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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.2 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000200003 

Desenvolvimento Cognitivo e Enação

 

O desenvolvimento cognitivo do ponto de vista da enação

Ronald João Jacques Arendt 1  2 
Universidade do Estado do Rio de Janeiro

 

 


Resumo
Partindo das contribuições de Rorty e Varela ao pragmatismo e à biologia, este ensaio visa discutir a compatibilidade destas abordagens com o modelo de desenvolvimento elaborado por Jean Piaget. Ao efetuar uma crítica ao reducionismo, o pragmatismo propõe um modelo materialista, fisicalista e não reducionista da relação do indivíduo com o mundo, enquanto a escola chilena de biologia sugere que a cognição humana seja entendida como uma ação guiada pela percepção, a enação. Ambas abordagens terminam por propor modelos entendidos como redes em níveis múltiplos que se organizam e reorganizam e cuja proximidade conceitual com as posições piagetianas é considerada.
Palavras-chave: Desenvolvimento; cognição; pragmatismo; enação.

The enaction point of view of cognitive development

Abstract
Starting with the contributions of Rorty and Varela to pragmatism and biology, this essay discusses the compatibility of those approaches to the development model elaborated by Jean Piaget. Criticising reductionism, the pragmatism position proposes a materialist, physicalist, and non-reductive model of the relation of the individual and the world, while the Chilean school of biology suggests that human cognition should be understood as an action guided by perception, the enaction. Both approaches propose models best understood as networks in multiple levels which self organize and reorganize. Their conceptual proximity with Piagetian propositions is also considered.
Keywords: Development; cognition; pragmatism; enaction.

 

 

A leitura de textos técnicos recentes especializados em psicologia do desenvolvimento e da inteligência parece indicar que os argumentos de Jean Piaget estariam se tornando superados, quando não ultrapassados. Tomem-se alguns exemplos de pesquisadores da especificidade do domínio da cognição, reunidos no volume editado por Hirschfeld e Gelman (1994):

"O quadro, que lemos em Piaget, da construção lenta e sofrida, pela criança, de um mundo objetivo parece hoje refletir mais as limitações de sua capacidade para atividades planejadas e estruturadas [...] do que sua capacidade de representar corpos estáveis com propriedades mecânicas" (Leslie, 1994, p. 122).

"Apesar dos argumentos de Piaget a favor de uma ‘epistemologia genética’, muitas abordagens recentes do desenvolvimento cognitivo [...] são antiepistemológicas num sentido mais profundo." (Gopnik & Wellman, 1994, p. 288)

O modelo piagetiano proporcionaria então um "quadro super simplificado" dos processos cognitivos (Boyer, 1994, p. 395); nesse sentido Butterworth (1996), pesquisador do desenvolvimento infantil inicial, argumenta que apenas a ação não pode dar conta da sofisticação perceptual da criança.

Não há como negar estes argumentos. Desde o debate de Piaget com Chomsky (Piattelli-Palmarini, 1979), o modelo exclusivamente construtivista piagetiano vem perdendo terreno para a pesquisa em neurologia e psicobiologia. Mas, seriam estes dados recentes capazes de ultrapassar o modelo de desenvolvimento piagetiano? Se aceitarmos as posições popperianas em filosofia das ciências, a força de um teoria reside precisamente em ela ser refutável e, ainda assim, resistir enquanto modelo teórico. O problema a ser colocado é se a pesquisa sobre os recursos cerebrais humanos pode prescindir da pesquisa sobre a interação do indivíduo com o meio ambiente, especialmente se ponderarmos que este meio também é social e cultural. O avanço do conhecimento sobre as propriedades neurológicas do cérebro pode tornar menos decisiva a investigação da cognição enquanto um processo de envolvimento ativo com o meio circundante?

O recente debate entre Edward O. Wilson e Richard Rorty (citados por Leite, 1998) é a clara expressão deste problema. Em seu último livro (Wilson, 1998), contra o que chama de caos relativista pós-moderno, Wilson pretende retomar o ideal de unificação das ciências através da neurobiologia. O mundo objetivo, exterior, "oposto das ciências humanas" virá a ser esclarecido pelas ciências naturais, posto que todo processo cultural se reduz a processos biológicos. Não por acaso, a psicologia evolucionária (Barkow, Cosmides & Tooby, 1995) é a pedra angular do livro de Wilson. Tal abordagem entende que é preciso explicar os recursos psicológicos que o homem atingiu a partir do duro, longo e complexo processo da evolução. Sob esta ótica, o tempo das sociedades políticas organizadas contemporâneas é irrisório percentualmente quando comparado ao tempo despendido pelo homem na luta pela sobrevivência na selva. Seria muito mais a natureza humana que imporia limites à cultura do que o inverso. Esta abordagem, fortemente apoiada na biologia da evolução e assumidamente reducionista, permite a Wilson declarar que há escolhas políticas, como o socialismo universal, que vão contra o núcleo da natureza humana.

Na resposta às concepções sociobiológicas de Wilson (1998), Rorty (1998) elaborará uma crítica à idéia da unidade, seja do conhecimento, seja do ser humano. Cada disciplina acadêmica, assim como cada descrição do indivíduo, cumpre sua função específica, em vocabulários muitas vezes irredutíveis uns aos outros. Poderá haver milhares de formas de descrever coisas e pessoas, "tantas quantos forem os propósitos que tivermos em relação às pessoas" (Rorty, 1998, p. 7). Para Rorty, esta pluralidade não é problemática: não há apenas uma classe de explicações. Se a realidade é una, as descrições dela são e devem ser incontáveis, porque os seres humanos têm, e devem ter vários objetivos diversos. Não haverá porque cobrir lacunas entre ciências naturais e sociais, entre humanidades e artes. A unidade da ciência foi um grito de guerra dos positivistas lógicos dos anos 30 e 40. Universais culturais podem até ser passíveis de explicação biológica; as ciências sociais e as humanidades, entretanto, não foram desenvolvidas para explicar universais culturais, mas para explorar alternativas culturais. Assim, a hipótese de que todo processo mental tenha um fundamento físico não permite concluir que conhecimento ou cultura devam tornar-se mais unificados do que são, e reduzidos ao biológico.

Seria mesmo necessária a introdução teórica de uma tensão entre o biológico e o cultural, apenas solucionada com a redução do segundo ao primeiro? O conhecimento do cérebro só seria viável desconsiderando a existência do social e do cultural? Caberia aqui uma rápida menção aos recentes trabalhos de Coulter (1997) e Harré (1997). O primeiro autor critica a tendência das ciências cognitivas em atribuir ao cérebro a sede de todo processo cognitivo, produzindo o que ele chama de cartesianismo neural. Harré segue esta linha de argumentação propondo para a ciência cognitiva e a inteligência artificial uma psicologia discursiva. Caberia à inteligência artificial construir gramáticas que dessem conta dos atos de conversação entre indivíduos, ao invés de buscar reproduzir o cérebro no computador. Harré diferenciará entre uma ordem causal fechada (cause-orderliness) e uma ordem fundada em regras passíveis de modificação (rule-orderliness). Se a primeira ordem, que inclui os processos biológicos, é causal, a segunda, que inclui os processos sociais, não o é: a biologia cerebral entraria como um suporte ao comportamento humano; os processos sociais e culturais, entretanto não se reduziriam a ela.

O tema deste trabalho será a discussão da possibilidade de elaborar modelos teóricos não reducionistas em psicologia do desenvolvimento e da cognição. A partir da abordagem pragmática em filosofia, de Richard Rorty (1991), acrescida das investigações de Francisco Varela em ciências cognitivas (Varela, Thompson & Rosch, 1993), vou argumentar a favor de um modelo construtivista repensado a partir destes enfoques contemporâneos, a favor de uma abordagem que acate as descobertas biológicas, sem a redução do cultural e social ao neurofisiológico. Pretendo insistir na característica da interação expressa em redes de estruturas que se reacomodam e recompõem pela ação, tal como nos conceitos de acomodação e assimilação piagetianos, enquanto base conceitual para pensar o desenvolvimento. Minha tese é que tais estruturas estão presentes, sob outras linguagens, nos modelos de Rorty e Varela. Estes modelos permitirão lançar um novo olhar para o conceito de causalidade piagetiano. Para Piaget (1978), a causalidade, no decorrer do processo de desenvolvimento, consiste no sentido que o sujeito atribui aos fenômenos propiciado pela etapa na qual se encontra. Por outro lado, a partir do pragmatismo e da enação, o mundo não será interpretado como uma instância objetiva dada, ele não estará simplesmente , ele virá a ser para o sujeito, inclusive o mundo objetivo que ele irá construir na fase formal.

 

A Abordagem Pragmatista de Richard Rorty

As abordagem reducionistas, acima esboçadas, assumem sem angústia a existência de um mundo objetivo externo, oposto às ciências humanas. Torna-se então possível rejeitar a análise social e política dos fenômenos: tudo será, cedo ou tarde esclarecido pelas ciências naturais, e reduzido a processos biológicos. O interesse da filosofia pragmática de Rorty (1991) reside precisamente nas críticas formuladas a noções como mundo objetivo, objetividade, realismo científico, essência das coisas. Tais noções, segundo Rorty, têm uma longa história, que vai de Platão a Descartes e dele aos dualistas contemporâneos e cujo fio condutor é a história da metafísica ocidental. Particularmente severa é sua crítica à idéia da representação: o cientista, ao assumir a dualidade cartesiana da mente e do corpo, assume que existe uma realidade externa e o processo de representação deverá acuradamente reproduzir tal realidade (isto é, o mundo que está , com os objetos que ali são). No âmbito das ciências dispara-se uma corrida desenfreada para atingir "a" verdade enquanto correspondência com a realidade, tal como ela "é", exigindo-se critérios cada vez mais rigorosos nas metodologias empregadas para comprovar tal descrição acurada, essencial (no sentido de central, intrínseca) dos objetos do mundo objetivo. Tal abordagem é reducionista: se há apenas uma forma verdadeira de definir os sistemas que configuram a realidade, tratar-se-á sempre de definir o nível mais forte (que detém esta forma verdadeira) numa hierarquia que fornecerá a referência para a qual outros discursos científicos deverão ser reduzidos (redução da química à física, redução das ciências humanas aos processos biológicos).

Num ensaio intitulado Fisicalismo Não-Redutivo, Rorty (1991) proporá um modelo fisicalista, não dualista, da relação do ser humano com o mundo. Partindo dos pontos de vista do filósofo Donald Davidson, naturalísticos sem ser reducionistas, Rorty pretende cercear o impulso que leva ao materialismo reducionista: tais pontos de vista são a culminação da corrente holista e pragmática na filosofia analítica contemporânea norte-americana que expressa uma longa batalha contra concepções do mundo platônicas e religiosas.

O primeiro argumento de Davidson, recenseado por Rorty (1991), afirma que um evento pode ser igualmente bem descrito em termos fisiológicos ou psicológicos: podemos ver estas duas explicações como duas descrições do mesmo processo. Nesse sentido, eventos mentais ou físicos seriam os mesmos eventos sob duas descrições diferentes, uma macro e outra micro-estrutural. Fisicalista seria alguém preparado para dizer que todo evento pode ser descrito em termos micro-estruturais, o que, numa abordagem não-reducionista, seria "perfeitamente compatível com dizer que provavelmente continuaremos a falar em entidades mentais – crenças, desejos, e congêneres – para sempre" (Rorty, 1991, p. 115).

O segundo argumento de Davidson sustenta que as coisas do mundo não fazem as sentenças serem verdadeiras. Rorty interpreta tal asserção afirmando não ser defensável o quadro que sugere que certas sentenças em nossa linguagem correspondam à realidade enquanto outras são verdadeiras apenas, por cortesia (Rorty, 1991, p. 116). Nesse sentido, sentenças sobre partículas elementares seriam verdadeiras, mas não sentenças sobre ética ou estética. Para fisicalistas reducionistas o mundo tornaria as primeiras verdadeiras, enquanto seríamos ‘nós’ que avaliaríamos as segundas como verdadeiras, logo, a partir de avaliações subjetivas. A sugestão de Davidson é substituir esta distinção entre verdades de primeira ou segunda ordem pela idéia de que certas sentenças servem a certos objetivos e outras a outros. Assim, por exemplo, nenhum outro vocabulário desempenhará tão bem a tarefa de descrever uma porção do espaço – tempo quanto o vocabulário da física contemporânea de partículas. Quaisquer outros objetivos serão melhor atingidos usando outros vocabulários.

Qual o interesse das posições do pragmatismo contemporâneo para a discussão em pauta? Fundado nos argumentos de Davidson, Rorty (1991) pretende, em última análise, propor um modelo da relação entre o self humano e o mundo. Nesse sentido, colocará em discussão três modelos desta relação: o modelo tradicional, baseado nas concepções platônicas e religiosas do mundo, o modelo pós-kantiano e o modelo materialista, fisicalista, não reducionista. Os dois primeiros permanecem no contexto da metafísica ocidental enquanto o último é a proposta de Rorty fundada nas posições do pragmatismo contemporâneo.

No primeiro modelo, Rorty (1991) sugere que imaginemos duas esferas, a do falso self e a do mundo das aparências que se cruzam para constituir o corpo humano. No centro da primeira esfera está situado o verdadeiro self, no centro da segunda esfera a verdadeira realidade eterna. "A idéia do platonismo e do cristianismo é a de que, tão logo possamos nos libertar das esferas externas, as internas tornar-se-ão conatas" (Rorty, p. 117). Neste modelo, inquirir sobre fatos empíricos contingentes é útil, na melhor das possibilidades, no intuito de construir uma saída que nos leve longe destes fatos, para que possamos "ver através" de nossa ilusão.

No segundo modelo, Rorty (1991) identifica três níveis do self: um nível externo, que consiste de crenças e desejos empíricos contingentes, um nível intermediário que consiste de crenças e desejos necessários e a priori que ‘estrutura’ ou ‘constitui’ o nível externo e um núcleo interno, inefável, que é o verdadeiro self do modelo platônico – cristão. Diversas linhas unem o self ao mundo: uma linha da causalidade, uma linha da verdade, uma linha da representação e uma linha de constituição. A proposta de Rorty para ultrapassar estes modelos é apagar todas as linhas, exceto a da causalidade.

Quais o sentido desta aparente simplificação pragmatista? Apagar a linha da representação, analisa Rorty (1991), permitirá pensar crenças como instrumentos para lidar com a realidade, determinações para agir em resposta a certas contingências e não representações da realidade. Assim, se o céu está disposto de tal forma a ter o sol no meio torna-se equivalente à questão de Ptolomeu ou Copérnico nos darem melhores instrumentos para lidar com o mundo.

Apagar a linha da constituição implicará em apagar, antes, a distinção entre verdades necessárias e contingentes (Quine, 1960, segundo Rorty, 1991, p. 120), o que leva, por sua vez, a apagar os limites entre o self intermediário e o externo no modelo pós-kantiano, não se distinguindo mais entre a "constituição de uma estrutura" e uma "verdade empírica constituída" ou entre "categorias transcendentais" e "conceitos empíricos".

Finalmente, apagar a linha da verdade permite a Rorty (1991) afirmar que se tivermos relações causais se mantendo entre o mundo e o self, assim como relações de justificação interna (ter uma razão para) quanto à rede de crenças e desejos do self, não precisamos quaisquer outras relações para explicar como o self entra em relação com o mundo ou o inverso. Embora haja causas para a aquisição de crenças, e razões para a retenção ou mudança de crenças, sustenta Rorty, não haveria causas para a verdade das crenças.

No modelo materialista, não reducionista que então emerge, a distinção entre o self e o mundo foi substituída pela relação complexa entre o ser humano individual (passível de ser descrito em termos tanto mentais quanto físicos) e o resto do universo.

O ser humano será portanto caracterizado pelos contornos do corpo e a tarefa de explicar as relações entre eventos que ocorrem dentro destes limites e todos os outros eventos será a tarefa de postular, ou observar, entidades dentro destes contornos. As causas internas do comportamento do ser humano poderão incluir itens tanto macro quanto micro–estruturais, itens tanto mentais quanto físicos. O self consistirá então nos estados mentais do ser humano: seus desejos, crenças, disposições constituindo uma rede de crenças e desejos que está num processo de contínuo de se tecer e tornar a se tecer em resposta a novas crenças adquiridas.

Assim, não haveria um "eu", um "verdadeiro self", um centro interno do ser humano independente das mudanças de suas crenças e desejos. Não há mais centro para o self do que para o cérebro.

"Da mesma maneira que sinapses neurais estão em contínua interação umas com as outras, constantemente tecendo uma configuração diferente de cargas elétricas, assim nossas crenças e desejos estão em contínua interação, redistribuindo valores de verdade entre declarações. Da mesma maneira que o cérebro não é algo que "tenha" tais sinapses, mas simplesmente a aglomeração delas, assim o self não é algo que "tenha" crenças e desejos, mas simplesmente a rede destas crenças e desejos." (Rorty, 1991, p. 123)

Em síntese, ter uma crença ou desejo é seguir uma linha de desenvolvimento numa grande rede de crenças e desejos (quando se tem uma crença ou desejo automaticamente se têm muitas) que se tece e torna a se tecer em resposta a novas crenças adquiridas.

 

A Concepção de Enação

Para Varela, Thompson e Rosch (1993) há três grandes momentos a serem analisados numa exploração das ciências cognitivas: o cognitivismo, o conexionismo e a enação. A intuição central do cognitivismo, segundo os autores, é que a inteligência se assemelha de tal forma à computação em suas características essenciais, que a cognição pode ser definida por computações sobre representações simbólicas. Baseado na afirmação de que o comportamento inteligente pressupõe a capacidade de representar o mundo de certa maneira, o ponto de vista cognitivista deduz que só será possível explicar o comportamento cognitivo se for possível supor um agente se representando traços pertinentes das situações em que se encontra. "Na medida em que sua representação de uma situação seja precisa o comportamento do agente será bem sucedido." (Varela e cols., 1993, p. 73)

No conexionismo, avaliam os autores, considera-se que os cérebros operam de maneira distribuída com base em interconexões massivas, de forma que as conexões efetivas entre conjuntos de neurônios se modifiquem em função do desenrolar da experiência.

Enquanto o tratamento da informação simbólica, no modelo cognitivista, repousava em regras seqüenciais, localizadas, no conexionismo os conjuntos apresentam capacidades auto-organizadoras, distribuídas, o que garante uma equipontencialidade e imunidade relativas, face a possíveis mutilações do sistema. No conexionismo não há necessidade da intervenção de uma unidade central de tratamento visando a guiar o conjunto da operação. O sistema opera com a noção complexa de propriedades emergentes. A "passagem de regras locais a uma coerência global está no coração do que se costumava chamar auto-organização, nos anos cibernéticos. Hoje, prefere-se falar de propriedades emergentes ou globais, de dinâmica de redes, de redes não lineares, de sistemas complexos, ou mesmo de sinergética." (Varela e cols., 1993, p. 136)

A pressuposição tácita do cognitivismo e do conexionismo, segundo Varela e colegas, é a de um realismo cognitivo: o mundo pode ser dividido em regiões de elementos e tarefas discretos. A cognição, nesta abordagem, consistirá numa resolução de problemas que deve, para ser atingida, respeitar os elementos, as propriedades e relações próprias a estas regiões já dadas. Em ambos os modelos permanece o projeto de incorporar o conhecimento do mundo anteriormente existente na forma de uma representação (com a re-apresentação deste mundo).

Varela e colaboradores (1993) pretendem inverter este projeto e tratar o saber dependente do contexto não como um artefato residual que poderá ser eliminado progressivamente pela descoberta de regras cada vez mais elaboradas, mas como a essência mesma da cognição criativa. Tomando o exemplo da percepção da cor, os autores argumentam que as cores não estão lá fora, independentes de nossas capacidades perceptivas e cognitivas, nem "aqui dentro", independentes de nosso meio biológico e nosso mundo cultural. "Nossa intenção é contornar inteiramente esta geografia lógica do ‘interior contra exterior’ estudando a cognição não como reconstituição ou projeção, mas como ação encarnada" (Varela e cols., 1993, p. 234). A cognição dependerá dos tipos de experiência que decorrem do fato de se ter um corpo dotado de diversas capacidades sensório-motoras que se inscrevem num contexto biológico, psicológico e cultural mais amplo.

"Recorrendo ao termo ação, queremos sublinhar [...] que os processos sensoriais e motores, a percepção e a ação são fundamentalmente inseparáveis na cognição vivida. Com efeito, eles não estão associadas nos indivíduos por simples contingência; eles evoluíram juntos." (Varela e cols., 1993, p. 234)

A enação, termo cunhado pelos biólogos chilenos Humberto Maturana e Francisco Varela (1980, citados por Varela e cols., 1993), a partir da expressão espanhola en acción pode então ser entendida a partir de dois pontos: por um lado, a percepção consiste numa ação guiada pela percepção, isto é, o estudo da percepção é o estudo da maneira pela qual o sujeito percebedor consegue guiar suas ações numa situação local.

"Na medida em que estas situações locais se transformam constantemente devido à atividade do sujeito percebedor, o ponto de referência necessário para compreender a percepção não é mais um mundo dado anteriormente, independente do sujeito da percepção, mas a estrutura sensório-motora do sujeito." (Varela e cols., 1993, p. 235)

Por outro lado, as estruturas cognitivas emergem dos esquemas sensório-motores recorrentes que permitem à ação ser guiada pela percepção. É a estrutura sensório-motora, "a maneira pela qual e sujeito percebedor está inscrito num corpo, [...] que determina como o sujeito pode agir e ser modulado pelos acontecimentos do meio." (Varela e cols., 1993, p. 235)

 

A Concepção de Deriva Natural

A análise de Varela e colaboradores não se atém unicamente aos processos cognitivos: inclui também uma crítica aos modelos neo-darwinistas da evolução, no qual a seleção natural é basicamente entendida em termos de uma adaptação ótima ao ambiente. Maturana e Varela (1980, citados por Varela e cols., 1993) proporão o conceito de deriva natural. "A evolução enquanto deriva natural é a contrapartida biológica da cognição entendida como enação" (Varela e cols., 1993, p. 253). Partindo do conceito de satisficing (isto é, a adoção de uma solução minimamente suficiente, não tão ótima mas ainda assim aceitável, no sentido que ela ultrapassa um limiar de satisfação) ao invés do de otimização, tal concepção pós-darwiniana se formula em quatro pontos principais (Varela e cols., 1993, p.266):

1. A unidade da evolução (em qualquer nível) é uma rede capaz de um rico repertório de configurações auto-organizadoras.

2. Submetidas a uma acoplagem estrutural com o meio, estas configurações engendram uma seleção, processo incessante de satisficing que dispara (mas não especifica) mudanças nas trajetórias viáveis.

3. A trajetória ou o modo de mudança específico (não único) da unidade de seleção é o resultado entremeado (não ótimo) de múltiplos níveis de sub-redes de repertórios auto-organizados tendo por objeto uma seleção.

4. A oposição entre fatores causais internos e externos é substituída por uma relação de co-implicação, uma vez que o organismo e o meio se especificam um ao outro.

Para Maturana e Varela (1980, citados por Varela e cols., 1993, p. 266), esta concepção da evolução dependerá da possibilidade de aplicar conjuntamente três condições:

1. A riqueza das capacidades auto-organizadoras das redes biológicas.

2. Um modo de acoplagem estrutural permitindo que as trajetórias viáveis passem o teste do satisficing.

3. A organização dos processos em sub-redes modulares que interajam por bricolagem (isto é, que interajam a partir das qualidades que revelam no decorrer do processo de desenvolvimento).

O ponto crucial desta concepção é que não se conserva a noção de um ambiente independente, já dado; ao invés disto, insiste-se que a noção de um ambiente não pode ser separada do que os organismos são e o que eles fazem. Varela e colaboradores (1993) nos propõem uma analogia que permite expressar esta concepção:

"João precisa de um terno. Num mundo perfeitamente simbólico e representacionista, ele vai a um alfaiate, que toma suas medidas e confecciona um belo terno em conformidade às especificações exatas de suas medidas. Entretanto, existe uma outra possibilidade evidente, que não exige tanto da parte do meio ambiente. João se dirige a diversas grandes lojas e escolhe um terno que lhe caia bem entre os que estão disponíveis. Apesar destes não se adequarem exatamente a ele, eles são satisfatórios, e João escolhe o melhor do ponto de vista da conveniência e do gosto. Temos aqui uma boa alternativa à seleção enquanto procedimento utilizando certos critérios ótimos de valor adaptativo. A analogia autoriza entretanto um refinamento suplementar. Como todo humano, João não pode comprar um terno independentemente do que se passa em sua vida. Comprando um terno, ele leva em conta a maneira pela qual sua aparência vai afetar a atitude de seu chefe no trabalho, a atitude de sua namorada, e é possível também que ele fique atento a fatores políticos e econômicos. Com efeito, a decisão mesma de comprar um terno não é dada de repente enquanto problema; ela é constituída pela situação de vida global de João. A escolha final deste se apresenta como a satisfação de certas pressões muito fracas (por exemplo, estar bem vestido), mas não como uma adequação precisa – e ainda menos uma adequação ótima – a qualquer uma destas pressões." (Varela e cols., 1993, p. 262)

Fica claro nesta analogia que não ocorre uma adaptação ótima a um mundo dado de antemão. A vida do sujeito na deriva tem mais a ver com a abertura a um devir não previsto, a um agir mais próximo a uma flutuação na rede de configurações auto-reguladoras, conforme expressão cara a Maturana e Varela (1980, citados por Varela e cols., 1993), do que a um ajuste preciso à realidade prévia fixa.

 

Os Programas de Pesquisa do Cognitivismo, do Conexionismo e da Enação

Varela e colaboradores (1993) sintetizam, então, os programas de pesquisa expostos procurando formular respostas a três questões fundamentais:

Questão n° 1: O que é a cognição?
Questão n° 2: Como ela funciona?
Questão n° 3: Como saber se um sistema cognitivo funciona adequadamente?

No programa cognitivista a cognição será o tratamento da informação enquanto computação simbólica, no conexionismo a emergência de estados globais numa rede de componentes simples e na enação a história da acoplagem estrutural dos organismos com o meio. No primeiro programa o sistema interage unicamente com a forma dos símbolos, não com sua significação. O cognitivismo será bem sucedido "quando os símbolos representam de maneira apropriada certos aspectos do mundo real, e quando o tratamento da informação conduz a uma resolução bem sucedida do problema submetido ao sistema" (Varela e cols., 1993, p. 75). No segundo programa regras locais geram operações individuais e regras de transformação geram laços entre os elementos. O conexionismo será bem sucedido "quando as propriedades emergentes (e a estrutura resultante) são identificáveis a uma capacidade cognitiva – uma solução adequada a uma tarefa dada" (Varela e cols., 1993, p. 146). O terceiro programa funciona por meio de uma rede que consiste em níveis múltiplos de sub-redes sensório-motoras interconectadas. A enação funcionará adequadamente "quando o sistema cognitivo se tornar parte integrante de um mundo existente durável, quando ele der forma a um mundo novo, como no caso da história da evolução" (Varela e cols., 1993, p. 280).

Percebe-se que em sua exploração dos modelos mais significativos das ciências cognitivas, o terceiro programa ultrapassa os anteriores em elaboração teórica: a cognição não é mais entendida como uma computação formal de símbolos, nem é abordada como uma solução adequada a uma tarefa dada, mas a ação do sujeito é pensada enquanto participante de uma rede complexa constituída em níveis múltiplos de sub-redes interconectadas que supera a dicotomia indivíduo/interno versus meio/externo: o sistema cognitivo do sujeito será parte integrante de um mundo existente durável porém cambiante, no qual indivíduo e meio são instâncias que se co-implicam.

 

Considerações Teóricas

As críticas dos pesquisadores da especificidade do domínio da cognição e da psicobiologia atingem o modelo de desenvolvimento psicogenético num de seus pilares básicos de sustentação: nas teorizações destes críticos, as estruturas inatas prevalecem sobre as estruturas construídas. Meu interesse em trazer para o debate as abordagens de Rorty e Varela reside no fato de que estas abordagens podem ser entendidas como construtivistas e, nesse sentido, compatíveis com as piagetianas. As críticas que estas venham a efetuar sobre o pensamento piagetiano permitirão efetuar novas elaborações que transformem o modelo a partir destas críticas sem que este perca sua força e mantenha seu poder de explicação.

Caberia, entretanto, um esclarecimento: Piaget, segundo Freitag (1991) é um pensador moderno: qual seria o sentido de contrastá-lo com pensadores pós-modernos, como Rorty ou Varela? Para responder a esta questão reporto-me aos estudos que venho desenvolvendo há anos sobre o modelo piagetiano (Arendt, 1981, 1988, 1993, 1996). O argumento que venho defendendo no decorrer destes trabalhos é que a dimensão social estaria embutida na estrutura do modelo teórico piagetiano. Para atingir tal conclusão tomei como ponto de partida uma importante mudança de centração de Piaget, em seu programa de pesquisa, claramente exposto em sua autobiografia: "recomeçar a análise do desenvolvimento cognitivo, mas situando-se do ponto de vista do objeto e já não do sujeito" (Piaget, 1974, p. 181). Segundo Inhelder (1982, p. 7) a "gênese das explicações causais conduziu Piaget a centrar-se mais sobre o papel do objeto na formação das operações e do pensamento e a desenvolver uma interação integral". Em Arendt (1996) descrevo minha surpresa em verificar surpreendentes ressonâncias entre o pensamento piagetiano e o pensamento filosófico contemporâneo (M. Foucault, G. Deleuze). A presente aproximação a Rorty e Varela tem portanto o sentido de explorar os recursos da abordagem piagetiana e sua compatibilidade com o pensamento pós-moderno, particularmente no que tange à noção de redes que se organizam e reorganizam, tal como no processo de assimilação e acomodação.

É significativo observar que tanto Rorty quanto Varela utilizam em seus textos a mesma retórica de argumentação: através de sucessivas análises, os modelos analisados vão sendo refinados até atingir a proposta seja do fisicalismo não-redutivo, seja da enação. Seria possível, mantidas as dimensões deste trabalho, aplicar esta mesma retórica ao pensamento piagetiano?

Rorty e Varela efetuam, direta e indiretamente, críticas ao pensamento de Piaget: Varela e colaboradores (1993) ressaltam a importância da epistemologia genética na introdução da "idéia segundo a qual as estruturas cognitivas se destacam de tipos recursivos de motivos sensório–motores que permitem à ação ser guiada pela percepção" (Varela e cols., 1993, p. 239). Consideram, entretanto, que Piaget, enquanto teórico, parece não ter jamais duvidado da existência de um mundo já dado e de um sujeito independente do conhecimento, nem da idéia de que o desenvolvimento cognitivo possua um ponto de chegada lógico e dado de antemão. As leis do desenvolvimento cognitivo, mesmo no estágio sensório–motor, consistem numa assimilação e uma acomodação com relação a este mundo já dado, denunciam os autores. A obra de Piaget apresenta então uma tensão interessante entre um "agente cujo desenvolvimento é regido pela enação, mas que evolui inexoravelmente para se tornar um teórico objetivista." (Varela e cols., 1993, p. 240)

Já para Rorty, o quadro do self como a rede de crenças e desejos "é difícil de reconciliar com a fala usual, de acordo com a qual o "eu" é distinto de suas crenças e desejos e efetua uma escolha e seleção entre elas." (Rorty, 1991, p. 123)

O ponto em comum a estas duas críticas poderia ser sintetizado numa observação do Prof. Franco Lo Presti Seminério (comunicação pessoal) que guardo desde os tempos do doutorado e que segue a análise de Freitag (1991): haveria "um Kant embutido em Piaget". Varela e colaboradores tiveram a sensibilidade de perceber este paradoxo de um agente que age pela enação, mas visa a atingir um realismo cognitivo. Da mesma forma, a crítica de Rorty a um "eu" distinto de suas crenças e desejos pode facilmente ser reportada à noção piagetiana de sujeito epistêmico. O problema a ser colocado seria o seguinte: da mesma forma que Rorty superou o modelo pós-kantiano do self , eliminando uma série de linhas, na relação organismo – meio, mantendo apenas o vínculo causal (e Varela superou o cognitivismo e o conexionismo, eliminando a representação simbólica e as regras de transformação, propondo uma história das acoplagens estruturais que o organismo mantém com o meio), seria possível retirar da formulação teórica piagetiana sua base pós-kantiana?

Retirar esta base implicaria romper com a idéia da objetividade que faz pressupor a subjetividade, implicaria em superar a dicotomia do sujeito e do objeto, do interno e do externo: estas seriam instâncias que se co-implicam. Se retiramos estes referenciais kantianos do pensamento piagetiano, teríamos que admitir que até a necessidade lógica, fruto de sucessivas equilibrações, não deixaria de ser uma construção teórica do sujeito, a partir da coordenação das ações e não uma conquista de uma realidade objetiva.

Segundo Haworth (1986), Piaget tinha claro que a perspectiva realista deveria ser superada. A criança é realista na medida em que apenas gradualmente se dará conta que seu ponto de vista é apenas um, entre outros. Antes de se dar conta de seu próprio ponto de vista, ela acreditará estar em contato com as coisas como elas são. Através do processo de desenvolvimento a criança perceberá que nem todos vêem tudo da mesma forma e que existem outras perspectivas e pontos de vista, além dos próprios.

Piaget (1978) admite estes argumentos na análise que efetua da causalidade. O mundo não "é", ele é como o sujeito o construiu: causalidade será o processo de atribuir aos objetos uma organização análoga à forma como ele coordena suas próprias ações, uma forma de abordar o real. O sujeito atribuirá uma causa aos fenômenos da realidade, em função do estágio em que se encontra (Piaget, 1978). O que o desenvolvimento cognitivo trará é um processo de atribuição mais amadurecido, descentrado, menos realista. Se a análise que venho desenvolvendo estiver correta e houver compatibilidade entre os argumentos de Piaget e Rorty, não deixa de ser significativo que precisamente a causalidade é mantida no modelo do fisicalismo não redutivo proposto por Rorty.

Um comentário sobre o conceito de causa: quando, no modelo piagetiano, o sujeito atribui uma causa aos fenômenos em função do estágio em que ele se encontra, esta causa pode ser reportada à estrutura biológica dos estágios; no modelo materialista de Rorty, as "causas internas do comportamento humano" são delimitadas pelos contornos do corpo; Varela e colaboradores substituirão os "fatores causais internos e externos" pela relação de co-implicação do organismo com o meio. Nos três exemplos a causalidade se reporta à base biológica. É nesse sentido que nos parece relevante a distinção proposta por Harré (1997) entre uma ordem causal biológica e uma ordem social e cultural, o que exprime com perfeição a proposta não reducionista deste trabalho: se, em linhas gerais causas se reportam a fenômenos biológicos sobre os quais não há muito que atuar, na medida em que estão "fechados" (por exemplo: resultantes de um longo processo evolutivo), na ordem social o importante é precisamente esta não ser fechada, e caracterizar-se por sua abertura a sucessivas reconstruções e reequlibrações. É nesse sentido que não haveria, para Rorty, causas para a verdade das crenças: poderá haver uma base biológica para sua aquisição, mas são as práticas sociais que estabelecerão sua utilidade e permanência na rede de crenças e desejos (de um ponto de vista pragmatista a psicologia pode ser entendida como o estudo da formação das crenças: suas teorias poderiam fornecer então a "base biológica para sua aquisição").

Minha tese é que a retirada dos referenciais metafísicos kantianos da teorização piagetiana torna o seu modelo muito próximo às considerações pragmáticas e enatistas de Rorty e Varela: o desenvolvimento passa a se constituir através de uma complexa rede de crenças e desejos que se reequilibram pela assimilação e acomodação em sucessivos patamares de organização e reconstrução, por auto-organização, a partir da história da acoplagem estrutural do organismo com o meio, numa relação de co-implicação, em sua ação guiada pela percepção, num quadro que inclui o contexto social e político.

Coulter (1997), comentando as atuais teorizações em ciência da cognição, questiona as abordagens que desconsideram os contextos circunscritos, socialmente organizados, nos quais as ações dos sujeitos ocorrem, "as dimensões da praxis social", essenciais na natureza da mente. Em minha tese de doutorado (Arendt, 1988) procurei explorar o lado eminentemente social da interação piagetiana. Talvez a reversão de ênfase ressaltada nos últimos escritos piagetianos fosse um passo em direção à filosofia contemporânea que acabaria por desconsiderar totalmente a dicotomia sujeito – objeto. No contexto da filosofia analítica norte-americana a sugestão de abandonar a distinção entre estruturas constituidoras e estruturas constituídas pela ‘verdade objetiva’ ou entre categorias transcendentais e meros conceitos empíricos, revela a adoção de uma abordagem externalista antes de internalista no que tange à análise das falas de uma pessoa. (Rorty, 1991, p. 120)

 

Considerações Metodológicas

Este trabalho foi uma tentativa de desdobrar o programa de pesquisa antevisto por Piaget na investigação do desenvolvimento cognitivo em seus últimos anos de reflexão. Em grandes linhas, como procurei indicar, esta mudança de orientação se coaduna com o pensamento contemporâneo através de suas ressonâncias com o neo-pragmatismo e a abordagem cognitiva da enação. Quais as conseqüências destas reflexões teóricas para escolhas metodológicas em programas de pesquisa?

A primeira orientação, mais geral, é para que os pesquisadores do desenvolvimento humano assumam a postura de um fisicalismo não-redutivo: que investiguem as bases biológicas do comportamento sem deixar de levar em conta os aspectos sociais do contexto no qual este comportamento se desdobra. A segunda orientação, mais pragmática, decorre da definição proposta do self. Se este é pensado como uma rede de crenças e desejos que se organiza e se reorganiza quando são incorporadas novas crenças e desejos, tal estudo deveria privilegiar precisamente a identificação e análise destas crenças e desejos, como eles surgem, se desenvolvem e se transformam, as condições de sua transmissão, em processos lingüísticos, conversacionais, discursivos, relacionais, em práticas situacionais. Decorre daí também a análise dos contextos específicos, culturais e institucionais, nos quais os indivíduos são "contaminados" por estas crenças ou seja, o contexto epidemiológico de sua transmissão, conforme expressão de Sperber (1996). No que tange ao processo de desenvolvimento do sujeito, uma terceira orientação seria insistir mais nos aspectos da ação do sujeito e menos nos aspectos epistemológicos do conhecimento. Sem a busca cartesiana do rigor frente à realidade já dada e que exige uma constante crítica do conhecimento, o pesquisador daria relevância às capacidades auto-organizadoras das redes construídas, à reflexão do pensamento não tanto como conhecimento obtido, mas como indício de amadurecimento e autonomia do agente percebedor, à ação encarnada. Finalmente, decorre dos textos analisados uma postura metodológica de implicação entre organismo e o meio, no qual um especifica o outro. Como procurei colocar em discussão, a cognição dependerá dos tipos de experiências sensório-motoras inscritas num contexto biológico, mas também psicológico e cultural, todos estes níveis devendo ser estudados em sua mútua co-implicação.

 

Referências

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Recebido em 25.11.98
Revisado em 20.08.99
Aceito em 19.11.99

 

 

Sobre o autor:

Ronald João Jacques Arendt é Professor Titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

 

1 Endereço para correspondência: UERJ, Rua São Francisco Xavier, 524/10º, sala 10019/Bl.F, 20559-900, Rio de Janeiro, RJ. Fone: (21) 5877304, Fax: (21) 5877284. E-mail: rarendt@unisys.com.br
2 Uma versão parcial deste trabalho foi apresentada no II Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento, realizada em maio de 1998, em Gramado, Rio Grande do Sul.