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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.13 n.3 Porto Alegre  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722000000300014 

Responsividade e Exigência: Duas Escalas para Avaliar Estilos Parentais

 

Fabiana T. da Costa 1  2
  Marco A. P. Teixeira
William B. Gomes
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


Resumo
O objetivo deste estudo foi traduzir e adaptar duas escalas que avaliam as dimensões de responsividade e exigência parentais com adolescentes, as quais permitem a classificação de quatro estilos parentais. As escalas foram aplicadas a 378 adolescentes, tendo apresentado índices de consistência interna adequados (alpha entre 0,70 e 0,83). Análises de variância revelaram que a exigência materna percebida foi maior do que a paterna entre adolescentes de ambos os sexos, mas as garotas perceberam níveis de exigência (materna e paterna) mais altos do que os garotos. A responsividade materna observada foi superior à paterna para ambos os sexos, porém as mulheres atribuíram escores de responsividade mais altos às suas mães do que os homens. Não houve diferenças entre os sexos quanto ao nível de responsividade paterna. A proporção de estilos parentais observada nesta amostra foi 13,3% (autoritário), 36,7% (autoritativo), 14,5% (indulgente) e 35,5% (negligente), sugerindo que nossa cultura não é tão permissiva quanto se supõe usualmente.
Palavras-chave: Estilos parentais; adolescência; família.

Respondingness and Demandingness: Two Scales to Evaluate Parenting Styles

Abstract
The aim of this study was to translate and adapt two scales of parental responsiveness and demandingness to Portuguese (Brazil). According to these scales levels, it is possible to categorize four parenting styles. The scales were administred to 378 adolescents of both sexes and showed satisfactory reliability coefficients (alpha between 0,70 and 0,83). Analysis of variance indicated that perceived mothers’ demandingness was greater than fathers’ for both sexes, but girls observed higher levels of parental demandingness than boys. Both males and females attributed higher scores of responsiveness to their mothers than to their fathers, but girls scored higher on mothers’ responsiveness than boys. No significant differences between sexes were found for fathers’ level of responsiveness. The frequency of parenting styles observed in this sample was 13,3% (authoritarian), 36,7% (authoritative), 14,5% (indulgent) and 35,5% (negligent), suggesting that, in this culture, parents migth not be as permissive as usually believed.
Keywords: Parenting styles; adolescence; family.


 

 

As mudanças nas relações entre pais e filhos decorrentes das transformações pelas quais a família vem passando têm levado a um crescente questionamento sobre o papel dos pais na educação de seus filhos. Nos últimos anos, diversos trabalhos (por exemplo, Dornbusch, Ritter, Leiderman, Roberts & Fraleigh, 1987; Glasgow, Dornbusch, Troyer, Steinberg & Ritter, 1997; Lamborn, Mounts, Steinberg & Dornbusch, 1991; Maccoby & Martin, 1983; McIntyre & Dusek, 1995; Slicker, 1998; Steinberg, Elmen & Mounts, 1989; Weiss & Schwarz, 1996) têm dedicado atenção especial aos estilos parentais, isto é, às formas como os pais lidam com as questões de poder, hierarquia e apoio emocional na relação com os filhos. Tais estudos têm demonstrado que o estilo parental tem significativa influência em diversas áreas do desenvolvimento psicossocial de adolescentes, tais como ajustamento social, psicopatologia e desempenho escolar.

Boa parte das pesquisas sobre as práticas educativas que são utilizadas pelos pais preocupam-se com as principais características que diferenciam os diversos modos de criar os filhos. Segundo Maccoby e Martin (1983), os primeiros trabalhos realizados sobre o assunto, muitos deles desenvolvidos através de procedimentos de análise fatorial, sugeriam a existência de duas dimensões fundamentais nas práticas educativas parentais: uma relacionada a atitudes coercitivas, tais como punição física e gritos, e outra ligada a atitudes afetivas, como mostrar desapontamento, orgulho e dar afeto contingente às situações. Foi o trabalho de Baumrind (1966), contudo, que impulsionou o estudo dos estilos parentais, ao integrar tanto os aspectos comportamentais quanto os afetivos envolvidos na criação dos filhos. Baumrind enfatizou a autoridade que os pais exercem sobre os filhos, vendo neste controle a expressão de crenças e valores parentais. No entanto, Baumrind não considerou a autoridade parental como uma dimensão contínua; ao invés disso, ela propôs a existência de tipos parentais que foram chamados inicialmente de autoritativo3 , autoritário e permissivo. De acordo com Darling e Steinberg (1993), muitas pesquisas até o início da década de 80 mantiveram-se de acordo com esta tradição categórica dos estilos, sem preocupar-se com o estudo sistemático de possíveis dimensões subjacentes aos estilos parentais.

Na primeira metade dos anos 80, no entanto, Maccoby e Martin (1983) propuseram um modelo teórico de estilos parentais que trouxe novamente à cena a idéia de duas dimensões fundamentais nas práticas educativas dos pais, denominadas exigência (demandingness) e responsividade (responsiveness). A exigência parental inclui todas as atitudes dos pais que buscam de alguma forma controlar o comportamento dos filhos, impondo-lhes limites e estabelecendo regras. Já a responsividade refere-se àquelas atitudes compreensivas que os pais têm para com os filhos e que visam, através do apoio emocional e da bi-direcionalidade na comunicação, favorecer o desenvolvimento da autonomia e da auto-afirmação dos jovens.

Maccoby e Martin (1983) propõem uma tipologia de estilos parentais definida a partir dessas duas dimensões. Pais com elevada responsividade e exigência são classificados como autoritativos; já aqueles que apresentam baixa responsividade e exigência são tidos como negligentes. Pais muito responsivos mas pouco exigentes são categorizados como indulgentes, enquanto os muito exigentes e pouco responsivos são tidos como autoritários. O conceito de estilo parental, contudo, embora derive-se das referidas dimensões, vai além das práticas parentais propriamente ditas. O estilo é, na verdade, o contexto dentro do qual operam os esforços dos pais para socializar os seus filhos de acordo com suas crenças e valores (Darling & Steinberg, 1993). Em outras palavras, o estilo parental pode ser entendido como o clima emocional que perpassa as atitudes dos pais, cujo efeito é o de alterar a eficácia de práticas disciplinares específicas, além de influenciar a abertura ou predisposição dos filhos para a socialização (Darling & Steinberg, 1993).

O estilo parental autoritativo está mais fortemente relacionado a uma série de aspectos do desenvolvimento tidos como positivos quando comparado aos demais estilos, como por exemplo maturidade psicossocial (Steinberg e cols., 1989), competência psicossocial (Lamborn e cols., 1991), desempenho escolar (Dornbusch e cols., 1987) e vários indicadores de adequação comportamental (Slicker, 1998). De uma forma geral, a dimensão de exigência parece associada à regulação do comportamento do adolescente, com conseqüente redução de comportamentos desviantes, enquanto a dimensão de responsividade parece favorecer o desenvolvimento de autoconceito positivo, autoconfiança e bem-estar psicológico (Lamborn e cols., 1991; Parish & McCluskey, 1992). Muitas outras questões relacionadas à influência do estilo parental no desenvolvimento dos adolescentes, no entanto, necessitam ser melhor investigadas, como os possíveis efeitos diferenciais das práticas educativas de pais e mães sobre o desenvolvimento (Claes, 1998; Paulson & Sputa, 1996) e também possíveis variações que possam existir entre diferentes grupos culturais.

Este estudo apresenta a tradução e adaptação de duas escalas usadas para avaliar as dimensões de responsividade e exigência de pais e mães, as quais permitem que se faça a classificação dos quatro estilos parentais anteriormente mencionados: autoritário, autoritativo, indulgente e negligente (Lamborn e cols., 1991). Foram avaliadas as consistências internas das escalas e suas correlações item-total corrigidas, tendo-se investigado diferenças percebidas pelos adolescentes quanto à responsividade, exigência e estilo parental de pais e mães, assim como possíveis diferenças entre os sexos nestas percepções. Além disso, pretendeu-se colher evidências da validade dessas dimensões através de procedimentos de análise de componentes principais.

 

Método

Participantes

As versões finais das escalas de exigência e responsividade parentais, às quais referem-se os resultados deste estudo, foram respondidas por 378 estudantes que cursavam o ensino médio em três escolas públicas de Porto Alegre que atendem populações de classe média e média-baixa. A média de idade do grupo foi de 15,77 anos com um desvio-padrão de 0,99 (62,7% dos participantes eram do sexo feminino). Esta amostra foi composta apenas pelos adolescentes que responderam a todos os itens de ambas as escalas, tanto em relação aos pais quanto às mães (não foram feitas distinções entre pais naturais ou de criação).

Materiais e Procedimentos

As escalas de exigência e responsividade traduzidas neste estudo foram utilizadas por Lamborn e colaboradores (1991) em uma pesquisa que investigou a relação entre estilos parentais e padrões de competência e ajustamento na adolescência. Estas escalas são instrumentos de auto-relato, originalmente com oito e dez itens (para exigência e responsividade, respectivamente), nos quais os adolescentes avaliam atitudes e práticas de seus pais para consigo relacionadas às referidas dimensões. Os itens escolhidos para compor as escalas do estudo norte-americano foram selecionados de diversas pesquisas que investigaram dimensões de práticas parentais, sendo submetidos a uma análise fatorial exploratória com rotação oblíqua. De tal análise emergiram três fatores: responsividade, exigência e autonomia psicológica. Contudo, para efeitos de classificação de estilos parentais segundo o modelo de Maccoby e Martin (1983), apenas as medidas de responsividade e exigência foram utilizadas nas análises de Lamborn e colaboradores (1991). Os coeficientes de consistência interna (alpha de Cronbach) obtidos nesse estudo foram de 0,72 para a escala de responsividade e 0,76 para a escala de exigência (considerando-se escores combinados de pais e mães). No instrumento original, os itens apresentam opções de resposta diferenciadas (escalas dicotômicas ou Likert de 3, 4 e 7 pontos), sendo que para o cômputo total dos índices de exigência e responsividade os escores dos itens são ajustados a fim de que todos contribuam com igual peso para o escore total. Cada adolescente avalia pai e mãe separadamente, sendo possível calcular um escore médio para a dupla parental. Nenhuma das escalas apresenta itens com sentido oposto ao que pretende ser avaliado.

O processo de tradução e adaptação do instrumento deu-se em diversas etapas. Inicialmente, as escalas de exigência e responsividade foram traduzidas do inglês para o português, separadamente, por três adolescentes brasileiros com proficiência em língua inglesa. As traduções foram revisadas por dois professores da área de psicologia do desenvolvimento, também com elevada proficiência na língua inglesa, que indicaram as melhores versões para cada item (por consenso). Nesta etapa, dois itens que tratam do controle parental sobre horários para saídas noturnas tiveram as opções de resposta adaptadas à nossa realidade pelos pesquisadores, a partir de sugestões colhidas junto aos adolescentes. A fim de se verificar a compreensão dos itens e sugerir possíveis adaptações, foi proposto ainda a 30 adolescentes (provenientes de escolas públicas e particulares, com idades entre 13 e 17 anos) que respondessem as escalas individualmente e sugerissem modificações que aproximassem o conteúdo dos itens a suas realidades. Não foram sugeridas modificações substanciais pelos participantes deste estudo piloto, indicando que os itens eram de fácil compreensão e pertinentes a suas experiências cotidianas. Nesta primeira versão das escalas, manteve-se o sistema de respostas do instrumento original, com alguns itens sendo avaliados dicotomicamente e outros através de escalas Likert de 3, 4 e 5 pontos (dois itens da escala de exigência que tinham sete opções de resposta – relativos a horários para voltar para casa após saídas noturnas – foram adaptados para cinco opções, sendo criadas alternativas compatíveis com a nossa cultura a partir de sugestões de adolescentes).

A primeira versão foi então aplicada a uma amostra de 90 adolescentes (63 mulheres), com idades entre 14 e 18 anos, estudantes do ensino médio de uma escola pública. Análises de correlações item-total corrigidas e de consistência interna das escalas indicaram que dois itens relativos ao controle de horário das saídas noturnas, na escala de exigência, não se correlacionaram como esperado com o restante da escala, sendo então retirados da mesma. Os demais itens, nas quatro escalas (responsividade e exigência para pais e mães) apresentaram correlações satisfatórias (variando de 0,31 a 0,72). Também os índices de consistência interna (alpha de Cronbach) obtidos com esta amostra indicaram que as escalas tinham consistência satisfatória (variando de 0,79 a 0,88). Nesta etapa, contudo, alguns adolescentes manifestaram insatisfação com as opções de resposta nos itens dicotômicos, o que nos levou a padronizar a chave de respostas para todos os itens. As versões finais das escalas de exigência e responsividade, portanto, apresentam seis e dez itens, respectivamente, todos avaliados através de um sistema Likert de 3 pontos (vide Anexo A). O sistema de pontuação utilizado neste estudo permite que cada item contribua com até três pontos (1, 2 ou 3) para o escore total de cada escala, conforme a freqüência ou intensidade com que os adolescentes percebem os comportamentos e atitudes de seus pais descritos nos itens (o escore total é obtido somando-se os pontos dos itens de cada escala). Cada item foi respondido levando-se em consideração as atitudes de pais e mães separadamente. Dessa forma, os escores em exigência podem variar de 6 a 18, e os de responsividade de 10 a 30 (estes valores são duplicados quando se considera os escores combinados de pais e mães). A versão final das escalas foi aplicada coletivamente em salas de aula a 378 adolescentes, cujas características foram descritas na seção anterior. Não foi pedido nenhum dado de identificação pessoal dos sujeitos, sendo voluntária a participação dos alunos na pesquisa.

Posteriormente, a classificação dos estilos parentais foi feita com base nos escores obtidos pelos participantes nas dimensões de responsividade e exigência, conforme a definição operacional dos estilos apresentada na introdução. O critério utilizado para determinar se um escore era alto ou baixo numa dada dimensão, neste estudo, foi o da mediana da amostra. Tal procedimento, embora não favoreça a criação de grupos típicos de cada estilo parental, minimiza a exclusão de casos quando da classificação. Ressalte-se, contudo, que Lamborn e equipe (1991) não encontraram diferenças substanciais em seu estudo (originalmente composto por 9996 casos) quando compararam os resultados obtidos com a classificação através de tercis com aqueles observados quando foi utilizado o critério da mediana para a categorização dos estilos parentais.

 

Resultados

Verificação da Estrutura Semântica Apresentada pelos Itens das Duas Escalas

Exigência e responsividade são tidas, de acordo com o modelo teórico de Maccoby e Martin (1983), como as duas principais dimensões de atitudes e práticas paren–tais em relação aos filhos. Sendo assim, buscou-se verificar, através de uma análise componencial dos itens de responsividade e exigência, se as duas dimensões previstas no modelo se confirmariam empiricamente. Para tanto, foi realizada uma análise dos componentes principais, que indicou a existência de três componentes com eigenvalue maior do que 1. Estes três componentes foram retidos e submetidos à rotação oblíqua, uma vez que as dimensões exigência e responsividade encontram-se empiricamente correlacionadas (no estudo de Lamborn e cols., 1991, a correlação obtida foi r= 0,34, p< 0,001). A Tabela 1 mostra os resultados obtidos nesta análise, quando foram considerados os itens combinados de pais e mães.

 

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Note-se que os itens de responsividade apresentaram cargas elevadas no primeiro componente (à exceção do item 14). Já os itens de exigência tiveram cargas altas em dois outros componentes. No segundo componente predominaram os itens da escala de exigência relacionados às tentativas dos pais de controlar o comportamento dos filhos, enquanto no terceiro componente foram os itens relacionados ao quanto os pais sabem sobre o comportamento dos filhos que apresentaram cargas elevadas, juntamente com o item 14 que possui conteúdo similar. A Tabela 2 apresenta as correlações obtidas entre os três componentes (escores calculados em computador pelo método de regressão). Observa-se que o Componente 1 correlaciona-se fraca e negativamente com os Componentes 2 e 3, enquanto estes últimos se correlacionam fraca e positivamente entre si.

 

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De um modo geral, estes resultados indicam que as dimensões de exigência e responsividade, como operacionalizadas neste estudo, são empiricamente distintas. Embora o desdobramento da dimensão de exigência em dois componentes mereça uma investigação futura mais detalhada, a existência de correlação positiva entre eles nos possibilita tomar os seus itens mais representativos (isto é, aqueles com cargas mais altas) para compor uma única escala. De fato, quando se correlaciona o escore composto dos itens 1, 2 e 3 com o escore composto dos itens 4, 5 e 6, obtém-se uma correlação de r = 0,46, p < 0,001. Assim, os itens considerados na composição das escalas de exigência e responsividade analisadas a seguir correspondem àqueles propostos no estudo original.

Análise dos Itens da Escala de Responsividade

Para pais e mães (combinados) o índice de consistência interna (alpha de Cronbach) foi de 0,81, com correlações item-total corrigidas variando de 0,40 a 0,59. Para pais (apenas), apresentou um alpha de 0,83 (correlações item-total corrigidas de 0,42 a 0,61), e para mães um alpha de 0,76 (correlações item-total corrigidas de 0,33 a 0,56).

Análise dos Itens da Escala de Exigência

Para pais e mães o índice de consistência interna (alpha de Cronbach) foi de 0,78, com correlações item-total corrigidas variando de 0,46 a 0,58. Para pais (apenas) apresentou um alpha de 0,83 (correlações item-total corrigidas de 0,54 a 0,65), e para mães um alpha de 0,70 (correlações item-total corrigidas de 0,33 a 0,50).

Correlações entre as Escalas

A Tabela 3 mostra o padrão de correlações entre as variáveis consideradas neste estudo. Note-se que todas as variáveis estão positivamente correlacionadas entre si, indicando que há relação direta (embora variável em magnitude) entre as atitudes de responsividade e exigência de pais e mães.

 

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Médias das Variáveis Exigência e Responsividade segundo o Sexo

A Tabela 4 mostra as médias obtidas para as variáveis exigência (de pais, mães e combinada) e responsividade (de pais, mães e combinada) nos grupos de homens e mulheres, juntamente com seus respectivos desvios-padrão.

 

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A fim de detectar-se possíveis diferenças significativas entre os níveis de responsividade e exigência percebidos em relação a pais e mães, duas análises de variância 2x2 com medidas repetidas foram realizadas, uma para exigência e outra para responsividade. Os fatores considerados no delineamento foram sexo e progenitor (pai e mãe), sendo a exigência ou responsividade medida em relação a pais e mães a medida repetida.

A Tabela 5 mostra os resultados das análises de variância. Observa-se que, para a variável exigência, foram significativos os efeitos dos fatores progenitor e sexo, indicando que: (a) o escore de exigência percebida das mães foi significativamente superior ao dos pais para ambos os sexos, e (b) as mulheres atribuíram escores de exigência a pais e mães significativamente mais altos do que os homens. Já para a variável responsividade os resultados revelaram uma interação significativa entre os fatores sexo e progenitor, exigindo uma análise posterior mais detalhada. Testes post hoc de Scheffé revelaram que os escores de responsividade atribuídos às mães foram significativamente superiores aos dos pais, tanto entre os homens, p < 0,001, quanto entre as mulheres, p < 0,001. Foram ainda identificadas diferenças significativas entre os sexos nos escores de responsividade materna, sendo que as mães foram percebidas como mais responsivas pelas mulheres do que pelos homens, p < 0,003. Não foram observadas diferenças significativas entre os sexos nos escores de responsividade paterna percebida, p = 0,580.

 

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Por fim, foram realizadas duas comparações de médias (testes t para amostras independentes) para verificar a existência de diferenças entre os sexos nas variáveis exigência e responsividade combinadas (escore combinado de pais e mães). Observou-se uma diferença significativa para a variável exigência, t (376) = 3,77; p < 0,001, mas não para responsividade, t (376) = 0,56; p = 0,39. Novamente as mulheres apresentaram escores mais elevados do que os homens em ambas as variáveis.

Freqüências de Estilos Parentais

A Tabela 6 apresenta as freqüências (percentuais válidos) dos estilos parentais observadas para pais, mães, pais e mães combinados (nesta amostra) e resultados de uma amostra norte-americana (Lamborn e cols., 1991). A classificação dos estilos deriva-se dos escores obtidos (altos ou baixos) nas dimensões de exigência e responsividade, conforme descrito anteriormente. Um teste de qui-quadrado indicou não haver associação significativa entre país de origem da amostra (Brasil ou Estados Unidos) e estilo parental, X2 = 2,98; gl= 3, p = 0,39, permitindo-nos concluir que as proporções de estilos observadas nos dois países são semelhantes.

 

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Discussão

Este estudo teve por objetivo principal a tradução e adaptação para o português de duas escalas que avaliam a exigência e a responsividade parentais, duas dimensões importantes das práticas educativas que os pais têm para com seus filhos adolescentes. Os procedimentos adotados na tradução e adaptação dos instrumentos nos dão uma razoável garantia de que os significados dos itens em português são equivalentes aos originais em inglês. Os resultados da análise dos componentes principais, por sua vez, confirmam a existência de uma dimensão relacionada à responsividade dos pais e sugerem a subdivisão da dimensão de exigência em duas facetas. Uma delas seria o controle explícito (tentativas) que os pais fazem para regular o comportamento dos filhos, enquanto a outra indica a existência de mecanismos de controle implícitos nas relações pais-filhos, através dos quais os pais monitoram o comportamento dos adolescentes sem terem de fazer, necessariamente, intervenções diretas nesse sentido (eles "sabem" o que acontece com os filhos sem exercer um controle ostensivo). Infelizmente, o instrumento não nos permite identificar quais mecanismos operam no ambiente familiar e permitem esse controle tácito do comportamento dos adolescentes por parte dos pais. Esta é uma questão que só poderá ser respondida com novos e mais detalhados estudos. Por fim, apesar da existência dessas duas facetas da exigência, acreditamos que elas possam ser combinadas para compor um único escore de exigência parental, pois nos parecem teoricamente consistentes entre si além de estarem empiricamente correlacionadas. Sugerimos, portanto, que as escalas originais sejam utilizadas para avaliar de maneira genérica as dimensões propostas, e que novas pesquisas busquem identificar de uma maneira mais precisa o número e a qualidade dos fatores envolvidos nas práticas educativas de pais para com seus filhos.

No que se refere às propriedades psicométricas das escalas em português, os resultados obtidos foram altamente satisfatórios. Os índices de consistência interna (entre 0,70 e 0,83) e as correlações item-total corrigidas (entre 0,33 e 0,65) observadas para as escalas de exigência e responsividade nos mostram que, apesar de não serem extensas, elas são fidedignas e podem ser usadas em futuras pesquisas.

Um resultado esperado foram as diferenças observadas em responsividade e exigência atribuídas a pais e mães, sugerindo que a presença das mães é percebida como mais marcante no ambiente familiar no que diz respeito às práticas educativas dos filhos do que a presença dos pais. Resultados semelhantes têm sido consistentemente observados em outros estudos, nos quais as mães são identificadas como o progenitor mais próximo do adolescente, e com quem eles estabelecem contatos mais prolongados e íntimos (Claes, 1998; Hennigen, 1994; Paulson & Sputa, 1996).

Os índices mais elevados de responsividade e exigência percebidas evidenciados no grupo feminino (à exceção da responsividade paterna e combinada) nos fazem pensar em duas hipóteses, que não são necessariamente excludentes uma à outra. Em primeiro lugar, as mulheres podem estar sendo, de fato, submetidas a práticas educativas mais intensas do que os homens, o que as levou a apresentarem escores mais elevados em algumas escalas, especialmente as de exigência. De modo alternativo, pode-se pensar que as mulheres passam por um modelo de socialização que valoriza mais os aspectos interpessoais do que os homens durante o seu desenvolvimento (Josselson, 1994), o que faz com que tenham uma percepção mais aguçada das práticas educativas de seus pais do que os homens (ou se importem mais com elas do que os homens). Assim, pode acontecer que, ao responderem às escalas, as mulheres reconheçam mais as influências parentais do que os homens, o que também poderia explicar as diferenças observadas. De toda forma, cabe ressaltar que a responsividade dos pais (homens) foi igualmente percebida por ambos os sexos, sugerindo que o distanciamento afetivo dos pais (quando comparada a responsividade destes com a das mães) ocorre tanto em relação às mulheres quanto aos homens. Futuros estudos poderiam investigar mais a fundo o impacto que esses diferentes níveis de responsividade podem ter sobre o desenvolvimento dos adolescentes.

Outro dado que merece atenção é a semelhança entre a distribuição percentual dos estilos parentais observada com esta amostra e a distribuição obtida no estudo norte-americano. Tal semelhança nos sugere que as escalas traduzidas possibilitam a discriminação dos estilos parentais de uma maneira coerente com o que é relatado na literatura (desde que se considere que as distribuições dos tipos de estilos sejam de fato parecidas em ambas as culturas, uma hipótese que merece uma investigação mais cuidadosa). No que diz respeito às freqüências de estilos observadas, destaca-se o elevado percentual de pais tidos como autoritativos e negligentes. Estes resultados nos indicam que, na percepção de uma significativa parcela dos adolescentes, seus pais são responsivos mas, ao mesmo tempo, também lhes impõem limites. Além disso, outro grupo igualmente significativo de jovens vê seus pais não apenas pouco envolvidos com eles, mas também pouco preocupados em estabelecer algum tipo de controle sobre o seu comportamento. Em nossa cultura, tida como permissiva, é um tanto surpreendente que o percentual de estilo parental indulgente tenha sido expressivamente inferior ao do estilo autoritativo, nos levando a pensar que a tão falada permissividade dos pais talvez não corresponda à realidade vivida por boa parte dos adolescentes pesquisados. Esta hipótese vai ainda ao encontro dos achados da pesquisa brasileira de Zagury (1997), onde 58,5% dos adolescentes entrevistados considerou a educação que recebeu dos pais "tradicional em algumas coisas, moderna em outras", contra apenas 19,4% que a consideraram "muito moderna, liberal, deixam você livre".

Em síntese, os resultados deste trabalho indicam que as escalas de exigência e responsividade traduzidas são robustas e podem ser utilizadas em novas pesquisas, embora mais estudos sobre a validade destes instrumentos em nossa cultura ainda sejam necessários. Por exemplo, seria importante verificar se o estilo parental autoritativo identificado com o uso destas escalas está associado a indicadores de desenvolvimento saudável na adolescência, como auto-confiança, bem-estar psicológico, bom desempenho acadêmico, comportamento desviante reduzido, etc. (Lamborn e cols., 1991). De qualquer forma, os dados aqui apresentados, em especial no que se refere às diferenças entre responsividade e exigência de pais e mães, às diferenças entre os sexos e à distribuição dos estilos parentais em nossa cultura nos colocam questões que merecem ser investigadas mais detidamente. Além disso, a classificação de estilos parentais a partir das dimensões de exigência e responsividade abre novas perspectivas de pesquisa sobre os efeitos das práticas educativas parentais sobre o desenvolvimento na adolescência, inclusive com a possibilidade de futuras comparações transculturais.

 

Referências

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Recebido em 11.08.1999
Primeira revisão em 13.09.1999
Segunda revisão em 20.10.1999
Aceito em 05.06.2000

 

 

ANEXO A

Itens que compõem as Escalas de Exigência e Responsividade Parentais

Escala de Exigência
Até que ponto teus pais TENTAM saber...
1. Onde tu vais à noite?
2. O que tu fazes com teu tempo livre?
3. Onde tu estás quando não estás na escola?
Até que ponto teus pais REALMENTE sabem...
4. Onde tu vais à noite?
5. O que tu fazes com teu tempo livre?
6. Onde tu estás quando não estás na escola?

Escala de Responsividade
A respeito de teus pais considera os seguintes itens:
7. Posso contar com sua ajuda caso eu tenha algum tipo de problema.
8. Incentiva-me a dar o melhor de mim em qualquer coisa que eu faça.
9. Incentiva-me a pensar de forma independente.
10. Ajuda-me nos trabalhos da escola se tem alguma coisa que eu não entendo.
11. Quando quer que eu faça alguma coisa, explica-me o porquê.
12. Quando tu tiras uma boa nota na escola, com que freqüência teus pais te elogiam?
13. Quando tu tiras uma nota baixa na escola, com que freqüência teus pais te encorajam a esforçar-te mais?
14. Teus pais realmente sabem quem são teus amigos.
15. Com que freqüência teus pais passam tempo conversando contigo?
16. Com que freqüência tu e teus pais se reúnem para fazerem juntos alguma coisa agradável?
Nota: as chaves de resposta para os itens 1, 2 e 3 incluem as opções "não tenta", "tenta pouco" e "tenta bastante". Os itens 4, 5, 6 e 14 têm as alternativas "não sabe", sabe pouco" e "sabe bastante". Para os itens 7 a 13, as possibilidades são "quase nunca", "às vezes" e "geralmente". Já os itens 15 e 16 têm como opções de resposta "quase nunca", "às vezes" e "quase sempre". Para efeitos de cômputo dos escores (em todos os sistemas de resposta) o valor 1 foi atribuído à primeira opção, 2 para a segunda e 3 para a terceira. As escalas foram adaptadas com permissão dos autores do instrumento original (Lamborn e cols., 1991).

 

 

Sobre os autores:

Fabiana Tomazzoni da Costa é Psicóloga formada pela UFRGS. Atualmente cursa especialização em Saúde Mental pela Escola de Saúde Pública (Secretaria Estadual da Saúde/RS), junto ao Hospital São Pedro.

Marco A. P. Teixeira é Psicólogo e Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela UFRGS. Atualmente cursa Doutorado em Psicologia do Desenvolvimento na mesma Universidade.

William Barbosa Gomes é Psicólogo pela Universidade Católica de Perrnambuco e Doutor em Educação pela Southern Illinois University-Carbondale (EUA). É Professor do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

 

1 Endereço para correspondência: Instituto de Psicologia - UFRGS, Rua Ramiro Barcelos 2600, sala 119, 90035-003, Porto Alegre, RS. E-mail: marcoapt@plug-in.com.br. E-mail: gomesw@ufrgs.br
2 Os autores agradecem à professora Jandyra Fachel pela assistência na análise estatística dos dados.