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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.2 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000200011 

Dimensões psíquicas e sociais da criança e do adolescente em situação de rua1

Deise Matos do Amparo Menezes
Kátia Cristina T. Brasil2
Universidade Católica de Brasília3
NEPIAR 4

 

 


Resumo
Esta pesquisa teve como objetivo desenvolver um diagnóstico dinâmico da criança e do adolescente em situação de rua nas área do Plano Piloto - Distrito Federal, levando em consideração as dimensões psíquicas e sociais desta população. O estudo foi realizado nos moldes da pesquisa-ação, com observações participantes nas quais o pesquisador interagia com a criança através de atividades lúdicas e educativas - jogos e desenhos. As observações foram registradas em fichas de campo e, posteriormente, analisadas e agrupadas em categorias relacionadas às dimensões psíquicas e sociais como: focos de transgressão, formação de grupos, estratégias de sobrevivência, vinculação, relação com o próprio corpo e com o do outro. A hipótese delineada foi que tais fatores se relacionam à construção da identidade e subjetividade da criança em situação de rua. Os desenhos das crianças e adolescentes apontaram aspectos regressivos e as observações etnográficas demonstraram que o espaço da rua funciona como fonte de referência paradoxal. Lidando com os paradoxos, os meninos e meninas em situação de rua constróem redes de alianças e sustentação subjetiva e organizam sua identidade. A dinâmica da criança de rua, marcada pelo paradoxo, reflete-se no trabalho de intervenção realizado pelo educador social e de rua, e este deve estar atento para não submergir no paradoxo da criança, paralisando sua capacidade de pensar e elaborar as dificuldades de sua atuação.
Palavras-chave: Exclusão social, Crianças e adolescentes em situação de rua, Educador social e de rua.

Psychological and social dimensions in street children and street adolescents

Abstract
This survey aims at establishing a dynamic diagnosis of children and adolescents living on the streets of Brasilia’s main area (known as the "Pilot Plan"), in Brazil’s Federal District, taking into account the psychic and social dimensions of that population. The study was carried out according to the survey-action pattern, using ethnographic and participant observations, in which the researcher interacted with the child through play and educational activities - games and drawings. Observations were recorded in field cards, which were later analyzed and grouped in categories related to the psychic and social dimensions, such as: transgression spots, gangs organization, survival strategies, rapport, relating with their own and other’s bodies. The hypothesis has to do with the influence of these factors as elements connected to the street kid identity and subjectivity construction. Drawings made by children and adolescents pointed to regression aspects and the ethnographic observations showed that the street space works as a paradoxical reference source. By dealing with paradoxes, street boys and girls build alliances and subjective support nets, and organize their identity. The street child dynamics, marked by the paradox, affects the intervention work of social and street educators who must be attentive to avoid being caught by the child’s paradox, which would hamper their ability to think and elaborate on the difficulties their own action.
Key words: Social exclusion, Street children and adolescents, Social and street educators.


 

 

A rua é, para muitos, apenas um lugar de passagem. No entanto, circulando pelas ruas das grandes cidades encontra-se uma grande faixa da população que estabelece um outro tipo de relação com ela. Para estas pessoas a rua não é apenas um lugar de passagem, mas um meio de vida, um espaço de sobrevivência e de formação de vínculos (Lucchini, 1993).

Para a criança em situação de rua, não existe apenas uma definição de rua, mas várias "ruas", como as praças, mercados cobertos, feiras, lojas, estação de ônibus, estação rodoviária, parques públicos, terrenos vazios, prédios abandonados, entre outros. Todos esses espaços fazem parte do que habitualmente chamamos rua, entretanto cada um possui uma função diferenciada para a criança. Eles podem ser um esconderijo, um lugar para conseguir dinheiro, alimentos, drogas, divertimento, etc.

Assim, os espaços da rua vão sendo apropriados pela criança através do uso que ela faz dele, sendo a sua relação com estes marcada por uma exploração utilitária (Lucchini, 1993). Nesse contexto, a rua é um espaço para a sobrevivência, mas também para a ludicidade. Esses espaços são transitórios e não-permanentes. A ocupação temporária apresenta características bem marcantes, como os espaços para dormir, protegido por paredes invisíveis, onde um pedaço de papelão pode marcar um espaço privado. O papelão indica ocupação, e este marco é reconhecido pelo grupo; há um respeito mútuo pelos espaços conquistados, pelas paredes invisíveis. Este mundo invisível passa a pertencê-lo, quando o menino ou a menina se apropria simbolicamente de um território. Nesta perspectiva, a rua deixa de ser um lugar qualquer, sig-nificando uma propriedade conquistada (Acioli, 1995).

A rua também proporciona um ritmo particular, e é através das atividades que o tempo vai sendo construído e percebido. A criança vai construindo sua rotina em função de suas atividades e do uso dos espaços urbanos. Acordam tarde, pois durante a noite muitos aproveitam a escuridão e o menor número de pessoas circulando para usarem drogas, perambularem pelas ruas, concentrando-se onde a cidade está acordada. O espaço e o tempo da cidade tornam-se o espaço e o tempo dos meninos (Reis, 1993).

A criança não passa a viver na rua de um dia para o outro. Na maioria dos casos este processo é progressivo e está ligado ao aprendizado que a criança vai fazendo da rua. No princípio ela faz idas e vindas de casa para a rua e vice-versa. Aptekar (1988) define o processo de saída da casa para a rua em estratégias que iniciam com um progressivo espaço de tempo longe de casa, até que a criança partilhe e integre-se totalmente com a cultura da rua.

Lucchini (1993) traça uma reflexão sociológica do que nomeou "carreira" da criança na rua, identificando o percurso que a criança faz entre a casa e a rua, o tempo que ela levou para deixar a casa e as circunstâncias da saída do domicílio, que vão depender do conhecimento adquirido do mundo da rua, assim como das estratégias de adaptação que utiliza para sobreviver. Este autor explora três etapas na relação que a criança estabelece com a rua: a aproximação e a saída, a rua observada e a rua lúdica, a rua alternante e a rua negada. a) A primeira etapa é caracterizada por uma "lua-de mel" com a rua, quando o espaço descoberto é curtido como jogo prometedor de autonomia e liberdade. Referindo-se a tais etapas, Bucher (1996) diz que: b) Na segunda etapa, há uma identificação progressiva com a condição de "criança de rua", favorecendo uma consciência de identificação coletiva. c) Na última, o jovem, desiludido com a rua, tenta deixá-la procurando alternativas mais viáveis.

Estudos apontam que as questões que levam a criança para a rua estão ligados: a) à situação econômica da família, b) à fragilidade da sua organização, c) à exploração da criança e d) violência (Lusk, 1992; Rosa de Souza & Ebrahim, 1992). No entanto, Lucchini (1993) pontua que não se deve negligenciar o papel da criança na sua saída para a rua, como também não se deve esquecer a atração que a rua exerce sobre ela. Para compreender o papel ativo da criança, tanto na sua saída para a rua quanto no modo como ela se articula para viver longe da família, é preciso também uma reflexão da sua dinâmica psíquica e da sua relação com o espaço da rua.

A criança em situação de rua: aspectos das dimensões psíquicas e sociais

A criança, no seu desenvolvimento, constitui uma série de laços reais, imaginários e simbólicos que organizam seu psiquismo. A organização psíquica, portanto, é algo que se apoia em dados de realidade concreta, mas também, e principalmente, na vivência subjetiva, na capacidade de fantasiar e simbolizar. A simbolização consiste na capacidade de organizar os conteúdos psíquicos, de metabolizar as experiências vividas pela via de um trabalho psíquico que faz apelo à linguagem, ao pensamento e ao fantasma (Pelsser, 1988). Nesse sentido, a constituição psíquica é também fruto do social, na medida em que é pelo socius que se insere na cultura e no sistema simbólico da linguagem.

Os primeiros vínculos sociais e simbólicos da criança se fazem na família. No entanto, a família da criança que vai para rua, na maior parte das vezes, não consegue manter-se enquanto apoio material e psíquico (Lucchini, 1993; Muza, 1996). As múltiplas privações no plano material, social e afetivo fazem parte da sua realidade familiar. Elas são as maiores vítimas de um sistema de pauperismo que atinge as camadas mais desassistidas da população na América Latina (Oliveira, 1993).

As famílias das crianças em situação de rua encontram-se nas áreas periféricas dos centros urbanos, vivendo na maioria das vezes em condições precárias de subsistência, sem condições de garantir o sustento de seus membros. As necessidades e carências familiares fazem, muitas vezes, as crianças e adolescentes procurarem, nas ruas das grandes cidades, meios para a sua sobrevivência e para a sobrevivência do grupo familiar. Dentro desta perspectiva, a própria noção de criança perde o sentido de sua concepção original, construída como produto de uma sociedade urbanizada. Nos parâmetros dessa sociedade, a criança deve estar sob a proteção da família e do Estado (Ariès, 1981).

Quando a criança é indispensável para a sobrevivência material do grupo familiar, ela passa a ocupar um outro lugar, inserindo-se no mundo adulto e não usufruindo das garantias de proteção e dos direitos da infância. A exclusão da escola e a inclusão precoce no mundo do trabalho favorecem um processo de degradação pessoal e social dessas crianças e adolescentes que, geralmente, começa pelo ingresso em esquemas divergentes de geração de renda: mendicância, pequenos furtos, tráficos de drogas, prostituição, etc. (Costa, 1996).

As crianças que vivem em situação de rua não podem ser agrupadas de maneira uniforme, é possível delinear-se diferentes perfis, embora estes não sejam estanques, uma vez que há mobilidade na passagem de um grupo a outro. Estes grupos podem ser definidos pela utilização do espaço da rua e pela natureza dos vínculos que as crianças mantêm com a família. Um primeiro grupo refere-se às trabalhadoras que, na maior parte das vezes, ainda mantêm um vínculo familiar e com a escola. Um segundo grupo, formado pelas que passam períodos na rua, mas ainda mantêm vínculo familiar. Um terceiro grupo, formado por moradoras de rua, que fragilizaram seus vínculos familiares e abandoram a escola, e ainda, um quarto grupo, das que moram nas ruas com suas famílias (Lusk, 1989; Aptekar, 1996).

Se são as dificuldades materiais ou a desorganização familiar que impulsionam as crianças para a rua, a inserção num grupo de crianças que já está na rua acelera este processo. As crianças que deixam suas casas integram o espaço e o tempo da rua à sua identidade (Lucchini, 1991). Nesse sentido, torna-se fundamental identificar as motivações internas para que algumas crianças passem a viver nas ruas.

A rua para a criança que nela habita já não se constitui num espaço público, transformando-se, muitas vezes, pela força da sobrevivência, num espaço privado de constituição psíquica e social.

"O privado e o público possuem regras de acessibilidade distinta que marcam a passagem de um ao outro. Assim as regras da rua enquanto espaço público interditam a presença prolongada da criança e do adolescente sem o acompanhamento do adulto. No entanto, isso mudou quando, por razões econômicas e sociais, a rua tornou-se lugar de residência fixa. Nesse caso a natureza da rua muda pois ela não é totalmente pública, a criança faz da rua um espaço de vida, esses que a utilizam dessa forma a transformam parcialmente em espaços semiprivados. Isso significa que eles se apropriam utilizando-se desse espaço para fins privados" (Lucchini, 1992, pp.139-140).

Neste sentido, a rua funciona para a criança como um espaço privado de constituição subjetiva. Com isso, não se pretende fazer a apologia da rua enquanto um espaço de socialização, mas enfocar os elementos que organizam as referências dessa criança, a relação que ela mantém com o espaço da rua e com o outro.

As expressões de linguagem utilizadas pelos meninos em situação de rua são indicadores de que a rua cria uma cultura particular, configurando um dialeto muito próprio que corresponde à natureza da organização e identidade grupal, onde as palavras marcam um certo território que o outro pode ou não ter acesso. Segundo Ricaurte (1972), essas crianças criam um código secreto com o propósito de evitar desvendar-se. Escamoteando a verdade sobre si mesmo, defendem-se da hostilidade muito característica do espaço da rua.

As alianças e parcerias das crianças na rua são mecanismos de proteção, constituindo-se enquanto redes de relações que estruturam o seu mundo vivido. Sendo assim, funcionam também como elementos de identificação e organização das representações. Lucchini (1993) afirma que o estudo das representações se insere em três dimensões: a) em relação a si, b) em relação ao outro e, c) em relação a sua definição social (os grupos aos quais a criança pertence ou deseja pertencer). Este tripé organiza as fontes de referências identificatórias para a criança.

O objetivo deste estudo foi o de desenvolver um diagnóstico dinâmico da criança e do jovem em situação de rua, nas áreas do Plano Piloto – Brasília/Distrito Federal, levando-se em conta as dimensões psíquica e social desta população. Buscou-se compreender, nessa população, a natureza dos vínculos, a modalidade de organização e inserção nos grupos, os pontos de apoio e os mecanismos de organização e estruturação psíquica, identificando suas vivências, representação de si, do outro e do espaço social.

Este estudo privilegiou a perspectiva qualitativa e a pesquisa-ação (Demo, 1984; Lucchini, 1993), que pressupõem a interação do sujeito pesquisado com o pesquisador. Para alcançar os objetivos propostos, desenvolveu-se diferentes metodologias de abordagem: observações etnográficas, desenhos, aplicação de questionário, entrevistas semidirigidas individuais e com grupos de crianças. As observações etnográficas e os desenhos constituíram a primeira etapa da pesquisa e representam o objeto deste trabalho.

 

Método

Participantes

Foram abordadas na pesquisa crianças e adolescentes que encontravam-se em situação de rua, segundo o perfil definido por Lusk (1989), na faixa etária de 9 a 18 anos, do sexo masculino e feminino. Essa população circulava nas ruas e nos pontos do Plano Piloto – Brasília/DF nas seguintes áreas: Setor de Oficinas Norte, 710 Norte, 712 Norte, 404/405 Norte, 402/403 Norte, 306/307 Norte, Rodoviária, Conic, 110/111 Sul, 111/112 Sul, 403 Sul. Dessa áreas fazem parte setores comerciais e residenciais que geralmente recebem um grande fluxo de movimento e de circulação de pessoas.

Procedimentos 

As reflexões para o desenvolvimento desse trabalho iniciaram-se no contexto das atividade promovidas pelo NATEX5. Tais atividades consistiam em um estudo exploratório das crianças e adolescentes em situação de rua, iniciado em abril de 1996. Esta pesquisa envolveu professores e alunos da Universidade Católica de Brasília e da Universidade de Brasília, com a colaboração dos educadores do Sistema Brasília-Criança - Fundação do Serviço Social - GDF6 e do NATEX.

Os pesquisadores (professores e alunos) dirigiam-se para a rua com os educadores, buscando os pontos de concentração de crianças e adolescentes em situação de rua. Durante estas saídas, os pesquisadores observavam as interações, os vínculos estabelecidos e a dinâmica do espaço da rua. Esta etapa possibilitou o reconhecimento do campo, o treinamento e a sensibilização dos pesquisadores que efetivou-se através do reconhecimento e familiarização com a rua enquanto espaço de pesquisa.

Como procedimento para coleta dos dados, realizaram-se observações etnográficas utilizando-se como parâmetro a abordagem desenvolvida por Lucchini (1992, 1993), que permite uma aproximação progressiva do campo de investigação, levando a uma observação participante e ao estabelecimento de vínculos com a população alvo.

A cada saída na rua realizavam-se observações e atividades lúdico-educativas. Utilizou-se o desenho livre como proposta de atividade no espaço da rua. As crianças ficavam interessadas em usar o material e participavam da atividade dialogando com o pesquisador. Este momento era também de troca criança/criança e criança/pesquisador, na medida em que as atividades requeriam uma abordagem interativa.

As experiências vividas eram registradas em fichas de campo que tinham um roteiro preestabelecido. Para agrupar as observações das fichas, organizou-se eixos relacionadas às dimensões psíquicas e sociais como: focos de transgressão, estratégias de sobrevivência, formação de grupos, vinculação, linguagem, relação com o corpo do outro e com o próprio corpo.

Instrumentos

1. Fichas de Campo para o registro de observações etnográficas que tinham como objetivo trazer elementos sobre: o espaço da rua (descrição, interação, trabalho, abrigos, estratégias de sobrevivência, focos de transgressão, vínculos sociais das crianças: formação de grupos, vínculos com o pesquisador, o educador, a família, instituições, fontes de suporte na rua).

2. Desenhos livres realizados pela criança no espaço da rua e no contexto de atividades lúdicas-educativas.

 

Resultados e Discussão

Os resultados são baseados em fragmentos das observações etnográficas e em alguns desenhos selecionados dentre aqueles realizados pelas crianças e adolescentes na rua. Destas observações etnográficas retirou-se os seguintes trechos:

"Estavam todos sujos na Rodoviária. L. está doente, parece que tem doença venérea. Pude observar uma cena em que L. estava deitada com as pernas encolhidas e na altura da vagina haviam moscas".
"Na rodoviária os meninos estavam sujos, cheiravam mal e R. tinha a mão machucada (havia levado um tiro e três chumbinhos estavam na sua mão)".

O descuido com o corpo, comum ao grupo de crianças de rua, notadamente nas crianças moradoras de rua, coloca em questão a qualidade da valorização narcísica de si e da imagem do seu corpo, bem como a sua fragilidade manifesta. As marcas no corpo, visíveis nas cicatrizes dos machucados e ferimentos dessas crianças, são a afirmação da violência que vivem, comprovando na própria pele as incidências dos traumatismo. O corpo não se inscreve meramente como um dado orgânico, constituindo-se como elemento de estruturação psíquica, na medida em que é também objeto de investimento narcísico e libidinal (Dolto, 1984). O corpo é um primeiro lugar que referencia a criança a um espaço privado, elemento de organização psíquica, devendo ser o primeiro espaço apropriado e investido narcisicamente por si mesmo e pelo outro (Schilder, 1950/1980; Dolto, 1984).

Diante dos fatores de risco enfrentados concretamente pelas crianças na rua, alguns questionamentos se impõem: A incidência de traumatismos vividos na rua interfere na organização psíquica dessa criança? Até que ponto a vivência da rua funciona como elemento de degradação e desvalorização narcísica, comprometendo a constituição da imagem que a criança tem de si e do próprio corpo?

A imagem do corpo e de si mesmo organiza-se através dos processos de identificação, existindo uma conexão íntima entre a imagem do sujeito e do outro constituída através do contato contínuo com o mundo exterior; o toque, o interesse, o olhar, e as palavras em relação às diversas partes do corpo são de enorme importância para o desenvolvimento da imagem que se estrutura nos contatos sociais (Schilder, 1950/1980). Nesse sentido, a construção da imagem do corpo é dependente de dimensões tanto psicológicas quanto sociais. No contexto das crianças em situação de rua as dimensões psicológicas e sociais são atravessadas por fatores de risco. Bandeira, Koller, Hutz e Forster (1996) apontam que o espectro de risco é bastante amplo, podendo ser físico, social e/ou psicológico.

Na investigação da dimensão psicológica, o desenho livre é um instrumento fundamental, pois a expressividade sobrepõe-se, permitindo a expressão de si, do mundo interno e relacional. O desenho possibilita uma forma de comunicação básica, onde aspectos internos podem se expressar no mundo externo. Frente à solicitação gráfica, o indivíduo passa por um processo interno de seleção das representações decorrentes de identificações, projeções e introjeções, colocando no desenho seu modo de se perceber e de perceber o mundo (Loureiro, 1996).

O desenho, neste sentido, pode ser uma das vias de expressão da imagem do corpo. Enquanto elemento projetivo, coloca em jogo processos de representação de si, através das imagens constituídas e da fala da criança no contexto particular da atividade.

"A representação gráfica, do ponto de vista da psicologia, tem o seu significado ligado à expressividade enquanto elemento constitutivo da personalidade, facilitando a compreensão da dinâmica afetiva humana da pessoa que realizou o desenho. A ênfase se coloca na pessoa e no significado que este sugere na compreensão da sua história de vida" (Loureiro, 1996, p.11 ).

Nos desenhos realizados na rua, com as crianças e os adolescentes, geralmente eram representados aspectos do cotidiano (a rua, a cidade) e da subjetividade (referência a si e ao outro). Era no espaço vazio do papel que elas se colocavam, através de imagens e palavras. O espaço da cidade parecia ocupar boa parte do papel, a partir dos locais e pontos de referências (rodoviária, ruas, carros, árvores, casas, etc.). Os espaços abertos e relacionados à rua eram as escolhas preferenciais da representação gráfica. O público funcionava como referência subjetiva, elas colocavam no papel elementos do mundo exterior que se relacionam com o cotidiano e com sua vivência pessoal.

Desenho 1

D. tem 11 anos, desenha calado, não faz referência à sua história, sabe-se que veio de Goiânia a pé com um amigo de rua, e que é novo em Brasília. A atividade é desenvolvida juntamente com outras crianças no gramadão da Rodoviária. Ele representa no desenho uma árvore e uma pipa que ocupa quase todo o tamanho do papel. A casa é colorida, embora as suas paredes sejam transparentes, deixando espaço para enxergar o interior, onde coloca uma televisão.

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Desenho 2

C. tem 17 anos, já tem muitos anos que mora na rua, costuma andar com outra adolescente a quem se refere como "irmã de rua", cheira cola e thinner. A atividade é desenvolvida no Setor de Oficinas e junto com ela estão mais duas crianças. C. começa desenhando uma árvore no centro do papel, diz que é uma mangueira e que seus frutos estão caindo; coloca nuvens negras acima da mangueira e logo depois faz uma casa, onde deixa transparecer o seu interior, com o som e a televisão. Coloca algumas letras no desenho: X de xuxa, P de paz, F de felicidade e H de harmonia. Refere-se ao H como sendo igual à "cancela" dos seus dentes (não possui os dentes da frente).

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A partir dos desenhos, pode-se questionar a respeito do investimento narcísico do corpo dessas crianças. As imagens do cotidiano e do espaço público da rua são mais investidas do que a imagem humana que, nas representações gráficas, não aparecem ou aparecem em segundo plano.

Se tomarmos a casa como metáfora do corpo, observamos que a mesma, em alguns desenhos feitos na rua, evidencia a falta de concretude das separações espaciais na delimitação do interior e exterior. Essa falta de delimitação pode ser característica dos desenhos de crianças pequenas; no entanto, os desenhos dos adolescentes em situação de rua apresentam aspectos regressivos, onde as paredes, às vezes, dão a impressão de transparência, revelando uma casa cujo interior pode ser visto de fora, apontando uma continuidade indiferenciada entre dentro/fora, privado e público, como se o jovem estivesse diante de uma vitrine sem se projetar no mundo. Nesse sentido, é importante discutir como se organizam as fontes de referências identificatórias – individuais e sociais - dessas crianças na rua.

A instabilidade crônica do elo social, característica do ambiente próximo, é uma experiência que a criança em situação de rua geralmente faz muito cedo na sua existência, desde as suas relações primárias familiares. Esta falta de estabilidade do elo familiar e social compromete a estruturação da imagem de si, embora não se possa afirmar que essa imagem seja sempre inconsistente, pois, dentre outros fatores, é dependente da possibilidade do encontro de substitutos, de pólos de identificação reparadores que possam auxiliar nessa estruturação, tornando-a menos dependente das rupturas e traumatismos primários (Lucchini, 1991).

Nas observações etnográficas, o aparecimento de um vocabulário particular das crianças e adolescentes no contexto da rua aponta que a linguagem da rua funciona como defesa e como fonte de agrupamento e identificação, caracterizando signos de partilhamento, inclusão ou exclusão no grupo. Algumas expressões como gambé (polícia), caô (mentira), dar bote (roubar), manguear (pedir comida), mocós (lugares que usam para dormir), tiririca (orgão sexual feminino), XC (cheiradores de cola), designam um vocabulário particular que, ao mesmo tempo, favorece o estabelecimento de relações e mecanismos de identificação grupais. Nesse sentido, concorda-se com Ricaute (1972) sobre a criação de um código secreto, pelas crianças e adolescentes, para a defesa da hostilidade do espaço da rua.

Por outro lado, as observações também demonstram que o espaço da rua funciona como fonte de referência paradoxal para a criança: ao mesmo tempo que ela encontra vínculos marcados pela violência e transgressão, encontra também vínculos de continência.

No espaço da rua, a criança depara-se, ainda, com focos de transgressões sociais, identificados pelo roubo, pelo uso da droga, pelo tráfico, pela prostituição. Muitas dessas ações também são "organizadas" em grupo. Essas transgressões, próprias do espaço da rua, têm que ser inseridas e analisadas num contexto particular, onde os significados e sentidos da ação possam ser levados em conta, desde que transgredir tem um peso subjetivo para a criança de rua, muitas vezes funcionando como elemento organizador e fonte de referência grupal. As regras daquilo que pode ou não ser transgredido são definidas nas relações do grupo e, muitas vezes, estão relacionadas às estratégias de sobrevivência na rua.

As estratégias de sobrevivência não se restringem ao aspecto material, não se trata unicamente do alimento e do abrigo, necessidades a serem satisfeitas, que a criança tem que manter e conquistar na rua, mas principalmente num tipo de sobrevivência que implica numa sustentação da sua capacidade de estar na rua, o mínimo de asseguramento de existência pessoal que a permita viver nas condições geralmente "violentas" que a rua impõe, cuja idéia de agressão e rejeição são integrantes naturais do cotidiano (Dimenstein, 1990). Nesse sentido, a criança precisa construir estratégias de sobrevivência psíquica que, na maior parte das vezes, fundam-se em torno de relações que se constituem num sentido horizontal e vertical (entre iguais ou com diferenças hierárquicas). Paradoxalmente, permeia essas relações a capacidade de partilhar bem como a de agir sobre o outro de forma violenta.

Nas observações, temos os seguintes relatos:

"Chega a turma da droga e divide o thinner"
"Alimento e comida ganho é dividido entre o grupo de crianças"
"J., o líder, explora os meninos menores e, sob coerção, lhes retira o dinheiro e pertences, ameaçando dar porrada nos meninos que não lhe obedecerem".
"Meninos trabalhadores não gostam dos cheira cola"

As crianças que dormem na rua, na sua maior parte, o fazem em grupo (companheiro, irmão de rua, namorado, etc.), com o corpo do outro procuram manter uma barreira de proteção. Dificilmente ficam sozinhos à noite, quando o perigo de ser pego de surpresa é maior; dormir junto e agrupado não necessariamente tem uma conotação sexual. Neste momento, em que desaparece o burburinho do dia-a-dia na rua, parece que fica mais evidente a fragilidade e a necessidade do outro. O vínculo criança-criança parece ser mais estruturante e com maiores possibilidades de compartilhamento do que com o adulto.

Nas observações, encontramos os seguintes relatos:

"Dormiam 4 adolescentes (14 a 18 anos) em pedaços de papelão, estavam todos juntos."
"Dois adolescentes (13-14) mantinham namoro, eles dormiam em pedaços de papelão espalhados no chão e cobriam-se com cobertores velhos e sujos."

Existem, no entanto, trangressões que ocorrem dentro do próprio grupo: a denúncia, a disputa pela partilha de um toco de cigarro, o roubo entre os próprios meninos. Estas são trangressões que afetam internamente as "regras" implícitas dos códigos sociais, do que é permitido ou proibido no grupo. Seligmann, Gorayeb, Lebensztajn, Kosin e Snitcovsky (1991) pontuam que, ao contrário do que comumente se pensa, as regras no mundo da rua são muito rígidas, existem limites estritos que devem ser respeitados sob pena de sofrer severas punições. A rigidez moral supõe a existência de níveis extremos de auto-exigência entre elas. Uma criança roubar da outra pode ser uma fonte de afronta e motivo para exclusão do grupo. Nesse sentido, cria-se na rua não só novos códigos de linguagem, mas também códigos sociais particulares, estabelecendo relações de dependência, liderança, exploração, vínculos.

Formas de organização e de estabelecimentos de vínculos são as famílias de rua. Ligações onde os aspectos subjetivos são preponderantes e os papéis se estabelecem a partir da referência dual, persistindo conforme a conveniência das situações e satisfações experimentadas (Seligmann et al., 1991). O aliciamento por um "pai de rua", muitas vezes, pode ter um sentido de proteção para a criança. Os vínculos são diferenciados segundo critérios subjetivos, sustentados, muitas vezes, na necessidade e na capacidade de sobrevivência e subsistência na rua. A lógica do que é transgredir na rua confunde-se com as estratégias de sobrevivência, instaurando redes de relações onde a lei da sobrevivência é subjugada às leis sociais que devem proteger a dignidade humana e propiciar a vida em comunidade. Lidando intensamente com os paradoxos, os meninos e meninas de rua constróem redes de aliança e sustentação, bem como organizam a sua identidade. O espaço da rua com os seus paradoxos, contribui na constituição da dinâmica psíquica da criança.

 

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Figura 1: Criança em situação de rua, paradoxo e organização da identidade

 

Os desenhos das crianças em situação de rua demonstram a fragilidade na construção dessa identidade; há uma prevalência de imagens do cotidiano em detrimento de imagens que evoquem a dinâmica relacional e fantasmática. Nesse sentido, a capacidade de simbolização é extremamente contaminada por um imaginário recheado dos traumatismos e violências da luta pela sobrevivência psíquica e social.

 

Conclusões

A dinâmica da criança e da rua, marcada pelo paradoxo, reflete-se no trabalho de intervenção realizado pelo educador social e de rua. Neste trabalho, o educador confronta-se com as violências, traumatismos, transgressões e formas peculiares de estabelecimentos de vínculos, onde a continência e o acolhimento passam a ser um fator fundamental para que o trabalho se efetive. O educador, portanto, deve estar atento para não deixar-se submergir no paradoxo da criança, paralisando a sua capacidade de pensar e elaborar as dificuldades e perspectivas de sua atuação.

Pelas características peculiares da população que o educador atende - na qual o abandono, a fragilidade de vínculos e a violência estão presentes, caracterizando, apesar de todo aparente enrijecimento, uma dinâmica regressiva - a ação educativa na rua deve iniciar-se no acolhimento ao corpo, elemento primário de constituição de si mesmo e da identidade.

O sujeito constrói-se enquanto unidade biológica e psíquica na integração de sua imagem corporal, organizada por elementos psíquicos e sociais. Não se trata de uma corporeidade acabada no esquema corporal, mas de algo que é construído e de-construído nos contatos relacionais (Schilder, 1950/1980; Dolto, 1984). Utilizando o corpo como instrumento, desde que faça referência a uma relação mediada com o educador, as crianças e os adolescentes em situação de rua podem passar de uma esfera concreta, imaginária e dual - contato corpo a corpo, passível de atualizar a violência - para o nível simbólico em que o jogo e as atividades lúdicas educativas tornam-se modos de expressão da subjetividade e da identidade, permitindo, assim, a mediação e o distanciamento da atuação transgressiva e/ou regressiva do jovem em situação de rua. Nesse sentido, Graciani (1997) ressalta a importância do jogo e do lúdico como instrumentos fundamentais no trabalho com crianças e adolescentes em situação de rua.

Outro ponto fundamental a ser considerado é a dimensão social do vínculo criança-criança que aparece como fonte de segurança, ludicidade e foco das estratégias de sobrevivência. As relações estabelecidas na rua são também estratégias de continência e proteção, que permitem a sobrevivência psíquica e social da criança. O trabalho do educador deve levar em consideração este aspecto, e em qualquer intervenção é importante possibilitar repensar essa cultura da exclusão sem excluir os sujeitos que dela fazem parte, circunscrevendo desde essa cultura os pontos de estruturação e desestruturação da identidade do jovem em situação de rua. Em consonância com essa perspectiva, Bucher (1996) aponta que não se trata de intervir sobre a criança em situação de rua como preconizam os modelos tradicionais de intervenção, mas trabalhar com ela, dentro do próprio espaço de rua, onde se vê desapossada do seu direito à subjetividade e à cidadania, e cujas experiências precisam, antes de tudo, ser reconhecidas e respeitadas.

 

Referências

Acioli, M. (1995). Da casa invisível à escola inevitável. Dissertação de Mestrado Não Publicada. Faculdade de Educação, Universidade de Brasília, Brasília.         [ Links ]

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Recebido em 09.03.98
Revisado em 13.05.98
Aceito em 29.05.98

 

 

1 Trabalho apresentado no Congresso Internacional de Saúde Mental. Encontro de Estudos de Prevenção em Abuso e Negligência na Infância e Adolescência - Maio de 1997 – Canela – RS.
2 As autoras agradecem a leitura e sugestões ao texto realizadas pelos Professores Richard Bucher+ e Sandra Francesca de Almeida, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília.
3 Universidade Católica de Brasília – Faculdade de Educação – Departamento de Teorias e Fundamentos em Educação - Q.S. 07 - Lote 01 - Bairro Águas Claras - Taguatinga/DF. E-mail: deise@ucb.br/katia@ucb.br  
4 NEPIAR – Núcleo de Extensão e Pesquisa da Infância e Adolescência de Risco.
5 O NATEX – Núcleo de Estudos e Atenção à Exclusão Social - é uma ONG que funciona em parceria com a Universidade de Brasília - UnB e com a Universidade Católica de Brasília – UCB. Essa ONG foi fundada pelo professor Richard Bucher, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, falecido em julho de 1997.
6 GDF - Governo do Distrito Federal.