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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.1 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000100009 

Responsividade do ambiente de desenvolvimento: crenças e práticas como sistema cultural de criação de filhos

Eulina da Rocha Lordelo 1  2 
Ana Lúcia Fonseca
Mariana Lamêgo V.B. de Araújo
Universidade Federal da Bahia

 

 


Resumo
Investigou-se o ambiente doméstico, em termos de responsividade materna às demandas da criança, relacionada a atitudes em relação à maternidade e à criança. Quarenta e cinco mães e seus filhos, de uma área de favela urbana ou de bairros de classe média, foram entrevistadas e filmadas em suas casas, sobre questões relativas à maternidade e ao cuidado à criança. Um questionário investigando atitudes em relação à maternidade e à autonomia da criança foi também aplicado. A análise dos dados incluiu a construção de um escore de responsividade e o tratamento das respostas ao questionário para formar duas subescalas. Os resultados mostraram pouca diferença no grau de satisfação com a maternidade; em relação à autonomia da criança, houve diferenças estatisticamente significativas, relacionadas ao bairro de residência a ao nível de escolaridade. Os resultados são discutidos em termos da articulação entre práticas de cuidado à criança e sistemas culturais relacionados, e implicações desenvolvimentais.
Palavras chave: Responsividade; ambiente de desenvolvimento; estilos maternos; atitudes maternas

Responsiveness of the development environment: beliefs and practices as a cultural system of nurturing children

Abstract
This paper investigated the domestic environment in terms of maternal responsiveness to the child’s demands related to attitudes related to maternity and to the child. Forty-five middle class and slum-dwellers mothers and their children were interviewed at home. Questions about maternity and child- care practices were asked. A questionnaire to investigate attitudes related to maternity and to the child’s autonomy was also used. Analysis included the construction of a responsiveness score and the use of the answers to the questionnaires to form two scales. The results showed little difference in the degree of maternal satisfaction but there were large differences concerning the child’s autonomy, related to place of living and educational level of the mother. The results suggested an articulation between child care practices, cultural systems, and their implications for child development.
Keywords: Responsiveness; developmental environment; maternal styles; maternal attitudes.


 

 

A diversidade de ambientes nos quais a criança se desenvolve, com a crescente importância das creches e pré-escolas como contextos modernos de desenvolvimento, estabelece desafios para a compreensão dos mecanismos de ajuste dos sujeitos participantes – crianças e adultos, a esses contextos. A investigação do ambiente doméstico, particularmente na sua dimensão social, pode indicar os elementos relevantes para a comparação dos diferentes ambientes em termos das suas potencialidades e limitações.

Os sistemas de cuidado à criança têm sido relacionados a resultados desenvolvimentais diferenciados, nas áreas cognitiva, social e afetiva. Por exemplo, Baumrind (1993) revisou um conjunto de estudos que apontam para a importância crucial das variações ambientais, incluindo detalhes do processo de socialização, no desenvolvimento da criança, com destaque para as crenças parentais sobre a sua própria efetividade enquanto agentes com poder de influência. Por exemplo, Applegate, Burleson e Delia (1992) relatam estudos que demonstraram um acentuado efeito dos estilos parentais de criação sobre o desenvolvimento da criança. As técnicas de controle aversivo utilizadas nas práticas de criação resultam no aumento de comportamento agressivo entre as crianças, em contraposição às técnicas usadas pelos pais indutivos, que utilizam a razão e o argumento no controle do comportamento da criança os quais têm, em geral, crianças mais altruísticas, com comportamento guiados por normas pessoais morais. Resultados apontando nessa direção são também relatados por Rubim e Mills (1992).

A responsividade do ambiente social, especialmente focalizado na figura materna, é um elemento crítico desse sistema, visto que o adulto é o responsável pelo estabelecimento das interações do bebê com o meio ambiente, devendo conduzir esse processo de maneira adaptada às habilidades da criança. Embora essa concepção admita que o desenvolvimento humano é uma construção compartilhada pela criança e pelo adulto, atribui-se a este último um peso maior nas fases iniciais do desenvolvimento, esse equilíbrio alterando-se com o tempo e como efeito do desenvolvimento. O maior papel do adulto, caracterizando um sistema natural didático (Papousek & Papousek, 1989) não implica, entretanto, em passividade da criança. Ao contrário, o estabelecimento de um sistema de comunicação que favoreça a formação do vínculo de apego requer, como condição indispensável, que o adulto siga as iniciativas da criança, o que caracteriza essencialmente a situação de responsividade (Schaffer, 1997).

A responsividade pode ser definida como o grau de ajuste do ambiente aos estados comportamentais da criança. Isso envolve o modo como o adulto altera o seu comportamento, assim como aspectos do ambiente físico circundante, ao nível das demandas e limitações da criança. Nesses padrões de comportamento, o adulto, em geral, age inconscientemente (Isabella & Belsky, 1991; Papousek & Papousek, 1984, 1989; Schaffer, 1992, 1997).

Keller (1999) defende a existência de propensões estruturais nos comportamentos parentais relativos ao cuidado da criança, cruciais para o desenvolvimento. Tais propensões incluiriam uma tendência a responder prontamente à criança, e a presença de tom emocional (positivo), o que se poderia denominar o caráter afetivo da relação. As contribuições de cada parceiro da díade pais-filho resultam em um ambiente de desenvolvimento único, à medida em que essas variáveis interagem entre si para produzir seus efeitos.

Por outro lado, os sistemas de crenças parentais têm emergido como um campo de estudos relevante para a compreensão do desenvolvimento, à medida de sua conexão com os estilos parentais de cuidado à criança. Esse interesse decorre, em geral, da possível influência dessas crenças sobre o comportamento e práticas em relação à criança (Goodnow & Knight, 1988; McGillicuddy-DeLisi, 1992; Rubin & Mills, 1992).

Por exemplo, Martin e Johnson (1992) encontraram uma relação entre as crenças maternais sobre o desenvolvimento e a percepção materna da competência infantil: mães com um conhecimento mais sofisticado sobre teorias do desenvolvimento infantil e da aprendizagem tenderiam a perceber as crianças como mais competentes, embora não sejam evidentes os mecanismos subjacentes a essa relação. Como apontado pelos autores, é possível que as mães com teorias mais sofisticadas sejam estimuladas, como efeito de suas crenças, a se tornarem mais observadoras de suas crianças, embora uma direção inversa de causalidade seja também plausível.

Também Miller e Swason (1958) e Kohn (1969), citados por Youniss (1992), realizando estudos sobre práticas de criação entre pais de diferentes níveis sócio-econômicos, encontraram resultados que atestam uma tendência de trabalhadores em serviços mais simples, repetitivos e rotineiros enfatizarem, nas práticas de criação, valores e metas educacionais mais voltadas para a conformidade e a obediência, enquanto os pais que ocupam funções mais executivas enfatizariam mais valores ligados à autonomia e à iniciativa (pensar por si próprio e de maneira lógica).

O modo como as crenças exercem seus efeitos nas práticas de criação não é suficientemente claro. Abordagens ao desenvolvimento como o co-construtivismo e a ecológica têm enfatizado as mútuas influências entre o indivíduo e o contexto, inclusive o sistema cultural no qual o desenvolvimento se dá. No co-construtivismo o foco de atenção são os processos bidirecionais entre sujeito e ambiente. Considera-se o desenvolvimento como determinado pela relação entre o organismo e o ambiente circundante, com destaque para a cultura, com seus valores e crenças. A relação entre os sujeitos e a cultura é de interinfluência, visto que os seus símbolos e significados são internalizados e modificados no contexto. Desse modo, as práticas de cuidado e educação de filhos estão diretamente relacionadas com as crenças e valores construídos por uma cultura que é, também, produto da história dos indivíduos (Valsiner, 1987).

Lightfoot e Valsiner (1992) advertem para a natureza complexa das relações entre cultura, crenças parentais, práticas de cuidado e comportamento da criança. A existência de um efeito da variável A sobre a variável B não significa que A causa B. Não se pode deduzir que as crenças parentais tenham efeitos diretos nas práticas de cuidado parentais nem que essas práticas tenham efeitos diretos no desenvolvimento infantil. Contudo, tem sido observada uma sistemática ligação entre estes três termos, no que se poderia descrever como uma cadeia de influências, embora as direções dessas influências, bem como as interligações entre elas, não estejam evidentes.

"...qualquer efeito é sempre interativo, porque emerge no curso da interação entre diferentes partes de um sistema holístico. Todos os efeitos, neste caso, tornam-se produtos colaterais do sistema – nenhum efeito pode ser atribuído somente a uma causa que exista além da relação sistêmica. Se A e B constituem um sistema que gera um efeito X, então nem A nem B podem ser considerados como causadores de X; ao contrário, uma descrição da interdependência entre A e B é que nos dá uma explicação da emergência do efeito X". (Lightfoot & Valsiner, 1992, p. 395)

Além disso, os efeitos da cultura nas crenças não devem se expressar diretamente. Valsiner (1989) propõe que os sistemas de crenças de uma cultura, no sentido amplo, são reconstruídos por sujeitos ativos que, interagindo com o seu ambiente, constróem suas próprias versões pessoais da cultura maior, no que ele chama cultura pessoal.

Analogamente, na teoria ecológica, há uma ênfase na relação de reciprocidade, de tal forma que mãe e filho se interinfluenciam, assim como são influenciados por outras pessoas, não necessariamente presentes no ambiente físico imediato. O estudo da relação diádica entre mãe e filho poderá levar à compreensão das mudanças desenvolvimentais na criança, mas também nos adultos que cuidam dela e do ambiente em que está inserida (Bronfenbrenner, 1979/1996).

Os modos de criação são reconhecidos como uma importante influência no desenvolvimento da criança. De acordo com Bronfenbrenner (1979/1996), as interconexões entre os diversos níveis ou subsistemas que compõem o ambiente ecológico são importantes forças que afetam o crescimento psicológico. Nessa concepção, o macrossistema (que inclui os conjuntos de crenças ou ideologias) influencia no cuidado à criança, podendo resultar em diferenças desenvolvimentais. Assim, a responsividade pode depender de numerosos fatores do ambiente, incluindo as concepções dos indivíduos sobre maternidade, filhos e sistemas de criação, dependentes, em última análise, das idéias e práticas culturais compartilhadas por um grupo social.

As idéias parentais de como cuidar das crianças tendem a acompanhar as crenças da sociedade, sujeitas a mudanças históricas, de modo que as famílias procuram integrar sua forma de cuidar dos filhos a essas crenças (Bastos, 1991). Torna-se relevante, então, a investigação dos sistemas de cuidado à criança, em diferentes condições ecológicas, abrangendo múltiplas esferas de influências desenvolvimentais, com destaque para as crenças e práticas e suas interligações. Como se deduz da literatura revista acima, a compreensão do ambiente desenvolvimental não pode ser feita unilateralmente, focalizando-se apenas os agentes do cuidado como pais e mães; entretanto, em vista do peso maior atribuído ao adulto nas fases iniciais do desenvolvimento (Papousek & Papousek, 1989), justifica-se o investimento em pesquisa sobre a articulação entre crenças e práticas do adulto, com implicações na responsividade à qual a criança está exposta.

Assim, o presente estudo focalizou a investigação do ambiente doméstico, em termos de responsividade materna às demandas da criança, relacionada e um conjunto de atitudes em relação à maternidade e à criança. Em vista das indicações na literatura (Wendland-Carro & Piccinini, 1995) sobre a susceptibilidade do comportamento materno às influências do contexto sócio-econômico e cultural da família, entre outros fatores, foram considerados os níveis de escolaridade e sócio-econômico da família. O estudo é parte de um projeto maior, que visa descrever e comparar as estratégias de ajustamento de adultos e crianças a diferentes contextos interacionais.

 

Método

Participantes

Participaram da pesquisa 45 mães, com idade variando de 18 a 43 anos, das quais 22 eram residentes em uma bairro de ocupação irregular ("invasão") e as demais em bairros com ocupação de classe média, acompanhadas de seus filhos (pelo menos um filho de um a três anos de idade).

Procedimentos

No início da entrevista com as mães foram explicados os objetivos da pesquisa, sendo o contato com as mulheres do bairro pobre feito inicialmente através de uma líder comunitária, residente no local. As mães foram entrevistadas em suas casas, no cômodo escolhido por elas, sobre questões relativas à maternidade e às práticas de cuidado à criança. Após obter o consentimento verbal dos sujeitos, as entrevistas foram filmadas e um questionário investigando atitudes em relação à maternidade e à autonomia da criança (Preuss, 1986) foi aplicado a seguir. Cada questão deveria ser respondida pela indicação do nível de concordância, expresso numa escala de pontos tipo Likert, de um a sete, sendo um a máxima concordância e sete a máxima discordância. As questões versaram sobre dois conjuntos de itens, os quais formaram depois duas subescalas de atitudes em relação à maternidade e à autonomia da criança. Para as mães de escolaridade baixa, os itens da escala foram apresentados verbalmente, acrescentados de explicações e exemplos ajustados, tanto quanto possível, ao contexto. Embora esses ajustes possam apresentar, do ponto de vista formal, um comprometimento da padronização da aplicação do instrumento, espera-se que resultem em maior validade do procedimento do ponto de vista ecológico.

As instruções dadas às mães visavam a gerar uma situação de demandas ligeiramente conflitantes, de modo a aproximar a coleta de dados das condições usuais de cuidado à criança, em que as mães dividem-se entre tarefas domésticas, interações com outras pessoas e o atendimento às demandas da criança. O objetivo era introduzir uma variante numa situação freqüentemente diádica, especialmente quando a mãe está sozinha em casa com a criança, mantendo um diálogo com a mãe e garantir entre esta e o bebê um nível de atenção constante e não exclusiva. Além disso, as mães foram instruídas a "comportarem-se normalmente e a fazer o que estão acostumadas". Foi sugerido que elas mantivessem a criança no mesmo ambiente sem, entretanto, forçá-las a isso; nas situações em que a criança saía do aposento e a mãe a acompanhava, o entrevistador e a câmera seguiam-nas, pedindo antes permissão para tal. As entrevistas realizadas versaram sobre a gravidez, parto e maternidade relativas à criança alvo e foram realizadas num estilo pouco estruturado, em vista de sua finalidade de criar uma situação propícia para a observação do comportamento da mãe.

Numa análise qualitativa global e preliminar, foram selecionados alguns aspectos considerados mais relevantes para caracterizar a responsividade materna, com base na literatura. Foram avaliados os primeiros quinze minutos da entrevista, registrando-se doze indicadores de responsividade, cinco deles retirados do Inventário Home (Caldwell & Bradley, 1978) e os outros criados a partir de uma avaliação global das entrevistas, a saber:

A mãe acaricia ou beija a criança pelo menos uma vez durante a entrevista;

A mãe brinca junto com a criança com algum objeto;

A mãe senta no chão, à frente da criança;

A mãe convida a criança a usar algum brinquedo;

O ambiente dispõe de objetos (brinquedos ou quaisquer outros objetos utilizáveis como brinquedo) fornecidos à criança;

A mãe diz à criança o nome de algum objeto ou o nome de alguma pessoa num estilo didático;

A mãe usa brinquedos ou objetos para "distrair" a criança em caso de desconforto ou para desviar a atenção de algum evento ou objeto;

Durante a entrevista a mãe dá à criança objetos e/ou brinquedos solicitados;

A mãe elogia espontaneamente as qualidades ou o comportamento da criança pelo menos duas vezes durante a entrevista;

A mãe "prepara" o ambiente para permitir livre circulação da criança num espaço circunscrito, sob o alcance de sua visão;

A mãe vocaliza espontaneamente em relação à criança pelo menos duas vezes (exclui chamar a atenção ou "passar pito");

A mãe responde às vocalizações da criança com uma resposta vocal ou verbal.

 

Resultados

Atitudes em Relação à Maternidade e à Autonomia da Criança

As respostas de cada item foram tratadas como dois subconjuntos, somando-se o total de pontos obtidos em cada um e obtendo-se o escore médio pela divisão do número de pontos obtidos pelo número de itens da subescala (10). Para efeito de apresentação dos dados, a polaridade da escala foi invertida, de modo que pontuações mais altas indicavam atitudes mais favoráveis, enquanto as pontuações mais baixas indicavam maior discordância com os itens das subescalas e, portanto, atitudes mais desfavoráveis. Os escores médios foram cruzados pelas variáveis idade, escolaridade e bairro de residência, este último tomado como indicador de nível sócio econômico, e os resultados submetidos a análise de variância (ANOVA). De modo geral, as atitudes maternas em relação à maternidade foram favoráveis, numa média de 4,18 (numa escala de um a sete). Para a autonomia da criança, entretanto, foi encontrada uma média de 3,02, um resultado um pouco abaixo do ponto médio da escala.

As atitudes em relação à maternidade e à autonomia da criança praticamente não variaram conforme a idade das mães. Mas quando se considerou a variável escolaridade emergiram algumas importantes diferenças nas atitudes investigadas. Como se pode ver na Tabela 1, as mães com escolaridade superior apresentaram um nível um pouco mais alto de satisfação com a maternidade (p<0,05). Com relação à autonomia da criança, entretanto, as diferenças foram marcantes, com média de 2,11 para as mães com escolaridade até o segundo grau e 4,16 para as mães com escolaridade superior (p<0,001).

 

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O mesmo padrão, ligeiramente acentuado, foi encontrado quando se considerou o nível sócio-econômico das mães, uma variável, em geral, associada ao nível de escolaridade, r= 0,87; p<0,000). Ainda na Tabela 1, as mães de nível sócio-econômico mais baixo apresentaram uma média de 3,82 na escala de satisfação com a maternidade, em contraste com as mães de classe média, cuja média foi de 4,52. Com relação à autonomia da criança, foram encontradas também fortes diferenças entre os grupos: 1,98 para as mães de classe baixa e 4,02 para as mães de classe média (p<0,001).

Nível de Responsividade Materna

As freqüências das categorias de responsividade foram somadas, obtendo-se um escore variando de zero a doze. Esse escore foi cruzado pelas três variáveis independentes, idade e escolaridade da mãe e bairro de localização da família da família, sendo os grupos comparados através de análise de variância (ANOVA). De modo geral, e numa avaliação qualitativa, observaram-se fortes diferenças nos estilos maternos de lidar com a situação relativamente conflitiva de falar com o entrevistador e cuidar da criança: enquanto as mães de classe média procuravam dispor condições para a criança ocupar-se de outra coisa, interrompendo a entrevista muitas vezes para atender aos chamados da criança, as mães do bairro pobre respondiam menos às demandas da criança, ao tempo em que restringiam mais seus movimentos, freqüentemente segurando-as no colo.

Os níveis de responsividade materna, medida pelo escore geral de responsividade, não mostraram variação relacionada à idade, mas foram extremamente diferentes quando se considerou escolaridade e condição sócio-econômica, sendo muito mais altos entre as mães de classe média e escolaridade superior, como se vê na Tabela 2. A magnitude dessas diferenças foi surpreendente: média de 2,16 para as mães com escolaridade até o segundo grau e 5,85 para as mães de nível superior. Uma diferença ainda maior e igualmente significativa (p<0,001) foi encontrada na comparação dos grupos por nível sócio-econômico: no nível mais baixo, a média foi de 1,55 enquanto as mães de nível sócio-econômico médio tiveram uma média de 5,96.

 

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Discussão e Conclusão

Os resultados encontrados indicam que as mães tendem a comportar-se diferencialmente segundo suas condições de vida – ou conforme alguma variável ou conjunto de variáveis não identificados, características dos dois grupos estudados: mães de bairro pobre e mães de bairros com ocupação de classe média. Seguindo a mesma tendência, elas parecem pensar a maternidade e a educação de suas crianças também conforme os contextos em que vivem, entendendo-se contexto no sentido de ambiente ecológico, como proposto por Bronfenbrenner (1979/1996), um conceito que implica inclusão e interligação entre aspectos físicos e sociais do ambiente, incluindo sistemas de crenças e ideologias. A confrontação das idéias com as práticas cotidianas de criação mostra consistência entre estilos de lidar com a criança e atitudes em relação à maternidade e à educação infantil. A magnitude dessas diferenças, entretanto, variou conforme a área em questão: as idéias de maternidade são mais semelhantes do que as idéias relativas à criação dos filhos.

As relações entre condições sócio-econômicas, crenças e práticas culturais são dinâmicas e não lineares. Mas os resultados sugerem uma forte articulação entre as crenças, relacionadas aos sistemas culturais nos quais são construídas e mantidas, e as práticas de cuidado à criança, em concordância com estudos na área (Applegate, Burleson & Delia, 1992; Goodnow, 1988; Kochanska, Kuczynski & Radke-Yarrow, 1989; Rubin & Mills, 1992).

Eles são também congruentes com a idéia de mútua influência entre cultura, crenças e práticas. Conquanto seja evidente, no presente estudo, a relação entre condição sócio-econômica das mães e suas crenças e valores culturais, é também claro que essa relação não se dá linearmente. As diferenças encontradas não significam que certas condições sócio-econômicas causam estilos maternos determinados, como discutido por Valsiner (1987) e Lightfoot e Valsiner (1992). Como previsto nas abordagens co-construtivista e ecológica (Bronfenbrenner, 1979/1996; Valsiner, 1987), as idéias, crenças e práticas maternas são, provavelmente, resultado de um equilíbrio dinâmico entre o modo pelo qual elas foram educadas, suas experiências de vida, os valores culturais vigentes em seu ambiente próximo e distante, e as circunstâncias das suas vidas presentes, nos termos das características materiais e simbólicas dos ambientes em que vivem. No presente trabalho, as mães, independentemente de classe social, compartilham algumas crenças e valores, mas diferenciam-se enquanto grupo em outros aspectos, especialmente naqueles mais próximos dos modelos de criação, mais susceptíveis, provavelmente, às influências do ambiente imediato.

Por exemplo, as idéias de maternidade, carregadas de expectativas de desejabilidade social (Novelino, 1988), apresentam-se mais uniformes entre os dois grupos. Mas as idéias sobre educação infantil, bem como as práticas de cuidado, mais sob a influência de modelos diretos, das experiências individuais ao longo da vida, e menos susceptíveis às expectativas sociais, parecem ser construídas no terreno mais circunscrito do grupo social restrito (Bastos, 1994).

Esses resultados são compatíveis com as abordagens que enfatizam as mútuas influências entre cultura, crenças e práticas. Conquanto cada pessoa seja objeto de influência de um sistema cultural de crenças e práticas relativas a um objeto particular, ela não é um mero receptáculo para a transmissão cultural. Suas experiências individuais e as de seu grupo social mais próximo contribuem para a recriação dessas crenças e práticas.

Nessas experiências, destaca-se o papel do ambiente no sentido ecológico – conjunto de atributos, materiais e sociais, com os quais o indivíduo interage (Bronfrenbrenner, 1979/1996). Assim, as diferenças encontradas entre os dois grupos quanto a padrões comportamentais e o sistema de crenças a eles relacionados, podem ser compreendidas como o resultado dessas interações. Por exemplo, é possível que as crenças maternas menos favoráveis à autonomia da criança, encontradas entre mães de nível sócio-econômico baixo estejam relacionadas, entre outras variáveis, ao fato de suas casas serem minúsculas, sem espaços delimitados para cada atividade e/ou membro da família, com pouca separação entre espaço doméstico e público.

Podem-se derivar implicações para o desenvolvimento da criança, inclusive em contextos de criação modernos, como as creches, em vista da cadeia de influências que liga crenças, estilos de cuidado e desenvolvimento da criança, resultando, possivelmente, em ambientes de desenvolvimento diferenciados, com prováveis implicações nas trajetórias desenvolvimentais.

A preocupação com a qualidade do ambiente de desenvolvimento da criança não pode deixar de levar em consideração os estudos que atestam um papel crucial do parceiro adulto – a mãe ou qualquer outro adulto, em casa ou na creche. Assim, as diferenças em responsividade conforme o nível de renda das famílias, encontradas no presente estudo, sugerem um tópico de investigação importante, qual seja, o da discriminação entre diferenças em responsividade e o que poderia ser considerado déficit em responsividade. Se o nível mais baixo encontrado no presente estudo pudesse ser caracterizado como deficit, o que, por si só, requereria um programa abrangente de investigação, então, estaríamos diante de um ambiente de desenvolvimento incapaz de atender plenamente às necessidades da criança e de favorecer seu desenvolvimento. Entretanto, a idéia de déficit é dependente de um critério de desejabilidade social; no seu sentido biológico, ela remete a um conjunto de atributos do ambiente de desenvolvimento que se situam além da norma de reação da espécie (Scarr, 1993), uma situação evidentemente não aplicável ao contexto deste estudo. Não é razoável, portanto, a partir dos dados apresentados, concluir que essas crianças estão expostas a um ambiente de desenvolvimento deficitário, postulando eqüivalência entre diferença e déficit.

Por outro lado, o conhecimento da articulação entre cultura, crenças e práticas pode resultar em caminhos produtivos para abordar o que se pode constituir em um importante problema social. Se as práticas podem ser influenciadas pelas crenças, então seria possível conceber e testar modelos de atuação sobre o problema, focalizando cultura, crenças e práticas como um conjunto, de modo que alterações em um desses campos possam repercutir favoravelmente em outros.

Essas considerações são aplicáveis igualmente às famílias e às creches. Também nesse último caso, as políticas pedagógicas são interligadas com as culturas pessoais de seus agentes. Para que sejam adequadamente implementadas, seria necessário integrá-las organicamente, permitindo o diálogo entre as teorias científicas e as crenças e práticas construídas num meio cultural específico.

 

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Recebido em 21.05.99
Revisado em 02.09.99
Aceito em 27.09.99

 

 

Sobre as autoras:
Eulina da Rocha Lordelo é Psicóloga, Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Pesquisadora do CNPq, Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFBA.

Ana Lúcia Fonseca é Psicóloga, Mestre em Educação pela UFBA e Professora da Faculdade Tiradentes, em Sergipe.

Mariana Lamego V. B. de Araújoé estudante de Psicologia da UFBA e bolsista de Iniciação Científica PIBIC/UFBA/CNPq.

 

 

1 Endereço para correspondência: Rua Guadalajara, 15, apto 101, 40140-460, Morro do Gato, Salvador, Bahia. Fone: (71) 2359375, Fax: (71) 2472800. E-mail: eulina@ufba.br
2 Apoio CNPq/PRPPG/UFBA