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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.1 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000100016 

Relato de Experiência

Oficina de informática com meninos e meninas de rua: relato de uma experiência1

Claudia Rabello de Castro
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Maria Lucia Seidl de Moura2
Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Armando Ribeiro
Projeto Se Essa Rua Fosse Minha

 

 


Resumo
Há evidências, tanto da dificuldade de meninos e meninas de rua em conseguir escolarizar-se, como de que valorizam a escola, embora não sejam bem sucedidos nela, o que faz com que se sintam incapazes como aprendizes. O computador pode ser pensado como instrumento mental, com status de bem de consumo valorizado, associado a domínio da tecnologia e sofisticação intelectual, e ser uma via para reintroduzir a aprendizagem formal, de forma não associada a fracassos anteriores. Dez meninos e meninas, atendidos por uma instituição não governamental, participaram de uma oficina nesse sentido. A proposta - de aprender a usar o computador para escrever suas estórias, com a meta de elaborar uma publicação - visou propiciar mudanças sócio-cognitivas e no vínculo com a aprendizagem formal. A experiência parece ter sido bem sucedida em alguns aspectos e é relatada neste trabalho. Experiências como esta podem ser ampliadas e usadas como facilitadoras na reintegração de meninos e meninas de rua em ambientes de aprendizagem formal.
Palavras-chave: Meninos e meninas de rua; aprendizagem; computador

Computer workshop with street children: report of an experience

Abstract
Research findings show that street children have difficulties and are not successful in school, although, at the same time, they value it. This generates feelings of being incapable of learning. Computers can be considered as mental instruments, having a status of a valued consumer good, associated to technological development and intellectual sophistication. For those reasons, they can be used to introduce formal learning again in a way not associated to previous failures. Ten adolescents assisted by a non-governmental organization, participated in a workshop with this aim. It was proposed to them to learn how to use a computer to write and publish their own stories. The objectives were to facilitate socio-cognitive changes and to improve their relationship with formal learning. This workshop seemed to have been successful in some aspects and it is described in this paper. Experiences such as this one can be amplified and used to facilitate reintegration of street children in formal learning environments.
Keywords: Learning; street children; computers.


 

 

Não é novidade a dificuldade de meninos e meninas de rua em diferentes países em conseguir escolarizar-se (Aptekar, 1996; Swart-Kruger & Donald, 1996; Castro, 1990; 1995; Keifenhein, 1994; Verma, 1994). Poucos conseguem aprender a ler e escrever e, mesmo assim, de forma precária, pois não dominam a habilidade de ler e compreender textos simples. Se observa ainda que não estabelecem vínculos com a escola e com a aprendizagem formal (vide, por exemplo, Keifenhein, 1994, na Alemanha). Como relata Verma (1994), sobre a situação na Índia, que não parece muito diferente do Brasil neste aspecto, "A maioria é analfabeta e sem nenhum treinamento específico, sem opções de educação e capacitação. Não têm nem os recursos nem a motivação de ir à escola" (p. 3).

Embora suas experiências sejam frustrantes em função das dificuldades de freqüência integral e da vivência de sucessivas repetências, que fazem com que se sintam incapazes para aprender, a experiência de alguns educadores indica, no entanto, que muitas dessas crianças valorizam a escola e têm aspirações a oportunidades educacionais (Tyler & Tyler, 1996). Não há evidências de que não sejam capazes de acompanhar o ritmo da escolaridade sistemática. Algumas experiências têm tido sucesso na escolarização e profissionalização desses meninos e meninas (Rabello de Castro, 1990; Leite, 1991; Bandeira, Koller, Hutz & Foster, 1996). A escola Tia Ciata no Rio de Janeiro, voltada para o atendimento específico de meninos e meninas e meninas de rua, obteve uma média de escolarização de 80% de seus 500 alunos entre 1986 e 1989 (Leite, 1991). Parte deste sucesso é atribuída à utilização de métodos que levam em conta a cultura dos alunos no planejamento das atividades escolares (Rabello de Castro, 1990).

Em pesquisa (Bandeira e colaboradores, 1996) na qual foram investigados os efeitos de um projeto profissionalizante no desenvolvimento psicossocial de adolescentes em situação de risco3, foi aplicado o teste de Matrizes Progressivas de Raven para medir a inteligência dos adolescentes - sua capacidade de solucionar determinados problemas -, no início e após oito meses de participação efetiva no projeto. Foi observado um aumento significativo na média de acertos da segunda testagem, embora o Q.I. (quociente de inteligência) médio tenha sido baixo para a faixa etária. Sem entrar em considerações sobre a adaptabilidade do instrumento para a população estudada e a possível influência de fatores culturais, esses resultados indicam que, em condições favoráveis, o desempenho cognitivo dessa população pode apresentar mudanças positivas, mesmo em períodos de tempo relativamente curtos.

Na rua essas crianças não precisam de habilidades normalmente valorizadas pela escola, mas desenvolvem outros recursos, ou, esperteza, como consideram educadores especializados (Aptekar, 1994; Tyler, 1994). Essas crianças fracassam na escola, mas apresentam habilidades e competências que permitem sua sobrevivência nas ruas, às vezes desde que são bem pequenos.

O problema é complexo e a reinserção dessas crianças e jovens na sociedade tem mobilizado diversos segmentos. Um dos aspectos que complicam esta situação é que se verifica uma dificuldade preliminar no próprio contato com essas crianças, que fazem parte de grupos semióticos diferentes daqueles a que pertencem os que estabelecem os currículos escolares. Isso contribui para seu isolamento e restringe suas oportunidades. A apropriação por parte desse grupo dos códigos desenvolvidos na escola - interpretada como a apropriação da leitura e escrita lato sensu - possibilitaria o engajamento social necessário à melhoria de sua qualidade de vida.

Partindo da experiência de dois dos autores como educadores de meninos e meninas de rua, pensou-se em criar um ambiente facilitador de trocas, para que pudessem ser criadas oportunidades de renovação dos vínculos de um grupo de meninos e meninas de com a aprendizagem formal e com a escola, não contaminadas por fracassos anteriores.

Considerando-se a noção de instrumento mental para Vygotsky (1984) e a importância que este autor atribui à linguagem como tal, pensou-se em focalizá-la nesse espaço de aprendizagem. Entretanto, o ensino formal da língua escrita esbarraria em dificuldades decorrentes de uma história anterior desse grupo, que se supõe não ser muito bem sucedida. O contato com o projeto do laboratório de informática, do Museu da República, trouxe a inspiração para a saída desse impasse.

O computador, conforme discutido por outros autores (Lévy, 1993; Jonassem, 1988), é uma nova ferramenta e, ao mesmo tempo, um instrumento mental tal qual a linguagem. Além disso, tem um status de bem de consumo valorizado e a imagem vinculada ao domínio da tecnologia e à sofisticação intelectual. Esta pode ser uma via para introduzir a aprendizagem formal para meninos e meninas de rua, de forma nova, valorizada e não associada a fracassos anteriores.

Tomando os pressupostos da abordagem sócio-cultural de desenvolvimento, considera-se que os indivíduos negociam significados com os outros com quem interagem e, nesse processo de negociação, se transformam. Newman, Griffin e Cole, em sua obra de 1989 - designam esse espaço de negociações Zona de Construção. As mudanças nela ensejadas são explicadas pelas trocas onde significados são compartilhados e que são marcadas pela característica de indeterminação da fala, que permite diversas interpretações. Quando essas interpretações são colocadas em confronto na interação, há a possibilidade da troca argumentativa.

Assim, o espaço ou zona de construção que se pretendeu criar envolve múltiplos atores e instrumentos. No primeiro caso, são parceiros: o grupo de meninos e meninas e os educadores. São instrumentos: o computador - mais especificamente, um processador de texto - e a linguagem escrita. Supõe-se que as múltiplas possibilidades de interação - meninos e meninas entre si, com os diversos educadores, com o computador, - podem propiciar transformações interpessoais e intrapsíquicas e ensejar mudanças em todos os parceiros. Tem-se consciência de que esta não é senão uma intervenção exploratória e pontual, numa situação social de grande gravidade e complexidade, como já apontado, mas acredita-se que seu relato pode contribuir para o desenvolvimento de experiências mais abrangentes.

Assim, o objetivo deste trabalho é relatar a experiência de uma oficina de informática, com ênfase na capacitação no uso de um gerenciador de texto (Word), observando algumas transformações sócio-cognitivas por ela ensejadas em um grupo de adolescentes, que vivem em situação de risco e são atendidos por uma organização não-governamental: o projeto Se Essa Rua Fosse Minha.

 

Relato

Grupo participante

Participaram da experiência 10 adolescentes de ambos os sexos, aqui denominados de meninos e meninas, atendidos no Projeto Se Essa Rua Fosse Minha e que participavam de uma oficina sobre escrita. A Tabela 1 a seguir apresenta algumas das características desse grupo. Nenhum deles freqüentava a escola no início do estudo, sendo que um deles relata nunca ter estudado em uma escola.

Todos permanecem na rua a maior parte do dia, freqüentando, por algumas horas, a sede do Se essa rua fosse minha. À noite, apenas duas meninas vão dormir em suas casas: uma delas com a mãe (Paula) e a outra com os avós (Beatriz). Cinco dormem em um abrigo público, um numa casa de atendimento a esta população denominada de Casa da Vila (pelo bairro em que está localizada - Vila Isabel), que pertence ao Projeto "Se Essa Rua Fosse Minha" e os dois restantes dormem na rua.

 

Tabela 1. Características do grupo estudado

Nome4

Idade
Relatada (anos)

Última série completa

Moradia atual
(durante o dia e à noite)

Aldo

15

rua / abrigo à noite

Andréa

13

rua / abrigo à noite

Beatriz

15

rua / avós

João

16

rua / rua

Julião

16

3ª e

rua / abrigo à noite

Lauro

13

Nenhuma

rua / casa da vila

Luana

14

rua / abrigo

Milton

15

rua / abrigo

Neli

15

rua / rua

Paula

17

rua / mãe

 

Procedimentos

A idéia da oficina gerou muito interesse quando foi proposta e a demanda levou ao estabelecimento de alguns critérios para escolha dos que preencheriam as dez vagas, o que foi feito junto aos profissionais da instituição. Foram levados em conta a antigüidade na instituição, a freqüência às oficinas oferecidas (não só a de leitura) e um nível de alfabetização mínimo, que permitisse aos meninos operar de forma mais ou menos independente os comando do computador. Apesar desses critérios, foi sugerida pelos educadores da instituição a inclusão de um menino e de uma menina que, apesar de terem ainda dificuldades para ler e escrever, freqüentavam a instituição há muito tempo e tinham uma participação ativa e interessada nas oficinas oferecidas. Aceitou-se, então, a participação desses alunos, apesar de não estarem suficientemente alfabetizados, para verificar se eles se beneficiariam ou não das trocas com os variados parceiros tanto no desenvolvimento da leitura e escrita como da própria operação da máquina.

Após contatos com a instituição que desenvolve o projeto Se essa rua fosse minha e com um dos educadores, uma das pesquisadoras estabeleceu contato com os responsáveis pelo projeto de informática no Museu da República. Tendo sido manifestado interesse na realização do trabalho e tendo sido verificada sua viabilidade, as atividades começaram a ser planejadas.

Inicialmente, uma das pesquisadoras que já tinha contato com o grupo estudado intensificou sua convivência com o mesmo para que se familiarizassem com sua presença. Aproveitando uma atividade normal da oficina, colheu alguns dados antes da intervenção, da maneira mais natural possível, no ambiente da instituição.

Nos encontros com o grupo, foram realizadas com cada um dos participantes as seguintes atividades, tanto antes como depois da realização da oficina: entrevista individual semi-dirigida sobre as experiências escolares anteriores e a relação com a escola; solicitação de desenho de uma situação em que estava aprendendo alguma coisa importante.

Os desenhos foram analisados quanto aos seguintes itens: Tipo de contexto - escolar, casa ou rua; tipo de aprendizagem - formal ou informal; tipo de tutor - presente (adulto ou companheiro de idade) ou ausente; auto representação - presente ou ausente; conteúdo - escolar ou não e qual.

O trabalho a ser realizado foi apresentado como uma proposta de aprender a usar o computador para escrever suas estórias (do ângulo que desejassem). Uma meta para o grupo seria a elaboração de uma publicação com uma coletânea dessas histórias.

No Museu, as sessões duravam uma hora, eram realizadas duas vezes por semana e coordenadas pelo professor de informática e por dois educadores que já trabalhavam com os meninos e meninas (um deles que trabalha na instituição). Envolveram a introdução ao uso do computador, ao ambiente Windows, ao uso do editor gráfico Paintbrush e, principalmente, ao uso do processador de texto Word for Windows.

O trabalho nos computadores foi realizado a princípio individualmente, já que havia um computador para cada aluno. A idéia era introduzir o aprendizado em duplas quando se registrasse uma maior independência na operação da máquina. Isto, porém, não foi possível porque os meninos e meninas naturalmente determinaram seus lugares fixos em cada computador, ocorrendo inclusive conflitos em função disso. De qualquer forma, as duplas aconteceram espontaneamente, em vários momentos ao longo das sessões da oficina.

As sessões foram observadas e registradas por uma bolsista de iniciação científica. Foram realizadas 13 sessões sistemáticas de trabalho e duas sessões finais para conclusão dos trabalhos e despedida. O professor e os educadores tentaram atuar como facilitadores, apresentando algumas informações para o grupo e trabalhando diretamente com as duplas e individualmente, a partir das solicitações feitas e do encaminhamento do trabalho.

A troca e a cooperação nas duplas e entre duplas eram encorajadas e a oficina criou oportunidades para interações não só entre os meninos e meninas participantes, mas deles com cada um dos adultos. A Tabela 2 apresenta a descrição das atividades planejadas e realizadas nessa sessões e os produtos de cada uma delas.

 

Tabela 2. Sessões, tarefas e produtos

Sessão

Tarefa proposta e realizada

Produto

1

Visita ao Museu, reconhecimento do espaço externo do Museu, exposição, visita ao laboratório de informática.

X

2

Introdução ao ambiente Windows, introdução ao Paintbrush; trabalho com logotipos, cada um brincando com seu nome. Telas das mais variadas formas, bilhetes e versos.

3

Exploração da barra de ferramentas e de efeitos especiais no Paintbrush. Alguns foram explorar outros aplicativos do Windows. Foram feitas fotos. Telas com figuras geométricas, poemas

4

Escanear as fotos de cada um e trabalhar com elas no Paintbrush. Alguns não tinham vindo à aula anterior e não tinham fotos. Estes ficaram trabalhando com o Paintbrush. X

5

Trabalhar desenhos sobre o dia de Zumbi e terminar de escanear as fotos. Alguns fizeram desenhos, alguns trabalharam com suas fotos e outros escreveram cartas. Poemas, figuras com motivos africanos e cartas.

6

Terminar de escanear as fotos. Estava chovendo neste dia e muitos alunos faltaram, por isto os instrutores deixaram a tarefa livre. X

7

Primeiras informações a respeito do Word (selecionar texto, ir ao menu editar, copiar textos do Write para Word, utilizar o corretor ortográfico). Poesias, mensagens de Natal, declarações de amor.

8

Orientação sobre o computador e sobre o Word 6.0. Solicitação de produção de um texto escrito, o que foi feito pela maioria. Telas com declarações, telas puras, histórias pessoais, estórias, cartas, poesias, poesias e textos ilustrados com clipart.

9

Fazer um logotipo personalizado para colocar nos trabalhos. Três fizeram seus logotipos, os outros ficaram fazendo atividades livres como de copiar textos que tinham trazido. Declarações, história pessoal com ilustração do Clipart, cartas, poesias, slogan, slogan com declarações.

10

Continuar a articulação entre Word e Paintbrush e fazer estampa para camisa, mas a atividade foi livre, decidida por cada um. Todos aprenderam a passar os seus desenhos para o Word. Telas com textos escritos, figuras do Clipart com pequenas declarações, telas no Paintbrush, mensagem de Natal .

11

Mesma proposta da sessão anterior. Muitos realizaram outras atividades. Poesias com ilustrações do Clipart, cartas, telas com figuras do Clipart, estampas.

12

Terminar a estampa e o texto para a camisa. Alguns realizaram a tarefa proposta, mas, como em todas as sessões, é difícil fazer com que sigam exatamente a tarefa planejada. Telas no Paintbrush com figuras geométricas, com mensagens escritas contra o uso de drogas, estampas, gravuras.

13

Produzir obras baseadas no que haviam aprendido no curso, com isto as atividades poderiam se distribuir entre Word, Clipart (dentro do Word), Paintbrush. Gravuras no Paintbrush, estampas, mensagens escritas.

 

Ao final, foram avaliadas possíveis mudanças nos participantes. Nessa ocasião só foi possível ter contato com cinco dos participantes, pela grande mobilidade desses meninos e meninas, que não mantêm um vínculo muito duradouro ou estável com a instituição. No entanto, como se considerou importantes alguns dados do processo em que todos participaram, e como se tinha informações sobre alguns dos meninos e meninas com os quais não foi possível realizar segundo encontro, optou-se por não excluí-los desta apresentação da experiência.

Algumas mudanças observadas ao longo do processo

As atividades foram planejadas com o objetivo de introduzir de forma lúdica o contato com a máquina. As duas primeiras sessões foram livres, com os instrutores apresentando somente as operações básicas de entrada e saída dos programas. As atividades foram iniciadas com o editor gráfico Paintbrush. Os meninos e meninas ficaram fascinados com seus recursos e mexiam desordenadamente nos comandos, sem saber controlá-los, o que já era esperado. Operavam o mouse rápida e violentamente, fazendo riscos de todas as cores e formas, sem se preocupar em elaborar os desenhos. Esse tipo de comportamento tem sido observado em meninos de rua, que querem tudo rápido, não têm paciência para aprender e não desenvolveram na escola algumas habilidades e práticas relacionadas à aprendizagem formal. Aos poucos, entretanto, foram apresentando mais calma, pedindo aos adultos que lhes ensinassem a operar a barra de ferramentas, e passaram a elaborar de alguma forma, mesmo que inicial, os seus desenhos.

A freqüência dos meninos e meninas às sessões da oficina superou as expectativas. Eles só não compareciam se estivessem impedidos, ou por terem sido recolhidos por funcionários da prefeitura, ou mesmo presos, ou quando chovia muito e o acesso de saída do local onde estavam estava dificultado. Quando acontecia um feriado em dia de sessão, reclamavam dizendo que estavam perdendo aula e pediam reposição da mesma. Na opinião dos educadores da instituição, a oficina teve um índice de comparecimento satisfatório e melhor do que o de outros cursos e atividades propostas pela instituição.

Além do interesse revelado pela freqüência às sessões, mostravam um intenso uso do tempo nas mesmas. A duração, de uma hora, era considerada insuficiente e os incomodava e pediam para ficar mais tempo. Alguns participantes que não conseguiam terminar seus desenhos a tempo chegavam a brigar e a dizer, em tom de ameaça, que não continuariam na oficina, logo se arrependendo e solicitando para ficar mais tempo. Isto fez com que se decidisse aumentar a duração das sessões em pelo menos 15 minutos. Foi possível observar a fascinação que o computador causou em todos, através de seu olhar brilhante e pelo envolvimento nas atividades perdendo a noção da hora.

No decorrer das sessões da oficina, os participantes foram organizando aos poucos seus trabalhos de forma a serem guardados ordenadamente em disquetes. Revelavam que era importante para eles ter seus trabalhos registrados e preservados. Assim, após cada sessão, estes eram copiados e os disquetes lhes eram entregues. Além disso, mostravam grande prazer em ver seus trabalhos impressos e exibiam orgulhosos suas produções para os colegas e educadores da instituição, comentando "Fui eu quem fiz" (sic) ou "Tia, ele não tá acreditando que eu fiz isso, fala pra ele que fui eu que fiz".

Nas primeiras sessões, poucos trocavam experiências, estavam mais interessados em aprender como usar a máquina. Gradativamente trocas de experiência começaram a ser observadas, no sentido de ensinarem uns aos outros as operações o que já dominavam e, mesmo, no sentido de auxiliarem os que não sabiam escrever direito.

O fato dos textos poderem estar escritos de forma incorreta não parecia incomodá-los no início. Pouco a pouco foram percebendo a importância do texto estar corretamente escrito e formatado. Pediam, então, aos adultos (inclusive a bolsista observadora) que corrigissem os textos, o que criou a oportunidade para que fosse introduzido o uso do uso do corretor ortográfico. É interessante notar que a escrita passou a ser utilizada já no Paintbrush, que não possui recursos de edição. Assim, por uma demanda dos próprios meninos e meninas, o Word foi introduzido, para facilitar a produção de textos e sua correção e edição. Todos, sem exceção, produziram diversos trabalhos escritos, inclusive os dois que não eram completamente alfabetizados ainda. Estes pediam aos instrutores que escrevessem cartas ditadas por eles e dirigidas a seus namorados e namoradas, ou mesmo traziam para copiar cartas, poesias e letras de raps.

Uma mudança visível no decorrer das sessões da oficina foi observada na forma como se vestiam para ir para o Museu (onde elas se realizavam). No início iam sem se arrumar, muitas vezes sujos, sem banho e com roupas rasgadas. Depois começaram a revelar preocupação em estar limpos e arrumados, demostrando valorização de suas aparências. Notou-se também que todos, exceto dois que não freqüentaram a oficina até o final, se sentiram muito bem com a forma como eram tratados pela equipe e também por funcionários do Museu. Diferentemente do que acontece em seu cotidiano, eram vistos como usuários do Museu e não pessoas indesejáveis a serem mantidas a distância.

Além da aparência, foram em geral observadas mudanças também no comportamento e na atitude dos meninos e meninas, em termos de sua autoconfiança, auto-estima, tranqüilidade, capacidade de atenção e concentração em atividades, capacidade de planejamento, discurso verbal, polidez ao solicitar as coisas, e disciplina nas sessões. Essas mudanças foram observadas de forma variada em cada um dos participantes, mas se mostraram presentes em todos. Naturalmente, acredita-se que o trabalho com o computador não foi o único responsável por elas e que podem ser atribuídas a fatores diversos. Entre eles a própria metodologia empregada, em que não se exigiu mais do que podiam oferecer, e, partindo sempre de suas próprias demandas, os estimulou em suas produções, propondo atividades significativas culturalmente para o grupo, pode ter favorecido as transformações observadas.

O próprio local, o Laboratório de Informática do Museu da República, também contribuiu, pois é espaçoso, fica no centro de um parque, oferece cafezinho e água gelada e tem instalações bonitas e limpas, condições pouco presentes no dia a dia desses meninos e meninas, mesmo na instituição que os atende, localizada numa casa velha, com paredes sujas e pichadas e com mobiliário também velho e maltratado.

Entrevistas e desenhos

Mudanças, em especial em sua relação com a escola e com a aprendizagem formal, foram também analisadas a partir das entrevistas realizadas e do desenho que foi solicitado, "deles aprendendo uma coisa importante".

No contato anterior à participação na oficina, a análise das entrevistas permitiu observar a tênue relação já mencionada com a escola. Os motivos alegados para a saída da escola são muitas vezes triviais e se perdem no meio de uma multiplicidade de tentativas mal sucedidas de escolaridade. Nenhum dos meninos e meninas ou das meninas estava estudando no início da pesquisa. Alguns tinham saído da escola há pouco tempo, outros, como Lauro, afirmam nunca terem estudado: ...eu nunca tive oportunidade.

A saída da escola, como já foi dito, é atribuída a motivos vários. Para alguns, fuga, como Aldo que fugiu da escola porque Eu não gostava muito de estudar. Eu não estudava porque era de noite. Em sua fala se revela passividade e a precariedade da relação com a aprendizagem formal, seus artefatos e rotinas: ... me botavam lá. Aí eu estudava, levava o material pra lá, pra cá...aí eu perdia peça...perdi.

A exclusão por algum tipo de conduta inapropriada aparece na fala de três dos meninos e meninas. Os motivos para tal são briga com colegas, pequenos furtos ou agressões à professora. Às vezes tais acontecimentos não levam diretamente à expulsão da escola, mas parecem indiretamente conduzir a seu abandono por parte dos meninos e meninas. Assim é relatado por Andréa, por exemplo, que diz:

Porque eu briguei com uma garota, que um garoto tava conversando comigo, que era namorado da garota, mas ele queria sair comigo e eu não queria sair com ele. Eu dava só confiança pra ele. Aí, ela veio pra cima de mim, querendo tirar satisfação comigo, eu falei "Vem cá, garota! Eu não tô a fim do seu namorado não, porque eu tenho o meu namorado". Aí, ela veio assim e falou "Não, porque você tá dando em cima dele", aí eu falei "É mais fácil ele tá dando em cima de mim do que eu tá dando em cima dele", aí, aí tá bom, aí a gente caiu na porrada (risos), aí, até arranhei o meu rosto aqui, ela arranhou meu rosto aqui e eu quebrei o nariz dela, aí tá bom. Aí, eu fui e saí da escola e ela também saiu.

A gente saímos, a diretora expulsou a gente. É porque tinha um garoto também que...tava juntando a gente, juntando eu não, tava juntando ela, né? Aí, tá bom. Aí, acabou o namorado dela não ficou com ela, e queria ficar, namorar comigo (risos). Aí, ela foi expulsa só pra...deixou ela pra lá, aí, deixou eu só na escola, só pra ver como eu ia ficar de novo. Aí eu fui e fiquei, aí eu fui e namorei com ele. Tô até hoje.

João conta que a professora não gostava dele porque era bagunceiro (sic) e que: Uma vez eu peguei uma cobra e botei na gaveta dela. Mas, segundo ele, esta não foi a razão porque saiu da escola. Diz ele, ...não, eu saí porque eu quis. Ela ainda me passou de ano. Depois de tudo que eu aprontei com ela ela ainda me passou de ano. Tô me lembrando...o nome dela era Rosi, minha professora Rosi. Isso lá em São Paulo, né! João ainda faz outras tentativas de estudar, tem até apoio da namorada (que também participa das atividades do Se essa rua fosse minha), mas acaba rompendo a ligação com a escola:

Ah! Aqui no Rio não deu pra aprontar não. A minha namorada fica me segurando. A Bia da chacrinha.

Eu saí da escola porque eu saí da Vila5.

(P - Por que você saiu de lá?)

Ah! Discussões.

Também Milton menciona uma conduta que de certa forma o afasta da escola, embora alegue que provocou a situação para poder sair de uma situação da qual não gostava.

Tem mais de dois anos, mais de três anos aliás...que eu parei de estudar.

Eu não gostava lá da escola onde eu estudava.

Porque a professora lá era chata...e lá também era muito chato. Era chato pra cacete. Eu fiz um negócio lá, aí eu fui expulso (risos). Peguei dinheiro na bolsa da professora.[...] eu deixei eles vê só pra mim ser expulso, aí eles descobriram isso, eu deixei eles vê. [...] Porque eu não gostava da escola lá. Não, se eu saísse minha mãe não ia querer que eu saísse, ia obrigar a voltar de novo...por isso que eu fiz isso

Luana não parece ter tido conflitos na escola e diz ter abandonado as aulas porque saiu de casa, apesar de estar sendo bem sucedida - ... eu passei de ano e eu...eu passei pra quinta série, aí eu não voltei a estudar de novo porque foi o tempo que eu saí de casa. É a menina que apresenta o melhor nível de escolaridade (5ª série).

Falta de dinheiro e necessidade de trabalhar só aparecem na fala de dois dos meninos e meninas. De qualquer maneira, segundo Neli, o dinheiro não é a única razão, já que esta estava saindo de casa de qualquer jeito.

Foi porque minha mãe...minha mãe não tinha dinheiro pra pagar a escola...aí eu fui e saí...e também eu tava fugindo de casa.

Aí na férias ela foi...ela foi.. tinha mais eu e meus irmão aí ela foi e tirou da escola.

Só Beatriz alega ter saído por ter que trabalhar, mas esse trabalho também não tem continuidade.

O "não gostar" está presente em quase todas as falas, seja da escola, seja da professora, seja dos colegas, especialmente os mais velhos que os esculacham, como dizem. A escola que foi oferecida a essas crianças fez exigências várias e ao mesmo tempo não apresentou grandes atrativos. Para Julião, ..é questão da professora ser muito burra. A professora falava mais do que ensinava! Para Milton, como se pode ver na fala citada acima, a professora era muito chata...e lá também era muito chato. Era chato pra cacete. Uma das razões porque era chato, segundo ele, é porque o estudo era só lê, lê, lê e escrever. Ela não passava um dever diferente não. Para João,

Eu era menor, e os muleque gostava de me esculachar. [...]Não os moleque de lá, eu era novo, entendeu? Eles gostava de me esculacha, aí, eu peguei eu falei com o meu pai e saí. Aí, depois eu voltei pra casa. Aí, eu fiquei no explicador, aí eu fui e saí também. Tô até agora sem estudar

É interessante que, esta mesma escola que não os atrai e que os exclui, ainda é, de certa forma desejada. Praticamente todos falam de algum plano de voltar.

(P - Você pensa algum dia voltar a estudar?)

De manhã.

(P - Você vai voltar pra escola?)

Eu vou, se a tia Cristina vai lá ver minha vaga, como que tá, aí eu vou estudar.

(P - Você gosta de estudar?).

Eu gosto.(Beatriz)

Vô ver se ano que vem eu vou ver se volto a estudar de novo. (Julião)

(P - E você está estudando atualmente?)

Não, por enquanto não, mas pretendo estudar. (Luana)

(P - E você vai voltar a estudar, você tava dizendo que a moça do Conselho vai te arranjar uma escola?)

É, eu pedi ele pra arrumar pra mim. (Milton)

(P- E você pretende voltar a estudar?)

Pretendo, tio Paulo falou que ia arrumar pra mim.(Neli)

Talvez ainda esperem que a escola tenha algo a lhes oferecer, como diz Neli: Pra aprender mais, poder (inaudível) o que fazer na vida, pra não ficar que nem a gente tá agora...estudar, aprender a ler direito...isso tudo. Além disso têm planos para o futuro, de realização e progresso, que incluem a escolaridade.

Beatriz quer ser aeromoça e sabe que para isso precisa estudar muito. Seus planos são de estudar, trabalhar e ajudar a minha família. Julião diz que pretende estudar...estudar, fazer um curso, trabalhar...fazer o que eu puder... Milton quer fazer um curso de computador. Para Luana, a meta mencionada é vaga a princípio, o que aparecer pra mim fazer eu faço. Tudo que me dê futuro. Ah! Um futuro melhor. Eu queria trabalhar, estudar, ter a própria casa, entendeu? ter a minha própria família também, ficar com a pessoa que eu amo...entendeu? Aos poucos, em sua fala vai elaborando suas metas:

Aí já é outra coisa, mas...meu sonho sempre foi ser professora, ou então ser entrevistadora, essas coisas assim, entendeu? Professora, eu gosto de criança entendeu? Mas pra mim ser professora...ah! eu acho um pouco chato, porque qualquer coisinha eu vou tá gritando com as crianças, as crianças (inaudível) pra fazer bagunça...num vai...vai fazer, entendeu?[...]

É eu---não seria uma boa professora. Agora o que eu queria mais é ser entrevistadora, porque ontem eu tava lá no Cemase, ficava fazendo entrevista com todo mundo sobre os negócios da violência, entendeu? Assim as coisa também da...o quê que tá achando da Casa depois que abriu, os próprios educadores, a coordenadora, eu tava fazendo um trabalho, aí a coordenadora Vanda disse que vai colocar o meu...a minha fita pra fazer um jornal.[...]

É ela falou que eu dava...que a minha entrevista que eu fiz foi ontem, aí foi a primeira pessoa, ela falou que foi nota dez, que ela dava...se fosse pra escolher que ela me colocaria assim no trabalho de jornalista, entendeu? Ah! O quê que eu acho? Estudar bastante, fazer vários cursos, por exemplo é...fazer vários cursos...curso de computador, de jornal mesmo, entendeu como é que é o que fala o que não fala...

Lauro, que não teve nenhuma experiência escolar revela planos de servir ao exército e ter uma namorada. Ele diz nunca ter estudado e ter aprendido o que sabe sozinho ou com um amigo:

Não tia, eu sabia o ABCD. Eu sabia o ABCD do começo...do A até o W.

O ABCD eu já sabia tia.

(P - Sim, mas alguém te ensinou, não?)

É, foi um amigo. Aí era só eu juntar as letras, que aí, aí eu pegava o gibizinho da Mônica e ia juntando as letras. Tudo que elas falava eu ia juntando. Aí, durante um mês eu comecei a ler.

Questionado se gostaria de ir à escola um dia responde que sim, e aponta as razões.

Ah! Tem muitas coisas, aprender mais. Já aprendi um pouco sobre a vida, agora aprender mais um pouco o português.

Saber conversar mais direito com as pessoa. Que isso eu sei, né?

Apesar dessas expectativas, as experiências com a vida escolar parecem ter levado aos que dela participaram algum dia a uma construção de uma auto-imagem não muito favorável como aprendizes. Somente Luana diz que se considerava boa aluna: Todo mundo lá da minha sala achava que eu era boa aluna. A professora também achava que eu era boa aluna. Prestava atenção na aula, era interessada. Aldo diz que era mais ou menos, Beatriz diz que não sabe, João fala que na escrita vai ..mal, péssimo, horrível e Milton diz que não é bom em leitura, porque o que tinha que aprender, sei lá... Julião, apesar de dizer que gostava da escola, fala que foi piorando como estudante: Eu num...tava...comecei na primeira eu fui bem, eu acho ... fui bem, na segunda também...eu acho, chegou na terceira eu...relaxei aí[..].Nessa época eu tinha acho que era nove anos. Aí eu comecei relaxar, relaxar, relaxar, relaxar e fui só repetindo.

De alguma maneira, o tipo de relação com a aprendizagem formal que é esboçada nas falas da entrevista se revela também nos desenhos realizados. Seis dos meninos e meninas realizaram os desenhos solicitados inicialmente: Beatriz, João, Lauro, Luana, Neli e Paula. Somente Luana produziu um desenho de uma situação escolar, na qual não se inclui, e em que são retratados um menino estudando e a professora. Todas as outras situações desenhadas são de aprendizagem informal: aprender a fazer bijuteria, a surfar, a fumar e plantar/colher. Na situação de aprendizagem só em três dos desenhos está presente alguém que ensina: no desenho de Luana é a professora, no de João é a avó (colher frutos no sítio) e no de Lauro são os colegas (surfar). No contato pós oficina, só foi possível obter os desenhos de cinco dos meninos e meninas: Aldo, Beatriz, João, Neli e Paula. Certamente os dados não são muito conclusivos e se referem a apenas cinco dos participantes do estudo. No entanto são indicadores de algumas transformações.

Observa-se que os desenhos iniciais eram de situações que não incluíam a aprendizagem escolar, e que após o período de trabalho do projeto a maioria atendeu à solicitação de desenhar uma situação em que estava aprendendo uma coisa importante representando uma situação de aprendizagem formal, sendo que em três dos desenhos está presente a aprendizagem de usar o computador.

É interessante também que quem ensina nunca é o professor. Em quatro casos quem aprende está sozinho e em apenas um está com os colegas. O desenho de Aldo, embora não seja de uma situação escolar, demonstra maior organização e riqueza. No primeiro inclui quase que apenas uma caricatura, no último, desenha uma situação de um baile funk em que se retrata como um disk jockey em um palco. O desenho tem vários detalhes e a posição em que se coloca é valorizada por ele.

As entrevistas realizadas pós oficina indicam algumas mudanças no que se refere à relação com a escola. Dos cinco entrevistados, quatro retornaram para a escola e dos outros cinco com os quais não foi possível realizar a entrevista após o término da oficina, quatro também retornaram, segundo as informações da instituição. O contato com o quinto menino foi perdido. Dos cinco entrevistados, um alega que foi matriculado e que queria estudar, mas saiu da escola porque brigou com os colegas, justificando da seguinte maneira:

Todo mundo estuda no mesmo lugar...aí eu saí...perdi a vontade, que eu não acho que eu vou pra escola pra poder ficar arrumando confusão, eu acho que escola é lugar de estudar...confusão a gente deixa pra arrumar depois que tiver...nem fora da escola, nem em lugar nenhum...acho confusão uma coisa muito besta... .

Outro menino está freqüentando a escola, mas alega que não aprende nada na escola, mas quer estudar para conseguir o que quer, ou seja, melhorar de vida "Estudar bastante, aprendi...aprender o que eu não aprendo nada no colégio...aprendo nada (...) não aprendo não."

As outras três meninas parecem gostar de estudar, mas no relato de uma delas evidencia-se uma relação ainda pouco significativa com a escola, pois teve dificuldade de lembrar o nome da escola em que estuda, "É ali no Catete...é...esqueci o nome...(risos) Tancredo Neves".

Todos associam a escola a uma melhora de vida, vendo-a como algo que demanda um grande esforço. Em seus relatos, entretanto, todos afirmam achar possível conseguir trilhar esse caminho. Nota-se, também, que seu discurso evidencia um conhecimento mais estruturado do que precisam fazer para ascender socialmente, o que não foi observado na entrevista inicial.

É, eu falei que queria ser advogada, só que não dava, eu não tava estudando, e nem tava fazendo nada. Eu gostaria de ser uma adevogada ou uma professora, mas adevogada que é melhor porque...tem muita...tem mais coisa que a gente entende, professor não, a gente quebra a cabeça e tudo.

A gente quebra a cabeça com os dever, com a diretora, dia de faltar a aula aí...e com os aluno...aí é melhor ser adevogada, que adevogada é mais fácil.

Se eu me esforçar eu consigo. Se não se esforçar não consigo não.

...mas eu queria assim e pegar...começar de baixo...tipo secretário ou coisa parecida...depois começar minha própria vida (...) com um pouquinho de boa vontade...um pouquinho de força de vontade e um pouquinho mais de estudo...e um pouquinho de responsabilidade da minha parte...acho que é possível sim.

Aeromoça.

Ah, tem que estudar bastante...só isso tia.

Ah, tem que fazer o primeiro grau, o segundo, o terceiro, aí tem que fazer...ah, tem mais coisa não tem?

Tem mais coisa pra fazer...e...ai, eu até esqueci...eu sei que tem que aprender um bocado de coisa pra ser aeromoça...

(Você está disposta a fazer esse caminho?)

Eu tô.

(Você teria vontade de trabalhar com isso (computador)?)

Sim.

O que eu tenho vontade de ser? Penso em ser esse negócio mesmo de fazer em computador mesmo, como é o nome?

Secretária.

(E você acha que você pode conseguir ser secretária?)

Acho que eu posso, né?

(O que você acha que você precisa fazer pra ser secretária?)

Estudar...e acho que fazer um curso com isso...o resto eu não sei.

Lutar, né..lutar...

Lutar pra conseguir o que eu quero.

Estudar bastante, aprender o que eu não aprendo nada no colégio...aprendo nada...

Na minha vida...sonho?

Eu sonho muitas coisas, tia, muitos sonhos, tia.

A oficina de informática, ao contrário, é uma atividade que não os constrange e da qual parecem gostar muito segundo seus relatos. Todos afirmaram querer continuar as atividades.

Achei legal...porque a gente apren...vai aprender mais...vai ter uma profissão com esse curso...que a gente tá...vai voltar a fazer.

Foi um negócio maneiro...mais uma parte que eu aprendi...me interessei, fui lá, mostrei que eu estava mesmo interessado...e fiz. Gostei pra caramba, é muito bom a gente poder encontrar pessoas que nos ensine bem assim.

Acho que eu poderia aprender mais coisas sim...o que...pelo menos o que eu já prendi...foi só uma coisa teórica...a gente...se interessar mais um pouquinho e aprender mais um bocado... que eu devia aprender e acabei não aprendendo...certo?

Eu achei bom quando eu aprendi...pouca coisa...eu aprendi umas coisinhas lá...ah! eu tô a fim de continuar o curso.

Ah, eu gostei de escrever...escrever, desenhar...

O que eu quero aprender? Bater tudo direito...aprender é...como se diz mesmo?

(Datilografia?)

É...aprender compu...aprender os negócio lá...

Então foi legal...foi bom...aprendi...só.

Eu tenho que aprender mais.

Bom...maravilhoso...bom, demais.

Nem tudo que eu esperava, aquele tempo era bom, agora espero...espero agora coisa boa...o que eu esperava não aconteceu...Esperava aprender, né...bem...bem coisa, bastante coisa...não, não consegui não...claro que não...tudo não, mas eu aprendi algumas coisas que eu não sei.

Só conheci...comecei a conhecer computador...

(tem vontade de voltar para o curso?)Voltar? Tenho.

Ué, vai aprender, né...quanto mais eu vou aprender...

O computador acena também para a possibilidade de profissionalização na fala de três deles.

E o curso é a mesma...e o curso, né, aí, já fica melhor...vai demorar, mas vai ficar melhor...que aí a gente estudando, fazendo o curso...aí fica melhor pra gente...que aí já se forma na...no curso...e se forma na escola e já vai ter um trabalho já...um trabalho já...já pronto, quando a gente...quando crescer mais... a gente já vai trabalhar em negócio de computador...que é melhor...isso que eu acho.

Eu tenho colegas meus, lá da Barra da Tijuca, que mexem com computação...uma coisa super legal, super maneiro, tipo como assim...o trabalho...o serviço de computação gráfica...

Ué, quando eu for assim num negócio que eu tiver que escrever assim no computador...porque o negócio agora é só no computador, né...aí eu sei.

Alguns expressam uma necessidade de andar mais rápido do que a escola permite e o computador aparece como meio para esse fim, como relata Neli:

"Porque se a gente não fizer...se ficar só na escola, a gente vai ter que fazer um outro...vai ter que fazer um outro curso...vai demorar um maior tempão pra gente poder se formar e ter a profissão, mas com esse curso a gente já tá...porque a gente terminando ele todo...a gente vai...já vai ter o que (inaudível)...já vai ter uma profissão...pelo menos uma tá bom..."

 

Conclusão

Os objetivos iniciais da Oficina parecem ter sido atingidos. Acredita-se que foi criado um espaço para trocas, que permitiu algum resgate da relação com a aprendizagem escolar e algumas mudanças pessoais no grupo de participantes. Nesta experiência os participantes realizaram atividades valorizadas socialmente e não vivenciaram fracasso. De alguma forma, o computador foi apropriado como instrumento e, através dele, a escrita também como instrumento.

Pode-se considerar que houve alguma retomada dos vínculos com a instituição escolar e pequenas transformações na relação dos meninos e meninas e meninas participantes com a situação de aprendizagem formal. Seu discurso em relação a objetivos, planos futuros e estratégias para conseguir realizá-los mostra-se mais estruturado, e nele associam a escola a uma melhora da qualidade de suas vidas.

Tal como previsto, o computador se mostrou um instrumento valorizado e ver-se como participando de uma atividade de "aprender informática" contribuiu para algumas mudanças. Os meninos e meninas se sentiram capazes de aprender algo que julgam importante e não um ofício pouco valorizado pelos membros da cultura dominante (por exemplo fazer vassouras ou cuidar de jardins). Considera-se que iniciativas centradas nessas atividades podem ser positivas, mas não trazem alterações significativas no sentido de aproximação desses meninos e meninas das instituições da cultura das quais se afastaram, como a escola.

Experiências como esta podem ser ampliadas e usadas como facilitadoras da reintegração de meninos e meninas de rua em ambientes de aprendizagem formal. Uma iniciativa nesse sentido foi realizada em seguida a esta Oficina, numa parceria entre a organização Se essa rua fosse minha e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, desta vez representada pelo Programa de Informática Educativa (EDAI) do Centro de Educação e Humanidades.

 

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Recebido em 07.11.97
Revisado em 12.11.97
Aceito em 19.11.98

 

1 O trabalho foi realizado com a colaboração de Marcia da Mota e Ana H. Moustaché, professoras da UERJ, no planejamento e análise de parte dos dados; de Thea Oliveira D’Angellis, bolsista, na observação das sessões e de Beatriz Prado, professora da oficina de informática do Museu da República, no trabalho com o grupo nas oficinas. Os autores agradecem a essas colaboradoras, à Profª . Jane Correa, da UFRJ, pela revisão cuidadosa e sugestões; aos meninos e meninas e meninas do grupo, com quem muito aprenderam; e às diversas instituições participantes (Se Essa Rua Fosse Minha, Museu da República e Mestrado em Psicologia de UERJ), pelo apoio recebido. Uma versão parcial deste trabalho foi apresentada no Congresso Interamericano de Psicologia, em São Paulo, em Julho de 1997.
2 Endereço para correspondência: Rua Feigl, 465, Eldorado, Jacarepaguá, Rio de Janeiro, RJ - 22750-600 Tel.: (021) 4447-1588.
3 Adolescentes ou crianças podem ser considerados em situação de risco quando "não vivem uma vida como a esperada para indivíduos de sua faixa etária" (Bandeira, Koller, Hutz, & Foster, 1996).
4 Foram utilizados nomes fictícios para garantir a anonimidade e ao mesmo tempo facilitar o relato.
5 Casa da Vila, já mencionada.