SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue3Editorial iniciaçãoThe experience of assuming pregnancy during adolescence: a phenomenological study author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.3 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000300003 

Drogas e adolescência: uma análise da ideologia presente na mídia escrita destinada ao grande público

Tatiana Weiss Ribeiro1
Nicolau Kuckartz Pergher
Sandra Djambolakdjian Torossian2
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


Resumo
Atualmente, o uso e abuso de substâncias psicoativas entre adolescentes é um tópico freqüente em debates. Na mídia, por exemplo, encontram-se diversas reportagens referindo-se ao tema "drogas". Analisamos quatro textos sobre drogas encontrados em revistas direcionadas a adolescentes, baseados na Teoria da Análise do Discurso. Procuramos encontrar que ideologias estão embutidas nas entrelinhas desses textos e que efeitos podem causar no leitor, tendo em vista o poder de persuasão da mídia. Os resultados mostram, dentro dos textos, a figura de um jovem carente de informações sobre esse tema e incapaz de formular um julgamento crítico. Relatam-se efeitos assustadores causados pelas drogas, através de um tom assertivo. Encontra-se um caráter moralista, que define a ideologia da prevenção ao uso de drogas. A partir do conhecimento do tipo de informação e de como ela está sendo consumida pelo jovem, os profissionais podem lidar de maneira mais adequada com as questões sobre drogas.
Palavras-chave: adolescência; drogas; ideologia; mídia escrita; Análise do Discurso.

Drugs and adolescence: analysis of the ideology presented in the mass media

Abstract
Nowadays, drug use and abuse is an usual topic of debate. In the media, for example, there are several reports about this theme. We analyzed, based on the Theory of Discourse Analysis, four texts about drugs found in magazines directed to adolescents. We tried to find which ideologies are implied by those texts and which effects they can cause on the reader, considering the media’s power of persuasion. The results showed that teenagers did not have enough information about drugs and were unable to make critical judgements about using them. The texts attempt to show scaring consequences of drug use through an imperative tone. A moralist character that defines the ideology of prevention of drug use was also identified. The knowledge of what kind of information is being made available to adolescents may help professionals to deal better with drug issues.
Key-words: adolescence, drugs, media, Discourse Analsys.


 

 

O uso de drogas na adolescência é uma questão que preocupa cada vez mais os pesquisadores e profissionais da saúde e educação. As pesquisas epidemiológicas mostram que o uso e abuso de drogas aumenta em ritmo acelerado (Carlini, 1990; Carlini & Cotrim, 1994) e que é na adolescência que, em geral, inicia-se o consumo. Ao mesmo tempo, observa-se que o tema das drogas é freqüente na mídia.

Segundo Steinberg (1996), a adolescência é um período de crescimento no qual o indivíduo precisa realizar diversas tarefas para efetuar a passagem da infância à vida adulta. Essas tarefas estão relacionadas a algumas mudanças características deste período. A principal tarefa da adolescência é a busca pela identidade sexual, social e psíquica. A partir das mudanças ocorridas na puberdade, o adolescente desenvolve a necessidade de conhecer seu próprio corpo e de explorar a relação com o corpo do outro, na busca por um comportamento sexual apropriado. Para o autor, a identidade social e psíquica se constitui através dos conflitos entre a necessidade de independência dos pais, por um lado, e a aproximação e dependência do grupo de amigos, por outro. Pais e amigos têm uma grande importância para a formação de um código de valores próprios do adolescente. Esse será constituído a partir da interação social e da escolha de elementos adquiridos na infância, tornando-se parte de sua identidade adulta.

A partir das afirmações supracitadas, podemos afirmar que, por esses conflitos, a adolescência é caracterizada como um período complexo no qual as drogas podem ser usadas, entre outras coisas, como um artifício virtual para catalisar a resolução dessas tarefas. Abadi (1991) afirma que, em função da confusão entre dependência e independência, o uso de drogas pode ser visto como uma forma pela qual o adolescente poderá tentar rebelar-se contra a autoridade representada pela família, pelas leis e pela sociedade. Além disso, as drogas podem ser encaradas pelo adolescente como uma forma de socialização, que lhe permite integrar-se a um grupo e não ser excluído dele.

Nesse processo de crescimento e de constituição subjetiva, o adolescente recebe influências da sociedade. Atualmente, a mídia ocupa um papel dominante na mesma, apresentando modelos ideais influenciados pela ideologia atual. O adolescente poderá encontrar aí referências para o seu desenvolvimento.

Levando em consideração que a mídia constitui uma referência importante na sociedade atual, especialmente para a população adolescente, o objetivo dessa pesquisa é a análise das ideologias presentes na mídia escrita, em relação às drogas, direcionada a adolescentes.

Analisando textos sobre drogas presentes na mídia dirigida a adolescentes, poderemos estudar quais os modelos ideais e ideológicos propostos aos adolescentes como referências para a constituição de seus códigos de valores e de suas identidades. Daí a importância deste estudo para a Psicologia da Adolescência.

Com este propósito, utilizou-se a Teoria de Análise do Discurso. Essa permite não apenas a análise do que está explícito nos textos, mas também do que está implícito.

A análise do discurso relaciona três áreas do conhecimento que são: o materialismo histórico, a lingüística e a teoria do discurso. Segundo Pêcheux (1990), um dos representantes dessa teoria, a análise de discurso baseia-se na "relação entre a análise como descrição e a análise como interpretação" (p. 17).

Em sua dimensão do materialismo histórico, a análise compreende a teoria das ideologias, que afirma que um sujeito é sempre perpassado por uma ideologia. Esta última "...é de natureza inconsciente, no sentido em que a ideologia é constitutivamente inconsciente dela mesma" (Pêcheux & Fuchs, 1993, p.177). O esquecimento desse ponto faz com que o sujeito tenha a impressão de uma liberdade falsa, ou seja, que se acredite livre de qualquer influência na sua ação. A ideologia é, segundo Orlandi (1996), influenciada pela relação entre o indivíduo e a língua e, ainda, ao seu momento histórico.

Nesta pesquisa, a ênfase foi dada na área lingüística da análise, que trata da sintaxe e, principalmente, dos mecanismos de enunciação de um texto, reveladores da ideologia implícita no mesmo. De acordo com a teoria, um texto é constituído de um enunciado, que é a descrição, o que é explícito, e da enunciação, considerada como a interpretação do texto.

Segundo Pêcheux e Fuchs (1993), a enunciação consiste em transpor a fronteira entre o dito e o não-dito, não rejeitando aquilo que está subliminar ao texto.

Existe um artigo, publicado por Bucher e Oliveira (1994), que serviu de inspiração para a presente pesquisa. Os autores utilizam a Análise do Discurso como instrumento para "clarear a trama discursiva que sustenta a idéia do ‘combate as drogas’ e apontar os elementos usados para dirigir a opinião pública..."(p. 140) . Na pesquisa que deu origem ao artigo, os autores analisam alguns textos utilizados para as políticas de prevenção ao uso de drogas e textos publicados na mídia escrita. As conclusões desse estudo destacam a visão repressora, moralista e autoritária do material analisado. Eles afirmam, ainda, que essa visão das drogas "não trata a questão das drogas em si, mas enquanto mito construído, usado para combater uma série de desvios da ordem social vigente" (Bucher & Oliveira, 1994 p. 137).

Entre os efeitos de sentido encontrado pelos pesquisadores destacam-se: as metas persuasivas, o tom autoritário e alarmista que indica um saber único e exclusivo em relação ao tema, as omissões, a apresentação do jovem cidadão como ser indefeso, necessitando de orientação e proteção, as construções discursivas que apresentam as drogas como mal em si e a visão do mundo simplista e maniqueísta.

Na proposta de nossa pesquisa não há o compromisso com o estudo do discurso em relação às drogas. Isso pressuporia dar igual ênfase à dimensão histórica e ao processo lingüístico. Optou-se, aqui, pela análise das marcas enunciativas presentes nos textos. Passaremos a descrever, agora, o método utilizado.

 

Método

O método da presente pesquisa caracteriza-se por ser do tipo qualitativo, tendo como tema central a análise de textos escritos sobre drogas em revistas dirigidas a adolescentes. As revistas são: "Capricho", "Atrevida" e "Mundo Jovem". A primeira foi escolhida pela popularidade que possui entre o público adolescente (especialmente de classe média). A revista "Mundo Jovem" tem a possibilidade de atingir as classes sociais mais variadas por encontrar-se, geralmente, nas escolas públicas e privadas do país.

Para a escolha dos textos, procedeu-se à coleta das matérias sobre drogas presentes nas mencionadas revistas entre os anos de 1990 e 1997. Uma vez reunido o material, foram eliminadas as matérias semelhantes para que a pesquisa pudesse abranger uma maior diversidade de assuntos.

O corpus de análise ficou constituído, então, pelos seguintes textos:

-Texto 1: Revista Mundo Jovem, O início do uso de drogas está relacionado com a independência. Outubro, 1994.

- Texto 2: Revista Mundo Jovem, Drogas revelam o nível de frustrações. Junho, 1990.

- Texto 3: Revista Atrevida, Que Droga! Julho, 1995.

- Texto 4: Revista Capricho, Não é legal usar drogas. Janeiro, 1997.

Análise do material

A análise dos textos selecionados focalizou as marcas ligadas à enunciação. Trabalhou-se, então, na fronteira entre o dito e o não-dito (Orlandi, 1984), entre a superfície verbal e o não-dito. Segundo Pêcheux (1975): "Os processos de enunciação consistem em uma série de determinações sucessivas pelas quais o enunciado se constitui pouco a pouco e têm por característica colocar o ‘dito’ e em conseqüência rejeitar o ‘não-dito’. A enunciação equivale, pois, a colocar fronteiras entre o que é selecionado e tornado preciso aos poucos (através do que se constitui o ‘universo do discurso’), o que é rejeitado" (p.176).

Analisamos, assim, o espaço entre o enunciado (superfície verbal) e a enunciação (não-dito) nos textos sobre drogas selecionados, análise que nos possibilitou o estudo dos efeitos de sentido decorrentes das marcas enunciativas reveladoras da ideologia.

O processo de análise foi constituído de várias leituras dos textos. A primeira leitura foi realizada por cada um dos pesquisadores e permitiu-nos a apropriação do texto e sermos "impregnados" pelo mesmo. Dessa primeira leitura, surgiu um texto escrito de cada um dos pesquisadores contendo diferentes interpretações do texto inicial, no sentido de averiguar alguns dos possíveis efeitos a serem transmitidos aos leitores. Esse texto era estruturado da seguinte forma: cada pesquisador analisava e interpretava de diferentes formas cada parágrafo dos textos, organizando, assim, alguns dos sentidos passíveis de serem transmitidos. Seguiu-se a isso um momento de discussão das leituras realizadas e dos textos produzidos. A partir dessa leitura, realizamos recortes temáticos, que se constituem em uma primeira categorização dos principais elementos presentes nos textos. Os temas dos recortes realizados surgiram dos próprios textos: tom do texto, marcas lingüísticas, como é visto o adolescente, lugar enunciativo atribuído ao adolescente usuário de drogas, lugar enunciativo atribuído à droga, diferenciação entre uso e abuso de drogas, diferenciação entre diferentes tipos de drogas, pressupostos do autor e em nome de quem fala o autor.

Procedeu-se, posteriormente, a uma segunda leitura, focalizada nos recortes temáticos mencionados, seguida de nova discussão entre os pesquisadores. A terceira leitura teve como objetivo principal centralizar as diferentes interpretações dentro dos recortes realizados. Dessa leitura, surgiram as similaridades presentes nos textos.

 

Resultados

Para a apresentação do resultados, os itens citados anteriormente foram reunidos em quatro grupos principais, de acordo com a proximidade dos temas: marcas lingüísticas, que constitui-se dos recortes de "tom do texto" e "marcas lingüísticas", por seu caráter lingüístico; o adolescente, que constitui-se dos recortes "como é visto o adolescente" e "lugar enunciativo atribuído ao adolescente usuário de drogas" por centralizar-se no adolescente; a droga, que constitui-se dos recortes "lugar enunciativo atribuído a droga" e "diferenciação entre uso e abuso de drogas", por centralizar-se na droga; e o autor, que constitui-se dos recortes "pressupostos do autor", e "em nome de quem fala o autor", baseados na forma em que o texto é conduzido pelo mesmo. Estes serão apresentados a seguir.

Marcas lingüísticas 

O tom dos textos analisados tem como característica principal ser assertivo, não oferecendo margem para questionamento sobre o que está sendo transmitido. Alguns exemplos disso são as seguintes frases: "Se a droga eleita for a maconha, esta será a opção de todos os membros da turma" (texto 2), "Tomar um porre ou fumar um baseado, no início, parece só uma brincadeira. Com o tempo, chegam a dependência e as conseqüências" (texto 3) (As palavras foram grifadas pelos autores). O tom assertivo pode produzir como efeito a colocação do leitor numa situação de passividade, restando-lhe "digerir" a opinião ou certeza do autor, não havendo lugar para realizar outro tipo de intervenções ou, por exemplo, duvidar que a maconha "será", sem escapatória, a opção de todos os membros (exemplo 1).

O tom assertivo liga-se à utilização de palavras assustadoras, podendo impressionar o leitor, como por exemplo em: "Drogas revelam o nível de frustrações"(texto 2), "Se a pessoa não for socorrida a tempo, a conseqüência é só uma: morte" (texto 3) (As palavras foram grifadas pelos autores).

Existem, em todos os textos analisados, parágrafos introdutórios destacados entre o título e a matéria. Esses induzem a uma interpretação prévia do texto que seguirá. Por exemplo: "Veja nos depoimentos que seguem a decepção e a frustração daqueles que mergulharam no mundo da droga. A seguir, José Hess, psicólogo e membro do Instituto de Pastoral da Juventude, mostra ângulos diferentes do problema drogas, normalmente atribuído somente aos jovens."(texto 2)

As palavras "decepção" e "frustração" influenciam a leitura, já que estão permeadas pela opinião do autor que, supostamente, é o detentor do conhecimento sobre o assunto.

Um recurso gráfico bastante utilizado é a publicação de quadros, destacados do resto do texto, que oferecem atrativos como cores e letras diferentes. Esses quadros normalmente apresentam depoimentos de usuários de drogas, entrevistas, informações alarmistas ou conselhos dos autores partindo de suas opiniões pessoais, como por exemplo: "Se você anda com uma turma ou arrumou um namorado que usa drogas, não é por isso que deve entrar nessa onda só para se enturmar ou para agradar ao garoto. (...) A gente pode apostar que existe uma moçada maravilhosa bem perto de você, ‘viciada’ em curtir a vida de cara limpa. Numa ótima."(texto 3).

O uso de títulos de profissionais como "psicólogo" e "psiquiatra"(texto 2), ou locais como "Escola Paulista de Medicina"(texto 3), aproveita-se do status que um profissional da saúde tem na nossa sociedade a fim de firmar uma base sólida para a informação que está sendo transmitida, reforçando a inquestionabilidade da informação. Além disso, por serem profissionais que lidam com a saúde, outra interpretação dada pelos adolescentes poderia ser a conexão entre o uso da droga com doença ou, até mesmo, loucura.

A utilização da polissemia, isto é, utilização de palavras, expressões e frases que tenham mais de um sentido, foi outra marca encontrada freqüentemente como em: "Não é legal usar drogas"(texto 4), oferecendo uma ambigüidade no termo "legal": questão jurídica de ilegalidade e/ou termo coloquial usado pelo jovem que significa algo que não é bom, incorreto. "É verdade: a atração pode ser fatal."(texto 3), o termo "fatal", na frase, tem o significado de irresistível, mas também remete o leitor à relação entre as drogas e a morte.

O uso de pontuação para destacar idéias no texto. "Como um bando de ‘diferentes’ todos iguais entre si!" (texto 1), "Fuja delas!"(texto 3). Isso pode causar uma ênfase na entonação da leitura, causando um impacto maior sobre o leitor, o que demonstra o tom alarmista do texto.

A utilização de frases curtas e de efeito, principalmente ameaçadoras, podem ter o objetivo de alertar o leitor contra os perigos da droga, por exemplo "(O crack) É uma droga perigosíssima. Fique o mais longe possível" (texto 3).

Outra característica encontrada com freqüência nos textos analisados é a presença de omissão dos efeitos prazerosos do uso de drogas, com a finalidade de não incentivar o adolescente ao consumo, limitando, assim, a informação transmitida. Segundo Bucher e Oliveira (1994), "... os silenciamentos, utilizados seja para omitir deliberadamente algo, seja para falar superficialmente de um fato que poderia enfraquecer a argumentação" (p. 142).

Nos textos analisados, sobressaem-se algumas contradições. Por exemplo, no mesmo texto aparecem as seguintes frases: "... o álcool, a cocaína e a maconha podem deixar, por alguns momentos, a pessoa mais desinibida, mais falante e sentindo-se capaz de vencer a timidez, a insegurança e esquecer os problemas". Mais adiante "Mais uma vez, lembramos a você: não caia nessa história de que droga ajuda a ficar mais alegre ou vencer a timidez. Não é verdade". (texto 3)

O adolescente

Os limites de início e término da adolescência são definidos cronologicamente e variam entre os textos. "Cerca de 5% dos jovens brasileiros de 9 a 18 anos..." (texto 3), "É justamente nesse período (14 aos 17 anos)..." (texto 1).

O adolescente é visto com um indivíduo carente de informações, percebe-se uma "apresentação do cidadão, em particular jovem, como ser indefeso, necessitando de orientação e proteção" (Bucher & Oliveira, 1994, p. 142). Por exemplo: "É isso que você não pode esquecer de ter sempre na cabeça" (texto 4). Enfatiza-se, dessa forma, o autor como detentor do conhecimento enquanto o adolescente como aquele que precisa desse conhecimento e não o possui. Isso contribui para a não-construção de um pensamento crítico em relação ao texto, já que o leitor não possui subsídios para tanto.

O jovem é, geralmente, colocado numa situação de passividade em relação à sua realidade social. Ele é um sujeito que não age sobre sua realidade. O sujeito (adolescente) está submetido à turma e os membros desta estão submetidos ao poder das drogas, sem ter vontade nem opinião próprias, sendo impelido pela droga a tomar suas decisões. Por exemplo, "Se no grupo pintar uma roda de ‘fuminho’, ele resiste no começo, mas muitos depois experimentam" (texto 2), "(A droga) faz a pessoa se colocar em situações de risco, ao dirigir louca, por exemplo" (texto 4). Essa passividade remete-se à posição hierarquicamente superior do autor do texto, que tem o "dever moral" de informar e guiar o adolescente desinformado.

A droga

Paralelo a essa passividade do adolescente, as drogas são vistas como substâncias que agem sobre o indivíduo e sobre suas ações. O uso da droga faz com que o adolescente não tenha controle sobre os seus atos, sendo totalmente manipulado pela sua ação como afirma em: "Aí começam as conseqüências imediatas do álcool: dirigir embriagado ou sair de carro para tirar racha, por exemplo, sem muita consciência do perigo."(texto 3)

As drogas são colocadas como sendo um mundo à parte, particular, no qual as pessoas "mergulham" (texto 2): "Vivi 5 anos na droga" (texto 2). Com isso, afirma-se que os usuários vivem em outro mundo, ilícito, perigoso e obnubilado, o qual deve ser temido e evitado pelos adolescentes.

Não se faz quase nenhuma diferenciação entre uso e abuso de drogas, percebendo-se palavras como usuário, dependente, viciado, experimentador e drogado sendo utilizadas aleatoriamente no decorrer dos textos.

Destaca-se, nos textos, a certeza de uma escalada qualitativa do uso de drogas: "Comecei com a maconha, em pouco tempo já não tinha mais onde me aplicar" (texto 2). Além da evolução, esse exemplo demonstra a omissão do autor em relação à informação de que maconha não se aplica, jogando novamente com o equívoco para afirmar a escalada das drogas. Dessa maneira, pode-se produzir o efeito de impressionar de forma assustadora o adolescente, que não dispõe da informação correta.

Na diferenciação entre drogas lícitas e ilícitas, encontramos uma característica de preocupação em relação ao uso do álcool, considerado droga, enquanto o cigarro e outros produtos aceitos legalmente como remédios calmantes ou de emagrecimento são citados apenas como substâncias nocivas à saúde, mas não caracterizadas como droga. As drogas são usualmente relacionadas com ilegalidade mas, ao contrário do que foi concluído por Bucher e Oliveira (1994), é possível, nos textos analisados, encontrar o álcool pertencendo à categoria das drogas.

O autor

O autor ocupa uma posição de porta-voz da ciência, da moral e dos valores socialmente aceitos, colocando-se, muitas vezes, em uma situação de onipotência. Apresenta ele uma visão maniqueísta, definindo nos textos o que é moralmente certo ou errado. Para isso, utiliza-se do tom assertivo e paternalista. Vê-se essa característica, por exemplo, em: "Por que você deve dizer não!" (texto 3). Segundo Bucher e Oliveira (1994), "Tais enunciados ensinam e ordenam com tamanha convicção que não resta ao leitor senão acatar e submeter-se à força da argumentação construída no texto".

 

Conclusão

A partir dos resultados da pesquisa, concluímos que o adolescente (leitor), é visto em uma posição de fragilidade. A sua capacidade de julgamento moral e o seu espírito crítico são ignorados, recebendo uma informação deturpada e já definida como certa. Dessa forma, e através de recursos lingüísticos, os autores colocam-se como detentores do dever de informar e, principalmente, orientar esse adolescente.

Todos os resultados apontam para uma ideologia de "combate as drogas" (conforme Bucher & Oliveira, 1994) partindo da prevenção. Quando, por exemplo, os efeitos prazerosos são ocultados, ou quando palavras trágicas são relacionadas ao uso de drogas, essa ideologia faz-se presente.

De acordo com a Teoria da Análise do Discurso, o conteúdo ideológico tem um caráter inconsciente, donde podemos concluir que, ao escrever uma reportagem, o próprio autor está sendo influenciado, sem perceber, pela ideologia vigente. Da mesma forma, essa ideologia é transmitida e consumida pelos leitores de modo inconsciente.

É importante para os profissionais que lidam com adolescentes saber que tipo de informação é consumida e como ela é transmitida, com o intuito de esclarecer e de interagir de forma adequada com o jovem, tendo em vista o conhecimento adquirido por ele.

 

Referências

Abadi, S. (1991). Adolescencia y droga: un síntoma en la cultura. La Psychanalyse dans la Civilization, 4, 603-613.         [ Links ]

Bucher, R. & Oliveira, S. R. M. (1994). O discurso do "combate às drogas" e suas ideologias. Revista Saúde Pública, 28 (2), 137-145.         [ Links ]

Carlini, E. A., (1990). Sugestões para programas de prevenção ao abuso de drogas no Brasil. São Paulo: CEBRID/ Escola Paulista de Medicina.         [ Links ]

Carlini, E. A., & Cotrim, B. C. (1994). Perfil epidemiológico do usuário de substâncias psicoativas em escolas estaduais de Porto Alegre/1992. Porto Alegre: Relatório não publicado.         [ Links ]

Orlandi, E. P. (1988). A incompletude do sujeito. Em E. Orlandi, E. Guimarães, J. J. Courtine, C. Haroche, & S. T.M.Lane. Sujeito e Texto (pp. 9-16). São Paulo: EDUC.         [ Links ]

Orlandi, E. P. (1996). A interpretação. Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Pêcheux, M. (1990). O discurso: estrutura ou acontecimento. Campinas: Pontes.         [ Links ]

Pêcheux, M., & Fuchs, C. (1993). A propósito da análise automática do discurso: atualização e perspectivas (1975). Em F. Gadet, & T. Hak (Orgs.), Por uma análise automática do discurso (pp. 163-187).Campinas: Editora da UNICAMP.         [ Links ]

Steinberg, L. (1996). Adolescence. New York: McGraw-Hill, Inc.         [ Links ]

 

 

Recebido em 22.08.97
Revisado em 06.03.98
Aceito em 04.09.98

 

 

1 Alunos de Psicologia, do Instituto de Psicologia da UFRGS, orientados pela Professora Sandra. D. Torossian, Doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento pela UFRGS.
2 Endereço para correspondência: Travessa Cauduro, 66/601. Bairro Bom Fim. CEP 90035-110. Porto Alegre, Rio Grande do Sul.