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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.1 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000100009 

Interação entre irmãos em situação de cuidados formais1

Eleonora Arnaud Pereira Ferreira2
Universidade Federal do Pará
Thereza Pontual de Lemos Mettel
Universidade de Brasília

 

 


Resumo
Este trabalho teve como objetivo descrever as principais características de famílias onde os filhos mais velhos são responsabilizados pela execução das tarefas domésticas e pelo cuidado aos irmãos menores, durante a ausência dos pais. Participaram deste estudo vinte famílias residentes à Vila Paranoá, Distrito Federal, com filhos de um a dezesseis anos de idade. Os dados foram colhidos através de entrevistas e sessões de observação sistemática do comportamento em ambiente natural, realizadas durante o período de almoço. A análise se deteve na organização familiar, desempenho em tarefas domésticas e interação entre irmãos, tendo sido possível classificar as famílias em três grupos qualitativamente distintos. Os resultados são discutidos em termos da necessidade de se considerar fatores de ordem social na análise do grupo familiar.
Palavras-chave: Família; tarefas domésticas; interação entre irmãos; observação em situação natural.

Siblings interaction in formal care situation

Abstract
This research aims at describing the characteristics of families where older children are responsible for carrying out chores and looking after their younger siblings while in their parents absence. Twenty families from Vila Paranoá (a slum in the outskirts of Brasília, Brasil), with one to sixteen year-old children were the subjects of this study. The data were picked up from interviews and sessions of systematic observation of behavior in natural environment. These sessions were carried out during lunch time. The analysis placed emphasis on family organization, performance in home tasks and sibling interation. It has been possible to classify the families into three qualitative groups. The results are discussed in terms of need considering factors of social order in the analysis of family group.
Keywords: Family; home tasks; sibling relation; natural environment observation.


 

 

As sociedades diferem na maneira pela qual as crianças são socializadas, refletindo nas diferentes expectativas que os pais possuem quanto ao relacionamento entre seus filhos. Algumas sociedades enfatizam a autonomia e a privacidade entre os irmãos, enquanto outras exigem a participação conjunta dos irmãos nas obrigações domésticas e atividades comunitárias (Weisner, 1989). Assim, a instituição familiar pode se apresentar de várias formas, refletindo mais a sua estratégia de sobrevivência do que propriamente uma evolução histórica. O mesmo se aplica às diferentes concepções sobre a infância que, ao contrário do que propõem alguns historiadores (Ariès, 1981), não estão relacionadas somente a estágios de desenvolvimento da história humana, mas sim especialmente ligadas às contradições existentes dentro da mesma sociedade, num determinado momento de sua história.

Ao considerarmos estudos inter-culturais, encontramos evidências de que cuidados não-parentais são, ou a norma, ou uma forma muito significativa de cuidados em muitas sociedades (Weisner & Gallimore, 1977; Weissner, 1989; Wittemore & Beverly, 1989; Watson-Gegeo & Gegeo, 1989). Assim sendo, é possível encontrarmos numa mesma sociedade (como a brasileira, por exemplo) diferentes formas de organização familiar e de cuidados dispensados às crianças, como uma demonstração da adaptação da família às exigências do grupo social mais amplo.

No Brasil, a grande maioria da população infantil é proveniente de famílias de baixa renda cujos pais trabalham fora do lar. Ao sair para o mercado de trabalho, a mulher que não pode pagar uma empregada doméstica, busca outros recursos para prover os cuidados de seus filhos pequenos, como o apoio de parentes, da vizinhança, ou mesmo deixando os filhos mais velhos cuidando dos mais novos durante a sua ausência (Leite, 1984; Ibañez-Novion, 1980). Estudos têm apontado alguns indicativos, além da saída da mãe para o mercado de trabalho não-doméstico, associados à utilização de cuidados fraternos, isto é, por irmãos mais velhos, tais como: o número de filhos, o sexo do filho mais velho e a idade do filho mais novo. De modo geral, cuidados formais dispensados pelos irmãos são mais encontrados em famílias com prole numerosa, com filhos mais velhos do sexo feminino e quando o filho mais novo já é capaz de se locomover sozinho (Dunn, 1983; Zukow, 1989).

Estudos sobre a organização familiar e a execução de tarefas domésticas realizados com famílias de baixa renda, têm confirmado a participação dos filhos nas atividades de rotina tão logo estes apresentem desenvolvimento físico compatível com a atividade (Cebotarev, 1984). Estes estudos destacam a sensibilidade dos adultos em identificar o desenvolvimento de habilidades em seus filhos, fazendo exigências de acordo com o que a criança é capaz de fazer (Ladd & Price, 1986; Lytton, 1983).

O estudo sobre comportamento de cuidados formais entre irmãos levanta uma série de questões sobre os efeitos de tal tipo de interação sobre a criança que cuida e sobre a criança que é cuidada. Alguns estudos têm apontado a possibilidade de haver, para a criança que cuida, um maior desenvolvimento da personalidade social, traduzida em comportamento pró-social responsável, e também um maior desenvolvimento de autonomia, regulação do comportamento agonístico, desenvolvimento cognitivo, de responsabilidade social e treinamento em funções da vida adulta (Lordêlo, 1986). O irmão que cuida pode proporcionar ao irmão que é cuidado uma descrição da sociedade na qual estão crescendo, e, do mesmo modo, o irmão que é cuidado pode proporcionar ao irmão que cuida uma ocasião para praticar suas habilidades sociais (Whittemore & Beverly, 1989). Os efeitos negativos estariam relacionados à formação da personalidade quando a participação da criança no cuidado aos irmãos é mais intensa. Entretanto, esses estudos não são claros com relação a que aspectos da personalidade poderiam ser prejudicados. A interpretação dos resultados destes estudos nem sempre considera o julgamento dos valores adotados em cada cultura. Além disso, num mesmo grupo social os valores culturais sobre o relacionamento entre irmãos não são necessariamente compartilhados por toda a comunidade.

Essa temática tem sido cercada por uma série de preconceitos sobre essas famílias e sobre os filhos que são responsabilizados pelas tarefas domésticas. Os pais destas famílias são acusados de negligentes e seus filhos tidos como prejudicados em todo o seu desenvolvimento. Entretanto, muito embora a existência de famílias nessas condições seja do conhecimento geral, pouco se tem feito para investigar a realidade na qual estas vivem.

Não há um modelo teórico que oriente o estudo sobre cuidados dispensados pelo irmão mais velho na mesma extensão com que os padrões de cuidados maternos e paternos são explicados. Além disso, vários aspectos deste tema precisam ser investigados pois as limitações não são apenas teóricas, mas também metodológicas. Na Psicologia, grande parte dos estudos sobre interação entre irmãos tem focalizado a díade, em situação controlada, buscando uma análise de relações entre variáveis pré-determinadas como sexo, idade e ordem de nascimento (Baskett, 1984; Corter, Abramovitch & Pepler, 1983; Dunn, 1983).

O presente estudo procurou identificar algumas das características de famílias onde a participação dos irmãos mais velhos em atividades domésticas é considerada essencial para a manutenção da família. O interesse por essa investigação surgiu a partir de questões apontadas por agentes de saúde de um Centro de Saúde localizado na Vila Paranoá, Distrito Federal. Esses profissionais afirmavam ser freqüente o comparecimento de crianças acompanhadas dos irmãos para realizarem consultas médicas e/ou práticas de enfermagem. Também, durante as visitas domiciliares que realizavam na comunidade, era comum encontrar irmãos cuidando de irmãos na ausência dos pais. A partir de questionamentos sobre a competência desses irmãos em assumirem a responsabilidade pelos afazeres domésticos é que decidimos conduzir este trabalho, numa tentativa de conhecer mais sobre a realidade da vida destas crianças que representam uma grande parcela da população brasileira, muito embora ainda sejam "esquecidas" pelas estatísticas oficiais.

Esta pesquisa teve como principal objetivo o estudo da interação entre irmãos e do desempenho em tarefas domésticas, no ambiente domiciliar, quando irmãos mais velhos são responsabilizados pelos cuidados aos irmãos menores durante a ausência dos pais. Procuramos investigar: (1) quais as principais características das famílias nas quais esta situação ocorre; (2) quais os elementos que poderiam ser utilizados na avaliação do desempenho do filho responsável pelas tarefas domésticas e (3) quais as principais características da interação entre os irmãos.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo vinte famílias residentes há mais de um ano na Vila Paranoá, Distrito Federal, com filhos menores ficando sob os cuidados dos irmãos mais velhos durante a ausência dos pais, por um período mínimo de três horas, em mais de um dia na semana. Estas famílias foram localizadas através de: (a) visitas domiciliares acompanhando os agentes de saúde; (b) contato com crianças das escolas de ensino fundamental da Vila e (c) por indicação de outras famílias.

A Vila Paranoá

A Vila Paranoá era uma "invasão" localizada à margem norte do lago Paranoá, distante cerca de 25 Km do Plano Piloto de Brasília. No início deste estudo, a Vila contava com uma população aproximada de 38.000 habitantes com cerca de 4.000 crianças de zero a cinco anos de idade, segundo levantamento realizado pelo Centro de Saúde no 15, em 1987. De acordo com investigação realizada durante a fase preliminar deste estudo, cerca de 600 crianças estavam sendo atendidas, no primeiro semestre de 1988, nas creches e pré-escolas da comunidades, das quais 120 em período integral. As demais crianças participavam de programas de meio período, permanecendo em suas casas durante parte do dia, muitas vezes sob os cuidados de seus irmãos mais velhos. Todos moravam em casa de madeira com luz elétrica, sendo o abastecimento de água feito através da coleta em chafarizes públicos situados em vários pontos da Vila.

Grande parte dos homens residentes na Vila trabalhava na construção civil, com empregos temporários, enquanto que as mulheres exerciam, em sua maioria, atividades domésticas em residências de classe média e alta de Brasília. Como decorrência da alta taxa de migrantes, a população do Paranoá era em sua maioria jovem, sendo as famílias de características nucleares. Desse modo, as relações de vizinhança possuíam um importante papel na dinâmica familiar, refletindo-se nos cuidados dispensados às crianças pequenas.

Procedimento

A coleta de dados foi realizada utilizando-se entrevistas e observação direta e sistemática do comportamento, de acordo com as seguintes etapas:

1) Entrevista de contato: para verificar se a família possuía as características requeridas para a pesquisa, explicar os objetivos e procedimentos a serem utilizados na coleta de dados e obter a permissão dos pais para a realização do estudo.

2) Entrevista de coleta de dados com os pais: para obter informações sobre dados demográficos da família, organização familiar e instruções dadas ao filho indicado como o responsável pelas tarefas domésticas.

3) Descrição do domicílio e o primeiro contato com os filhos na ausência dos pais: para adaptação dos sujeitos à presença do observador e a ambientação do observador ao espaço no qual seriam realizadas as observações.

4) Sessões de observação do comportamento: em cada família foram realizadas três sessões de observação em ambiente domiciliar, durante o período de almoço. Foram utilizados registro de varredura e registro contínuo específico focal ditados em gravador de áudio.

5) Entrevista com o Filho Indicado como o Responsável (FIR) pelas tarefas domésticas: para obter informações sobre as instruções recebidas a respeito da execução das tarefas domésticas e sobre as dificuldades e satisfações no desempenho de seu papel.

6) Entrevista de encerramento: realizada com os pais, para coletar informações complementares e/ou esclarecedoras e para agradecer a colaboração da família.

Participaram da coleta de dados três pesquisadoras treinadas em técnicas de entrevista e observação sistemática do comportamento. Para avaliar a fidedignidade entre as observadoras, utilizou-se um episódio de dois minutos extraído de um vídeo realizado em uma das famílias durante o estudo preliminar.

 

Resultados

Os dados colhidos junto às vinte famílias foram organizados e analisados procurando-se relacionar as informações obtidas através das entrevistas e as obtidas através das sessões de observação direta do comportamento. As verbalizações dos entrevistados foram analisadas de acordo com seu conteúdo temático, enquanto os dados colhidos através de observação direta do comportamento foram analisados considerando os episódios comportamentais relacionados a um contexto específico. Em consonância com os objetivos deste trabalho, os resultados são apresentados considerando-se: (1) as famílias; (2) o desempenho de FIR - Filho Indicado como o Responsável pelas tarefas domésticas e (3) a interação entre irmãos. Por último, é apresentado (4) o agrupamento das famílias, no qual houve uma preocupação em integrar as informações analisadas de modo a encontrar regularidades que tornassem compreensível a complexidade dos fatores envolvidos no objeto deste estudo.

As famílias

As vinte famílias estudadas eram em sua maioria (70%) compostas pelo casal, tendo em média seis filhos, dos quais 91% possuíam idade entre um e dezesseis anos. Todos os genitores já haviam morado em algumas das cidades satélites ao Plano Piloto de Brasília antes de construírem seus barracos na Vila Paranoá, sendo que 95% residiam na Vila há mais de seis anos.

A ocupação dos pais se restringia a atividades ligadas ao setor primário, sendo muito baixa a escolaridade dos mesmos. A renda familiar mensal ficava entre um e quatro salários mínimos, ocasionalmente complementada pelo trabalho remunerado de algum dos filhos mais velhos, ou pelo aluguel de um dos cômodos do barraco.

Em todas as famílias a saída da mãe para o mercado de trabalho foi o motivo determinante para os filhos assumirem a responsabilidade pelas tarefas domésticas.

A idade média do filho indicado como o responsável (FIR) pelas tarefas domésticas na ausência dos pais era de 12 anos (amplitude = 08 a 16 anos), sendo 85% do sexo feminino e 15% do sexo masculino. Do total (N=20), 75% estavam matriculados em escolas de ensino fundamental da Vila; os demais haviam abandonado a escola ainda nas duas primeiras séries. Estes filhos aprenderam a executar as tarefas e a cuidar dos irmãos participando como auxiliares de suas mães desde muito cedo, o que para a maioria ocorreu por volta de cinco anos de idade. A aprendizagem seguindo o modelo materno, com a criança realizando as tarefas junto com a mãe, foi o recurso utilizado por todas as famílias para o ensino da rotina doméstica.

O desempenho nas tarefas domésticas

O foco de análise partiu do irmão que executava a tarefa, independente de ser o FIR. O desempenho nas tarefas domésticas foi analisado de acordo com os contextos de: a) preparo do alimento, b) almoço, c) organização da casa e d) cuidados pessoais com a criança.

A análise da execução das tarefas domésticas considerou inicialmente a variedade nas atividades e a ordem com que estas atividades eram desempenhadas pelos filhos. A utilização da técnica de registro contínuo permitiu constatar que tais atividades ocorriam de modo intercalado - diversas atividades executadas ao mesmo tempo, correspondendo a estudos sobre tarefas domésticas realizadas por adultos.

Cada tarefa foi analisada a partir de características gerais encontradas na maioria das famílias (igual ou superior a 50% dos casos registrados) e também considerando-se episódios que, embora tenham ocorrido em baixa freqüência, foram considerados importantes por serem esclarecedores sobre a qualidade e complexidade da tarefa executada. As tarefas predominantemente realizadas pelo FIR, sem a participação dos irmãos, eram as relacionadas ao preparo dos alimentos. As atividades relacionadas à organização da casa eram as mais compartilhadas entre os irmãos mais velhos.

A análise do desempenho nas tarefas domésticas também considerou as etapas de execução da tarefa e a qualidade da execução, tendo-se constatado semelhanças no desempenho das tarefas realizadas pelos FIRs e pelos outros irmãos e também entre FIRs de sexo diferente.

A interação entre os irmãos

A análise da interação entre os irmãos foi feita a partir da classificação dos episódios interativos em um sistema de categorias elaborado de acordo com o papel desempenhado pelos irmãos. Os papéis poderiam ser de:

Emissor: - o filho que executa a tarefa doméstica, distribui tarefas entre os irmãos e/ou orienta o irmão a executar a tarefa doméstica.

Receptor: - o irmão que reage ao comportamento do Emissor.

O sistema de categorias possuía duas dimensões:

Estrutura: - correspondendo às relações de sinalização mútua existente na interação, isto é, o quanto a ação de um irmão está relacionada com a situação ou com o comportamento do outro irmão; e também correspondendo à composição da interação, isto é, quais os irmãos envolvidos na interação.

Conteúdo:- correspondendo à natureza da ação, isto é, o que um irmão faz em direção a outro irmão. O sistema inclui categorias do emissor e categorias do receptor, sendo ambas em dois níveis para um maior detalhamento das ações. Foram definidas nove categorias no nível 1 e dezessete categorias no nível 2.

Os episódios interativos foram decompostos em unidades de análise considerando-se uma situação antecedente que especificasse o contexto no qual a interação ocorria, e a interação entre irmãos correspondendo ao comportamento de um irmão emissor em direção ao irmão receptor e a resposta do receptor à iniciativa do emissor, em tantos elos quantos fossem necessários a compreensão da interação. O recorte foi realizado considerando-se a mudança no conteúdo da interação e/ou a mudança na estrutura da interação.

Foram analisados 557 episódios interativos distribuídos nas quatro situações de tarefas domésticas. Verificou-se que as situações com maior número de interações entre irmãos foram as de Cuidados Pessoais (38,4%) e Almoço (33,4%). A situação com menor freqüência de interações foi a de Preparo do Alimento (6,3%), indicando que as atividades neste contexto foram desempenhadas, na maioria das famílias, por um único irmão.

Os resultados indicaram que o comportamento do Emissor, o qual foi predominantemente FIR, era caracterizado principalmente pelo uso de Disciplina através de ordem, Supervisão através de orientação, Colaboração através de realização e Atribuição através de ordem (Tabela 1).

 

Tabela 1. Freqüência das categorias do Emissor

Categorias

Disciplina (27%)

Supervisão (21%)

Colaboração (20%)

Atribuição (15%)

Oferta (10%)

Proteção (07%)

Ordem

46%

-

-

62%

03%

10%

Repreensão

14%

-

-

01%

-

-

Ameaça

12%

01%

02%

05%

-

-

Justificativa

11%

15%

02%

8.5%

-

19%

Intervenção

08%

04%

26%

-

-

58%

Orientação

03%

43%

11%

15%

02%

10%

Punição

03%

-

-

3.5%

-

-

Contingência

03%

-

-

05%

-

-

Realização

-

-

57%

-

-

-

com consulta

-

-

02%

-

67%

03%

sem consulta

-

-

-

-

28%

-

 

Considerando-se disciplina como um apelo às regras, podemos afirmar que FIR procurava manter controle sobre seus irmãos, impedindo a emissão de comportamentos considerados como inadequados e/ou favorecendo a emissão de comportamentos adequados. O recurso mais utilizado pelo emissor foi a ordem, seguida de repreensão. Destaca-se a baixa freqüência de punição. Uma análise qualitativa dos resultados nos demonstra a adequação dos recursos utilizados por FIR para se fazer obedecer pelos irmãos, comparável a estudos sobre relacionamento entre pais e filhos.

Com relação às categorias do Receptor, a que predominou acentuadamente foi a categoria Aceitar (72%), manifestada principalmente através de seguir instrução e com concordância. Este resultado indica que na grande maioria dos episódios, o Receptor acatou o comportamento do Emissor, contradizendo os relatos feitos pelos FIRs, quando mencionaram que a maior dificuldade no desempenho das tarefas domésticas estava relacionada ao cumprimento às ordens e solicitações por parte dos irmãos.

O agrupamento das famílias

A análise dos resultados nos permitiu agrupar as vinte famílias de acordo com características comuns relacionadas ao desempenho nas tarefas e relacionamento entre os irmãos. Cada família foi analisada de acordo com estes critérios e o agrupamento foi feito considerando-se somente os aspectos que claramente distinguissem as famílias em três grupos correspondentes a três níveis qualitativos:

Grupo I (35%, n=07) Þ famílias nas quais os FIR(s) apresentaram um bom desempenho nas tarefas domésticas e em seu relacionamento com os irmãos.

Grupo II (50%, n=10) Þ famílias nas quais os FIR(s) ou demonstraram um bom desempenho nas tarefas domésticas mas apresentaram dificuldades no relacionamento com os irmãos; ou então demonstraram ter um bom relacionamento com os irmãos mas apresentaram dificuldades na realização das tarefas domésticas.

Grupo III (15%, n=03) Þ Famílias nas quais os FIR (s) demonstraram dificuldades tanto no relacionamento com os irmãos quanto no desempenho das tarefas domésticas.

A análise do desempenho nas tarefas domésticas observado nos três grupos, demonstrou semelhanças na qualidade da execução das atividades nos grupos I e II. Em ambos, o desempenho foi considerado como muito bom pois cumpriram todas as etapas essenciais da tarefa, em qualquer das atividades, de acordo com critérios estabelecidos.

Uma distinção observada entre o Grupo I e o Grupo II se relacionou à participação dos irmãos no preparo do alimento. Enquanto no Grupo I o desempenho foi predominantemente individual, no Grupo II esta tarefa era compartilhada entre FIR e os irmãos.

Nas famílias do Grupo III, as dificuldades no desempenho das tarefas eram muito acentuadas. Tais famílias foram encaminhadas ao Centro de Saúde da Vila Paranoá para receberem assistência.

Para a análise dos três grupos no que se refere ao relacionamento entre irmãos, foi feito um levantamento da freqüência das categorias de comportamento nos níveis I e II encontradas em cada grupo (Tabelas 2, 3 e 4). Nesta avaliação considerou-se apenas os resultados encontrados nos Grupos I e II, uma vez que as condições das famílias do Grupo III não permitiria uma boa análise da interação entre os irmãos.

A análise das categorias de comportamento permitiu identificar algumas diferenças entre os Grupos I e II. Dentre as categorias de nível I, ao compararmos os dois grupos observamos que as categorias do Emissor mais encontradas nas famílias do Grupo I foram Disciplina (60%), Supervisão (58%) e Oferta (55%). Nas famílias do grupo II, as categorias mais freqüentes foram Atribuição (60%), Proteção (58%) e Colaboração (49%). Do mesmo modo, ao compararmos os dois grupos quanto às categorias do Receptor, encontramos no Grupo I a maior freqüência na categoria Aceita (57%), enquanto o Grupo II apresentou maior freqüência de Recusa (53%) e Ignora (49%).

Com relação às categorias de nível II, o Emissor do Grupo I se caracterizou por apresentar maior freqüência de ordem (62%), repreensão (53%), justificativa (60%) e orientação (52%). O Grupo II apresentou maior freqüência de ameaça (72%), contingência (67%) e realização (56%). Quanto às categorias do Receptor neste nível, a que mais distinguiu os dois grupos foi segue instrução, encontrada em 65% no Grupo I e 30% no Grupo II.

Tabela 2. Percentagens das categorias de nível I encontradas em cada grupo

EMISSOR

Grupo I

Grupo II

Grupo III

Total

Disciplina

60

32

08

100

Atribuição

33

60

07

100

Supervisão

58

37

05

100

Colaboração

44

49

07

100

Oferta

55

38

07

100

Proteção

26

58

16

100

RECEPTOR

Grupo I

Grupo II

Grupo III

Total

Aceita

57

36

07

100

Recusa

40

53

07

100

Ignora

41

49

10

100

 

Estes resultados nos revelam que o relacionamento entre os irmãos do Grupo I foi caracterizado principalmente pela ênfase na disciplina e cumprimento às regras estabelecidas. Nestas famílias, o FIR assumia um papel bem distinto de seus irmãos, exercendo o controle sobre a execução das tarefas domésticas. Por outro lado, o papel de FIR era bem aceito pelos irmãos, os quais acatavam suas determinações na grande maioria das vezes.

No Grupo II verificamos uma maior dificuldade em FIR exercer o papel de "responsável pelas tarefas domésticas e cuidados com os irmãos". Muito embora tenhamos observado que em algumas famílias deste grupo o nível de qualidade no desempenho da tarefa tenha sido semelhante ao do Grupo I, no Grupo II FIR recorria a atribuições com ameaça e punição em seu relacionamento com os irmãos.

Ao comparamos os dados colhidos durante as sessões de observação com as informações obtidas através das entrevistas com as mães e com os FIRs, verificamos algumas correspondências confirmando os critérios utilizados para o agrupamento das famílias. Nos relatos das mães do Grupo I ficou evidenciada uma maior distinção na atribuição das tarefas entre FIR e seus irmãos, indicando uma clara determinação de papéis. Nestas famílias, as orientações para a realização das tarefas domésticas eram bastante explícitas. Foi neste grupo que encontramos uma maior preocupação com a aprendizagem formal das tarefas domésticas. Neste Grupo as mães relataram estarem satisfeitas com o desempenho de FIR, tanto no que se refere às tarefas domésticas quanto aos cuidados com os irmãos menores.

Tabela 3. Percentagens das categorias de Nïvel II do Emissor encontradas em cada grupo

Categorias

Grupo I

Grupo II

Grupo III

Total

Sem consulta

62

38

-

100

Com consulta

51

40

09

100

Realização

40

56

04

100

Contingência

33

67

-

100

Punição

30

40

30

100

Orientação

52

40

08

100

Intervenção

33

54

13

100

Justificativa

60

30

10

100

Ameaça

20

72

08

100

Repreensão

53

39

08

100

Ordem

62

33

05

100

 

Tabela 4. Percentagens das categorias de Nível II do Receptor encontradas em cada grupo

Categorias

Grupo I

Grupo II

Grupo III

Total

Repreensão

50

50

-

100

Ameaça

33

33

33

100

Negação

43

50

07

100

Justificativa

40

60

-

100

Orientação

33

67

-

100

Resistência

33

55

12

100

Agradecimento

100

-

-

100

Elogio

67

33

-

100

Concordância

46

44

10

100

Segue instrução

65

30

05

100

 

Os relatos das mães do Grupo II indicaram conflitos entre os filhos na distribuição das tarefas domésticas. Nestas famílias houve maior participação dos irmãos na realização das atividades de rotina, o que já foi mencionado anteriormente. Entretanto, para que os irmãos participassem era necessário que FIR solicitasse (o que ficou evidenciado na alta freqüência da categoria Atribuição), utilizando predominantemente de ameaça. As observações confirmaram os relatos das mães, indicando que no Grupo II havia dificuldade na delimitação de papéis entre os irmãos, tendo as mães deste grupo relatado insatisfação e insegurança em deixar os filhos cuidando das atividades domésticas.

Ao considerarmos os relatos das mães sobre o relacionamento entre irmãos, observamos que a maioria enfatizou a cordialidade e afeição entre os irmãos, independente do grupo no qual a família foi classificada. Neste aspecto, embora os FIRs de ambos os grupos tenham relatado que a maior dificuldade na execução das atividades de rotina era fazer os irmãos seguirem as regras estabelecidas, foi no cuidado aos irmãos menores que FIRs relataram maior satisfação dentre as tarefas domésticas.

Além dos dois critérios centrais utilizados para o agrupamento das famílias (desempenho nas tarefas e relacionamento entre irmãos), duas outras características podem ser apontadas como indicativos de diferenças entre os três grupos: os aspectos demográficos e a escolaridade dos filhos.

Quanto aos aspectos demográficos, verificou-se que as famílias do Grupo I eram formadas pelo casal com o menor número de filhos (m=5) e a maior renda mensal (m=3 SM). As famílias do Grupo II tinham em média oito filhos e renda mensal em torno de dois e meio salários mínimos. As famílias do Grupo III eram compostas pela mãe e os filhos desta (m=6), com a mais baixa renda mensal (m=1 SM) e a menor idade de FIR (m=10 anos).

Foi acentuada a diferença entre os três grupos no que se refere à valorização da escolarização dos filhos. No Grupo I, todas as crianças em idade escolar, inclusive os FIRs, estavam freqüentando escolas da Vila Paranoá. Nestas famílias, a escolaridade era prioridade para os filhos, visto que o horário das aulas era utilizado como critério para a distribuição das tarefas domésticas entre os filhos mais velhos. Podemos supor que a freqüência às aulas pode estar relacionada com o estabelecimento da rotina doméstica nestas famílias, pois de certo modo "ir à aula" impunha horários e regras a serem cumpridas pelos membros da família.

Nas famílias do Grupo II, embora as mães tenham relatado que seus filhos estavam matriculados em escolas da comunidade, durante as sessões o registro de freqüência às aulas ficou muito abaixo das expectativas. As próprias mães comentaram ter dificuldades em regular a freqüência dos filhos à escola. No Grupo III, nenhum dos filhos freqüentava a escola.

 

Discussão

Este estudo permitiu identificar algumas variáveis relacionadas à funcionalidade das famílias. Tais variáveis estão relacionadas a características demográficas, organização familiar e rede de apoio na comunidade.

Verificou-se que as famílias que se beneficiaram com a utilização dos filhos mais velhos (Grupo I), foram aquelas que contavam com a presença do casal de genitores, possuíam o menor número de filhos, a maior renda mensal, maior escolaridade dos pais e cujos FIRs tinham as maiores idades. Nestas famílias, o modelo materno era destacado na medida em que a mãe, além de permitir a participação dos filhos nos afazeres domésticos, também utilizava de instruções para capacitá-los a um melhor desempenho. Foi nestas famílias que encontramos um melhor padrão de rotina doméstica, com regras e horários estabelecidos para as atividades a serem realizadas pelos irmãos. Também verificamos neste grupo uma melhor utilização dos recursos existentes na comunidade, com os filhos em idade escolar freqüentando as escolas da Vila. Estas famílias estavam bem adaptadas à comunidade e apresentavam autonomia em relação a promoção do bem-estar de seus membros. O relacionamento entre os irmãos mostrou-se positivo, com as famílias procurando adequar seus próprios recursos e os da comunidade na promoção do bem-estar de seus membros.

Num outro extremo encontramos famílias bastante disfuncionais (Grupo III). Tais famílias eram compostas pela mãe e filhos, com a mais baixa renda mensal e menor idade dentre os FIRs. Estas famílias não utilizavam os recursos da comunidade como apoio a seus filhos. Nenhuma criança freqüentava a escola, recusavam o auxílio de vizinhos e não buscavam apoio no posto de saúde. Podemos afirmar que as famílias deste grupo se encontravam em situação de risco, necessitando de uma assistência imediata por parte do Estado.

Entre os extremos estavam famílias (Grupo II) cujos FIRs apresentavam competência para realizar as tarefas domésticas, porém tinham dificuldades no relacionamento com os irmãos. Nestas famílias a preocupação com a sobrevivência do grupo era predominante à promoção do desenvolvimento de competências sociais em suas crianças. Havia dificuldades no estabelecimento dos papéis a serem desempenhados pelos irmãos, refletindo um modelo familiar no qual os pais demonstraram dificuldades em estabelecer limites claros aos filhos, deixando-os "desorientados" sobre o que a família esperava deles. Nestas famílias a aprendizagem ocorreu principalmente através da observação não-sistemática do desempenho materno, não havendo instruções específicas aos filhos sobre as tarefas diárias esperadas.

É importante destacar que os resultados do presente estudo são, de certo modo, específicos à comunidade da Vila Paranoá, em um determinado momento de sua história. As características das famílias aqui descritas estão relacionadas às peculiaridades do grupo social mais amplo - a Vila Paranoá: uma "invasão", com poucos moradores, em sua maioria imigrantes, baixo índice de criminalidade, alta taxa de natalidade. Num ambiente tipicamente urbano provavelmente a organização destas famílias fosse diferente. Neste estudo ficou claro que fatores de ordem social e econômica afetam a dinâmica familiar interferindo nas práticas educativas das crianças.

Estudos sobre relacionamento entre irmãos são importantes para pesquisas sobre o ciclo familiar, ajudando a compreender, por exemplo, as influências de processos migratórios, novas formas de organização familiar e o ingresso da criança no "mundo adulto". Estudos como o presente podem sugerir que irmãos sejam considerados como agentes socializadores competentes, podendo ser uma fonte de recursos para a família, orientando, estimulando e facilitando a participação dos irmãos menores nas atividades de rotina da família.

 

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Recebido em 18.03.98
Revisado em 04.05.98
Aceito em 09.09.98

 

1 Parte deste estudo foi apresentado na Twelfth Biennial Meetings of ISSBD, Recife, Pernambuco, julho de 1993.
2 Endereço para correspondência: BR 316, Km 02, Condomínio City Park, casa 05, Atalaia, 67013-070 Belém, Pará. Fone/Fax (091) 235-3902 E-mail: hubble@amazon.com.br