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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.1 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000100011 

Inserção na comunidade e análise de necessidades: reflexões sobre a prática do psicólogo1

Maria de Fatima Quintal de Freitas 2
Universidade Federal do Espírito Santo

 

 


Resumo
O artigo analisa o processo de inserção do psicólogo na comunidade relacionando-o ao tipo de análise de necessidades resultante. Apresenta as possibilidades existentes, nas últimas décadas no Brasil, discutindo as preocupações político-sociais e o tipo de objetivos que têm orientado as práticas psicológicas em comunidade. Discorre sobre as conseqüências derivadas desse processo de inserção, enfocando os reflexos na relação psicólogo-comunidade e na construção da identidade de ambos. Apresenta as características e os instrumentais de práticas cuja inserção apresenta objetivos a posteriori, referenciada em uma psicologia social crítica e histórica, e relacionando-a com a análise de necessidades decorrente.
Palavras-chave: inserção na comunidade; relação psicologia-comunidade; psicologia social. comunitária

Insertion in the community and analysis of needs: thoughts on the practice of the psychologist

Abstract
This paper analyses the process of insertion of the psychologist in the community, relating it to the resultant type of analysis of necessities. The possibilities that were available in Brazil during the last decades are presented with a discussion of the political and social concerns and the type of objectives that have guided community psychology practices. Then, the consequences derived of this insertion process is discussed, focusing the consequences to the psychologist-community relationship and to the construction of the identitiy of both. The paper describes the characteristics and the instrumentalization of practices which present a posteriori objectives, based on a a critical and historic social psychology, relating it to the analysis of necessities that follows.
Keywords: Insertion in the community, psychology-community relationship, community social psychology.


 

 

Falar da inserção ou do processo de entrada, contato e conhecimento do psicólogo com uma dada população, pode nos parecer uma tarefa nada difícil e questionadora, se possuirmos certezas epistemológicas e filosóficas a respeito da nossa área de atuação e do tipo de papel e compromisso que assumimos em nosso trabalho. Entretanto, este não é o caso, especialmente se pensarmos em uma Psicologia que se proponha, também, a trabalhar com problemáticas que assolam o cotidiano da nossa população, gerando processos psicossociais nem sempre ‘saudáveis’ (Martín-Baró, 1989; Montero, 1990, 1994). Considerando ao menos esta ressalva e lembrando que, no Brasil, nestas últimas décadas, nossa profissão tem sido chamada a ocupar novos espaços e a desenvolver trabalhos e/ou atividades que até então eram pouco freqüentes, gostaria de levantar alguns aspectos que considero importantes para a proposta de discussão colocada aqui.

Nesta discussão, os aspectos instrumentais e metodológicos da ação ou da intervenção tornam-se importantes. Todavia, eles, por si só, não são suficientes para uma análise histórica e crítica a respeito do processo de inserção na comunidade, protagonizado pelos profissionais de psicologia (Ammann, 1980; Andery, 1984; Lane & Sawaia, 1991). Aliás, parece-nos, ao contrário, que tais instrumentais dependem, na realidade, dos valores e concepções adotados pelos psicólogos para orientar a sua prática e a relação que estabelecem com o seu objeto de estudo, de investigação e/ou de trabalho. Em outras palavras, a visão de homem e de mundo, assumidas e vividas pelos profissionais, é que se constitui como aspecto crucial na criação ou determinação das possibilidades sobre o como estudar, pesquisar e/ou intervir, assim como na delimitação e seleção das estratégias de intervenção a serem utilizadas. (Freitas, 1994, 1994a; Montero, 1994).

Psicólogo e Comunidade: uma relação possível 

A temática Inserção na Comunidade pressupõe que, necessariamente, estejamos falando de uma relação que se estabelece entre dois pólos.

De um lado, há o profissional de psicologia, com sua formação e os conhecimentos adquiridos, com os instrumentais que aprendeu e adotou como recursos para os seus trabalhos, e com a sua visão sobre o mundo e o homem. De outro, encontra-se a comunidade, os setores da população, com sua dinâmica e características próprias, inserida em um contexto sócio-político-geográfico, e vivendo em um tempo histórico determinado. Esta comunidade vive uma conjunção de forças, pressões e desafios das mais diferentes naturezas e, tendo ou não clareza concreta disto, muitas vezes influencia e apresenta limitações e, também, desafios ao cenário ideológico dominante, quando, por exemplo, tenta sobreviver e resistir na sua luta cotidiana (Cordero & Hermosilla, 1996; Lane & Sawaia, 1995; Montero, 1994a; Serrano & Collazzo, 1992).

Poder-se-ia dizer que, tanto o profissional como a comunidade, podem ter "modos de ação" diferentes, orientados por visões de mundo nem sempre coincidentes e conciliáveis.

Modos de Intervenção: Preocupações 

Considerando-se o processo de inserção tentemos recuperar, a partir da experiência (Freitas, 1986, 1994; Wiesenfeld & Sánchez, 1995), as possibilidades que têm sido construídas nessa relação psicólogo e comunidade.

Têm havido diferenças nos motivos que têm orientado a inserção na comunidade. Os trabalhos desenvolvidos em comunidade, nestas três últimas décadas, têm mostrado modos de inserção e preocupações, com o seu desenvolvimento diferentes (Freitas, 1986, 1994a, 1996a; Montero, 1994).

Assim, poderíamos dizer que:

a) Houve um tempo, especialmente na década de 70, em que os profissionais inseriram-se nos bairros de periferia e nas favelas dos grandes centros, tentando negar a sua origem cultural e de classe. Era importante fazer algo, colaborar para a organização e mobilização dos setores oprimidos (Andery, 1984; Freitas, 1986; Lane & Sawaia, 1991). Como e com que instrumentais constituiam-se em questões, na época, de importância secundária. Tratava-se de uma inserção guiada por uma preocupação de que o trabalho estivesse voltado para a militância e participação políticas.

b) Houve, e continua havendo, uma forma de se inserir com apelos a um trabalho de caridade e voltado para os mais desfavorecidos. A maneira de contatar, entrar e conhecer a população reveste-se da necessidade de serem oferecidos vários serviços, como por exemplo alguma forma de atendimento psicológico mais acessível ou gratuito, para a melhoria das problemáticas das pessoas (Freitas, 1986, 1994; Montero, 1994). De um lado, estaria a população que necessita de tratamento e/ou orientação psicológica e, de outro, o psicólogo oferecendo sua ajuda, preocupado em implantar serviços e estratégias psicológicas, para que a população melhore, se adapte às exigências societais ou que, pelo menos, minimize seus problemas e sofrimentos. A inserção reveste-se de uma preocupação ligada à filantropia e ao fornecimento de assistência psicológica.

c) Houve, e também continua havendo, uma outra forma de inserção guiada pela curiosidade em conhecer esse ser estranho: as populações mais desfavorecidas. O distanciamento das instituições de formação, de um lado, e os clamores e necessidades sociais, de outro, estamparam temáticas e problemáticas vividas por grandes parcelas da população, que precisavam ser conhecidas e tornadas objetos de investigação. Grandes contingentes de universitários das ciências humanas e sociais passaram a caminhar nos bairros populares fazendo entrevistas, questionários, aplicando escalas e vários outros instrumentos importados de outros contextos e modelos (Freitas, 1986, 1994a; Lane & Sawaia, 1995). A inserção acontece com uma preocupação da ordem da curiosidade científica.

d) Tem havido um tipo de inserção orientada pelo compromisso de que o trabalho deve possibilitar mudança das condições vividas cotidianamente pela população, ao mesmo tempo em que esta é que estabelece os caminhos e aponta as suas necessidades prementes (Freitas, 1996a; Martín-Baró, 1989; Montero, 1994). As problemáticas para a ação definem-se conjuntamente, construindo-se muitas vezes instrumentais para aquela realidade em questão. Trata-se de uma inserção que se dá na dependência da avaliação da população, comprometendo-se com a possibilidade de mudança social e construção de conhecimento na área.

Modos de Intervenção: objetivos norteadores

Além das preocupações existentes em relação ao tipo de vínculo a ser estabelecido com a comunidade, o processo de inserção tem se caracterizado, também, pelo fato do trabalho apresentar ou não objetivos definidos e claros (Freitas, 1994b).

Assim, considerando a existência ou não de objetivos norteadores para o trabalho a ser realizado, a inserção tem acontecido de maneiras diferentes:

1. uma, a partir de objetivos, motivos e preocupações que orientam o psicólogo antes mesmo deste conhecer e contatar a realidade em que pretende trabalhar. Chamamos, aqui, de uma inserção orientada por objetivos de trabalho definidos a priori.

2. uma segunda forma de inserção, em que o contato e a entrada que o psicólogo constrói na comunidade acontecem orientados pelas necessidades que a população vive, sendo portanto os objetivos norteadores do trabalho definidos a posteriori.

Nesta forma de inserção, com objetivos a posteriori, podemos encontrar algumas nuances diferenciadoras:

2.1 há uma forma de inserção em que, após conhecer, levantar, descrever e caracterizar as necessidades da população e sua dinâmica de vida, o psicólogo decide, sim, a posteriori, o quê fazer, porém sem a discussão e a participação da população nesse processo; e

2.2 há outra, em que a definição do quê e como fazer - ao mesmo tempo uma especificidade técnica e profissional - se dá em discussões e tendo a participação conjunta da população.

Tipo de Inserção segundo os objetivos: Conseqüências

Pensemos, neste momento, em algumas consequências que essas inserções podem produzir para a Psicologia e para a Comunidade.

Inserir-se tendo já uma clareza e definição sobre o trabalho a ser realizado, ou seja, tendo já os objetivos claramente definidos a priori, apresenta alguns aspectos que devem ser considerados.

a. Trata-se de uma entrada na comunidade que aponta para um tipo de trabalho em que os limites sobre o que fazer são mais claros e, consequentemente, torna-se mais fácil e menos incerto identificar os fenômenos psicossociais e os instrumentais que devem ser utilizados, além de se manter delimitado o papel que o psicólogo deve ter na sua relação com a comunidade.

Isto revela uma relação de conhecimento em que o papel do psicólogo não é questionado e, muito menos, sua identidade - como profissional e produtor de conhecimento - vê-se ameaçada.

b. Há, também aqui, que se lembrar que o mesmo acontece com a comunidade. Em outras palavras, ela é vista e se assume como inquestionável e imutável, tendo uma vida e uma dinâmica de relações já dadas e prontas, fortalecendo assim o conformismo e passividade, de modo que ela fica em uma posição de mera receptora dos serviços e benefícios fornecidos pelo psicólogo.

Poder-se-ia, também, fazendo uma analogia com a situação do psicólogo, dizer que a identidade da população também não é questionada e nem ameaçada dentro desse estabelecido.

Difícil, em nossa visão, é admitir que não seja possível questionar e, consequentemente, vislumbrar possibilidades de transformação para a identidade de um povo, tão solapado e alijado de condições mínimas de vida, como por exemplo chegar ao ponto de, cientificamente, identificá-la como menos capaz, menos lutadora, conformista, desvalida, indolente e sem futuro e sem esperança. Entretanto, são estas explicações que este tipo de inserção e relação tem contribuído por gerar.

Na outra possibilidade, inserir-se orientado pela necessidade de serem detectadas, conhecidas e mapeadas as demandas, dificuldades e problemas vividos pela população, para posteriormente serem levantados os objetivos para o trabalho de intervenção, também traz alguns sub-produtos que devem ser considerados. Trata-se de uma inserção que lida com o domínio das incertezas. Aqui, também, a experiência tem revelado duas maneiras de acontecer:

a. em uma delas, a incerteza sobre o quê e como fazer e o desconhecimento sobre as necessidades e a vida da população existem quando dos primeiros momentos do contato estabelecido.

À medida que tais informações vão sendo obtidas - derivadas desse processo de inserção, contato e familiarização - vão se delimitando aspectos e fenômenos como temáticas potenciais e possíveis para o desenvolvimento do trabalho de intervenção. A interação e o papel da comunidade, neste cenário, têm importância de se constituirem em elementos viabilizadores para a obtenção de informações. Após isto, tendo uma certa caracterização e mapeamento da realidade cotidiana, permeada por vários processos psicossociais, o psicólogo, então a posteriori, define os objetivos do seu trabalho, identifica metas a serem atingidas e seleciona e/ou constrói instrumentais para efetivar sua ação. Ressalte-se que é ele - profissional - quem faz isto. Neste momento, cessa a participação da população, minimizam-se as incertezas para o profissional e, consequentemente, preserva-se e se resguarda sua identidade profissional, garantindo uma especificidade da sua atuação.

b. na outra forma, em que os objetivos para o trabalho também são definidos a posteriori, os passos para o conhecimento e levantamento de necessidades pouco mudam.

A marca diferenciadora, entretanto, dá-se na medida em que os objetivos são delimitados dentro de um processo decisório participativo, em que tanto profissional como comunidade e seus representantes, estabelecem relações horizontais de discussão, análise e definição sobre as problemáticas a serem consideradas e as possibilidades de resolução e/ou enfrentamento para as mesmas (Montero, 1994; Serrano-Garcia, 1992). Neste processo, os dois - psicólogo e comunidade - não estão definidos e muito menos têm suas identidades e papéis fixos, imutáveis e preservados (Freitas, 1994a; Martín-Baró, 1989; Montero, 1991; Perdomo, 1988).

Falando da Inserção e da Participação da Comunidade: Alguns trabalhos

Proponho que nos debrucemos sobre o tipo de inserção em que os objetivos são definidos a posteriori, tendo a participação da comunidade nesse processo decisório.

Obviamente esta escolha revela a crença de que esta é uma das possibilidades de atuação do psicólogo em comunidade, que mais pode contribuir para não só compreender a gente de nossa terra, como tentar levantar alternativas de ação, juntamente com a população, para que esta possa assumir, no mínimo, a sua própria história e tentar construir formas mais dignas, éticas e humanas de convivência comunitária, construindo um ‘mundo psicossocial’ em coerência com estas preocupações. (Lane, 1987; Lane & Sawaia, 1991; Martín-Baró, 1989; Montero, 1991; Perdomo, 1988).

Trata-se de uma proposta de inserção que vem sendo desenvolvida em alguns países, especialmente, da América Latina, que viveram longos períodos de regimes políticos de exceção, de perda dos direitos básicos de cidadania e solapamento e pauperização das condições minimamente dignas de vida. Este tipo de inserção propõe usar aportes oriundos de uma psicologia social crítica, que compreende o homem na sua totalidade histórica, em movimento e protagonista da sua história particular e coletiva, forjando relações cotidianas que podem contribuir para a construção de uma vida mais digna e humana. São trabalhos que empregam também conhecimentos e questões provenientes de uma Psicologia Política que se propõe investigar a comunidade, nos aspectos participativos das lideranças e das bases, em termos de modos alternativos de ação política, que tanto podem contribuir como dificultar o desenvolvimento das redes de relações comunitárias (Freitas, 1996b; Montero, 1995; Wiesenfeld & Sánchez, 1995).

Parece-nos fundamental entender as tendências e ideologias que se materializam no cotidiano das pessoas, que as faz sentirem-se com mais ou menos possibilidades de mudarem suas vidas, em benefício a si e ao outro, de tal modo que este outro não apareça como uma ameaça à sua vida, à sua convivência e à sua emoção, emoção essa que permeia as relações humanas e as possibilidades futuras de convivência.

Exemplos desses trabalhos encontramos em Costa Rica, com Teresita Cordero e H. Hernán Hermosilla, em um trabalho sobre a problemática psicossocial de plantadores de banana que devido ao uso contínuo de praguicidas ficaram esterilizados, trazendo repercussões para as suas relações cotidianas e perspectivas pessoais de vida (Cordero, Dobles, & Pérez, 1996); em Porto Rico, com Irma Serrano-Garcia e Lydia S. Andújar com um trabalho de prevenção de câncer oral, que envolveu vizinhos e amigos do bairro onde havia um alto índice de alcoolistas e que alguns eram parceiros de bar e de jogos dos potenciais pacientes (Serrano-Garcia & Andújar, 1992); na Venezuela, com os trabalhos de Maritza Montero no bairro San José de la Urbina, envolvendo associação comunitária e grupos de moradores na construção de relações comunitárias participativas; no Chile, com os trabalhos de Domingo Asún lidando com grupos de jovens em propostas de prevenção da saúde; na Argentina, com Enrique Saforcada trabalhando com agentes de saúde oriundos da própria comunidade em uma perspectiva de educação e conscientização.

Tendo apresentado, até o momento, algumas considerações a respeito das possibilidades que, na prática, têm sido delineadas para o processo de inserção na comunidade, nos referiremos àquela que, em nosso entendimento, deveria se dar, levando em conta três aspectos:

a. um, de que as necessidades da população é que devem indicar os caminhos para a prática do psicólogo em comunidade, significando portanto que os objetivos deveriam ser definidos a posteriori;

b. outro, de que o trabalho implique na construção conjunta de canais e alternativas para que a população assuma seu cotidiano, fomentando relações mais solidárias e éticas e desenvolvendo uma consciência crítica;

c. por último, que, apesar das incertezas e das delimitações que vão acontecendo durante o processo de inserção, o psicólogo tem, sim, um domínio específico para a sua ação, ligado aos chamados processos psicossociais que perpassam o cotidiano das pessoas, sendo que algumas ferramentas para a intervenção advêm do campo da investigação participante e de outras disciplinas além da própria psicologia.

Acreditar na possibilidade de desenvolvimento de trabalhos em comunidade, com estas preocupações, implica em não ver a população nem como desamparada por natureza, nem desvalida ou um espécime exótico digno de estudos. Significa, ao contrário, descobrir que a população é sim, diferente dos padrões e previsões tradicionalmente científicas, sendo mais lutadora e sobrevivente do que tem sido considerada pelos centros de investigação.

Ao mesmo tempo, ir à comunidade, conhecê-la, entrar e iniciar um processo de familiarização, coloca o psicólogo em uma posição frágil diante de algumas incertezas e desafios.

Incertezas quanto à sua aceitação, entrada e permanência na comunidade. Incertezas quanto às decisões sobre o quê e como fazer, e ao seu papel como profissional da psicologia, em um contexto comunitário. Enfim, incertezas com relação à sua autoridade no processo de conhecimento e ao seu próprio processo de formação, em termos dos clássicos paradigmas que aprendeu (Freitas, 1994b; Montero, 1994b).

Como a inserção pode ser construída: Início, Estratégias e Instrumentos 

Este é o momento em que se pode pensar a respeito de como a inserção poder-se-ia dar . O trabalho de entrada do psicólogo na comunidade depende de :

* contatos e conhecimentos que faz quando se depara com a realidade concreta dos setores populares;

* intermediários, individuais e/ou coletivos, que procuram o profissional de psicologia, geralmente com uma expectativa de que ele faça algum tipo de atendimento individual para as problemáticas vividas no contexto comunitário;

* tentativas que o próprio psicólogo faz de se fazer conhecer junto à comunidade ou aos seus representantes, tentativas estas orientadas pela preocupação de que é necessário colocar seus serviços à disposição desses setores. Neste tipo de contato, está implícita a aceitação de se submeter à avaliação sobre a necessidade do seu trabalho, com o risco de haver algum tipo de recusa.

Desta maneira, há uma fase neste processo de inserção em que o profissional busca se tornar conhecido, tentando maximizar as possibilidades de início do trabalho.

Depois de estabelecida a entrada na comunidade, inicia-se um processo contínuo de obtenção de informações e de interações, em que o profissional está, de um lado, exercendo atividades que derivam da sua especificidade profissional, e de outro, sendo, de alguma maneira, também observado, registrado e avaliado pelos moradores daquele lugar.

Vários têm sido os instrumentos utilizados e/ou construídos nas situações que se apresentam quando do desenvolvimento do trabalho:

* entrevistas que muitas vezes são realizadas de maneira coletiva, fora de um ambiente controlado, com um número variável de participantes do início ao fim;

* conversas informais acontecidas nos bares, padarias, pontos de ônibus, caminhando nas ruas, cujos conteúdos vão fornecendo indícios sobre a dinâmica existente na comunidade e sobre o tipo de interação e vínculo que os moradores vão criando;

* visitas às casas, a alguma reunião considerada importante, e/ou a alguma festividade;

* registros de acontecimentos e/ou episódios significativos em diários de campo, acompanhados de apreciações sobre as interações, as problemáticas vividas e as alternativas de ações encontradas pelas pessoas;

* recuperação da história de constituição da comunidade através de fontes vivas, como pessoas significativas, lideranças formais e informais, representantes de entidades, igrejas e templos, entre outros;

* resgate de documentos do saber popular e uso de fotografias e/ou objetos e/ou produções oriundas da produção cultural local;

* encontros não programados, reuniões imprevistas e debates repentinos acontecidos no seio dos grupos formais e informais.

Assim, o trabalho desenvolvido apresenta estratégias que objetivam:

* coleta de informações sobre a vida, condições de moradia e sobrevivência, recuperação histórica da construção daquela comunidade;

* identificação de necessidades e problemáticas vividas pela população na esfera do seu cotidiano, em termos de processos psicossociais que afetam as pessoas;

* detecção dos modos alternativos de enfrentamento e resolução, encontrados pelos moradores no seu cotidiano e nas relações estabelecidas.

* discussão conjunta, com a comunidade e seus representantes, sobre as alternativas, e decisão sobre aquela a serem adotadas, assim como sobre as estratégias para sua viabilização;

* constituição dos grupos para a execução das alternativas; e

* avaliação contínua e reformulação dos caminhos adotados, em função das necessidades e impedimentos que se apresentarem ao longo do trabalho.

Neste momento, parece-nos interessante listar alguns aspectos que foram sendo reunidos, a partir de várias práticas desenvolvidas, e que nos permitem caracterizar os trabalhos desenvolvidos em comunidade, dentro de uma perspectiva de intervenção voltada para uma mudança social e que lidam com fenômenos psicossociais presentes na vida das pessoas. Essas características são:

* ser um trabalho coletivo, envolvendo grupos de profissionais;

* é dirigido, orientado e balizado pelas necessidades e demandas coletivas da população, que podem ter incidências e reflexos na vida particular das pessoas;

* lida com grupos e, por isso mesmo, enfrenta dificuldades derivadas das características de espontaneidade dos grupos, variação na quantidade e composição dos seus membros, avanços e retrocessos existentes nas diversas reuniões grupais, distanciamento que vai sendo criado entre as lideranças e os demais; hierarquias internas e fontes de poder diversificados que se alteram continuamente; e dificuldades e distorções comunicacionais acontecidas nas reuniões;

* necessitar de um conhecimento contínuo e atualizado sobre a dinâmica e a vida comunitárias, cujas alterações vão imprimindo novas diretrizes para o trabalho;

* admitir a possibilidade de mudança como elemento presente: mudança de estratégias, objetivos, problemáticas a serem trabalhadas e alternativas adotadas;

* trazer, quase que a todo momento, questionamentos sobre a importância e viabilidade do trabalho, assim como sobre a própria identidade e especificidade do profissional de psicologia;

* não possuir um tempo previsto para o seu término, dependendo da avaliação da comunidade.

Sobre a Análise de Necessidades

As estratégias e instrumentais empregados, de acordo com as diretrizes e características dos trabalhos realizados, situam-se no domínio da investigação e, em certa medida, tratam-se de elementos que compõem as pesquisas sobre intervenção comunitária, realizadas diferentemente das tradicionais em que se possui um maior controle sobre a situação e o contexto de obtenção de dados.

É neste quadro que são fundamentais as ligações entre as pesquisas qualitativas e quantitativas. Contrariamente, ao difundido, é exatamente na realidade concreta que os métodos quantitativos e qualitativos mais se complementam e mais se associam. A riqueza e quantidade de material obtido, neste processo de inserção e familiarização, exige também uma postura do psicólogo de preservar e respeitar a dinâmica e significado das informações, enfrentando o desafio de produzir um conhecimento que tenha força e seriedade para entrar nos espaços acadêmicos, sem se tornar neutro, asséptico e distorsivo com relação à realidade que o engendrou.

Na análise das necessidades, vividas e existentes, o papel do profissional de psicologia, em termos de se apropriar das informações, das dinâmicas presenciadas e partilhadas, e do contexto comunitário delineado, tem fundamental e decisiva importância.

Adotar instrumentais de análise, gerados dentro de um modelo funcionalista, supostamente neutro e imparcial, em nada contribui para esse tipo de preservação.

De um lado, os métodos quantitativos de análise podem trazer uma certa segurança na detecção do dado em si, "como se" fosse possível ser o mais fiel ao contexto concreto; quando, na verdade, acabam despersonalizando-o, descontextualizando-o e tirando-lhe a dinâmica vivencial humana, além de se distanciarem e se descomprometerem com a aplicabilidade dessa produção de conhecimento.

De outro, os métodos qualitativos, embora se apresentem como os mais possibilitadores da preservação dessa dinâmica e movimento, também trazem o perigo de ficarem à mercê da leitura ou ótica do profissional-pesquisador, que dependendo de qual seja seu compromisso político e social podem levar a uma interpretação mais ou menos distorcida da realidade..

A maneira como ele reunirá esses dados, para esboçar um quadro diagnóstico e avaliativo, deverá ter, por princípio, um respeito à realidade concreta, à ótica vivencial da comunidade, e às perspectivas que aparecem interiorizadas pelas pessoas nas suas relações.

Novamente, aqui, destaca-se uma linha diferenciadora nas práticas psicológicas em comunidade, em termos de orientações e compromissos filosófico-políticos. Esta demarcação está presente quando se fala a respeito da inserção na comunidade, visando um processo que culmine na análise de necessidades que, por sua vez, podem permitir a construção de alternativas de ação para as pessoas resistirem e enfrentarem, no seu cotidiano, as problemáticas que tentam tirá-las de uma condição de certa humanidade. Fazer isto significa falar, necessariamente, do plano da prática e da aplicabilidade de uma profissão. Em nosso entendimento, isto implica na explicitação das nossas contribuições, para a vida das pessoas.

Concluindo, pode-se afirmar que o tipo de Análise de Necessidades e, consequentemente, o tipo, a extensão e o compromisso da intervenção realizada são delineados pela forma ou maneira como o processo de inserção se dá, como já indicamos no início.

Desta forma, neste momento, uma pergunta parece, então, fazer sentido: que tipo de inserção nos prestamos fazer ?

Tendo como base a discussão já realizada, aqui, poderíamos dizer que existem duas possibilidades:

- há aquela inserção que contribui para a produção de conhecimentos sem um envolvimento e implicação com a mudança da vida da comunidade; ou,

- há outra, na qual acreditamos, em que são tentadas formas de participação da comunidade, e em que se buscam produções de conhecimento conjunto, embora tenham um certo ônus e um certo ganho.

O ônus refere-se a um custo intrínseco à profissão, de existirem continuamente desafios, questionamentos e incertezas sobre o papel do psicólogo, naquele contexto. Este custo intrínseco, por sua vez, estampa a necessidade de uma profunda reformulação no processo de formação dos psicólogos e nos paradigmas adotados para o desenvolvimento dos trabalhos (Montero, 1994b).

O ganho estaria no encontro de possibilidades para que a própria comunidade construísse relações mais solidárias e humanas, percebendo que os impedimentos e problemas não se devem a características ou matrizes tão somente suas. Além disso, este ganho estaria, também, na necessidade, social e comunitariamente construída, de serem produzidos outros conhecimentos em psicologia, afeitos à realidade concreta, que tivessem, minimamente, alguma cumplicidade com o povo da nossa terra.

 

Referências

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Recebido em 22.09.97
Revisado em 11.11.97
Aceito em 01.02.98

 

 

1 Trabalho apresentado no II Encontro Nacional de Psicologia Comunitária em 1997.
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