teorias ecológicas, como a de Bronfenbrenner (1979), são úteis tanto a países desenvolvidos como aos do Terceiro Mundo, porque elas utilizam interações complexas entre o indivíduo e o contexto social. Isto propõe uma evolução dialética na Psicologia: individualidade (psicologia tradicional) e comunidade (psicologia comunitária, ecológica ou trans-cultural) (Guisinger & Blatt, 1994).

Contudo isto é minha visão, ou seja, é a discussão desta temática do meu ponto de vista, isto é, do ponto de vista de um psicólogo comunitário nascido e criado no Rio de Janeiro, porém, desde a adolescência, vivendo nos Estados Unidos. Com certeza esta discussão está cheia de paradoxos, como "realidade brasileira" x "teorias estrangeiras". Paradoxos semelhantes existem nos Estados Unidos também, no sentido de que lá está emergindo duas "realidades" ou dois tipos de "psicologias": uma psicologia aplicada (na comunidade: escola, hospital, indústria etc) e outra pura ou científica (veja Rice, 1997).

Psicologia e sua Moderna Visão do Mundo

A família ou o grupo social tem tradicionalmente educado os jovens, resolvido brigas e disputas, e dado conforto, conselhos, simpatia e tolerância a pessoas com problemas (Gladwin, 1980). No fim do século XIX, estes papéis começaram a ser assumido por psicólogos e outros profissionais que assistem os "problemáticos", desvalorizando e enfraquecendo o conhecimento popular.

Especificamente, desde seu início formal em 1879, a Psicologia euro-americana tem se centrado no indivíduo, no modelo científico, e na "melhoria" do bem-estar humano (Winter, 1996). A Psicologia tem se preocupado com o indivíduo porque ela emergiu da Revolução Industrial na Europa e nos Estados Unidos, com a migração em massa para as cidades e emigração européia para os Estados Unidos. Como as pessoas deixaram sua comunidade e sua família extensa para trabalhar nos centros urbanos, a individualidade se tornou o paradigma social dominante (Winter, 1996). Em função disto, a Psicologia tem visto o indivíduo como uma ilha, separado do seu ambiente sócio-cultural. Esta visão ajuda a manter o status quo, porque, pela ênfase no indivíduo, os psicólogos têm dificuldades de inquerir sobre estrutura, ideologia, papéis sociais, tradição, história, valores, cultura, interconexões ecológicas e sociedade (Sarason, 1981).

A Psicologia tradicional, como uma ciência positivista, tem visto a pessoa como uma máquina (refletindo o modelo médico, onde problemas existem somente dentro do indivíduo), respondendo de uma maneira ordenada a manipulação e controle do pesquisador ou do terapeuta. A fé da Psicologia no método científico, na objetividade "pura", e nos fenômenos intrapsíquicos tem limitado sua aplicação, quase totalmente, a problemas que podem ser medidos e testados em laboratório, ou para ajudar neuróticos de classe alta nos consultórios psicológicos. Estas aplicações, freqüentemente superficiais, desconsideram problemas de grande relevância social, de difícil compreensão, e que requerem alta capacidade de análise e adaptação a situações distantes da realidade da maioria dos psicólogos.

Não nos surpreende que graduandos de Psicologia, quando se confrontam com problemas de pessoas de classe baixa, não se sentem capazes de lidar com as problemáticas destas pessoas. Segundo Arendt (1997), o aluno-estagiário em Psicologia tem dificuldades em aplicar conhecimentos psicológicos na realidade social, como em uma favela. Arendt diz que o aluno, em uma situação diferente, se sente confuso, por exemplo, "quase tudo o que aprendi não se aplica aqui" (p. 10); "não há como apreender a complexidade deste ambiente; o psicólogo não tem nada a contribuir aqui" (p. 10). Mesmo em trabalhos de psicólogos com pessoas vivendo com AIDS, há dificuldades em administrar questões afetivas e profissionais (Figueiredo & Fioroni, 1997).

Arendt (1997) também argumenta que alunos com dúvida da utilidade da Psicologia têm dificuldades em fazer um delineamento de pesquisa bem feito. Talvez realmente precisemos de uma melhor descrição do problema (maior número de estudos descritivos ou pilotos), de objetivos claros e realizáveis, de delineamentos mais criativos, e de incorporarmos toda a comunidade, desde o início, com a pesquisa. Também precisamos preparar estagiários de Psicologia para entender que problemas sociais são complexos, exigindo múltiplas atividades interdisciplinares, pesquisa longitudinal e flexível para poder se integrar como um recurso que se torna parte da comunidade estudada. Neste sentido, precisamos comemorar as pequenas mudanças e entender que obstáculos e conflitos serão comuns em pesquisa de campo.

Além disto, é preciso entender que problemas sociais freqüentemente ocorrem em situações muito distantes da realidade dos psicólogos. Em outras palavras, eles são de classe média-alta, e usam teorias estrangeiras (muitas vezes já ultrapassadas pelos próprios americanos ou europeus) que não foram criadas para nossa cultura e população. Questões sócio-culturais são, então, freqüentemente negligenciadas ou ficam somente ao nível de discurso acadêmico, inclusive para evitar o sentimento de deselitização dos psicólogos e manter a sua auto-estima.

Quando a Psicologia é usada para "ajudar" as massas, é freqüentemente para manter as estruturas sociais injustas. Por exemplo, no começo deste século, o teste QI tornou-se codificado e popularizado nos Estados Unidos para travar o número de "débeis mentais", ao invés de desafiar a estrutura social existente para acomodar os alunos que apreendem em um ritmo mais lento (Gould, 1981; Winter, 1996). Goddard, (1914), que trouxe o teste de inteligência de Binet para os Estados Unidos e reificou os escores de QI como inteligência inata, argumentou que a sociedade tem que controlar a reprodução dos débeis mentais:

"Se ambos os pais são débeis mentais, todas as crianças serão débeis mentais. É óbvio que este tipo de união não deveria ser permitida. É perfeitamente claro que nenhum débil mental deve ser autorizado a casar ou tornar-se um pai ou mãe. É óbvio que, se esta regra fosse implementada, a parte inteligente da sociedade deveria reforçá-la." (Goddard, 1914, p. 561)

Por causa de Goddard e outros psicólogos (Terman e Yerkes), 20 estados americanos baixaram leis de esterilização (que não mais existem), fazendo com que milhares de débeis mentais fossem esterilizados. Além disto, imigrantes europeus fugindo do tumulto social, inclusive da perseguição nazista, tiveram sua entrada nos Estados Unidos negada porque não tiveram bons escores nos testes de QI, não tendo sido levado em conta que estes imigrantes não falavam inglês e não estavam familiarizados com a cultura americana (Gould, 1981; Hergenhahn, 1997).

Só depois dos anos 70, houve uma crítica massiva às suposições associais do teste de QI (Sarason, 1981). Contudo, o interesse em inteligência e raça ressurgiu, como evidencia o recente livro "The bell curve: Intelligence and class structure in American life", dos autores Herrnstein e Murray (1994), que sugerem que a pobreza, evasão escolar e outros problemas sociais são causados por baixa inteligência. Eles também afirmam que pessoas menos inteligentes são concentradas nas classes baixas e que pessoas de raça negra são inatamente menos inteligentes do que de outras raças, como, por exemplo, a raça branca. Este tipo de polêmica é usado para evitar mudanças na fábrica da sociedade. Em outras palavras, é conveniente para os agentes do status quo colocarem a culpa dos problemas sociais nas próprias vítimas.

A modernização da sociedade enfraqueceu o tecido social tradicional (a família extensa, a comunidade integrada), criando desajustes sociais para os quais a Psicologia teve que criar técnicas corretivas (Rodrigues, 1989). Ou seja, a Psicologia Social Aplicada, Clínica, Escolar e Institucional surgiu para "ajudar" os problemáticos. O objetivo tem sido a modificação do comportamento das pessoas, freqüentemente sem o consentimento delas, conservando a ordem social existente (Kipnis, 1994). Kipnis diz que, nos Estados Unidos, pesquisas sobre atitudes e mudanças de atitudes, conformismo, persuasão, atração interpessoal, psicoterapia, testes psicológicos para seleção e promoção de funcionários têm sido financiadas por agências de pesquisas privadas e governamentais para que seus problemas fossem resolvidos, fortalecendo as instituições sociais sem, no entanto, mudá-las. Desenvolvendo estas pesquisas os psicólogos podem estar reduzindo a liberdade do ser humano através de sua adaptação a uma sociedade que é, freqüentemente, hostil em relação aos "não adaptados".

A maioria dos cientistas sociais, assim como os estudantes de ciências humanas, está muito satisfeita em trocar seus conhecimentos por dinheiro, privilégios e status, ignorando as suas responsabilidades morais com os oprimidos e marginalizados. Um outro fenômeno é que, muitas vezes, uma verdadeira fábrica é criada ao redor de populações em risco para gerar empregos para profissionais, sem que nada seja realmente feito para melhorar a qualidade de vida das pessoas que realmente precisam de ajuda.

Desafios para a Psicologia do Terceiro Mundo

Quando a Psicologia euro-americana foi exportada para os países em desenvolvimento, visava ajudar no ajustamento à modernização (Moghaddam, 1990). Esta Psicologia ajudou a criar uma sociedade monocultural que enfatizava o consumismo, a economia de mercado e o individualismo (Winter, 1996). Contudo, muitas crianças, mulheres e homens brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza. Há muitas pessoas que vivem nas ruas, que experenciam a morte das pessoas que amam e morrem cedo. Há também, 19 milhões de pessoas com 15 anos de idade ou mais que são analfabetas, e, no censo de 1991, o IBGE descobriu que 14% das crianças de 7 a 14 anos não estavam na escola (Carvalho, 1997). Há uma urgência de encontrar caminhos que apontem soluções para as necessidades que emergem neste severo quadro de desigualdade social e econômica, exigindo uma mudanca em valores e assim criando uma base moral para a ação por parte dos profissionais e da comunidade em geral.

Quatro desafios, então, são propostos aos profissionais e especificamente aos psicólogos brasileiros. Primeiro, eles devem se perguntar se a Psicologia importada da Europa e dos Estados Unidos é relevante às massas de um país em desenvolvimento, onde a ordem é existir um número grande de analfabetos. Escalas e inventários psicológicos traduzidos — originalmente desenvolvidos em países industrializados, com pessoas brancas, de classe média — são inúteis para pessoas que não têm nenhuma intimidade com um lápis ou uma caneta. Além disto, os psicólogos clínicos brasileiros, que tratam de pessoas pobres usando teorias psicológicas tradicionais, como as teorias psicodinâmicas, podem estar fazendo mais mal do que bem a seus pacientes. Isto é, estas orientações tendem a estigmatizar as pessoas com problemas cotidianos (rotulando-as como portadoras de algum defeito ou deficiência interna) e, desta maneira, destacar mais a sua inadequação, e manter o status quo por negligenciar fatores extra-individuais. Mais ainda, esta relação terapeuta-paciente é assimétrica e desigual, porque o psicólogo é visto como um especialista superior, colocando o paciente (cliente) em um papel de dependente (Riessman, 1990).

Segundo, intimamente ligado ao primeiro desafio, os psicólogos brasileiros devem reavaliar os objetivos de sua especialização. Se o objetivo é de lidar com problemas ligados ao interese da classe dominate, o psicólogo pode correr o risco de afastar-se cada vez mais da realidade brasileira. Em outras palavras, seu treinamento é freqüentemente feito na Europa, Estados Unidos ou em uma universidade brasileira de muito prestígio, tendo mais em comum com as populações das sociedades industrializadas do que com suas próprias populações pobres e analfabetas. Esta argumentação não sugere que devemos nos dedicar totalmente a uma psicologia aplicada ao "pobre brasileiro". Ela só mostra que diferenças econômicas e culturais não podem ser ignoradas porque podem conduzir a conceitualizações de problemas sociais e soluções inapropriadas para a saúde mental da maioria dos brasileiros (DeSouza, 1996).

Terceiro, os psicólogos brasileiros devem questionar-se sobre o papel de "desenvolvimento" econômico que o pobre brasileiro, como dos demais países do Terceiro Mundo, têm suportado em função da urbanização, industrialização, e conseqüente aumento populacional. Por exemplo, a reestruturação da economia brasileira tem aumentado a diferença de poder econômico entre as classes: entre 1980 e 1991 o valor real do salário mínimo caiu 38% nas cidades brasileiras (Gilbert, 1994). Como resultado, a pobreza piorou. Além disso, tal deselvolvimento produz uma sociedade monocultural que enfatiza o consumismo.

Quarto, os psicólogos brasileiros devem prestar mais atenção a questões ecologicas ou macro-sociais. A dependência econômica e cultural do Terceiro Mundo em relação às nações desenvolvidas tem uma conseqüência negativa no meio ambiente e nas culturas nativas. Isto é, florestas tropicais estão sendo devastadas em um ritmo alarmante, para criar espaço para pastagens de rebanhos que serão exportados para americanos e europeus, provocando erosão da terra, extinção de espécies, mudanças climáticas mundiais, criando mais problemas sociais (Winter, 1996). Por exemplo, nestas áreas, meninas de 11 a 17 anos, se prostituem para sobreviver (Leite, 1997), visto que as atividades vinculadas a floresta tropical já não são mais possíveis.

Não estou defendendo que se abandone a pesquisa científica (que demorou 2000 anos para estabelecer-se), nem que se retorne a sociedade pré-industrial (o que é impossível). Nem mesmo que todo o conhecimento psicológico desenvolvido nos Estados Unidos ou na Europa é inútil nas sociedades do Terceiro Mundo (ficar reinventando a roda não é útil a ninguém), ou que a especialização acadêmica é inútil (o que não é verdade, pois há vários intelectuais brasileiros produzindo uma base moral para ação). O que desejo salientar é que, de uma perspectiva pós-moderna (construtiva), é necessario superar a colonização intelectual pelos países industrializados, como vários psicólogos comunitários na América Latina têm indicado (veja DeSouza, 1996). Em outras palavras, alguns psicólogos brasileiros podem estar perpetuando sua dependência às nações desenvolvidas pela importação irrefletida da Psicologia euro-americana e, ao fazê-lo, minando suas ricas tradições culturais (Gergen, Gulerce, Lock, & Misra, 1996).

Gergen (1994) faz um argumento semelhante quando ele diz que a Psicologia tradicional (euro-americana) não tem a palavra final para interpretar problemas e soluções sociais, principalmente em localidades diferentes (como no Terceiro Mundo). Ele também indica que o domínio do nosso conhecimento psicológico (produzido na maior parte nos Estados Unidos) está ligado a certos valores (como o individualismo) e benéficios, sugerindo que a pesquisa mais útil é a pesquisa desenvolvida localmente, ou seja aplicada a problemas domésticos. Assim sendo, os psicólogos brasileiros deveriam criar uma Psicologia de significância cultural prática que seja compatível com a realidade brasileira (útil a uma população pobre). Este tipo de pesquisa seria interessante a pesquisadores do Primeiro Mundo, visto que, com vários estudos ao nível local ou nacional e com múltiplas atividades interdisciplinares, torna-se possível fazer comparações trans-culturais, contribuindo para uma Psicologia mais inovadora, produtiva e inclusiva.

Especificamente, sugere-se que os psicólogos brasileiros formem conexões igualitárias com pesquisadores do exterior e, mais importante, que formem o que J. Sinha (1984) chama de "colaborações horizontais" com outros psicólogos brasileiros. Isto é, eles devem trabalhar em problemas com uma população analfabeta e pobre em todas as regiões do Brasil, rurais e urbanas. Em minha opinião, um bom começo é ajudar os oprimidos/marginalizados (ou seja, pobres, crianças em situação de rua, mulheres vítimas de violência, idosos) a serem ouvidos pela sociedade em geral.

Por exemplo, muitos residentes urbanos têm medo de andar nas ruas por causa dos índices de criminalidade. Poucas pessoas concentram-se nas desigualdades econômicas, má administração, corrupção, e evidentes violações dos direitos humanos pela polícia, além da ineficiência geral e inadequação do sistema judiciário brasileiro. Ao contrário, muitos cidadãos respeitáveis apoiam aqueles que tomam a justiça em suas próprias mãos e matam crianças que acreditam ser criminosos incorrigíveis ou, mais comumente, estes cidadãos permanecem em silêncio e nada fazem (Americas Watch, 1994).

Então, psicólogos comunitários brasileiros—que têm conhecimentos em áreas de avaliação de necessidades, desenvolvimento de programas, consultoria e avaliação de programas—precisam engajar-se em promover a consciência dos cidadãos (ex. avaliação de necessidades) e a tomar um papel ativo no processo de mudança (ex. organização comunitária). Além disto, eles devem se engajar na pesquisa de avaliação do trabalho da polícia, do tratamento recebido pelas vítimas de crime e da efetividade de todos os programas sociais. Mais ainda, eles precisam disseminar todos os resultados, bons ou ruins, para todos os segmentos da sociedade brasileira.

Através da pesquisa-ação eles podem educar o público, especialmente os políticos, sobre a vida diária do oprimido e ajudar na mudança das estruturas sociais existentes, papéis culturais (por exemplo, papéis sexuais) e valores. Não há ciência nem método, contudo, que possa aliviar complexos problemas sociais sozinho. Portanto, psicólogos comunitários brasileiros devem trabalhar com profissionais de outras áreas, usando diversos métodos, para solucionar importantes problemas que afetam o Primeiro Mundo como também o Terceiro Mundo. Por exemplo, psicólogos podem colaborar com médicos na prevenção de doenças (ex. AIDS) ou com arquitetos na renovação urbana.

A respeito da AIDS, os psicólogos brasileiros agiram demasiadamente devagar para tentar minimizar a disseminação da AIDS, deixando a desinformação, o medo, o preconceito e inércia política tomar conta da situação. Isto é especialmente desastroso porque a AIDS é um problema tanto psicológico quanto de saúde pública. Isto é, o vírus que causa a AIDS é transmitido por comportamentos que os ponha a risco. Então, a AIDS é evitável através programas preventivos para mudança de comportamentos humanos (com o consentimento dos participantes), como o uso consistente de camisinhas nos atos sexuais—especialmente para mulheres pobres (que são contaminadas por seus maridos) e presidiários (Abulquerque & Dias, 1997)—tratamento de desintoxicação para viciados em drogas injetáveis ou a troca de seringas usadas por seringas esterilizadas.

Quanto à pobreza urbana do Terceiro Mundo, as políticas de habitação convencional, centradas na eliminação de favelas e construção de casas populares, são inadequadas para atingir as crescentes necessidades desta população (Rondinelli, 1990). Ao invés disto, Rondinelli sugere mudanças político-sociais que aumentem a participação da comunidade, através de cooperativas privadas e informais de construção de casas populares, reforma das leis de ocupação urbana (ocupação adequada de áreas públicas e privadas), leis que baixem os custos de construção de casas populares, serviços sociais e urbanos que gerem emprego a população pobre (aumentando e expandido a demanda de construção de casas populares) e garantias de propriedade da habitação. Sem estas condições, esta população não se disporá a gastar seu tempo, dinheiro e energia para melhorar sua situação de vida. Deste modo, os psicólogos comunitários brasileiros devem colaborar com o pobre urbano para que estas mudanças ocorram, possivelmente através da organização da comunidade e ação política.

 

Conclusões

Apesar de cada sociedade experienciar uma realidade social única, nós todos estamos interconectados. Isto é, quer moremos no Brasil, Europa ou Estados Unidos, nós vivemos em uma sociedade de diversidade crescente, por causa da imigração, entrelaçamentos econômicos e avanços tecnológicos (como a televisão via satélite, Internet, meios de transporte que ligam o mundo inteiro) que diminuem as distâncias. Assim, a troca de idéias interdisciplinares dentro de um contexto transcultural pode ser a melhor maneira de expandir nosso conhecimento, assim como influenciar mudanças nas áreas política e social, para que cada indivíduo viva livre de opressão.

Psicólogos comunitários americanos rejeitaram o modelo médico e desenvolveram um paradigma realmente psico-ecológico que olha o indivíduo como um ativo participante na vida da comunidade (DeSouza, 1996). Da mesma forma, os psicólogos comunitários brasileiros, seguindo a tradição de Freire (1967), entendem que o conhecimento não pertence exclusivamente ao especialista ou profissional, pelo contrário, o cidadão comum já possui um conhecimento que precisa apenas ser "descoberto" por ele e por outros. Infelizmente, na prática, a pesquisa destes psicológos não tem sido tão revolucionária ou eficaz (veja DeSouza, 1996).

Em uma era pós-moderna, nós precisamos vislumbrar um futuro otimizado para todos e ser ativos na construção deste futuro. Para isto é necessário fazermos os nossos valores explícitos, e não deixá-los apenas implícitos, porque eles guiam nossas concepções sobre os problemas e nossas tentativas de resolvê-los. Há, porém, o problema de enfatizarmos alguns valores em detrimento de outros. Deste modo, é preciso um equilíbrio entre os seguintes valores, igualmente importantes:

• respeito e empatia,
• auto-determinação,
• diversidade humana,
• colaboração e participação democrática,
• justiça distributiva (Prilleltensky, 1997).

Teoricamente, este valores, quando usados de uma maneira emancipatória e comunitária, podem promover a autonomia individual e um senso de comunidade em cada indivíduo, em uma sociedade cada vez mais multicultural.

Se nós atingirmos tal síntese entre o desenvolvimento do indivíduo e das relações comunitárias, nós precisaremos de políticas sociais que ajudem as pessoas a viverem em grupos estáveis e facilitem a comunicação entre estes grupos (Guisinger & Blatt, 1994). Explorar estas políticas locais e comunitárias é um desafio aos profissionais de todas áreas sociais e matéria para futuros trabalhos.

Os valores brasileiros refletem um paradigma coletivista, que não pode ser esquecido pelos psicólogos brasileiros quando adaptarem propostas desenvolvidas nos Estados Unidos, que possuem um paradigma claramente mais individualista (Hofstede, 1980). Uma filosofia que pode ser útil para os brasileiros é realizar plenamente as potencialidades do indivíduo e, ao mesmo tempo, suas obrigações sociais. Precisamos criar comunidades que facilitem o desenvolvimento de todas as pessoas e a união de toda a humanidade com a natureza. Em outras palavras, através de um processo dialético (complementar) de convivência harmoniosa (por ex. cooperando com os outros e preservando o ambiente natural) e de êxito pessoal (por ex. desenvolvendo suas potencialidades e talentos), poderemos ter um futuro sustentável neste planeta. Assim sendo, o nosso último desafio é de trazer mudanças estruturais no tecido social. Como Moghaddam (1990) diz:

"Os psicólogos do Terceiro Mundo devem construir uma Psicologia que é mais aplicada, que lida mais com aspectos gerais do que específicos de comportamento, e mais importante, que seja geradora [preventiva] ao invés de moduladora [curativa] em seus objetivos, se são o é nas suas realizações atuais" (p. 30).

Para atingir estes objetivos, precisaremos utilizar todos os métodos existentes, e se estes não forem apropriados aos fenômenos que estamos estudando, devemos criar novos métodos. Em outras palavras, psicólogos comunitários se aventuram no laboratório imperfeito que é a comunidade, buscando mais informações sobre a história de grupos excluídos, os contextos em que os problemas sociais são oriundos ou mantidos, o meio ambiente e a ecologia humana.

 

Referências

Albuquerque, F. J., B., & Dias, M. R. (18-20 de junho, 1997). AIDS: Haverá no Brasil uma epidemia como na Africa? Pesquisa apresentada durante o II Encontro Nacional de Psicologia Comunitária em Porto Alegre, RS.         [ Links ]

Americas Watch. (1994). Final justice: Police and death squad homicides of adolescents in Brazil. New York: Human Rights Watch.         [ Links ]

Arendt, R. J. J. (1997). Psicologia Comunitária: Teoria e metodologia. Psicologia: Reflexão e Crítica, 10, 7-16.         [ Links ]

Bronfenbrenner, U. (1979). The ecology of human development: Experiments by nature and design. Cambridge, MA: Harvard University Press.         [ Links ]

Carvalho, J. (18 de junho, 1997). Vergonha nacional. Veja, 24, 122-125.         [ Links ]

DeSouza, E. (1996). Psicologia Comunitária nos Estados Unidos e na América Latina: Implicações para o Brasil. Psicologia: Reflexão e Crítica, 9, 5-19.         [ Links ]

Figueiredo, M. A. C., & Fioroni, L. N. (1997). Uma análise de conteúdo de crenças relacionadas com a AIDS entre participantes em O.N.G.s. Estudos de Psicologia, 2, 28-41.         [ Links ]

Freire, P. (1967). Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra.         [ Links ]

Freire, P. (1989). Educação e mudança (15 Edição). Rio de Janeiro: Paz e Terra.         [ Links ]

Gergen, K. J. (1994). Exploring the postmodern: Perils or potentials? American Psychologist, 49, 412-416.         [ Links ]

Gergen, K. J., Gulerce, A., Lock, A., & Misra, G. (1996). Psychological science in cultural context. American Psychologist, 51, 496-503.         [ Links ]

Gilbert, A. (1994). Third World cities: Poverty, employment, gender roles and the environment during a time of restructuring. Urban Studies, 31, 605-633.         [ Links ]

Gladwin, T. (1980). Slaves of the white myth: The psychology of neocolonialism. Atlantic Highlands, NJ: Humanities Press.         [ Links ]

Goddard, H. H. (1914). Feeble-mindedness: Its causes and consequences. New York: Macmillan.         [ Links ]

Gould, S. J. (1981). The mismeasure of man. New York: W. W. Norton.         [ Links ]

Guisinger, S., & Blatt, S. J. (1994). Individuality and relatedness: Evolution of a fundamental dialectic. American Psychologist, 49, 104-111.         [ Links ]

Hergenhahn, B. R. (1997). An introduction to the history of psychology (Third Edition). Pacific Grove, CA: Brooks/Cole.         [ Links ]

Herrnstein, R. J., & Murray, C. (1994). The bell curve: Intelligence and class structure in American life. New York: The Free Press.         [ Links ]

Hofstede, G. (1980). Culture’s consequences: International differences in work-related values. Beverly Hills, CA: Sage.         [ Links ]

Kipnis, D. (1994). Accounting for the use of behavior technologies in social psychology. American Psychologist, 49, 165-172.         [ Links ]

Leite, V. (2 de Abril, 1997). Infância violentada. Veja, 13, 35.         [ Links ]

Moghaddam, F. M. (1990). Modulative and generative orientations in psychology: Implications for psychology in the Three Worlds. Journal of Social Issues, 46, 21-41.         [ Links ]

Prilleltensky, I. (1997). Values, assumptions, and practices. American Psychologist, 52, 517-535.         [ Links ]

Rice, C. E. (1997). Scenarios: The scientist-practitioner split and the future of psychology. American Psychologist, 52, 1173-1181.         [ Links ]

Riessman, F. (1990). Restructuring help: A human services paradigm for the 1990s. American Journal of Community Psychology, 18, 221-230.         [ Links ]

Rodrigues, A. (1989). A psicologia social nas vésperas de seu primeiro centenário. Em II Simpósio Brasileiro de Pesquisa e Intercâmbio Científico (C. S. Hutz, Editor), pp. 117-136. Gramado, RS: ANPEPP.         [ Links ]

Rondinelli, D. A. (1990). Housing the urban poor in developing countries: Other policy options for national shelter strategies are examined since conventional ones are inadequate. American Journal of Economics and Sociology, 49, 257-269.         [ Links ]

Sarason, S. B. (1981). Psychology misdirected. New York: The Free Press.         [ Links ]

Sinha, J. (1984). Toward partnership for relevant research to the Third World. Indian Journal of Psychology, 19, 169-178.         [ Links ]

Winter, D. D. (1996). Ecological psychology: Healing the split between planet and self. New York: HarperCollins College Publishers.         [ Links ]

 

 

Recebido em 22.09.97
Revisado em 27.10.97
Aceito em 01.02.98

 

 

1 Agradecimentos especiais a Francisco Heitor da Rosa pela revisão deste artigo em Português, aos comentários do revisor anônimo e da professora e editora Silvia H. Koller. Trabalho apresentado no II Encontro Nacional de Psicologia Comunitária.
2 Endereço para correspondência: Todas as correspondências devem ser enviadas para Department of Psychology (4620), Illinois State University, Normal, Illinois 61790, USA. Telephone: (309) 438-7836; FAX: (309) 438-5789; E-mail: erdesou@acadcomp.cmp.ilstu.edu.