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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.2 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000200011 

Entendendo a Dinâmica do Desenvolvimento

Comentário

 

Entre a "democracia da literatura" e a paixão pela compreensão: entendendo a dinâmica do desenvolvimento

Jaan Valsiner 1
Clark University, EUA

 

 


Resumo
Neste trabalho é mostrado que o discurso da Psicologia inclui a coexistência das construções semióticas retóricas ("democracia da literatura") e substantivas (teóricas). As primeiras são evidenciadas no estilo da referência imprecisa e acumulativa em textos psicológicos, assim como na repetição de rótulos genéricos de perspectivas (p. ex.: Vygotskiana, Piagetiana, etc.). Em contraste, as construções substantivas (teóricas) das idéias entrelaçam os lados empíricos abstratos e concretos do processo da pesquisa. Contribuições específicas dos artigos neste número para a compreensão do contexto, desenvolvimento e sistemas dinâmicos são analisadas brevemente.
Palavras-chave: Construções semióticas; desenvolvimento; contexto; sistemas dinâmicos.

Between the ‘democracy of the literature’ and the passion for understanding: making sense of the dynamics of development

Abstract
Psychology's discourse is shown to include co-existence of the rhetoric ("democracy of the literature") and substantive (theoretical) semiotic constructions. The former are evidenced in the style of imprecise and accumulative referencing in psychological texts, as well as in repetition of generic labels of perspectives (e.g., "Vygotskian", "Piagetian", etc.). In contrast, the substantive (theoretical) constructions of ideas weave together abstract and concrete empirical sides of the research process. Specific contributions of the papers in this Issue to understanding context, development, and dynamic systems is briefly analyzed.
Keywords: Semiotic constructions; development; context; dynamic systems.


 

 

As contribuições para este Número Especial são cheias de desejo de preservação da realidade da unidade dos indivíduos e seus contextos socioculturais. Esta realidade é uma realidade hiperdinâmica - as ações das pessoas são necessariamente contextuais, logo - variáveis. A variabilidade tem sido a principal dor de cabeça para a psicologia – odiada (e eliminada) e amada ao mesmo tempo. O desenvolvimento como um processo dinâmico conduz à necessidade de conjeturar caminhos onde é atribuído à variabilidade seu papel central, em lugar de ser tratada como uma expressão potencial de erro.

Os participantes deste Número experimentam diferentes formas de exploração do desenvolvimento – com ênfase no enativismo (Arendt), teoria dos sistemas dinâmicos (Lyra, Pantoja & Nelson-Goens), atividade mediada (Seidl de Moura & Ribas), equilibração majorante (Moro), historicidade (Lyra) e epigênese (Bussab). Embora as contribuições venham de diferentes domínios de pesquisa – variando de psicologia evolucionária para epistemologia genética e para a construção de significado na ontogênese, todas elas tentam desvendar os dois maiores obstáculos conceituais na psicologia do desenvolvimento.

Primeiro, há o obstáculo conceitual em entender o contexto. Neste Número é uma questão de separação figura/fundo e dinâmica (ver também Rossetti-Ferreira, Amorim & Silva) na mente dos investigadores. Fazer esta distinção é uma parte regular de nossa percepção, nós também aceitamos as flutuações nas relações figura/fundo (p. ex., situações onde a distinção some, ou onde o fundo torna-se a figura e a figura, o fundo). Isto é relativamente fácil no domínio da percepção visual pessoal, mas difícil quando os mesmos aspectos estão em questão no processo de pesquisa. Diferentes perspectivas contextualistas são ricas em afirmações sobre a importância do contexto, sobre a necessidade de se considerar o contexto, e ênfases na relevância da interação pessoa - contexto. No entanto, em geral não é claro o que precisamente se quer dizer com contexto (vide abaixo). Deste modo, a discussão sobre a relevância do contexto freqüentemente permanece improdutiva.

O segundo obstáculo conceitual é a ausência do entendimento claro do desenvolvimento. O termo tem sido usado tanto para a descrição dos resultados do desenvolvimento (p. ex., estágios pelos quais as crianças passam), quanto para processos de emergência de novidade. É este último sentido – emergência e manutenção de novas formas – que constitui a essência do desenvolvimento. Sem dúvida, as perspectivas de sistemas dinâmicos, enativismo, epigenética e de equilibração são esforços no sentido de superar esse obstáculo. No entanto, estes são empréstimos de outras disciplinas que só podem servir parcialmente para o fenômeno do desenvolvimento humano. Por essa razão, há necessidade de novos focos gerais – enfatizando a construção pessoal (e interpessoal) da história (Lyra, Pantoja & Nelson-Goens).

Todas as tentativas cobertas neste Número necessitam elaboração em relação aos mecanismos específicos da construção evolutiva. Há sempre o perigo de psicólogos transformarem idéias heurísticas gerais produtivas em rótulos. Como um rótulo, uma idéia produtiva torna-se facilmente um guarda-chuva para discussão geral, o que pode, então, reduzir o valor heurístico da idéia. A psicologia tem perdido muitas idéias gerais potencialmente produtivas devido à sua popularização entre os psicólogos.

 

A Alma Partida da Psicologia como (Um Tipo de) Ciência

Por que a psicologia é tão ineficiente em solucionar seus problemas conceituais? Por que os problemas são repetidamente mencionados, discutidos, objeto de preocupação de diferentes grupos de psicólogos – sem que se forneçam soluções? Certamente os recursos para os psicólogos contemporâneos – em termos de tecnologia e conhecimento de tentativas prévias (que falharam) - são superiores aos de seus predecessores. Vygotsky, no seu tempo, tinha pouco (ou nenhum) recurso para solucionar qualquer problema que ele mapeava na psicologia. Em contraste, a grande quantidade de psicólogos contemporâneos que orgulhosamente se denominam vygotskianos não solucionou os problemas com que Vygotsky se defrontou, e nem mesmo superou suas formas de pensar. Sem dúvida nossos problemas são complexos, mas também o são os problemas em quaisquer outras ciências.

Os temas cobertos neste Número Especial – especialmente na medida em que refletem a fascinação contemporânea da psicologia com conceitos importados de outras ciências – levam-me a pensar que o status peculiar da psicologia, entre ciências naturais e ideologias sociais, tem algo a ver com sua caraterística de ser repetitiva em termos de idéias. A psicologia, especialmente como ela se tornou orientada para a aplicação de seu know-how em contextos sociais desde os anos vinte, negocia conhecimento com os cânones dos sistemas político-sociais da sociedade. É possível que os padrões narrativos do discurso científico em psicologia tenham levado os psicólogos a se afastarem da clareza do pensamento da ciência básica, na direção de argumentos em termos de um estado de discurso que eu chamaria de "democracia da literatura".

Ouvir os psicólogos contemporâneos (assim como ler seus artigos) leva-nos logo a descobrir que a noção de "literatura" (literatura psicológica em geral, ou literatura em qualquer sub-área, mais ampla ou mais estreita) tem adquirido um papel dominante na estruturação de todo o campo da pesquisa, assim como torna-se um motivador para o que , e como, estudar. Desta maneira, pesquisadores apresentam suas ligações com uma ou outra "literatura" (vide especialmente o tipo de referência da literatura nas seções introdutórias de artigos empíricos em periódicos como, por exemplo, Child Development). A questão é freqüentemente com qual "literatura" aquele estudo está conectado (à qual ele reivindica pertencer), em vez de ser a clareza da apresentação da questão da pesquisa em geral, e a tradução da questão em estudo empírico.

A "literatura" também adquire o papel de oferecer a decisão final quanto ao valor de uma outra ou perspectiva. Aqui é onde entram as armadilhas da "democracia da literatura" no pensamento do psicólogos. A "literatura" freqüentemente opera como um corpo político – um parlamento ou uma constituinte de votos – onde, por meio de seu voto majoritário pode determinar as direções produtivas ou improdutivas do pensamento (e prática empírica) em uma dada área da pesquisa. Até meios formalizados para "contar votos" (p. ex.: meta-análise de dados relatados na "literatura") têm sido desenvolvidos, no lado de tentar agregar evidências empíricas entre diferentes estudos. Artigos de revisão (geralmente escritos por "líderes" socialmente reconhecidos de uma determinada área) e conferências de abertura em congressos fornecem sugestões sociais para as direções nas quais se espera que opinião coletiva anônima majoritária da "literatura" siga. Como em qualquer democracia política, esta opinião coletiva anônima majoritária torna-se guiada por vários persuasores de diferentes perspectivas.

Não é de se surpreender, então, que a "literatura" da psicologia (no seu lado conceitual) seja altamente repetitiva em idéias triviais (embora sempre proclamadas como "novas"), e um tanto insuficiente no desenvolvimento dessas idéias. O caráter repetitivo das idéias é mais um sintoma do papel retórico dos textos – através dos quais os autores entram em alianças retóricas e oposições – do que pontos iniciais para nova construção de idéias. Como tal, a função retórica das mensagens psicológicas enfraquece o progresso conceitual na disciplina.

É claro que, ao mesmo tempo, o papel retórico das mensagens psicológicas leva à super proliferação das mensagens "na literatura". Psicólogos publicam cada vez mais muitos artigos, "as literaturas" crescem em tamanho, mas eles raramente se desviam do terreno seguro de aceitar a "visão da maioria" de seus contemporâneos. Como resultado, a fábrica psicológica de pesquisa se assemelha a uma linha de montagem que produz em massa bens de consumo que são consumidos pelos próprios produtores.

Além do papel retórico, contribuir "para a literatura" pode desempenhar o papel de capital simbólico no avanço profissional. Freqüentemente significa agradar procedimentos de avaliação administrativa da instituição a que pertence o pesquisador para ganhar benefícios valiosos, como segurança no trabalho. Práticas administrativas de avaliação da "produtividade acadêmica" em termos de número de publicações criam um sistema de apoio para o fato simbólico da publicação se tornar mais importante do que o conhecimento passado através das publicações.

Afirmações com a ajuda de rótulos gerais são de valor retórico. Considere-se, por exemplo, o tópico – um dos dois obstáculos chave mencionados acima - da "relevância do contexto". Afirmações do tipo "nós temos que levar em conta o contexto" ou "todas as funções psicológicas individuais dependem do contexto" são basicamente expressões triviais do óbvio. Pode-se questionar o valor para a fisiologia humana como ciência, de afirmações como "todos processos fisiológicos humanos dependem do contexto do ar", ou "organismos existem graças à relação entre seus corpos e o contexto do ar à sua volta, através da atividade situada de respiração". Estas expressões são certamente verdadeiras, ainda que cientificamente triviais – a menos que se tornem elaboradas e traduzidas em questões concretas de pesquisa. Fisiologistas não dariam importância se alguém fizesse tais afirmações (pensando, "sim...e daí?"). Em contraste, psicólogos orgulhosamente fazem declarações similares (p. ex.: "o pensamento humano é social" – uma afirmação trivial que tem sido feita repetitivamente pelos últimos cem anos) como parte de suas retóricas na "democracia da literatura".

Apesar da unidade do discurso psicológico, existem ainda algumas variações nos modos como a "democracia da literatura" é usada em diferentes países. Sem dúvida, os processos sociais na psicologia feita nos EUA são uma versão extrema desta dominância. Lá, as funções retóricas das mensagens incluem empirismo obrigatório (p. ex., análises de dados feitos de modo "certo", em contraste com apropriado à questão), combinado com o foco extremo na declaração de lealdades. Junto com as apropriações de tais estilos retóricos por psicólogos de outros países, a disciplina torna-se internacionalmente homogeneizada e intelectualmente trivializada. Desta maneira, o lamento dos próprios psicólogos a respeito de "não ser a psicologia uma verdadeira ciência" – seguido por manter suas regras rígidas auto-construídas (p. ex., tal como o uso da ANOVA em análise de dados), leva à profecia auto-realizada de, de fato, não ser mais do que um tipo de ciência.

 

Expressões Estilísticas da "Democracia da Literatura"

Os modos como as referências são introduzidas nos textos dos manuscritos parecem ser um bom indicador dos modos – retórico ou substantivo – nos quais a "democracia da literatura" opera, pelo menos em textos escritos. Se um texto é uma mensagem comunicativa precisa, o autor deveria fazer o máximo para fazer referência a idéias relevantes de outros, ao invés de apenas citar seus trabalhos. Isto envolve referências singulares a autores, acompanhadas dos números das páginas para indicar o local preciso do outro texto ao qual uma idéia particular está sendo ligada. Pode talvez ser incluído também um sumário abreviado da idéia relevante, ou uma citação verbatim. Por outro lado, se a idéia é insuficientemente geral, uma (ou poucas) referências do autor em questão podem ser dadas sem a indicação do número das páginas. Nos dois casos, o endereço da ligação de idéias do autor do texto com o do outro autor citado é indicado precisamente.

A proeminência das funções retóricas das referências pode ser detectada pelo crescimento da imprecisão de referências intra-textos. A idéia específica do outro pesquisador (citado singularmente, p. ex.: Konnapea, 1999) não é mencionada. Em vez disto, a referência é feita para o trabalho geral, ou direção de pesquisa, do autor (p. ex., "Nós seguimos a conduta de Konnapea (1999) em assumir a perspectiva X em Y"). Aqui sobra nenhuma precisão da ligação de idéias. Em vez disto há uma declaração de fidelidade em termos muito gerais. A afirmação é cientificamente vazia, mas explícita do ponto de vista retórico.

Já que a "democracia da literatura" trabalha com base na maioria dominando quaisquer minorias, assim como a necessidade de demostrar uma vasta composição de constituintes, o estilo de referência em textos freqüentemente impõe a concatenação de diferentes processos de fidelidade dentro do espaço (sempre limitado) de publicação. Logo, nós poderemos encontrar afirmações do seguinte tipo:

"Em nosso estudo, nós pegamos a perspectiva X sobre Y. Esta perspectiva tem sido amplamente usada na literatura (Angst, 1998; Bicho, 1997; Caco, 1995; Doof, 1997; Ebausklik, 1989; Jones, 1992; Konnapea, 1999; Queer, 1995; Rott, 1999; Vabamotleja, em publicação)".

Fica claro que a concatenação de muitas – neste caso 10 – referências imprecisas em uma sentença do texto está longe de qualquer ligação precisa com quaisquer idéias específicas ou práticas de pesquisa de quaisquer autores mencionados. Isto só indica que a referência perde a conexão com alguma, mal-definida, parte "da literatura". Este é um momento retórico na mensagem (texto).

Na psicologia contemporânea, tais momentos retóricos são misturados como esforços tentativos de expressar idéias. Como resultado, a maioria das mensagens comunicativas psicológicas têm mais caraterísticas de "complexos" (no sentido de Vygotsky), do que conceituais. Nos complexos de idéias – freqüentemente vistos como se fossem conceitos científicos – tanto as posições político-sociais quanto o conhecimento científico podem ser vistos como misturados entre rótulos particulares. Desde modo, noções de apego, determinação genética (em psicologia, não em genética), zona de desenvolvimento proximal (para mencionar algumas) são complexos, em vez de conceitos científicos. Estes complexos podem possuir um potencial de se tornar conceitos, mas este potencial precisa ser atualizado.

A "democracia da literatura" prospera na referência imprecisa e na formação retórica de grupo (e distinção intragrupal/ extragrupal). Seu excesso limita o potencial para inovação numa determinada disciplina. As zonas de construção das idéias psicológicas seguem a maioria das opiniões (uma vez que esta tenha sido estabelecida), ao invés de precedê-las. Não há dúvida de que esta construção de direções baseadas nas opiniões da maioria é lenta e improdutiva – especialmente se o fenômeno a ser considerado é deixado de lado.

 

Essência Além do Estilo: Contribuições deste Número

Todas as idéias chave discutidas neste Número Especial estão ligadas a jogos sociais da "democracia da literatura". No entanto, as paixões dos autores permitem a eles transcender o contexto da "democracia das literaturas" dentro da qual as idéias centrais expostas neste Número têm sido discutidas na psicologia. No mais, este Número Especial não contribuiu "para a literatura", mas permite que um número de idéias produtivas sejam desenvolvidas um pouco mais.

Formas de Separar Indivíduo/Contexto

Existem duas direções básicas na conceitualização de contexto. Uma destas nos leva a encarar o contexto como um conjunto externo (ao organismo) de agentes causais cujos "efeitos" sobre o organismo podem ser considerados "efeitos de contexto":

contexto A ® {organismo X} ¬ contexto B.

Aqui os contextos A e B são dados como se existissem independentes do organismo, ao invés de serem co-criados pelo organismo X. Deste modo, por exemplo, o "contexto escola" da criança pode ser deixado para trás quando a criança sai da escola. No entanto, obviamente, enquanto a criança está na escola, pode-se dizer que o "contexto escola" vem "tendo um efeito" sobre a criança. Aqui os contextos possuem ontologia autônoma, eles podem se combinar com pessoas (que entram neles e estão "dentro" deles).

A segunda direção envolve uma visão do contexto como parte inerente do organismo. As noções do organismo e seu contexto são "co-genéticas" – quando o organismo é especificado, seu contexto é definido como seu pano de fundo. O organismo não pode deixar o contexto criado, o contexto (fundo) é a base sobre a qual o organismo (figura) pode ser definido. Sendo assim, X é o contexto para A só, e somente se, A existir (e vice-versa: A somente existe se X existir):

xAx.

Aqui não é possível falar de "efeitos de contexto", uma vez que o contexto é uma parte inerente do sistema. É possível, entretanto, falar sobre diferentes formas de relações entre o sistema e seu contexto.

Os autores que contribuem para este Número se debatem de vários modos com as questões do contexto. O problema – como distinguir o objeto alvo e seu contexto sem eliminar a ligação entre os dois – é o mesmo em diferentes níveis de análise. Deste modo, Bussab enfatiza-o no caso da interação gene/meio ambiente e Seidl de Moura e Ribas no caso da mediação cultural do ser humano. Rossetti-Ferreira, Amorim e Silva sugerem uma solução nos termos das relações figura/fundo. Isto pode se encaixar perfeitamente com o foco nos sistemas dinâmicos, assim como a noção de assimetria (vide abaixo). Temporariamente, diferentes partes do sistema complexo podem colocados diretamente em foco e outras serem subordinadas a elas. No entanto, todos esses esforços não tratam do próximo passo – como podemos conceituar a dinâmica do movimento entre a figura e o fundo? Na percepção visual, a distinção feita entre os dois é um fato básico. No entanto, o fato em si só não é suficiente para a construção teórica na psicologia do desenvolvimento. Tão pouco o é minha ênfase na separação inclusiva do indivíduo e o ambiente. Como estas idéias podem ser desenvolvidas depois?

É possível considerar o surgimento da figura a partir do fundo como um processo de formação hierárquica de profundidade. Neste processo, a figura se torna distanciada do fundo, embora permaneça dependente dele. O distanciamento pode permitir o uso dos dispositivos culturais mediadores para regular as relações das pessoas e do contextos Mediação cultural pode acentuar mais a distância ou reduzi-la. Os fenômenos psicológicos humanos são culturalmente super determinados por significado – o indivíduo se distancia do mundo circundante ao se unir a ele através de significados complexos.

Os Sistemas Dinâmicos

As contribuições de Lyra, Pantoja e Nelson-Goens, assim como o foco "enativista" de Arendt, conduzem à necessidade de dar sentido a como esse foco atraente pode ser ajustado às necessidades da psicologia do desenvolvimento. Alguns exemplos de modelação formal em termos de perspectivas dos sistemas dinâmicos têm proliferado nos anos 90, mas ainda persiste uma lacuna entre a natureza estrutural (em lugar de quantificável) de muitos fenômenos psicológicos, e os modelos formais que há muito têm sido usado nos esforços de modelação. Os últimos são construídos em bases quantitativas, mas a experiência evolutiva humana é uma estrutura dinâmica de tipo basicamente qualitativo. Para lidar com isto, os modelos pensados a partir da teoria de sistemas dinâmicos permanecem em geral dispositivos metafóricos de organização para observações empíricas. O mesmo parece ser o caso com as promessas de "enativismo". Depois de uma apresentação detalhada de como o novo pragmatismo e a "escola de biologia" chilena (de Maturana e Varela) podem, em princípio, revolucionar nosso entendimento de desenvolvimento humano, Arendt reduz estas promessas a noções bem conhecidas (embora mal definidas) de assimilação, acomodação e reequilibração. Se é para a terminologia tentativa de Piaget nos ajudar a traduzir enativismo em prática de pesquisa do desenvolvimento, porque se precisa das novas roupas (enativismo), se o rei permanece nu de qualquer modo? Talvez a noção de reequilibração mereça uma elaboração conceitual antes de sucumbir aos prazeres do "enativismo"?

Dos Sistemas Dinâmicos às Histórias de Sistemas Individuais

Há neste Número um aspecto novo crucial que surge do pensamento dos sistemas dinâmicos e o transcende. Esta é a ênfase na construção da história vivida (nas díades mãe-criança, etc.), sem dúvida uma extensão além das necessidades das ciências físicas. Para as reações químicas emergentes do tipo Prigogine, foi de importância o fato da síntese de novos elementos químicos sob condições longe do equilíbrio. Esta síntese pode ser vista como a história imediata da emergência da nova forma. Para a psicologia do desenvolvimento, tal fato não é suficiente – a emergência da novidade pode ser tida aqui como axiomática. Neste caso, em vez de se demonstrar o curso de um processo emergente em linha, permanece como a grande desconhecida a questão de princípios de integração atravessando diferentes eventos do passado ligados à novidade associados a atuais formações do novo. Isto poderia ser visto como uma história integrativa. Oferecer soluções para esta questão pode tornar conceitualmente produtiva a noção de historicidade. Esta é uma questão que não pode ser solucionada empiricamente – mesmo se gravações completas de mãe e bebê, 24 horas por dia todos os dias, estivessem disponíveis. Tais observações poderiam captar momentos da história imediata, mas permaneceriam cegas para a questão da história integrativa. Esta última exige análise teórica clara da questão – como diferentes eventos da vida participam na construção do desenvolvimento psicológico da pessoa.

Vamos considerar algumas possibilidades. Obviamente, o cenário mais inclusivo para o desenvolvimento da noção de historicidade é considerar cada e todo encontro social como contribuindo igualmente para a ontogênese humana. Isto levaria à total indeterminação dentro do campo da experiência – a história individual é criada aqui através de uma seqüência de circunstâncias que apenas aconteceram com a pessoa. Neste cenário, não há um papel ativo possivelmente atribuído à pessoa além do encontro imediato, aqui e agora, com o meio. Nenhuma seletividade está envolvida em termos do organismo em desenvolvimento.

A mínima noção de construção da história do indivíduo (de forma intrapessoal, ou nos contextos diádicos) envolve alguma forma de seletividade ligada tanto à pessoa em desenvolvimento, como aos encontros com o meio. A forma mínima de tal seletividade pode ser vista na neutralização de um encontro particular. A neutralização pode ocorrer por não se juntar às sugestões fornecidas pelo meio (p. ex.: um bebê não dá atenção a fala da mãe com ele, ou quando esta lhe oferece um objeto, ao invés de agir reciprocamente - nas linhas de estabelecimento e extensão, segundo Lyra). Entretanto, uma neutralização similar de olhar pode ocorrer como resultado do desenvolvimento. – em termos de abreviação (vide Lyra). Funções dominadas tornam-se bem estabelecidas e, portanto, comuns, neutralizando o papel de novos encontros com o meio. Sendo assim, a análise de Lyra demonstra a emergência da neutralização pessoalmente dirigida das experiências com o meio.

Há outras possibilidades de se ver a seletividade dos encontros para a construção da história pessoal. Por exemplo, a profundidade do sentimento pode ser vista como um critério de seleção - neste caso, somente aqueles encontros indivíduo/meio que são emocionalmente notáveis (p. ex.., traumas psicológicos do passado, ou sentimentos positivos em contextos) são selecionados para a construção da história pessoal. Da mesma forma, pode-se pressupor que os formatos sutis de interação emocional (veja Pantoja & Nelson-Goens) selecionam os subconjuntos das experiências de vida que conduzem a construção da história individual (e diádica). No entanto, a decisão sobre o que pode constituir o critério para a seleção dos eventos na construção da história permanece em aberto. Possivelmente há uma necessidade de se considerar critérios combinados – por exemplo, ambos os eventos emocionalmente mais intensos (traumas psicológicos) e as seqüências dos encontros positivos sutis da mãe e criança podem ser relevantes para essa construção da história pessoal. Isto tornaria a noção da variabilidade intrapessoal (de diferentes tons emocionais de experiências) tanto conceitualmente significativa quanto empiricamente acessível. No último caso, não somente seria valiosa a documentação da interação mãe-criança emocionalmente positiva, mas também a documentação de momentos de perturbação máxima (da mãe com o bebê, ou vice-versa).

Zonas de Construção, "Satisficing" e Equilibração

Ligado com o aspecto geral da construção da história pessoal está o tópico de zonas de construção (enfatizado na contribuição por Seidl de Moura & Ribas). Aqui, torna-se clarificada a assimetria da interação adulto-criança. O adulto estabelece contextos de atividade mediada para o bebê, que pode agir reciprocamente pelas mesmas linhas somente quando se dá a internalização dos meios mediacionais.

Este foco na assimetria pode ser combinado produtivamente com as noções de sistemas dinâmicos – por exemplo, pela visão da montagem mediadora do adulto de uma zona de construção como um momento pré-criado (em vez de estabelecido dinamicamente) de quase-estabilidade (vide Lyra). Dentro de tais zonas estabelecidas, a dinâmica da interação pode ser vista como conduzindo a criança para direções culturalmente esperadas. Quando a criança está sendo vestida, a tarefa específica de vestir e todos os mediadores culturais nela inseridos, como as roupas estabelecem condições muito claras para o que deve ser alcançado naquela zona de construção. O bebê é vestido somente pela interação adulto-criança, e a tarefa é rigorosamente dada. A parte instável do processo de interação dinâmica é ligada à estrutura da tarefa, e às metas de resolvê-la (afinal, o bebê pode também continuar despido, no caso de se desistir da meta se vesti-lo).

Arendt coloca em discussão a noção de satisficing – no contexto das questões do enativismo. Satisficing pode obviamente ser o cerne de qualquer solução de "problemas" de desenvolvimento ou de evolução – especialmente desde que seu status de "problema" seja superposto por nós, pesquisadores a processos de desenvolvimento. O indivíduo em desenvolvimento não está "solucionando o problema do desenvolvimento" – calculando diferentes opções - mas está apenas "realizando o ato de ser" sob as presentes circunstâncias. É claro que por um lado as funções biológicas da pessoa, e, por outro, a estruturação cultural das expectativas do curso da vida, tornam impossível a manutenção do "status quo de ser". A partir desta perspectiva, transições evolutivas parecem organizadas não como otimizando ou satisficing o movimento para frente, mas, sim, como um aparecimento constante da pessoa fora de um estado de equilíbrio, tendo que lidar com a bifurcação do reequilibro ou emergência de uma nova forma.

Moro, em seu artigo, constrói sobre a noção de equilibração majorante de Piaget , examinando como se relacionam os lados da pessoal-cognitivo e social-interacional do desenvolvimento cognitivo humano. Empiricamente pode-se ver como estes diferentes lados do mesmo processo se relacionam nas soluções de uma tarefa aritmética particular.

Entretanto, a questão de como a equilibração majorante opera no desenvolvimento cognitivo humano permanece não elaborada. Esta noção usada por Piaget pode se tornar o foco de modelagem por sistemas dinâmicos. Obviamente, tal modelo tem que começar a partir da suposição da primazia qualitativa das estruturas e talvez do uso da noção da quase-estrutura (ou campo). Isto pode ser desenvolvido tanto a partir do estruturalismo de Piaget quanto da Teoria de Campo de Lewin, unificando-os. A direção futura esperada – designada em modelos de sistemas dinâmicos pelo conceito de "atratores"– torna-se definida em cada ponto do desequilíbrio que conduz a uma nova forma. Deste modo, uma determinada mudança qualitativa não resulta somente numa nova estrutura, mas também na direção para o desenvolvimento posterior daquela estrutura.

 

Conclusão: Das Idéias Gerais à Metodologia

Este Número Especial dá aos leitores um bom corte transversal de idéias que são usadas na psicologia do desenvolvimento no esforço de superar sua crise teórica. As idéias não são novas, e o uso contemporâneo destas idéias não vai longe o suficiente (na direção do desequilíbrio metodológico) de modo a desencadear uma mudança completa na psicologia do desenvolvimento. Que esta mudança é necessária fica claro a partir das discussões deste Número. Que é improvável que essa mudança aconteça facilmente, fica claro também. A "democracia da literatura" torna improvável seu aparecimento, ou, se este acontecer, pode trivializá-lo como um "novo e promissor" enfoque. Rótulos como este podem debilitar a busca de novas soluções, e seria triste se isto acontecesse com as idéias deste Número Especial.

A chave para a tradução bem sucedida de idéias gerais em produção de nova compreensão está em sua tradução em esquemas metodológicos para novas formas de fazer pesquisa. Aqui eu parafrasearia a preocupação de Bussab com o problema do uso dos métodos correlacionais (no caso da pesquisa de Apego), e defenderia que o pensamento correlacional em psicologia (ou pelo menos em áreas onde o pensamento dos sistemas dinâmicos, focado historicamente, é o cerne) é em si mesmo um problema. O enfoque correlacional não aborda a realidade dos processos evolutivos ligados ao tempo, dissecando o todo dinâmico em partes artificialmente separadas, que são, então, reconectadas através da técnica formal de análise correlacional. O resultado é necessariamente um artefato – se os resultados de uma análise correlacional assemelham-se à realidade que está por trás, é mais uma coincidência do que um reflexo adequado da realidade. A psicologia tem se tornado uma refém de uma filosofia estreita de tipo matemático que pragmaticamente eleva métodos de análise de dados ao nível de idéias gerais. A realidade dinâmica do desenvolvimento – difícil de se capturar formalmente – é perdida na dominância do pensamento correlacional. Os modelos formais que a perspectiva dos sistemas dinâmicos fornece têm a qualidade intelectualmente refrescante de permitir compreender alguma da dinâmica dos fenômenos do desenvolvimento. No entanto, é meramente um passo na direção da compreensão da historicidade do todo o desenvolvimento.

 

Referências

Arendt, R. (2000). Desenvolvimento cognitivo do ponto de vista da enação. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2), pp.223-232.        [ Links ]

Bussab, V. S. (2000). Fatores hereditários e ambientais no desenvolvimento: A adoção de uma perspectiva interacionista. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2), pp. 233-243.        [ Links ]

Lyra, M. C. D. P. (2000). Desenvolvimento de um sistema de relações historicamente construído: Contribuições da comunicação no início da vida. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2) pp. 255-266.        [ Links ]

Moro, M. L. (2000). A epistemologia genética e a interação social de crianças. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2), pp. 293-308.        [ Links ]

Pantoja, A. P. F. & Nelson-Goens, G. C. (2000). Desenvolvimento da vida emocional do bebê durante o segundo ano de vida: Narrativas e sistemas dinâmicos. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2), pp. 243-254.        [ Links ]

Rossetti-Ferreira, M. C., Amorim, K. S. & Silva, A. P. (2000). O ser humano em construção através de uma rede dinâmica de significações. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2), pp.279-291.        [ Links ]

Seidl de Moura, M. L. & Ribas, A. F. P. (2000). Desenvolvimento e contexto sociocultural: A gênese da atividade mediada nas interações mãe-bebê. Psicologia: Reflexão e Crítica, 13(2), pp.217-222.        [ Links ]

 

 

Recebido em 25.05.99
Aceito em 25.05.99

 

 

Sobre o autor:

Jaan Valsiner é professor de Psicologia do Departamento de Psicologia da Frances L. Hiatt School of Psychology da Universidade de Clark/EEUU. PhD em Psicologia pela Universidade de Tartu/Estonia. Linha de Pesquisa: organização cultural dos processos de desenvolvimento cognitivos, afetivos e emocionais. A partir do intercâmbio estabelecido com a Professora Lyra em 1989, tem visitado o Brasil e ampliado fortemente os seus contatos em nosso país. Editor da série Advances in Child development within Culturally Structured Environments, da revista científica Culture & Psychologic e da série iniciada em 1998 From Past to Future - Clarck Papers on the History of  Psychology.

 

1 Endereço para correspndência: Frances L. Hiatt School of Psychology, 950 Main Street, Worcester, MA 01610-1477, USA. Fone (001-508) 7938862, Fax: (001-508) 7937265. E-mail: jvalsiner@clarku.edu