SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.11 issue3Intergernerational links: the old, the young and powerComparative study between the process of writing acquisition in children and adults author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.11 n.3 Porto Alegre  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721998000300012 

Sogra-nora: como é a relação entre estas duas mulheres?

Giuliana Chiapin1
Greicy Boness de Araújo1
Adriana Wagner2
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

 


Resumo
Devido à importância do relacionamento e ao estereótipo social sobre a "sogra", este estudo descreve a relação sogra-nora, nos seus aspectos favorecedores e dificultadores, segundo a ótica das noras. A amostra foi composta de 10 noras, com idade entre 27 e 44 anos, casadas no mínimo há 4 anos, com sogras vivas. Utilizou-se uma entrevista semi-estruturada com três eixos temáticos: relação sogra-nora, aspectos favorecedores e aspectos dificultadores do relacionamento. Analisou-se o conteúdo das respostas, elaborando-se categorias por temas afins. Fez-se uma análise quantitativa/descritiva com freqüências e porcentagens das respostas. Verificou-se que com maior freqüência de respostas as noras referem ter um relacionamento "negativo/ruim/distante" com suas sogras. Também existiram mais aspectos dificultadores do que favorecedores. As noras atribuíram às sogras a culpa pelo relacionamento não satisfatório. Quanto aos aspectos dificultadores, destacaram-se o ciúme e as implicâncias por parte da sogra. Nos aspectos favorecedores, destacaram-se o amadurecimento e a experiência de ambas. Os resultados confirmam o estereótipo social atribuído às sogras por suas noras.
Palavras-chave: sogra; nora; relacionamento

Mother-in-law and daughter-in-law: how is the relationship between these two women?

Abstract
The present research describes favorable and unfavorable aspects concerning the relationship of mothers-in-law with their daughters-in-law, under the latter’s viewpoint The participants were 10 daughters-in-law whose age range was between 27 and 44 years, who have been married for at least four-years, and whose mothers-in-law were alive. The data were collected using a semi-structured interview with three main themes: mothers-in-law and daughters-in-law relationships, favorable aspects of the relationship, and unfavorable aspects. The data analysis was categorical and descriptive. The findings showed that most daughters-in-law describe their relationship with their mothers-in-law in such way as to suggest negative involvement, unpleasant and distant relationships. Moreover, daughters-in-law consider their mothers-in-law responsible for the difficulties in the relationship. The aspects that contribute for that perception are mothers-in-law’s jealousy and teasing behavior. Among the favorable aspects are maturation and life experience from both sides. The results seemed to give some support to stereotypical social beliefs that daughters-in-law hold about their mothers-in-law.
Key words: mother-in-law; daughter-in-law; relationship.


 

 

Faz parte do processo evolutivo vital que as pessoas se conheçam, namorem, casem, enfim, estabeleçam relacionamentos amorosos. No entanto, entre duas pessoas que se relacionam, existe um sistema de valores e uma cultura própria que cada indivíduo, traz consigo de sua família. Woortmann ilustra essa idéia dizendo que: "Quando você se casa com uma mulher, você se casa com uma família" (1987, p.155). Sendo assim, o irmão passa a ser cunhado, o pai passa a ser sogro e a mãe, sogra. Nessa multiplicidade de papéis e funções, a sogra é um personagem que carrega um estereótipo de múltiplas conotações, que, geralmente, suscita piadas, brincadeiras, gozações e comentários jocosos.

A literatura define a relação sogra-nora (Rossi, 1994) como uma relação interpessoal que ocorre dentro do casamento, no qual se configuram e se estabelecem, formalmente, os papéis destas duas mulheres. Elas passarão então, a pertencer à mesma família, já que a nora se casou com o filho de sua sogra. Essa é uma relação de parentesco obrigatória e necessária, na qual sogra e nora são oriundas de famílias diferentes, possuindo hábitos, valores e crenças, muitas vezes, incompatíveis. A princípio, elas só possuem uma coisa em comum, que é o marido/filho. Porém, com o tempo, passam a estabelecer algum tipo de relação que pode ser prazerosa, gratificante ou hostil e competitiva.

Muitas vezes, a maneira preconceituosa como é vista essa relação pode dificultar o estabelecimento de vínculos entre sogra e nora. Leitão (1988) relata esse preconceito da seguinte forma: o sogro é visto como um segundo pai, um amigo; já a sogra é vista como "a velha chata, linguaruda, que sempre mete o nariz onde não é chamada". O mesmo ocorre com a nora, que é vista como a rival, aquela que rouba o filho, enquanto que o genro é tido como um filho, para quem a mãe da mulher faz os melhores doces. Entretanto, popularmente, o preconceito negativo recai sobre a sogra. Conforme Rossi (1994) afirmou, a sogra já tornou-se um mito, pois, em qualquer cultura, a ela está associada uma imagem de pessoa inoportuna, que deve ser suportada por qualquer pessoa em algum momento de sua vida.

A relação sogra-nora pode dificultar-se quando ambas necessitam morar no mesmo lar, seja por problemas financeiros do casal ou pelo fato da sogra não ter condições de morar sozinha, por exemplo. Acredita-se que essa situação deva ser evitada, pois como coloca Kahn "ainda que seja a mais extraordinária das mães, só no caso de extrema necessidade deve morar com o casal" (1963, p.306). No entanto, se não houver outra saída, seria produtivo para a relação que a sogra evitasse interferir na vida do casal; não tomasse partido, não desse ordens à nora e evitasse fazer comparações de como as coisas eram no seu tempo (Stekel, 1967; Weil, 1979).

No entanto, independente de sogras e noras morarem juntas ou separadas, geralmente ocorrem conflitos entre elas, podendo até trazer conseqüências para a vida do casal. Há três décadas atrás, pesquisas realizadas já mostravam que dentre os problemas conjugais, a interferência dos sogros, na maioria das vezes, estava presente. Constatava-se também que as sogras criavam mais dificuldades que qualquer outro parente (Clemens, 1969; Kahn, 1963). O fato do filho sustentar financeiramente a mãe pode ser mais um motivo de conflito entre sogra e nora, assim como do casal, pois muitas esposas acreditam que seus maridos são explorados, atribuindo a culpa disso às suas sogras.

Outro fator que pode influenciar a relação sogra-nora é a chegada de um filho/neto, pois a partir desse momento existe mais um ser ligado a elas. Dias (1994) relata que o ser avó pode ser a solução para muitas mulheres que perdem os filhos através do casamento. Na relação mãe-filho porém, não existe essa liberdade das avós para se intrometerem na educação dos netos como existe no vínculo mãe e filha. Kahn (1963) coloca que a avó pode contribuir muito quando completa e não deseja substituir e nem competir no cuidado dos netos. Sogra e nora poderão ter opiniões diferentes quanto à educação, uma vez que pertencem a diferentes gerações.

A relação entre essas duas mulheres é influenciada, também, pela qualidade dos vínculos que os cônjuges estabeleceram com suas respectivas mães. Isso se dá pelo fato de que a relação com a mãe é a base para futuros relacionamentos amorosos. Assim, o modelo de relação que a nora estabeleceu com sua mãe poderá definir a possibilidade de relacionamento dela com outras mulheres, no caso com sua sogra (Rossi, 1994). Se a nora teve um relacionamento desagradável com a mãe, pode repudiar a sogra, assim como pode vê-la como amiga ou a mãe que nunca teve. Quanto à relação que a sogra estabeleceu com seu filho, se essa elaborou seu vínculo maternal, deixa-lo-á livre para que mantenha outros vínculos femininos, respeitando sua escolha e, se o filho desvinculou-se de sua mãe, poderá casar-se, separando o amor materno do conjugal.

No entanto, a mãe que tem uma forte relação de dependência com seu filho experimenta o casamento deste como uma forte separação sentimental que, facilmente, se transforma em repulsa ou ciúme para com a nora, que é quem lhe "rouba" o filho. Pode surgir, então, uma tendência, muitas vezes inconsciente, de criticar a nora em todas as suas ações e gestos, multiplicando os conselhos e tentando recolocar o filho sob sua influência (Viollet, 1966).

Devido a todos os fatores que envolvem a relação sogra-nora, são inúmeros os sentimentos desencadeados em virtude dessa ligação, como por exemplo: ciúme, inveja, raiva, tristeza, insegurança, amizade, amor, carinho, respeito, entre outros.

Quanto ao ciúme, esse é um sentimento originado do desejo de ter só para si a pessoa amada, no caso o marido/filho (Kahn, 1963). Para as mães que amam exageradamente seus filhos, o casamento deles é uma separação encarada com ansiedade e percebida como uma perda (Ashner & Meyerson, 1993). Outro sentimento que pode surgir nessa relação é o de evitamento (Augé, 1975), que manifesta-se através de contatos pessoais limitados e relações extremamente cerimoniosas, caracterizando, sobretudo, as relações de diferentes gerações.

No entanto, nem só de sentimentos ruins se faz a relação sogra-nora. Pode haver também sentimentos bons, favorecendo essa relação. Já há três décadas atrás relatava-se que, quando os pais sentiam ter ganho uma filha, alegravam-se com essa situação, favorecendo que a nora pudesse ver em seus sogros como amigos, ao invés de inimigos (Kahn, 1963).

O papel do marido/filho é fundamental no desenvolvimento da relação sogra-nora. Cabe a ele saber separar o amor de mãe e o amor de esposa, colocando estas mulheres nos seus lugares. O homem não deve dar motivo para que elas entrem em conflito e, se isso ocorrer, mesmo que independentemente de sua vontade, ele deve saber lidar com essa situação, tentando melhorá-la.

No entanto, apesar dos inúmeros conflitos que envolvem a relação sogra-nora, eles podem ser administrados de forma saudável. Isto ocorre à medida que ambas amadurecem emocionalmente e podem compreender-se mutuamente, conscientizando-se que não precisam competir, já que cada uma exerce um papel diferente (Rossi, 1994). Provavelmente, este seja um grande desafio, que implica uma contínua construção desta relação.

Com o objetivo de conhecer de forma mais aprofundada o estereótipo sobre a figura da "sogra", este trabalho trata de descrever e entender as vicissitudes da relação sogra-nora.

 

Método

Participantes

Investigaram-se 10 mulheres (noras) porto-alegrenses, com idade entre 27 e 44 anos, estudantes universitárias, que estavam casadas no mínimo há 4 anos e que tinham sogra viva.

Instrumento e Procedimentos

O instrumento utilizado para coleta dos dados constituiu-se de uma entrevista semi-estruturada que abordou três eixos temáticos: relação sogra-nora, aspectos favorecedores da relação e aspectos dificultadores da relação.

A partir da escolha aleatória dos sujeitos no campus da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, foi feito um breve rapport com cada uma das mulheres convidadas, a fim de explicar a pesquisa e verificar se essas poderiam fazer parte da amostra, colaborando com o estudo. Logo após, realizou-se a entrevista que foi audiogravada.

 

Resultados

No primeiro momento, realizamos a análise do conteúdo das entrevistas a partir do referencial de Bardin (1991). Após ter sido feita uma leitura para a compreensão global das idéias, fez-se a classificação dos conteúdos a partir dos três eixos temáticos. Deste modo, reviram-se os conteúdos afins que diziam respeito a cada eixo e criaram-se categorias.

Posteriormente à criação das categorias, fez-se a quantificação do número total de vezes que aparecia cada conteúdo nas respostas dos participantes a fim de verificar sua freqüência e porcentagem.

Como as noras percebem a sua relação com a sua respectiva sogra:

Os conteúdos trazidos pelas noras, que se referiam à sua relação com as suas respectivas sogras, foram divididos nas seguintes categorias:

Categoria 1: "Relação positiva/boa". Os conteúdos dessa categoria diziam respeito a atributos tais como: relação sem atritos, relação boa, relação muito boa.

Categoria 2: "Relação negativa/ ruim/ distante". Essa categoria compôs-se de respostas tais como: relação não muito boa, relação com pouco contato, relação sem afeto e sem intimidade, relação complicada, relação ambivalente, entre outros.

Quantificando-se as respostas das respectivas categorias, pode-se observar que:

 

Tabela 1: Como as Noras Percebem a Relação - Freqüências e Porcentagens

Categoria

Freqüência

%

Relação positiva/boa

07

18,42

Relação negativa/ruim/distante

31

81,58

TOTAL

38

100

 

A partir dos dados obtidos, verifica-se que as noras percebem sua relação com a sogra, na maioria das vezes, como negativa, ruim, distante.

Aspectos favorecedores da relação sogra-nora:

Quanto aos aspectos favorecedores da relação verifica-se que estes dividiram-se em quatro categorias:

Categoria 1: "Contribuição favorável de ambas para relação". Esta categoria foi composta por conteúdos tais como: sogra e nora se respeitam, sogra e nora se tratam bem, sogra e nora gostam de conviver; sogra e nora tratam-se como mãe e filha, amadurecimento e experiência por parte de ambas, entre outros.

Categoria 2: "Contribuição favorável por parte da sogra para a relação". Os conteúdos dessa categoria constituem-se das seguintes respostas: sogra auxilia na educação dos netos, sogra não interfere na vida do casal, sogra tem carinho pela nora.

Categoria 3: "Contribuição favorável por parte da nora para a relação". Essa categoria foi composta pelos seguintes dados: nora valoriza relação mãe e filho, nora reconhece sogra como mãe do marido, nora se posiciona, se impõe, entre outros.

Categoria 4: "Contribuição favorável do casal e do marido/filho para relação". Os conteúdos dessa categoria diziam respeito a atributos tais como: casal inclui sogra nos seus programas, marido se posiciona.

Fazendo-se a quantificação das respostas pode-se perceber que:

 

Tabela 2: Aspectos Favorecedores da Relação - Freqüências e Porcentagens

Categoria

Freqüência

%

Contribuição favorável por parte da sogra

03

4,55

Contribuição favorável por parte do marido/filho

03

4,55

Contribuição favorável por parte da nora

12

18,18

Contribuição favorável por parte de ambas

48

72,72

TOTAL

66

100

 

Verifica-se que sogra e nora, juntas, são as maiores responsáveis pelos aspectos favorecedores da relação, enquanto que a sogra, sozinha, é a menos responsável.

Aspectos dificultadores da relação sogra-nora:

Quanto aos aspectos dificultadores da relação verifica-se que eles dividiram-se em quatro categorias:

Categoria 1: "Contribuição desfavorável de ambas para a relação". Esta categoria foi composta pelas seguintes respostas: sogra e nora sentem ciúmes uma da outra, sogra e nora evitam conviver, sogra e nora se tratam formalmente, sogra e nora não têm afinidades, sogra e nora não têm afetividade, entre outros.

Categoria 2: "Contribuição desfavorável por parte da sogra para a relação". A citada categoria refere-se a conteúdos como: sogra interfere negativamente na vida do casal, sogra implica com a nora, sogra faz jogo emocional com o filho, sogra exclui nora da relação com o filho e com a família, sogra é avó sem afeto, entre outros.

Categoria 3: "Contribuição desfavorável da nora para relação". Esta categoria compôs-se das seguintes respostas: nora tem imagem preconceituosa da sogra, nora vê sogra como um incômodo, nora é insegura e inexperiente, entre outros.

Categoria 4: "Contribuição desfavorável por parte do marido/filho para a relação". Esta categoria refere-se a dados tais como: filho não vê maldade na mãe, marido não se posiciona, vínculo exagerado entre mãe e filho, filho sustenta financeiramente a mãe, entre outros.

Fazendo-se a quantificação das respostas pode-se perceber que:

 

Tabela 3: Aspectos Dificultadores da Relação - Freqüências e Porcentagens

Categoria

Freqüência

%

Contribuição desfavorável por parte da nora

09

7,32

Contribuição desfavorável por parte do marido/filho

12

9,84

Contribuição desfavorável por parte  de ambas

49

40,16

Contribuição desfavorável por parte da sogra

52

42,62

TOTAL

122

100

 

Verifica-se que a sogra, sozinha, é a maior responsável pelos aspectos dificultadores da relação, enquanto que a nora, sozinha, é a menos responsável.

Comparando-se as freqüências e porcentagens entre os aspectos que favorecem e que dificultam a relação sogra-nora, os quais foram divididos em subcategorias, pode-se observar que:

 

Tabela 4 - Aspectos Favorecedores X Aspectos Dificultadores - Freqüências e Porcentagens

Favorecedores

Freq.

%

Dificultadores

Freq.

%

Sogra auxilia o casal

01

0,53

Sogra depende economicamente

02

1,06

Sogra não interfere negativamente

01

0,53

Marido é o primeiro filho

02

1,06

Posicionamento do marido/filho

01

0,53

Inexperiência

03

1,6

Casal inclui sogra nos seus programas

02

1,06

Sogra é vista como incômodo

03

1,6

Tratamento como mãe e filha

03

1,6

Preconceito

03

1,6

Posicionamento da nora

04

2,13

Não posicionamento do marido/filho

04

2,13

Respeito

04

2,13

Vínculo mãe/filho exagerado

04

2,13

Busca de convívio

07

3,72

Cinismo

05

2,66

Amadurecimento e experiência

08

4,25

Diferença de gerações e culturas

05

2,66

Valorização dos papéis

12

6,38

Sogra distante da família

06

3.2

Tratamento satisfatório

23

12,2

Sogra exclui nora da família

07

3,72

X

X

X

Convívio evitado

08

4,25

X

X

X

Ciúmes e desconfiança

09

4,8

X

X

X

Mãe possessiva e sedutora

13

6,91

X

X

X

Interferência negativa da sogra

20

10,6

X

X

X

Falta de afeto e intimidade

28

14,9

TOTAL

66

35,1

TOTAL

122

64,9

Total Favorecedores X Dificultadores

188

100

 

Verifica-se que a relação sogra-nora possui mais aspectos dificultadores do que aspectos favorecedores, segundo a ótica das noras. Esse fato confirma a Tabela 1, na qual verifica-se que a nora percebe sua relação com a sogra como, na maioria das vezes, negativa, ruim, distante.

 

Discussão

A partir dos dados obtidos nas entrevistas, assim como das informações colhidas na revisão bibliográfica, concluiu-se que a relação sogra-nora parece ser, na maioria das vezes, uma relação de parentesco negativa, ruim, distante. Assim, essa relação possui mais aspectos dificultadores do que aspectos favorecedores, os quais podem até prejudicar a vida do casal. Faz-se importante ressaltar que essa é a ótica das noras, as quais, provavelmente, podem estar respondendo e expressando um estereótipo social que preconcebe as sogras como figuras de difícil relacionamento. Esse aspecto se repete quando são, majoritariamente, atribuídas à sogra, as dificuldades que possam ocorrer na relação com suas noras. Pode-se pensar que, provavelmente, se fossem investigadas as sogras a respeito das contribuições desfavorecedoras para uma boa relação com suas noras, estes resultados fossem diferentes.

Quanto aos conteúdos citados como aspectos dificultadores da relação, verificou-se que, grande parte deles, dizem respeito às mesmas dificuldades. Foram mencionados o ciúme, as implicâncias, a necessidade de sustento do filho para com a mãe, entre outros. Pode-se constatar que esses atributos se referem à dificuldade no estabelecimento de fronteiras e, conseqüentemente, na discriminação de papéis. O casamento de um filho requer uma reestruturação em toda a dinâmica familiar, o que exige do sistema certa flexibilidade para adaptar-se aos novos padrões de funcionamento. Não é incomum aparecerem dificuldades de absorção de um novo membro no sistema familiar, ainda que, como mostra a literatura, parece ser mais facilitada a entrada de um genro do que de uma nora. Não raramente aparece essa dificuldade no estabelecimento de novas fronteiras e limites. Muitas famílias podem estagnar nessa fase evolutiva sem conseguir lograr padrões mais evoluídos de relacionamento, aparecendo sintomas.

No entanto, ainda que com menor freqüência, a relação sogra-nora também apresenta aspectos favorecedores. Parece que, se o sistema consegue re-estruturar seus padrões de relacionamento, o amadurecimento e a experiência podem contribuir para a relação sogra-nora no sentido de ambas aprenderem a conviver juntas, poderem conhecer suas qualidades e saberem lidar com seus defeitos. Nesse sentido, é curioso observar que os resultados também apontam a nora como a principal responsável para o bom funcionamento da relação.

 

Conclusão

A partir dos resultados encontrados, pode-se refletir e chegar às seguintes conclusões:

o estereótipo social a respeito da figura da sogra, é um fator de grande importância que pode, muitas vezes, preconceber o padrão de relacionamento sogra-nora;

o posicionamento do filho/marido na relação com sua mãe/esposa pode contribuir de forma muito importante no favorecimento ou nas dificuldades da relação sogra-nora;

Considerando-se que todos os dados foram obtidos a partir da ótica das noras, ao concluir este trabalho, pensamos que seria interessante dar seqüência a este estudo enfocando outros aspectos, tais como:

a visão das sogras sobre este relacionamento, a fim de poder evidenciar os aspectos que se relacionam entre as duas perspectivas;

estudar as diferenças na relação sogra-nora, considerando variáveis tais como: o tipo de convivência, a dependência econômica, a idade de ambas e a existência de filhos/netos;

avaliar o nível de satisfação conjugal e as possíveis associações deste com o tipo de relacionamento sogra-nora.

 

Referências

Ashner, L., & Meyerson, H. (1993). Quando os pais amam demais: o que acontece com a liberdade e a independência dos filhos. São Paulo: Saraiva.         [ Links ]

Augé, M. (1975). Os Domínios do Parentesco: filiação, aliança matrimonial, residência. São Paulo: Martins Fontes.         [ Links ]

Bardin, L. (1991). Análise de Conteúdo. Lisboa: Ed. 70.         [ Links ]

Clemens, A. H. (1969). Projeto para um Casamento Feliz. Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Dias, C. M. S. B. (1994). A importância dos avós no contexto familiar. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 10, 31- 41.         [ Links ]

Kahn, F. (1963). Amor e Felicidade no Casamento. São Paulo: Boa Leitura.         [ Links ]

Leitão, E. V. (1988). A Mulher na Língua do Povo. Belo Horizonte: Itatiaia.         [ Links ]

Rossi, J. (1994). S.S.S.: Síndrome Sogra-Nora _ Uma Relação de Parentesco (Des)Conhecida. Dissertação de Mestrado Não Publicado. Instituto de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS.         [ Links ]

Stekel, W. (1967). Cartas a uma mãe. São Paulo: Mestre Jou.         [ Links ]

Viollet, J. (1966). Harmonia conjugal. São Paulo: Paulinas.         [ Links ]

Weil, P. (1979). Relações Humanas na Família e no Trabalho. Petrópolis: Vozes.         [ Links ]

Woortmann, K.(1987). A Família das Mulheres. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.         [ Links ]

 

 

Recebido em 28.08.97
Revisado em 23.03.98
Aceito em 16.09.98

 

 

1 Estudantes do VI nível da graduação do Curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
2 Doutora pela U.A.M./Espanha, Professora, Orientadora na disciplina de Prática Supervisionada em Psicologia da Aprendizagem e Desenvolvimento do Curso de Psicologia da PUC RS.
Endereço para correspondência: Av. Arlindo Pasqualini, nº 103 casa 03 Ipanema - POA/RS 91760-140 Tel.: (051) 2481360.