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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.2 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000200009 

Crianças com dificuldade de aprendizagem: um estudo de seguimento

Luciana Carla dos Santos12
Edna Maria Marturano
Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto

 

 


Resumo
Considerando que dificuldades de aprendizagem são fator de vulnerabilidade no desenvolvimento, intensificadas quando presentes outras condições adversas, buscou-se verificar a associação entre condições antecedentes e ajustamento atual, em adolescentes que quando crianças foram atendidos em um ambulatório de psicologia por dificuldades de aprendizagem. Os adolescentes e suas mães foram entrevistados. Dados referentes às condições de vida na época do atendimento foram obtidos em prontuários. Avaliados 41 adolescentes de ambos os sexos, com idade média de 13 anos e nove meses, foram constituídos dois grupos: G1, com nove adolescentes encaminhados a serviços de Saúde Mental por apresentarem atualmente dificuldades severas de ajustamento; G2, com dez adolescentes apresentando dificuldades mínimas de ajustamento. Comparando os grupos, observou-se maior acúmulo de fatores negativos antecedentes, familiares e pessoais, no grupo de adolescentes com pior ajustamento atual. Torna-se clara a necessidade de acompanhamento psicológico das crianças com dificuldade de aprendizagem associada a outras condições de vulnerabilidade.
Palavras-chave: Dificuldade de aprendizagem; ajustamento sócio-emocional.

Children with learning problems: a follow-up study

Abstract
Considering that learning problems are a vulnerability factor throughout child development, mainly when other adversities are present, this research investigated the association between past conditions and present adjustment in adolescents who have attended a child guidance clinic because of their learning difficulties. The adolescents and their mothers were interviewed and data related to past life conditions were taken from their files. We assessed 41 adolescents of both sexes, with an age mean of 13,8 years. Of those, two groups were constituted. The first had nine adolescents referred to mental health services because of severe adjustment problems. The second, ten adolescents with minimal adjustment difficulties. The comparison between groups showed more personal and familiar negative past conditions among adolescents with poorer present adjustment. These results point to the need for psychological follow-up of children presenting learning problems associated with other vulnerability conditions.
Keywords: Learning disability; socio-emotional adjustment.


 

 

Consideram-se dificuldades de aprendizagem aquelas apresentadas ou só percebidas no momento de ingresso da criança no ensino formal. O conceito é abrangente e inclui problemas decorrentes do sistema educacional, de características próprias do indivíduo e de influências ambientais (Paín, 1985).

Dificuldades de aprendizagem são vistas como uma condição de vulnerabilidade psicossocial (Rutter, 1987). A criança com dificuldade na aprendizagem pode desenvolver sentimentos de baixa auto-estima e inferioridade (Erikson, 1971). Dificuldades na aprendizagem escolar freqüentemente são acompanhadas de déficits em habilidades sociais e problemas emocionais ou de comportamento; essas associações se verificam, tanto quando se empregam critérios mais restritivos de identificação das dificuldades de aprendizagem (Kavale & Forness, 1996), como em abordagens genéricas do insucesso escolar (Hinshaw, 1992). Assim, essa condição, quando persistente e associada a fatores de risco presentes no ambiente familiar e social mais amplo, podem afetar negativamente o desenvolvimento do indivíduo e seu ajustamento em etapas subseqüentes.

Na adolescência, o fracasso escolar persistente traz o risco de desadaptação psicossocial associado à evasão. O abandono da escola pode levar ao sub-emprego, à probabilidade aumentada de afiliar-se a grupos marginalizados e a outras circunstâncias que restringem o acesso a oportunidades favoráveis e aumentam a probabilidade de desadaptação (Maughan, Gray & Rutter, 1985).

Estudos de seguimento confirmam a condição de vulnerabilidade de adolescentes que apresentaram e/ou apresentam dificuldades de aprendizagem. A maior parte dos estudos disponíveis trata de dificuldades de aprendizagem diagnosticadas. Os adolescentes afetados mostram mais sinais de mau ajustamento pessoal e mais comportamentos anti-sociais (Spreen, 1982), e apenas uma minoria se relaciona satisfatoriamente com seus companheiros (McKinney,1989). Um estudo de seguimento, realizado em nosso meio, indicou que uma em cada cinco crianças referidas para atendimento psicológico em virtude de baixo rendimento escolar apresentou problemas sérios de adaptação na adolescência, como envolvimento com drogas, incidentes criminais e conflitos intensos nos relacionamentos (Marturano, 1997).

A dificuldade de relacionamento é uma variável que aumenta a vulnerabilidade do adolescente com problemas na aprendizagem, dada a importância dos relacionamentos com os pares nessa fase do desenvolvimento. Por outro lado, a família e as relações parentais também afetam a vida dos adolescentes, pois os sentimentos de apego, nesta fase, devem estar seguros para promover a competência social com os pares, ajustamento emocional, auto-estima e menor dependência do suporte externo. A forma como os pais encaram a paternidade e as práticas educativas que utilizam fazem parte deste processo, que sofre a influência de diversas variáveis como características dos próprios pais, características dos filhos, contexto social, expectativas de pais e filhos, história prévia dos pais enquanto filhos, entre outras. A interação destes fatores leva a práticas parentais que agem, direta ou indiretamente, nos comportamentos, sentimentos e habilidades dos filhos (Hart, Ladd & Bulerson, 1990).

Pesquisas de seguimento realizadas entre a meninice e a adolescência apontam que crianças que apresentaram comportamentos agressivos, mesmo que controlados, naquela fase, continuavam a apresentar tais comportamentos na adolescência, sendo estes comportamentos mais intensos quando comparados com adolescentes que não haviam apresentado tais características na meninice. Parece existir ainda alta correlação entre a estabilidade de comportamentos agressivos, no período que vai da meninice à adolescência, por um lado, e por outro, maiores adversidades familiares e práticas educativas autoritárias. Indivíduos que apresentavam maior estabilidade da agressividade entre a meninice e a adolescência pertenciam a famílias que haviam passado por maiores adversidades ambientais e/ou famílias que aplicavam práticas educativas mais autoritárias, não promovendo o auto-controle em seus filhos (Feldman & Weinberger, 1994; Tremblay & Haapasalo, 1994). Adolescentes que vêm de ambientes familiares inadequados, com práticas inefetivas, aparecem como menos populares, menos aceitos pelos pares e com maior probabilidade de dificuldades no ajustamento sócio-emocional e acadêmico (Hart e cols., 1990).

Acresce que, com o passar dos anos de escolaridade dos filhos, os pais passam a monitorá-los menos. O envolvimento adequado dos pais com a escolaridade dos filhos promove não só o envolvimento dos filhos com esta, como também um melhor rendimento escolar e bom nível de auto-estima (DeBaryshe, Patterson & Capaldi, 1993). A valorização, o engajamento e o encorajamento dos pais com relação à escolaridade dos filhos promovem nos filhos a motivação intrínseca para o aprendizado, e parecem associados ao maior grau de iniciativa dos filhos em sala de aula. Em contrapartida, pais que não se envolvem, não se engajam com a escolaridade dos filhos ou cobram de maneira excessiva geram um baixo nível de motivação intrínseca e um alto nível de motivação extrínseca, sendo que estes adolescentes têm baixa iniciativa em sala de aula (Ginsburg & Bronstein, 1993).

O ambiente familiar sofre influências de diferentes variáveis, advindas de contextos com os quais pais e filhos interagem. A influência destas variáveis sobre os pais parece associada a alterações em suas práticas educativas e, consequentemente, ao seu envolvimento com a escolaridade dos filhos. Entre as variáveis que parecem interferir diretamente nas práticas educativas temos: dificuldades econômicas, dificuldades conjugais, psicopatologias parentais, estressores do dia-dia, entre outras. Estas variáveis, que agem como pressões na vida familiar, influenciam de diferentes maneiras em cada fase do desenvolvimento dos filhos (Dodge, 1990; Fauber, Forehand, McThomas & Wierson, 1990; Grych & Fincham, 1990).

Diferentes variáveis influenciam no risco de desajuste sócio-emocional e acadêmico dos adolescentes. Parece difícil uma relação direta entre uma dada variável e um problema de desajuste específico. No entanto, tem-se de forma bastante clara que, quanto maior o número de variáveis que agem de forma negativa sobre o ambiente familiar, práticas educativas e filhos, maior a vulnerabilidade dos filhos e probabilidade de apresentarem problemas de ajustamento e desempenho (Fergusson, Horwood & Lawton, 1990; Sameroff, Seifer, Baldwin & Baldwin, 1993). Assim, ao se pensar no ajustamento atual de adolescentes que, quando crianças, apresentaram dificuldades de aprendizagem, temos que considerar as variáveis ligadas à família e ao adolescente, além das novas características deste período do desenvolvimento.

Diante desse contexto o presente trabalho teve como objetivo verificar como se encontram, quanto a condições adaptativas, ex-clientes de uma clínica-escola de Psicologia, que foram atendidos em razão de dificuldades de aprendizagem e receberam alta clínica. Buscou-se verificar a situação atual desses clientes, atualmente adolescentes, quanto à escolaridade e aos relacionamentos familiares e sociais mais amplos. Procurou-se alcançar esse objetivo através de um estudo de seguimento, em que a situação pessoal atual do adolescente foi associada com variáveis presentes em dois momentos de seu percurso de vida: a) características pessoais (recursos e dificuldades) e ambientais (recursos e adversidades) relatadas por ocasião do atendimento; b) características do ambiente atual, relatadas no seguimento. Esse delineamento se baseou em dois pressupostos: o primeiro era que adolescentes com melhor adaptação atual teriam contado com condições mais favoráveis, quer pessoais, quer familiares, em seu percurso da meninice à adolescência; o segundo, que tais condições se refletiriam nas medidas obtidas em dois momentos desse percurso.

 

Método

Participantes

A amostra deste estudo foi composta de 41 adolescentes (26 meninos), com média de idade de treze anos e nove meses, e suas respectivas mães ou responsáveis. Esses adolescentes, quando crianças, haviam passado por avaliação e atendimento psicopedagógico de no mínimo seis meses, em uma clínica-escola de Psicologia, por dificuldade na aprendizagem escolar, e haviam recebido alta clínica há pelo menos dois anos (média três anos).

Instrumentos e Procedimentos

Primeira Fase: Início do Atendimento

Para a identificação dos recursos e adversidades na família e recursos e dificuldades da criança no início do atendimento, foram consultados os registros referentes às entrevistas de anamnese, realizadas durante o processo diagnóstico, de acordo com um roteiro padronizado que inclui os seguintes tópicos: queixa, história escolar, trajetória de desenvolvimento, ambiente de desenvolvimento e aprendizagem, dinâmica familiar e relacionamentos sociais. As informações foram classificadas quanto a recursos e adversidades apresentados pela família e recursos e dificuldades apresentados pela criança no início do atendimento, utilizando-se o Guia para Classificação de Recursos e Adversidades, previamente elaborado e testado por Marturano, Alves e Santa Maria (1996). Esse guia inclui as seguintes classes de recursos e adversidades na família: condições pré-natais, condições duradouras, eventos desestabilizadores, relacionamento pais-criança, sentimentos e crenças dos pais sobre a criança, práticas educativas, condições incidindo sobre a mãe, aspectos ligados ao desenvolvimento e aprendizagem, ambiente social mais amplo. Quanto às classes relacionadas aos recursos e dificuldades da criança são incluídas as seguintes áreas: funcionamento cognitivo, área escolar, humor e afetos, sociabilidade, habilidades da vida diária, comportamento funcional. Esta classificação, como as demais que utilizaram o mesmo guia, foi feita por uma auxiliar de pesquisa, psicóloga, que não participou das entrevistas e desconhecia as informações sobre os adolescentes.

Segunda Fase: Seguimento

Os instrumentos utilizados nessa fase foram um Roteiro de Entrevista de Seguimento, a Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter e o Questionário de Monitoramento Parental. O Roteiro de Entrevista de Seguimento, aplicado às mães, incluía itens referentes a evolução clínica, história escolar, novas queixas, dinâmica familiar e relacionamentos sociais. Foi testado quanto à estabilidade em duas aplicações, com vinte dias de intervalo, realizadas com duas mães. Após as entrevistas, os relatos foram classificados quanto aos recursos e adversidades em diferentes áreas da vida e funcionamento da família e do adolescente. Verificada a equivalência das duas classificações, item por item, os índices de estabilidade obtidos foram de 84% e 68%.

A Escala Comportamental Infantil A2 de Rutter, traduzida e adaptada por Graminha (1994), incluí 36 itens, fornecendo um escore global, assim como escores relativos a problemas de saúde, hábitos e de comportamento.

O Questionário de Monitoramento Parental focaliza a supervisão fornecida pelos pais aos filhos, relatada pelos filhos. Foi elaborado para esta investigação, a partir dos estudos de Goodyer, Wright e Altham (1990) e McNally, Einsenberg e Harris (1991). O questionário é composto de 32 questões fechadas. Dessas, 14 são dirigidas ao tipo de monitoramento fornecido pelo pai, 14 são dirigidas ao tipo de monitoramento fornecido pela mãe e quatro dirigidas ao tipo de monitoramento fornecido pelos pais em conjunto. O índice médio de estabilidade, alcançado em duas aplicações, com duas semanas de intervalo, feitas com três adolescentes, foi de 95%.

Foram enviadas cartas e/ou feitos telefonemas convidando os ex-clientes para uma entrevista de seguimento. Todas as famílias solicitadas concordaram, com exceção de um adolescente, tendo sido realizada a entrevista, neste caso, somente com sua mãe.

As entrevistas de seguimento foram conduzidas pela primeira autora, psicóloga com treinamento clínico, e prosseguiram da seguinte forma: inicialmente entravam na sala mãe ou responsável e adolescente; os objetivos da pesquisa eram explicados e, caso concordassem, a mãe assinava o Termo de Consentimento Informado. Os instrumentos eram aplicados em entrevistas individuais, separadamente, com o adolescente e sua mãe. Em seguida, era feita uma devolução conjunta, propondo-se, quando julgado necessário, os encaminhamentos cabíveis. Em virtude de dificuldades adaptativas detectadas durante as entrevistas de seguimento, onze adolescentes foram encaminhados para serviços de psiquiatria ou psicologia da comunidade.

Para investigar a associação entre a situação atual do adolescente e as condições pessoais/ambientais atuais, bem como entre sua situação atual e as condições pessoais e ambientais anteriores, foram constituídos dois grupos, a partir dos dados obtidos no seguimento com as mães/responsáveis e adolescentes: Grupo 1, formado pelos onze adolescentes que, por apresentarem problemas adaptativos sérios, haviam sido encaminhados a serviços de psicologia/psiquiatria; Grupo 2, composto pelos onze sujeitos que, na avaliação da entrevistadora, apresentavam os melhores indicadores de adaptação escolar e social. Para verificar a adequação desse procedimento de composição dos grupos, pediu-se a uma psicóloga com formação em Psicopedagogia Clínica que classificasse os 41 sujeitos, a partir das transcrições das entrevistas de seguimento com a mãe/responsável e com o adolescente, em três grupos, de acordo com o grau de adaptação escolar e social, forçando a classificação para que cada grupo tivesse no mínimo dez sujeitos.

Comparados os dois grupos extremos resultantes dessa segunda classificação com aqueles resultantes da classificação da entrevistadora, houve três desacordos, sendo dois no grupo dos adolescentes mais prejudicados e um no grupo considerado mais bem adaptado. Excluídos esses casos, o Grupo 1 (G1) ficou com nove sujeitos e o Grupo 2 (G2), com dez.

A Tabela 1 apresenta uma caracterização dos dois grupos e da amostra total quanto a idade, escolaridade, atraso escolar dos adolescentes, escolaridade dos pais, pais e adolescentes que trabalham, tempo decorrido entre a alta clínica e seguimento e composição familiar.

 

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Os resultados obtidos nos dois grupos foram comparados através do Teste U de Mann-Whitney (p£ 0,05).

 

Resultados

Primeiramente serão apresentados os resultados referentes às características das crianças e das famílias no início do atendimento, obtidos através da classificação dos registros das entrevistas de anamnese. A Tabela 2 apresenta os resultados da análise estatística. Nesta tabela, como nas demais, foram incluídas médias e valores de p£ 0,10 a fim de permitir não apenas a identificação das diferenças significativas entre os grupos, mas também a visualização de tendências nos dados.

 

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Observa-se na Tabela 2 que, nas variáveis onde se detectou diferença significativa, os escores referentes às adversidades das famílias e dificuldades das crianças no início são sempre maiores em G1, o grupo mais prejudicado no seguimento.

Tabela 2. Diferenças entre o Grupo G1 e o Grupo G2, no Início do Atendimento, nos Itens Recursos e Adversidades da Família e Recursos e Dificuldades da Criança

Duas variáveis mostraram resultados próximos ao nível de significância considerado no trabalho (0,05). Essas variáveis foram: dificuldade da criança quanto ao comportamento funcional, na qual G1 apresentou média maior que G2 e recursos da criança quanto à sociabilidade, na qual G1 apresentou média menor que G2.

As Tabelas 3 a 5 apresentam os resultados referentes às condições dos adolescentes e das famílias no seguimento. Esses dados foram obtidos através do Roteiro de Entrevista de Seguimento com mãe/responsável, da ECI e do Questionário de Monitoramento Parental. Observa-se na Tabela 3 que G1 apresenta um número significativamente maior de adversidades relacionadas à família e dificuldades relacionadas ao adolescente. Essas adversidades e dificuldades estão ligadas a aprendizagem, sociabilidade e relacionamentos. Quanto aos recursos dos adolescentes no seguimento, os adolescentes de G2 apresentam mais recursos relacionados à escolaridade e um maior número total de recursos.

 

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Novamente duas variáveis atingiram um nível de significância próximo ao aceito pelo trabalho; estas variáveis foram: condições adversas incidindo sobre a mãe e dificuldades da criança nas habilidades de vida diária. Em ambas, G1 apresentou média maior que G2.

A Tabela 4 mostra as diferenças entre os grupos, no seguimento, em itens relativos a problemas de comportamentos da ECI. Pode-se constatar que todas diferenças significativas dão vantagem a G2, inclusive no escore global. Segundo a padronização de Graminha (1994), quando o escore global na ECI é maior que 16, isto sinaliza necessidade de atendimento psicológico ou psiquiátrico na percepção dos pais. Uma inspeção dos dados mostrou que, dos nove sujeitos de G1, oito ultrapassaram o escore 16, enquanto apenas três dos dez sujeitos de G2 ultrapassaram este escore.

 

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A Tabela 5 mostra os dados referentes ao monitoramento que os pais individualmente ou em conjunto prestam aos filhos, na percepção dos adolescentes. Observa-se que pais e mães de G2 aparecem como incentivando mais seus filhos a serem independentes, além de conjuntamente conversarem mais com eles. Uma variável que apareceu como tendo índice de significância próximo ao considerado pelo trabalho foi o total de monitoramento das mães, no qual G2 apresenta média maior que G1.

 

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Tabela 3. Diferenças dos Itens Recursos e Adversidades da Família e Recursos e Dificuldades da criança entre G1 e G2, no Seguimento

Tabela 4. Diferenças entre os grupos G1 e G2, no seguimento, em Itens Relativos a Problemas de Comportamento da ECI

Tabela 5. Diferenças entre os Grupos G1 e G2, no Seguimento, em Itens do Questionário de Monitoramento Parental

 

Discussão

O presente trabalho teve como objetivo verificar como se encontram, quanto a condições adaptativas, ex-clientes de uma clínica-escola de Psicologia que foram atendidos por dificuldades de aprendizagem e receberam alta clínica. Procurou-se alcançar esse objetivo através de um estudo de seguimento, em que a situação pessoal do adolescente é relacionada com variáveis ambientais e características pessoais, relatadas na ocasião do atendimento e no seguimento.

A avaliação clínica dos adolescentes, no seguimento, mostrou que pelo menos um em cada cinco apresentava problemas adaptativos sérios, requerendo ajuda especializada. Esse resultado coincide com o do estudo de seguimento relatado por Marturano (1997). Comparando-se o grupo que apresentava maiores dificuldades adaptativas no seguimento, necessitando de encaminhamentos a serviços de saúde mental, ao grupo com melhores condições adaptativas no seguimento, os resultados encontrados confirmaram dados da literatura, indicando a persistência da associação entre dificuldades de aprendizagem e de sociabilidade entre a meninice a adolescência (Kavale, 1988; McKinney, 1989).

Somando-se à condição antecedente de maior vulnerabilidade pessoal na meninice, os adolescentes mais prejudicados parecem ter sofrido maior acúmulo de adversidade familiar naquela fase. Algumas condições se repetem nos dois momentos, sugerindo estabilidade em fatores negativos como adversidade crônica e problemas de relacionamento pais-criança. Sendo o contexto familiar a principal fonte externa de recursos de que a criança dispõe para lidar com a adversidade, pode-se supor que a sobrecarga de situações adversas tenha tornado menos potente o suporte oferecido pela família.

Uma variável que merece atenção especial no seguimento é a relacionada às dificuldades de relacionamento pais-filhos, que neste período da adolescência tem uma implicação ainda maior no ajustamento do adolescente. As dificuldades de relacionamento pais-filhos reforçam nos filhos a busca de companheiros que nem sempre são adequados. Existe ainda a tendência dos filhos, a repetir com os pares os modelos de relacionamento que aprendem com os pais, passando muitas vezes a serem discriminados, visto que não apresentam condutas esperadas pelo grupo de pares (Hart e cols., 1990).

Enquanto as características pessoais e familiares vinculadas às relações interpessoais parecem estáveis, diferenciando os grupos desde a meninice, as diferenças na esfera da escolaridade só aparecem no seguimento, afetando tanto os adolescentes como suas famílias. No momento atual, em relação à escolaridade, não só as dificuldades familiares e pessoais do grupo mais vulnerável são maiores, como também seus recursos são mais reduzidos. Por outro lado, o grupo mais adaptado apresenta maior diversidade de recursos, que podem estar atuando como agentes protetores. Pode-se supor que, ao longo do tempo, efeitos interacionais cumulativos entre características pessoais e ambientais tenham conduzido as crianças dos dois grupos a diferentes trajetórias escolares. As crianças com menos dificuldades pessoais/familiares puderam superar a dificuldade escolar precoce, ao passo que, naquelas com maiores dificuldades, os problemas escolares persistiram.

Os resultados fornecidos pela ECI mostram que os adolescentes mais prejudicados efetivamente apresentaram escore bem acima do ponto de corte estabelecido por Graminha (1994) como sendo indicador de problemas de comportamento. Esse grupo também apresentou maiores escores em itens como: impaciência, medo ou receio de situações novas, mentira e insegurança, que de certa forma estão relacionados a dificuldades de auto-controle e baixa auto-estima. As diferentes formas de os pais educarem e interagirem com seus filhos influem no desenvolvimento do auto-controle e de uma boa auto-estima (Brown, Mounts, Lamborn & Steinberg, 1993; Feldman & Weinberger, 1994; Fuligni & Eccles, 1993; Steinberg, Lamborn, Dornbush & Darlin, 1992; Tremblay & Haapasalo, 1994; Vuchinich, Bank & Patterson, 1992). Este fato parece claro ao observarmos os resultados do grupo mais vulnerável, onde a família, tanto no início como no seguimento, apresentou maiores dificuldades ligadas ao relacionamento pais-filhos, ficando difícil proporcionar o desenvolvimento destes sentimentos nos filhos. Estes dados parecem ainda diretamente ligados ao fato de as famílias deste grupo, desde o início, apresentarem um maior número de adversidades. Diferentes situações de stress interferem sobre as práticas educativas dos pais, fazendo com que estas se tornem menos efetivas, parecendo ter efeitos diretos no ajustamento dos filhos (Fergusson e cols., 1990).

Quanto aos itens relativos ao monitoramento dos pais aos filhos, relatado pelos adolescentes, pode-se observar que os itens com diferenças significativas entre os grupos foram o incentivo da mãe para o filho ser independente, incentivo do pai para o filho ser independente e a prática de os pais conversarem conjuntamente com seus filhos. Estes itens parecem também diretamente ligados a formas de práticas educativas. Práticas educativas assertivas são aquelas que respeitam as novas necessidades do adolescente, colocam limites claros, deixam que os filhos participem das decisões da família e comunicam a estes o porque de suas atitudes, ou seja, uma prática com autoridade e não autoritária ou permissiva. Pais que usam de práticas mais assertivas costumam ter filhos melhor ajustados sócio-emocionalmente (Brown e cols., 1993; Fuligni & Eccles, 1993; Steinberg e cols., 1992; Vuchinich e cols., 1992).

Observou-se que os resultados encontrados estão coerentes com a literatura, enfatizando a necessidade de seguimento dos ex-clientes e suas famílias, pois uma parte deles apresentou dificuldades posteriores de adaptação, sinalizando vivenciar adversidades familiares e problemas pessoais.

Nota-se, através dos resultados obtidos, que as inter-relações existentes entre o indivíduo e sua família afetam o nível de ajustamento psicossocial. A família deveria constituir a principal fonte de suporte aos filhos, já que quanto mais íntimas forem as relações, maior a probabilidade de o suporte ser efetivo. No entanto, sabe-se que muitas vezes a família torna-se a principal fonte de stress do filho (Hobfoll, Freedy, Lane & Geller, 1990). Tem-se, assim, que indivíduos que contam com mais condições favoráveis ao longo de seu desenvolvimento tornam-se melhor adaptados. Em consonância com um dos pressupostos adotados neste trabalho, verificou-se que adolescentes com melhor adaptação atual contaram efetivamente com condições mais favoráveis, pessoais e familiares, na meninice e na adolescência.

 

Referências

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Sobre as autoras:
Luciana Carla dos Santos é Psicóloga, Especialista em Problemas de Aprendizagem e Psicopedagogia, Mestre em Saúde Mental pela Universidade de São Paulo e Doutoranda em Psicologia, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto/USP. Desenvolve pesquisas sobre intervenção preventiva, orientada para o fortalecimento de habilidades de solução de problemas interpessoais em crianças com dificuldades escolares associadas a problemas de comportamento.

Edna Maria Marturano é Psicóloga, Professora Titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto/USP e Docente nos Cursos de Pós-Graduação em Ciências Médicas (área de Saúde Mental) e Psicologia, na Universidade de São Paulo/Ribeirão Preto. Coordena o Ambulatório de Psicologia Infantil do Hospital de Clínicas de Ribeirão Preto, onde mantém atividades de pesquisa, formação de recursos humanos e desenvolvimento de intervenções preventivas, focalizando crianças que vivem em situação de risco psicossocial e suas famílias.

 

 

Recebido em 31.07.98
Primeira Revisão 01.10.98
Revisão Final em 16.12.98
Aceito em 05.02.99

 

 

1Endereço para correspondência: Av. 9 de Julho, 980, Ribeirão Preto, São Paulo, 14025-000.
E-mail: emmartur@netsite.com.br .
2Apoio FAPESP.