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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.1 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000100019 

Relato de Experiência

 

Elaboração, desenvolvimento e avaliação de um Programa de Inserção Ocupacional para Jovens Desempregados

Jorge Castellá Sarriera 1 , 2 
Sheila Gonçalves Câmara
Cynthia Schwarcz Berlim
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

 


Resumo
Elaborou-se um Programa de Inserção Ocupacional a partir de estudos exploratórios (1994-1997), junto a uma amostra de 563 jovens de ambos sexos da cidade de Porto Alegre. A análise de necessidades foi decorrente de estudos específicos relativos aos itinerários de transição escola-trabalho, aspectos familiares, escolares, psicossociais, cognitivos e de bem-estar psicológico. Foi realizada uma análise multivariada discriminante por grupo ocupacional (estudantes, trabalhadores fixos e temporários e desempregados), para identificar as variáveis que mais caracterizavam diferencialmente o grupo em estudo. A partir desse diagnóstico foi elaborado o Programa de Inserção, o qual consta de três módulos: Projeto Ocupacional, Habilidades Sociais e Conhecimentos/Atitudes relativos ao Trabalho. Aplicou-se o Programa em três grupos de adolescentes voluntários cadastrados no Programa SINE/Adolescente da Fundação Gaúcha do Trabalho e Assistência Social (FGTAS), com idades de 14 a 17 anos, de ambos sexos, num total de 56 jovens. Aplicou-se um questionário de avaliação da efetividade do Programa, antes e depois da Intervenção. Os resultados confirmam a hipótese inicial da eficiência do Programa no desenvolvimento do projeto ocupacional e das habilidades sociais. Porém os resultados relativos às atitudes ou crenças relativas ao trabalho não apresentaram resultados diferenciados. Propõe-se uma intervenção junto a cursos profissionalizantes, para inserir o Programa nos mesmos e trabalhar as atitudes no processo de formação. Recomenda-se um acompanhamento por um ano para avaliar os efeitos do programa na inserção dos jovens, comparando com um grupo controle.
Palavras-chave: Programa de Inserção Ocupacional; Desemprego Juvenil; Intervenção psicossocial.

The development, application, and assessment of an Occupational Insertion Program for the Unemployed Youth

Abstract
An Occupational Insertion Program was designed based on exploratory study conducted between 1994-1997. The participants were 563 youth, of both genders,  from Porto Alegre, Brazil. The needs' analysis resulted from specific studies of school-work transition itineraries, and aspects of school experience, family, psychosocial, cognitive, and psychological well-being. A discriminant analysis of occupational groups (students, permanent and temporary workers, and unemployed people) was conducted to help  to identify the variables that allowed to distinguish between groups. This Insertion Program was composed of three modules: an occupational project, social skills and job search training, citizenship and work consciousness. The Program was developed with a sample of 56 unemployed youth of both sexes, 14 and 18 years-old, registered at state socialagency. Their participation was voluntary. A questionnaire to evaluate  the program effectiveness was applied before and after the  intervention. The results confirmed the initial hypothesis about program’s efficiency in the development of the occupational project  and in the social skills and job search training. However, there were not significant differences concerning work related attitudes and beliefs. It is suggested that this intervention program be used  in vocational courses to help improve work attitudes. A follow-up after one year is recommended to evaluate the program’s effects on youth compared to a control group.
Keywords: Occupational Insertion Program; youth unemployment; psychosocial intervention.


 

 

A Psicologia Comunitária tem como propósito melhorar a qualidade de vida, capacitando às pessoas para lidar criticamente na sua interação com o ambiente que as cerca, trazendo à tona a possibilidade de reversão de aspectos negativos e de utilização de recursos. Assim, ao aproximarmo-nos de um fenômeno, temos o objetivo prioritário de reconstruir o sentido psicológico de comunidade, através, principalmente, da re-humanização das formas de vida (Sarason, 1974, citado por Sanchez-Vidal, 1991).

Uma das questões mais relevantes e que atentam nos dias de hoje à integridade física e psicológica do indivíduo é a falta de emprego. Seus efeitos prejudiciais na deteriorização das formas de vida, tem mobilizado amplos setores da comunidade científica. Nos países latino-americanos emergem novas formas de contratação temporária e de redução da jornada de trabalho, acrescentadas às crônicas dificuldades do desemprego, do trabalho informal e da exploração da mão de obra. Nos países da União Européia, por exemplo, o objetivo de maior prioridade é a luta contra o desemprego, que se alastra como uma grave ameaça ao estado de bem-estar.

A preocupação psicossocial, entretanto, não se esgota com os trabalhadores adultos. Os jovens que tentam ingressar no mercado de trabalho sonham poder realizar seus projetos profissionais, constituir família e ter independência econômica. Porém seu sonho, na maioria das vezes, se converte em pesadelo. As dificuldades para encontrar o primeiro emprego, são cada vez maiores, exigindo cada vez mais, maior escolarização e conhecimentos profissionalizantes.

Destacamos algumas pesquisas (Alvaro-Estramiana, 1992; Blanch, 1990) que analisam os aspectos psicossociais e cognitivos nos jovens desempregados. Vidal (1987) relaciona os efeitos do desemprego sobre a auto-estima e a depressão. Sarriera (1993) estudou os efeitos do desemprego no bem-estar psicológico e na motivação vital de jovens. Num estudo realizado por Sarriera, Schwarcz e Câmara (1996), com jovens desempregados de Porto Alegre, verificou-se que o jovem é afetado, em sua saúde, passando a apresentar sentimentos de depressão, baixa auto-estima e auto-eficácia percebida diminuída. Os mesmos jovens desempregados demonstraram desvalorização de sua experiência escolar e de trabalho, bem como valoração do trabalho como uma forma de obtenção de dinheiro, o que leva muitas vezes, a atitudes de passividade, caracterizadas por sentimentos de ineficiência e limitadas estratégias de ação (Sarriera, Schwarcz, Câmara, Gandarillas & Bem, 1996).

Outra linha de estudos dedica-se a avaliar aspectos relativos à transição escola-trabalho e suas repercussões na inserção ocupacional dos jovens. Essas pesquisas enfocam as expectativas dos adolescentes em relação ao trabalho (Rojewski, 1996); o significado do mesmo, as mudanças com a aquisição de novos papéis e o processo de tomada de decisões (Mithaug, Horiuchi & Fanning, 1985); a qualidade de vida dos jovens (Delagarza & Erin, 1993), bem como, a eficácia de programas de inserção (Sarriera & Teixeira, 1997).

A influência cultural-educacional nas crenças e atitudes na consecução de emprego é desenvolvida nos estudos de Sarriera, Sá e Teixeira (1996), que avaliaram os valores e atitudes dos jovens desempregados em diferentes culturas.

Preparar os jovens para uma inserção ocupacional bem-sucedida, implica, segundo Depolo, Fraccaroli e Sarchielli (1993), em capacitá-los para tarefas como: o desenvolvimento de novas capacidades e conhecimentos, a modificação de certas representações sociais e atitudes em relação ao trabalho e a definição de um novo equilíbrio entre metas relativas à profissão e às extra-profissionais. O fato de inserir-se no mercado laboral contribui para o estabelecimento de relações sociais, dos processos de identificação e do reconhecimento de pertinência a uma sociedade.

Para facilitar essas metas nos jovens, uma intervenção psicossocial para a inserção no trabalho, priorizará o conhecimento de capacidades, desenvolvimento de habilidades de procura de emprego, considerando de forma crítica o contexto no qual estão inseridos (Bronfenbrenner, 1979/1996). Através da construção de seu projeto ocupacional é possível que o jovem desenvolva subsídios internos, ou fortaleça os já existentes, para enfrentar a realidade do desemprego. A intervenção se justifica na promoção de um sentido de conscientização deste como agente participante nas modificações micro e macrossistemicas. Busca-se, finalmente, fornecer subsídios para que o jovem seja agente de conhecimento, interação e controle em seu contexto, reconhecendo seu papel ativo na construção de um meio eficaz para o desenvolvimento humano integral.

 

Análise de Necessidades

A fim de analisar as necessidades dos jovens para os quais estava destinada a intervenção, foi desenvolvido um estudo multivariado de análise discriminante3, tendo como variável de agrupação a situação ocupacional (estudantes, empregados fixos e temporários e desempregados), de 563 jovens da cidade de Porto Alegre, selecionados de forma polietápica (estratificada por zonas eleitorais, proporcional pelo número de seções e as unidades últimas, os jovens, por rotas aleatórias). Os jovens responderam um questionário de 63 itens. Duas das três funções discriminantes possíveis, explicaram 69,8% da variabilidade entre os grupos, identificando nos extremos da primeira função, de um lado, os desempregados e do outro, os empregados e nos extremos da segunda, os estudantes e os desempregados. Os índices a seguir indicam a correlação de cada variável com a primeira função discriminante (empregados versus desempregados). As variáveis discriminantes que identificaram o grupo de desempregados foram:

Em relação aos dados biodemográficos, temos a classe social média baixa e baixa (-0,24), renda inferior aos demais (0,42), além de baixo nível de estudos dos jovens (0,32), associado ao também baixo nível de estudos dos pais (0,35) como aspectos diferenciadores. Além destes, destacou-se o fato destes jovens terem grupo mais restrito de amigos que estudam frente aos demais grupos ocupacionais (-0,33). No que tange à experiência escolar deste grupo, a idade precoce em que estes jovens abandonaram a escola (-0,43) e uma necessidade maior de repetir o ano escolar (-0,26) foram os aspectos que apareceram na análise.

Em relação aos valores e o significado que os jovens desempregados atribuem ao trabalho, destacaram-se como variáveis discriminantes, um menor sentimento de tranqüilidade (0,32), de segurança pessoal (0,30), de auto-realização (0,25), valorização (0,22), confiança (0,21), gratificação (0,22) e motivação (0,22) em relação ao trabalho. Além destes, apareceram aspectos referentes a uma maior passividade (0,26) e sensação de pressão (0,21) no que concerne a atividade laboral.

Relacionados aos valores pessoais deste grupo de jovens, destacaram-se um maior valor atribuído ao dinheiro (0,30) e um menor valor atribuído à amizade (-0,23).

 

Programa de Orientação para o Trabalho

O programa objetivou promover o auto-conhecimento e o desenvolvimento do projeto ocupacional do jovem, auxiliando na tomada de decisão; treinar habilidades na procura ativa de emprego, e estimular a reflexão crítica sobre o contexto social, político e econômico do trabalho.

A partir destes objetivos, foram elaborados três módulos que contemplam as principais dificuldades percebidas pelos jovens para o processo de inserção no mercado laboral.

 

Módulo I. Orientação do Projeto Ocupacional

Os objetivos específicos foram: a) levantar as necessidades do grupo com relação à inserção no trabalho: medos, expectativas e dificuldades; b) promover o conhecimento de características pessoais e a elaboração da identidade vocacional; c) propiciar informações relativas às áreas profissionais no mercado, a fim de identificar, através dos seus interesses, as possíveis áreas de atuação; e, d) facilitar a definição do projeto vital e profissional dos jovens, auxiliando assim, na sua tomada de decisão.

Etapas do módulo:

1. Apresentação inicial dos coordenadores e do objetivo do trabalho, ressaltando-se a importância da participação e responsabilidade mútua frente às propostas, através do estabelecimento de um contrato de trabalho.

2. Confecção de crachás e apresentação dos jovens com exposição de expectativas.

3. Identificação das necessidades emergentes e promoção de auto-conhecimento, através de técnicas como Frases Incompletas de Bohoslavsky (1977) ( Quando estou desempregado me sinto...; buscar emprego hoje em dia...; e, Se estivesse empregado eu...), colagem e realização de cartazes (respondendo a perguntas como: Quem sou eu? Quais são meus interesses? O que gosto de fazer? Onde quero chegar profissionalmente? e, No futuro, me imagino....). Em seguida, realizou-se uma discussão, apontando-se quais os objetivos que eles pretendiam alcançar e o que pensavam de suas capacidades pessoais, identificando interesses e habilidades. Destacou-se a importância do desenvolvimento do projeto profissional e de estratégias para alcançá-lo.

A avaliação processual do alcance dos objetivos do Módulo I foi realizada através de levantamento qualitativo dos conteúdos, nos quais os jovens foram explicitando seus interesses e determinando suas potencialidades para uma área de atuação melhor delimitada, em consonância com seus projetos pessoais.

 

Módulo II. Treinamento em Habilidades Sociais e de Procura de Emprego

Esse segundo módulo teve como objetivos: a) auxiliar no desenvolvimento da auto-confiança do jovem; b) orientar na procura ativa de emprego, trabalhando aspectos como apresentação pessoal, comportamentos competentes durante a entrevista de seleção, comunicação efetiva e aceitação de críticas, e, c) contribuir para o desenvolvimento de uma postura adequada, assertiva e participativa no convívio grupal, seja este durante a seleção, ou no posto de trabalho.

Etapas do módulo:

1. Preparação para o programa, dando início ao módulo de forma explicativa quanto aos objetivos. Além disso, visou motivar os jovens para uma participação ativa.

2. Avaliação dos níveis de motivação, no início e no término do módulo, de maneira a devolver aos jovens, de forma concreta (demonstração gráfica), os avanços do grupo.

3. Instruções, que constituiu-se na apresentação de um vídeo mostrando jovens à procura de emprego (formas adequadas e inadequadas), com fornecimento sistemático de instruções e esclarecimentos.

4. Ensaio Comportamental, no qual foram encenadas, pelos jovens, situações de busca e entrevistas de emprego, com concomitante identificação, por parte do grupo, dos tipos de comportamento (assertivo, não assertivo, agressivo). O objetivo dos ensaios foi implementar a construção ou ampliação de um repertório de comportamentos facilitadores para a obtenção de emprego.

A eficácia do treinamento foi avaliada durante o ensaio comportamental, a partir do repertório de condutas apresentado pelos participantes e a ampliação deste repertório, bem como através da identificação correta dos comportamentos assertivos, não-assertivos e agressivos, além das questões referentes ao Módulo contidas no Questionário geral de avaliação da Intervenção.

 

Módulo III. Direitos e Deveres do Trabalhador: Cidadania e Trabalho

O terceiro módulo objetivou: a) estimular a reflexão sobre as experiências dos jovens na busca ou execução de alguma ocupação com referência aos direitos e deveres do trabalhador, informando-os quanto a isto através da legislação contida no Estatuto da Criança e do Adolescente (1994) e na Consolidação das Leis do Trabalho – CLT (1988); b) verificar o significado e as representações sociais do trabalho para os jovens; e, c) contextualizar a situação do mercado de trabalho no país.

Etapas do módulo:

1. Representações do trabalho, propiciando uma discussão acerca de conceitos como trabalho, profissão e a relação escola-trabalho, resultando na apresentação do que fora discutido através de cartazes.

2. Experiências de trabalho e legislação, com levantamento de situações vivenciadas pelo grupo, que envolviam aspectos legais e fornecimento de informações específicas com subseqüente reflexão acerca das situações descritas.

3. Estratégia de busca de emprego, através de recortes de notícias relevantes ao mercado de trabalho em revistas e jornais, agrupamento por áreas definidas pelo grupo (com ofertas e exigências do mercado) e apresentação de painéis. Através dessa atividade de pesquisa, este módulo foi relacionado ao Módulo I (projeto ocupacional). Além disso, foram trabalhadas formas de procura de emprego.

O objetivo desta etapa cumpriu-se à medida em que o grupo realizou uma reflexão sobre as causas políticas, sociais e econômicas intervenientes no mercado de trabalho e, consequentemente, na vida dos jovens.

Também foi entregue a cada participante o Manual de Orientação para o Adolescente à Procura de Emprego, elaborado pelo Grupo de Pesquisa em Psicologia Comunitária, que abrange os três módulos. Realizou-se, por fim, uma avaliação oral referente à intervenção como um todo. Combinou-se a realização de um acompanhamento mensal, ao longo de três meses, que teve por objetivo o apoio mútuo entre os componentes do grupo através da troca de experiências pós-intervenção. Neste acompanhamento, os coordenadores utilizaram técnicas de desinibição, estimulando os participantes ao apoio mútuo no que diz respeito às tentativas realizadas. Estimulou-se também a socialização de um possível sentimento de fracasso no intuito de superar as barreiras existentes, tanto de nível pessoal como do contexto, aplicando as estratégias dos grupos de mútua-ajuda.

 

Método

Aplicação do Programa

Participantes

Participaram do programa 56 jovens a procura de emprego cadastrados no SINE/Adolescente da FGTAS (Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social), residentes na região metropolitana de Porto Alegre. Todos os jovens já haviam participado da oficina sobre noções gerais para o jovem trabalhador, oferecida pelo SINE. O convite aos jovens para participarem do Programa de Orientação para o trabalho foi realizado durante tais oficinas e reforçado através de correspondência. Os interessados realizaram as inscrições em horário pré-estabelecido, na sede do SINE.

Dentre os jovens participantes, 41,5% eram do sexo feminino e 58,5% do sexo masculino, com idades entre 14 e 17 anos (m= 15,3; dp = 0,93), 58,5% já tinham experiência de trabalho enquanto 41,5% estavam procurando seu primeiro emprego. Apenas dois jovens não estavam estudando na ocasião. Dentre os que estavam estudando, 20 freqüentavam a escola no turno da noite, 17 no da manhã e 17 no turno da tarde. A maioria dos que estavam estudando, realizava o ensino fundamental (86,7%) e, desses 28,3% estavam cursando a sétima série. Haviam realizado curso profissionalizante, 43,4% dos participantes.

Instrumentos de Avaliação

O questionário geral de avaliação foi elaborado especificamente para este programa. Foi aplicado aos participantes em dois momentos, pré e pós intervenção. Esse instrumento está composto por vinte e duas questões referentes a aspectos relacionados à inserção no mercado de trabalho. Está dividido, basicamente, em três partes, com cinco questões referentes ao Módulo I - Projeto Ocupacional (atribuições externas na consecução de emprego, dificuldades pessoais percebidas na aquisição de emprego, auto-conhecimento ocupacional, projetos vitais, estratégias para a realização dos projetos e significado do trabalho); doze questões referentes ao Módulo II - Desenvolvimento de Habilidades Sociais (apresentação e postura pessoal na entrevista de emprego, crença na capacidade de superação de dificuldades na entrevista de emprego, auto-confiança para procurar emprego e realizar entrevistas de seleção, após o programa, descrição pessoal em termos de dificuldades para telefonar para instituições e empresas, descrição pessoal em termos de realização de entrevistas, descrição pessoal em termos de exposição do próprio ponto de vista, habilidades para enfrentar compromissos ou reuniões de trabalho, habilidades para falar com chefe ou superior, habilidades para lidar com desentendimentos e críticas no trabalho, defesa de direitos referente a horas-extra e posicionamento frente a seus deveres como trabalhador); e cinco questões sobre o Módulo III - Direitos e deveres do trabalhador: construção da cidadania (Conhecimento das ocupações existentes no mercado de trabalho, atribuição da qualificação para o exercício de uma atividade profissional, atribuição dos cursos profissionalizantes como fontes de qualificação profissional, conhecimento dos direitos do jovem trabalhador, conhecimento dos deveres do jovem trabalhador). Foi utilizada uma questão sobre níveis de motivação, uma questão com três itens, retirados e adaptados para o Português, da Escala de Assertividade de Rathus (Comeche, García & Pareja, 1995) e três itens retirados da Escala para Lidar com Situações Difíceis (Knapp & Bertolote, 1994).

O objetivo deste instrumento foi, inicialmente, levantar algumas necessidades e déficits específicos dos participantes de cada grupo de intervenção visando, assim, uma melhor adequação do programa e, finalmente, realizar uma comparação entre os escores iniciais e finais dos participantes, podendo, desta forma, avaliar de forma global a eficácia do programa. Além deste instrumento, utilizou-se ensaios comportamentais para avaliar, qualitativamente, o processo de aquisição de novas habilidades sociais e maior adequação das já existentes (Caballo, 1997).

Design da Intervenção

O design utilizado na presente Intervenção foi pré-experimental com um grupo experimental, sem grupo de controle, sendo avaliado antes e depois da intervenção. As hipóteses se relacionam com a obtenção dos objetivos propostos, de forma significativa, medindo antes e depois da aplicação do programa, em função das áreas desenvolvidas nos módulos.

A variável independente era o próprio Programa de Orientação para o Trabalho e as variáveis dependentes, as áreas trabalhadas nos módulos (Projeto Ocupacional, Habilidades Sociais e Conhecimentos/Atitudes). As variáveis estranhas organísmicas foram: sexo e idade, e como variável independente secundária, o grupo, com três níveis: Turnos de estudo manhã, tarde e noite.

Procedimento de Coleta e Análise de Dados

O programa foi desenvolvido nas dependências do SINE, em uma sala ampla com cadeiras dispostas em formato circular. Como recursos, foram utilizados tevê e videocassete, além de cartazes e revistas e jornais. Os encontros foram gravados integralmente em vídeo.

O tratamento estatístico foi realizado através do contraste de médias para grupos repetidos, utilizando o teste t de Student, em itens com categoria de variáveis ordinais e intervalares. Para os itens com variáveis de escala nominal foi utilizado o Teste de Sinais, para verificar as diferenças. Nos itens com alternativas de múltipla escolha, foi feito o somatório de freqüência de aparecimento de cada alternativa antes e depois da intervenção e analisada descritivamente a diferença entre as freqüências de escolha. Nos itens com perguntas abertas, foram categorizadas as respostas e computadas as diferenças entre o número de respostas nas categorias, antes e a depois da intervenção.

Para o estudo do comportamento das variáveis organismicas (sexo, idade), e independente secundária (grupo), a fim de avaliar se seus efeitos foram diferentemente significativos através da aplicação do Programa, foi utilizado o teste de distribuição livre (não paramétrica), f de Wilcoxon.

 

Resultados

Os resultados dos efeitos das variáveis estranhas organismicas sobre o Programa não foram relevantes, isto é, as diferenças por sexo e idade (14-17), e, independente secundária (grupo: turnos de estudo: manhã, tarde e noite), não atingiram níveis significativos. As diferenças observadas no grupo total de jovens, antes e depois da Intervenção, foram as seguintes.

Resultados Módulo 1: Análise de Necessidades, Crenças e Projetos Ocupacionais

O Programa ajudou a diminuir algumas das dificuldades percebidas para a consecução de emprego e aumentar a consciência de outras. Houve um notável acréscimo na autoconfiança (item 6) e no nível informativo (item 8). A timidez (item1), o nervosismo (Item 2) e as dificuldades na expressão (item 3), tiveram pequenas oscilações manifestando maior auto-controle, porém com consciência dessas dificuldades. Por outro lado, cabe assinalar o aumento do medo de fracasso (item 5) e do temor a não expressar-se bem (item 4), possivelmente, pela maior consciência das dificuldades de entrar no mercado de trabalho e das dificuldades pessoais, que ficaram mais expostas na intervenção.

Com relação aos projetos vitais, estes jovens não modificaram substancialmente após o Programa. Observa-se que a maioria quer seguir estudando e concluir seus estudos o que, por sua vez, é a garantia de consecução de bens e de trabalho. A troca de experiências entres eles no processo de intervenção pode ter levado a desvalorizar os cursos profissionalizantes, uma vez que a passagem por eles não garantiu o emprego.

Resultados Módulo II: Desenvolvimento de Habilidades

Na Tabela sobre habilidades na procura de emprego podemos observar a eficácia do Programa relacionada com este módulo, produzindo mudanças significativas em cinco dos sete itens. A questão da autoridade representa, para o jovem-adolescente que procura sua independência, uma dificuldade acrescentada. Aumentou significativamente o nível de auto-confiança pessoal e na procura de emprego, assim como a avaliação da capacidade de lidar com as críticas e assumir compromissos.

 

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Pedindo-se aos jovens, de forma direta, que citem três aspectos que acreditem ser mais importantes quanto à apresentação pessoal e à forma de comunicação para a entrevista de emprego, suas respostas antes e depois do Programa não revelaram grande diferença. Observando ligeira diminuição de importância sobre o aspecto físico e um pequeno acréscimo nos aspectos comunicacionais.

Resultado Módulo III: Direitos e Deveres do Trabalhador - Cidadania e Trabalho

O objetivo de abrir possibilidades de conhecimentos mais amplos que poderão auxiliar na escolha do trabalho e no discernimento do tipo de relações de trabalho que se estabelecem, foi plenamente alcançado, com índices diferenciais muito significativos na percepção e avaliação dos jovens participantes do programa.

Os jovens foram colocados no seguinte dilema: "Durante um dia normal de trabalho você não consegue terminar suas atividades porque no final do expediente seu chefe lhe dá uma tarefa inesperada e pede-lhe que fique no local de trabalho até terminar, porém, não menciona o pagamento de horas-extra. Você..."

A resolução desta situação de conflito, antes e depois da intervenção, expressa uma relativa mudança a favor da aceitação de uma tarefa que em princípio atropela seus direitos como trabalhador. O jovem deixa claro que, acima de tudo, quer garantir seu emprego. O Teste de Sinais não deu resultado significativo quanto às diferenças nas freqüências de resposta nos itens, antes e depois da Intervenção.

Os resultados, relacionados ao seguinte dilema: "Normalmente você chega atrasado no primeiro horário da manhã porque considera que não há muito o que fazer neste período e, às sextas-feiras, às vezes, não comparece, pois seu chefe imediato não vai. Na sua avaliação, seu chefe lhe chama e coloca que, desta maneira, você acabará sendo despedido. Você...", foram os seguintes:

A maioria dos jovens assinalaram o item 4, no pré e no pós-teste, o que manifesta uma atitude de responsabilidade com o trabalho, independente do comportamento alheio. O programa não modificou basicamente as opções dos jovens, os quais, na sua maioria, optaram desde o princípio por assumir uma atitude positiva frente à situação conflitiva exposta. O Teste de Sinais não revelou diferença significativa em função da Intervenção.

 

Discussão

É evidente o efeito determinante do programa na melhora da auto-estima e autoconfiança do jovem. Vindo muitas vezes de uma situação de fracasso, o jovem colocado frente à seus colegas e frente a uma situação comum de necessidade, resgata e re-descobre suas capacidades e interesses e sente-se mais motivado para buscar trabalho, com maior segurança, através do próprio conhecimento e do conhecimento da realidade.

Os projetos vitais desses jovens estão intimamente atrelados à necessidade de dar continuidade aos estudos. Existe plena consciência desta necessidade convertendo-se o Programa num incentivador do seu engajamento educacional, através dos colegas e da análise das exigências do mercado de trabalho. Seu sonho é conseguir, no dia de amanhã, um emprego fixo.

O Programa conseguiu, de forma aceitável, trabalhar uma proposta dinâmica e motivadora para o desenvolvimento das habilidades sociais e de procura de emprego, embora considerando que os avanços foram relativos devido ao pouco tempo da intervenção. A valorização das formas de comunicação, a superação de empecilhos na expressão, a consciência incipiente de responder nas diferentes situações de forma a proteger seus interesses e ao mesmo tempo seus direitos, são um exemplo do movimento de mudança obtido e de aquisição de habilidades aprendidas para a procura de emprego.

As crenças sobre os fatores que levam a conseguir emprego modificaram de forma positiva, naqueles indicadores que foram mais trabalhados. A tomada de decisão sobre as situações dilemáticas apresentadas tiveram um bom desempenho antes e depois do teste nas alternativas esperadas, porém não conseguiram avaliar o efeito do Programa.

O Programa produziu melhora no auto-conhecimento dos jovens e na sua auto-estima, ajudou a definir seu projeto vital e profissional, desenvolveu habilidades sociais e de procura de emprego e modificou atitudes e crenças com relação à consecução do trabalho. A implementação desse programa é viável pelo seu impacto positivo nos jovens e na Instituição onde se realiza, pela sua eficiência em utilizar recursos adequados e por ter uma breve duração.

Os materiais elaborados, como o Manual de Orientação para o Trabalho, que é fornecido para cada jovem e constitui uma síntese dos conteúdos vistos e trabalhados no curso, tem sido muito bem aceito pelos jovens e constitui um material de apoio importante. O vídeo elaborado, ilustra sua aplicação e facilita a professores ou monitores a análise das diferentes partes do programa.

O processo seguido para avaliar este programa, tem sido coerente com a proposta teórica do modelo ecológico-contextual, com os pressupostos teóricos da orientação profissional de Bohoslavsky (1977) e do modelo de habilidades sociais de Caballo (1996). As estratégias metodológicas adotadas em todas às suas etapas para elaboração, aplicação e avaliação do Programa foram também coerentes com os modelos teóricos e necessidades levantadas da população alvo.

A Intervenção deveria incluir-se nos currículos dos cursos profissionalizantes e nas escolas, com o devido treinamento dos monitores. Para tanto, é preciso que haja uma flexibilidade ou adaptação às características peculiares de cada grupo, às suas próprias necessidades, história e projetos.

Os resultados da pesquisa não são generalizáveis e limitam-se à população estudada, por não ter-se procedido a nenhum controle de representatividade amostral. Além disso, o design adotado é simples e seria aconselhável um design quase-experimental mais sofisticado, com Grupo Controle e Experimental, assim como um período de acompanhamento para verificar a Inserção de pelo menos um ano de duração. Seria desejável, ainda, um estudo do instrumento de avaliação, para reformular itens do questionário e proceder à validação do mesmo.

O desenvolvimento do estudo do perfil profissiográfico sobre as expectativas dos empresários sobre a empregabilidade dos jovens-adolescentes, está sendo desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa, pretendendo auxiliar na identificação de traços e habilidades mais esperadas pelos contratantes, direcionando, com essa análise de necessidades dos empregadores, o treinamento no Programa de Inserção no Trabalho.

É fundamental, portanto, que se estude mais profundamente os fatores intervenientes que possam diferenciar, significativamente, os efeitos do programa em relação a determinadas características dos jovens (níveis de estudos, história anterior de trabalho, formação e centros de formação profissionalizante e escolar).

O objetivo do Grupo de Pesquisa em Psicologia Comunitária da PUCRS é seguir aperfeiçoando o Programa, a partir dos dados recolhidos, das contribuições levantadas através das avaliações feitas pelos alunos, monitores, docentes e bolsistas, e da elaboração de materiais de orientação para os profissionais que queiram trabalhar dentro do enfoque de inserção de jovens para o trabalho.

 

Referências

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Recebido em 21.01.98
Revisado em 27.08.99
Aceito em 21.09.99

 

 

Sobre os autores:

Jorge Castellá Sarriera é Doutor em Psicologia, professor adjunto do Curso de Pós-Graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, pesquisador do CNPq e coordenador do Grupo de Pesquisa em Psicologia Comunitária.

Sheila Gonçalves Câmara é Psicóloga, Mestranda em Psicologia Social e da Personalidade, bolsista da CAPES.

Cynthia Schwarcz Berlim é Psicóloga, membro do Grupo de Pesquisa em Psicologia Comunitária da PUCRS

 

 

1 Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia/PUCRS, Av. Ipiranga, 6681, prédio 11, 9º andar, sala 929. E-mail: sarriera@pucrs.br
2 Pesquisa financia pela FAPERGS