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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.3 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000300007 

Temporalidade do trauma: Gênese mais estrutura no pensamento freudiano 1

Luiz Augusto Celes 2
Universidade de Brasília

 

 


Resumo
O presente artigo interpreta a temporalização do tempo na psicanálise freudiana, detendo-se particularmente na análise da primeira teoria do trauma. Mostra a função temporalizadora da sexualidade determinada por seu caráter disjuntivo e expressa no termo posterioridade, no duplo sentido que adquire na obra freudiana: o progressivo e o regressivo. A simbolização implicada na teoria do trauma e o recalque são discriminados em suas relações com a temporalidade. O percurso enseja uma discussão do fundamento do pensamento freudiano entre gênese e estrutura, para concluir com uma avaliação da desconstrução da herança científica de Freud na psicanálise que se inicia.

Palavras-chave: Gênese e estrutura; temporalidade na psicanálise; fundamentos do pensamento freudiano.

Temporality of Trauma: Genesis plus Structure in Freudian Thinking

Abstract
This article interprets the temporalization of time in Freudian psychoanalysis, particularly on the analysis of the first trauma theory. Sexuality is shown to have a temporalizing function determined by its separating character and expressed in the term deferred-action,both in the progressive and regressive sense used by Freud. The symbolization implicated in the trauma theory and the repression are discriminated in their relations to temporality. The basis of Freudian thinking between genesis and structure is discussed, concluding with an evaluation of the deconstruction of Freud’s scientific heritage in psychoanalysis as founded by him.

Keywords: Genesis and structure; temporality in psychoanalysis; bases of Freudian thinking.


 

 

Retornar a Freud para buscar a precisão de suas formulações iniciais, esperando que elas elucidem os caminhos mais próprios da psicanálise, é procedimento que não nos faz mais surpresa. Não somente Lacan difundiu e legitimou esse comportamento na psicanálise contemporânea. A adequação do retorno às origens é mesmo amplamente sustentada por uma certa tradição da ciência oriunda das questões historiográficas, caracterizando o modo de proceder de diversas das, assim chamadas, ciências humanas 3 . Mas nem mesmo é necessário irmos para longe da psicanálise, pois sua prática insinua a importância das origens na determinação dos destinos singulares. Seja porque "viciados" no trabalho psicanálise, seja porque imbuídos pelas mais diversas tradições de busca das origens, aqui faremos um retorno a um aspecto originário da obra freudiana. Duplo retorno, portanto, retorno a Freud e retorno a um tema originário de sua obra, tema que teria sido, costuma-se dizer, até mesmo abandonado no progresso (destino?) seguinte da obra freudiana.

Retornaremos à primeira formulação da teoria do trauma, precisamente àquela que busca explicitar a causação sexual da histeria, que na obra de Freud vem em substituição à sua compreensão hereditária, permitindo constituir uma nova teoria etiológica. A importância do tema do trauma na sua primeira formulação4 está não somente no fato de introduzir de maneira sem volta a sexualidade na etiologia da neurose, mas também no fato de formular de uma vez por todas a subversão do tempo que a sexualidade introduz no processo de subjetivação. Nestes dois aspectos o tema do trauma jamais foi abandonado, mas foi determinante do destino da psicanálise.

Na primeira interpretação do trauma, como veremos, já se anuncia mais do que uma característica concepção da temporalidade. Nela é apreensível uma singular compreensão da temporalização do tempo na constituição e estruturação da subjetividade, contida no termo "posterioridade" [nachträglich], envolvendo seu duplo sentido – progressivo e regressivo (para manter o vocabulário freudiano). A mesma idéia de temporalização será depois explorada e desenvolvida, em sua duplicidade de sentidos, no caso Homem dos Lobos (Freud, 1918/1978-85) 5 .

Se assim justificamos um pouco a "atualidade" da primeira teoria do trauma, isso não quer dizer que compreendemos ou que estejamos sugerindo que ela permaneça inalterada no desenvolvimento posterior de Freud. Mas, sim, afirmar e tomar partido do fato de que, anunciada a sexualidade como "causa" da histeria, ela já revela, em sua primeira explicitação, uma, como que por assim dizer, "perversão" da temporalidade. Rompe a idéia de temporalidade seja a do tempo entendido como repetição inalterada do passado (segundo uma compreensão mítica do mundo, por exemplo), sejam as diversas formas de seu entendimento fundamentadas numa concepção de temporalização linear e progressiva (segundo a compreensão da modernidade filosófica e, dentro dela, a compreensão científica do mundo6 ). O interesse deste texto não é o de precisar a concepção de temporalidade implicada na primeira formulação psicanalítica do trauma, mas, principalmente, o de propor um entendimento da temporalização que lhe é característico, sem pretensão de esgotá-lo.

 

A Temporalização do Tempo na Simbolização e no Recalque

O que, então e exatamente, na vida sexual, causa histeria, segundo a primeira formulação freudiana? De maneira resumida, encontramos a seguinte resposta:

"[...] uma experiência precoce de relações sexuais com irritação efetiva das partes genitais, resultante de um abuso sexual praticado por outra pessoa [...]" (Freud 1896a/1978-85, p. 151).

Eis o que se convencionou chamar "teoria da sedução" e que Freud, na citadíssima carta a Fliess de 21 de setembro de 1897, chama de "minha neurótica" (Em Masson, 1989, p. 265). A expressão "teoria da sedução" privilegia a segunda parte da formulação de Freud, isto é, o meio pelo qual é provocada a "irritação" sexual genital precoce. Mas é a irritação genital precoce que, propriamente, é entendida por Freud como causa específica das psiconeuroses.

Mas por que a excitação genital é causa das psiconeuroses? Perguntado de outra maneira, como Freud elucida-nos a sua função causal?

Ora, o trecho freudiano acima transcrito prossegue com as seguintes palavras:

"[...] e o período de vida que encerra este acontecimento funesto é a primeira infância, até os oito a dez anos, antes que a criança chegue à maturidade sexual." (Freud 1896a/1978-85, p. 151).

Explicitamente, é em relação ao tempo que a função causal da vivência sexual começa a ser elucidada. Relendo as passagens acima citadas sem interrupção, notamos que há uma dupla referência temporal: há um acontecimento, a sedução, seu efeito imediato é uma irritação genital precoce ("precoce" é um qualificativo temporal da "irritação genital"); segunda referência temporal, o acontecimento se dá em um período específico na história individual, na infância. O que se mostra é o seguinte: um acontecimento sexual na infância, a sedução, traz como conseqüência não uma irritação genital simplesmente, mas uma irritação genital precoce. Duas ordens de ‘tempo’ subjazem a estas duas referências temporais: uma funda a qualidade da excitação genital; a outra designa um momento da história de vida do indivíduo. É claro que os dois ‘tempos’ têm relações, de tal maneira que um deles determina a qualidade do outro. Mas o que Freud explicita são duas "coisas", "medidas" segundo parâmetros temporais, duas ordens de tempo, duas temporalidades.

O que se põe, então, como causação da neurose não é simplesmente a experiência sexual precoce, mas sim tal experiência acontecida num momento específico, a infância. É portanto a interseção desses dois momentos temporais (a precocidade da experiência e a infância) que se constitui causa da neurose, e ganha pleno sentido falar em nova teoria etiológica. Retornemos a Freud (1896a/1978-85), ele diz:

"Justamente por ser infantil o sujeito, a irritação sexual precoce produz um efeito nulo ou escasso em seu momento, mas se conserva seu traço psíquico. Logo, quando na puberdade se desenvolve a reatividade dos órgãos sexuais até um nível quase incomensurável em relação ao estado infantil, de uma maneira ou de outra haverá de despertar este traço psíquico inconsciente. Graças à mudança devida à puberdade, a lembrança adquirirá um poder que lhe faltou totalmente no acontecimento mesmo; a lembrança atuará como se fora um acontecimento atual. Há, por assim dizer, ação póstuma de um trauma sexual." (p.153)

O desenvolvimento sexual aparece compartimentado em dois períodos de tempo: o momento anterior à maturidade sexual e o momento de maturidade sexual. Uma disjunção que se baseia na concepção de que não existe sexualidade infantil, isto é, sexualidade própria à infância, de tal maneira que a vivência sexual na infância será imposta pelo adulto (sedução) e terá o caráter precoce. Rigorosamente falando, "precoce" será a irritação genital; a vivência desta estimulação como sexual só se dará no segundo momento do tempo sexual, quando então a experiência erótica adquire o valor traumático7.

O que aparece estabelecido de maneira mais imediata é a idéia de uma inadequação da irritação sexual infantil, em face do que seria o momento apropriado de resposta a esta irritação. Isto porque o tempo sexual, pensado em dois tempos, está colado, nesse momento inicial da formulação freudiana, ao tempo de crescimento e amadurecimento biológico. Desta maneira, a antecipação da irritação sexual é imposta por uma "violência" cuja origem é alheia à criança, a saber, a sedução de um adulto. Por outro lado, o tempo sexual parece estar em uma relação de assimetria com o que chamamos de tempo psicológico 8 . Isto é, o tempo psicológico parece estar antecipado em relação ao tempo de resposta à irritação sexual, pois se esta não se dá na infância, nem por isso o traço mnêmico da experiência deixa de ser, por assim dizer, registrado e conservado e "pronto" para ser despertado. O que estabelece a condição traumática são a não reatividade dos órgãos sexuais à irritação precoce e a conservação de seu traço mnêmico.

Sublinhe-se condição traumática. Pois a constituição propriamente do trauma requer dois acontecimentos, em dois momentos distintos, quando, então, o traço psíquico da irritação precoce ganha sentido na constituição da causação da neurose e uma insuficiência da função (pois se trata nesse momento de função) sexual constitui um distúrbio psíquico, isto é, um conflito, cuja conseqüência será o recalque.

O segundo acontecimento também não é, no entanto, tomado como a causa da histeria, mas, sim, sua intrincada relação com o primeiro, como a seguir veremos, afastando a concepção freudiana da temporalidade seja a da pura e maciça presença do passado, seja a de uma seqüência linear de eventos. A mudança será no sentido da compreensão da presença diferida do passado, já modificada, entretanto, pelo presente, que, portanto, "causa" aquele. O passado, assim causado pelo presente, "causa" este como determinação traumática. Este aspecto da temporalização evidencia-se em seus detalhes no esquema proposto por Freud (1950 [1895]/1978-85) para a explicação do caso de Emma (p. 400), no Projeto para uma psicologia científica.

Emma tinha uma compulsão fóbica, diz Freud (1950a [1895] 1978-85): não entrar desacompanhada em vendas. Associa a esta impossibilidade uma cena de seus 12 anos: quando entra em uma venda, dois empregados estão rindo ao fundo, Emma é tomada de uma profunda angústia e sai da loja. Nesta cena, ocorre a Emma pensar que os empregados riam de seu vestido e que um deles lhe agradava sexualmente. Acontece, diz Freud (1050a/1895/1978-85), que esta cena não é suficiente para explicar o sintoma, nem sua compulsão, isto é, força de permanência, nem seu determinismo, isto é, suas particularidades. Há uma reação anormal de Emma: mesmo tendo sido desagradável a cena, nada impede uma defesa normal que mantivesse a possibilidade de Emma freqüentar desacompanhada as vendas. A permanência e a particularidade do sintoma dão-lhe o caráter psicopatológico. Tal caráter somente é explicado com uma certa associação desta cena (cena A) com uma outra muito anterior, da época de sua imaturidade sexual (cena B). Pois justamente aos 8 anos, Emma, indo a uma venda para comprar guloseimas, é incomodada pelo proprietário que, rindo, lhe aplica sobre o vestido um beliscão nos genitais. Na época, ela, apesar disso, retorna uma segunda vez à venda – Emma reprova-se por isso, como se quisesse provocar o atentado, o que Freud chama de "má consciência oprimente" (p. 401). O riso do vendedor na cena A associa-se ao riso do proprietário na cena B. A recordação da cena B desperta uma excitação sexual que, à sua época, fora incapaz de provocar; a angústia decorrente é entendida como transposição da excitação sexual. O vínculo associativo estabelecido entre as cenas faz com que o sintoma de Emma seja compreensível não como uma resposta à cena A (mais recente), mas à cena B, modificada porém pela cena A, quanto à reatividade da função sexual. Freud traça um esquema da situação:

Dividimos o esquema de Freud em três quadrantes para facilitar nossos desenvolvimentos. O primeiro contém aquilo que Freud chama "cena A", o segundo, a "cena B" e o terceiro, o resultado da associação das cenas A e B, isto é, a excitação sexual e os sintomas.

Dois aspectos são notáveis no esquema proposto por Freud: o primeiro é a descontinuidade imposta na representação gráfica da cena A. O "vestido" e o "riso" desta cena não se associam diretamente, mas pela mediação dos elementos da cena B. Assim, não somente A simboliza B, mas a própria significação de A se constitui através de B; é passando por B que a cena A, ela mesma, tem sentido9, inclusive quanto ao efeito de excitação sexual. Acontece, então, de a cena B fazer-se sexual de tal forma que A a simboliza. Desta maneira podemos compreender que não somente A dá significação sexual a B, mas o faz utilizando-se mesmo de B, percorrendo B.

Não se trata aqui, percebe-se, do entendimento da "posterioridade" freudiana como uma simples ressignificação do passado (da cena B), não sendo o caso de este receber uma nova interpretação devido a sentidos que lhe são acrescentados ou corrigidos. Diferentemente, o esquema freudiano mostra que o passado é modificado pelo mais atual. Em posterioridade, a cena B é modificada pela cena A, esta mesma posterior. O que quer dizer que a cena B, não tendo sido sexual à sua época, teve sua lembrança, em origem, modificada pela cena A, de tal modo que a cena B faz-se sexual. Este é o entendimento necessário, acompanhando Freud, para explicar a força e os determinismos do sintoma. A cena B é e não é de caráter sexual, na compreensão de Freud: não o é sem A, o é cabalmente, associada à cena A. Passamos então ao segundo motivo que faz o esquema de Freud notável.

A ligação que Freud estabelece entre a cena B e a excitação sexual é marcada graficamente por duas setas, uma de ida e outra de volta. Essa via de mão dupla que conforma a excitação sexual parece apontar para a idéia, que de outro modo ainda não está explicitada por Freud, a saber, a idéia de que não é somente a maturidade sexual a responsável pela constituição da excitação sexual. No exemplo de Emma, podemos dizer que a própria atração sexual por um dos vendedores advém da cena B, isto é, a recordação da cena B desperta uma excitação sexual que a sua época foi incapaz de despertar de um certo modo, mas cujo traço mnêmico faz-se e conserva-se no que Freud chama "má consciência oprimente", contemporânea à cena B. No entanto, seu efeito sexual é diferido, somente se fazendo atual por meio da cena A, dando a esta a força e o determinismo que, sozinha, não teria. Freud (1950 [1895]/1978-85) diz: "É reprimida uma lembrança que somente com efeito retardado (nachträglich) tornou-se trauma". (p. 403) – o que quer dizer: B, posteriormente, produziu efeitos traumáticos.

Os dois aspectos notáveis do esquema freudiano permitem distinguir em "posterioridade" um duplo movimento de temporalização: movimento de retroação é o primeiro, determina, por seu turno, uma subversão temporal que se caracteriza pelo fato de um momento posterior determinar um anterior, modificando-o em sua origem. O segundo movimento é o do diferimento que implica o sentido de uma conservação como permanência do anterior, sua não dissipação, seu não passar com o tempo, não obstante o tempo, e o sentido de um adiamento da ação: a atualidade de B como efeito traumático retardado caracteriza a presença (o modo de presença) desse passado conservado como presença adiada. Esse duplo movimento contido em "posterioridade" está, propomos, expresso por Freud segundo dois processos: simbolização e recalque, respectivamente.

À página 396 do Projeto…, Freud explica a compulsão histérica pelo caráter simbólico de A em relação a B – "A se tornou o substituto, o símbolo de B". Explicitamente ele propõe entender que a associação de A com B faz de A símbolo de B. Podemos então escrever que A simboliza B. Isto é, A está no lugar de B, é delegado de B, representa B. Mas, para isso, A simboliza B como sexual, isto é, dá a B sua (de B) representação sexual (ou ainda no sentido de que A transmite à B a sua própria – de A, mas que também será própria de B – significação sexual). Assim, a simbolização constitui-se num processo em que o símbolo (o posterior, A) fornece uma certa determinação ou significação ao simbolizado (ao anterior, B). A não somente e simplesmente simboliza B. A faz-se símbolo de B na medida precisa em que dá a B a significação (sexual) que A simboliza.

Neste modo de se pensar a relação simbólica ou a constituição simbólica, fica excluída (ou, talvez mais propriamente dito, sem sentido) a idéia de "convenção" das relações simbólicas embora não seja substituída, em Freud, por qualquer concepção naturalista das mesmas relações. Está presente, talvez possa-se afirmar, uma concepção genética do símbolo, quer dizer, a idéia de uma constituição histórica (no caso, da história singular do sujeito) acontecida segundo um modo próprio de temporalização, como vimos, onde a seqüência e linearidade entre o anterior e o posterior está desconstruída. Deste modo, abre-se a possibilidade de se pensar A e B como elementos de uma estrutura que se determinam mutuamente, segundo regras específicas, mas cuja uma e principal "regra" seria o tempo que, desconstruído em sua linearidade, não está, não obstante, ausente dessa conjunção de determinações da subjetivação, pensada segundo o trauma.

Quanto à segunda aproximação ou sentido de "posterioridade", isto é, quanto ao que há de permanência de B, é pelo conceito de recalque que Freud se aproxima de uma explicação. Mas para indicar o caminho de seus passos, vamos abandonar o Projeto… e retomar, inicialmente, os textos de 1896, estendendo-nos, rapidamente, até outros.

A neurose só se manifesta a partir da segunda experiência. Para que isso aconteça, deve existir uma "condição psíquica" (Freud, 1896b/1978-85, p.210), a saber, que a lembrança da primeira experiência seja inconsciente, tenha sido recalcada. A segunda vivência, explica Freud, constitui um "conflito psíquico", "uma representação inconciliável" que "põe em movimento a defesa do eu e convida ao recalque" (p.209). A condição, continua Freud, para que o "afã defensivo" tenha o efeito patológico de levar a lembrança para o inconsciente é que a lembrança da primeira vivência já seja inconsciente, e, entre elas, se estabeleça "nexo lógico ou associativo". O conflito e a defesa, contrariamente do que se poderia esperar a partir das primeiras formulações de Freud nos "Estudos Sobre a Histeria" (Breuer & Freud, 1895, p.138) 10, não são entendidos como primários; aparecem agora como secundários. Precisamente então é-nos possível perguntar como as lembranças das vivências infantis tornaram-se inconscientes, como ou por que foram, elas também e anteriormente, recalcadas. A concepção de um recalque primário de caráter mais passivo somente aparecerá formulada mais tarde em Freud (1911/1978-85), embora o conceito de "fixação" já apareça tematizado no caso Dora (Freud, 1905a/1978-85).

Neste último caso citado, a fixação conserva, além do traço psíquico da experiência "indiferente", também a sua significação erógena, pois precisamente a fixação se apóia na repetição da experiência de satisfação. A fixação se a entende então pela inércia da experiência satisfatória (isto é, a disposição de repetição da mesma satisfação) e pela conservação da significação erógena da experiência. Significação esta que será alterada pela satisfação genital que na infância permanece precoce. No caso Dora, a disjunção sexual responsável pela subversão temporal aludida se apóia na diferença de natureza entre a sexualidade na criança e no adulto: a primeira é infantil, parcial, auto-erótica e pré-genital e, quando genital, auto-erótica, o que lhe atribui o caráter precoce; a segunda é "integrada", voltada predominantemente para um "objeto" e de caráter genital (ver Celes, 1995, capítulo 6, pp. 119-136). Posteriormente, com a concepção de uma organização genital infantil (Freud, 1923/1978-85), portanto com a concepção da genitalidade ela também infantil, isto é, parcial, a disjunção da sexualidade será expressa pelo que Freud chamará período de latência.11

É instigante compreender que na mesma obra em que Freud (1918/1978-85) recupera explicitamente a interpretação traumática da neurose, ele introduz a idéia de fantasias originais, como traços universais e indeléveis de satisfação (condição do psíquico que distancia a psicanálise de uma concepção criacionista e relativista, creditando os traços à história humana propriamente); traços estes cuja significação será tecida na singularidade das vivências particulares de satisfação pulsional (constituição psíquica, onde o "acaso" reintroduz seu valor constitutivo).

Nesta nova caricatura de um sistema de constituição psíquica, de causação psíquica, a disjunção da sexualidade que temporaliza e destrói tempos pode ser interpretada a partir da característica, agora universal, das pulsões: são sempre parciais e independentes (característica que pode ser expressa: a sexualidade é infantil) na construção e transpassamento dos tempos de suas satisfações – as pulsões são, elas mesmas, disjuntas e disjuntivas.

 

Gênese mais Estrutura

Fizemos um retorno a um aspecto original da psicanálise – uma aproximação à primeira resposta à questão que Freud muito cedo se formulou e cujas retomadas posteriores mostram-se na obra de Freud segundo uma história de peripécias, avanços e retornos. Essa questão pode ser formulada como sendo a da causação da neurose.

Podemos até mesmo compreender que, paralelamente à questão dos "mecanismos" de formação do sintoma histérico, a reflexão psicanalítica teve início em Freud com a questão da "causação da neurose", mais precisamente da histeria. Assim, originária das questões sobre os mecanismos e a causação, a teoria da neurose em psicanálise faz-se de natureza genética: é sobre a origem e a formação da neurose pelo que Freud se pergunta. Mas também estrutural, pois se trata, simultaneamente, da gênese e manutenção de uma estrutura, onde os elementos e os mecanismos (as regras) ativamente permanecem (ativamente são mantidas); trata-se também da estrutura de uma gênese, onde se supõe algo já dado como pré-condição para que a gênese (a história singular de subjetivação) se faça.

O fundamento do pensamento freudiano entre gênese e estrutura pode ser visto de outra perspectiva, a da desconstrução empreendida de sua herança mais delimitadamente científica. Quando, no curso de uma análise, Freud se pergunta pela acertividade de seu percurso, é na inteligibilidade da conformação da neurose que busca o seu critério de fundamento. Os casos ou fragmentos de casos publicados por Freud estão particularmente marcados pela repetição explícita desse argumento, não sendo o caso de retomá-los agora. O que interessa frisar é que, à idéia de conformação da neurose, subjaz essa dupla questão: a da causação, entendida como origem, e a dos processos, entendidos como mecanismos.

"Causação" e "mecanismos" são categorias norteadoras da reflexão científica. Sobre elas Freud realiza uma dupla torção. Primeira, estabelecendo relações temporais nos mecanismos que associam eventos, Freud dá a seu pensamento caráter etiológico, entendendo a questão da causação como questão pela origem. Com isso, um primeiro afastamento: de um pensamento de índole mecanicista, herdado de sua formação fisiológica, o pensamento freudiano faz-se funcionalista, herdeiro do funcionalismo biológico. Segunda torção, a investigação etiológica de Freud, iniciada como descrição e classificação dos eventos ou fenômenos que concorrem na formação da neurose (fase charcotiana de Freud), depara-se, no discurso da histérica, com uma insistência pertinaz, diante da qual a compreensão funcionalista de Freud vê-se completamente desarmada. Trata-se da insistência da sexualidade na fala da histérica. Basta reler os "Estudos sobre a histeria" para percebermos como, desarmado o esforço de compreensão funcionalista de Freud, ele se vê obrigado a deixar-se conduzir pela fala de suas pacientes 12 .

Dois fatores, então, entram em causa, impondo um segundo afastamento de Freud com respeito à sua herança. Por um lado, a insistência da presença da sexualidade na fala da histérica começa a denunciar a insuficiência de uma simples enumeração e descrição dos eventos ou fenômenos supostos etiológicos: a sexualidade insiste como valor, como significador da constelação dos eventos e fenômenos que conformam a neurose. Poderíamos então dizer que de historiográfica a compreensão freudiana faz-se histórica. Isto é: não basta somente a descrição da sucessão de eventos ou fenômenos determinantes, mas, sim, a significatividade da sucessão dos eventos na constelação da neurose, tendo por pivô, hierarquizador ou significador a sexualidade. É então que a noção de "conflito" vem afastar o pensamento freudiano de sua índole funcionalista13.

Por outro lado, atento, desde então, à função de significação da sexualidade, o empreendimento da descrição histórica, como sucessão conflitiva e significativa de acontecimentos, começa a mostrar-se radicalmente insuficiente. O empreendimento histórico é rompido precisamente por aquilo sobre o que se sustenta, a saber, a concepção de uma temporalidade linear e o privilégio do presente como organizador da sucessão significativa dos acontecimentos 14. Sobrepassando o privilégio do presente, impõe-se a sobrevivência ou permanência (ou "conservação", nos termos de Freud) do arcaico, do acontecimento sexual antigo que não passa, mas insiste, como presença adiada, na forma do sintoma, do discurso da histérica, enfim, sob as diversas formas da "repetição", cujo processo determinante é o recalque (em sua concepção completa, como já aparece no caso Schreber). Rompendo a linearidade da sucessão significativa (mas sem abrir mão do privilégio do agora do momento analítico, onde é possível aquilo que Freud chama elaboração ou perlaboração), impõe-se a subversão temporal na determinação em posterioridade da significação sexual. Processo este que na primeira teoria do trauma, como vimos, pôde ser compreendido como simbolização, marcando a relação simbólica como relação temporal, na subversão que lhe impõe a sexualidade. Assim, a sexualidade vem se estabelecer como parâmetro maior para a compreensão da conformação da neurose e como "objeto" dessa mesma compreensão.

 

Conclusão

Em busca de uma teoria da neurose, Freud se afasta do porto seguro de uma compreensão funcionalista, mas também se afasta de uma compreensão historicista ou de uma hermenêutica historicizante.

Ao mesmo tempo em que a compreensão de Freud não se faz historicista, ela mantém a referência temporal, e isso segundo uma idéia própria de temporalização, no duplo movimento imposto pela sexualidade, o da conservação do antigo e o da modificação do antigo pelo novo, duplo movimento que se atualiza como presença diferida. Esta particular compreensão da temporalização do tempo que não se desfaz da diferença temporal entre eventos (cenas), mas a prioriza, fazem o entendimento freudiano se afastar, por sua vez, de ser estruturalista – permanece histórico, mas não historicista, embora segundo uma compreensão histórica própria (gênese de uma estrutura e estrutura de uma gênese), como sentido da temporalização, imposta pela sexualidade, "deste ente que somos nós mesmos" (usando uma expressão heideggeriana).

Por fim, a teoria psicanalítica inicial do trauma sugere a associação essencial da linguagem à sexualidade. Isso se insinua pela vinculação da simbolização à sexualidade e à temporalização que lhe é característica. Mas isto é ainda uma questão a ser desenvolvida em outra oportunidade, ficando aqui expressa como uma sugestão de hipótese para trabalho.

 

 1 Resultado parcial de pesquisa financiada pelo CNPq: "Temporalidade e Temporalização do trabalho Psicanálise", do Projeto Integrado "Psicanálise, Subjetivação e Modernidade".

2 Endereço para correspondência: Laboratório de Psico-Análises dos Processos de subjetivação, Departamento de Psicologia Clínica, Instituto de Psicologia, ICC – Sul, Campus Universitário Darcy Ribeiro, Universidade de Brasília. CEP: 70910-900, Brasília, DF, Brasil. Fone: (61) 307-2625. E-mail: celes@unb.br

3 Para ficarmos somente com uma obra bastante contemporânea, é o que sugere, por exemplo, Foucault (1972).

4 Falamos aqui em "primeira formulação" pelo fato de Freud jamais ter abandonado efetivamente uma concepção de trauma na origem das neuroses, ainda que modifique sua compreensão traumática, mantendo seu vínculo com a idéia da sedução. Por exemplo, retoma-a explicitamente em 1905a/1978-85, no Caso Dora, e em 1918/1978-85, no caso Homem dos Lobos.

5 Sobre a presença do duplo sentido de "posterioridade" no caso Homem dos Lobos (Freud, 1918/[1914]/1978-85), inclusive no estilo dessa obra, ver Mahony (1992/1984).

6.Sobre os modos de compreensão da temporalidade na tradição ocidental, ver Pomian (1984).

7 Sabe-se que a sexualidade para Freud será sempre entendida como vivência vinda de "fora" (seja de um adulto – da teoria da sedução à sexualidade introduzida pelos cuidados maternos –, seja vinda do estranho interno – da pulsão). De qualquer modo, jamais é a simples incisão da sexualidade que a torna traumática, mas sempre a relação temporal de dois acontecimentos, tal como já se mostra nesta primeira teoria do trauma que estamos examinando. (Discutimos as variações das concepções freudianas sobre a estranheza da sexualidade em Celes, 1994).

8 Uma distinção entre tempo biológico, tempo psicológico e tempo da sexualidade no texto freudiano desenvolvemo-la em Celes (1995, particularmente Capítulo 7, pp. 137-156).

9 Talvez possamos entender aí o que Freud chama proton pseudos, essa falsa ligação, na qual os elementos da cena A não se associam diretamente, mas através dos elementos da cena B.

10 No Caso Katarina, Freud já indica uma diferença na função do "eu" e do "conflito", em relação ao Caso Miss Lucy R., que é o que está em referência. Porém, recobre a diferença dando a Katarina a especificidade de "traumas sexuais" (cf. Breuer & Freud, 1895, p. 148).

11 Como se sabe, a unificação ou "integração" das pulsões parciais infantis terá um caráter psíquico, discutido no "narcisismo" (Freud, 1914/1978-85) e não mais funcional, no sentido de um amadurecimento da sexualidade como função orgânica, como o era para Freud na época da primeira teoria do trauma e, num certo outro sentido, mesmo no Caso Dora (Freud, 1905a /1978-85).

12 Esta questão em particular, desenvolvemo-la em Celes (1984, privilegiadamente à Parte II, seçãoA).

13 Não obstante vale observar que uma interpretação funcionalista da psicanálise não é estranha à história da psicanálise pós freudiana. A respeito, ver Figueiredo (1991, pp. 95-100).

14 A respeito das relações entre a concepção do tempo como linear, o privilégio do presente e a constituição do pensamento histórico ver, por exemplo, Vaz (1991); Pomian (1984); Gadamer (1978); Gurevitch (1979); Lloyd (1979).

     

    Referências

Breuer, J. & Freud, S. (1978-85). Estudios sobre la histeria. Em Sigmund Freud Obras completas (Vol.2)

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    Recebido em 28.03.99
    Revisado em 14.05.99
    Aceito em 10.06.99

     

     

Sobre o autor:

Luiz Augusto M. Celes é Psicanalista, Professor Titular do Departamento de Psicologia Clinica da universidade de Brasília, atuando na graduação e pós-graduação, pesquisador financiado pelo CNPq, Doutor em Psicologia Clinica pela PUC-Rio (1991), com estagio de pós-doutorado em Filosofia na Universidade Católica de Louvain, Bélgica (1996).