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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.3 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000300003 

Considerações sobre a letra:
a psicose em questão 1

Ana Beatriz Freire 2
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 


Resumo
A partir da reflexão sobre a estrutura do sujeito e os mecanismos de negação deste à realidade, analisaremos o lugar que ocupa a psicose como estrutura em relação à neurose. Com esse objetivo, o texto tratará da diferença na obra de Jacques Lacan entre o significante e a letra. Para isso, comparar-se-á a definição de linguagem tal como definida pela linguística e o uso que Lacan faz desta. Por último, abordar-se-á uma reflexão sobre o nome próprio e o lugar que a loucura ocupa frente a letra e o nome próprio.

Palavras-chave: Psicanálise; Jacques Lacan; estrutura; psicose e letra.

Reflections about the Letter: Psychosis in Question

Abstract
The present paper analyzed the place occupied by psychosis as a structure in relation to neurosis, based on reflections about the mechanisms of denial of the subject in face of reality. Therefore, the text discusses the differences between the significant and the letter in the work of J. Lacan. The use Lacan made of language is compared with the definition of language, according to linguistics. Finally, a reflection is made about the proper name and the place of madness concerning the letter.

Keywords: Psychoanalysis; Jacques Lacan; structure; psychosis and letter.


 

 

Freud, em busca da etiologia das neuroses, apresenta alguns critérios para delimitar a especificidade dos fenômenos da psicose com relação aos da neurose.

A característica mais notável da formação do delírio na paranóia, diz-nos Freud (1911/1969), é um processo que merece o nome de projeção e se descreve assim " uma percepção interna é suprimida e ingressa na consciência sob a forma de percepção externa..." (p. 89).

No mesmo artigo, Freud (1911/1969) retifica esta formulação: "foi incorreto dizer que a percepção suprimida internamente é projetada para o exterior, a verdade é, pelo contrario, que aquilo que foi internamente abolido retorna de fora" (p.95). Freud volta sete anos depois, ao mesmo tema, quando analisa o caso do ‘homem dos lobos’( paciente suposto, por Freud, psicótico): "ele rejeitava a castração (....) quando digo rejeitava quero dizer que não tinha nada a ver com ela no sentido do recalque" (p.95). O que Freud delimita é uma relação com a castração que não a nega, sob a forma de recalque (Verdrängung) pois este implica necessariamente numa conservação do recalcado. No caso mencionado, Freud diz que o paciente não quer saber nada dessa realidade traumática, sequer no sentido do recalcado. Para designar esta modalidade de relação com a castração, ele emprega o termo alemão Verwerfung(que significa rejeição em Português).

Seguindo a trilha aberta por Freud, Jacques Lacan irá sustentar uma diferença estrutural entre neurose e psicose. Lacan dirá que a especificidade da psicose (com relação à neurose) se define pela rejeição da realidade da castração. O conceito que utiliza para traduzir o termo alemão Verwerfung é o de foraclusão, termo importado da terminologia jurídica onde é usado para indicar que o prazo legal de um processo está esgotado, processo ao qual não se pode mais recorrer.

Na neurose, aquilo que um dia conheceu a simbolização (o que foi inscrito,) retornará no recalcado. Na psicose, o que não veio um dia no simbólico, ou seja, o foracluído, o não inscrito, reaparece como exterior à realidade psíquica. Lacan precisa que esse foracluído não se refere a qualquer representação da realidade, mas ao que constitui esta realidade como simbólica, a saber, o Nome do Pai.

O Nome do Pai (1973-1974) tem um estatuto fundamental na teoria lacaniana na década de 50: ele designa o operador que separa, que barra, a relação da criança com a mãe, permitindo à criança vir a significá-la. Para Lacan, essa barra é, nesse período, equivalente à castração. No que concerne à psicose, a rejeição (Verwerfung) ou em seus termos, a foraclusão do Nome do Pai circunscreveria portanto o domínio do que subsiste fora da simbolização, isto é, a estrutura da psicose. Em o Seminário III (1955-1956/1981), a Verwerfung ou seja, a foraclusão do Nome do Pai, "corta rente" toda a manifestação da ordem simbólica. Este corte obrigaria o psicótico a permanecer "fixado, imobilizado numa posição que o coloca sem condições de restaurar o sentido que testemunha, e de partilhá-lo no discurso dos outros (p.153).

Em resumo, na década de 50, mais particularmente em O Seminário III, constatamos que Lacan (1955-1956/1981) redimensiona a noção freudiana elevando-a à categoria causal (de causa da estrutura psicótica) dos fenômenos da psicose.

Entretanto, mais tarde, em 1977, na Abertura da Sessão Clínica Lacan (1977) afirma, diferentemente do Seminário III, que, na psicose, podemos constatar um discurso propriamente dito, isto é, uma estrutura que apresenta os quatro elementos de um discurso: o sujeito dividido3, o objeto e também S1-S2, isto é, o que ele designa como articulação de um significante primeiro com o outro.

Ora, se os quatro elementos estão presentes no campo da psicose, poderíamos afirmar que, mesmo sob uma forma totalmente particular, existe, no psicótico, uma estrutura de discurso e uma prova de realidade, se entendermos com essa prova o momento em que o sujeito se divide diante do campo do Outro.

A partir dessas considerações iniciais, pretendemos circunscrever o que entende Lacan por estrutura de um modo geral (sem nos limitarmos em defini-la através da referência a neurose) com a finalidade de pensar a especificidade da psicose. Acreditamos que frente ao tratamento do psicótico, nos encontramos em um impasse: ou "alargamos" o conceito de estrutura ou estaremos fadados a sempre pensar a psicose como uma estrutura em falta, em "déficit," em relação à neurose. Apostando, portanto, em uma estrutura discursiva que inclua a psicose e sua direção, passaremos, a partir de então, a refletir sobre conceito de estrutura, em particular a diferença entre a origem deste conceito (na lingüística estrutural) e a apropriação específica que faz a psicanálise (a partir de Lacan). Para isso recorreremos a uma reflexão sobre o conceito de letra e sua relação com o significante, uma vez que acreditamos que, através deste conceito, poderemos, com Lacan, pensar uma "estrutura" específica da psicose.

 

O Significante e a Letra

No Seminário R.S.I, de 21 de janeiro de 1975, Lacan afirma:

O que é o sintoma? É a função do sintoma, função para ser compreendida como o faria a formulação matemática: f(x). Que é esse x? É o que o Inconsciente pode se traduzir por uma letra, enquanto que somente na letra, a identidade de si a si está isolada de toda qualidade.…todo um é suscetível de se escrever com uma letra. Sem dúvida aí precisa-se de uma convenção. Mas o estranho é que é isso que o sintoma opera selvagemente. Isso que não cessa de se escrever no sintoma aparece aí (p.43).

Nesta afirmação, à primeira vista enigmática, encontramos pelo menos um termo que merece ser definido, a saber, a letra. Entre outras questões que este termo poderia nos suscitar, destaco as seguintes: qual seria a relação entre letra e significante? Será que o "conceito" de letra tal como apresentado por Lacan a partir dos anos 70 se diferencia de seus textos anteriores como Posição do Inconsciente (1960/1966) e A Instância da Letra (1957/1966)?

Se definirmos letra de uma maneira geral como o que barra o significante em sua relação com o significado ou ao menos com o significado "preestabelecido", não teria o conceito de significante em Saussure (definido como "elementos diacríticos que formam a língua como um sistema convencional" cf. Leclaire, (1968/1986), p.62) 4 o mesmo sentido que o conceito de letra? Parece-nos que se o significante no sentido da lingüística estrutural é definido como contendo seu valor a partir de seu lugar em relação aos outros, é porque a língua é, para o lingüista, um sistema que não se apresenta, assim como o signo, como uma unidade a priori. Se para a linguística, a unidade do signo se constitui em sua relação diacrítica, o que Lacan acrescentaria com a sua definição de letra? Lacan quer com o termo letra não apenas acentuar o "obstáculo" à unidade do signo, como também apontar a operação de barra própria ao sujeito e, portanto, ao seu descentramento (o que ele designa como aphanisis do sujeito), e à sua própria irredutibilidade ao representar. Eis aqui uma preliminar diferença, pois a barra da letra não se reduz ao encadeamento de um significante ao outro ou à barra própria da significação quando do remetimento de um representante a outro, mas à barra própria do sujeito se fazer todo representar no significante.

Estas questões e reflexões preliminares nos conduzem, na realidade, a pensar a importância da noção de letra em relação à própria definição estruturalista de significante: ou a letra indica a impossibilidade de estabelecer uma relação complementar entre o significante e o significado, confundindo-se com a definição saussuriana de significante (através do estruturalismo), ou devemos alargar a noção de letra para que este possa se justificar como um conceito específico da psicanálise.

A aproximação entre significante e letra existe na própria obra de Lacan. Por exemplo no texto "Posição do Inconsciente", Lacan (1960/1966) afirma que "o significante como tal, barrando o sujeito para a primeira intenção, faz entrar nele o sentido da morte" acrescentando, entre parênteses, como se fosse uma "explicitação" desta frase, que "a letra mata, mas nós a apreendemos da letra mesma" (p.832). Aqui Lacan nos conduz a entender que letra é o que, a partir do remetimento de um significante a outro, faz barreira, obstáculo para que estes significantes, estes elementos, não se harmonizem, não formem um sistema como um todo em si (cf. definição de língua como sistema convencional em Saussure,1916/sd).

Entretanto, a não harmonia da qual fala Lacan é mais radical do que a definição de diferença como condição de possibilidade de uma estrutura, de um sistema qualquer. Não é por acaso que logo em seguida a este comentário, Lacan fala de pulsão de morte, ou literalmente, da razão "por que toda pulsão é virtualmente pulsão de morte." Parece que nesse contexto, Lacan se refere à pulsão de morte como algo da ordem de uma dispersão própria à definição da pulsão. Trata-se, bem entendido, de uma dispersão que somente a posteriori, a partir da linguagem, vai se definir como da ordem do que causa. Dito de outro modo, mesmo que situada como produto da linguagem, o conceito de pulsão de morte é, para Lacan, pressuposto como de uma ordem "pré" organização mnêmica. Este "pré" sistema pode ser postulado, em termos freudianos, como o campo pulsional que causa justamente porque não se encontra associado, vinculado - o termo freudiano é "ligação"(Bindung) - a um representante que venha organizar a pulsão como representação. Em sua releitura de Freud, Lacan quer enfatizar essa associação entre pulsão de morte e letra, insistindo que a linguagem "se separa" de um campo pulsional ao mesmo tempo que o possibilita ao "representá-lo". Trata-se aqui de um campo concebido, posteriormente com a linguagem, como campo "fora" de qualquer representação: seja representação no nível da constituição do aparelho psíquico, um para além do princípio do prazer, seja, em termos epistemológicos, a energia, em Freud, enquanto algo heterogêneo à representação e para além da representação de ciência tal como se concebia no início do século5.

É importante, entretanto, ressaltar que Lacan, neste momento, situa o não representável, algo heterogêneo ao sistema do aparelho psíquico, como algo que se encontra imanente ao campo da linguagem. Trata-se de uma linguagem não como sistema de comunicação, instrumento, meio que captura o que afeta o sujeito, mas como um sistema propriamente dito, isto é, uma articulação não biunívoca entre representante e representado e, portanto, uma estrutura onde, no interior da linguagem, algo além da representação, algo de impossível a ser representado se apresenta6. Na realidade, para Lacan, a estrutura deve ser definida não apenas através do campo simbólico (e imaginário), mas também pela articulação do símbolo com o que lhe escapa, ou seja, com o impossível de representar, o real.

Tal definição de representação está, de certa forma, em Freud. Por exemplo, quando através do conceito de Vorstellungsrepräsentanz, ele tenta dar conta da origem da representação, definindo esta menos como uma representação no sentido biunívoco, do que um sistema onde o sujeito e objeto surgem na defasagem e no desencontro entre o que faz representar e o que se quer representado, ou entre o representante da pulsão e o circuito pulsional.

Diferentemente de uma representação no sentido clássico em que o sujeito se definiria como unidade indivisa de uma relação bi-unívoca entre os objetos do mundo e suas imagens o conceito de "representante-representação", em Freud, associando a intensidade -Repräsentanz - (e portanto algo não representativo) - com a representação (Vorstellung) enfatiza o caráter de "produção", ação, operação, de condição de possibilidade do próprio representar. Nesse campo de possibilidade do representar, o recalque originário define "esse lugar tenente" (representante-representação) da pulsão mais como possibilidade de sentido (há um sentido) do que como sentido dado a priori ("do sentido que há) 7. E se Lacan reintroduz esse conceito difícil - como todo conceito sobre a origem - de Vorstellungsrepräsentanz, só depois, isto é, a partir do tempo do significante secundário (como tempo a posteriori) é porque esse representar, que se constitui na sua origem, traz inerente à sua definição um sujeito - que surge por definição dividido, produto da própria "afânise", intervalo da relação entre representação e representado - e um objeto como o que escapa desta operação, objeto vazio, ou, em seus próprios termos, objeto a.

Com a categoria da linguagem, Lacan radicaliza a separação do sujeito com aquilo que o afeta introduzindo uma causalidade que se diferencia de um processo de formação de uma totalidade harmônica e bem integrada deste sujeito com o meio (como, por exemplo, o conceito de adaptação ou integridade entre organismo e meio). Neste sentido seu "aforismo" "o significante é a morte da coisa" parece apontar para o significante enquanto suporte da diferença, isto é, uma diferença que distintamente de uma representação clássica, se define na constituição da linguagem, no fato de esta ser constituída pela irredutibilidade da imagem ao objeto ou, em termos pulsionais, pela impossibilidade de um objeto vir a satisfazer, completar (plenamente) a pulsão. Trata-se do significante como aquilo que suporta a diferença em um sistema (identidade), pois sem a linguagem não poderíamos sequer pensar a diferença 8.

Entretanto, até este ponto, parece que lingüística e psicanálise se encontram. De fato, para Lacan, assim como para a lingüística e o estruturalismo, o significante, por definição não idêntico a si mesmo, só se define por sua relação diferencial com os outros - daí o conceito de sistema, como identidade da diferença. Porém, se Lacan (1960/1966) já enfatizava, em "Posição do Inconsciente", o caráter de significante como letra que mata a apresentação da coisa apresentada é porque - como o conceito de pulsão de morte em Freud - o disjuntivo, o diferente, o heterogêneo do sistema só se apresenta quando existe um sujeito que aí se faz representar. Parece-nos que este caráter irredutível do sujeito com a linguagem, que de alguma maneira já estava presente na década de 60, se radicaliza ao longo dos anos e o conceito de letra vem acentuar esta irredutibilidade do representar. Trata-se de um representar paradoxal, já que o sujeito só se faz representar por definição no intervalo de um significante a outro e, portanto, não por um elemento que o represente em sua integridade, mas no desaparecimento do que vem a ser o seu ser - desaparecimento que o possibilita pontualmente se representar. Ou dito em linguagem de Freud (1895/1969) do Projeto para uma Psicologia Científica, é apenas quando a energia que visa puramente a descarga é barrada que o sujeito surge como eu (s), como trilhamento ou representações daquilo mesmo que constitui a efetividade do seu movimento não possibilitando, portanto, cercá-lo em um sistema fechado (como um todo significativo).

 

Estrutura e Linguagem

Para a psicanálise, a linguagem, ou o inconsciente estruturado como uma linguagem, constitui tanto o sujeito como o objeto em suas perpétuas transformações - transformações que se operam no interior desta mesma linguagem. A psicanálise, neste sentido, se diferencia da lingüística pelo fato de o significante (como elemento diacrítico e portanto diferencial) se definir para um sujeito. Ou dito de outro modo, o significante que "não quer significar nada" (Lacan, 1955-1956/1981, p.78) a priori só adquire efeito de sentido ("significância") para aquele que, como seu produto (sujeito como produto da linguagem), não forma com esta mesma linguagem uma representação, ou melhor, uma totalidade orgânica, um todo de significação ou de identidade em si.

Acreditamos que a diferença desse estruturalismo "ao avesso" e o estruturalismo propriamente dito esteja, insistamos, na introdução do sujeito como efeito da estrutura e consequentemente da letra como algo significante que se especifica pelo usufruto que deste faz o sujeito.

Em Instância da letra, texto em que Lacan (1957/1966) explicitamente refere-se à lingüística como ciência piloto no campo das ditas ciência humanas, a letra é definida como "suporte material que o discurso concreto empresta à linguagem" (p.495) ou, em outra passagem mais adiante, como "a estrutura essencialmente localizada do significante" (p.496). Ora, neste contexto o sujeito é definido duplamente: como sujeito falante em sua localização material de um significante em relação ao outro e como heterogêneo e irredutível à representação completa dessa mesma estrutura da linguagem. Neste artigo, letra e significante parecem, em uma certa perspectiva, se igualar, já que estruturalmente o significante só pode se definir, a posteriori, para um sujeito a partir de sua localização em relação a um outro significante. Ou, em outros termos, há uma dupla impossibilidade que na verdade se recobre para o sujeito: a do sistema se definir como um todo a priori (já definida pelo estruturalismo) e a impossibilidade como resistência imanente ao sistema em tudo representar para e do sujeito (ou seja, impossibilidade entre o sujeito e objeto).

Entretanto, penso que a partir da década de 60, com a definição do objeto a como objeto que encarna como resto a impossibilidade de igualar, em uma relação biunívoca ou completa, o sujeito e o significante (em linguagem freudiana entre o objeto e a pulsão, ou entre a imagem e o objeto), a distinção entre letra e significante se impõe.

 

O Conceito de Letra

Diferentemente do significante que reduz o heterogêneo ao diferente, isto é, define o heterogêneo por relação a um outro elemento, o termo "letra" se impõe como um heterogêneo irredutível a um sistema. Trata-se de irredutibilidade porque, como heterogêneo ao sistema, a letra não pode se definir apenas pelo lugar estrutural que ela, como elemento do sistema, possa vir a ocupar. A letra, como materialidade, deve ser vista também como diferenciação que aponta para a impossibilidade da relação sujeito e objeto ser complementares – complementaridade que justificaria definir, diferente da psicanálise, a estrutura como um sistema propriamente dito, isto é, como um todo significativo. Neste sentido, poderíamos afirmar que existem duas impossibilidades que se recobrem: a primeira, da categoria do real e a segunda da estrutura formar um todo significativo. Essas duas impossibilidades, necessariamente, coincidem e apontam para uma única, uma vez que o real é o que faz com que o sistema não forme um todo completo.

No entanto, se Lacan quer insistir, após todo seu percurso pela impossibilidade "estruturalista" em redefinir a letra como uma diferenciação é porque mesmo "avisado" da escolha estruturalista do signo contra o sentido (sentido que segundo Saussure enviaria a um passado metafísico), ele visa restaurar na relação do sujeito com o objeto, um sentido que aponte como na letra matemática, "a identidade de si à si isolada de toda qualidade" (Lacan, 1957/1966, p.498): letra, portanto, como identidade de um "prazer" singular e irredutível a qualquer qualidade seja ontológica, seja hermenêutica 9.

Paradoxalmente, esta letra que aponta para uma qualidade ou uma significação estrutural irredutível é, ao mesmo tempo, inscrita pelo valor de prazer que esta significação oferece. Se pensarmos no significante fálico como operador da distribuição e dos valores do prazer que circulam entre os sujeitos 10, o gozo se posiciona como irredutível ao falo pela sua singular fruição. Ao mesmo tempo, o gozo só se define como refratário à significação e ao valor regido pelo princípio do prazer, se, em uma certa medida, está em referência à significação fálica.

Segundo Leclaire (1968/1986), a letra é "pura diferença", um traço distintivo que se constitui e marca como uma inscrição, em um lugar pontual do corpo, um "prazer" na imediaticidade de uma diferença peculiar.

Ora, por essa definição contemporânea aos seminários em que Lacan formulava a radicalidade da articulação entre significante e objeto notamos que, diferentemente das primeiras formulações sobre letra, a partir dos anos 60, letra parece fixar (termo freudiano é fixierung) uma diferença irredutível por natureza entre o sistema do representar e o objeto, ou entre o corpo (como unidade) e um diferencial sensível que venha de zonas específicas deste corpo (o que Freud nomeava zonas erógenas). Não é por acaso que o termo letra tem como referência ao mesmo tempo o campo da linguagem (letra como elemento de um alfabeto, marca diferencial) e a fixação e portanto um valor singular em uma afirmação subjetiva de prazer. Na realidade, este prazer postulado em sua singularidade seria melhor designado de gozo, já que ele se define por sua não-mensurabilidade e irredutibilidade à uma escala de valor.

 

Gozo, Prazer e Signo

O paradoxal do conceito de gozo é que, apesar dele se definir como um usufruto que só pontualmente apreendemos, isto é como algo irredutível a uma escala de valor, ele não deixa de ter como referente um valor, o prazer, que por sua vez se inscreve em referência a um valor comum (o Falo). Trata-se, portanto, de um valor de usufruto específico de fixação de gozo e que apesar de se diferenciar do gozo medido pelo falo, não deixa de se referir (mesmo que para se diferenciar) à significação fálica.

Se articularmos a definição de letra com o de gozo, constatamos que a letra aponta, portanto, para dois aspectos que se superpõem: por um lado, ela apresenta um vazio de qualidade (ou melhor de significância) 11 já que em oposição a uma definição do significante como elemento diacrítico de um sistema, ela não tem qualidade (isto é ela não é inscritível em uma linguagem de prazer universalmente mensurável). Por outro, ela aponta para uma fixação, isto é um gozo como identidade em si, A identidade em si que define o gozo se refere menos a identidade do que a uma alteridade, um irredutível à medida comum que possa existir segundo a dialética fálica, isto é, dialética que introduz um valor comum entre as trocas de prazer entre o sujeito e o outro.

É ainda nesta direção que podemos refletir sobre as razões que conduziram Lacan (1972-1973/1975) a reabilitar, e ao mesmo tempo inverter, a noção de signo. Usamos o termo reabilitar, pois para a lingüística (Saussure,1916/sd) o signo evocava a unidade, a relação entre significado e significante. Para Lacan, no entanto, diferente da significância como efeito de significação a partir do desfiladeiro dos significantes ou da própria noção de valor em Saussure, o signo saussuriano poderia acarretar a idéia da possibilidade de uma unidade de significação em si. Dito de outra maneira, diferente da lingüística estrutural propriamente dita, que privilegiava a significação a partir do lugar que o elemento (significante) ocupava em relação à estrutura, o signo encarnava a definição de uma unidade entre significante e significado. Entretanto, notamos na obra de Lacan uma reintrodução da noção do signo em oposição ao significante, como se com essa "reabilitação", Lacan "visasse" a relação dentro da linguagem de algo de real, ou seja, um irredutível à linguagem que se definirá, no entanto, não em oposição a esta, mas no interior desta 12 .

Penso que através dessa distinção entre signo e significante, Lacan consegue salientar que o que possa emergir na ordem do significante (como um todo de elementos pulsionais que afetam o sujeito) não é distinto do gozo. E, ainda que, o sentido que emerge do significante é atrelado ao gozo, ou melhor, há um sentido que goza. Diferentemente de uma definição do significante postulada apenas como suporte material, a materialidade que implica na noção de signo indica uma dimensão "pré-discursiva", penetrada de gozo, isto é, de um diferenciador pontual de prazer (como define Leclaire, 1968/1986) 13 ou do que Freud nomeou no Projeto de 1985 de qualidades oferecidas pelo período no sistema. Dito de outro modo, distintamente da ordem da linguagem definida apenas pelo significante 14, a letra "extrai" da definição de significante em seu aspecto literal, uma definição de materialidade quase próxima de um em si substancial ou, nos termos do próprio Lacan, de uma identidade "a si mesmo". Em termos freudianos, essa identidade a si mesmo se expressa no traço como o que fixa um excedente próprio ao circuito pulsional, ou o que Lacan designa como gozo 15.

O paradoxo aparente desta proposta é que este algo que metafisicamente se definiria como substância é aqui, para Lacan, destituído, como nas fórmulas matemáticas [f(x)], de qualidade e portanto irredutível a qualquer definição essencialista. Na realidade, a partir desta articulação entre letra, significante e gozo, podemos, provisoriamente, dizer que a letra inclui em sua definição o significante 16 e gozo 17. Nesta articulação entre matéria e substância, a substância é reabilitada não mais como categoria filosófica ou com conotações metafísicas, mas como termo imanentemente atravessado pela "extração", depuração de toda "qualidade", de "pathos" como quer a ciência.

Diferentemente da concepção de linguagem de 1957, onde a linguagem instalava uma falta a ser na relação do sujeito com o objeto, neste seminário de 1972-1973, Lacan associa linguagem e gozo, ser e significância, matéria extensa e pensamento, propondo pensá-los como termos que se definem em uma relação imanente:

"O pensamento é gozo. O que traz o discurso analítico é isto, que já estava tomado na filosofia do ser - há gozo do ser[…] O ser … é o ser da significância. E não vejo no quê é decepcionar os ideais do materialismo - digo aos ideais porque está fora dos limites de sua épura - reconhecer a razão do ser da significância no gozo, no gozo do corpo. (Lacan,1972-1973/1975, p. 96.)

Não é por acaso que em Radiophonie, respondendo à questão quanto à relação entre lingüística e Psicanálise, ele introduz o gozo na linguagem "erotizando" a relação da linguagem onde o significante não apenas causa o gozo, como o sentido que lhe está associado, assim como a fala, produz efeitos de gozo.

Se nos anos 50, pôde-se interpretar a heterogeneidade e distância entre significante e objeto ou entre sujeito e objeto como um abismo irredutível atribuído ao privilégio que Lacan daria ao simbólico, agora, nos anos 70, certamente sua obra se desenvolve no movimento inverso18. Se, em a Instância da Letra (1957/1966), a condensação e o deslocamento são apresentados em homologia com os processos de metáfora e metonímia tal como apresentados pela lingüística, agora em 1970, ele afirma:

"…eu não metaforizo a metáfora, nem metonimizo a metonínia para dizer que elas eqüivalem à condensação e ao deslocamento do inconsciente. Mas eu me desloco com o deslocamento do real no simbólico, e eu me condenso para dar peso de meus símbolos no real, como convém para seguir o inconsciente no traço" (Lacan, 1970, p.72)

Nesta passagem, notamos a tentativa própria do Lacan desta época de articular gozo e linguagem e de "relativizar" a homologia por ele mesmo sugerida entre lingüística e Psicanálise 19. Podemos ainda observar que a substância gozante, por seu lado, se tornou necessária ao pensamento de Lacan em sua articulação com a linguagem uma vez que "coube" à psicanálise responder por algo para além de uma realidade definida no plano das idéias (idealismo). E, portanto, se a psicanálise não é um idealismo ou um mero discurso entre outros é porque, da materialidade significante e do que este faz representar, existe um resto impossível de se acoplar na operação de correspondência entre linguagem e sujeito, ou entre significante como pura diferença e seu produto, a saber, o objeto. Deste objeto definido como o que encarna essa impossibilidade de fazer laço entre significante e sujeito, a letra seria o que designa a diferença na identidade do sistema. Retomando as próprias palavras de Lacan : "…a letra é o significante que se torna objeto, o litoral, o significante condensador de gozo" (Lacan, s.d.), ou ainda em RS.I (Lacan, 1975) quando comenta:

"…o de que eu me ocupo; é de pensar qual pode ser o real de um efeito de sentido."

 

Considerações Finais

Provisoriamente, podemos concluir que, no início de seu percurso, ao insistir, no retorno a Freud, na vertente da matéria significante (do campo da linguagem) em detrimento da materialidade das ciências biológicas nas quais Freud se apoiava - fazendo com que se confundisse com um pensador materialista -, Lacan, diferentemente de Freud, poderia ser considerado um idealista. No entanto, apesar de problematizar a realidade definida nos moldes de um princípio de identidade - daí a própria definição de significante como uma identidade a partir do heteróclito, da relação diacrítica com os outros – Lacan, do mesmo modo que Freud, nunca deixou de se preocupar com a materialidade da estrutura mesma que define esta realidade. É neste sentido que diferentemente do significante que se define apenas por relação diferencial a outros, a letra aponta para o caráter do significante em seu aspecto real, isto é, fixação de uma inscrição que oferece corpo, estrutura real, ao objeto como usufruto 20 .

Trata-se, talvez, de uma aproximação de letra com o significante, desde que se associa este significante à fixidez de gozo ou ao excedente que o objeto produz ao afetar o sujeito. Entretanto, nesta "associação" entre significante e gozo, o primeiro perde sua definição própria - de só se definir pelos outros em um valor comum (articulação fálica) - já que se fixa, se "estanca" como qualidade própria de um usufruto singular, de um gozo do qual nenhuma articulação significante poderia completamente significar.

Diferentemente, portanto, de um valor fálico que introduz uma suposta medida comum aos sujeitos que por e com ele estão inscritos no campo da significância, o usufruto que se fixa como inscrição, inscrição de gozo, portanto, letra, só vale para um sujeito singular. Esse valor singular se define certamente através de um valor comum ( o falo como referência), entretanto, enquanto usufruto, o gozo não tem medida de valor comum que possa ser definido em uma "justiça distributiva", ou em uma lógica do valor tal como se define em um sistema – sistema, vale a pena repetir, aqui definido como a língua para Saussure (1916/sd), ou como "um todo em si", uma unidade dos elementos dispersos, multiformes e heteróclitos da linguagem.

Todavia, esta distinção entre letra e significante só tem sentido em uma perspectiva estruturalista do que vem a ser linguagem. Se por linguagem ou estrutura da linguagem concebermos não apenas a articulação significante, mas também o objeto - como resto desta operação de representação do sujeito pelo significante -, certamente a concepção de estrutura se alargaria e incluiria tudo : a identidade e o que se exclui, ou o significante, o sujeito e o objeto, ou ainda o real, o simbólico e o imaginário. Nesse sentido, como nos lembra Lacan "tudo surge da estrutura significante", uma vez que letra, objeto e sujeito são respectivamente, fixação, resto como produto, efeitos do significante.

Trata-se, portanto, de um efeito de estrutura que inclui o significante e o objeto, ou, dito de outra maneira, o significante em sua forma literal no duplo sentido da palavra: 1) significante destituído de qualidade por se definir sempre em relação ao outro, de um lado; assim como 2) o resto, o objeto como um irredutível a qualquer valor estrutural que esta significação possa lhe oferecer.

Esse aparente paradoxo, não é na realidade um paradoxo se definirmos o irredutível, o refratário, resto à significação não fora da linguagem, mas no seio mesmo desta: o objeto portanto como o que só pode ser inscrito, fixado em um valor próprio e como singular usufruto, para um sujeito qualquer, se estiver, de alguma forma, referido a um "suposto" deslizar de significantes, a um sistema.

Neste sentido, letra e significante não se opõem. Assim como o conceito de estrutura se define pelo entrelaçamento entre real (como ex-sistência, impossibilidade), imaginário (como consistência) e simbólico (como buraco, impossibilidade estrutural que produz deslizamento ), a letra se define como uma inscrição de "prazer" que se fixa a partir de um valor diferencial introduzido pela própria noção de articulação significante e da significação fálica que aí se produz.

Em última instância, se letra é o que dá estrutura de real ao objeto, o objeto a é, como sugere Lacan, a letra por excelência já que é este objeto que, fazendo parte da estrutura, dá corpo, consistência, ao menos a posteriori, ao real.

Ainda a partir desta distinção poderíamos neste momento de concluir colocar outra: será que a letra como alargamento do conceito de estrutura em Lacan, ou como uma articulação intrínseca entre a identidade e o heterogêneo, ou entre o significante, o sujeito e o objeto, não indicaria um caminho para a Psicanálise diferente da vertente edipiana, neurótica sobre a qual Freud fundou a psicanálise?

Segundo Lacan, a loucura é a crença que um sujeito tem em seu nome próprio. Se por nome próprio definirmos o que encarna o buraco 21, talvez pudéssemos dizer que o nome próprio é, na perspectiva da identificação, uma letra. Trata-se de letra no sentido que o nome próprio é o que, na linguagem, visa o real ou visa este ponto que no significante faz buraco. Na realidade o nome próprio é um invariante em qualquer língua e, portanto, é destituído imanentemente de qualquer predicado ou qualidade. Entretanto, por ser um nome destituído, a princípio, de enunciação (ou melhor um nome em que a sua enunciação coincide com o lugar que o sujeito fala, - com seu enunciado), quando o sujeito o utiliza, ele também tem uma função fantasmática já que, paradoxalmente, através das identificações aos ideais, o nome próprio tampona este mesmo buraco no qual ele se define.

O sujeito que acredita, ou melhor, que tem certeza de seu nome próprio seria aquele que, ao menos como entidade ideal, não duvida de uma identidade em si. Ter certeza de seu nome seria "a definição própria da loucura" (Lacan, 1973-1974, p.165) uma vez que por definição o sujeito é dividido e não tem certeza de ser representado por um nome, mas sim no intervalo entre os nomes que possam vir representá-lo. Aquele que tem certeza de seu nome é alguém que, apesar de não viver em um mundo sem alteridade, sem "heteros", mantém uma relação com outrém para além de um reconhecimento, isto é, para além de uma referência de um valor comum à distribuição entre os sexos, valor postulado por uma significação fálica.22 Num mundo onde palavras coincidem com coisas, onde o outro enquanto heterogeneidade se confunde com o que pertence ao sujeito, o sujeito trata o mundo sem equívocos: mundo em que o nome não poderia nem mesmo recobrir, como o véu da fantasia, a inconsistência do Outro, já que ele é a encarnação deste próprio nome real. Trata-se de um sujeito que vive em um mundo onde o real aponta para a certeza do nome no sentido literal, aquele que não se define por diferença em relação aos outros, mas na sua certeza literal de ser único, traço singular, sem qualidade, porém com usufruto e erotização fixas, idêntico a si mesmo. Mundo também humano demasiadamente humano onde o homem se equivale a um sujeito errante, que funda assim como usufrui das significações que lhe são próprias...

 

1 Texto apresentado no Grupo de Trabalho "Psicanálise contemporânea: Convergências e Divergências". VII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP, Gramado, maio de 1998.

2 Endereço para correspondência: Rua Pacheco Leão, 1842, ap. 202, 22 460-030, Jardim Botânico, Rio de Janeiro, R.J. - Fone/Fax: (21) 274 25 57. E-mail: freireab@gbl.com.br

3 Em Le Séminaire Livre XI, Lacan (1964-1965/1973) demonstra a impossibilidade de se ter um sujeito puro, sem divisão e, consequentemente, um sujeito que se sustente no mundo através de uma Weltanschauung, por uma totalização a priori, original, por uma verdade total. Nesse sentido, ele conclui o seguinte: quando há um sujeito, há aphanisis; de fato, para que o sujeito seja representado, é preciso uma perda, uma parte do sujeito que desapareça. Vale a pena transcrever seu argumento: "Claro, para toda representação, é preciso um sujeito, mas esse sujeito nunca é um sujeito puro.[…] Não há sujeito sem, em algum lugar aphanisis do sujeito, e é nessa dialética do sujeito, nessa divisão fundamental, que se institui a dialética do sujeito." (p. 201). É nessa impossibilidade de se ter um sujeito que não esteja dividido que chego, com Lacan, à conclusão seguinte: os sujeitos, - incluindo o sujeito psicótico, pois existe um, já que os psicóticos não são "máquinas que falam" ,- são, apesar das suas difenrenças de estrutura, sempre divididos.

4 Cf. Saussure (1916/sd) em seu Curso de Lingüística Geral, onde ele define a língua como "uma convenção" (p.18).

5 Trata-se no início do século de uma ciência nos moldes de sistema categorial da medicina científica desta época, isto é, a anatomia e a fisiologia.

6 Aqui, definimos representação, segundo Le Gaufey (1984), como um dos pólos da dicotomia que une biunivocamente, com certa verossimilhança, os "objetos" do mundo e suas "imagens".

7 Por "sentido que há" designamos aquilo a que a representação vem se endereçar enquanto re-presentação, daquilo, portanto, que já suscita um atributo, um sentido específico a algo apresentado.

8 É nesse sentido que Lacan (1966) insiste contra certos interlocutores no célebre Congresso de Bonneval que o inconsciente é estruturado como uma linguagem e não anterior à linguagem. Vale salientar que esta última versão nos conduziria a definir o inconsciente como algo ontológico, anterior ao que dele possa emergir como representante. Na verdade, como afirma Lacan (1955-1956/1981) no Seminário III, o que se define como natural são os fenômenos naturais - no contexto qualquer elemento fenomenológico do campo da ciência, no nosso caso o inconsciente - dos quais não há ninguém que se sirva do significante para significar. "Um significante como tal não significa nada", afirma Lacan neste contexto. Entretanto, essa "desnaturalização" própria à definição do inconsciente, não impede de só defini-lo, a posteriori, através do que ele possa vir, pelos seus efeitos, significar para o sujeito.

9 O pensamento lacaniano distingue-se da hermenêutica na noção de sentido: diferentemente desta última, em que tal sentido se revela como qualidade a priori, para Lacan, assim como para a lingüística, o sentido é efeito da articulação de um significante a outro, ou seja, do que ele designa como "significância" (cf. Lacan, 1957/1966).

10 Trata de um significante cuja significação é introduzir uma medida comum entre os representantes pulsionais que possam vir representar para o sujeito o que é vivido como suporte de trocas de toda representação objetal. Em Freud, esse representar ancorado no significante fálico oferece ao sujeito, segundo o princípio do prazer, o lugar que este vai ocupar no circuito da identificação e das escolhas objetais, ou seja, uma resposta edípica da diferença sexual.

11 Aqui significância é definido, de acordo com a Instância da Letra (Lacan, 1957/1966), como significação produzida a partir do remetimento de um significante a outro, ou seja, como processo estrutural de efeito de significação.

12 É Zizek (1990) em Eles não sabem o que fazem que utiliza o termo "reabilitar" para contextualizar a reapropriação do signo feita por Lacan após a distinção estruturalista deste em relação ao significante (p.201).

13 Neste livro citado, Leclaire (1968/1986) diferencia o objeto da zona erógena nos seguintes termos: "se a zona erógena pode ser concebida como esse limite que circunscreve a diferença sensível em sua irredutibilidade essencial, o objeto por sua vez, constitui o termo de uma separação mensurável e, de certa maneira, redutível até a anulação de um encontro" (p. 66). Distinguindo uma diferenciação intrínseca (a zona erógena) de uma diferença extrínseca, o autor define o objeto como "o representante tangível" da irredutível diferença intrínseca que limita a zona erógena" (p.67).

14 Vale a pena repetir: significante cuja identidade se constitui em um círculo comum de diferenciador (phallus) onde cada elemento é sobredeterminado por sua articulação em relação aos outros.

15 Segundo Miller (1984-1985) em seu seminário inédito 1,2,3,4 "o signo é o que unifica o significante e o gozo." (p. 510).

16 Trata-se de significante definido como materialidade por sua diferença em uma identidade – sistema (cf. Lacan, 1957/1966),.

17 Trata-se de uma substância, como definirá Lacan (1972-1973/1975)

18 Essa tese de que Lacan no fim de seus seminários, a partir da Lógica do Fantasma, propôs o movimento inverso do "hiatus" entre sujeito e objeto foi proposta por Soler (1987-1988).

19 No seminário de Soler (1987-1988) a autora propõe, para articular gozo e linguagem, definir sujeito como "fala gozante" e o objeto a como "gozo de fala". De fato, do real como impossibilidade de relação (sexual), há duas inscrições desse gozo: o objeto a como inscrição da impossibilidade de gozo e o falo como inscrição da possibilidade deste mesmo gozo, que agora se torna pela linguagem "domesticado".

20 Trata-se por sua vez do objeto definido como o que dessa inscrição "condensa o gozo".

21 Trata-se do buraco como falta em dois sentidos: falta do significante em ocupar um bom lugar, isto é, um lugar que lhe é próprio, já que se define em relação a outros, e falta, consequentemente, no sentido que ele é destituído de atributos, de qualidades a priori.

22 Aqui significação fálica e edípica estão sendo utilizadas indistintamente.

 

 

Referências

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Recebido em 15.01.99
Revisado em 10.03.99
Aceito em 25.03.99

 

 

Sobre a autora:

Ana Beatriz Freire é doutora pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Professora do Curso de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, autora do livro "Por quê os Planetas não falam?", da editora Revinter e co-autora do livro "A Ciência e a Verdade"; um comentário, também da mesma editora, membro da comissão editorial da revista Ágora: Estudos em Teoria Psicanalítica. Pesquisadora da CNPq.