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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.3 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000300004 

A experiência de assumir a gestação na adolescência: um estudo fenomenológico

Mayte Raya Amazarray
Paula Sandrine Machado
Viviane Ziebell de Oliveira
William Barbosa Gomes1
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


Resumo
Esta pesquisa propõe-se a descrever a experiência de ser mãe adolescente vivida por jovens que participaram de um programa de assistência pré-natal. Foram obtidos, por uma entrevista semi-estruturada, depoimentos de seis adolescentes, com idades entre 17 e 20 anos, cuja vivência da maternidade se dava há mais de um ano. Os dados foram analisados através da descrição, redução e interpretação fenomenológicas, revelando dez categorias temáticas: o engravidar, o impacto da gravidez, a gestação e o parto, participação em um pré-natal para adolescentes, o ser gestante versus o ser adolescente, a auto-imagem, o grupo de interação mãe-bebê para adolescentes, a adolescente e suas relações, o bebê em relação e a maternidade. Para as informantes, a orientação de uma equipe multidisciplinar, a oportunidade de esclarecer dúvidas e o convívio com outras adolescentes grávidas foram fundamentais ao desenvolvimento da gravidez e do parto sem complicações orgânicas, bem como ao estabelecimento da identidade materna.
Palavras-chave: gravidez na adolescência; pré-natal; gestação; maternidade; adolescente.

The experience of assuming pregnancy during adolescence: a phenomenological study

Abstract
The objective of the present study was to describe the experience of being a teenage mother. Six teenage mothers, 17 to 20 years old, answered a semi-structured interview. They had all taken part of a pre-birth assistance program as well as experienced motherhood for more than one year. The data were analyzed in accordance with the phenomenological description, reduction and interpretation, which showed ten theme categories: being pregnant, impact of pregnancy, pregnancy and childbirth, taking part in a pre-birth program for teenagers, being pregnant versus being a teenager, self-image, attachment group for teenagers, teenage and its relationships, relation with the baby and motherhood. Subjects considered that having an opportunity to socialize with other pregnant teenagers, to find answers to their questions, and to have support from a multidisciplinary team was important to avoid problems during pregnancy and childbirth, as well as for establishing maternal identity.
Key words: teenage pregnancy, pre-birth, pregnancy, motherhood, teenager.


 

 

Entende-se por gravidez na adolescência aquela que ocorre durante os dois primeiros anos ginecológicos da mulher (a idade ginecológica zero é a idade da menarca) e/ou quando a adolescente mantém total dependência social e econômica da família (Romero, Maddaleno, Silber, & Munist, 1991). No Brasil, assim como no mundo inteiro, há um aumento da incidência da gravidez na adolescência, tendendo a incrementos maiores nas idades maternas mais baixas (Mûelenaere Correa & Coates, 1993). No entanto, Steinberg (1996) salienta que, embora o número de adolescentes grávidas tenha aumentado, a taxa de gravidez na adolescência permaneceu praticamente a mesma. Atualmente, apenas uma minoria de adolescentes está casada quando a criança é concebida, enquanto que antigamente a gravidez na adolescência acontecia no contexto do casamento.

As razões pelas quais as adolescentes engravidam cada vez mais e em idade mais precoce são múltiplas. Como salientado por Bee (1996), a irregularidade inicial, tanto da ovulação quanto do timing dos ciclos menstruais, tem conseqüências práticas significativas para as adolescentes sexualmente ativas. Essa irregularidade contribui para a difundida suposição entre as meninas que estão entrando na adolescência de que elas não podem engravidar porque são jovens demais.

Ao mesmo tempo, a irregularidade torna pouco confiável qualquer método contraceptivo baseado no ritmo (Bee, 1996; Neinsten, Rabinovitz & Schneir, 1991; Romero, Maddaleno, Silber, & Munist, 1991). De acordo com esses autores, o tempo entre a puberdade e a independência econômica tem crescido, aumentando a exposição da população juvenil ao intercurso genital antes do casamento, o que não é acompanhado de um incremento proporcional de contracepção adequada.

Segundo Romero e cols. (1991) e Neinstein e cols. (1991), entre os motivos mencionados pelas adolescentes sobre a falta do uso de métodos contraceptivos, está a pouca informação a respeito da contracepção e da reprodução, bem como sobre o uso correto dos métodos anticonceptivos. Além disso, em muitos casos existe dificuldade de dialogar com o parceiro sexual sobre contracepção. De acordo com Bee (1996), o momento de maior risco de gravidez é aproximadamente o primeiro ano depois do início da atividade sexual, período durante o qual é menos provável que as adolescentes busquem informações contraceptivas.

Em geral, adolescentes provenientes de famílias disfuncionais, pobres, de pouca instrução e cujas mães tiveram precocemente seu primeiro filho, correm um risco maior de engravidar. Ainda, famílias com história de violência, abuso de drogas e doença crônica de um dos pais podem predispor as adolescentes a uma relação sexual prematura. Aquelas meninas que possuem baixa auto-estima, baixo rendimento escolar e falta de aspirações profissionais também constituem um grupo de risco (Neinstein e cols., 1991; Romero e cols., 1991).

Romero e cols. (1991) afirma que a gravidez na adolescência é uma crise que se sobrepõe à crise da adolescência. Para a adolescente, o evento da gravidez pode estar relacionado com uma tentativa de enfrentar qualquer uma de suas tarefas evolutivas (Lewis & Volkmar, 1993). Segundo estes autores, em muitos casos existe um desejo inconsciente, ou mesmo consciente, de engravidar. De acordo com Neinstein e cols. (1991), o desejo de ter um bebê pode estar ligado a determinados fatores como: provar a fertilidade, solidificar o relacionamento com o parceiro, ter alguém para amar e cuidar, mudar o status na família para adquirir independência, demonstrar uma atitude rebelde contra a família ou libertar-se de um ambiente familiar abusivo.

Mûelenaere Correa e Coates (1993) consideram a gravidez na adolescência como de alto risco, visto que pode desencadear inúmeras complicações tanto orgânicas como psicossociais. Entretanto, Stevens-Simon e McAnarney (1992) salientam que os riscos associados a esse fenômeno não são resultado das condições fisiológicas e psicossociais intrínsecas à adolescência, mas estão ligados a fatores sociodemográficos (pobreza, educação deficiente, status de solteira e cuidado pré-natal inadequado) que aumentam os riscos da gravidez e maternidade em qualquer idade.

As adolescentes que assumem sua gravidez devem ser imediatamente encaminhadas a um programa de assistência pré-natal (Mûelenaere Correa & Coates, 1993; Romero e cols., 1991; Stevens-Simon & McAnarney, 1992). Programas abrangentes da maternidade na adolescência, com orientação multidisciplinar, envolvendo as necessidades nutricionais, psicossociais e educacionais das mães adolescentes parecem reduzir os riscos associados à maternidade precoce (Stevens-Simon & McAnarney, 1992). Além disso, esse tipo de programa deve focalizar a adolescente como um todo, de forma a atender também suas necessidades desenvolvimentais (McAnarney & Greydanus, 1989).

Dessa forma, a presente pesquisa teve o objetivo de descrever a experiência de ser mãe adolescente vivida por jovens que assumiram a gestação e participaram de um programa de assistência pré-natal sob orientação de uma equipe multidisciplinar.

A assistência pré-natal acontece através das consultas médicas e de enfermagem de rotina, bem como através do acompanhamento psicológico, quando necessário, e da participação nos grupos de preparo ao parto no último trimestre da gestação. Estes são grupos coordenados por uma psicóloga, uma enfermeira obstétrica e uma enfermeira de puericultura. Além disso, o médico e a nutricionista participam de encontros específicos. Os objetivos são orientação e apoio psicológico.

Depois do nascimento do bebê, a dupla é trabalhada em grupo, semanalmente, sob a mesma coordenação do programa anterior. Os objetivos são trabalhar o vínculo mãe-bebê e fornecer informações sobre os cuidados com o bebê e sobre o seu desenvolvimento.

 

Método

Foram informantes da pesquisa seis adolescentes do sexo feminino (uma com 17 anos, uma com 18 anos, duas com 19 anos, duas com 20 anos), de nível socio-econômico médio-baixo da cidade de Porto Alegre. Denominaremos as informantes de S1, S2, S3, S4, S5 e S6 quando nos referirmos a elas no relatório dos resultados. Além disso, quando nos referirmos à fala das informantes, haverá um número indicando o trecho da entrevista citado. No momento da concepção, uma das jovens possuía 15 anos, outra 16 anos e as quatro restantes, 18 anos. A experiência da maternidade das entrevistadas vinha se dando há mais de um ano. Essas jovens participaram de um programa de assistência pré-natal direcionado a adolescentes, desenvolvido por um hospital da capital. Três informantes também participaram de um programa para adolescentes destinado à interação mãe-bebê, realizado no mesmo local.

Foi utilizada uma entrevista semi-estruturada com roteiro pré-definido, mas de seqüência flexível. Este tipo de entrevista permite ao entrevistador explorar os temas que lhe parecem pertinentes ao assunto investigado, no momento em que considerar propício. A entrevista abordou a assistência pré-natal, o parto, a interação mãe-bebê, pai-bebê, avós-bebê, relação adolescente-companheiro e adolescente-pais. Os depoimentos foram registrados em audiotape, posteriormente transcritos e analisados seguindo os passos de descrição, redução e interpretação fenomenológicas. As entrevistadas assinaram um termo de compromisso, garantindo o sigilo das informações fornecidas.

Esta pesquisa foi orientada por uma abordagem fenomenológica (Forghieri, 1993; Gomes, 1997), onde a experiência consciente é estudada através de uma sucessão progressiva de análises e sínteses, realizadas em três etapas sinérgicas entre si: descrição, redução e interpretação fenomenológicas.

O primeiro passo consistiu em descrever na separação das partes do todo e na marcação das unidades de sentido no texto original (descrição). No segundo passo, foram determinadas as partes essenciais da descrição com o objetivo de isolar o objeto da consciência que constitui a experiência. Esse recurso teve o objetivo de alcançarmos o fenômeno como tal, o que implica uma visão de sua essência (redução). No terceiro e último passo buscou-se especificar o significado do que se determinou como essencial na descrição e na redução da experiência consciente que foi investigada (interpretação).

 

Resultados

Uma maneira de clarificar a experiência de nossas entrevistadas é procurando elucidar o que os acontecimentos significaram para elas. Ao responder a essa questão, descobre-se que a experiência consciente tem uma certa estrutura. Os resultados a seguir serão apresentados através do que denominaremos padrão, uma variante singular de nossa compreensão daquilo em que consiste o fato de ser mãe adolescente (Keen, 1979).

Através da redução fenomenológica, foram encontradas dez categorias temáticas em relação à mãe adolescente: O engravidar, Impacto da gravidez, A gestação e o parto, Participação em um pré-natal para adolescentes, O ser gestante versus o ser adolescente, A auto-imagem, O grupo de interação mãe-bebê para adolescentes, A adolescente e suas relações, O bebê em relação e A maternidade: percebendo o seu "ser no mundo".

O engravidar: esta categoria abrange aspectos relacionados à forma como as adolescentes engravidaram. O padrão encontrado entre as entrevistadas foi a falta de planejamento da gravidez, embora em um dos casos a mesma tenha sido programada. Apesar de estarem conscientes do risco de engravidar e de conhecerem os métodos anticonceptivos, as informantes ou utilizavam-nos incorretamente ou o faziam de forma pouco freqüente.

Além disso, não imaginavam que a gravidez ocorreria naquele momento de suas vidas: "Eu pensava que nunca ia acontecer isso comigo, era o que a gente pensava, o que a gente comentava: Não vai acontecer comigo agora." (S1:133). O diagnóstico da gravidez foi realizado comumente de maneira tardia, ou seja, a partir dos três meses de gestação.

Impacto da gravidez: trata da experiência particular vivida por cada uma das entrevistadas, assim como por seus familiares e companheiros, ao receber a notícia da gravidez. O padrão encontrado foi uma reação adversa ao fato de haver engravidado: "Ah, foi um baque (...) Foi acho que uma semana inteira sem parar de chorar" (S2:64). Eram comuns sentimentos de conformidade, surpresa, perplexidade, arrependimento e desespero, sendo que em alguns casos a idéia de abortar foi considerada. Não foi encontrado um padrão no que diz respeito ao impacto da notícia na família e nos companheiros das entrevistadas, havendo desde reações de apoio até reações de desaprovação.

A gestação e o parto: através dessa categoria foi possível verificar que nenhuma das entrevistadas apresentou complicações orgânicas nesse período. Quanto ao bem-estar psicológico, cada entrevistada experienciou sentimentos particulares, como medo, calma, ansiedade, insegurança e desespero. Foi comumente relatada uma incapacidade de se perceberem futuras mães até o momento em que sentiram o feto se mexendo e viam suas barrigas crescer: "(...) ela não tá se mexendo, até parece que não tem nada. Então, é um ser abstrato que tu tá tentando amar e é difícil." (S2:68). 

Participação em um Pré-Natal para adolescentes: diz respeito à experiência de haver freqüentado um programa desse gênero. A inserção nesse grupo de assistência se deu em diferentes estágios da gestação, ou seja, no primeiro, no segundo e no terceiro trimestre. Normalmente a participação no Programa de Assitência Pré-Natal foi considerada uma experiência boa, interessante e válida, especialmente no que se refere ao esclarecimento de dúvidas e por proporcionar uma conscientização da condição de mãe, assim como um maior amadurecimento pessoal. "Eles falam um monte de coisa pra gente, porque adolescente mesmo não sabe." (S1:3); "(...) lá me esclareceram um monte de dúvidas". (S3:1).

O ser gestante versus o ser adolescente: trata da percepção que as entrevistadas têm da sua situação de gestantes em um período peculiar do desenvolvimento psicológico: a adolescência. O padrão encontrado foram alterações no curso de vida das adolescentes: "Normalmente, né, na adolescência não vale a pena, mesmo porque, ah é aquela vida, né. Logo no início assim, querendo ou não atrapalha alguma coisa." (S3:81). As entrevistadas relataram dificuldades para freqüentar a escola, conseguir bons empregos e manter as mesmas atividades sociais, já que normalmente dedicaram-se exclusivamente à gravidez. O mais comum era o arrependimento de haver engravidado nessa etapa, ou, como observado em um dos casos, o surgimento de sentimentos ambivalentes. A gestação representou um fator de amadurecimento em suas vidas.

A auto-imagem: refere-se à percepção das entrevistadas quanto a suas mudanças corporais decorrentes da gravidez. Foram relatados sentimentos ambivalentes: ao mesmo tempo a entrevistada se percebia como um monstro e adorava a sua barriga, oscilando entre sentimentos de desprezo e de orgulho em relação a seu corpo. Entretanto, o padrão foi que as informantes se percebessem gordas e feias, como ilustrado a seguir: "Tu já tá gorda, né, feia, horrorosa que a gente fica, não é mais a mesma coisa de antes. Não pode nem usar as mesmas roupas, sapatos que tu usava antes." (S6:120).

O grupo de interação mãe-bebê para adolescentes: relata a participação de três entrevistadas em um programa desse tipo. O padrão encontrado entre elas foi a percepção de que essa experiência foi muito proveitosa, já que ensinou a ser uma mãe adolescente. "O interação mãe-bebê que era legal.(...) Mais era pra conversar e tirar as nossas dúvidas depois que o bebê já está na vida. Era mais uma escola." (S1:114). Houve um consenso com relação à importância da integração dos filhos com outras crianças para o desenvolvimento dos mesmos.

A adolescente e suas relações: aborda as relações que a entrevistada estabelece com o pai da criança e com a sua família desde o período da gravidez até os dias de hoje. O padrão encontrado foi o abandono das entrevistadas pelos pais de seus filhos, embora algumas delas tenham sido apoiadas pelos mesmos. Em relação aos familiares, verifica-se um apoio material e no que se refere aos cuidados do bebê.

O bebê em relação: abrange as relações que a família da entrevistada e o pai da criança estabelecem com a mesma. O padrão encontrado foi que tanto os pais das crianças como os familiares das entrevistadas têm grande afeição pelos bebês. Muitas vezes a avó assumiu o papel de verdadeira mãe, como pode ser observado a seguir: "O F. tem um monte de mães, né, eu...sou mais uma só." (S3:101).

A maternidade: percebendo o seu "ser no mundo": essa categoria trata de como vem sendo a experiência de ser mãe. O padrão encontrado mostra que a maternidade vem sendo algo muito positivo e fez com que as entrevistadas amadurecessem. Além disso, elas relatam que assumir e cuidar de seus filhos vem sendo a vivência mais importante pela qual já passaram, inclusive amenizando sentimentos de arrependimento de haver engravidado na adolescência. Houve casos em que foi dito: "Agora eu quero seguir o mesmo caminho da minha mãe como mãe. Ser bastante atenciosa e cuidadosa." (S5: 116).

O padrão revela ainda, que as entrevistadas preferem cuidar do bebê, até mesmo porque consideram difícil ficar longe do mesmo: "Nem dormir eu consigo longe dele (...) Antes eu dormia com o ursinho, daí eu botei o F. no lugar do ursinho." (S3: 113,114). Entretanto, confessam que é difícil conciliar a maternidade com a procura de trabalho ou os estudos. Mesmo assim, estudar e ter um bom emprego é algo presente em seus planos, bem como a aquisição de uma casa própria a fim de criar seus filhos sozinhas.

 

Discussão

Escolhemos para o nosso estudo adolescentes que assumiram a gestação e que vivenciam a maternidade há mais de um ano com o objetivo de conhecer suas elaborações racionais a respeito dessa experiência. Na medida em que as entrevistadas racionalizavam, recordavam seu passado, refletiam sobre o que havia acontecido, assim como faziam previsões sobre o futuro (Forghieri, 1993). Essa reflexão, contudo, só se faz possível quando o fator tempo atua na existência, o que justificou a escolha de nossas informantes.

Como foi apontado pelo Comitê sobre Adolescência do Grupo para o Adiantamento da Psiquiatria (EUA, 1968), quando o jovem torna-se biologicamente preparado para iniciar-se sexualmente começa a pensar sobre isso e, com o tempo, passa a desejar o coito. Contudo, falta-lhe maturidade suficiente para compreender fatores como a possibilidade de gravidez, o que isso significa e suas implicações para o futuro (McAnarney & Greydanus, 1989), como pode ser observado em nossos resultados. As entrevistadas não planejaram a gestação, apesar de revelarem ter consciência dos riscos de uma atividade sexual sem cuidados adequados.

As informantes imaginavam que ficar grávida era algo que não aconteceria com elas e por isso não realizavam anticoncepção, apesar de conhecerem os métodos. Pode-se pensar essa questão através do conceito temporalizar, apontado por Forghieri (1993). Sob este enfoque, as entrevistadas não transcenderam, ou seja, não foram capazes de antecipar as conseqüências de suas ações imediatas.

Ainda sob a perspectiva da Psicologia do Desenvolvimento, uma das principais tarefas da adolescência diz respeito às mudanças cognitivas que culminam em habilidades intelectuais mais complexas. Comparados com as crianças, os adolescentes são mais capazes de pensar sobre situações hipotéticas e conceitos abstratos, o que lhes garante a possibilidade de planejar o futuro (Steinberg, 1996). Há uma tendência a acreditar que as adolescentes que engravidam sem haver planejado ainda estariam em fase de resolução dessa tarefa. Devido a isso, as informantes não teriam sido plenamente capazes de antecipar as conseqüências de seus atos.

Segundo Steinberg (1996), a intimidade e a sexualidade são duas características que se estabelecem no desenvolvimento psicossocial do adolescente. Portanto, pode-se pensar que as adolescentes entrevistadas engravidaram com o intuito de desenvolver uma intimidade e uma sexualidade adultas com seu parceiro. Entretanto, uma vez que isso não foi planejado juntamente com eles, essa tentativa não proporcionou o que era esperado, já que o padrão encontrado foi o abandono pelos companheiros. Novamente, essa reação reflete o quanto essas jovens não conseguiram antever os fatos imprevisíveis, que interferiram na realização de seus projetos, chegando até a impedi-los completamente (Forghieri, 1993).

O diagnóstico da gestação das entrevistadas foi tardio, após os três meses. Como foi salientado por Stevens-Simon e McAnarney (1992), muitas jovens negam que mantêm uma vida sexual ativa, assim como suas irregularidades menstruais, dirigindo-se ao médico com o pretexto de uma simples consulta. Na verdade, isso indica que elas não estariam tendo coragem para viver a própria existência, já que não enfrentaram a insegurança dos imprevistos (Tillich, 1972, citado por Forghieri, 1993).

Em geral, a reação à notícia da gravidez foi adversa. As adolescentes entrevistadas relataram atitudes frente à gravidez as quais condizem com o que foi descrito por Romero e e cols. (1991): sentimentos de perplexidade, surpresa e arrependimento. Também foram relatadas reações de conformidade e de adaptação, já que a gravidez não foi uma escolha para essas jovens. Na liberdade de escolha está contida a questão da verdade, e nesse caso, a verdade significa a adequação do conhecimento de estar grávida a essa realidade (Forghieri, 1993). Por outro lado, as reações dos namorados e da família foram as mais diversas, como já foi apontado na categoria temática "Impacto da gravidez".

Foram relatados sentimentos ambivalentes tanto em relação à auto-imagem e identidade materna como no que diz respeito ao parto. Segundo Forghieri (1993), "A própria existência de opostos é que nos dá o verdadeiro significado de cada um dos pólos." (p.52). É por isso que a alegria de ser mãe, sentindo o bebê se mexer dentro da barriga que crescia, só adquiriu o seu verdadeiro sentido depois de haver vivenciado a tristeza de se perceber gorda e feia como gestante. Da mesma forma, o sentimento de calma frente ao parto aconteceu somente depois de haver conhecido os sentimentos de medo, ansiedade e insegurança em relação ao mesmo.

A participação em um programa de assistência pré-natal para adolescentes fez com que as informantes entendessem sua nova condição de ser mãe, que surgiu na convivência com suas semelhantes. Através deste convívio, as entrevistadas e as outras adolescentes do grupo foram capazes de se compreenderem mutuamente. Assim, envolvendo-se com as situações de sofrimento, as entrevistadas puderam aceitá-las e compreendê-las, adequando-se à nova realidade (Forghieri, 1993). Acrescenta-se a isso, o fato de terem recebido uma orientação multidisciplinar voltada à condição de gestante adolescente, o que favoreceu a reflexão sobre essa experiência e o amadurecimento frente a sua existência.

 

Conclusão

As adolescentes entrevistadas optaram por assumir a maternidade. No entanto, essa escolha alterou o curso de suas vidas, acarretando dificuldades no que se refere aos aspectos escolar, profissional, afetivo e social. Portanto, o fato de haver levado a gravidez a termo não foi suficiente para que essas jovens alcançassem o status de adulta em todos os aspectos do desenvolvimento.

No que diz respeito à resolução da crise de identidade, as informantes parecem ter alcançado uma maior estabilidade nos aspectos referentes à auto-estima e ao autoconceito. Entretanto, segundo o padrão encontrado, conclui-se que algumas atitudes das entrevistadas não condizem com o papel que acreditam estar exercendo, sugerindo que o senso de identidade das mesmas ainda está em fase de resolução. Por exemplo, de acordo com o padrão encontrado, as adolescentes acreditam estar desempenhando um papel materno completo e maduro, ao passo que continuam mantendo as mesmas relações de dependência estabelecidas com seus familiares.

Embora a decisão de assumir a gestação e a maternidade represente um comportamento autônomo, as informantes ainda mantêm certa dependência em relação à família e/ou ao companheiro. Isso se reflete pelo fato de que os estudos foram postergados ou não foram concluídos, bem como pelo fato de que a preocupação e o planejamento da vida profissional é algo recente e ainda distante.

Além disso, mesmo que os relacionamentos das entrevistadas com os pais de seus filhos representassem um potencial para o desenvolvimento da intimidade, o padrão encontrado revelou descaso ou até mesmo desconhecimento por parte de seus namorados. Dessa forma, pode-se pensar que não foram estabelecidas relações de confiança, as quais envolveriam diálogo e respeito mútuo. Assim sendo, conclui-se que o padrão encontrado não se caracteriza por relações de intimidade plena.

Quanto à participação em um programa de assistência pré-natal voltado para adolescentes, essa experiência foi muito proveitosa para as entrevistadas, visto que possibilitou o esclarecimento de dúvidas e a conscientização do novo papel de mãe. Dessa forma, além de haver favorecido a reflexão sobre a experiência de ser mãe adolescente, esse processo proporcionou um amadurecimento no plano pessoal.

 

Referências

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Recebido em 05.08.97
Revisado em 16.01.98
Aceito em 18.06.98

 

 

1 Endereço para correspondência: William B. Gomes, Instituto de Psicologia, UFRGS, Ramiro Barcelos 2600, Sala 119 - Porto Alegre, RS, 90035-003. E-mail: gomesw@vortex.ufrgs.br .