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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.2 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000200007 

Narrativas, Sistemas Dinâmicos e Vida Emocional

 

Desenvolvimento da vida emocional durante o segundo ano de vida: narrativas e sistemas dinâmicos

Andréa P. F. Pantoja1
California State University – Chico, EUA

G. Christina Nelson-Goens2
University of Utah, EUA

 

 


Resumo
Tradicionalmente, a emoção tem sido concebida como um estado interno e preexistente manifestado na face. Assim, a emoção tem sido analisada através do estudo detalhado da face. O presente trabalho propõe uma perspectiva alternativa, defendendo a utilidade teórica e metodológica dos conceitos de narrativas e sistemas dinâmicos para o estudo da emoção. Partindo desta perspectiva, a emoção é concebida enquanto emergente da interação do indivíduo com seu meio. Em nossas investigações, enfatizamos, simultaneamente, as ações corporais, vocais, e faciais de ambos parceiros bem como os contextos comunicativos construídos durante a interação. Utilizamos o método de análise de narrativas aplicado a dados longitudinais de uma díade mãe-bebê durante o segundo ano de vida. Procuramos ilustrar como o desenvolvimento das emoções emerge das sutis transformações que ocorrem no relacionamento social entre o bebê e sua mãe.
Palavras-chave: Emoção; narrativas; sistemas dinâmicos; emergente.

Development of early emotional life during the second year of life: narratives and dynamic systems

Abstract
Emotions have been investigated traditionally as internal and pre-existing states manifested in the face. This paper proposes an alternative perspective by illustrating the theoretical and methodological utility of the concepts of narratives and dynamic systems to the study of emotions. Emotions are conceived as emerging from the interaction between the individual and the environment. We consider the body, vocal, and facial actions of both partners simultaneously, as well as the communicative contexts created during their interaction. We use the method of narrative analysis to capture the emergent and social nature of emotions in one mother-infant dyad during the second year of life. We aim to elucidate how the development of emotions emerge from the subtle transformations in the daily relationship of the mother-infant dyad.
Keywords: Emotion; narratives; dynamic systems; emergent.


 

 

Nossas investigações do desenvolvimento emocional da díade mãe-bebê durante o segundo ano de vida são guiadas por duas perspectivas teóricas e metodológicas: a teoria narrativista e a teoria dos sistemas dinâmicos. Enfatizamos as abordagens de Sarbin (1989, 1995), Fogel (1993, 1995) e Lyra e colaboradores (Fogel & Lyra, 1998; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Lyra & Winegar, 1997). Os trabalhos destes investigadores têm se apresentado de extrema importância por nos propiciarem concepções inovadoras no estudo das emoções. Temos como um dos objetivos contrapor nossa concepção das emoções àquelas tradicionais nas quais as emoções são concebidas como estados preexistentes e internos do indivíduo (Demos, 1982; Izard, 1997). Procuramos ilustrar, ainda, a relação entre a nossa concepção das emoções e a metodologia de análise por nós utilizada.

Com base nas teorias narrativista e dos sistemas dinâmicos, propomos que as emoções são processos que emergem no contexto das relações do indivíduo com seu meio. Neste sentido, o presente trabalho é um esforço na direção de propiciar uma alternativa teórica e metodológica para o estudo do desenvolvimento das emoções enquanto atividades humanas de caráter emergente e relacional. Os aspectos relacionais das emoções são também discutidos pela teoria funcionalista (p. ex., Barrett, 1993; Campos, 1994; Fridja, 1993). Enfatizamos, no entanto, tanto os componentes relacionais como aqueles emergentes durante a comunicação mãe-bebê. Nos parágrafos que se seguem, apresentamos uma síntese das teorias narrativista e dos sistemas dinâmicos que guiam nossas investigações. Em seguida, discutimos a nossa concepção das emoções, contrapondo-a àquelas concepções tradicionais. Descrevemos, também, a metodologia decorrente de nossa concepção das emoções e alguns resultados de nossas investigações. Analisamos dados longitudinais de uma díade mãe-bebê durante o segundo ano de vida 3 . Finalizamos este trabalho com uma avaliação das possíveis contribuições de nossas investigações.

 

Teoria Narrativista

A teoria narrativista propõe que, ao longo do tempo, o indivíduo constrói narrativas decorrentes da interação com seu meio que constituem a história singular de cada indivíduo. Dada a noção de que narrativas são constituintes cruciais da vida de cada indivíduo, o fenômeno da emoção deve ser investigado enquanto parte destas narrativas. Assim, as emoções não são reduzidas aos movimentos viscerais internos manifestados pela face e parcialmente isolados das vicissitudes do indivíduo em seu meio – tal como proposto pela teoria das emoções discretas predominante neste campo de estudo (Demos, 1982; Izard, 1997). Ao contrário, a partir de uma perspectiva narrativista, as emoções são concebidas como um fenômeno fundamentalmente relacional que deve ser integrado às narrativas que constituem a história evolutiva de cada indivíduo (p. ex., M. Gergen & Gergen, 1995; Sarbin, 1989; 1995).

Uma vez que o termo "emoção" tem carregado a idéia de um estado interno do indivíduo, Sarbin (1995), um dos estudiosos da abordagem narrativista, propõe o termo vida emocional como alternativa e uma tentativa de "direcionar nossa atenção para a totalidade da experiência humana, e não para partes do fenômeno [da emoção]." (p. 214). Sarbin sugere que o estudo das emoções enquanto vida emocional nos permite examinar tal fenômeno em sua completude, isto é, nos permite examinar a emoção como parte integral e inseparável das narrativas que constituem a história idiossincrática de cada ser humano. O termo vida emocional apresenta-se, então, como um instrumento heurístico útil que ajuda a superar o hábito da psicologia de dicotomizar o indivíduo e o relacional, o interno e o externo. A vida emocional do indivíduo torna-se, assim, a unidade de análise básica para os investigadores da emoção. Como resultado, primazia não é dada a componentes discretos da emoção tais como as expressões faciais.

Utilizamos a noção de vida emocional para viabilizar nossas investigações, buscando focalizar a completude da vida do bebê – a qual inclui o bebê como um todo (e não apenas a face) e as narrativas co-construídas com seu meio. Por investigarmos o processo de desenvolvimento emocional durante o segundo ano de vida do bebê, enfatizamos as narrativas primordialmente não-verbais co-construídas pela díade mãe-bebê. Tais narrativas são identificadas pelo surgimento contínuo de padrões interativos desenvolvidos pela díade mãe-bebê ao longo do tempo.

Enquanto psicólogos do desenvolvimento interessados em conceituar emoções como atividades humanas fundamentalmente relacionais e emergentes, também direcionamos nossa atenção às contribuições oferecidas pela teoria dos sistemas dinâmicos. Nos parágrafos seguintes, discutimos as contribuições de tal perspectiva às nossas investigações do desenvolvimento da vida emocional da díade, para então apresentarmos a relação imbricada entre o conceito de vida emocional e o método de análise de narrativas.

 

Teoria dos Sistemas Dinâmicos

Na psicologia, a teoria dos sistemas dinâmicos tem como contribuição básica a idéia de que tanto o indivíduo quanto o meio social são componentes inseparáveis de um sistema e, assim, ambos igualmente influenciam o processo de desenvolvimento. Em outras palavras, nem o indivíduo nem o meio social apresenta maior importância na compreensão e investigação do fenômeno do desenvolvimento. Sugere-se, ainda, que o fenômeno do desenvolvimento constitui-se de um processo complexo no qual os produtos deste processo são determinados através da interação ativa e dinâmica entre estes componentes do sistema (Fogel, 1993; Fogel & Lyra, 1998; Lyra & Winegar, 1997). Desse modo, a noção de emergência, portanto, da não preexistência, apresenta-se como fundamental para a compreensão do fenômeno do desenvolvimento. No contexto especifico de nossas análises, o sistema dinâmico de interesse refere-se à vida emocional da díade enquanto emergente das interações mãe-bebê.

Assumindo esta perspectiva teórica, diversos autores (Fogel, 1993; Lewis, 1995; Lyra & Winegar, 1997; Thelen & Smith, 1994; van Geert, 1994) utilizam o conceito de auto-organização em suas discussões das propriedades que emergem em um dado sistema em desenvolvimento. O conceito de auto-organização carrega a idéia de que padrões que se repetem ao longo do tempo não são concebidos como manifestações de estruturas internas preexistentes. Tais autores argumentam que os seres humanos, enquanto sistemas dinâmicos, apresentam-se em contínuo processo de transformação, possuindo, assim, uma capacidade de auto-organização que se manifesta em diversos padrões de organização das ações ao longo do tempo (ver também Lyra, neste volume). Desse modo, a compreensão da emergência contínua e sistemática de padrões evolutivos se faz através do conceito de auto-organização, ao invés de utilizar considerações inatistas de desenvolvimento nas quais mecanismos maturacionais apresentam-se como conceitos centrais.

Os trabalhos de Fogel (1993, 1995) bem como os de Lyra e colaboradores (Fogel & Lyra, 1998; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Lyra & Winegar, 1997) são particularmente relevantes às nossas investigações por apresentarem discussões sistemáticas da aplicação da teoria dos sistemas dinâmicos ao estudo da emoção e da comunicação mãe-bebê. Fogel, por exemplo, redireciona nossa atenção para a dinâmica de transformação envolvida no fenômeno do desenvolvimento emocional ao focalizar-se nas propriedades da emoção que emergem ao longo do tempo.

Fogel e colaboradores (1997) definem emoções enquanto processos de auto-organização que propiciam significado à vida do indivíduo. Ainda, estes processos desenvolvem-se ao longo do tempo da interação recíproca e contínua dos diferentes componentes do sistema da emoção. No caso do estudo da emoção no contexto das interações mãe-bebê, tais componentes incluem as ações faciais, vocais, e corporais, as atividades do sistema nervoso central, e os processos intra e interpessoais, de ambos os parceiros. Fogel e colaboradores argumentam, assim, que as emoções são processos relacionais de significação que emergem da interação dinâmica entre os diferentes componentes do sistema da emoção. Neste sentido, o desenvolvimento emocional é examinado através da análise detalhada do sistema da emoção, procurando identificar as propriedades emergentes e relacionais deste. O foco encontra-se, então, na dinâmica de transformação da emoção ao longo do tempo – seja sob uma escala temporal de segundo-a-segundo ou uma escala temporal mais ampla, isto é, ao longo dos dias, semanas, meses, e/ou anos.

Além disso, os trabalhos de Lyra e colaboradores (Fogel & Lyra, 1998; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Lyra & Winegar, 1997; Lyra, neste volume) nos propiciam um instrumento heurístico útil para análises microscópicas da vida emocional da díade por considerarmos o estudo da emoção enquanto inseparável do estudo do processo da comunicação. Lyra e colaboradores propõem que o processo de desenvolvimento da comunicação mãe-bebê ocorre continuamente através de momentos de estabelecimento, extensão e abreviação. Tais momentos carregam, simultaneamente, as noções de estabilidade e mudança por não serem apresentados enquanto fases estáticas e independentes do desenvolvimento. A partir destas noções de estabelecimento, extensão e abreviação, o processo de desenvolvimento se desenrola através de uma dinâmica de recorte em que determinados aspectos da comunicação mãe-bebê são destacados, tornando-se figura, enquanto outros são mantidos como fundo. Em outras palavras, enquanto algumas ações estão sendo inicialmente destacadas pela díade mãe-bebê (diz-se estabelecimento), outras previamente destacadas encontram-se sendo trabalhadas e elaboradas (diz-se extensão), e ainda outras encontram-se condensadas e facilmente reconhecidas pela díade (diz-se abreviação). O desenvolvimento da comunicação mãe-bebê é, então, concebido enquanto um processo de transformação o qual emerge da dinâmica entre estabelecimento, extensão e abreviação.

 

Integrando Narrativas e Sistemas Dinâmicos ao Estudo das Emoções

A nosso ver, a teoria narrativista e a teoria dos sistemas dinâmicos sumarizadas acima convergem e dão luz a uma perspectiva teórica e metodológica inovadora e enriquecedora para o estudo do desenvolvimento das emoções. A partir desta perspectiva, concebemos a vida emocional da díade como parte integral da dinâmica de construção das narrativas co-criadas durante a interação mãe-bebê. Investigamos, assim, as mudanças no desenvolvimento da vida emocional da díade enquanto fenômeno que emerge das pequenas transformações que podem ser observadas nas narrativas co-construídas ao longo do tempo.

Desse modo, com o auxílio das teorias narrativista e dos sistemas dinâmicos, não discutimos o fenômeno do desenvolvimento da emoção através do apelo a mecanismos internos maturacionais controlados pelo sistema nervoso central do indivíduo. Ao invés, propomos que o desenvolvimento da vida emocional do indivíduo emerge da dinâmica diária dos seres humanos, os quais, por sua vez, constróem continuamente narrativas verbais e não-verbais na interação com o seu meio.

Tal como mencionado anteriormente, focalizamos nossas investigações do desenvolvimento emocional no segundo ano de vida do bebê. Desta forma, enfatizamos as narrativas primordialmente não-verbais co-construídas pela díade mãe-bebê. Tais narrativas não-verbais são identificadas através da constante emergência de padrões interativos desenvolvidos ao longo do tempo pelos parceiros. Em nossas análises, os padrões interativos são simultaneamente constituídos das ações corporais, vocais, e faciais de ambos os parceiros, bem como dos contextos sociais co-construídos pela díade durante a comunicação. Estes componentes são vistos como imbricados um com outro, constituindo, assim, o fenômeno da emoção como um sistema dinâmico. Emoções são, então, concebidas como padrões interativos que emergem das narrativas co-construídas pela díade mãe-bebê as quais, por sua vez, constituem a história de significados singular da díade.

Neste trabalho, propomos, ainda, que nossa perspetiva narrativista e dinâmica do desenvolvimento nos impõe a utilização de um conjunto de métodos científicos específico e coerente com nossa posição teórica. Desta forma, a escolha do método de análise de narrativas não é feita de forma arbitrária, mas sim teoricamente guiada por nossa abordagem. Mais especificamente, por concebermos a emoção enquanto fenômeno relacional que emerge da interação, o locus de investigação de tal fenômeno torna-se a própria interação do indivíduo com o seu meio, isto é, a vida emocional do indivíduo. Assim, focalizamos nossas análises do desenvolvimento da emoção enquanto fenômeno que emerge da interação mãe-bebê. Descrevemos, em seguida, a nossa aplicação metodológica da abordagem narrativista e dinâmica do desenvolvimento. Apresentamos alguns resultados de nossas investigações a título de ilustração da utilidade teórica e metodológica de nossa abordagem.

 

Aplicação Metodológica da Perspectiva Narrativista e Dinâmica do Desenvolvimento

Utilizamos o método de análise de narrativas (Polkinghorne, 1995) para capturar a natureza narrativista e dinâmica da vida emocional da díade discutidas acima. Este método foi por nós adaptado ao estudo das emoções na comunicação mãe-bebê. Constitui-se de duas etapas básicas: a construção de narrativas seqüenciais, nas quais os comportamentos tanto da mãe quanto do bebê são descritos em grande detalhe e com relação um ao outro; e a construção de narrativas históricas, nas quais as transformações evolutivas na vida emocional da díade e da interação mãe-bebê são enfatizadas e organizadas em uma história característica de cada díade.

A coleta dos dados. A díade mãe-bebê visitou nosso laboratório três vezes por semana durante um período de três meses, assim compondo um total de 36 visitas consecutivas. A primeira visita foi filmada quando o bebê, que chamaremos de Megan, tinha 16 meses e duas semanas de idade e continuou até quando Megan completou 19 meses e duas semanas de idade. As observações das trocas diádicas foram realizadas no contexto em que Megan e sua mãe brincavam livremente ao redor de uma mesa, com formato de banheira, cheia d’água na qual brinquedos d’água apresentavam-se disponíveis. Este contexto interativo foi planejado com a tentativa de facilitar a co-construção de brincadeiras espontâneas entre Megan e sua mãe nas quais diferentes padrões interativos pudessem emergir ao longo do tempo.

A análise dos dados. Uma característica marcante do contexto da mesa d’água observada em nossos dados longitudinais refere-se à possibilidade de que a água pode ser espalhada com o pressionar de uma parte do corpo, ou de um objeto, contra esta. Megan e sua mãe parecem descobrir tal característica ao mesmo tempo em que desenvolvem narrativas primordialmente não-verbais relacionadas à uma brincadeira de espalhar água – a qual nos referimos como espalhar gotas d’água.

O primeiro passo de nossa análise foi o de identificar momentos de espalhar gotas d’água ao longo das 36 visitas. Em seguida, descrevemos, a um nível microscópico 4 , os episódios de espalhar gotas d’água e os diferentes tons emocionais que fizeram parte de tais episódios. Nossa microanálise envolveu descrições detalhadas das pequenas sutilezas que constituem as narrativas não-verbais da díade tais como as mudanças na musculatura da face, na direção do olhar, nas vocalizações, na intonação da voz, nos movimentos do corpo, dentre outros, observadas em ambas Megan e sua mãe no contexto específico das brincadeiras de espalhar gotas d’água.

Em nossas descrições, pode-se observar ainda a utilização de terminologia específica de um sistema de codificação padronizado da musculatura da face denominado FACS (Facial Action Coding System) (Ekman & Friesen, 1978). Quando utilizando o FACS, o observador divide a face do sujeito em três regiões principais: a região da boca e queixo, a região do nariz e bochechas, e a região dos olhos e testa. No caso específico do estudo da emoção positiva, diferentes tipos de sorriso foram identificados tanto em adultos quanto em bebês (Ekman & Friesen, 1978). Cada um destes tipos de sorriso é constituído de ações da musculatura da face específicas tais como o levantar das laterais dos lábios, a contração das bochechas e a abertura da boca. É sugerido na literatura que diferentes tipos de sorrisos parecem estar associados com diferentes tons emocionais tanto em adultos como em bebês (p. ex., Ekman, Davidson, & Friesen, 1990; Fox & Davidson, 1988).

Muito embora a literatura tenha enriquecido nosso conhecimento acerca dos diferentes tipos de configurações faciais, nossas análises buscam investigar a vida emocional da díade, concebendo-a como fenômeno relacional que excede a face dos parceiros interativos. Desta forma, incluímos em nossas descrições não apenas a face da mãe e do bebê, mas também o corpo, as vocalizações, o olhar, e os contextos comunicativos co-criados durante a interação. Assim, as categorias microscópicas do FACS fazem-se presentes em nossas análises por serem consideradas tão importantes quanto as outras atividades que constituem o fenômeno da emoção.

Desse modo, o objetivo de nossa análise microscópica e longitudinal é o de ilustrar como as mudanças evolutivas da vida emocional da díade emergiram das sutis transformações que ocorreram no relacionamento de Megan e sua mãe. Neste sentido, procuramos elucidar as contribuições teóricas e metodológicas dos conceitos de narrativas e sistemas dinâmicos para o estudo das emoções enquanto processos relacionais que emergem da interação social.

 

Resultados e Discussão: As Narrativas da Vida Emocional da Díade

Das 36 visitas totais, focalizamos nossas análises ilustrativas nas primeiras quatro visitas. Durante tal período, observamos um padrão evolutivo curioso sob o ponto de vista da investigação das emoções como processos relacionais e emergentes. No decorrer dessas primeiras visitas, Megan e sua mãe constróem uma história singular constituída de narrativas não-verbais co-criadas ao longo do tempo em relação aos episódios de espalhar gotas d’água. Especificamente, nove episódios de espalhar gotas d’água emergiram durante estas primeiras visitas. Ao longo desses episódios, mudanças tanto na configuração da brincadeira de espalhar gotas d’água bem como no tom emocional desenvolvido durante tal brincadeira foram observadas. Destacamos a seguir alguns segmentos dos episódios acima mencionados a título de ilustração. Tais exemplos ilustrativos são descritos em itálico para facilitar a separação, por parte do leitor, das partes mais descritivas (em itálico) das mais interpretativas.

Durante a primeira visita de Megan e sua mãe ao nosso laboratório, a brincadeira de espalhar gotas d’água parece apresentar-se ainda exploratória: o episódio é relativamente curto, há pouco envolvimento entre Megan e sua mãe na direção de ampliar as ações uma da outra em relação às atividades de espalhar gotas d’água, as trocas de olhares entre Megan e sua mãe parecem apreensivas, o sorriso de Megan é relativamente pequeno (constituído apenas do levantar das laterais de seus lábios), e as tentativas da mãe são na direção de modificar o foco de atenção das duas para outros aspectos da água. A emergência gradual dos constituintes da brincadeira de espalhar gotas d’água, tais como o olhar, o sorriso e a própria atividade de espalhar gotas d’água, pode ser ilustrada no decorrer do seguinte episódio.

Episódio 1, Visita 1: Megan está segurando um passarinho de plástico com ambas as mãos, olhando para sua mãe. A mãe está olhando para Megan com seu nariz franzido. A mãe balança sua cabeça e diz: "Nada de água!". Megan olha para a água ao mesmo tempo em que solta o passarinho de plástico. Logo em seguida, Megan começa a usar sua mão para bater na água, espalhando gotas d’água, enquanto sua mãe a observa. Megan vira-se na direção de sua mãe, olhando para ela, pára temporariamente de espalhar gotas d’água, e levanta as laterais de seus lábios, formando um pequeno sorriso. A mãe direciona seu olhar para a mão de Megan ao mesmo tempo em que começa a mover seus dedos na água na direção de Megan. Enquanto a mãe move seus dedos na água, Megan muda a direção de seu olhar para a mão de sua mãe e começa a mover sua mão esquerda para dentro e para fora da água espalhando novamente pequenas gotas d’água. Assim que a mão da mãe chega perto de Megan, a mãe a remove da água. As laterais dos lábios de Megan continuam levantadas enquanto Megan vira seu corpo na direção de sua mãe, olhando para a água com sua mão esquerda ainda dentro desta. A mãe continua olhando para a mão de Megan. Megan direciona seu olhar para o chão e as laterais de seus lábios abaixam-se, formando assim uma face neutra. A mãe também muda a direção de seu olhar para o chão.

Desse modo, Megan e sua mãe parecem começar a construir uma narrativa primordialmente não-verbal cujo tom emocional é constituído de uma combinação entre apreensão e prazer. Por exemplo, quando Megan olha para sua mãe, Megan pára de espalhar gotas d’água e produz um pequeno sorriso constituído apenas do levantar das laterais de seus lábios. Logo em seguida, a mãe tenta redirecionar a atenção das duas para uma brincadeirinha de pega-pega, movendo seus dedos dentro d’água na direção de Megan. Assim, tanto a brincadeira de espalhar gotas d’água como o tom emocional desta parecem apresentar-se novos e exploratórios na vida desta díade.

Outros episódios de espalhar gotas d’água foram observados durante esta primeira visita de Megan e sua mãe ao nosso laboratório. No episódio 2 (não descrito neste artigo), a brincadeira de espalhar gotas d’água não parece se manter por muito tempo enquanto uma brincadeira cujo foco é a atividade de espalhar gotas d’água. Novamente, tal brincadeira parece ainda estar em fase de construção inicial não se constituindo, assim, enquanto uma brincadeira estável e marcante no repertório da díade. Não foi observada nenhuma troca de olhar ou sorriso, e a própria ação de espalhar gotas d’água recebe pouco atenção por parte da díade.

Minutos depois, um terceiro episódio é observado. Ao contrário dos episódios 1 e 2, este episódio 3 parece descrever uma brincadeira de espalhar gotas d’água um pouco mais estável e mutuamente amplificada por Megan e sua mãe. As atividades de espalhar gotas d’água ocorrem várias vezes. O episódio é mais longo em duração. Tanto Megan como sua mãe recortam verbalmente as atividades de espalhar gotas d’água, dizendo a palavra "bolhas" repetidamente. Inclusive, quando Megan pára temporariamente de espalhar gotas d’água, sua mãe questiona sobre o desaparecimento das bolhas que Megan fazia na água, mais uma vez recortando o tema principal desta nova brincadeira que está sendo co-construída pela díade. Além disso, os sorrisos de Megan e sua mãe apresentam-se mais complexos, constituídos de diferentes componentes da face – não apenas das laterais dos lábios. Deve ser salientado que estes sorrisos são acompanhados de outras ações tais como os pulinhos de Megan para cima e para baixo, gritinhos, e trocas de olhares, enriquecendo ainda mais tais sorrisos. É como se a brincadeira de espalhar gotas d’água estivesse emergindo enquanto atividade emocionalmente positiva na história desta díade. Partes de tal episódio são descritas abaixo.

Episódio 3, Visita 1: Megan está segurando um patinho de plástico grande em uma mão e um patinho de plástico pequeno em sua outra mão, e olhando para ambos. A mãe observa Megan brincar com os patinhos. Megan começa a mover os patinhos de maneira circular dentro da água, produz um gritinho alto, e diz: "Bolhas!". A mãe de Megan repete: "Bolhas!" e continua olhando Megan brincar com a água e os patinhos. Megan começa a intensificar seus movimentos, colocando e retirando os patinhos dentro d’água, espalhando gotas d’água, gritando e dizendo: "Bolhas!". A mãe de Megan repete: "Bolhas!". Megan continua espalhando gotas d’água com os patinhos, dizendo: "Bolhas!" repetidamente, enquanto sua mãe olha com a face neutra para Megan brincando. [...] Megan produz um som "ack" com intonação de voz alta, move-se na direção de sua mãe, e levanta as laterais de seus lábios, formando assim um pequeno sorriso. A mãe também levanta as laterais de seus lábios e abre sua boca, movendo seus lábios para frente. Megan e sua mãe continuam se olhando. Em seguida, a mãe de Megan adiciona mais um elemento em seu sorriso com o levantar de suas bochecas. O sorriso da mãe de Megan agora parece maior – com quase todos os músculos inferiores de sua face contraídos. [...] Quando Megan começa a pular para cima e para baixo, sorrindo, sua mãe olha para ela, sutilmente levantando as laterais de seus lábios. Megan pára de pular e vira-se na direção da água, fechando sua boca e descontraindo suas bochechas. A mãe olha para a face de Megan e, com o desaparecer dos intensos movimentos na face de Megan, a sutil levantada das laterais dos lábios da mãe também desaparecem. Megan move sua cabeça sutilmente, olhando para a água mais diretamente. No momento em que Megan move sua cabeça, as laterais de seus lábios abaixam-se, formando uma face neutra. A mãe continua olhando para Megan. Megan olha na direção da porta da sala e diz algo que o observador não compreende. Ao mesmo tempo, sua mãe olha para a cesta de brinquedos. Megan segue o olhar de sua mãe, direcionando seu olhar para a cesta de brinquedos.

As partes do episódio 3 descritas acima ilustram como as ações de Megan e sua mãe gradualmente emergem em relação uma à outra. Por exemplo, no final do episódio, até o dissipar da brincadeira é continuamente negociado: "A mãe olha para a face de Megan e, com o desaparecer dos intensos movimentos na face de Megan, a sutil levantada das laterais dos lábios da mãe também desaparecem". A emoção positiva não parece, assim, emergir de maneira instantânea no episódio como se manifestando processos preexistentes e internos.

Um quarto episódio (não descrito neste artigo) é observado ainda durante esta primeira visita. Em tal episódio, a brincadeira de espalhar gotas d’água bem como o tom emocional emergente durante o episódio 3, descrito acima, são observados. Desse modo, ao longo desta primeira visita, os momentos de espalhar gotas d’água foram gradualmente transformados por Megan e sua mãe em uma brincadeira mais estável e mutuamente estimulante com a água. Os detalhes que constituem tais episódios (tais como a musculatura da face de Megan e de sua mãe, as verbalizações relacionadas às atividades de espalhar gotas d’água, os movimentos dos braços, as posições posturais de Megan e de sua mãe, dentre outros) gradualmente emergem conjuntamente, formando, assim, paulatinamente um padrão interativo coerente, estável, mutuamente positivo, desse modo, transformando a vida emocional da díade.

A esta altura, passamos a argumentar que nossas descrições detalhadas do desenrolar da vida emocional da díade no contexto específico de espalhar gotas d’água enriquecem a nossa compreensão presente do processo de desenvolvimento do fenômeno da emoção. Tais descrições não apenas demonstram que as emoções são associadas a diferentes tipos de comunicação, tal como sugerido por outros autores (Weinberg & Tronick, 1994), mas ilustram também a dinâmica de transformação através da qual diferentes tons emocionais da vida do bebê emergem durante as interações deste com seu meio. Em outras palavras, as descrições dos detalhes envolvidos no desenrolar das narrativas co-construídas pela díade mãe-bebê fornecem esclarecimentos acerca do processo através do qual a vida emocional da díade emerge e se transforma ao longo do tempo.

Durante a segunda visita de Megan e sua mãe ao nosso laboratório, nenhum episódio de espalhar gotas d’água foi observado. Na terceira visita, no entanto, Megan e sua mãe voltaram a desenvolver sua brincadeira de espalhar gotas d’água e mais um episódio (episódio 5 – não descrito aqui) foi observado. Tal episódio apresentou-se curto em duração, similar aos episódios 1 e 2.

Na quarta visita de Megan e sua mãe ao nosso laboratório, Megan havia completado 16 meses e 3 semanas de idade. Durante tal visita, quatro episódios de espalhar gotas d’água (episódios 6, 7, 8, e 9) foram observados. No episódio 6, Megan e sua mãe encontram-se ambas direcionadas para a atividade de espalhar gotas d’água, desse modo, mutuamente estabelecendo e mantendo tal brincadeira. Novamente, verbalizações referentes às atividades de espalhar gotas d’água foram utilizadas. Megan e sua mãe parecem reconhecer a história por elas desenvolvida através da atualização de padrões interativos semelhantes aos anteriores: tanto Megan como sua mãe sorriem, principalmente quando seus olhares se encontram, e espalham gotas d’água com suas próprias mãos.

Pela primeira vez, no entanto, Megan pára de sorrir, mantendo sua face neutra, enquanto gotas d’água ainda estão sendo espalhadas pela sua mãe. Assim, uma pequena modificação no tom emocional da brincadeira de espalhar gotas d’água parece emergir neste episódio 6. Em seguida, Megan e sua mãe gradualmente transformam a brincadeira de espalhar gotas d’água em uma outra brincadeira cujo tema principal é o de pegar os dedos uma da outra dentro d’água. Ao mesmo tempo em que esta nova brincadeira emerge, o tom emocional das trocas interativas entre Megan e sua mãe é modificado. Este parece ser agora composto primordialmente de vocalizações, músculos da face em posição neutra, e alguns sorrisos, até o ponto em que a díade redireciona seu interesse completamente para a cesta de brinquedos no chão. Serão descritas a seguir partes do primeiro episódio observado nesta visita (episódio 6).

Episódio 6, Visita 4: A mãe está sentada perto de Megan com seu braço direito descansando sobre a mesa d’água, olhando o que Megan está fazendo. Megan está em frente a mesa d’água e assim que começa a espalhar água, as suas sobrancelhas levantam-se. Enquanto isso, sua mãe continua observando-a. Megan começa a mover sua cabeça na direção de sua mãe, levantando as laterais de seus lábios sutilmente, formando assim um pequeno sorriso, e mantendo suas sobrancelhas levantadas. Quando o olhar de Megan encontra o olhar de sua mãe, a mãe levanta as laterais de seus lábios sutilmente, formando um pequeno sorriso, e diz: "Espalhando?". Enquanto a mãe termina de dizer "espalhando?", as laterais de seus lábios se levantam mais intensamente, formando um sorriso mais intenso. [...] A mãe começa a jogar gotas d’água em Megan usando as pontas de seus dedos direitos. Nesse mesmo instante, Megan direciona seu olhar para a água e começa a mover suas mãos delicadamente dentro da água. Megan e sua mãe continuam com as laterais de seus lábios levantadas, sorrindo. As mãos de Megan e de sua mãe movem-se dentro d’água na direção uma da outra enquanto a mãe espalha gotas d’água nas mãos de Megan. A mãe diz: "Espalhando água em Meggie?". As laterais dos lábios de Megan abaixam-se para posição neutra, enquanto Megan olha na direção de suas mãos. Simultaneamente, as laterais dos lábios da mãe de Megan se tornam mais sutis enquanto a mãe olha para a água. [...] A mãe pergunta à Megan: "Pegar seu dedo!", segurando o dedo de Megan com seu próprio dedo. Megan continua olhando para a água com a face neutra, afastando suas mãos das mãos de sua mãe. A mãe de Megan então diz: "Aqui vai mamãe... Pegar seus dedos!". Enquanto a mãe fala com Megan, ela estende seu braço esquerdo para pegar os dedos esquerdos de Megan e as laterais de seus lábios e suas bochechas se contraem, formando assim um grande sorriso. Megan continua olhando para a água, afastando-se um pouquinho de sua mãe e lavantando as laterais de seus lábios bem como contraindo suas bochechas, também formando um grande sorriso na sua face. A mãe continua olhando para Megan e Megan continua olhando para a água, enquanto as duas simultaneamente retiram seus braços de dentro d’água, afastando suas mãos umas das outras, sorrindo. Megan então vira-se para sua direita na direção da cesta de brinquedos que se encontra no chão. A mãe segue Megan com seu olhar. A atenção das duas volta-se completamente para a cesta de brinquedos no chão.

Minutos depois, ocorre o sétimo episódio de espalhar gotas d’água. A descrição de tal episódio não é apresentada neste artigo. Podemos destacar, no entanto, que tal episódio apresentou-se de curta duração. Megan inicia o espalhar das gotas d’água sutilmente, utilizando seu dedo esquerdo. Gradualmente, Megan aumenta a intensidade do espalhar das gotas d’água, utilizando o Mickey Mouse que se encontra em sua mão direita. Enquanto isso, a mãe não parece se engajar nas atividades relacionadas ao espalhar das gotas d’água. Não observamos sorrisos, nem verbalizações referentes à atividade de espalhar gotas d’água, nem risadas, e, assim, as trocas de olhar entre Megan e sua mãe não são permeadas por sorrisos. Inclusive, assim que Megan começa a espalhar gotas d’água com mais vigor, ela levanta suas sobrancelhas, olhando para sua mãe.

Em seguida, um oitavo episódio é observado nesta quarta visita. Este episódio (episódio 8) constitui-se de um dos episódios de espalhar gotas d’água mais longos até o momento. Pode-se observar que Megan e sua mãe parecem estar extremamente engajadas na brincadeira de espalhar gotas d’água. Cada detalhe de seus movimentos parece indicar que ambas encontram-se mutuamente estimuladas e fascinadas com tal brincadeira. Desse modo, devido em parte a sua duração, o próximo episódio apresenta-se extremamente rico sob a perspectiva de ilustrar as características emergentes e fundamentalmente relacionais das emoções.

Episódio 8, Visita 4: A mãe ainda encontra-se sentada na frente da mesa d’água perto de Megan com seu braço direito descansando na mesa, olhando para Megan com uma face neutra. Megan está se abaixando na direção da cesta de brinquedo, pegando um bastão de plástico. A mãe continua olhando para Megan, segurando o "Mickey Mouse" e "Sebastian" em sua mão direita e pergunta: "O que é isso?". Megan olha para a água e move-se na direção da mesa d’água. A mãe continua olhando para Megan com uma face neutra. [...] Megan começa a mover o bastão para dentro e para fora da água, espalhando grandes gotas d’água. A mãe fecha seus olhos e franze sua face enquanto as gotas d’água se espalham. Megan olha para a face de sua mãe, pára temporariamente de espalhar gotas d’água, olha para a cesta de brinquedos, e em seguida de volta para a face de sua mãe enquanto sua mãe diz: "Você vai molhar a mamãe?". Megan dá um gritinho, e sua mãe levanta as laterais de seus lábios e contrai as suas bochechas, formando assim um grande sorriso. Quase que ao mesmo tempo, Megan levanta as laterais de seus lábios, contrai suas bochechas e abre sua boca, formando um grande sorriso aberto. A mãe dá uma risada, e Megan direciona seu olhar para o bastão que ela segura, os músculos de sua face voltam para posição neutra. Desse modo, o grande sorriso aberto de Megan desaparece. A mãe diz com a intonação de voz alta: "Você acha que é engraçado?", mantendo seu sorriso. [...] Megan temporariamente pára de espalhar gotas d’água, olha para sua mãe, levanta as laterais de seus lábios, contrai as suas bochechas e abre sua boca, formando novamente um grande sorriso aberto. Logo em seguida, Megan olha para o chão e seu sorriso desaparece. A mãe diz: "Ei!" com suas mãos agora abaixadas sem cobrir sua face, sorrindo levemente, e Megan olha de volta para sua mãe, começando a espalhar gotas d’água novamente com o bastão. [...] Megan espalha mais gotas d’água com o bastão, dando uma risada. A mãe move seu corpo para trás com sua mão esquerda ainda estendida, protegendo sua face, enquanto Megan continua espalhando gotas d’água com o bastão. A mãe então diz: "Ah! Mamãe tá molhada! Naaaaão!", balançando sua cabeça. Megan dá mais uma risada e começa a espalhar gotas d’água novamente com o bastão, fechando sua boca parcialmente. A mãe abaixa sua mão esquerda e diz: "Não! Olha pra isso. Meus óculos estão molhados!". Megan olha para a água, abaixando as laterais de seus lábios e suas bochechas para posição neutra, fechando sua boca, e franzindo suas sobrancelhas enquanto ela continua a espalhar água com o bastão. [...] A mãe abaixa as laterais de seus lábios e a suas bochechas para posicão neutra. Megan olha para a água e espalha mais gotas d’água com o bastão repetidamente. A mãe continua olhando para Megan com sua face neutra. Megan olha para sua mãe. Neste instante, a mãe abre sua boca e seus olhos bem abertos, formando assim uma expressão facial de surpresa. Megan levanta as laterais de seus lábios, contrai suas bochechas e abre sua boca, dando risadas. A mãe levanta as laterais de seus lábios e contrai suas bochechas, fechando sua boca. [...] Quando Megan acidentalmente bate na mão de sua mãe com o bastão, ela pressiona seus lábios um contra o outro. A mãe diz: "Peguei!", e Megan dá uma risada, espalhando gotas d’água com o bastão. [...] A mãe dá uma risada e Megan levanta as laterais de seus lábios e contrai suas bochechas. Quando Megan começa a abrir sua boca ainda mais, ela espicha sua língua para fora e muda seu olhar para a direção da água. Ao mesmo tempo, a mãe continua olhando para Megan com o pequeno sorriso em seu rosto e sua mão direita estendida na direção do bastão. Megan fecha sua boca, abaixando em seguida as laterais de seus lábios e suas bochechas para posição neutra e remove o bastão da água. A mãe estende sua mão na direção do bastão.

Apesar de condensado, pode-se notar que variações tanto na brincadeira de espalhar gotas d’água como no tom emocional desta são construídas por Megan e sua mãe. Durante a maior parte do tempo, Megan usa o bastão para espalhar gotas d’água enquanto sua mãe conversa com Megan sobre as atividades relacionadas à água, dando um grande sorriso, e muitas vezes, protegendo seu rosto com sua mão.

Inicialmente, tanto Megan como sua mãe participam de maneira estimulante e cheia de vigor da brincadeira de espalhar gotas d’água: sorrindo, vocalizando, dando risadas, trocando olhares permeados com grandes sorrisos, e espalhando gotas d’água. Gradualmente, a brincadeira de espalhar gotas d’água torna-se mais e mais intensa: as gotas d’água ficam maiores, a mãe joga água em Megan, Megan espalha gotas d’água com mais vigor; enfim, Megan e sua mãe produzem mais e mais ações indicativas de prazer e entusiasmo mútuo durante a brincadeira de espalhar gotas d’água. Esta mútua ampliação da brincadeira e do tom emocional que a acompanha atinge um ponto em que, aproximadamente no meio do episódio, um padrão de co-ação entre as atividades de espalhar gotas d’água e de dar risadas emerge. Uma vez que a díade parece atingir o pico de entusiasmo, vigor, e prazer, a mãe de Megan passa a tentar frear a excitação de Megan: a mãe começa a dizer frases do tipo "Nada de molhadeira!", "Ah! Mamãe tá molhada! Naaaaão!", "Não! Olha pra isso. Meus óculos estão molhados!", gradualmente ficando mais séria tanto com sua face quanto com seu corpo e sua voz, até ao ponto de segurar o bastão que Megan usa para espalhar gotas d’água. Através da descrição acima, podemos sugerir, mais uma vez, que Megan e sua mãe transformam as narrativas que envolvem a brincadeira de espalhar gotas d’água bem como as emoções nela emergentes, construindo e reconstruindo a vida emocional da díade de maneira dinâmica e contínua.

Além disto, neste momento da história da díade, Megan e sua mãe parecem estar mais familiarizadas com as narrativas por elas construídas ao longo do tempo acerca da brincadeira de espalhar gotas d’água. Por exemplo, no início do episódio 9 (não descrito aqui), muito antes de Megan começar a espalhar gotas d’água com o bastão, ela começa a sorrir com sua boca bem aberta, suas bochechas contraídas, dando risadas e gritinhos de entusiasmo. Sua mãe, por sua vez, parece antecipar a vinda da brincadeira de espalhar gotas d’água, dizendo: "Nada de espalhar água". E ainda, os padrões de co-ação que emergiram durante o pico do episódio anterior (episódio 8), caracterizado pelas atividades conjuntas de gargalhar e espalhar gotas d’água, emergem novamente logo no início do episódio 9. É como se, ao longo desses nove episódios, a brincadeira de espalhar gotas d’água tenha se tornado um contexto interativo específico para Megan e sua mãe partilharem uma com a outra seu entusiasmo e prazer.

Durante tais episódios, também observamos momentos em que pelo menos um dos parceiros diádicos (na maior parte das vezes, a mãe) não parece apreciar a brincadeira de espalhar gotas d’água, não engajando-se, assim, na brincadeira com tanto entusiasmo e vigor. Exemplos desses momentos podem ser observados quando Megan pára de sorrir, mantendo sua face neutra, enquanto sua mãe continua espalhando gotas d’água e pergunta "Espalhando água em Meggie?" (ver episódio 6); ou quando a mãe diz "Não! Olha pra isso. Meus óculos estão molhados!", gradualmente ficando mais séria tanto com sua face como com seu corpo e sua voz (ver episódio 8).

Muito embora em alguns momentos Megan e sua mãe não ampliem as ações uma da outra durante a brincadeira de espalhar gotas d’água, esta brincadeira ainda apresenta-se primordialmente permeada por prazer, entusiasmo, e vigor mútuo durante o episódio 9. Megan e sua mãe vocalizam uma para outra com excitação, dando risadas, produzindo diferentes tipos de sorrisos, e trocando olhares permeados com sorrisos. Às vezes, mesmo quando a mãe solicita verbalmente a Megan para interromper a brincadeira, a intonação da voz da mãe apresenta-se melódica e acompanhada de sorrisos.

Assim, sugerimos que as narrativas diádicas que emergem nos momentos de espalhar gotas d’água tornam-se ainda mais complexas durante a quarta visita de Megan e sua mãe ao nosso laboratório. Uma variedade de tons emocionais emergem durante os últimos quatro episódios (episódios 6, 7, 8, e 9): desde extremo entusiasmo e vigor mútuo a indícios de apreensão, principalmente por parte da mãe. Assim, na medida em que a díade gradualmente adiciona nuanças na brincadeira de espalhar gotas d’água, esta também transforma a vida emocional da díade, integrando as novidades ao que já foi previamente co-construído pela díade. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que Megan e sua mãe constróem e reconstróem as narrativas relacionadas à brincadeira de espalhar gotas d’água, diferentes tons emocionais emergem e passam a fazer parte do repertório emocional presente desta díade.

Em suma, através da descrição detalhada de alguns episódios de espalhar gotas d’água observados durante as primeiras quatro visitas, buscamos ilustrar como as pequenas modificações que emergem durante a comunicação entre Megan e sua mãe transformam, ao longo do tempo, a vida emocional da díade. Procuramos destacar em nossa microanálise parte da dinâmica de transformação envolvida no processo de desenvolvimento emocional da díade, concebido enquanto fenômeno que emerge da interação social. A nosso ver, o segredo para a compreensão dos processos de desenvolvimento encontra-se na observação cuidadosa das pequenas sutilezas da vida cotidiana do indivíduo em seu meio social. Por esta razão, discutimos e descrevemos quase que exaustivamente os pequenos detalhes das interações de Megan com sua mãe no contexto específico da brincadeira de espalhar gotas d’água.

Deve ser salientado, ainda, o desenrolar dos processos de estabelecimento, extensão e abreviação proposto por Lyra e colaboradores (Fogel & Lyra, 1998; Lyra & Rossetti-Ferreira, 1995; Lyra & Winegar, 1997). Especificamente, ao mesmo tempo que o tom emocional apreensivo encontrava-se em processo de estabelecimento na vida de Megan (ver, principalmente, episódio 9), o tom emocional mais positivo, tal como indicado pelo vigor e entusiasmo mútuos, apresentava-se em processo de abreviação. E ainda, na medida que o entusiasmo mútuo estava sendo abreviado enquanto parte da brincadeira de espalhar gotas d’água, este tom emocional passou gradualmente a fazer parte de uma nova brincadeira que emergia no meio da brincadeira de espalhar gotas d’água. Isto é, ao mesmo tempo que a emoção positiva estava sendo abreviada no contexto de espalhar gotas d’água, tal emoção encontrava-se em processo de extensão e, desse modo, transformação, em um outro contexto interativo co-construído por Megan e sua mãe.

Finalmente, sob uma perspectiva narrativista e dinâmica do desenvolvimento, acreditamos que o método de análise de narrativas apresentou-se não apenas útil e eficaz mas também imprescindível para nossa compreensão do fenômeno da vida emocional da díade tal como definido no presente trabalho. Tal método nos propiciou oportunidades de examinar, em grande detalhe, tanto a relação entre os diferentes tons emocionais e as diversas formas da brincadeira de espalhar gotas d’água quanto a dinâmica através da qual esta relação entre tom emocional e tipos de brincadeira emerge ao longo do tempo. Sugerimos, assim, a necessidade de ampliar as possibilidades metodológicas dentro da psicologia do desenvolvimento com o intuito de facilitar maior integração entre a proposta teórica do investigador e a metodologia por este adotada.

Desse modo, com os episódios de espalhar gotas d’água, o presente trabalho buscou ilustrar: 1) uma perspectiva alternativa à investigação da emoção na qual a emoção é concebida enquanto processo relacional dinâmico que emerge da interação mãe-bebê; 2) os detalhes da dinâmica de transformação da vida emocional da díade; 3) a utilidade do método de análise de narrativas para a compreensão do processo de desenvolvimento da emoção ao longo do tempo; e, 4) a importância da manutenção de uma coerente ligação entre teoria e método, especificamente, entre nossa perspectiva narrativista e dinâmica do desenvolvimento e o método de análise de narrativas.

 

Conclusão

O presente trabalho teve como base as teorias narrativistas e dos sistemas dinâmicos, especialmente os trabalhos de Sarbin, Fogel e Lyra. Buscamos apresentar, assim, uma alternativa teórica e metodológica ao estudo do desenvolvimento das emoções no contexto específico da comunicação mãe-bebê.

Emoções foram aqui definidas e examinadas enquanto padrões interativos emergentes a partir da vida social do indivíduo os quais, por sua vez, constituem as narrativas que compõem a história única de cada indivíduo. A partir desta abordagem narrativista e dinâmica do desenvolvimento, é através deste processo contínuo de transformação e integração do novo às narrativas que emergem ao longo do tempo (neste caso, acerca das atividades de Megan e sua mãe de espalhar gotas d’água) que a vida emocional dos indivíduos se desenvolve. Desse modo, evitamos explicitamente o uso de explicações maturacionais, internas ao indivíduo e relativamente isoladas das vicissitudes deste em nossa discussão do processo de desenvolvimento da vida emocional da díade.

Procuramos ressaltar neste trabalho a importância de nos focalizarmos no estudo cuidadoso da dinâmica de transformação e emergência do processo de desenvolvimento da emoção. A nosso ver, o método de análise de narrativas apresentou-se extremamente imbricado com nossa perspectiva teórica do desenvolvimento. Acreditamos que tentar estabelecer uma separação entre o método de análise de narrativas e a perspectiva teórica aqui discutida feriria a coerência de nossas investigações. Sugerimos, assim, uma ampliação teórica e metodológica no campo da psicologia do desenvolvimento para incluir análises focalizadas no processo, não apenas no produto do desenvolvimento tal como enfatizado por abordagens mais tradicionais. No entanto, tal mudança de foco para o processo de transformação também requer um questionamento das metodologias atualmente abordadas, buscando uma reflexão acerca da conexão entre a proposta teórica do investigador e os métodos por ele utilizados.

 

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Recebido em 08.12.98
Revisado em 20.08.99
Aceito em 20.11.99

 

 

Sobre as autoras

Andrea P. F. Pantoja é Doutora em Psicologia do Desenvolvimento pela University of Utah, Coordenadora do Laboratório da Comunicação Mãe-Bebê e Professora do Curso de Psicologia da California State University – Chico, EUA.

G. Christina Nelson-Goens é Mestre em Desenvolvimento Humano e Estudos da Família pela Colorado State University, EUA

 

 

1 Endereço para correspondência: California State University-Chico, Department of Psychology, Chico, CA, 95929-0234, U.S.A.. Fone: (001-530) 8984650. Fax: 002115308984740. E-mail: apantoja@csuchico.edu.
2 Os autores agradecem a Maria C. D. P. Lyra e Micheline de Souza e Silva pelo grande apoio durante a realização deste projeto de pesquisa, ao CNPq pelo auxílio financeiro, à díade mãe-bebê pelas visitas longitudinais ao nosso laboratório, e aos três revisores anônimos cujos comentários facilitaram o aprimoramento deste manuscrito.
3 Tais dados fazem parte da tese de doutorado da segunda autora, sob a orientação do Prof. Alan Fogel.
4 Tais descrições microscópicas foram originalmente efetuadas em inglês pela segunda autora e então traduzidas para o português pela primeira autora com o auxílio da assistente de pesquisa Cynthia Galvão.