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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.2 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000200010 

Contexto Sociocultural e Histórico e Desenvolvimento

Comentário

 

O contexto sociocultural e histórico dos estudos do desenvolvimento

Alan Fogel1 
University of Utah, EUA

 

 


Resumo
Este é um comentário baseado nos artigos deste Número Especial. Uma leitura desses artigos sugere que eles se unem em torno dos seguintes temas gerais: orientação relacional (em oposição a foco em indivíduos, corporificação sensual do self (em contraste com concepção mentalista de self), visão de desenvolvimento como co-construção histórica que é culturalmente mediada, concepção de relações como auto-organizadas e emergentes (mais do que soma de inputs), e foco em pesquisa de processo (em vez de produtos). A psicologia do desenvolvimento brasileira está situada dentro do contexto da história cultural local e mundial de estudos evolutivos.
Palavras-chave: Contexto sociocultural; contexto histórico; estudos de desenvolvimento.

The sociocultural and historical context of developmental studies

Abstract
This is a commentary based on the articles in this special issue. A reading of these articles suggests that they are united by the following general themes: a relational orientation (as opposed to a focus on individuals), the sensual embodiment of the self (as opposed to a mentalistic conception of self), development as a historical co-construction that is culturally mediated, relationships as self-organizing and emergent (more than a sum of the inputs), and a focus on process research (rather than on outcomes). Brazilian developmental psychology is situated within the context of the local and world cultural history of developmental studies.
Keywords: Sociocultural context; historical context; developmental studies.


 

 

O conjunto de artigos neste Número Especial representa uma importante mudança no campo de estudos do desenvolvimento humano. A principal contribuição destes artigos é fazer avançar teoria e método na direção de uma emergente visão de mundo orientada para o estudo das relações pessoa-ambiente e se distanciar da abordagem tradicional que avalia indivíduo e ambiente como se eles fossem separados, variáveis independentes. Estes artigos são também instrutivos porque oferecem uma diversidade de teorias e métodos para o estudo das relações pessoa-ambiente, teorias e métodos que poderiam ser adaptados a uma extensa gama de problemas de pesquisa.

A contribuição sem paralelo destes artigos pode ser melhor apreciada tendo em vista recentes agendas de pesquisa no campo do desenvolvimento. Uma agenda tem sido a descrição da ação individual no contexto. Nós temos documentado como indivíduos de diferentes idades, gêneros e formações educacionais diferem em seus comportamentos em relação a pais e colegas, em casa e na escola. Uma segunda agenda tem sido a predição de resultados do desenvolvimento, a partir de seus presumidos antecedentes. Nós sabemos agora, por exemplo, que estilos parentais inconsistentes, controladores, retraídos e negativos tipicamente conduzem a resultados desfavoráveis para a saúde mental e comportamental das crianças. Nós estamos começando a entender as conseqüências benéficas para o desenvolvimento de vínculos seguros de creches bem administradas, escolas criativas, e comunidades centradas na criança.

Estas emergentes leis do desenvolvimento humano interessam em grande medida à cultura, além de nossa própria cultura profissional: as sociedades que estão profundamente preocupadas com o bem-estar de suas crianças e famílias. Porque nós temos evidências replicáveis que dão suporte às crianças e famílias em nossas comunidades, a profissão de pesquisador do desenvolvimento está se tornando mundialmente mais respeitada. Os governos estão cada vez mais dispostos a investir impostos dos cidadãos em pesquisas sobre o desenvolvimento infantil e sobre estratégias de intervenção e prevenção que melhorem vidas e facilitem o crescimento.

Por causa destas realizações profissionais expressivas, realizações que ajudam não só a sustentar as crianças e famílias que nós servimos, mas nossa própria cultura profissional dentro de instituições de ensino superior, nosso campo tem crescido em número de membros e na qualidade das pesquisas que estão sendo desenvolvidas. Este crescimento em tamanho e qualidade tem sido ampliado através da participação em uma cultura da ciência que cresce em âmbito mundial. Via facilidades para viagens aéreas, fax, telefone e comunicação pela internet crescem as oportunidades para o rápido aparecimento de novas idéias,

Nós, pesquisadores do desenvolvimento, somos bem sucedidos em nossos papéis sociais e participantes em uma discussão dinâmica, internacional e eletronicamente mediada. Nós deveríamos estar contentes com estas realizações e deveríamos tirar proveito dos métodos que nos fizeram merecer estes níveis de status social. Ao invés disso, nós nos achamos no meio de uma importante transição no desenvolvimento de nossa cultura profissional, uma transição que rompeu com as raízes da cultura profissional que nos trouxe a este tempo e lugar. Os artigos neste Número Especial são um exemplo claro desse rompimento. Eles não pedem nada menos que uma mudança radical em nossa concepção das pessoas e do seu desenvolvimento.

O dinheiro que paga nossos salários, despesas de pesquisa, viagem e comunicação com nossos colegas aparece por causa das bem-sucedidas pesquisas que avaliaram os indivíduos como entidades isoladas, sujeitos à influência das forças do ambiente e da cultura. É nossa obrigação para com a sociedade que nos sustenta continuar fazendo o que nós temos feito tão bem? O que irá acontecer se não houver nenhum retorno para a sociedade por estas tendências insurgentes em nosso campo? Se a base de nossa pesquisa tradicional é desgastada em favor de métodos menos desenvolvidos e mais arriscados, tais como os propostos por artigos neste Número Especial, isto fará mais mal do que bem ao nosso status como profissionais e às pessoas que recebem o conhecimento que nos propomos a criar? Se o campo de estudos do desenvolvimento continuar na direção esboçada pelos artigos neste Número Especial, nossos valores profissionais e patrocínios mudarão, nossas crenças e desejos com relação a como nós conduzimos nossas pesquisas mudarão, a audiência para quem nós escrevemos mudará, as revistas nas quais nós escrevemos mudarão, e nosso papel na sociedade mudará.

Pessoalmente estou pronto para assumir esses riscos porque penso que nós devemos alguma coisa a nós mesmos como pesquisadores do desenvolvimento. Nós devemos promover nosso próprio desenvolvimento e o desenvolvimento de nossa cultura profissional, da mesma maneira que nós temos a esperança de promover o desenvolvimento de crianças e famílias na sociedade. Minha leitura dos artigos neste Número Especial parece sugerir, porém, que pesquisadores do desenvolvimento devem examinar a história e o futuro da rede de relações nos sistemas em desenvolvimento que estudam. Isso não é menos verdadeiro para nós mesmos. Nós não podemos predizer onde a transição em nosso próprio desenvolvimento nos levará, porque sistemas em desenvolvimento são inerentemente indetermináveis e emergentes. Tampouco podemos nos isolar da rede de relações na sociedade que nos oferece abrigo nas universidades às custas de grandes gastos públicos. Cada um de nós deve achar o equilíbrio entre crescimento pessoal e dar de si para o bem-estar de todos, entre reconhecer as tradições de nosso passado e honrar as eloqüentes chamadas para um futuro diferente, e entre o conforto e segurança do conhecido e o risco do desconhecido. Essa dialética emocional e pessoal está no centro das dinâmicas de mudança em desenvolvimento.

O problema de entender nossos próprios papéis e responsabilidades nas mudanças que estão tomando curso em nosso campo de estudo se torna mais difícil porque nossa história é complexa e cheio de contradições. O que é considerado como a tradição em estudos do desenvolvimento depende de quão distante volta-se no tempo. Nossa história recente, certamente, foi dominada pela orientação individualista e por modelos de pesquisa predição-resultado. Anterior a isto, entretanto, nós podemos descobrir os trabalhos dos fundadores de nossa disciplina. Em um recente artigo, Paul van Geert (1998) argumenta, em favor do estabelecimento de uma ciência do desenvolvimento, uma transição no desenvolvimento do campo. Porém, ele pensa que a nova ciência do desenvolvimento deve ser modelada em concordância com o trabalho de seus fundadores: Baldwin, Piaget, Vygotsky, Werner.

"O que é mais notável nos trabalhos dos fundadores é que eles acreditavam que explicação para as causas de desenvolvimento estão dentro do processo de desenvolvimento. O desenvolvimento é um processo que incorpora e transforma um grande número de processos e influências que têm, cada um, origens, leis e formas particulares, e os integra em um fenômeno que é mais do que somente a soma das partes. Isto é, o desenvolvimento integra a condição biológica de crescimento e mudança com as influências socioculturais externas, suporte social e educação, com as atividades, motivos e metas do próprio sujeito, com as propriedades formais, estruturais e históricas dos conteúdos e habilidades que se tornam parte do equipamento mental e comportamental do sujeito." (van Geert, 1998, p. 144)

Um dos mais notáveis aspectos dos artigos neste Número Especial é a sua atração, não tanto por pesquisadores contemporâneos mais conhecidos, mas pelos fundadores. Cada artigo reflete uma diversidade de opiniões sobre a identidade desses fundadores. Piaget e Vygotsky são claramente centrais à maioria dos pesquisadores aqui representados. Outros mencionaram Werner e Wallon. Muitos dos autores recorreram a fundadores fora de nosso campo de pesquisa, como Rorty, Dewey, e Bahktin em Filosofia, G. H. Mead em Sociologia, e Prigogine em Física. Cada um destes se notabilizou por sua visão da pessoa-no-contexto, da  pessoa-na-sociedade, e da pessoa-no-ambiente.

Se os fundadores estavam comprometidos com uma abordagem teórica que enfatizava as relações e a complexidade, como o campo entrou em uma prolongada e diferenciada fase centrada no indivíduo, causa e efeito, predição e resultado de pesquisa? Há muitas respostas para esta pergunta. Minha própria avaliação (Fogel, 1993) desta mudança no desenvolvimento de nossa cultura profissional leva em consideração mudanças sociais e culturais mais amplas que ocorreram no final do século 19 e início do século 20. Este período foi notável para a descoberta do holismo e das relações. Darwin descobriu uma conexão íntima entre a estrutura do ambiente e o fenótipo das espécies, como se organismos incorporassem o ambiente em suas células e estruturas. Ernst Haeckel, um discípulo alemão de Darwin, inventou o termo ecologia, a ciência das relações entre os organismos vivos e o mundo externo. Einstein compreendeu que toda energia e movimento são relativos a tudo mais no universo. Freud descobriu que as crianças são inexoravelmente formadas nos nexos de seus relacionamentos com seus pais. Pavlov viu o condicionamento como um meio pelo qual o ambiente é incorporado ao tecido de comportamento.

Uma série de guerras mundiais, a atrocidade dos assassinato em massa, ditaduras terroristas, e a competição de guerra fria, entretanto, conduziram a um período de perda do idealismo holístico e um renascimento de prática e praxis, ferramentas e tecnologia, sobrevivência e sofrimento, e um novo papel para atividade humana auto-iniciada. No início deste século, nós humanos agarramos, talvez pela primeira vez em nossa história, o incipiente significado e a esperança de uma sociedade global. Houve uma segunda revolução copernicana: os seres humanos não mais eram criaturas divinamente escolhidas. Nós tínhamos que compartilhar o planeta com tudo e com todos. E então nós perdemos aquele estado de graça nos horrores deste século, quando houve muita dor, muito a fazer e muitas coisas acontecendo. A Psicologia se tornou, dentro desse processo, um meio de medir e predizer desempenho humano. Nós tivemos que achar os melhores soldados, os melhores técnicos, os melhores cientistas, as melhores crianças. Nós tivemos que treinar as pessoas para sobreviver e ter sucesso. Nós precisávamos de resultados a despeito do processo. O processo importava menos porque as pessoas perdiam suas vidas e a sua dignidade, não importa o que fizessem, não importa quão boas ou ruins elas fossem. O produto das pesquisas e um foco no indivíduo eram perfeitamente adequados à era de Guerra Fria.

Não é nenhuma surpresa, pelo menos não para mim, o que assistimos agora no fim de século. Um renascimento de relatividade, da ecologia, do pensamento sistêmico e do holismo em todas as artes e ciências, e até mesmo na política e no comércio. Está acontecendo nas sociedades que estão pós Guerra Fria ou pós ditadura. Não está acontecendo onde guerra esta sendo empreendida e onde são negados direitos humanos. Os centros deste renascimento são a América do Norte, a Europa Ocidental, o Japão, e, no hemisfério sul, o Brasil e a Austrália. Todas nações/regiões amplas, prósperas, e no momento, relativamente pacíficas. Dizer que os artigos neste Número Especial são parte desta impressionante onda cultural de fim de século, não diminui sua originalidade e contribuição. Dizer estas coisas é meramente o reconhecimento de uma idéia expressada por muitos dos autores: tal desenvolvimento está inserido dentro de um contexto sociocultural e é mediado por ferramentas e artefatos dessa cultura e sua história.

 

Contribuições dos Artigos neste Número Especial

Eu fiz um estudo qualitativo informal das contribuições neste número. Como eu li e reli as narrativas dos autores, tentei deixar um sistema de classificação emergir de minha relação com estas narrativas e minha própria história (Fogel, 1993). Eu me desculpo por antecipação pela simplicidade da classificação. Como foi bem colocado Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva, "De fato, sentimos não encontrar uma representação gráfica que dê conta da realidade" (p. VER PAGINA NESTE NUMERO ONDE APARECE A CITAÇÃO). Isto expressa as limitações de qualquer método de pesquisa para capturar a dinâmica de nossa vida e trabalho. Minha classificação pode também expressar minha relação ingênua com o idioma português, no qual os documentos foram escritos. Em todo caso, eu propus as seguintes categorias que, em termos gerais, representam os temas dos artigos neste Número.

Orientação Relacional

Todos os artigos nesta coleção, como anteriormente mencionado, têm claramente uma orientação relacional ao invés de uma orientação individual. Isto significa que os artigos fixaram como meta contrastar a sua própria abordagem com a idéia de um indivíduo isolado que caracteriza a pesquisa psicológica atual e que nós herdamos dos gregos antigos (Levinas, 1969) e reinventamos muitas vezes na história de civilização ocidental. Arendt nos pede que consideremos modelos não-reducionistas para o desenvolvimento cognitivo e que evitemos a dualidade mente-corpo cartesiana, adotando o fisicalismo não-reducionista de Rorty, no qual o self consiste em crenças e desejos que são empiricamente contingentes com respeito ao mundo. Bussab sugere que existe uma inter-relação entre seleção natural e controle genético tal que existe uma impossibilidade de separação entre genes e ambiente e uma impossibilidade de separação entre evolução e cultura que co-evoluíram. Seidl de Moura e Ribas argumentam que nós não deveríamos usar cultura como uma variável independente que afeta as pessoas e que, ao invés disso, deveríamos entender a impossibilidade de separação entre a pessoa e seu nicho sociocultural. Lyra descreve o desenvolvimento como ocorrendo dentro de um sistema de relações sociais. De acordo com Pantoja e Nelson-Goens, emoções são processos significativos para as relações, emergindo como padrões interativos, da dinâmica de interação e co-narração. Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva mostram que as interações são dinâmicas, mutuamente construídas, com cada pessoa desempenhando um papel ativo de forma que pessoas e ambientes mudam, assim como mudam também as relações pessoa-ambiente. Finalmente, Moro explora o papel da coordenação e do conflito inter-individual para o desenvolvimento cognitivo do indivíduo.

Corporificação da Mente

Outro princípio central do pensamento de holista na cultura mundial neste momento é o da unidade mente e corpo. Esta perspectiva também é relacional, aplicado à unificação de dicotomias dentro da pessoa, como também a dicotomias entre pessoa e ambiente. Para Arendt, em sua interpretação do fisicalismo de Rorty, não existe um self autêntico separado das dinâmicas de crença e desejo e dos resultados de causas e efeitos sobre o corpo físico e os sentidos. O trabalho de Varela e Maturana sobre a mente corporificada sugere que não há um mundo real, a não ser aquele que é construído pelo sujeito através de ações comporificadas. Bussab relata evidências de pesquisa que indicam que meninas que vivenciam mais estresse na família e mais conflitos são mais propensas a ter menarcas precoces e se engajar mais em atividade sexual. A puberdade é retardada quando existe desnutrição e um ambiente pobre para desenvolvimento. Processos psicológicos como o estresse aparentemente têm conseqüências significativas para o corpo. Dito de outra forma: é impossível separar o físico do psicológico no corpo sexual. O trabalho de Pantoja e Nelson-Goens enfatiza as narrativas não-verbais na comunicação mãe-criança, constituídas por mudanças na expressão facial, direção de olhar, vocalização, entonação, e movimentos de corpo. Uma observação semelhante é feita por Rossetti-Ferreira e colaboradoras, que argumentam que significados psicológicos não são abstratos, porém parte do ambiente e dos participantes, como expressado em seus próprios corpos, sensações, palavras, posturas, gestos, e percepções.

Processos de Discurso Co-Construídos, Históricos e Culturalmente Mediados

Esta categoria representa o modo pelo qual as relações operam na sociedade humana. Entende-se que o desenvolvimento se dá como parte de um discurso vivo entre pessoas que estão engajadas em atividade culturalmente mediada, sendo esta, em parte, determinada pela história da cultura e pela história da relação particular entre pessoas. Arendt e Moro, por exemplo, usam uma perspectiva de piagetiana para estudar desenvolvimento como uma epistemologia genética dentro do ambiente social e cultural. Operações cognitivas, crenças e desejos se transformam e se desenvolvem em situações cotidianas durante discursos e relações interpessoais. Bussab explica que os genes são parte do sistema em desenvolvimento e não instruções predefinidas. Eles se manifestam em alguns mas não outros ambientes e por uma cadeia complexa de eventos interativos. As possibilidades e deficiências do ambiente podem ampliar os efeitos do genótipo sobre o fenótipo. Seidl de Moura e Ribas enfatizam a interação sociocultural, a atividade mediada por objetos, settings, instituições, produtos, atividades coordenadas, esquemas culturais e uma zona de construção onde há negociação e apropriação de significados. De acordo com Lyra, díades mãe-criança vivem dentro de sistemas semióticos culturais; mãe e bebê são eles mesmos sistemas culturais que têm sua própria história de estabelecimento, extensão, abreviação. Pantoja e Nelson-Goens discutem as dinâmicas de transformação e aparecimento no desenvolvimento emocional dentro da história das relações de mãe-criança. Moro também faz uma observação semelhante sobre emoções, sustentando que fatores afetivos favorecem soluções não-cognitivas dentro de grupos como a conciliação ou eles podem criar polarizações que requerem soluções afetivo-relationais que inibem soluções cognitivas mais avançadas. Em qualquer caso, a emoção é cultural e historicamente transformada através de co-construção, da mesma forma que a atividade e a cognição. De acordo com Rossetti-Ferreira e cols., há uma rede dinâmica de significados semióticos que captura e molda o fluxo de comportamento de cada pessoa, o tornando significativo. Significados e pessoas são continuamente transformados, direcionados pela situação física e social.

Auto-organização, Emergência e Indeterminismo

Auto-organização se refere ao processo pelo qual ordem e regularidade são geradas dentro de um sistema, como o resultado de influências mútuas de elementos deste mesmo sistema. Porque a ordem vem de dentro do sistema e não é imposta de fora por alguma estrutura ou plano preexistente, sistemas auto-organizados exibem emergência e indeterminação. Emergência se refere à propriedade de geração espontânea de novidade dentro de sistemas dinâmicos. Esta novidade é a essência de todos os sistemas vivos e é responsável pelas propriedades regenerativas e criativas desses sistemas. Indeterminação ocorre em sistemas auto-organizados porque novidade espontaneamente gerada não pode ser completamente predita com antecedência. Há argumentos fundamentados, quer em favor de que indeterminação dos sistemas seja somente o resultado de uma inabilidade para medir todos os componentes pertinentes, quer em favor de que ela seja uma propriedade inerente e real dos sistemas (Fogel, Lyra & Valsiner, 1997).

Arendt se refere ao trabalho de Varela e Maturana sobre sistemas complexos com propriedades emergentes. Seidl de Moura e Ribas aludem aos efeitos do feedback recíproco entre a mãe e criança. Feedback recíproco é um dos processos pelos quais sistemas dinâmicos se alimentam para gerar novidade emergente. O trabalho de Lyra mostra explicitamente como padrões novos emergem na história do sistema, mas não são completamente explicados por ela. Estudando a transformação gradual da comunicação em longos períodos dentro de relações de interpessoais, ela mostra como relacionamentos têm emergência e indeterminação e, ao mesmo tempo, dependências históricas. Pantoja e Nelson-Goens também se apoiam explicitamente em teoria de sistemas dinâmicos ao afirmarem que o indivíduo e o ambiente são componentes inseparáveis do mesmo sistema. Elas também mostram como ações novas emergem gradualmente nas relações com os outros, em lugar de serem expressões de estados internos preexistentes. Em lugar de pensar em emoções como programas neuronais prefixados, essas autoras mostram como emoções acontecem no contexto de comunicação. Processos de feedback aumentam e ampliam as ações e experiências dos participantes fazendo a intensidade de emoção positiva alcançar um ápice.

Pesquisa de Processo: Microgênese, Estudo de Casos e Interpretação

A pesquisa de processo envolve, em alguma medida, todos os seguintes componentes: Existe um foco de interesse na microgênese, no desdobramento da ação em tempo real e dentro de settings socioculturais, como as famílias e escolas. Estudos de caso, únicos ou múltiplos, são normalmente usados como uma forma de realçar que tanto a microgênese quanto a macrogênese ocorrem dentro de cada sistema em desenvolvimento. Estatísticas baseadas em médias de grupos e em medidas sumárias não são tipicamente usadas. Finalmente, pesquisa de processo é conduzida como um empreendimento interpretativo onde o pesquisador é parte do processo de pesquisa. Dado o maior foco de interesse teórico na história, na cultura e na relação onde estes artigos estão inseridos, é importante reconhecer que o investigador, como um centro da atividade humana, também está inserido dentro de uma história e uma cultura que servem de mediadores no relacionamento do investigador com as pessoas que são os sujeitos das pesquisas.

Bussab mostra como dados correlacionais são problemáticos na interpretação de efeitos genéticos. Em lugar disso, argumenta em favor da pesquisa de processo, no estudo das influências genéticas, e da humildade, em face à complexidade dos fenômenos envolvidos. Seidl de Moura e Ribas, embora utilizando uma sessão de observação única, são bem sucedidas ao utilizar os princípios de pesquisa de processo para inferir história e significado na comunicação. O trabalho de Lyra é sem igual quanto ao foco no estudo dos processos de mudança. Realizando observações freqüentes de díades individuais dentro de intervalos de muitos meses, Lyra encontra momentos de quase-estabilidade e instabilidade/mudança. Lyra está atenta ao papel do investigador como intérprete e como sendo uma parte integrante do processo de pesquisa. Pantoja e Nelson-Goens empregam um delineamento longitudinal semelhante. Rossetti-Ferreira e colaboradores também apontam para imersão do investigador na situação de pesquisa como o observador participante e etnógrafo. O investigador deve ser flexível e disposto mudar seu foco de atenção, pois os dados estão na relação entre pesquisador e sujeitos. Essas autoras utilizam observação cuidadosa de episódios de mudança para descobrir momentos de aparecimento de novos significados no processo de co-construção. Outro aspecto sem igual de seu trabalho é o uso da pesquisa no mundo real em comunidades, unindo teoria, pesquisa e aplicação. Finalmente, Moro focaliza a microgênese da comunicação de conceitos matemáticos, procurando correspondências, complementaridades, e oposições entre participantes.

Implicações e Tendências Futuras

Estes artigos me desafiam a imaginar o futuro dos estudos de desenvolvimento no Brasil e em outros lugares, admitindo que nós consideramos seriamente as inovações, as novas tendências emergentes contidas nesses trabalhos.

Self e Relacionamento

Na abordagem tradicional, o self é considerado como mais importante. Selves individuais podem ter relações, mas as relações são conceitualizadas como vazias: meramente a coleção de trocas comportamentais que ocorrem durante comunicação. A abordagem relacional põe a relação como a coisa mais importante e chama a atenção para a complexidade das relações como uma metáfora para todos os sistemas vivos. O perigo desta abordagem é que o self se torna vazio. É claro, entretanto, que todos nós temos vivências de self. Nós temos pensamentos e emoções que parecem vir de dentro de nós mesmos. A sociedade também tem uma necessidade por indivíduos. A atribuição de culpa e responsabilidade é requerida nos casos de comportamentos imprudentes, criminosos e patológicos. A atribuição de responsabilidade individual é o alicerce fundamental de todo o código ocidental de lei e ética. Esta herança cultural e histórica é impossível abandonar, mesmo para os pensadores mais influenciados pela perspectiva relacional e contextual. Isto se apresenta para nós com um dilema teórico e filosófico; um dilema que não foi resolvido nos últimos dois milênios de discurso filosófico ocidental.

Eu acredito que é necessário preservar o senso de self dentro das relações. Isto pode ser realizado definindo, desde o início, o self como relacional (Fogel, 1993). A estrutura de nossos corpos e mentes já é do-mundo e está no-mundo. Piaget, a quem muitos autores neste número se referem, expressou esta visão em seus escritos mais iniciais.

"As principais ‘categorias’ que a inteligência utiliza para se adaptar ao mundo externo, espaço e tempo, causalidade e substância, classificação e número, etc., cada uma destas corresponde a um aspecto de realidade, da mesma forma que cada órgão do corpo está relacionado a uma característica especial do ambiente; mas, além de sua adaptação às coisas, elas estão envolvidos umas com as outras em tal grau que é impossível isolá-las logicamente. O ‘acordo do pensamento com coisas’ e o ‘acordo do pensamento ele mesmo’ expressa esta invariante funcional dual de adaptação e organização." (Piaget, 1952, p. 8)

Antes da invenção da teoria dos sistemas dinâmicos e do conceito de auto-organização, Piaget parecia compreender que organização implica um acordo mútuo entre coisas, não só no seu processo da adaptação mútua, mas também com respeito às suas estruturas: o pensamento reflete o mundo e o mundo reflete o pensamento. O sistema circulatório e o sistema respiratório, por exemplo, têm identidades distintas mas eles co-regulam funções e co-articulam estruturas. O filósofo David Abram tem uma percepção semelhante com respeito a experiências materializada.

"Meus vários sentidos, divergindo na forma como se realizam a partir de um único corpo coerente, também convergem coerentemente na coisa percebida. Meus sentidos se conectam entre si nas coisas que eu percebo, ou, mais precisamente, cada coisa percebida une meus sentidos de um modo coerente ... assegura que meu corpo é um tipo de circuito aberto que só se completa nas coisas, nos outros, na terra que o envolve." (Abram, 1997, p. 62)

Em outras palavras, o mundo é necessário para completar o circuito com o corpo a fim de criar mesmo a mais simples experiência sensorial de self. O desafio destas idéias para os pensadores e pesquisadores do desenvolvimento será duplo. Por um lado, é necessário evitar a perda do self às custas de estudar as relações. Por outro, parece importante para evitar o simples reducionismo ao indivíduo isolado. O artigos neste número foram bem sucedidos em lidar com este segundo desafio, porém, para redescobrir a natureza do indivíduo-em-relação, mais trabalho precisa ser realizado em relação ao primeiro.

A mim parece, como um não brasileiro, que a incorporação sensual da experiência de self é realçada de uma forma não usual como parte de uma rede de relações humanas dentro de cultura brasileira. Podem esses processos culturais sem paralelo oferecer uma janela sobre o self-na-relação e sobre o self materializado ou corporificado, que é provavelmente menos observada em um cultura completamente relacional mas menos corporal como a japonesa, ou numa cultura que enfatiza autonomia e a privacidade do corpo como a norte-americana? Pode o estudo das relações das crianças com os seus corpos e com os corpos dos outros, a ampliação de sensualidade no movimento, na música e na dança, fornecer uma forma empírica que vá além da dualidade de mente-corpo e do foco na cognição pura desprovida de corpo, tão típica de perspectivas da ciência da cognição.

O que pode dar errado no desenvolvimento?

Processos emergentes de desenvolvimento têm o potencial de criar oportunidades para criatividade e crescimento positivo, mas também para a disfunção, dor e perda. A história cultural do século 20 é um bom exemplo de ambos os tipos de trajetórias. Talvez todos os séculos tinham este caráter duplo. Charles Dickens, escrevendo sobre pobreza e riqueza em Londres e Paris em A Tale of Two Cities, começa com: "Era o melhor de tempos. Era o pior de tempos."

Nós podemos achar caminhos positivos e negativos, tanto na microgênese, quanto na macrogênese. Lyra, Pantoja e Nelson-Goens, e Moro, por exemplo, se referem ao potencial do conflito e das emoções negativas durante a comunicação interpessoal. Nos casos que eles observaram, o conflito foi seguido pelo reparo e pela equilibração dentro do sistema. Uma característica de sistemas em desenvolvimento saudáveis é sua habilidade de controlar perturbação, conflito, e tensão, mantendo ainda estabilidade e uma trajetória para crescimento e reconciliação (Fogel & Branco, 1997).

Pesquisa de processo, pensamento relacional e teorias de sistemas não são úteis apenas para o estudo do que dá certo no desenvolvimento, mas também para o que dá errado. Muitas crianças e famílias se perdem em sociedade devido a tendência de se colocar a culpa fora de contexto. Atos de ódio, agressão e competição podem destruir os indivíduos, famílias e nações inteiras. Eu acredito que as diretrizes de teoria e pesquisa em desenvolvimento encontradas nos artigos deste número têm o potencial para lidar com nossos mais preocupantes e complexos problemas sociais. Imaginem um mundo no qual pesquisadores, agências de fomento e governos vêem a pobreza, o crime, a doença mental e o desespero como um processos emergentes em um complexo sistema sociocultural e histórico. Imaginem que tipo de uma contribuição suas habilidades em pesquisa de processo poderiam dar para o alívio dessas injustiças.

Em meus anos de estudante, eu queria me tornar um cientista puro. Eu me integrei a um programa de doutorado em física teórica na Universidade de Columbia, Nova Iorque, casa de muitos vencedores do prêmio Nobel. Meus planos foram interrompidos pela guerra do Vietnã. Eu optei por entrar para a Força de Paz dos Estados Unidos ao invés do Exército dos Estados Unidos como um modo de fazer um serviço alternativo. Eu havia casado recentemente, e fui enviado com minha esposa para trabalhar num projeto de enriquecimento educacional em Bogotá, Colômbia, onde nós vivemos e trabalhamos durante três anos. Violência, pobreza e regime militar estavam ao nosso redor nas sombras daquela grande cidade.

Em Bogotá, eu travei conhecimento com padres revolucionários na Universidade Jesuítica onde lecionei em tempo parcial. Eles me apresentaram ao trabalho de Paulo Freire e isso mudou minha vida. Eu decidi que queria trabalhar no campo de educação, que queria trabalhar no processo de mudança, que queria entender como as pessoas se desenvolvem dentro de suas comunidades, e que queria achar uma forma de incorporar a pessoa e o seu contexto cultural e histórico no processo educacional. Eu aprendi tudo isso com minha própria experiência e anos de Freire, antes de ser apresentado ao trabalho de Piaget, Vygotsky, Bruner, e outros durante meus posteriores estudos no doutorado em Educação.

Esta história pessoal me traz, uma vez mais, à singularidade da experiência latino-americana e especialmente ao Brasil. Por causa de sua história e cultura, brasileiros sabem algo sobre padrões e trajetórias particulares de mudança no desenvolvimento, em sociedade e na vida privada, que não são conhecidos em outros lugares. O Brasil tem uma forte presença internacional na psicologia do desenvolvimento, quando comparado a outras nações sul-americanas e latino-americanas, e o maior investimento em pesquisa do desenvolvimento, básica e aplicada. Sua história cultural, especialmente a partir de Freire e outros, lhes dá uma compreensão de um insider da pesquisa de processo. As imprevisíveis mudanças em seus sistemas político e econômico lhes dão uma perspectiva sem igual da importância da flexibilidade, da criatividade, da emergência e da manutenção de quasi-estabilidade em meio ao caos. Imaginem o que vocês têm a oferecer à comunidade mundial.

 

Referências

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Recebido em 21.05.99
Aceito em 21.05.99

 

 

Sobre o autor:

Alan Fogel é Professor de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade de Utah (EEUU); PhD em Educação pela Universidade de Chicago (EEUU). Linha de Pesquisa: desenvolvimento do "self" e da emoção, no contexto das relações interpessoais mãe-bebê. Coordena um laboratório voltado para esta temática. A partir do intercâmbio estabelecido com a Professora Lyra em 1987, tem visitado o Brasil desde 1992 e ampliado os seus contatos em nosso país.

 

 

1 Endereço para correspondência: Department of Psychology, University of Utah, 390 S. 1530 E., Room 502, Salt Lake City, 84112-0251, USA. E-mail: alan.fogel@m.cc.utah.edu