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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.1 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000100001 

Editorial

 

 

Entregamos à comunidade científica, com imensa e renovada satisfação, o primeiro número da revista Psicologia: Reflexão e Crítica do ano 2000. Os novos design da capa, projeto gráfico e formato da revista representam um esforço estético de acompanhar o dinamismo da Psicologia no Brasil. Há uma crescente preocupação dos pesquisadores em dispor de veículos de qualidade, em nosso país, para a divulgação de seus estudos e para a aquisição de conhecimentos atualizados na área. A confiança conquistada pela tradicional Psicologia: Reflexão e Crítica na comunidade científica, por seu processo editorial de qualidade, regularidade e periodicidade cumpridas, ampla divulgação e circulação, está agora acompanhada de uma aparência mais arrojada e moderna, que possibilita melhores condições para a leitura e o manuseio da revista, despertando ainda mais o interesse em seu conteúdo. O ano 2000 é um marco histórico em nossa cultura e a implementação desta mudança visual pretende, certamente, marcar a história de nossa revista com "nova roupagem" e a manutenção da credibilidade em sua competência e seriedade, pela comunidade científica brasileira. Certamente, o aspecto estético não é o determinante, maso papel científico e histórico que a Psicologia: Reflexão e Crítica vem desempenhando no momento atual da Psicologia brasileira, ao qual todos os seus integrantes do Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento da UFRGS reputam de maior importância.

A ciência precisa de veículos para a divulgação ampla e atualizada de seus achados. O estímulo às revistas científicas é fundamental, pois elas se propõem, dentro deste processo, a serem as porta-vozes destes conhecimentos. como um todo, Diante do novo século que se avizinha, as revistas científicas devem alcançar padrões de profissionalismo e qualidade, estando preparadas para divulgar futuros achados tão esperados, como a cura para muitas doenças, a descoberta de mistérios da genética, a explicação para fenômenos da natureza. A Psicologia, como uma parte jovem da ciência, depara-se com a necessidade de encontrar ainda muitas respostas para fenômenos do comportamento humano, do funcionamento do cérebro e da consciência, entre outros. No Brasil, a tarefa é ainda mais árdua. Os pesquisadores brasileiros devem divulgar seus estudos, revelando a riqueza da pesquisa realizada, com tanta dedicação e luta, em condições de trabalho precárias. Precisam conhecer, através da leitura das revistas científicas brasileiras, o trabalho de seus colegas pesquisadores. Deve ser mantido o debate entre o conhecimento acumulado na história da Psicologia, as respostas até o presente alcançadas e o futuro da pesquisa e da produção de conhecimento. Não importa qual pesquisa seja feita, se básica ou aplicada, se quantitativa ou qualitativa, se individual ou em grupo, se diversificada ou especializada. Importa que os resultados obtidos sejam relevantes para a comunidade científica e para a comunidade em geral. Para que uma avaliação de sua relevância seja feita, mais uma vez, a revista científica torna-se necessária, para divulgar estes resultados.

A exigência de divulgação dos resultados de um estudo científico está além do respeito à Resolução 196 do Ministério da Saúde, que normatiza a pesquisa com seres humanos, e que considera a divulgação dos resultados obtidos como uma obrigação ética. A revista científica permite que pesquisadores, estudantes e profissionais conheçam os achados da pesquisa que auxiliam na construção de novas teorias e da pesquisa que integra estas teorias com a ação, subsidiando políticas e programas que melhoram a vida cotidiana dos seres humanos. A ampla divulgação destes conhecimentos, especialmente através de periódicos científicos, permite a elaboração de novos modelos de pesquisa e de intervenção. Apenas o psicólogo bem informado poderá propor novas práticas, baseadas na realidade científica, política, cultural, econômica e social, que respondam às demandas da comunidade. A atualização científica contribui com vantagens, para o crescimento da Psicologia, como ciência e como profissão. Embora pareça utilitarista, alguns resultados científicos protegem a sociedade civil, pois geram impacto no que será pesquisado pela comunidade cientifica e no que será aplicado no trabalho com a comunidade em geral. Certamente, a ciência cresce na direção das respostas às dúvidas dos pesquisadores, das demandas da comunidade, dos problemas mais freqüentes e simpáticos para aqueles que tomam decisões sobre o financiamento e a execução de projetos. Aavaliação do efeito da ciência é fundamental para o desenvolvimento social. No entanto, precisa-se aprender a avaliar este efeito e a fazer bom uso dele. Boa pesquisa é aquela que mantém padrões de rigor científico, que produz conhecimento que faz diferença para a ciência e a sociedade e que é divulgado para que possa realmente ser consumido pela comunidade científica como produção de conhecimento. O papel da revista científica é ser o espaço para que isto aconteça.

A realidade da ciência psicológica no Brasil, neste final de milênio, parece, ainda distante deste ideal de construção de conhecimento e aplicação do mesmo a ações, mas certamente estamos em processo de conscientização desta necessidade. A ausência de leitura de revistas científicas de qualidade pode ser tomada como parâmetro para verificar a atualização dos psicólogos no Brasil. Há, no Brasil, cerca de 110 mil psicólogos registrados nos Conselhos de Psicologia, 60 mil estudantes em, aproximadamente, 143 cursos de graduação e 40 de pós-graduação. No entanto, as melhores revistas científicas brasileiras têm uma tiragem média de, apenas, mil exemplares. Quais são os veículos que estão sendo utilizados para a atualização profissional e científica? Estarão todos estes profissionais e estudantes lendo apenas periódicos internacionais? Ou lêem somente revistas de divulgação comercial? Como gerar maior interlocução na comunidade profissional, se o colega deárea não é lido? Qual será o futuro da Psicologia do nosso país se esse padrão, que indica falta de atualização, persistir?  A experiência de editoração de Psicologia: Reflexão e Crítica revela que muitos membros da comunidade científica se preocupam com esta situação. Esforços têm sido feitos, também, em várias frentes, para que o cenário se modifique, com a criação de grupos de pesquisas, a organização de eventos científicos, a formação de estudantes. Há uma preocupação de construção de conhecimento, ainda que baseado em modelos trazidos de outros países e culturas, para que se tenha um corpo denso de produção e divulgação da pesquisa brasileira.

Psicologia: Reflexão e Crítica está chegando cada vez mais, a pesquisadores, profissionais e estudantes, que são leitores e assinantes habituais da revista. A estes pesquisadores, reconhecidos na Psicologia brasileira, e estudantes de pós-graduação, juntam-se profissionais e estudantes de áreas afins. Além deles, estudantes de graduação, em Psicologia, têm demonstrado interesse em assinar a revista, justificados pela solicitação de seus professores para uso em sala de aula. Bibliotecas de vários cursos têm procurado disponibilizar a revista para seus usuários, especialmente incentivados pela Comissão de Especialistas de Ensino em Psicologia (SESu/MEC).

O movimento dinâmico da comunidade reflete-se, ainda, no processo editorial. Há uma crescente preocupação dos autores de manuscritos, em apresentá-los com maior cuidado e respeito às normas de publicação da revista. A apreciação dada pelos consultores e conselheiros ao manuscrito tem sido acatada, em uma tentativa de reformulação e de melhoria da qualidade da versão final. A interlocução dos autores, com conselheiros, consultores e esta editora tem sido baseada em uma atitude crítica, construtiva e, sobretudo, de respeito. Este processo vem sendo encarado como educativo por todos. A troca dos pareceres sobre um mesmo manuscrito entre os consultores, prática adotada por esta editora, tem auxiliado no desenvolvimento e na melhoria do processo editorial. Quando se compara os pareceres de um mesmo consultor ao longo dos anos, verifica-se que este processo promoveu um aprendizado e provocou, muitas vezes, mudança para uma atitude mais pedagógica. Esta prática gerou outro fórum de discussão e de divulgação do trabalho entre pesquisadores da mesma área, que além de lerem o manuscrito do seu colega-autor, podem apreciar os comentários sobre o mesmo estudo por seu colega-consultor.

Outro aspecto relevante para a Psicologia brasileira é a interlocução com pesquisadores internacionais, através desta revista, publicada em língua portuguesa. A submissão de estudos por estes pesquisadores internacionais, que pretendem se tornar conhecidos no Brasil, também tem aumentado. Este fato é, provavelmente, resultado da indexação da revista em sistemas internacionais, mas também reflete a credibilidade que a revista conquistou entre pesquisadores nacionais, que convidam seus parceiros fora do Brasil, a submeterem seus resultados à apreciação de uma revista brasileira.

A necessidade de agilizar o processo e de produzir uma discussão sistemática das políticas editoriais, levou Psicologia: Reflexão e Crítica a criar uma rede de troca de mensagens por correio eletrônico entre seus conselheiros e a comissão editorial. Esta prática tem se revelado muito instigante e produtiva, permitindo mais agilidade e reflexão sobre a editoração científica em Psicologia no Brasil.

Fica aqui, mais uma vez a inquietação de uma editora e o desafio à comunidade para priorizar sua atualização através da leitura de periódicos científicos que, como Psicologia: Reflexão e Crítica, contribuem para o desenvolvimento e crescimento da área e, por suas contribuições, tornam-se parte da história da Psicologia brasileira. Feliz Ano 2000 a todos!

Cordialmente,

 

Sílvia Helena Koller
Editora