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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.2 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000200006 

Sistema de Relações Historicamente Construído

 

Desenvolvimento de um sistema de relações historicamente construído: contribuições da comunicação no início da vida

Maria C. D. P. Lyra 1  2 
Universidade Federal de Pernambuco

 

 


Resumo
Este trabalho resume um esforço de integração entre a perspectiva teórica adotada e a metodologia proposta, focalizando o desenvolvimento de comunicação no início da vida. Dois aspectos teóricos são destacados: a dimensão temporal do desenvolvimento e a natureza das relações sócio-culturais que compõem o sistema comunicativo. Algumas implicações metodológicas são consideradas. A comunicação é concebida como um processo histórico e relacional ou dialógico. As trocas comunicativas são entendidas como compondo um sistema de relações que se reorganiza, dando origem a novos padrões de comunicação. A metodologia adotada compreende o registro longitudinal em vídeo das trocas mãe-bebê, face-a-face e mãe-objeto-bebê, durante os oito primeiros meses de vida do bebê, envolvendo o estudo de múltiplos casos. A análise dos dados de duas díades mãe-bebê apresenta momentos de quase-estabilidade e momentos de mudança dos padrões comunicativos, cuja história de transformação particulariza cada uma delas.
Palavras-chave: Desenvolvimento; comunicação pré-verbal; sistema histórico.

Development of a historically construed relational system: contributions from early communication

Abstract
This paper attempts to integrate theoretical and methodological assumptions focusing on the development of early communication. Two theoretical points are highlighted: the temporal dimension of the developmental phenomenon and the nature of the socio-cultural relationships that characterizes the communication system. In addition, some methodological implications are considered. Communication is conceived as a historical and relational or dialogical process. Communicative exchanges create a system of relationships from which new communicative patterns emerge. The methodology used comprises longitudinal video records of the mother-infant exchanges, particularly face-to-face and mother-objet-infant, during the first eight months of the infant’s life. Multiple cases are analyzed. Data analysis from two mother-infant dyads shows moments of quasi-stability and moments of change of the communicative patterns. The history of transformation of these communicative patterns particularizes each mother-infant dyad.
Keywords: Development; early communication; historical system.


 

 

Síntese das Perspectivas Teóricas Adotadas

Duas tradições teóricas - com suas implicações metodológicas - fundamentam os nossos estudos acerca do desenvolvimento da comunicação no início da vida: a perspectiva dos sistemas dinâmicos e a perspectiva sociogenética.

A primeira tradição, a perspectiva dos sistemas dinâmicos, tem contribuído para a compreensão das características processuais ou dinâmicas das aquisições do desenvolvimento, sobretudo encontradas nos períodos iniciais do desenvolvimento humano (Fogel, 1993; Fogel, Lyra & Valsiner, 1997a; Fogel & Thelen, 1987; Lewis, 1995; Thelen & Smith, 1994; van Geert, 1994). Duas contribuições decorrentes desta perspectiva são, particularmente, importantes. Uma delas diz respeito à capacidade de integrar, em um mesmo paradigma conceitual, os momentos de estabilidade e mudança apresentados pelos sistemas em desenvolvimento. A outra contribuição propõe que o desenvolvimento se dá através de mecanismos de auto-organização das relações implicadas nos sistemas em desenvolvimento. Nestes sistemas, a criação de novas formas resulta dos padrões interativos destas relações.

A segunda tradição, a perspectiva sociogenética, sócio-construtivista ou sócio-cultural, que inclui a perspectiva chamada dialógica (Bakhtin, 1986; Hermans & Kempen, 1993; Marková, 1990; Rommetveit, 1990), reconhece, explicitamente, o papel fundamental do meio sócio-cultural na construção das aquisições do desenvolvimento. O sistema de relações no qual o sujeito se desenvolve é concebido, necessariamente, como um sistema de relações sociais. O desenvolvimento se dá através de um processo de co-construção, ou diálogo, que ocorre através das trocas do sujeito com o meio sócio-cultural no qual está inserido (Bruner,1990, 1996; Dewey 1891; Kaye, 1982; Lock, 1980; Mead, 1934; Rogoff, 1990; Valsiner, 1997a; Vygotsky, 1987).

Ambas as tradições atribuem ao desenvolvimento uma característica dinâmica e relacional que possibilita a emergência de novas formas ou padrões que compõem o desenvolvimento. O sistema de relações, no qual o sujeito está inserido, se caracteriza como um sistema aberto de relações. As novas formas ou padrões surgem a partir da abertura para possibilidades anteriormente não existente no sistema (Fogel, 1993; Prigogine & Stengers, 1984; Valsiner, 1997a).

A comunicação, desde o início da vida, é por nós abordada como um sistema de relações sociais inserido no ambiente cultural específico do sujeito. O desenvolvimento da comunicação é concebido como um processo histórico e relacional, ou dialógico, que constrói novas formas a partir da reorganização das relações implicadas no sistema que compõe as trocas comunicativas (Fogel & Lyra, 1997; Lyra, 1988; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Lyra & Winegar, 1997). A unidade de análise é, portanto, a relação ou o diálogo que inclui tanto os parceiros em interação como a própria comunicação. Esta concepção histórico-relacional da comunicação está sendo, também, elaborada e desenvolvida por Alan Fogel e colaboradores (Fogel, 1993; Fogel, Hsu, Pantoja & West-Stoming, em preparação). Estudando os primeiros meses de vida do bebê, temos como objetivo central a investigação dos padrões de trocas comunicativas que emergem e se transformam ao longo do tempo e a compreensão das filiações históricas desses padrões. Estes dois aspectos - o processo de emergência dos padrões comunicativos e as filiações históricas das transformações e construções desses padrões - nos permitem explorar a natureza do sistema de relações sociais que emerge e se concretiza na comunicação entendida como diálogo (Lyra, 1988; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995). Mais especificamente, por exemplo, nos interessa investigar os mecanismos de transformação que possibilitam a passagem de um padrão de comunicação dominante para um novo padrão, que surge ao longo do tempo (Fogel & Lyra, 1997; Lyra & Winegar, 1997), ou a natureza sócio-histórica da emergência do indivíduo, ou do self, na relação dialógica (Lyra & Souza, no prelo).

 

Estudo do Processo

A compreensão do desenvolvimento como processo de mudança se constitui em um dos pontos centrais das idéias propostas por teóricos clássicos do desenvolvimento como J. Piaget, L. S. Vygotsky e H. Werner. Nesta direção, a investigação do desenvolvimento deve incluir os processos de mudança, além das aquisições ou produtos do desenvolvimento, classicamente tomados como etapas, estágios, ou habilidades que surgem ao longo do tempo.

A compreensão do desenvolvimento como equivalente à identificação de seus produtos, tal como comportamentos de natureza motora, cognitiva, emocional, da personalidade ou capacidades chamadas sociais, tem dominado a literatura existente acerca do desenvolvimento psicológico da criança e do adolescente. Em muito menor escala tem sido explorado o processo de mudança que caracteriza este desenvolvimento (um levantamento nas revistas científicas mais tradicionais na área da psicologia do desenvolvimento, como Child Development, por exemplo, demonstra, claramente, este fato).

Recentemente, a partir dos anos 80 (ou, mais precisamente, a partir da segunda metade dos anos 80), nenhuma perspectiva se dedicou tão explicitamente ao estudo do processo de mudança - ou da dinâmica que caracteriza o desenvolvimento - que aquela presentemente agrupada sob o rótulo de sistemas dinâmicos. A concepção do tempo como irreversível e a caracterização dos fenômenos como sistemas abertos, em constante troca de energia com o meio externo, mostraram-se revolucionárias no estudo de fenômenos físicos (ver Prigogine & Stengers, 1984, como introdução clássica) e fenômenos biológicos (ver, por exemplo, Edelman, 1987). Na psicologia, as idéias decorrentes da perspectiva dos sistemas dinâmicos, também conceituados como sistemas complexos ou sistemas caóticos, progressivamente encontram seu nicho (uma das primeiras propostas voltada para a psicologia do desenvolvimento, acha-se em Fogel & Thelen, 1987). Apesar de se constituir como uma abordagem recente, o seu campo de aplicação tem se expandido para diferentes áreas da psicologia, dentre as quais destacamos, além da psicologia do desenvolvimento, a psicopatologia e a psicoterapia (ver, Materpasqua & Perna, 1997 para uma boa amostragem das pesquisas nestas áreas). Na psicologia do desenvolvimento, as concepções dos sistemas dinâmicos têm sido utilizadas para explorar o desenvolvimento motor (Thelen & Smith 1994; Thelen & Ulrich, 1991), o desenvolvimento cognitivo (Lewis, 1995; van Geert, 1994), o desenvolvimento comunicativo e emocional (Fogel, 1993; Fogel & Lyra, 1997; Fogel & Thelen, 1987; Pedrosa, Carvalho & Império-Hamburger, 1997).

Um dos aspectos marcantes da concepção dos sistemas dinâmicos está na idéia de que qualquer sistema, considerado como sistema aberto, está sempre em desenvolvimento ou em processo de mudança, apresentando mecanismos de auto-organização. Estes mecanismos resultam das trocas entre os elementos que compõem o sistema. A tarefa do investigador consiste no discernimento dos padrões de coação de um dado sistema ao longo do tempo, que definem os níveis de organização do sistema. Esta investigação possibilita a compreensão tanto dos momentos de maior estabilidade do sistema como daqueles de instabilidade que caracterizam os momentos de mudança. Desta forma, na perspectiva dos sistemas dinâmicos, torna-se impossível - e sem sentido - a identificação de variáveis independentes e variáveis dependentes, uma vez que os elementos do sistema interagem se modificando ao longo do tempo.

O mecanismo de passagem de um nível de organização para um outro padrão de organização guarda características de indeterminação (ver, particularmente, Fogel, Lyra & Valsiner, 1997a, acerca deste tema). É, justamente, nessas passagens entre níveis de organização que emergem novas formas ou novos padrões de organização. Existe, todavia, um jogo constante entre a determinação proveniente da história de construção de um dado sistema e a indeterminação inerente ao momento de criação do novo (para uma aplicação dos conceitos de determinação e indeterminação e os mecanismos históricos de sua construção no início da comunicação mãe-bebê, ver Lyra & Winegar, 1997).

 

Natureza dos Sistemas de Relações Sócio-Culturais da Comunicação

Embora os sistemas físicos e mesmo os sistemas biológicos possibilitem o uso de modelos matemáticos (Haken, 1983; Kelson, Scholz & Schöner, 1986), na psicologia a utilização dos conceitos provenientes da perspectiva dos sistemas dinâmicos tem sido realizada, sobretudo, de forma analógica (Thelen & Smith, 1994). Uma exceção para isto está no trabalho de van Geert (1994) que tem aplicado funções matemáticas para a simulação computacional do desenvolvimento da aprendizagem na relação professor-aluno, assim como para aspectos do desenvolvimento cognitivo e da linguagem.

Uma das razões da inadequação de modelos matemáticos está na impossibilidade de discernir, adequadamente, os elementos que compõem os sistemas psicológicos, sobretudo em relação aos mecanismos responsáveis pela emergência de novas formas ou padrões (Fogel, Lyra & Valsiner, 1997b). No caso da comunicação, concebida como um sistema de relações de natureza sócio-cultural, mesmo que procuremos traduzi-la na sua forma mais simples, como nos sugeriu Thelen (Thelen, comunicação pessoal, em 05/04/1998), a complexidade com que os elementos co-atuam não nos permite identificá-los separadamente. A tarefa consiste, a nosso ver, em investigar a natureza das transformações que são características de um dado sistema de comunicação, em diferentes idades e contextos. Esta investigação possibilitará a identificação da emergência de momentos de quase-estabilidade e instabilidade/mudança relativos a um dado tipo de comunicação - no nosso estudo, focalizamos as trocas face-a-face e mãe-objeto-bebê.

Destacamos dois aspectos, de natureza conceitual, para caracterizar as relações sócio-culturais que compõem a comunicação desde o início da vida. São eles o caráter relacional ou dialógico das trocas e a participação da história cultural através da história ontogenética.

O caráter relacional (Fogel, 1993), mutuamente dependente ou dialógico (Lyra, 1988; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995) dos parceiros faz com que cada troca comunicativa seja entendida como pertencente a ambos os parceiros, impossibilitando, assim, a separação de um emissor, de um receptor e da própria mensagem comunicativa. Assumimos, desta forma, uma perspectiva processual, dinâmica e contínua da comunicação que se opõe a uma visão discreta do processo comunicativo (ver, particularmente, Fogel, 1993 e Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995). Marková (1990), propõe que a unidade conceitual mínima de todo diálogo se caracteriza por três momentos: 1) a comunicação inicial de um dos parceiros; 2) a resposta do outro parceiro; e, 3) a resposta à resposta deste segundo parceiro, efetuada pelo primeiro. Este conceito de três momentos como unidade mínima do diálogo, que diz do caráter transformador da participação de cada parceiro no turno do outro, deve ser guiado, a nosso ver, pela específica construção comunicativa - ou dialógica - em estudo. Neste sentido, os momentos de quase-estabilidade e mudança do sistema comunicativo, entendidos como produtos dialógicos, devem ser investigados à luz de uma unidade de análise que faça compreender a história de construção destes momentos. É, desta forma, a natureza da aquisição comunicativa que guia o quanto se faz necessário retornar na história passada particular de cada díade. Assim, os turnos entre os parceiros são considerados como contidos em um todo histórico maior, cuja dimensão é guiada pela natureza da específica construção em estudo (Lyra, no prelo).

Tanto a perspectiva dos sistemas dinâmicos como a perspectiva dialógica aceitam a coexistência de contradições como inerentes aos sistemas em desenvolvimento. Marková (1987) faz uma excelente análise acerca da dificuldade enfrentada pelos estudiosos do desenvolvimento na interação por se apegarem ao princípio da não-contradição. Este princípio, remontando ao pensamento de Aristóteles e depois de Kant, reza que um dado fenômeno não pode ser, ao mesmo tempo, A e não-A. Por exemplo, analisando o desenvolvimento como resultante da interação do organismo com o meio, o princípio da não-contradição tanto não permite que se considere como coexistentes fatores organísmicos e ambientais como impossibilita a consideração do processo de mudança. A não-contradição admite apenas a passagem de um ponto estático para outro estático, no qual o movimento se reduz a uma sucessão de estados estáticos. O movimento, ou o processo, é, desta forma, excluído como possibilidade ontológica. Fundamentado neste princípio ontológico, os estudiosos do desenvolvimento na comunicação excluem a possibilidade de que a relação comunicativa ou o diálogo seja, justamente, a condição na qual as aquisições do desenvolvimento pertençam, ao mesmo tempo, a cada sujeito e a relação dialógica - que, necessariamente, inclui o parceiro. Este caráter de interdependência do parceiro social no processo de comunicação, é, a nosso ver, o primeiro aspecto que define a natureza específica dos sistemas de relações sociais que caracterizam a comunicação e seu desenvolvimento. O segundo aspecto diz respeito ao caráter histórico-cultural das relações sociais, que resumiremos a seguir.

Um dos pressupostos básicos das teorias sociogenéticas, incluindo a maioria das interpretações ou conceituações atribuídas à perspectiva dialógica, é a sua dependência da linguagem (Marková & Foppa, 1990), e/ou de um sistema simbólico, concebido como mediando as trocas do sujeito com o mundo social e físico que o cerca (Mead, 1934; Vygotsky, 1978; Vygotsky & Luria, 1994). Este sistema de mediação simbólica, que resultou da história cultural da humanidade, constitui o sujeito psicológico humano, tal como o faz a história filogética em relação à espécie humana (Vygotsky & Luria, 1994). Assim, quando falamos em comunicação tendemos a eqüivalei-la à linguagem e/ou ao uso de um sistema histórico-cultural simbólico.

Considerando o início da vida, a questão que nos toca é, justamente, como o sistema de comunicação faz emergir e se desenvolver este sujeito psicológico humano que vai dispor da linguagem e dos símbolos como instrumentos comunicativos. Nesta direção, concebemos que tanto o bebê é capaz de estabelecer uma relação dialógica bem anterior a qualquer linguagem (Bråten, 1984; Hermans, 1996; Lyra, 1988; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Rommetveit, 1990; Fogel, 1993, 1995; Trevarthen, 1980), como propomos que a história cultural da humanidade, refletida nos diversos níveis do ambiente físico e cultural-simbólico que circunda o bebê (espaço físico, normas, valores, atitudes, etc.) se concretiza na relação comunicativa ou diálogo, ao longo do tempo. Entendemos, assim, que a história cultural é, necessariamente, integrada e reconstruída - ao criar o sujeito psicológico humano - através do sistema de comunicação desde o início da vida.

Deste modo, o sistema de comunicação mãe-bebê vai guardar limites e possibilidades culturalmente construídos que são inerentes a diferentes níveis da história cultural, i.e., alguns mais gerais - por exemplo, aqueles característicos da linguagem - e alguns mais específicos ¾ por exemplo, valores da nossa cultura ocidental e, ainda mais específicos, aqueles da história do grupo social, da família e da mãe/adulto que interage com o bebê (para exemplo ilustrativo ver Lyra, 1998). Todavia, enfatizamos que, quaisquer que sejam estes limites e possibilidades, eles só se integram ao sistema de comunicação enquanto concretamente co-atuam nas trocas efetuadas entre os parceiros - no nosso caso o bebê e sua mãe - ao longo do tempo. Assim, propomos, como caminho frutífero na análise sociogenética, a investigação cuidadosa dos momentos de quase-estabilidade e mudança do sistema de comunicação visando discernir os mecanismos processuais que fazem emergir as primeiras manifestações de uma mediação anterior ao símbolo. Estamos, desta forma, propondo uma integração das contribuições - provenientes tanto da perspectiva dos sistemas dinâmicos como daquelas perspectivas sócio-culturais. Queremos ressaltar que esta integração proposta deve ser efetuada tanto a nível conceitual como empírico, o que nos conduz ao sub-tópico que se segue.

 

Considerações Metodológicas

O estudo do comunicação como processo de mudança exige, necessariamente, um delineamento longitudinal de pesquisa. Além deste requisito, também se faz necessária a microanálise deste processo. Em relação, sobretudo, às trocas comunicativas no início da vida, o registro em vídeo se torna imprescindível para que se efetue a microanálise do processo comunicativo. Duas escalas de tempo são, por nós, utilizadas, considerando o registro e a análise dos dados empíricos.

Quando falamos em microanálise estamos nos referindo à análise efetuada utilizando uma escala de tempo segundo-a-segundo. Esta escala nos possibilita obter uma boa aproximação do processo de transformação que resulta em novas formas ou novos padrões de organização do sistema de comunicação. A escala de tempo segundo-a-segundo tem sido chamada de tempo real (Fogel, Hsu, Pantoja & West-Stoming, em preparação; Pantoja, 1996), tempo do comportamento (Thelen & Ulrich, 1991), microdesenvolvimento (Lewis, 1995; van Geert, 1994), tempo linear (Haviland & Kahlbaugh, 1993) e microgênese (Valsiner, 1997a; Wertsch, 1985). O que nos deve guiar no dimensionamento da escala de tempo utilizada é a possibilidade de discernir as filiações históricas dos mecanismos de transformações inerentes ao sistema em desenvolvimento. Diferentes fenômenos podem exigir diferentes escalas temporais para que se processe uma microanálise (Thelen & Ulrich, 1991).

A segunda escala de tempo aqui considerada é aquela que se refere a um conjunto de registros obtidos a partir da microanálise do processo de comunicação. Estes conjuntos, quando repetitivos, vão caracterizar modificações evolutivas de caráter mais macroscópico que vão corresponder aos padrões de organização da comunicação e suas transformações. Esta escala de tempo tem sido chamada de tempo do desenvolvimento (Fogel, Hsu, Pantoja & West-Stoming, em preparação; Pantoja 1996; Thelen & Ulrich, 1991), macrodesenvolvimento (Lewis, 1995; van Geert, 1994), macrogênese (Wertsch, 1985) e tempo ontogenético ou ontogênese (Valsiner, 1997a).

Estas duas escalas de tempo nos permitem, assim, descrever as filiações históricas dos mecanismos de construção e transformação dos padrões comunicativos ao longo do tempo caracterizando a passagem de um padrão de comunicação dominante para um novo padrão comunicativo. Esta história de transformações possibilita a identificação de semelhanças e particularidades das díades mãe-bebê estudadas.

A investigação da comunicação como processo de mudança nos leva, também, a adotar o estudo de múltiplos casos como metodologia de investigação. Esta opção decorre não apenas de considerações de ordem operacional (estudos microanalíticos-longitudinais exigem um investimento prolongado de tempo) mas, também, de ordem conceitual-teórica. A opção pelo estudo de casos individuais e sua trajetória de desenvolvimento é crucial tanto para a concepção dos sistemas dinâmicos (Thelen & Ulrich, 1991), como para qualquer estudo do desenvolvimento concebido como processo de mudança (Valsiner, 1986, 1997a, 1997b). A variabilidade individual não é, desta forma, interpretada como ruído a ser excluída como erro, tal como esta variabilidade é considerada nas análises típicas de variância (ANOVA) da estatística inferencial. Esta variabilidade constitui o próprio dado, uma vez que informa sobre a estabilidade e instabilidade relativas das variáveis coletivas do sistema em estudo (Thelen & Ulrich, 1991).

Adotando a metodologia de estudo de múltiplos casos, estamos assumindo o conceito de generalidade que advém do modelo do sistema de relações que propomos, tal como nos expõe Valsiner (1997b). A natureza do raciocínio que subjaz à generalidade a partir do estudo de casos individuais é diversa daquela que advém da suposição de uma população de referência. Quando os casos individuais são concebidos como sistemas, a abstração para os sistemas em geral recai na assunção, a priori, de que existem diferentes caminhos para atingir sistemas igualmente funcionais de um tipo genérico. Trata-se da equifinalidade e redundância dos mecanismos de desenvolvimento dos sistemas abertos3  que, mesmo diante da variabilidade individual, fazem emergir a estabilidade reconhecida nos sistemas de desenvolvimento psicológico - por exemplo, todos nós desenvolvemos habilidades cognitivas e lingüísticas semelhantes. A generalidade recai, desta forma, no modelo proposto para dar conta do desenvolvimento de um dado sistema de relações. Cada novo caso empírico se constitui em um teste deste modelo proposto. Diferentemente, a generalidade que supõe uma população de referência exige uma abstração que pode jamais se aplicar a um caso em particular. Como sistema aberto, tal como todo sistema vivo, a população de referência nunca é a mesma, estando em perene mutação - indivíduos nascem e morrem, por exemplo. Assim, o conceito abstrato de população deflagra uma imprecisão que não pode ser, logicamente, jamais superada (Valsiner, 1997b).

 

Sumário

Procuramos, até agora, expor os pressupostos teóricos adotados no estudo do desenvolvimento da comunicação, concebido como processo de mudança, focalizando as trocas iniciais mãe-bebê. Procuramos, também, estabelecer algumas exigências de ordem metodológica que decorrem destes pressupostos. Exporemos, agora, a principal metodologia adotada e, em seguida, apresentaremos alguns resultados encontrados, a título de ilustração.

 

Método Adotado

O Período Investigado e os Tipos de Trocas Mãe-Bebê

O período investigado compreende os primeiros oito meses de vida do bebê. O desenvolvimento da comunicação é estudado a partir da análise longitudinal das trocas mãe-bebê que compõem dois tipos de interações comumente identificadas nesta faixa etária: as trocas face-a-face e aquelas mãe-objeto-bebê (Adamson, 1995; Lyra, 1988; Schaffer, 1984). As trocas face-a-face se caracterizam pela manutenção do contato de olhar entre os parceiros e as trocas mãe-objeto-bebê se caracterizam pela presença de um objeto como compondo as trocas diádicas.

As Díades e os Registros

Até o presente momento dispomos dos registros semanais em vídeo das trocas mãe-bebê de três díades brasileiras (40 minutos cada registro) em situação natural, na casa da díade, e de cinco díades brasileiras e 13 díades norte-americanas4  ( 20 minutos cada registro) em situação de laboratório. Todas estas díades pertencem à classe sócio-econômica média, tendo bebês considerados saudáveis a partir de exames pediátricos.

A Análise

A análise efetuada, que, até agora, corresponde a uma díade brasileira em situação natural, quatro díades brasileiras e quatro norte-americanas em situação de laboratório, obedeceu as seguintes etapas:

1) Período de contato inicial com os registros

Nesta fase, o observador apenas assiste a exibição dos registros em vídeo visando criar intimidade com os dados. Tem como objetivo, sobretudo, captar a maneira como as trocas diádicas se transformam e se estabilizam ao longo do tempo.

2) Transcrições integrais das trocas face-a-face e mãe-objeto-bebê visando a efetuar a microanálise das interações diádicas

Estas transcrições, utilizando a escala de tempo segundo-a-segundo, são guiadas pelo conceito de dinâmica dialógica de recorte (Lyra, 1988; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995). Tal conceito define uma estratégia de análise na qual alguns elementos do fluxo de atividades dos parceiros se tornam figura em relação a um fundo de atividades não destacadas. Por exemplo, considerando as trocas face-a-face, o olhar se torna figura - e as trocas diádicas nele se concentram - em relação aos movimentos, caretas, vocalizações, etc., que podem, também, estar presentes compondo o fluxo de atividades tanto da mãe como do bebê.

3) Análise longitudinal dos padrões de organização da comunicação e suas transformações

Trata-se de uma análise que visa agrupar conjunto de registros obtidos a partir da transcrições integrais, estando voltada para identificação dos momentos de quase-estabilidade versus momentos de instabilidade/mudança dos padrões das trocas diádicas. A escala de tempo utilizada é aquela do desenvolvimento em que se visa a identificar modificações evolutivas de caráter mais macroscópico que vão corresponder aos padrões de organização da comunicação e suas transformações (ver considerações sobre escalas de tempo no item Considerações Metodológicas). Estes conjuntos de registros são classificados a partir dos conceitos de estabelecimento, extensão e abreviação, propostos por Lyra, (1988) e Lyra e Rossetti-Ferreira (1995). Tais conceitos - definidos, a seguir, no tópico resultados - descrevem diferentes padrões de organização das trocas comunicativas entre os parceiros, considerando as trocas face-a-face e aquelas mãe-objeto-bebê. Usamos um sistema de classificação que engloba todo o registro. Assim, os momentos impossíveis de classificar são também registrados.

4) Elaboração das histórias

Para cada díade são destacados os grupo de registros, tanto aqueles referentes aos períodos de quase-estabilidade como aqueles de mudança, enfatizando as particularidades com que cada díade transforma e constrói os momentos de quase-estabilidade e instabilidade/mudança dos padrões de organização da comunicação. Em seguida, estes registros são organizados temporalmente, i.e., tendo como foco o tempo do desenvolvimento, procura-se compreender a evolução encontrada a partir das mudanças microanalíticas observadas segundo-a-segundo. As histórias são escritas de maneira que exibam o movimento de filiação temporal das transformações das trocas face-a-face e mãe-objeto-bebê. Deste modo, identificamos a maneira como as novas formas ou padrões de trocas comunicativas carregam a sua história de construção ao longo do tempo.

 

Resultados

Utilizaremos dois tipos de resultados a título de ilustração. Um primeiro diz respeito a identificação dos momentos de quase-estabilidade e instabilidade/mudança do sistema de comunicação mãe-bebê, no tocante às trocas face-a-face e mãe-objeto-bebê, durante os oito primeiros meses de vida do bebê. O segundo ilustra a maneira como as transformações e construções dessas trocas comunicativas carregam a história particular de cada díade ao longo do período investigado.

O Estabelecimento, a Extensão e a Abreviação como Momentos de Quase-Estabilidade do Sistema de Comunicação Estudado

A partir das transcrições integrais das trocas face-a-face e mãe-objeto-bebê durante os primeiros oito meses de vida do bebê (utilizando a escala de tempo segundo-a-segundo - etapa 2 da análise) podemos, através da reanálise constante dessas transcrições, identificar grupos de transcrições que se assemelham no tocante à forma assumida pelas trocas diádicas. Estes grupos de transcrições caracterizam padrões de organização que se sucedem no tempo (etapa 3 da análise). Estes padrões dominam, por um certo tempo, a forma como as trocas diádicas se efetuam e são chamados de momentos de quase-estabilidade do sistema de comunicação. Observamos, também, que a passagem entre diferentes padrões de organização das trocas diádicas se dá através de momentos de maior instabilidade na preferência pelo padrão que, até então, dominava e àquele que começa a emergir. Estes momentos são concebidos como exibindo maior instabilidade do sistema de comunicação e caracterizam a mudança entre os padrões dominantes.

São as seguintes as definições dos padrões de organização das trocas comunicativas face-a-face e mãe-objeto-bebê conceituados como estabelecimento, extensão e abreviação. Eles compreendem momentos de quase-estabilidade do sistema de comunicação, durante os oito primeiros meses de vida do bebê.

Estabelecimento: através de sucessivas ou concomitantes ações dos parceiros, que funcionam como uma dinâmica dialógica de recorte, pelo menos um elemento das trocas diádicas é estabelecido como partilhado pela díade. Por exemplo, o olhar dos parceiros para o objeto.

Extensão: o elemento previamente estabelecido torna-se um fundo em relação ao qual a díade pode negociar, elaborando de modo mais extenso, outros elementos como figuras. Por exemplo, tendo o olhar para o objeto como fundo, os movimentos dos braços/mãos do bebê para o objeto podem ser negociados durante trocas extensas que focalizam este movimento.

Abreviação: trocas de curta duração executadas pela díade através de um ajustamento mútuo rápido e fácil, nas quais os elementos anteriormente trabalhados pela díade de forma mais extensa, aparecem de modo abreviado ou condensado. Por exemplo, tanto a mãe como o bebê, de forma ajustada, rápida e suave, dirigem o olhar para um objeto que é, então, oferecido pela mãe e, imediatamente, segurado pelo bebê.

Os dados analisados têm exibido grande consistência no tocante à seqüência evolutiva dos conceitos de estabelecimento, extensão e abreviação para descrever os padrões de organização das trocas comunicativas face-a-face e mãe-objeto-bebê (Lyra, 1988; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Lyra & Winegar, 1997). Durante os primeiros oito meses de vida do bebê, o desenvolvimento de ambos estes tipos de troca tem exibido momentos sucessivos nos quais a díade manifesta primeiro uma preferência marcante por trocas caracterizadas como estabelecimento, seguidas daquelas descritas como extensão e depois abreviação.

Escolhemos apresentar os dados relativos a duas díades brasileiras cujos registros foram efetuados em laboratório (Figuras 1 e 2)5 . Essas díades foram escolhidas porque apresentavam pelo menos uma característica possível de ser descrita resumidamente na história de construção dos momentos de abreviação (ver análise das Histórias, que se segue). Considerando tanto as trocas face-a-face (Figura 1) como aquelas mãe-objeto-bebê (Figura 2), os dados analisados exibem a percentagem de tempo com que cada díade apresentou, proporcionalmente, momentos de estabelecimento, extensão e abreviação. O período do desenvolvimento aqui representado corresponde ao período da 11ª à 29ª semanas de vida do bebê, na díade 1, e da 8ª à 29ª semanas de vida do bebê, na díade 2.

 

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Figura 1. Percentagem de tempo de ocorrência dos momentos de Estabelecimento, Extensão e Abreviação na comunicação "face-a-face", em função da idade do bebê

 

 

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Figura 2. Percentagem de tempo de ocorrência dos momentos de Estabelecimento, Extensão e Abreviação na comunicação "mãe-objeto-bebê", em função da idade do bebê

 

Tanto para as trocas face-a-face como para aquelas mãe-objeto-bebê, verificamos o predomínio da extensão, precedido pelo estabelecimento (pouco representado nestas díades, provavelmente porque os registros foram iniciados na 11ª semana, na díade 1, e na 8ª semana, na díade 2, de vida do bebê), e seguido do predomínio da abreviação. Assim, ambas as díades apresentam a mesma seqüência evolutiva. Elas diferem, no entanto, em alguns aspectos. Por exemplo, a variação percentual que representa o predomínio da extensão, assim como o aparecimento de abreviações ainda não dominando as trocas diádicas, tanto nas trocas face-a-face como naquelas mãe-objeto-bebê, diferem entre as díades. Um outro aspecto diz respeito a como as duas díades mudam do predomínio da extensão para o predomínio da abreviação, em ambos os tipos de trocas comunicativas investigadas. Na díade 2, a abreviação caracteriza 100% das trocas diádicas e, em seguida, a extensão volta a dominar percentualmente para, finalmente, encontrarmos o predomínio da abreviação (Figuras 1 e 2). Na díade 1, todavia, quando predomina a abreviação esta se mantém sem retorno ao predomínio da extensão.

As Histórias

As histórias de cada díade são escritas a partir da organização evolutiva relativa ao tempo do desenvolvimento. Esta evolução é microanaliticamente investigada a partir das mudanças observadas segundo-a-segundo. Escolhemos para exemplificar as histórias algumas características particulares de cada uma das díades (díade 1 e 2) em relação às trocas mãe-objeto-bebê. Assim, a título de ilustração, serão focalizados dois aspectos presentes nos momentos de abreviação dessas trocas: 1) a maior variabilidade de tipos de abreviação encontrada na díade 1 em comparação com a díade 2; 2) a presença de um tipo de abreviação, apenas na díade 2, no qual o oferecer o objeto pela mãe se faz colocando este objeto ao lado do bebê, não esperando que o bebê o pegue da mão da mãe, como acontece na díade 1. Estes aspectos podem ser traçados ao longo do tempo e servem, aqui, para ilustrar como, apesar de ambas as díades apresentarem a dominância dos momentos de abreviação (Figura 2), as particularidades apresentadas em cada díade sugerem filiações construídas historicamente.

Díade 1 - bebê do sexo masculino - 11ª à 29ª semanas de vida do bebê (Figura 2)6 .

Na díade 1, as trocas abreviadas passam a ocorrer de inúmeras formas, por exemplo, a mãe vocaliza/sorri/faz o objeto apitar/chocalha o objeto/movimenta o objeto e, em seguida, aproxima o objeto do bebê. O bebê direciona o olhar para o objeto/sorri/balança as pernas/dirige os braços na direção do objeto. A mãe, então, aproxima mais o objeto do bebê ou aproxima o bebê do objeto. O bebê pega o objeto da mão da mãe por vezes levando o objeto à boca.

Díade 2 - bebê do sexo masculino - 8ª a 29 ª semanas de vida do bebê (Figura 2)7 .

Na díade 2, as trocas abreviadas se caracterizam pela apresentação do objeto ao bebê pela mãe, que coloca o objeto ao alcance do bebê ou ao lado bebê, fazendo ou não algum som com o objeto. O bebê pega o objeto da mão da mãe ou pega um objeto que estava ao lado do objeto oferecido pela mãe. A mãe fica, então, em silêncio.

O que encontramos na História da Díade 1?

A díade 1: Durante os momentos iniciais de estabelecimento, esta díade parece estar concentrada em captar o olhar do bebê para o objeto. Com tal objetivo, a mãe vocaliza, faz barulho como o objeto e/ou aproxima o objeto lentamente do rosto do bebê. O bebê começa a demorar mais tempo com o olhar voltado para o objeto, o que vem acompanhado por sorrisos e/ou movimento dos braços e/ou pernas. A mãe começa, então, a realizar novas ações, como movimentar e apitar o objeto dentro do campo visual do bebê, enquanto o bebê acompanha estes movimentos com o olhar.

A partir destas conquistas, a mãe e o bebê, durante os momentos de extensão, efetuam trocas que, sucessivamente, procuram coordenar o olhar para o objeto com o toque seguido da preensão do objeto. Nesta direção, variações são introduzidas. Tratam-se de movimentos com o objeto, sons provocados no objeto, vocalizações e sorrisos, da parte da mãe, e, da parte do bebê, uma progressiva "escolha" do objeto que interessa ao bebê. Este último aspecto se caracteriza tanto pela mudança do objeto, feita pela mãe, quando o bebê deixa de prestar atenção nele ou pelo direcionamento do olhar do bebê para um objeto no campo visual do mesmo e a conseqüente utilização deste objeto pela mãe para efetuar as trocas diádicas.

O que encontramos na História da Díade 2?

Durante os momentos iniciais de estabelecimento, a mãe tenta chamar a atenção do bebê para o objeto através de um dos três caminhos: 1) colocar o objeto no campo visual do bebê; 2) fazer barulho com o objeto; ou 3) colocar o objeto na mão do bebê. Gradualmente o olhar do bebê para o objeto se torna mais longo e mais claramente dirigido ao objeto. A mãe fica em silêncio, fazendo barulho com o objeto enquanto o bebê olha para o mesmo. Às vezes, a mãe coloca o objeto na mão do bebê, fazendo barulho com ele, até que o bebê passe de um olhar vago para um olhar mais claro para o objeto em sua mão.

Durante os momentos de extensão, que se sucedem ao estabelecimento do olhar para o objeto, a mãe utiliza, freqüentemente, duas formas diferentes e separadas de oferecer o objeto ao bebê. Em uma delas, a mãe troca constantemente de objeto no campo visual do bebê. Assim, é a troca de objeto que caracteriza estes momentos mais longos de trocas extendidas ou extensão. Na outra forma utilizada, a mãe não procura captar o olhar do bebê para o objeto; em lugar disto, ela toca a mão do bebê com o objeto até que ele segure este objeto. Assim, o olhar dirigido para o objeto é elaborado separadamente do toque e da preensão, embora eles apareçam coordenados nas trocas abreviadas. Por vezes, o bebê apresenta irritação (choramingando) durante os momentos nos quais ocorrem as sucessivas trocas de objeto efetuadas pela mãe.

Retornando aos dois aspectos presentes nos momentos de abreviação acima referidos - (1) a maior variabilidade de tipos de abreviação encontrados na díade 1 em comparação com a díade 2 e (2) a presença de um tipo de abreviação, apenas na díade 2, no qual o oferecer o objeto pela mãe se faz colocando este objeto ao lado do bebê, não esperando que o bebê o pegue da mão da mãe, como acontece na díade 1 - o que poderíamos dizer a partir dos aspectos diferentes encontrados na história das duas díades?

Díade 1

Podemos verificar que, ao longo da sua história, esta díade introduz maior número de elementos - vocalizações, sorrisos tanto da mãe como do bebê e movimentos do objeto, ruídos feitos com o objeto efetuados pela mãe, por exemplo. As abreviações - ou trocas abreviadas - então, se compõem de diferentes elementos ou da combinação destes elementos.

Díade 2

Nesta díade, observamos uma menor variabilidade de elementos incluídos nas trocas abreviadas. Encontramos, todavia, nesta díade um tipo de abreviação, que, se observada separadamente da história desta díade, poderia até ser desconsiderada como "um oferecimento do objeto, pela mãe, e um pegar o objeto, pelo bebê". Este tipo de abreviação, na qual a mãe coloca o objeto ao lado do bebê e o bebê pega um outro objeto próximo àquele oferecido pela mãe, parece remontar a dois aspectos que foram elaborados ao longo da história desta díade. Trata-se: 1) da existência e elaboração de trocas realizadas através do toque e da preensão sem incluir a captação do olhar do bebê para o objeto; e, 2) as sucessivas trocas de objeto que a mãe realiza, enquanto o bebê mantém o olhar voltado para o objeto. Na verdade, estes dois aspectos podem fazer emergir um "significado" abreviado que se constrói a partir de trocas táteis - sem incluir o olhar - assim como podem não requerer o "pegar o mesmo objeto oferecido", e sim "pegar um objeto" ou, dito de outra forma, "um outro objeto próximo".

Uma Palavra sobre a Interpretação

A construção das histórias é, sem dúvida, uma análise de natureza histórico-interpretativa. Esta análise procura discernir possíveis componentes das transformações microanalíticas do sistema de comunicação, progressivamente elaborados pela díade ao longo do tempo. Possibilita, assim, a identificação de uma história única para cada díade e, ao mesmo tempo, uma história compartilhada, enquanto padrões de quase-estabilidade e mudança do sistema de comunicação focalizado.

O papel desempenhado pelas histórias de cada díade torna relevante, também, uma breve reflexão acerca do que seria a objetividade na identificação dos padrões de organização conceituados como estabelecimento, extensão e abreviação. Nesta direção, assumimos que tanto a construção das histórias como toda a nossa análise dos dados inclui um caráter de interpretação inegável. Assumimos que a interpretação existe em qualquer atividade humana, incluindo aquela de pesquisa (ver, por exemplo, Bruner, 1990). No presente caso, as histórias de construção das organizações comunicativas apresentadas pelas díades, ao longo do tempo, claramente interferem na própria identificação/reconhecimento do estabelecimento, extensão e abreviação.

A nossa experiência tem demonstrado que não adianta ir, sucessivamente, ajustando empiricamente a definição desses padrões de organização. Não se trata de um problema empírico. Os padrões de organização das trocas comunicativas que chamamos de estabelecimento, extensão e abreviação são de ordem conceitual e exigem uma filiação à história de desenvolvimento de cada caso individual.

 

Conclusão - Síntese

Neste artigo procuramos mostrar como se faz necessária uma estreita conexão entre a teoria proposta e a metodologia adotada. Abordamos o desenvolvimento da comunicação no início da vida, concebido como um sistema de relações historicamente construído. Através de conceitos advindos da perspectiva dos sistemas dinâmicos e das abordagens sociogenéticas, propomos uma metodologia que, defendendo o estudo longitudinal de múltiplos casos, focaliza o desenvolvimento como processo histórico. Nesta direção, procuramos demonstrar que a identificação de momentos de quase-estabilidade e mudança/instabilidade do sistema de comunicação requer a inserção dos mesmos na história particular construída por cada díade. Esta história particular, por sua vez, acha-se embebida nos limites e possibilidades contidos na história cultural presente em dado espaço e tempo. Propomos que está na investigação dos mecanismos processuais através dos quais os parceiros co-atuam criando suas histórias, desde o início da vida, a possibilidade de discernir as primeiras manifestações comunicativas que integram e recriam a história cultural e a mediação simbólica.

 

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Recebido em 11.12.98
Reformulado em 20.08.99
Aceito em 20.11.99

 

 

Sobre a autora:

Maria C. D. P. Lyra é Professora do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva e Coordenadora do Laboratório de Comunicação e Linguagem na Primeira Infância da Universidade Federal de Pernambuco.

 

 

1 Endereço para correspondência: Laboratório de Comunicação e Linguagem na Primeira Infância
Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva - UFPE. Rua Jacobina, 121, apto. 901, Graças, 52011-180, Recife, PE. Fone: (81) 2718272, 2710599, Fax: (81) 1711843. E-mail: mclyra@ecologica.com.br
2 Agradecimentos: A autora agradece a Andréa P. F. Pantoja e a Micheline Souza Silva pelos excelentes comentários e sugestões.
3 Na linguagem dos sistemas dinâmicos, tal estabilidade refere-se à estabilidade dos atratores (Thelen & Ulrich, 1991).
4 Em colaboração com o Prof. Alan Fogel, Universidade de Utah, Estados Unidos da América.
5 As descontinuidades nas Figuras se devem a semanas nas quais as díades não possuem registro.
6 As histórias, aqui apresentadas, constituem um resumo feito pelo pesquisador. Desta forma, não são transcrições que correspondam, exatamente, a nenhuma idade específica do bebê, embora a predominância (percentual) dos momentos de estabelecimento, extensão e abreviação, em relação às idades de cada bebê, possa ser identificada na Figura 2.
7 Idem ao item anterior.