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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.3 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000300004 

Feyerabend e a máxima do "Tudo Vale" ; A necessidade de se adotar múltiplas possibilidades de metodologia na construção de teorias científicas 1

Luis Flávio Couto 2
Universidade Federal de Minas Gerais
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Unicentro Newton Paiva

 

 


Resumo
O objetivo deste ensaio é apresentar uma visão geral da crítica de Paul Feyerabend da metodologia científica e, mais precisamente, sobre a exigência da adoção de uma postura flexível frente à construção e à afirmação de veracidade de hipóteses científicas. A máxima que deve regê-las deve ser "tudo vale". O ensaio aponta as razões históricas que justificam, em certa medida e tomando-se cuidado frente a tal voluntarismo teórico, a adoção dessa abertura a novos pressupostos em ciência. No ensaio, defende-se o pressuposto de que não existem condições que limitem indefinidamente a pesquisa. Afirma-se também que não há uma única teoria capaz de apreender o objeto em seu todo, da mesma forma como o próprio processo de investigação é inesgotável.

Palavras-chave: Nova filosofia da ciência; método; crítica das concepções formalistas da pesquisa científica.

Feyerabend and the Aphorism "anything goes", the Need to Adopt Multiple Possibilities of the Methodology in the Construction of Scientific Theories

Abstract
The objective of this essay is to give an overview of Paul Feyerabend’s review of scientific methodology, and more precisely, the requiriment of the adoption of a more flexible attitude towards the construction and the statement of the veracity of scientific hypotheses. The ruling principle is "anything goes". This essay points to the historical reasons that left, to an extent and taking the due care with such theoretical voluntarism, the adoption of this opening to new presuppositions in science. It is proposed that there are not conditions which limit research indefinitely. There is not a single theory able to capture the object in its entirety in the same way that the investigation process itself is inexhaustible.

Keywords: The new philosophy of science ; method ; review of the formalistic conception of the scientific research.


 

 

Após a Grande Guerra, iniciou-se um processo de questionamento das formas de se caracterizar a ciência. Karl Popper (Trad. s/d), com o racionalismo crítico, iniciou este processo de revisão da metodologia científica, sendo seguido por dois de seus alunos, Thomas Kuhn (Trad. 1978) e Paul Feyerabend (1988a) - que consideraram tímidas as críticas que Popper dirige aos princípios organizadores do paradigma clássico da metodologia científica. Popper discorda de Stuart Mill (Trad. 1843/1973) em dois pontos fundamentais: rejeita a lógica indutiva e o critério de verificação. Como alternativa à verificação, Popper propôs a falseabilidade, mantendo, entretanto, a capacidade de teste para verificação como critério científico para a hipótese falsificável. Kuhn, por seu turno, afirma que a ciência constituiu-se em seus primórdios como uma ruptura com os pressupostos metodológicos estabelecidos. Assim, não se devem descartar propostas inovadoras de compreensão da realidade, sob o risco de repetições teóricas monótonas e infindáveis. Tais propostas renovadoras devem, entretanto, vir acompanhadas dos resultados das experimentações e observações existentes.

Feyerabend (1988a), na linha de renovação metodológica, afirma que em ciência "tudo vale". Para ele, na verdade, não existe uma entidade monolítica chamada a "ciência", sendo impossível uma "teoria da ciência" ou mesmo um "método científico".

"O único princípio que não inibe o progresso é: tudo vale.

[...] É claro que a idéia de um método estático ou de uma teoria estática da racionalidade funda-se em uma concepção demasiado ingênua do homem e de sua circunstância social. Os que tomam do rico manancial da história, sem a preocupação de empobrecê-lo para agradar a seus baixos instintos, a seu anseio de segurança intelectual (que se manifesta como desejo de clareza, precisão, ‘objetividade’, ‘verdade’), esses vêem claro que só há um princípio que pode ser defendido em todas os estágios do desenvolvimento humano. É o princípio: tudo vale." (Feyerabend, 1988a, p. 27)

Tal procedimento não inibiria a tentativa de estabelecimento de idéias novas e ousadas para se resolver determinados problemas não solucionados pelas proposições científicas oficiais. A máxima deveria valer não apenas para a ciência, mas também para os demais campos do fazer humano. No caso da ciência, apesar da grande oposição contra novos pontos de vista, muitos deles mostraram-se com o tempo capazes de apontar novos caminhos que decretaram a superação dos modos anteriores de se compreender a realidade.

Para ele, o que temos é apenas um processo de investigação, e paralelamente, toda uma série de métodos práticos que se adaptam à situação em presença. Nós os criamos na própria pesquisa em andamento e são eles que podem nos ajudar na tentativa de aprofundar esse processo. Relativista, sustenta que cada conhecimento particular deve ser analisado por suas próprias regras e não por quaisquer padrões externos que o legitimem. Afirma a liberdade do pesquisador frente à experiência e aponta fatores que vêm restringindo essa liberdade.

Para ele, os problemas científicos devem ser abordados e resolvidos nas próprias circunstâncias em que surgem. Dependem dos meios disponíveis naquele instante e dos próprios desejos daqueles que com eles trabalham, não existindo condições que possam limitar indefinidamente a pesquisa e a investigação científica. Para progredir, afirma Feyerabend (1988a, p. 179), "precisamos fazer um recuo que nos afaste da evidência, reduzir o grau de adequação empírica (conteúdo empírico) de nossas teorias, abandonar o que já conseguimos e começar de novo."

Embora Feyerabend (1989a, p. 359s.) indique a necessidade da adoção de uma postura mais ética do que metodológica frente à ciência, não compartilhamos, inteiramente, de sua espécie de voluntarismo teórico. A metodologia da ciência natural é fruto de séculos de desenvolvimento e se, por um lado, ela limita realmente determinados procedimentos, por outro tem por função resguardar a sociedade e os indivíduos contra afirmações descabidas. Por outro lado, porém, a metodologia científica não pode ser considerada como um bloco unificado de regras e de procedimentos absolutos que visam excluir qualquer intuição ou projeto de pesquisa que não esteja conforme os seus pressupostos. A posição de Feyerabend é clara no sentido de apontar os riscos da estagnação do pensamento caso a consideremos de uma forma rígida. A metodologia deve ser tomada como um conjunto em aberto de procedimentos que visam a assegurar mais propriamente uma certa objetividade de alguma determinada conclusão, do que, exatamente, de um padrão que exclui de maneira dogmática quaisquer intuições ou procedimentos que não se adaptem exatamente a ela. As regras metodológicas são mais indicações de conduta na pesquisa, do que tribunais da razão,s que separam a ciência da poesia.

Entre esses procedimentos ou regras aceitas, podemos apontar a apresentação pública. Para ser considerada ciência, uma construção não pode, em primeiro lugar, ser dominada pelo segredo e pelo mistério. Todos os seus procedimentos, pesquisas e resultados devem ser de domínio público. Essa característica foi uma das primeiras exigências feitas pelos homens de ciência do Renascimento quando se opuseram às práticas sigilosas dos alquimistas. A ciência não pode se utilizar de uma linguagem cifrada aprendida e transmitida de mestre a discípulo. O ideal da ciência é a linguagem matemática, devendo a teoria ser escrita nestes caracteres de conhecimento universal. A utilização da matemática em ciência tornou a quantificação uma das regras básicas para qualquer discurso que se pretenda científico.

Além dessa exigência, várias outras foram sendo acrescentadas no correr da história, para a aceitação de uma construção como científica. O peso de cada uma delas para a padronização do que se chama ciência varia de época para época, e não se deve considera-las como valores absolutos em si. A observação controlada e a verificação, por exemplo, são exigências aceitas habitualmente, mas não podem possuir valor de critério absoluto. A ciência não pode ser tomada como a contemplação desinteressada da verdade, mas caracteriza-se pela observação, pelo questionamento e pela verificação do modo de funcionamento de seu objeto. Para a legitimação de um campo de estudo científico, buscam-se alcançar explicações racionais e resultados controláveis. Mas existem diversas formas igualmente legítimas de se verificar e controlar além da experimental estrito senso. Quanto à experimentação, se tomarmos a história da ciência, podemos constatar que nem sempre os experimentos se restringiram ao laboratório. São famosos os experimentos mentais de Galileu (Trad. 1932, p. 211s), que a imaginação popular crê ter acontecido de fato. Se a adoção de uma postura agnóstica substituiu a crença nos argumentos de autoridade e se impôs como parâmetro regular, não se deve substituir o argumento de autoridade pela crença na regra metodológica como o único padrão de procedimento científico aceitável.

Com o desenvolvimento do trabalho científico, outras exigências para a aceitação de uma construção como científica também foram, aos poucos, sendo incorporadas à metodologia. Entre elas, podem ser citadas a necessidade de parcimônia (critério de economia teórica), a capacidade de previsão, e a execução de provas experimentais por observadores independentes para se conseguir as confirmações empíricas adequadas. Todas elas de bom senso, mas que devem servir como pontos de apoio geral e não como leis gerais e inexoráveis da pesquisa científica.

Com o advento da modernidade, duas tendências metodológicas básicas orientaram a construção da ciência. Uma baseada na lógica indutiva de caráter empírico (representada por Bacon, Trad. 1973) e a outra na lógica dedutiva de caráter racional (representada por Descartes, Trad. s/d). Elas porém se mostraram insuficientes para a sustentação de um projeto científico. Foi necessária a combinação apropriada de ambas as metodologias para a construção da ciência natural. Newton mostrou que experimentos sem interpretação sistemática e deduções de princípios básicos desacompanhados da evidência experimental não podem ser tomados como parâmetros confiáveis em ciência. A união da experimentação sistemática (Bacon) e da análise matemática (Descartes) possibilitou a Newton (Trad. 1952a; 1952b), e posteriormente a Stuart Mill, a proposição do que é conhecido hoje como o método hipotético-dedutivo.

O modelo científico racional procura as leis de funcionamento dos fenômenos, suprimindo a subjetividade. Nesse sentido, o homem aparece como espectador irrelevante da mecânica de funcionamento de um sistema. O que se busca é a lei que assegure o estabelecimento dos princípios racionais indubitáveis. O princípio axiomático intuitivo encontrado permite que dele se deduza passo a passo a estrutura geral de um fenômeno. Esse modelo não prescinde da experiência, mas essa pode se dar, como já dissemos, apenas em pensamento, sem a necessidade de experimentações empíricas (deve-se notar que esse modelo se contrapõe à conjectura).

O modelo científico empírico indutivo também procura a supressão da subjetividade e considera possível encontrar fatos naturais independentes (o que para o modelo racionalista não é possível). Os fatos são coletados e deles se induz a lei geral. O que se pretende é estabelecer as regras das regularidades a partir do conjunto das percepções.

O modelo experimental-dedutivo também parte dos fatos, desconsiderando que os fatos dependem de uma teoria que os sustente. Os fatos são coletados e deles se induz uma lei geral. Essa lei, por seu turno, será submetida necessariamente ao crivo da experimentação empírica. Esse modelo tornou-se o paradigma básico para toda a construção que queira ser tomada por ciência natural. Embora seja esse o ponto de vista tradicional, consideramos que o estabelecimento das leis e a construção de uma teoria científica estão mais próximos do modelo racional, pois não existem fatos causais independentes da teoria, nem é possível uma separação absoluta entre o observador e o observado.

Esquematizando, podemos dizer que no Renascimento se reconhece o valor da divulgação pública. Bacon aponta a coleta indutiva de fatos, Descartes considera importante a intuição e a construção dedutiva, e Newton unifica os dois procedimentos anteriores mostrando a importância tanto da inferência indutiva quanto da dedução, embora não considere relevante a construção de hipóteses metafísicas. Boyle (1974) reafirma o mecanicismo na ciência e Kant (Trad. 1990) resgata a organização matemática a priori, aceitando porém a necessidade da adequação da teoria aos fatos e às confirmações. Embora Kant tenha demonstrado a incorreção da crença na existência de fatos brutos na natureza, a ciência desenvolveu-se posteriormente na postulação da existência de fatos naturais, afirmando-se em dois pilares básicos: observação e experimentação, acompanhados de perto pela medição e pela quantificação.

Após Kant, D’Alembert (História, 1973) rejeita os princípios metafísicos obscuros incapazes de confirmação e La Mettrie (Herrnenstein & Boring, 1971), teorizando sobre o "homem-máquina", insiste no processo de verificação para quaisquer hipóteses sobre o homem. Holbach reafirma o determinismo e aponta a causalidade como determinante: os elementos são encadeados por rigorosas leis de causa e efeito. Com Helmholtz (Assoun, 1983), o homem passa a ser concebido como passível de ser quantificado em termos de energia mental circulante. Comte (1869) aponta a necessidade da previsão e alerta contra afirmações absolutas sobre a realidade: as teorias são sempre aproximações.

Contrapondo-se ao ponto de vista racionalista, Stuart Mill (Trad.1973) vai indicar o caminho da inferência indutiva como a única via da ciência. Verdades que supomos organizadas pelo entendimento são apenas a resultante de uma soma de apreensões de fatos observados. Com isso, ele se opõe ao racionalismo de Whewell (Stuart Mill, 166s). Se para Whewell todos os fatos possuem algo da natureza de uma teoria, para Stuart Mill o caminho da ciência é indutivo: generalização de fatos naturais coligados. Além dessa exigência, Stuart Mill ressalta a importância científica da causa, definindo-a como o todo dos antecedentes. O trabalho da ciência é o de encontrar as ligações causais corretas.

Entretanto, note-se bem, devido às dificuldades de se aplicarem os métodos diretos de observação e de experimentação, Stuart Mill, baseando-se em Newton, propôs aquele que, até o advento do "Novo paradigma" em ciência, é considerado como o método padrão de constituição da ciência: o método hipotético-dedutivo. Stuart Mill afirma que esse método é constituído por três momentos: a indução direta (formulação de leis por inferência), o raciocínio e a verificação. Para ele, se o terceiro passo não for dado, a teoria não poderá ser considerada como ciência mas apenas como uma conjectura.

Com Stuart Mill, o apego demasiado estreito ao método empírico indutivo de Bacon ou ao racional dedutivo de Descartes descaracteriza uma produção como ciência natural. Assim, caso uma teoria seja acompanhada dos mais rigorosos padrões experimentais mas não teça interpretações sistemáticas, ou parta de princípios racionais evidentes sem as comprovações experimentais ou as coletas indutivas, não poderá ser considerada uma ciência natural. Para Stuart Mill, a única forma de conhecimento que pode ser chamada de ciência natural é aquela que tem como metodologia a unificação dos procedimentos anteriores.

Após Stuart Mill, Claude Bernard (1934) reafirma a necessidade da metodologia experimental mesmo para as ciências humanas, apontando que quanto mais complexa é uma ciência, maior a necessidade de se estabelecer para ela uma boa crítica experimental, pois com isso é possível se obter fatos comparáveis e isentos de causas de erro. Com tal posicionamento, Bernard consolidou o método hipotético-dedutivo como o modelo básico, como o paradigma da ciência.

Após a Grande Guerra (1914-1918), entretanto, foi desencadeado um processo de revisão da metodologia científica, motivado pelo surgimento de novos paradigmas de ciência, notadamente no campo das ciências chamadas humanas e na Física. Alguns critérios utilizados pela ciência clássica foram mantidos, enquanto outros não se sustentaram. Crítico, Feyerabend (1981, p. 132) questiona, por exemplo, se a experiência pode ser considerada como uma fonte verdadeira para as fundações do conhecimento. A universalidade é posta em cheque pela psicanálise que se apresenta como a ciência do particular, provocando o terceiro grande golpe ao ingênuo amor próprio dos homens (Freud, 1916/1976, p. 336). Como Copérnico e Darwin, Freud pode ser considerado como um exemplo da necessidade da abertura da ciência a novos pressupostos. Quando em 1916 afirma que o homem nem ao menos é senhor em sua própria casa, já está colocado na posição de membro marginal da ciência. E, no entanto, tinha razão. Por outro lado, a sua descoberta do inconsciente, soterrada por seu positivismo, vai ser reorientada pela associação com outras disciplinas como a linguística, a antropologia estrutural e a topologia que depuram a pesquisa psicanalítica de tal desvio.

No campo da Física, a teoria da relatividade de Einstein (Feyerabend, 1967, p.257), não proveio igualmente de algum momento de crise, de pressão do material empírico que escapava à ciência, mas de considerações teóricas mais ou menos simples, referentes às propriedades de simetria estudadas pela mecânica e eletrodinâmica clássicas. São esses pontos de vista renovadores que dão a certos quebra-cabeças - como o excesso do movimento do periélio de Mercúrio -, a condição de problemas genuínos e desencadeia, dessa maneira, o progresso. O reconhecimento de um problema como fundamental vai depender, portanto, do surgimento de um ponto de vista novo, que se coloca ao lado da teoria dominante. Tal ponto de vista renovador pode ter as mais diversas origens; em muitos casos, uma idéia metafísica será esse ponto de partida. A pretensão de exclusividade da ciência em períodos normais alia-se à forte oposição contra pontos de vista novos e se torna, realmente, destruidora, impedindo o progresso. A solução é o pluralismo teorético.

Não importa que a nova explicação contradiga fatos estabelecidos. Ela deve possuir uma força de persuasão interna que possibilite aos indivíduos compreender a nova maneira de se considerar um determinado fenômeno e que os capacite a lidar com eles, seja de maneira prática ou teórica, mas sempre de uma forma mais satisfatória do que a construção anterior. Um bom exemplo de explicação teórica que ainda não permite uma experimentação prática nos moldes tradicionais é a hipótese astronômica de que os "buracos negros" são núcleos de matéria estelar desabada sob si mesma. Também não é importante que algumas das "provas" apresentadas sejam errôneas, pois elas podem ser substituídas por outras mais adequadas.

Assim, temos, de um lado, a postura tradicional que considera necessária para a constituição de uma teoria científica a adoção das características que foram sendo exigidas para a ciência, como a observação controlada e a verificação. Aqui, a condição de cientificidade é estabelecida pelo seguinte pressuposto: a hipótese básica de qualquer construção que se pretenda científica deve provir de inferências empíricas. O peso é colocado na capacidade da hipótese básica de suportar as comprovações empíricas de aceitação universal. Até que isso se dê, a teoria deve ser considerada apenas uma hipótese ou uma conjectura provável. Para a ciência tradicional, o que importa não é exatamente a explicação de um fenômeno (existem as mais diversas formas de fazê-lo), mas a previsibilidade passível de prova. As verificações experimentais controladas são tomadas como o parâmetro básico do teste de cientificidade de uma teoria.

Por outro lado, podemos considerar que a postulação de uma hipótese científica depende de um estado de observação geral, tal como propôs Descartes, seguido da intuição de uma idéia clara e distinta sobre um ponto de elucidação obscura. Tal intuição resulta mais de um trabalho do entendimento do que de comprovações experimentais repetidas. As hipóteses provenientes de procedimentos intuitivos não podem ser invalidadas apenas pelo fato de partirem de suposições teóricas e não de fatos empíricos. Na história da ciência, podemos constatar que algumas afirmações não partiram da comprovação sistemática de fatos, embora tenham estabelecido um ponto de vista que não mais pode ser simplesmente abandonado. Copérnico (Trad.1984), Darwin (Trad.1985) e Freud (1900/1972s) exemplificam bem esse ponto de vista.

O que embora muito raro é possível acontecer, é uma afirmação verdadeira ficar esquecida, persistindo um ponto de vista errôneo (citaremos abaixo alguns exemplos). Por outro lado, nenhuma teoria é capaz de apreender a realidade em sua totalidade. A teoria deve ser encarada como um caminho, pois o seu objeto jamais vai se apresentar em sua totalidade. Em todo o caso, a liberdade da proposição de novas maneiras de se considerar um fenômeno é defendida por Feyerabend, mas não se deve esquecer que uma vez estabelecido um ponto de verdade, um retorno a pontos de vista anteriores ou os desenvolvimentos posteriores vão ter como finalidade tornar melhor a nova teoria mais do que derrubar um ponto de verdade estabelecido.

Quanto à oposição aos padrões vigentes, para o avanço da ciência é perfeitamente possível e, às vezes, até necessário assim se proceder. A revolução intelectual de Galileu somente aconteceu por ele desconsiderar todos os parâmetros tidos por verdadeiros na física aristotélica. A física por ele proposta e a aristotélica são incompatíveis. Partem de princípios diversos e de estruturações racionais também diversas. As imagens sensoriais do mundo que sustentam as duas físicas são basicamente diferentes e opõem-se. Se Galileu aceitasse Aristóteles como o parâmetro verdadeiro da realidade, jamais teria podido escrever os Discursos e demonstrações matemáticas em torno a duas novas ciências.

Se os argumentos utilizados por Galileu nos parecem hoje corretos e razoáveis, isso não significa que foram sempre considerados dessa forma (aliás, muitos de seus argumentos não eram razoáveis, o que produziu as polêmicas com a Igreja). A transição de uma física para outra dependeu, em grande medida, de recursos absolutamente destituídos de razões lógicas e claramente elaboradas. O sucesso de Galileu muito deve à propaganda e a seu brilhante estilo polemista (que lhe trouxe inumeráveis problemas), pois, de outra forma, seria bastante difícil convencer as pessoas de que o que os sentidos lhe apontavam era falso, como eram também falsas as concepções cósmicas de Aristóteles e, o mais polêmico, determinadas passagens da Bíblia. Para os aristotélicos de índole mais rígida, os pressupostos fundamentais da estruturação do pensamento, tanto de Copérnico quanto de Giordano Bruno ou de Galileu, eram simplesmente incompreensíveis, pois não seguiam as mais simples regras estabelecidas pelo Organon aristotélico (Trad. 1987). Para quem toma os sentidos como elemento básico de inteligibilidade do mundo, um posicionamento que recusa tal base será tido como necessariamente falso.

O que possibilitou a aceitação da revolução copernicana não foi o fato de Copérnico ou de Galileu terem seguido regras metodológicas aceitas. Com Feyerabend, pode-se dizer que o que existem são padrões que auxiliam o cientista na avaliação da situação histórica em que ele toma decisões - e não regras que lhe digam o que fazer. A aceitação do heliocentrismo foi, em primeiro lugar, paulatina - e proveio não de uma só razão, mas de uma série de adesões nos mais variados campos, como da Cosmologia, da Física, da Astronomia, das tabelas, da Ótica e da Teologia. Como diz Feyerabend (1988b):

"Maestlin e Kepler, que gostavam das matemáticas, estavam impressionados pela harmonia do sistema do mundo copernicano; Gilber, após examinar o movimento dos ímãs, mostrou-se disposto a aceitar o movimento da Terra; Guericke estava impressionado pelas propriedades do novo sistema e Bruno pela possibilidade dos sistemas infinitos. A revolução copernicana não se produziu por uma única razão ou em virtude da utilização de um único método. Foram múltiplas as razões, produzidas por uma série de atitudes diferentes. Não é viável considerar essa multiplicidade de processos como o efeito da utilização de regras metodológicas" (Feyerabend, 1988b, pp. 43 e 72).3

Por outro lado, para que se aceite uma nova elaboração que rompa radicalmente com a antiga, faz-se necessária uma mudança enorme, tremenda mesmo, no modo de pensar daquele que se vê diante de uma nova elaboração. Tem-se que forçar, literalmente, toda a estrutura da sua inteligência, em um processo, ou melhor, em uma capacidade de enfocar a realidade de uma forma diferente da que havia sido estabelecida por seu processo educacional básico. Como diz Feyerabend (1991):

"[...] introduzir uma nova teoria implica mudanças de perspectiva tanto em relação aos traços observados como aos traços não observados do mundo, e as mudanças correspondentes nos significados dos termos, inclusive os mais ‘fundamentais’ da linguagem empregada. [...] a influência de uma teoria científica compreensiva, ou de algum outro ponto de vista geral, sobre nosso pensamento, é muito mais profunda do que o admitem os que a consideram tão somente como um esquema conveniente para a ordenação de fatos. De acordo com esta primeira idéia, as teorias científicas são formas de ver o mundo e sua adoção afeta nossas crenças e expectativas gerais e, como conseqüência, também as nossas experiências e a nossa concepção de realidade. Podemos dizer, inclusive, que o que se considera ‘natureza’ em uma época determinada é um produto nosso, no sentido de que todos os traços que nós lhe registramos foram, primeiro, inventados por nós e usados depois para outorgar ordem àquilo que nos rodeia." ( p.39)

Mas, não basta uma intenção de mudança, há que haver uma justificativa para tal. No caso de Galileu, não se podia exigir de todos essa mudança de perspectiva porque ele não podia oferecer a "prova irrefutável", exigida pelos escolásticos, da verdade de seus postulados, ou, dito de outra forma, ele não podia provar o movimento de rotação da Terra. Podia, apenas, apontar evidências racionais, montando experiências mentais que conduzissem a um convencimento de seu acerto, tarefa essa assaz difícil, pois que contrariava o que as pessoas possuíam de mais estabelecido: a verdade do que lhe apontavam os sentidos. O que Galileu procura fazer é uma demonstração quase pedagógica de que os sentidos não podem ser tomados como comprovantes da realidade; tal tarefa deve ser deixada à razão.

As perseguições de que Galileu foi vítima tiveram como causa não só a sua insistência em se opor ao pensamento oficial, ridicularizando-o e destruindo as concepções e as regras antigas, como a incapacidade de seus juizes de sair de seus preconceitos dogmáticos. Eles não eram capazes de perceber que a realidade não é construída por fatos empíricos e regras metodológicas estabelecidas pela tradição. Tais regras não se sustentam, quando se pesquisa um determinado campo científico sob outro enfoque. A metodologia utilizada pela construção científica anterior deixa de ter validade, pois faz parte intrínseca do campo teórico anterior, não podendo sustentar a nova construção. Nesse sentido, não se pode, racionalmente, criticar os escolásticos por sua incapacidade de aceitar o heliocentrismo, como não se pode, também, "criticar um cientista que se apega a um programa em degenerescência; não há meio racional de mostrar que são desarrazoadas as suas ações" (Feyerabend, 1988a, p.289).

O procedimento de se contrariar os dados dos sentidos e, com isso, se opor aos padrões vigentes é considerado por Feyerabend como exemplo de "contra-indução" (1988a, p.289). Para ele, não há qualquer teoria que esteja em harmonia absoluta com todos os fatos; é, pois, perfeitamente possível a existência de interpretações teóricas discordantes. Para a ampliação do conteúdo empírico das concepções científicas, há que se adotar uma metodologia pluralista, o que permitiria a introdução de novas formas de se conceber a realidade. Assim, o conhecido preceito de Newton, segundo o qual outras alternativas deveriam ser buscadas apenas quando determinada teoria já estivesse superada e desacreditada, não é necessário. A ciência não se desenvolveu nesse sentido. Pelo contrário, sempre houve, e ainda hoje existe um "oceano de alternativas mutuamente incompatíveis".

Se Galileu tivesse que esperar a derrocada da posição aristotélica para, somente então, desenvolver o seu modo de pensar, jamais haveria o progresso da ciência. Nesse sentido, a participação na "aventura" da ciência deve ser aberta a todos, não importando exatamente a origem ou a fonte de seus conhecimentos. A verdade se construirá pela depuração das falsidades e dos erros sempre presentes em toda a massa de conhecimento. Alguns elementos serão mantidos por se adequarem aos sistemas conceituais aceitos e outros serão recusados como indubitavelmente falsos. Mas, algumas vezes, haverá uma outra leitura, e novas configurações montar-se-ão, recortando-se a realidade anterior de uma outra maneira. Aí, então, fatos que haviam sido considerados como falsos e recusados de forma peremptória poderão adquirir foros de cidadania, passando a fazer sentido em seu próprio campo, seja ele ético, estético, lógico ou científico.

O que podemos ver no desenvolvimento da história das ciências é que, muitas vezes, uma idéia correta, como a do heliocentrismo defendido por Aristarco de Samos (Koestler, 1989, 24s.), é abandonada como incorreta, para mais tarde ressurgir enfocada sob um ponto de vista novo e diferente. O que Aristarco teorizou não era exatamente verdadeiro: os planetas não giram em círculo. Mas ele havia acertado em sua idéia básica. Se não houvesse espíritos capazes de trilhar caminhos diferenciados, partindo de pressupostos outros que os aceitos pelas maiorias, não haveria progresso.

O que se podia notar, à época de Galileu, e que ainda hoje está presente, é uma espécie de competição que se estabelece, mesmo nos meios acadêmicos e nas instituições científicas, entre diferentes pressupostos teóricos explicativos para determinados acontecimentos e, evidentemente, entre os indivíduos que professam tais pressupostos. À época de Galileu, a tensão girava em torno das disputas entre aristotélicos e platônicos. Hoje está disseminada entre os posicionamentos diversos dentro da pluralidade das disciplinas científicas. Muitos são os elementos que mantêm as disputas: acesso a instituições de prestígio e a publicação de idéias, o reconhecimento de relevância em institutos governamentais ou particulares de fomento à pesquisa, maior facilidade na obtenção de prestígio e dignidade públicos, etc.

Nada disso impede, entretanto, que ocorra, algumas vezes, a tentativa de defesa de uma idéia abstrusa que a princípio não motiva qualquer crença mais séria. A história da ciência mostra que, fora do círculo das idéias oficiais, também se pratica a elaboração do saber. Se, na maior parte das vezes, tal elaboração constitui-se apenas de extravagâncias, isso não significa que não surjam, em determinados momentos, teorias capazes de fornecer uma explicação melhor para fatos tidos até então por inexplicáveis, destituídos de relevância, ou até mesmo falsos. A própria força da gravidade foi considerada como uma explicação ridícula e mística para a manutenção do equilíbrio do sistema planetário.

Evidentemente, é muito mais fácil para os pesquisadores de uma determinada área criar novos pressupostos ou elaborar críticas para os conhecimentos nos quais são especialistas. Ocorre, porém, que nem sempre as inovações surgem de pesquisas desses especialistas. Idéias novas surgem, muitas vezes, em campos diferentes, ou são elaboradas por pessoas que estão ingressando na área pela primeira vez. Essas, por não estarem moldadas pelo pensamento oficial, podem ter, se forem suficientemente geniais e ousadas, um outro enfoque dos problemas e das questões em debate, elaborando esquemas divergentes de análise. Quanto maior a pluralidade de esquemas teóricos explicativos plausíveis, maior liberdade terá o cientista para trabalhar os objetivos que tem em vista. A pluralidade de explicações é sempre preferível a um dogmatismo despótico e unitário:

"Unanimidade de opinião pode ser adequada para uma igreja, para vítimas temerosas ou ambiciosas de algum mito (antigo ou moderno) ou para os fracos e conformados seguidores de algum tirano. A variedade de opiniões é necessária para o conhecimento objetivo. E um método que estimule a variedade é o único método compatível com a concepção humanitarista." (Feyerabend, 1988a, p.57)

Nem todas as explicações, porém, serão aceitas pela comunidade científica. Algumas nem mesmo serão examinadas, perdendo-se na poeira do tempo, e outras não serão reconhecidas durante a vida do autor. Essas podem, mais tarde, ironicamente, adquirir foros de "verdades que a época não estava preparada para aceitar". Entre os inúmeros exemplos desse tipo, apontamos dois que são muito conhecidos: a incompreensão das leis da hereditariedade descobertas por Mendel e a taxação de fraude atribuída às pinturas rupestres nas cavernas de Altamira, Espanha (conforme Wendet, s/d, p.242 e 256). Tanto Mendel (Mendel, Gregor, 1822-1884) estava correto quando elaborou as leis que hoje levam o seu nome, embora não fosse sequer compreendido quando as expôs, quanto Dom Marcellino Sautuola (o conde de Altamira), quando afirmou aos mais famosos pré-historiadores do mundo, que não o quiseram acreditar, que havia pinturas do período glaciário em cavernas de sua propriedade. No caso dos dois pesquisadores, a história demonstrou a veracidade de suas crenças e a ironia de não terem sido reconhecidos em vida (talvez não fossem tão eficientes quanto Galileu na propaganda de suas hipóteses). Uma atitude menos dogmática dos pré-historiadores poderia ter permitido um avanço muito mais rápido da paleontologia, e a adoção de uma metodologia pluralista teria possibilitado a esses cientistas, no mínimo, o simples exame das pinturas rupestres, o que não foi feito. Eles, embora tenham chegado na entrada da caverna, se recusaram a descer e examinar as pinturas, por considerá-las uma fraude.

Para o desenvolvimento da ciência, deve-se adotar uma postura mais liberal em termos de posicionamento frente a novas idéias. Se Galileu teve sucesso em suas colocações, muito se deveu à sua posição não dogmática. Tal postura permitiu-lhe não somente aceitar e trabalhar com as hipóteses de Copérnico que estavam em franca contradição com o pensamento oficial, como facilitou-lhe ser conciliador com os seus inquisidores. Com isso, escapou de uma terrível condenação à morte e teve condições de escrever aquela que pode ser considerada como a sua melhor obra: as Duas novas ciências (Galileo, 1935, em Lobo Carneiro, 1989). O preço pago por isso foi, entretanto, muito elevado: a abjuração e a clausura pelo resto da vida.

Em relação à metodologia, se a teoria de Galileu contrariava os "fatos" estabelecidos, obrigá-lo a abjurar não era a solução mais adequada. O correto teria sido o exame detalhado da aparente contradição entre os fatos e a teoria, ou melhor, entre as teorias concorrentes, para lhes encontrar os princípios básicos. A abertura de um debate multidisciplinar teria sido o melhor caminho para que as análises e as colaborações pudessem se processar. Mas isso só teria sido possível em outra época e em outro lugar. Por outro lado, com a tecnologia e os conhecimentos da época, Galileu jamais poderia ter, com precisão, as respostas que satisfizessem os seus inquisidores.

Muitas vezes, uma nova hipótese é construída por sobre uma intuição genial baseada em evidências plausíveis – é o caso de Darwin. Outras vezes, a proposição não possui qualquer evidência plausível, mas, nem por isso, deve ser descartada de imediato na pressuposição que seja apenas literatura ou poesia. Aliás, o trabalho de montagem de uma nova teoria não deveria ser de índole individual, devendo requerer, para a sua consecução, o empenho de vários pesquisadores que trabalhariam em diferentes áreas do conhecimento não necessariamente paralelas. O ritmo da ciência é muito lento, sendo bastante demorado o estabelecimento de uma nova hipótese como verdadeira.

Não se deve acusar Feyerabend de anarquismo ingênuo. Ele não professa um abandono total de todas as regras e de todos os critérios, mas aponta a necessidade de não nos atermos, de maneira dogmática, a uma única estrutura de racionalidade com as suas regras e os seus pressupostos metodológicos, como se ela fosse a única maneira possível de se construir a realidade. Não se trata de um anarquismo puro e simples, de uma posição de aceitação incondicional de toda e qualquer hipótese. Trata-se, pelo contrário, da adoção de uma metodologia pluralista, de uma posição de abertura para o exame de todas as hipóteses, sejam as tradicionais, sejam as que vão surgindo no correr do tempo. Como aponta Feyerabend (1988a):

"O anarquista ingênuo reconhece as limitações de todas as regras e critérios. Um anarquista ingênuo diz (a) que tanto as regras absolutas como as que dependem do contexto têm suas limitações, e infere (b) que todas as regras e critérios carecem de valor e deveriam ser abandonadas. [...] Estou de acordo com (a), porém não com (b). Sustento que toda regra tem as suas limitações e que não há qualquer "racionalidade" global, mas não devemos proceder sem regras nem critérios." (p.32)

Também em ciência, o procedimento deve ser esse. Não importa como foi construída a hipótese básica; se foi aventada por intuição ou dedução, se foi comprovada por experimentação sistemática ou não. Nada disso tem muita importância. O que realmente se deve avaliar é se, respeitando-se a especificidade própria de cada conhecimento realmente existente e, note-se bem, não se tomando o que se segue por regras universais, os fenômenos foram descritos por mais pessoas, os instrumentos são confiáveis e os resultados tiveram uma corroboração autônoma:

"Se os fenômenos descritos por Galileu não tivessem sido confirmados por mais ninguém, e se não existissem razões para confiar no telescópio como instrumento de pesquisa, mas houvesse, ao contrário, muitas razões, tanto teóricas quanto ligadas à observação, de se duvidar, seria então muito pouco científico Galileu forçar os fenômenos, tal como o seria para nós forçar os resultados experimentais sem as confirmações independentes suficientes, obtidas por métodos duvidosos - e isso qualquer que seja a proximidade de suas observações em relação às nossas. Porque, ser científico no sentido que aqui nos interessa (e que é criticado em A M [Against method] e S F S [Science in a free society]) significa agir corretamente com respeito ao conhecimento que existe e não ao que é possível." (Feyerabend, 1989a, p.329).

Na arte, por exemplo, o método de contraste é praticamente o único utilizado quando se quer avaliar a autenticidade da procedência e a autoria de determinada obra. Analisam-se comparativamente todos os elementos presentes na obra, como o estilo, a origem dos elementos físicos, o local de proveniência dos materiais utilizados como a argila, as tintas, os vernizes, as madeiras, os linhos, etc. Procedem-se a profundas análises comparativas químicas, tira-se uma série de radiografias para comparação, e enfim, somente após exaustivos estudos é que se declara autêntica ou falsa uma obra.

Não existe, pois, uma entidade monolítica chamada "a ciência". Cada uma das escolas filosóficas explica de forma diferente o que ela é e como funciona. Não nos afastaríamos muito da verdade, diz Feyerabend (1989a), se afirmássemos que a natureza da ciência está, ainda, envolta em muita obscuridade que um dia, quem sabe, se aclare um pouco. Nesse sentido, pode-se propor, também, que é impossível uma teoria da ciência. Temos apenas um processo de investigação, e paralelamente, toda uma série de métodos práticos que nos podem ajudar na tentativa de aprofundar o processo, mas que também pode nos desviar do caminho:

"Quais poderiam ser esses critérios que nos indicam o desvio?

Aqueles que se adaptam à situação em presença.

Como estabelecemos essa adaptação?

Nós a criamos através da pesquisa em andamento: os critérios não servem apenas para julgar os acontecimentos e os processos, são muitas vezes constituídos por eles e devem ser introduzidos desta maneira ou então a investigação não poderá, jamais, começar." (Feyerabend, 1989a, p.329)

Feyerabend (1989a), ao criticar a concepção tradicional da metodologia científica, nega a existência de um único método científico, adotando uma postura relativista, afirmando que cada conhecimento particular deve ser analisado por suas próprias regras e não por quaisquer padrões externos que a legitimem. "A ciência, aos cientistas!" (Feyerabend, 1989a) poderia ser a sua máxima. Isso implica a liberdade do pesquisador frente à experiência, liberdade essa que está sendo restringida pela tradição em seus aspectos sociais e culturais, pelo próprio temperamento individual, subjetivo, de cada pesquisador, pelos formalismos e pela linguagem empregados, pelo conjunto das crenças metafísicas e, inclusive, por motivos estéticos.

Para Feyerabend (1988a), a maneira como os problemas científicos são abordados e resolvidos depende não apenas das próprias circunstâncias e dos meios disponíveis no instante em que surgem, tais como os meios formais, experimentais e ideológicos, como dos próprios desejos daqueles que com eles trabalham. Não existem condições que limitem indefinidamente a pesquisa científica. A maneira como os problemas que a sociedade enfrenta, e a forma como as culturas interagem entre si, dependem das circunstâncias e do contexto no qual esses problemas surgem. Não existem condições duradouras que possam limitar a investigação científica. E mais, não existem razões "objetivas" para preferir a ciência e o racionalismo ocidental a outras tradições (Feyerabend, 1988a, p.338). A astrologia não pode ser eliminada das ciências pela forma em que as suas previsões foram projetadas (Feyerabend, 1989b, p.333).

"Liberdade!" a qualquer custo e a qualquer preço, poderia ser um outro lema, ou, ainda, quem sabe, "Adeus à razão!"

 

1 Texto apresentado no Grupo de Trabalho "Pesquisa em Psicanálise". VII Simpósio de Pesquisa e Intercâmbio Científico da ANPEPP, Gramado, maio de 1998.

2 Endereço para correspondência: Rua Teixeira de Freitas 178, ap. 702, - CEP: 30.350-180, Santo Antônio, Belo Horizonte, M.G. Fone (31) 342 1795 Fax (31) 499 5042 - E-mail:lfcouto@pucminas.br

3 Maestlin, M. (Michael Maestlin, astrônomo alemão, 1550-1631, concentrou-se apenas na questão das relações matemáticas, e na "física" de seu tempo, e não em argumentos teológicos. A sua descoberta de que o cometa de 1577 se movia na órbita copernicana de Vênus, deu-lhe a prova irrefutável do acerto das hipóteses de Copérnico.) Cf. Feyerabend, 1988b, p. 55s. Foi professor de astronomia em Tubingen, e teve Kepler como um de seus alunos.

Kepler, J. (Johannes Kepler - astrônomo alemão, 1571-1630) empreendeu um estudo preciso e sistemático de marte e enunciou leis que fcaram conhecidas como as Leis de Kepler, das quais Newton depreendeu as leis da atração universal)

Gilbert, W. (Gilbert William, inglês, médico pessoal de Elisabeth 1a, 1544-1603, foi o primeiro a fazer experiências sobre eletrostática e magnetismo)

Guericke (Otto von Guericke, físico alemão, 1602–1686, - inventor da primeira máquina eletrostáticae da máquina pneumática. Realizou experiências com o vácuo, sendo célebre a dos hemisférios de Magdenburgo).

 

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Recebido em 20.01.99
Revisado em 15.05.99
Aceito em 05.06.99

 

 

Sobre o autor:

Luís Flávio S. Couto é psicólogo, com Pós-doutorado em Psicanálise na Universidade de Paris 8, Professor do Curso de Psicologia da Universidade Federal e da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, do Unicentro Newton Paiva, e edita a revista "Cadernos de Psicologia", da UFMG.