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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.1 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000100013 

A habilidade para diferenciar se de quando1

Maria da Graça Bompastor Borges Dias2
Renata Bahia Vanderlei
Universidade Federal de Pernambuco

 

 


Resumo
Bowerman (1979) e Reilly (1986) argumentam que o condicional se, apesar de ser morfológica e sintaticamente similar às orações que envolvem por exemplo e, quando, porque, assim, e também possuir significados semelhantes, ele é o último a aparecer nas produções das crianças. O se é utilizado em situações cuja ocorrência é possível porém incerta; e quando em eventos que apresentam maior grau de certeza. Procurou-se identificar em que idade as crianças são capazes de distinguir o significado de se e quando no caso em que são sinônimos e naqueles que não podem sobrepor-se. Crianças de 3 e 5 anos foram apresentadas a diferentes tipos de sentenças condicionais (preditivas presente e passado) iniciadas por se e por quando. Deveriam identificar dentre três desenhos qual representava o que havia sido lido. Aos 3 anos são capazes de identificar sentenças nas quais os dois são sinônimos. Já em sentenças nas quais se e quando não são sinônimos, o desempenho das crianças decresce, principalmente naquelas envolvendo se. Uma das explicações seria que o temporal quando geralmente faz afirmações sobre eventos do mundo real e o condicional se especifica situações hipotéticas cujas habilidades envolvidas surgem mais tarde.
Palavras-chave: Condicional se; temporal quando; sentenças preditivas; situações hipotéticas

The ability to differenciate if from when

Abstract
Bowerman (1979) and Reilly (1986) argued that constructions using the conditional if, albeit being similar morphologically and syntactically to sentences that involve, for example, and, when and because, and also having similar meanings, are the last to appear in children’s productions. If is used to express situations whose occurence is possible but unsure; whereas when is used to express events that present a higher grade of certainty. We tried to identify in what age children are able to differenciate the meaning of if and when in cases where they are synonyms and in case where they cannot be superposed. Three and 5 year-old children were presented different classes of conditional sentences (predictive, present, and past) which started with if and when. Children identified among three pictures which one represented what had been read. Three year-olds were able to identify sentences in which the two are synonyms, but when they are not (predictive and past), children’s performance in both age groups decline, mainly with the sentences involving if. One of the explanations is that the temporal when usually expresses affirmations about events of the real world, whereas the conditional if specifies hypothetical situations that involve abilities which develop later.
Keywords: Conditional if; temporal when; predictive sentences; hypothetical situations.


 

 

Fazer inferências para integrar informações constitui uma parte básica da cognição humana. As inferências são feitas regular e rotineiramente em várias e diferentes ocasiões: quando se está raciocinando, conversando ou lendo. Os diversos tipos de inferências incluem as que envolvem condicionais, conjunções, disjunções e negações, representadas pelas palavras se, e, ou e não.

A importância do condicional "se" tem sido propagada por muitos. É chamado o "coração da lógica" (Anderson & Belnap, 1975, p.1) e considerado como constituindo a forma de princípios científicos (e.g. Hempel, 1965). Para Braine e O’Brien (1991), "se é psicologicamente mais rico que outros conectivos, como e e ou, porque o processo de suposição é crucial para seu significado. Por esta razão, se tem importante relação com o faz-de-conta e a fantasia como também com o levantamento de hipóteses e a dedução lógica" (p. 182).

Limber (1973) e Bloom, Lahey, Hood, Lifter e Fiess (1980) encontraram que crianças de 3 anos de idade são capazes de usar o se em sentenças complexas. O uso apropriado dos condicionais também foi demonstrado por French e Nelson (1981, 1982). Reilly (1983) descreve a forma sintática básica para todos os condicionais como sendo "Se X, então Y".

"É uma sentença complexa composta de uma oração adverbial subordinada, o antecedente, que é marcada com o subordinador se e a principal oração, o conseqüente que pode, mas não necessariamente, começar com então. Dentro desta estrutura básica "Se X, então Y", X é algum tipo de condição no qual Y depende. O relacionamento obtido entre estas duas orações tem sido descrito como implicação ou vinculação lógica". (p.2)

Tanto na gramática inglesa quanto na portuguesa o então pode ser omitido, como por exemplo: "Se Rodrigo tomar mais sorvete hoje, ele certamente estará resfriado amanhã", ou "Rodrigo estará certamente resfriado amanhã se ele tomar mais sorvete hoje".

A função básica de um condicional é predizer uma contingência não realizada.

Várias são as classificações de condicionais (ver por exemplo; Brown, 1973; Bloom, 1970; Bowerman, 1973). Reilly (1983) descreve a classificação de Schachter (1971) por ser, para ela, aquela que oferece um quadro ideal para se ter uma visão do processo de aquisição dos condicionais.

Nesta classificação os condicionais são divididos em dois grandes grupos; "Condicionais Reais" que envolvem conteúdos reais e "Condicionais Irreais ou Imaginativos" referentes a eventos irreais (ver Figura 1).

 

CONDICIONAIS

REAIS ou SIMPLES IRREAIS ou IMAGINATIVOS
Presente Preditivos
Passado Imaginativos { Hipotético
Genérico Contrafactuais { Subjuntivo
Verdadeiro

Figura1. Classificação dos Condicionais

 

Os três tipos de condicionais reais caracterizam-se como segue:

1. Condicionais Presentes: referem-se a eventos que ocorrem no tempo da expressão. Por exemplo: Se João está na cozinha, ele está comendo.

2. Condicionais Passados: referem-se a eventos que já ocorreram. Por exemplo: Se Lúcia não foi ao cinema, Carlos foi.

3. Condicionais Genéricos: São sentenças sem dependência de tempo. Por exemplo: Se a criança está doente, não vai à escola.

As características dos condicionais Irreais são as seguintes:

1. Preditivos: conjectura a ocorrência de alguns eventos no mundo real e em um tempo real. No entanto, eles referem-se a algo que ainda não ocorreu, que pode ser possível de ocorrer mas não é certo. Por exemplo: Se Érica chegar, eu lhe darei um sorvete (Érica pode vir ou não). Este tipo é classificado por Schachter (1971) em alguns casos como fazendo parte dos Reais ou Simples.

2. Imaginativos:

a) Hipotéticos: indicam situações que poderiam ocorrer mas em que não são exigidas suas ocorrências no mundo real no tempo do ato falado. Por exemplo: Se ele levasse toda esta chuva, ele ficaria doente

b) Contrafactuais: - Subjuntivos: envolvem situações que não podem ocorrer. Por exemplo: Se eu fosse um passarinho, eu poderia voar. Deve-se salientar que nos condicionais contrafactuais o antecedente é fortemente negado.

- Verdadeiros: situações que poderiam, mas não ocorreram. Por exemplo: Se eu tivesse ido à festa, eu teria encontrado Sílvia.

Com esta classificação como referência, Reilly (1983) reviu dados experimentais e naturalistas com o objetivo de investigar como o sistema condicional é adquirido na língua inglesa. Um sumário dos resultados por ela encontrado é apresentado na Tabela 1:

 

Tabela 1. Sumário da sequência de aquisição dos condicionais

X

Tipo

Idade

I -

Presente

2,6 / 3,2 a 3,9

X

Preditivos

2,6 / 3,2 -

II -

Hipotéticos especificamente para faz-de-conta

3,0 -

III -

Compreensão genérica de hipotéticos e contrafactuais usados em poucos contextos especializados

4,0 -

IV -

Morfologia distinta para contrafactuais aparece em respostas a tarefaz

6,0-

V -

Morfologia contrafactual completa aparece em respostas a tarefas

8,0-

 

Bowerman (1979) argumenta que apesar de se "ser morfológica e sintaticamente similar às sentenças com conjunções tais como e, quando, porque, assim, etc, e dividir certos elementos de significados com estes, ele é o último a aparecer" (p.286).

O se é usado em eventos cuja ocorrência é possível mas incerta e o quando em situações que oferecem um maior grau de certeza, como enfatiza Reilly (1986).

"Possibilidade e suposição, como sinalizado por se, existem em ambas situações reais e irreais ou hipotéticas, e consequentemente sentenças condicionais são usadas para se referir a ambas situações reais e irreais. Em contraste, fato, como sinalizado por quando, é restrito ao mundo real, ou pelo menos a eventos que o falante acredita ser verdade". (p.312)

O quando pode ser usado excepcionalmente como irreal, destaca a autora, em casos onde pistas lingüísticas fazem o sujeito entrar num mundo de fantasia e deixar a realidade de lado. Por exemplo: "Era uma vez.." ou "Há muito tempo atrás..."

Em certos casos, o quando e o se são quase sinônimos, como por exemplo:

- Se você coloca água no sonrisal ele borbulha

- Quando você coloca água no sonrisal ele borbulha

Em outras orações o grau de certeza e expectativa são diferentes. Por exemplo:

- Quando Marcelle chegar, iremos ao cinema

- Se Marcelle chegar, iremos ao cinema

Existem diferentes graus semânticos de sobrepor quando e se, além dos indicados nesses dois exemplos. O primeiro exemplo refere-se aos condicionais reais que se referem ao presente e o segundo aos condicionais preditivos.

A mesma diferença de grau de certeza e expectativa é esperada nos condicionais no passado. Por exemplo:

- Quando choveu no inverno passado, a colheita do Sertão foi boa.

- Se choveu no inverno passado, a colheita do Sertão foi boa.

Na 1ª oração o quando (temporal passado) indica que o antecedente de fato ocorreu. Na 2ª o condicional passado é apenas uma suposição do antecedente, uma possibilidade.

Os tipos preditivo e reais no tempo passado de condicionais classificados por Schachter (1971), seriam de grande valor para investigar a ocorrência de sua diferenciação com as orações temporais preditivas envolvendo quando. Como já foi dito, o se como preditivo tem o significado de que o evento pode ocorrer porém é incerto, enquanto ao utilizar quando o evento deve ocorrer, não sendo apenas uma possibilidade, mas uma certeza.

Neste sentido, nas sentenças hipotéticas e contrafactuais não há permutação entre o quando e o se. Por exemplo:

- Se Rosa fosse um peixe, ela viveria na água

- Se Rosa tivesse sido um peixe, ela deveria viver na água

Nestes casos o quando não pode substituir o se (exceto no mundo de fantasia como explicado na página anterior). Assim, apenas o se é usado nos condicionais irreais ou imaginativos (hipotéticos e contrafactuais).

Em um estudo naturalístico com 4 crianças de 1 a 3 anos e meio de idade, e um estudo experimental com 28 crianças de 2 anos e 6 meses a 9 anos, Reilly (1986) encontrou que, após os 4 anos de idade, as crianças adquirem a capacidade de entender o uso do se para sentenças hipotéticas e contrafactuais (irreais) e do quando para sentenças habituais passadas (reais).

No presente estudo, perguntou-se então, em que idade a criança é capaz de distinguir o significado de sentenças que envolvem se do significado de sentenças que envolvem quando nos casos onde eles são sinônimos e nos casos onde não podem sobrepor-se.

 

Método

Participantes

Setenta e duas crianças, sendo 36 crianças entre 3 anos e 4 anos e 6 meses (média de 3 anos e 6 meses) e 36 entre 4 anos e 6 meses e 5 anos e 6 meses (média de 5 anos). Metade da amostra envolveu meninas e metade meninos. Todas as crianças freqüentavam escolas particulares que atendem ao nível sócio-econômico (NSE) médio da cidade do Recife.

Material e Procedimento

O material constava de três conjuntos, correspondentes a três tipos de condicionais (preditivo, presente e passado). Cada conjunto constou de duas situações diferentes, cada uma formada por duas frases e três desenhos (ver Anexos A e B). As duas frases ou sentenças que foram apresentadas em cada situação eram semelhantes mas uma era iniciada com o condicional se e a outra com o temporal quando.

As crianças foram entrevistadas individualmente. Para cada situação ou evento o entrevistador mostrava à criança o Desenho 1 e lia a sentença correspondente (ou começando por se ou por quando). Depois, mostrava os Desenhos 2 e 3 e pedia à criança que escolhesse um ou dois desenhos que representasse o que havia sido lido (Repetia a sentença). As frases e desenhos que foram utilizados estão nos anexos A e B para cada evento em cada conjunto. A ordem de apresentação das sentenças (se e quando) como também o Tipo de Situação e Tipo de Condicionais foram randomizadas.

Antes de mostrar os desenhos aos sujeitos, o entrevistador dava exemplos, fazendo perguntas de sondagem para detectar a certeza e a incerteza da criança acerca do se e do quando. Por exemplo: - "Se eu lhe disser: Se eu for ao cinema (preditivo), você tem certeza ou não que eu vou ao cinema. Eu posso ou não posso ir? Agora, e se eu lhe disser quando eu for ao cinema, você tem certeza que eu vou ou não ao cinema? Quando eu digo quando, você tem mais ou menos certeza que eu vou ao cinema do que quando eu digo se? Se eu disser se, posso ou não ir e se eu disser quando você tem certeza que vou? Explique. Da mesma forma foram apresentadas sentenças na forma presente (Se/quando eu como, fico sem fome), e na forma passada (Se/quando eu nadei na piscina, fiquei toda molhada).

 

Resultados

Nas Perguntas de Sondagem, das 72 crianças apenas 47 responderam corretamente uma das questões de sondagem sendo que 32 acertos ocorreram no exemplo do condicional preditivo, 8 acertos no condicional presente e 7 no condicional passado.

No experimento propriamente dito, para os Eventos 1 e 3 envolvendo passado e preditivo os acertos consistiam em escolher os desenhos de números 2 e 3, ao serem ditas as frases começando por se, visto que este conectivo não oferece grau de certeza absoluta, e apenas o desenho nº. 2 em resposta à frase começando com quando (certeza absoluta).

No caso do Evento 2, presente, a escolha do desenho nº 2 era o acerto esperado tanto para as frases começando por se como por quando, visto que nestes casos se e quando eram sinônimos e possuíam o mesmo grau de certeza.

Na Tabela 2 encontram-se as médias de acertos em cada idade em função do tipo de sentença e do Tipo de Condicional.

 

Tabela 2. Médias (e desvios-padrões) de respostas corretas em cada idade em função do tipo de sentença e do tipo de condicional

Idade

Quando

Se

Preditivo

Presente

Passado

Média Total

Preditivo

Presente

Passado

Média Total

3

0,36

0,44

0,50

0,43

0,03

0,47

0,08

0,19

X

(0,49)

(0,50)

(0,51)

X

(0,17)

(0,50)

(0,28)

X

5

0,58

0,67

0,72

0,65

0,08

0,72

0,17

0,32

X

(0,50)

(0,48)

(0,45)

X

(0,28)

(0,45)

(0,38)

X

Total

0,47

0,56

0,61

0,54

0,06

0,60

0,13

0,26

 

Os dados foram analisados estatisticamente através de uma ANOVA de medidas repetidas envolvendo Tipos de Sentença (se e quando), Tipo de Condicional (preditivo, presente e passado), Idade (três e cinco anos), e Ordem de apresentação das Situações (dois tipos de história para cada tipo de condicional). A análise produziu um efeito significativo para Tipo de Sentença [F (1,70)= 41.89, p<0.0001], Tipo de Condicional [F (2,140)= 25.30, p<0.0001], Idade [F (1,70)= 10.69, p<.002], e uma interação entre Tipo de Sentença e Tipo de Condicional [F (2,140)= 19,85, p<0.00]. A Ordem de apresentação das situações não foi significativa [F(3,44)= 2,04, p.n.s.].

As médias de respostas corretas nos três tipos de condicionais com sentenças iniciadas com se e com quando foram comparadas com o Teste de Newman-Keuls. Esta análise mostrou que a média de acertos para os condicionais no presente foi significativamente maior do que para os condicionais no passado (p<.01) e no preditivo (p<.01). Este último teve também menor número de acertos do que o oferecido ao condicional no passado (p.<01).

A interação entre Tipo de Sentença e Tipo de Condicional está ilustrada na Figura 2.

 

n1a12f2.gif (2175 bytes)

Figura 2. Interação entre tipo de sentença e tipo de condicional

 

O teste de Newman-Keuls não mostrou diferenças significativas em relação às médias de respostas corretas nos três tipos de Condicionais com sentenças iniciadas por quando. No entanto, quando este teste foi aplicado àquelas sentenças iniciadas com se, verificou-se que a média de acertos para os condicionais no presente foi significativamente maior do que no passado (p<.01) e do que no preditivo (p<.01). Os últimos dois tipos de condicionais não apresentaram diferenças significativas entre si.

 

Discussão

O principal objetivo deste estudo foi identificar em que idade as crianças são capazes de distinguir o significado de se e quando no caso em que são sinônimos e naqueles que não podem sobrepor-se.

Aos quatro anos de idade as crianças são capazes de identificar sentenças nas quais quando e se são sinônimos, corroborando a revisão de estudos experimentais e naturalistas entre crianças falantes da língua inglesa realizada por Reilly (1983).

Nos casos em que o condicional se e o temporal quando não são sinônimos (preditivo e passado), a performance das crianças tanto de três quanto as de cinco anos de idade decresceu, principalmente nas sentenças iniciadas com se. Vale salientar que como no estudo de Bowerman (1986) o futuro preditivo para as sentenças iniciadas com quando emerge antes do que com aquelas iniciadas por se. Este mesmo fato ocorreu no presente estudo com as sentenças no tempo passado.

Além do estudo de Amidon (1976), com crianças mais velhas, encontramos apenas o estudo de Bowerman (1986), que compara diretamente temporais e condicionais. Neste último, a autora compara a produção espontânea (e não o desempenho em tarefas como no presente estudo) de três crianças entre dois e três anos de idade com o objetivo de verificar se quando coincide com a certeza de algo ocorrer e se com a incerteza. Os resultados parecem sugerir que, no futuro preditivo, as crianças são capazes de selecionar entre quando e se com base no fato da situação poder ser esperada com certeza ou não.

Vale salientar que os dados contidos no quadro de seqüência de aquisição dos condicionais, sumarizados por Reilly (1983), foram coletados em situações naturalísticas de brincadeira. Já os dados experimentais advém de tarefas onde o experimentador perguntava por exemplo: "O que acontece se você comer três sorvetes?" O que poderia licitar uma, resposta no presente: "Você fica doente" (presente ou genérico), ou uma resposta no futuro simples: "Você ficará doente" (preditivo). Talvez por serem estas tarefas mais simples, sem a necessidade da criança refletir sobre sua escolha, elas tenham levado a demonstrar que a aquisição de certos condicionais apareceriam mais cedo do que no presente estudo. Neste, a tarefa exigia que a criança fosse capaz de diferenciar além dos graus de certeza e expectativa, as situações nas quais o se e o quando eram ou não sinônimos.

De qualquer forma, Bowerman (1986) enfatiza que a construção de sentenças com se surge mais tarde na linguagem das crianças. Uma das hipóteses levantada para este fato (ver Bates, 1976), seria que quando geralmente faz afirmações sobre eventos do mundo real. Em contraste, o se especifica situações hipotéticas. E esta capacidade de pensar hipoteticamente surge mais-ou-menos aos 4 anos de idade (ver Dias & Harris, 1988, 1990; Dias, 1996; Kuczaj & Daly, 1979). Antes disso, as crianças estão ainda ligadas aos fatos do mundo real, não concebendo situações contrárias à realidade. Por volta dos 4 anos de idade as crianças já são capazes de criar mundos imaginários diferentes do real (Leslie, 1987). Nestes "mundos" todos os eventos são assumidos como possíveis e verdadeiros (Goffman, 1974). Assim, as crianças são capazes de lidar corretamente com questões hipotéticas mesmo que sejam contrárias ao dia-a-dia. Quando este desafio for alcançado (suspensão da realidade), o se será usado adequadamente, podendo ser diferenciado das sentenças que envolvem quando.

 

Referências

Amidon, A. (1976). Children’s understanding of sentences with contingent relations: Why are temporal and conditional connectives so difficult? Journal of Experimental Child Psychology, 22, 423-37.        [ Links ]

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Bloom, L. (1970). Language development: Form and function in emerging grammars. Cambridge, Mass: MIT Press.        [ Links ]

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Recebido em 27.07.98
Revisado em 10.11.98
Aceito em 15.12.98

 

1 Pesquisa financiada pelo CNPq e FACEPE.
2 Endereço para correspondência: Av. Beira Mar, 520, ap. 81, Piedade, Jaboatão, PE, 54310-064 - Fone: (081) 361-2319, Fax (081) 271-1843, E-mail: Mdias@npd.ufpe.br

 

Anexo A

Conjuntos de sentenças para cada tipo de Condicional

*Conjunto 1 - Preditivo

Situação 1

* Se eu der banho no meu cachorro, ele ficará limpo
* Quando eu der banho no meu cachorro, ele ficará limpo
Desenho 1: O menino com o cachorro e uma bacia d’água ao lado e uma escova.
Desenho 2: O menino com o cachorro limpo
Desenho 3: O menino com o cachorro sujo

Situação 2

* Se estiver chovendo, eu uso uma sombrinha
* Quando estiver chovendo, eu uso uma sombrinha
Desenho 1: A menina dentro de casa com a sombrinha fechada ao lado
Desenho 2: A menina na chuva com a sombrinha aberta
Desenho 3: A menina no jardim ensolarado com a sombrinha fechada no chão

* Conjunto 2 - Presente

Situação 1

*Se eu fico doente, vou ao médico
*Quando eu fico doente, vou ao médico
Desenho 1: O menino deitado no sofá
Desenho 2: O menino no consultório médico
Desenho 3: O menino brincando no jardim de sua casa

Situação 2

* Se eu jogo futebol, eu me sujo todo
* Quando eu jogo futebol, eu me sujo todo
Desenho 1: O menino com os amigos entrando no estádio
Desenho 2: O menino todo sujo
Desenho 3: O menino limpo

* Conjunto 3 - Passado

Situação 1

* Se a menina brigou com o irmão, ela ficou de castigo
* Quando a menina brigou com o irmão, ela ficou de castigo
Desenho 1: A menina e o irmão no sofá assistindo TV
Desenho 2: A menina de castigo (Sentada de frente para a parede)
Desenho 3: A menina no balanço

Situação 2

* Se Joana viajou, ela foi para a Disneylândia
* Quando Joana viajou, ela foi para a Disneylândia
Desenho 1: Joana no Aeroporto
Desenho 2: Joana na Disneylândia
Desenho 3: Joana em casa vendo TV

 

Anexo B

Desenhos

I

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II

n1a12ab2.gif (26730 bytes)

III

n1a12ab3.gif (27647 bytes)