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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.3 Porto Alegre  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79721999000300013 

Elementos para uma metapsicologia da interpretação em análise

Anna Carolina Lo Bianco 1, 2
Universidade Federal do Rio de Janeiro

 

 


Resumo
Examinando a base conceitual da obra freudiana sobre a interpretação-sonho (Traumdeutung), o trabalho procura caracterizar alguns elementos para uma metapsicologia da interpretação psicanalítica. Conclui que da mesma maneira que o sonho, a interpretação aponta para as vicissitudes do manejo da angústia, no sentido de facilitar as vias de expressão e mobilidade do desejo.

Palavras-chave: Interpretação; interpretação-sonho; angústia; desejo.

Elements for a Metapsychology of Analytical Interpretation

Abstract
This paper examined the conceptual basis of Freudian thinking concerning dream-interpretation (Traumdeutung) to devise elements for the metapsychology of analytic interpretation. It is argued that dreams as much as interpretation point to the vicissitudes of dealing with anxiety to provide new ways to the expression and mobility of desire.

Keywords: Interpretation; dream-interpretation; anxiety; desire.


 

 

Esse texto procura levantar uma questão no amplo tema da interpretação que se atualiza na cena psicanalítica: tomando os desenvolvimentos de Freud acerca da metapsicologia dos sonhos, examina a função da interpretação com o objetivo de lhe dar uma formulação que precise o seu lugar nessa cena. Como veremos, pretende indicar que esse lugar está entre o analista e o analisando, deslocando-o, portanto, de sua coincidência com o lugar do analista. A presença do analista é, sem dúvida, como sempre foi em Freud, o que torna possível que a interpretação ocorra na cena analítica, é só por relação à transferência, na qual o analista é implicado, que qualquer peça pode ser mexida no jogo psicanalítico. No entanto, tentaremos indicar que, se é pela implicação do analista que se pode pensar em interpretação analítica, não é pela intenção desse mesmo analista, que de sua boca sai uma palavra interpretativa.

A idéia de uma intenção que governa a interpretação, está quase sempre de acordo com uma tradição que remete a um momento anterior à psicanálise: trata-se de "ajuizar a intenção" ou "explicar, explanar, aclarar o sentido" (Ferreira, 1975) de um texto. Essa acepção foi guardada, durante muito tempo, na prática psicanalítica. A partir daí o analista passa, então, a desenvolver a complexa arte de interpretar. A partir dela, como o próprio uso linguístico aponta, ele dá a interpretação.

Esse movimento, no entanto, sofre uma modificação a partir da revalorização da tese freudiana de que os sonhos são resultados de um trabalho que partindo dos desejos inconscientes interpretam os restos diurnos, isto é, as coisas ouvidas, vistas etc. durante o dia, num processo que, como tentaremos detalhar, é complexo e envolve as várias instâncias do aparato psíquico, tais como os sistemas inconsciente e pré-consciente/ consciente.

Tomamos essa tese no presente trabalho com o objetivo de caracterizar alguns elementos para uma metapsicologia da interpretação psicanalítica, pensada a partir do ponto de vista do que denominamos "interpretação-sonho" (Traumdeutung) 3 . Seguindo esse ponto de vista, colocaremos sob exame a afirmação de que o sonho é uma interpretação do desejo, das vicissitudes do desejo no sujeito, o que implica um desenvolvimento metapsicológico que já se encontra presente no Projeto de uma Psicologia para Neurólogos (Freud,1895/1996), e que, posteriormente, vai-se completar na obra principal de 1900. Recorremos aqui a essa metapsicologia, desenvolvida nas primeiras concepções psicanalíticas do aparato psíquico, para auxiliar no exame de um aspecto fundamental da interpretação: sua relação com o desejo inconsciente. Essa aproximação, entre o sonho e a interpretação, vale dizer, foi proposta pelo próprio Freud (1925/1996).

Não nos deteremos nas questões colocadas ao conceito de interpretação pelas considerações feitas a partir da concepção dos sonhos traumáticos. Elas indicam uma dimensão que, ainda que interpretativa, está fora do que procuramos problematizar na interpretação psicanalítica.

Nosso objetivo, ao tentarmos desenvolver esses elementos para uma metapsicologia da interpretação, é tentar livrá-la, por um lado, das formulações intuitivas que procuram se justificar na aparente inefabilidade dessa interpretação e, por outro, das implicações normativas que perpassam a preocupação com as instruções técnicas no que seria uma conduta interpretativa.

 

Os Sonhos e a Função Interpretante do Aparato Psíquico

Em Análise dos Sonhos, Freud (1895/1996) fala que o caráter alucinatório das representações oníricas é a característica mais essencial do dormir. Enquanto na vida de vigília pensamos com palavras, durante o sono pensamos com imagens, isto é, alucinamos. O sonho é, assim, "um pensamento como qualquer outro" (Freud, 1925/1996, p.114), que se transforma em "imagens sensíveis" (Freud, 1900/1996, p.528). Uma outra característica que se junta a essa é a de que tais representações oníricas são acompanhadas de crença. Essa peculiaridade dos sonhos, esses pensamentos que se tornam imagens, aos quais se dá crédito e aos quais se crê vivenciar, guardam forte semelhança, segundo Freud, com as alucinações da psicose, as visões e certos sintomas, uma vez que todos são resultantes da mesma maneira de funcionamento do aparelho anímico. Tendo em vista nosso objetivo, podemos então conceber todas essas modalidades, como diferentes dimensões do que chamaremos a função interpretante do aparato psíquico (confrontar com Miller, 1996).

Ressaltar uma função interpretante no aparato é, desde já, deixar de atribuí-la a um sujeito da consciência, identificado como o inspirador de seu comando, de sua aplicação e de seus efeitos, os quais se seguiriam como conseqüência das atividades que lhe seriam confiadas.

Podemos então referir essa função à explicação metapsicológica que gira principalmente em torno das noções de sistemas psíquicos envolvidos nos processos oníricos. Ainda não tendo desenvolvido completamente tais noções, Freud, em 1895, explica a característica principal do sonho — esse caráter alucinatório —, em primeiro lugar pela paralisia da extremidade motora do aparato psíquico durante o sono, que receberia então investimentos de y ao invés de descarregar a corrente de investimento para a motilidade. É exatamente efeito de um investimento no "sentido retroativo", o qual garante a qualidade vinda de y em direção a j, impedido de ter seu investimento efetuado pela extremidade motora. Em segundo lugar, para falar do caráter alucinatório dos sonhos, Freud recorre à explicação de que a "lembrança primária de uma percepção é sempre uma alucinação" (Freud, 1895/1996, p.385) e que só a inibição por parte do eu é que impede que se invista tal percepção. Na ausência dessa inibição, como comenta Garcia-Roza (1991), "nada impede que o investimento se transfira retroativamente para j" (p.185).

Nesse ponto, Freud (1895/1996) faz ainda uma outra afirmação que da perspectiva da metapsicologia da interpretação que tentamos acompanhar é de enorme interesse. Diz ele que essa segunda explicação sobre o investimento da imagem-percepção se sustenta também pela circunstância de que "no sonho a vividez da alucinação está em relação direta com a significação (Bedeutung, valor psíquico), ou seja, com o investimento (Besetzung) quantitativo da representação de que se trata" (p.385).

Essa passagem chama atenção porque faz a Bedeutung e a Besetzung das representações oníricas se tornarem praticamente sinônimas. Se tomarmos a tradição da palavra Bedeutung, vamos nos deparar com a questão da significação, do valor psíquico, na língua alemã, sendo posta em tela ao mesmo tempo que o investimento das representações. É bem verdade que o conceito de Besetzung — que veio a ser conceito fundamental da psicanálise — já havia sido transposto para o plano psicológico e já estava menos ligado à ocupação dos neurônios por uma "quantidade", do que ao investimento das representações por um "fator intensivo" (Garcia-Roza, 1991, p.184). Trata-se no sonho, portanto, de um valor psíquico ou de um investimento, que Freud irá retomar posteriormente na Traumdeutung, ao desenvolver um aparato composto de diferentes sistemas psíquicos.

No Capítulo VII desse livro, Freud (1900/1996) concebe a existência desses sistemas no funcionamento do aparato psíquico por onde se propagam as excitações vindas das percepções. Há um sistema que as recebe e deve permanecer livre delas para poder estar sempre apto a receber novas impressões. Ao entrar em contacto com as percepções ele as transmite por associação de simultaneidade ao primeiro sistema mnemônico que então irá passá-la a outros sistemas mnemônicos por relações de semelhança e neles a excitação propagada experimentará uma fixação. Freud conceitua aí também "gradações de resistência de condução para esses elementos". Eles não têm uma passagem livre entre si, mas são ligados em determinados pontos, de forma que não escoam sem barreiras.

Não precisaríamos mencionar o conhecido esquema proposto por Freud (1900/1996), se não fosse pela presença novamente, aqui, — no momento em que trata da propagação da excitação pelos sistemas —, da referência ao valor psíquico, à Bedeutung desses sistemas. Freud acrescenta, ainda, que seria "inútil empenhar-se em indicar com palavras" esse valor psíquico (Freud, 1900/1996, p.533). O tradutor do texto freudiano para o espanhol comenta, então, que Freud poderia ter dito, ao em vez de "palavras", "representações-palavra" (Etcheverry, 1996, p.533n). Com esse comentário propõe que Freud esteja colocando o sonho, ou antes, as imagens que constituem o sonho, do lado das "representações-coisa", conceito que, com as "representações-palavra", irá servir a um certo refinamento do conceito de representação e que só será desenvolvido em Freud (1915). Com sua observação, sobre a inutilidade das palavras nos sonhos, Freud aponta para a questão da significação que é posta em pauta simultaneamente à questão do investimento (ou da ocupação) na concepção de representações-coisa, portanto, nas próprias representações oníricas.

Estamos nesse momento aptos a formular a idéia de que a interpretação-sonho nos remete, portanto, a representações-coisa que são resultado de investimentos, isto é, valores psíquicos, que lhes constituem, lhes dando um caráter alucinatório que se crê vivenciar. Tais representações — sendo semelhantes às que prevalecem nas alucinações, nas visões e em certos tipos de sintomas psiconeuróticos —, podem também ser entendidas como aquelas que vão constituir as representações da interpretação que se exerce na cena psicanalítica. Certamente, essa difere das outras representações por ser expressa em palavras, ou seja, pelo uso de representações-palavra. Como acentua Freud (1900/1996), só nisto diferem das representações nos sonhos. Nos valendo dessa proximidade, ou antes, dessa coincidência entre a interpretação-sonho e a interpretação analítica, no registro das representações, é que nos acreditamos autorizados a pensar numa metapsicologia da interpretação analítica.

 

A Interpretação-Sonho: Paradigma da Interpretação Psicanalítica

Ora, o argumento central introduzido por Freud acerca das representações oníricas, pode-se dizer, é serem elas representações do desejo. Pensar a interpretação, a interpretação que é o sonho, é pensar a incidência do desejo no aparato psíquico, em toda sua complexidade: de sua constituição aos obstáculos que enfrenta em sua expressão. De início, entramos em contacto com um desejo que pode ser localizado no sistema pré-consciente, ou pode ter sido forçado a se retirar desse sistema para o sistema inconsciente. No entanto, esse desejo pré-consciente, do qual se tomou conhecimento e por uma razão ou outra não se realizou, dificilmente terá força suficiente para criar um sonho. Poderá, no máximo, incitá-lo. Há que estar presente um "outro desejo paralelo, inconsciente" que venha reforçá-lo para que ele encontre expressão (Freud, 1900/1996, p.545). Esse outro desejo, um "poderoso auxiliar" na formação do sonho, vem do sistema inconsciente, onde estão os desejos sempre alertas, "imortais", que Freud identifica aos desejos infantis recalcados. São esses a verdadeira força impulsora dos sonhos.

Ao contrário, quando concebemos o funcionamento do pré-consciente é necessário supor uma série de alterações ocorridas nele durante o sono. Esse mesmo estado, no entanto, ao permitir que se tornem mais claras e precisas as conceituações acerca do funcionamento inconsciente, faz ressaltar exatamente a inalterabilidade de seu caráter durante o sono. Se ao pré-consciente é vedada a expressão de excitações em sua busca por tornarem-se conscientes e é paralizado o seu investimento da motilidade, o inconsciente não parece sofrer qualquer mudança em seu funcionamento. Já os pensamentos diurnos ou as excitações pré-conscientes, no entanto, precisam achar algum meio de se incluírem no sonho através de uma relação com o desejo infantil suprimido para que ganhem a possibilidade de expressão.

Isto faz supor uma prevalência do sistema inconsciente no que diz respeito, em particular, aos caminhos que tomam as moções de desejo que nele se originam. Essa referência ao sistema inconsciente e especialmente ao desejo inconsciente nessa característica de indestrutibilidade, no quadro do estudo sobre os sonhos, ganha uma qualidade interessante para nossas considerações sobre a interpretação. É na Traumdeutung que se tem, em toda a sua extensão, a predicação mais vigorosa do papel do inconsciente no funcionamento psíquico. E é exatamente na sua consideração que podemos desenvolver a concepção da interpretação nesse funcionamento.

Poder pensar a interpretação-sonho como paradigma da interpretação psicanalítica é ressituar a importância do papel que nela desempenha o desejo inconsciente, e, também, reconhecer nela a presença inelutável da força impulsora que motiva seu exercício e que possibilita uma melhor definição de seus contornos. É, então, situando seu ponto de partida no sistema inconsciente, tirá-la do lugar da vontade, da decisão ou da escolha puramente conscientes feitas pelo analista e, ao mesmo tempo, afastá-la de um âmbito mais ou menos impreciso que a prende à intervenção ad hoc que ele realiza.

Freud (1900/1996), ao dar conta de todo o processo — desde a emergência do desejo inconsciente até a expressão consciente apresentada com certa coerência e inteligibilidade —, afirma que a seqüência que propõe tem fins estritamente descritivos. Não é que realmente surja um desejo onírico que de início se transfira a um desejo atual pré-consciente que, em seguida, encontre a censura e regrida até chamar a atenção das marcas mnêmicas das percepções etc. Trata-se "em realidade, antes, da tentativa simultânea de um ou outro caminho, de uma flutuação da excitação de um lado a outro, até que ao final permanece um dado agrupamento por ser a acumulação mais adequada dessa excitação" (Freud, 1900/1996, p.567). Diz ainda que isto leva mais de um dia e uma noite, até que se alcance o resultado de um sonho.

O sonho é resultado de uma oferta feita ao desejo inconsciente para que encontre uma via de realização. O sonho oferece possibilidades para que o desejo inconsciente se atualize, se expresse — ou seja, põe em disponibilidade os meios através dos quais se abrirá o espaço de mobilidade do desejo. Irá, portanto, facilitar essa mobilidade, velando para que ela possa vir a ocorrer sem percalços ou com o mínimo de obstáculos possíveis.

Ao seguir as vias através das quais o sonho facilita a realização do desejo, Freud mostra que todo o "caráter assombroso" da construção do sonho, como uma arte extraordinária, se perde (Freud, 1900/1996, p.568). Exatamente, podemos acrescentar, como se perde toda a indefinição e a impenetrabilidade do que se passa numa sessão de análise, quando ocorre uma interpretação. Não se trata, pois, de um enunciado intuitivo, que vem de uma experiência supostamente inefável, irracional e, portanto, inexplicável, que colocaria a interpretação num lugar a que só os mais experientes chegariam. É claro, que ao mencionarmos a inteligibilidade do processo de interpretação, nem por isso estamos nos referindo a uma interpretação de caráter conclusivo (ver Balint, 1968); as referências de Freud ao "umbigo do sonho" (Freud,1990/1996, p.519), à sobredeterminação da interpretação e à impossibilidade de um dito definitivo sobre o material onírico apontam todos para o caráter rigorosamente inesgotável do sonho. Que ele seja inesgotável, no entanto, não faz dele um processo menos apreensível.

 

O Manejo do Desejo Feito pela Interpretação-Sonho

Mantendo a imagem linear que, em verdade, é apenas uma imagem exemplar para se considerar as vicissitudes do desejo durante o sonho, trata-se de uma seqüência de passos cujo objetivo podemos determinar como sendo o manejo do desejo feito pelo sonho.

Necessariamente, o manejo do desejo envolve um compromisso entre o desejo inconsciente — que quer se realizar — e o desejo pré-consciente, atual, que usa o reforço daquele para se expressar. No entanto, o desejo dominante no pré-consciente é o desejo de dormir. É importante, pois, que o sonho, ao permitir ao desejo inconsciente sua descarga, não quebre o compromisso com esse desejo do pré-consciente de permanecer adormecido. Essa a melindrosa operação do sonho ao manejar o desejo inconsciente: manter o desejo móvel e, ao mesmo tempo, usando o estímulo do pré-consciente, manter o sono sem perturbá-lo. Ora, se a realização desse desejo implica numa intensidade que agita o pré-consciente a ponto de impedi-lo de manter seu estado de repouso, haverá uma quebra do compromisso que o sonho deveria respeitar. Esse é o caso do sonho em que surge abruptamente a angústia e leva ao despertar. Ou seja, "a função do sonho termina em um fracasso" (Freud, 1900/1996, p.571).

No entanto, não foi por culpa do sonho que ocorreu um tal fracasso. Houve uma mudança nas "condições de sua produção" (Freud, 1900/1996, p.571). Passa, em seguida, a considerar o papel das "fontes de afeto inconscientes" responsáveis pelas alterações ocorridas no sonho (Freud, 1900/1996, p.572). Por vezes, as representações do inconsciente liberam um afeto que em sua origem foi prazeroso; no entanto, quando o recalque incide sobre elas surge o desprazer. Então, a supressão da representação inconsciente é necessária para que o desprazer seja evitado. Ao mesmo tempo, dado o governo que exerce o pré-consciente sobre as representações, essas também são inibidas por ele para que não sejam enviados impulsos que desenvolveriam afeto. "O perigo, comenta Freud, se cessa o investimento por parte do pré-consciente, consiste em que as excitações inconscientes desprendam o afeto" até aqui suprimido ou inibido (Freud, 1900/1996, p.573). Vale lembrar, nesse ponto, que é característico do sonho justamente essa retirada do investimento do pré-consciente que deseja dormir. Ou seja, o "perigo" é sempre iminente.

Esse processo, a rigor, não seria resultado do trabalho do sonho. No entanto, não é possível que o sonho não tenha participação nele. Na verdade, trata-se aqui, do compromisso resultante de um conflito entre dois poderes psíquicos, com interesses opostos, que o sonho procura manejar, tornando os afetos indiferentes. Portanto, além de manejar o desejo, o sonho maneja também o afeto — a angústia — no sentido de não deixá-lo irromper na cena onírica, isto é, no sentido de afastar o perigo.

O exame dessa função de manejo do desejo e da angústia — exercida pelo sonho — é, então, particularmente fértil para pensarmos o que acontece na interpretação psicanalítica. Em relação a ela, também podemos reconhecer a função do manejo do desejo inconsciente, enquanto, ao mesmo tempo, como aponta Lacan (1962/1963), reconhecer o quanto o paciente pode ou não suportar a angústia, faz com que o "manejo da angústia"(p.23) na sessão psicanalítica seja o que põe à prova o analista a todo instante.

Trata-se, então, na interpretação, como no sonho, do preciso "manejo da angústia", para repetir a fórmula cara a Lacan (1962/1963), em seu Seminário, que trata desse afeto que considera o "afeto por excelência" (p.33). Então, se consideramos a angústia como o afeto por excelência, que ele situa num ponto anterior ao ponto da emergência do desejo no sujeito, trata-se de fazer desse afeto o guia da interpretação, na medida em que ele irá conduzir aos momentos privilegiados da incidência do desejo.

Apesar das mudanças que o afeto sofre na formação do sonho, para que, também em vista de tal afeto, o sono continue, esse mesmo afeto tem uma resistência muito maior à censura, do que a mostrada pelas representações. Essas se submetem a toda série de deslocamentos e substituições e são alteradas pelas desfigurações ao esbarrarem com a censura, enquanto o afeto, quando aparece no sonho, permanece sempre intacto. Nesse sentido, quando na cena onírica encontramos uma determinada representação acompanhada de um afeto, ainda que a representação seja imaginária, isto é, não corresponda à experiência da realidade, o afeto que emerge na cena é real. Freud (1900/1996), dá o exemplo de um sonho em que aparece o medo de uns ladrões; "os ladrões, diz ele, são decerto imaginários, mas o medo é real" (p.458).

É esse afeto "real" que Lacan vai enfatizar que "não mente" (1962/1963, pp.127 e 138, respectivamente), isto é, não joga com a mesma equivocação que as representações oníricas. Na medida em que não é tão suscetível de sofrer a ação da censura, não se prestando tanto a deslocamentos e condensações, o afeto, diferentemente das representações, não se presta ao engano como essas. Por isso Freud afirma que "é por seu conteúdo afetivo que o sonho sustenta, mais energicamente que por seu conteúdo de representação, a reivindicação de que se o conte entre as vivências reais de nossa alma" (1900/1996, p.458).

O sonho como vivência real de nossa alma é, pois, o sonho que maneja a angústia, no sentido de dar os trilhamentos da expressão do desejo inconsciente, no sentido de permitir essa mobilidade do desejo a que visa a interpretação na cena analítica.

Não podemos, no âmbito desse trabalho, desenvolver em toda a extensão as implicações que essas formulações terão para a teoria da clínica psicanalítica. Todavia, é importante, para finalizar, enfatizarmos como a operação realizada pelo sonho nos fornece elementos para considerarmos a interpretação metapsicologicamente.

A experiência analítica, sustentada pela relação transferencial, se articula ao sonho como se articula à interpretação. O modo de conceber o funcionamento dos sistemas psíquicos traz implícita a possibilidade de que o sonho integre em sua formação a relação transferencial vivida, em toda intensidade (Freud, 1923/1996). Não que "o trabalho do sonho propriamente dito" possa vir a sofrer qualquer influência dos pensamentos pré-conscientes: "todo sonho genuíno contém referências às moções de desejo recalcadas a que deve a possibilidade de sua formação" (Freud, 1923/1996, p.116). Vale lembrar que o lugar reservado ao que se chama de "moções de desejo" na interpretação-sonho, como na interpretação analítica, é, poderíamos dizer, indestrutível. Nada termina, nem nada é passado ou esquecido. É, pois, com essas moções que se conta primordialmente para que continuem as interpretações da vida psíquica.

No entanto, na medida em que as experiências da vida de vigília têm a função de incitar as representações oníricas, seguramente as impressões da cena analítica podem se expressar na cena onírica. Tomando a transferência em seu valor de relação marcante e fundante da cena analítica, é claro que o que se passa na relação transferencial não pode deixar de ser figurado no sonho. Os efeitos do desejo do analista, da presença do analista, as intensas vivências transferenciais engendradas em análise, ao tomarem parte no sonho que emerge nessa análise, trazem uma marca cuja característica nos interessa particularmente: a possibilidade da emergência do sonho entre o analista e o analisando.

Da mesma maneira, podemos pensar a interpretação no seu laço com a transferência. Considerando-a um sonho que se expressa com palavras, podemos conceber claramente sua constituição como devedora das moções inconscientes incitadas pelos conteúdos pré-conscientes da vida de vigília. Pode-se, pois, reivindicar para a interpretação que surge em análise, a mesma localização que atribuímos ao sonho: ela também se apresenta entre o analista e o analisando. Ela emerge no momento da análise em seu "sentido forte", isto é, no momento da transferência, no qual está em jogo a presença do analista frente ao analisando.

Considerá-la nesse lugar nos permite, então, pensar as alterações que sofre o curso da interpretação de acordo com o trabalho de transferência durante o tratamento. É, pois, a transferência, que determinará esse curso da interpretação. Não se trata, mais uma vez, de uma interpretação dada por uma "correta avaliação" ou mesmo por uma posição contratransferencial assumida pelo analista, mas, ao contrário, da sua inserção no que podemos considerar como o modo de funcionamento inconsciente operado em uma análise.

Muitas vezes, frente a uma "nova fase da transferência, penosa (para o paciente)" (Freud, 1923/1996, p.114), o sonho procura se expressar de uma maneira que exatamente "declara" que a análise não é mais necessária. Estamos em presença de "sonhos de cura", que podem ser categorizados sob os "sonhos de comodidade", como Freud os denomina em1990/1996 (p.562) e continua a fazê-lo, bem mais tarde, em 1923/1996 (p.114). É exatamente de comodidade que podemos falar quando estamos diante da interpretação analítica que evade os momentos de emergência da angústia, se confundindo com uma prédica confortante que se prolonga por anos a fio em um tratamento.

O exame da interpretação, sob a égide da metapsicologia dos sonhos, nos mostra, em suma, como o sonho, tem que encontrar o ponto médio entre duas posições que exatamente se trata de evitar. De um lado a palavra cômoda e apaziguadora que, ao servir de via para o desejo, o impede de se realizar, parando a meio caminho a fim de não deixar emergir a angústia sob qualquer forma possível. De outro lado, a palavra que a deixa irromper e termina igualmente por impossibilitar a expressão do que é o objetivo primordial da interpretação — a mobilidade do desejo, a emergência do sujeito desejante.

 1 Endereço para Correspondência: Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica - Instituto de Psicologia UFRJ, Av. Pasteur,250 fundos, 22290-240, Rio de Janeiro, RJ. Fone/Fax:(21) 2948403. E-mail: aclobianco@gbl.com.br

2 O processo editorial deste artigo foi realizado pela Editora Responsável da revista Profª. Drª. Sílvia Helena Koller.

3 Usamos aqui uma tradução diferente da que tradicionalmente se faz na Língua Portuguesa que é "Interpretação dos Sonhos". A Língua Alemã faculta, sem dúvida, essa possibilidade. Mas menos voltados para as questões de tradução (em francês Traumdeutung se transformou na Science des Rêves!) e de exatidão de seus termos, estamos interessados em valorizar uma dimensão que, como veremos, está presente no texto freudiano: a de que o sonho fornece um valor psíquico (Bedeutung) ao desejo inconsciente.

 

Referências

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Recebido em 08.03.99
Revisado em 03.05.99
Aceito em 27.08.99

 

 

Sobre a autora:

Anna Carolina Lo Bianco é PhD em Psicologia pela Universidade de Londres, psicanalista, professora do Instituto de Psicologia da UFRJ e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica do mesmo Instituto.