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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.15 no.1 Porto Alegre  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722002000100022 

Contextos Grupais e Sujeitos em Relação: Contribuições às Reflexões sobre Grupos Sociais

 

Andréa Vieira Zanella 1, 2
Clarissa Terres Lessa
Sílvia Zanatta Da Ros

Universidade Federal de Santa Catarina

 

 


Resumo
A partir dos aportes teóricos da psicologia histórico-cultural considera-se que o sujeito se constitui/ é constituído em seus vários aspectos via processo de apropriação, sempre singular, tanto do saber quanto do saber fazer da sociedade. Essa apropriação, por sua vez, não se dá em abstrato, mas através de relações em grupos sociais diversos, onde ganham destaque os lugares sociais imputados aos/assumidos pelos sujeitos.
Cientes tanto da complexidade das teorias de grupos e suas relevantes contribuições para a psicologia, bem como de nossa limitada relação com a temática, é objetivo deste trabalho analisar, a partir de três investigações realizadas com diferentes grupos de adultos escolarizados reunidos em razão de atividades de ensinar e aprender sistematizadas, a dinâmica das relações entre sujeitos e grupos, com destaque para os diálogos estabelecidos entre os mesmos que, nesses contextos, mutuamente se constituíam.
Palavras-chave:
Grupos; constituição do sujeito; lugar social; psicologia histórico-cultural; relações sociais.

Grupal Context and People in Relation: Contributions to Reflections on Social Groups

Abstract
Based on the historical-cultural psychology, it is considered that the person fully develops himself and is developed through a process of appropriation, always singular, of knowledge as well as of know-how of society. This process of apropriation is not abstract, but it happens through relations in diverse social groups, in which are highlighted the social places stated / assumed by people.
Aware of the complexity of the group theories and its relevant contributions to psychology, as well as of our limited relation with the theme, the object of this work is to analisy, from three investigations done with different groups of educated adults on account of systematized teaching and learning activities , the dynamic of the relations among people and groups, highlighting the dialogues established among them that were mutually developed within this context.
Keywords:
Groups; person constitution; social place; historical-cultural psychology; social relations.


 

 

"-a concepção complexa do sujeito nos permite enlaçar indissoluvelmente o 'eu' a 'nós', ao 'se' e a 'isto'. Mas, aqui, apresenta-se o princípio da incerteza, porque nunca sei, exatamente, em que momento sou eu quem fala, se não sou eu falando, se não há algo que fale por mim, mais forte que eu, num momento em que creio falar" (Morin, 1996, p. 54)

 

A citação de Edgar Morin que abre esta seção apresenta a questão de fundo que vem norteando as investigações realizadas pela equipe de pesquisa: a constituição do sujeito, entendida como inexoravelmente social e ao mesmo tempo produtora de singularidades. Considerar a dialética social/singular, por sua vez, é difícil para a racionalidade linear característica de grande parte das ciências - herança do que se denomina modernidade – o que leva aos impasses apontados pelo autor de se considerar o eu e o nós, quem fala quando falo, do que, por que e a quem se fala.

A racionalidade linear acima referida assenta-se sobre uma compreensão de homem que o considera independente do contexto em que se encontra inserido, estabelecendo com o mesmo interações variadas. Por sua vez, contextos

sociais são naturalizados e, enquanto tais, apresentam-se além e aquém de sujeitos reais e concretos e de suas histórias.

Inaugurada na própria emergência do que se costuma intitular "idade moderna", essa racionalidade sustenta-se em "...uma afirmação da idéia de que as pessoas são indivíduos livres e, enquanto tais, indivisíveis, separados, independentes uns dos outros e donos de seus destinos" (Santi, 1998, p. 3). A partir do pressuposto da cisão entre sujeito e realidade, afirma-se o que Figueiredo (1991) denomina como "a experiência subjetiva privatizada", considerada pelo autor uma das condições para o advento da psicologia como ciência e profissão. A esta acrescenta-se uma segunda condição, a crise dessa experiência, resultante da constatação de que os homens não são assim tão livres e independentes.

Considerando que tanto a emergência da experiência subjetiva privatizada quanto a crise dessa experiência decorrem de condições sociais, econômicas e políticas que organizam as relações entre os homens, sendo estes entendidos enquanto sujeitos genéricos3, é possível afirmar que, no século XX, assistimos ao acirramento dessa crise. As importantes mudanças ocorridas nas ciências, tecnologia, artes, comunicação entre outros, que caracterizam esse século como "era dos extremos" (Hobsbawn, 1995), resultantes da/promotoras da "...perda da fé na inelutabilidade do progresso e pelo crescente incômodo com a fixidez categórica do pensamento iluminista" (Harvey, 1993, p. 37), fundamentam inúmeras demandas ao fazer, ao pensar e ao sentir do sujeito contemporâneo.

A informática, ícone dessas transformações, computadoriza a informação trazendo novas imagens, dígitos e signos. A tecnologia eletrônica materializa uma das mais significativas expressões desses "novos tempos": a descorporificação das coisas. Ou seja, o que sela as relações em diferentes planos da vida humana passa a não ser mais o objeto concreto, mas aquilo que o representa e aquilo que ele representa. As relações se processam muito mais por aquilo que está aderido ao objeto/à situação, o que lhe confere um dado significado, do que através do objeto/da situação em si.

Em decorrência, apresentam-se características da cultura contemporânea: experienciação da realidade de modo fragmentado, desordenado, imediatista, descontínuo temporalmente - como diz Jameson (1997, p. 53), as experiências são vivenciadas como "uma série de puros presentes não relacionados no tempo". Dessas experiências resultam relações do homem com a realidade marcadas pelo imediatismo, que se expressa pela necessidade de respostas cada vez mais rápidas às demandas do meio, e pela "percepção episódica da realidade", aquela que privilegia a experiência sensorial da qual resultam respostas diretas e lineares aos estímulos (Feuerstein, 1985). Tanto o imediatismo quanto a percepção episódica da realidade imprimem, por sua vez, padrões de comportamento que de certo modo afastam o homem tanto de sua história pessoal, da história de seus grupos de referência quanto da história da própria civilização humana.

Pelo exposto até então destaca-se que considerar as profundas transformações que vêm ocorrendo em uma velocidade espantosamente rápida, o que resulta em uma sociedade extremamente instável e em constante mutação, constitui-se como indispensável na medida em que as grandes transformações econômicas, tecnológicas e sociais têm gerado significativas mudanças nas relações sociais e, em conseqüência, nos próprios sujeitos. Isso porque, fundamentando-nos nos pressupostos da psicologia histórico-cultural, é possível afirmar que todas estas mudanças, características da contemporaneidade, foram e são produzidas/reproduzidas/transformadas por homens concretos que, em meio a novas necessidades, recriam a realidade ou mesmo relacionam-se com ela a partir de como a significam. Nesse movimento, constantemente re-criam a si mesmos, pois tais mudanças não acontecem a despeito dos sujeitos e estes são tanto os produtores quanto o produto desta realidade fragmentada, desordenada e imediatista.

Introduz-se assim a questão da constituição do sujeito, temática que demarca de certo modo a especificidade da ciência psicológica e a justifica. As investigações sobre a mesma datam dos primórdios da própria psicologia, sendo reconhecida por denominações variadas - personalidade, subjetividade, identidade – e sujeitas a explicações igualmente diversas, por vezes antagônicas. De modo geral, podem ser agrupadas em explicações que partem do pressuposto da potência do sujeito frente à realidade ou, em sentido inverso, de sua impotência. Repensar essa perspectiva dicotômica implica, entre outras questões, considerar a dinâmica da relação sujeito-sociedade como fundante de similaridades e singularidades que necessitam ser compreendidas na complexa trama que as opõem, negam, produzem, reproduzem, enfim, constituem. Tratam-se de pólos que mantém especificidades, porém produzidas no interjogo das relações em que tanto o sujeito constitui o social quanto por este é constituído, pois

"...a sociedade é, sem dúvida, produto da interação entre indivíduos. Essas interações, por sua vez, criam uma organização que tem qualidades próprias, em particular a linguagem e a cultura. E essas mesmas qualidades retroatuam sobre os indivíduos desde que vêm ao mundo, dando-lhes linguagem, cultura, etc. Isso significa que os indivíduos produzem a sociedade que produz os indivíduos" (Morin, 1996, p. 48).

Desse modo, o sujeito de que se fala somente pode ser entendido enquanto tal na medida em que é histórico e socialmente constituído, pois desde que nasce se apropria das características humanas objetivadas nos diversos elementos da cultura. Por sua vez, esse mesmo sujeito, através de sua atividade, objetiva-se e imprime sua marca no contexto social em que se insere, objetivação esta mediada pelo que foi socialmente apropriado4.

Ao discutir a constituição do psiquismo humano, Vygotski (1991a, 1991b, 1991c) destaca que, a partir da apropriação da significação5 de determinadas pautas interativas, o homem torna-se capaz de auto-regular a própria conduta, constituindo-se como sujeito de sua própria ação e vontade. O autor não enfoca de forma direta a questão da "submissão à vontade dos outros", implícita na própria etimologia da palavra "sujeito", porém é evidente que, na medida em que concebe os homens como constituídos social e historicamente, mantém implícita esta perspectiva.

Compreender o sujeito como histórica e socialmente constituído, ou o social enquanto resultante da atividade de homens concretos que, por intermédio dessas atividades se objetivam e subjetivam, requer um esforço teórico-metodológico que permita lidar com supostos antagonismos, sem perder de vista a noção da constituição mútua. Uma das grandes dificuldades diz respeito ao "que do social constitui o sujeito" (Góes, 1993), ou seja, em que medida há um "eu" que, socialmente constituído, caracteriza-se como singular. Se singular, expressa especificidades, porém estas não se descolam dos contextos em que são produzidas, sendo pois expressão das próprias condições sociais, econômicas, políticas e ideológicas. Nesse sentido, Morin (1996, p. 48) afirma que o indivíduo é um objeto incerto: "Do nosso ponto de vista é tudo, sem ele não há nada. Mas, a partir do outro, não é nada, se eclipsa".

A partir do referencial teórico aqui utilizado, por sua vez, "a esfera do social é considerada não como a do outro, a de uma instância à parte e encerrada em si mesma, mas fundamentalmente a da relação com o outro, da interlocução em que a minha fala ou gesto origina-se nesse outro e a ele se destina. Nesse sentido, não pressupõe necessariamente a presença física, pois a relação eu-outro pode fundar-se no diálogo com um personagem ausente ou imaginário, idéias ou valores que caracterizam a coletividade anônima da qual participamos ou mesmo outra que elegemos como parceira para o diálogo". (Zanella, 2000, p. 78)

É pois no contexto das relações sociais que a constituição dos sujeitos acontece, sendo esta resultante da apropriação da cultura em seus diversos aspectos. Essa apropriação, por sua vez, é marcada pelas características dos grupos sociais dos quais os sujeitos fazem parte/participam e dos lugares sociais que ali assumem.

O conceito de lugar social refere-se às posições de referência imputadas socialmente aos sujeitos e por estes assumidas, caracterizando-se assim como posição simbólica e não referência topográfica. A partir das contribuições de Bakhtin (1990), Nuernberg (1999, p. 6) apresenta o conceito de lugar social "(...) como um espaço simbólico através do qual os sujeitos produzem enunciados dirigidos a uma audiência específica". Trata-se portanto de um conceito relacional que permite analisar as relações sociais sob o prisma da história que as constitui e conforma, sendo esses mesmos lugares sociais passíveis de re-significação pelos sujeitos, uma vez que estes são produtores ativos da própria história.

Considerando pois a perspectiva da mútua constituição entre sujeitos e grupos, os movimentos que ambos produzem no contexto das relações sociais são ao mesmo tempo marcados pela história dos próprios sujeitos em relação e dos lugares sociais que ocupam na complexa trama em que se envolvem. Ao mesmo tempo, essas histórias e lugares são constantemente transformados, o que caracteriza essa relação como diálogo permanente marcado por movimentos nem sempre harmônicos. A análise de alguns desses movimentos faremos aqui, a partir do resgate de três investigações desenvolvidas com diferentes sujeitos e grupos, todos adultos escolarizados envolvidos em situações de ensinar e aprender sistematizadas.

 

As Investigações de que Partimos

As três investigações que serviram de base para nossas reflexões apresentaram peculiaridades no que se refere aos objetivos e procedimentos utilizados, decorrentes de necessidades específicas, o que poderá ser compreendido via sínteses que seguem. A perspectiva de análise de cada investigação, por sua vez, que permitiu estabelecer contrapontos e reconhecer similaridades, foi comum: buscou compreender o movimento dos sujeitos e dos/nos grupos, posto que "só em movimento as coisas são o que são"

(Vygotski, 1987, p. 74). Entende-se que essa característica permite a análise conjunta e o estabelecimento de aspectos que nos levam a refletir sobre a complexidade das relações sujeitos e grupos.

Investigação I – O processo de constituição do sujeito foi analisado, nesta investigação, a partir do diálogo travado por um sujeito com o grupo social que faz da renda de bilro atividade de seu reconhecimento e expressão. Às entrevistas e filmagens do processo de ensinar e aprender a fazer renda envolvendo o sujeito aprendiz e a professora, realizadas por Zanella (1997), somaram-se duas (2) novas entrevistas semi-estruturadas e filmagens do sujeito assistindo e comentando as filmagens anteriores.

O sujeito estudado nasceu no seio de um grupo rendeiro – sua mãe, irmãs, tias e vizinhas teciam diariamente a renda de bilro - , porém não se dedicou à atividade durante muito tempo. Foi por uma necessidade profissional que, após 15 anos, reaproximou-se da renda, matriculando-se em uma Oficina de Renda de Bilro. Enquanto funcionária de uma entidade cultural participava, na ocasião, de um projeto que tinha por objetivo resgatar os diferentes modelos de renda de bilro para a constituição de um acervo, iniciativa esta pautada pela preocupação com a paulatina extinção da atividade.

Com a oficina lhe foi possível re-aprender a manejar os instrumentos utilizados na confecção da renda de bilro, o que a possibilitou tanto a confecção de peças segundo os modelos tradicionalmente tecidos pelas rendeiras, quanto a produção de novas peças, sendo o ritmo do seu tecer caracterizado como lento em razão do tempo reduzido que dispunha para se dedicar à atividade. Como resultado, não era considerada pelas rendeiras como pertencente a este grupo social, posto que não compartilhava das características consideradas por estas como elementos de identificação: tecer com agilidade e produzir modelos tradicionais de renda.

O movimento que faz em relação ao processo de exclusão a que é sujeita carateriza o diálogo que trava tanto com a atividade de tecer a renda de bilro quanto com as rendeiras: ao invés de se conformar, re-significa o "ser rendeira", imprimindo a um significado historicamente produzido sua marca, resultado das complexas transformações da realidade social que vêm reorganizando as condições de vida das mulheres naquele contexto específico.

Investigação II – Esta investigação baseou-se num trabalho pedagógico que associou dois grupos de pessoas marginalizadas. O mesmo pautou-se no processo de interação/mediação grupal permeado por questões afetivas e intelectuais voltadas ao enfrentamento do legado social relativo à deficiência ou à incapacidade. As ações pedagógicas basearam-se na metodologia utilizada na tese de doutorado de Da Ros (1997). A primeira etapa desta investigação consistiu na preparação dos sete sujeitos ditos deficientes para atuarem como coordenadores de atividades artísticas e de lazer, junto a senhoras idosas institucionalizadas. A coleta de dados ocorreu via filmagem de reuniões alternadas bem como pelo registro cursivo de algumas reuniões, o que permitiu visualizar o processo de constituição dos sujeitos em alguns de seus momentos. Deste processo decorreu o trabalho semanal – como segunda etapa da investigação – com as senhoras de um asilo situado na periferia da cidade de Florianópolis. Alguns destes momentos também foram registrados em imagens.

Constatou-se que o trabalho dos sujeitos com história de deficiência com outro grupo marginalizado – idosos – foi extremamente relevante para ambos os grupos. Para as idosas, considerando a sua dupla exclusão: a idade avançada e a vida numa instituição de amparo àqueles que perderam sua inserção no mundo da produtividade; para os sujeitos com história de deficiência, por contribuir para o desenvolvimento de sua modificabilidade, ainda que relativa, em relação ao legado social e pelas formas alternativas de lidar com este.

O encontro dos dois grupos foi mediado pela arte - algumas experiências em artes plásticas. Esta, ao superar a expressão pela expressão para alcançar um patamar sintônico com processos mais complexos que aqueles proporcionados pelo imediatismo do vivenciado, selou relações que aproximou os dois grupos através de uma linguagem comum: a atividade criadora. Além disso fundou interações voltadas ao devir, tanto dos e nos encontros semanais quanto no decorrer de todo o percurso traçado.

Os primeiros traziam expectativas de algo prazeroso ou de uma forma diferente de lançar-se em um mundo novo. Assim disse Dona Rosa (integrante do grupo dos idosos): "Eu sempre quis pintar, desde pequena dizia para a minha mãe e só agora que consegui. Eu penso no que faço e daí não fico pensando bobagem durante o intervalo entre uma aula e outra. Assim é melhor". Ao dizer isto expressava muito contentamento. Estava contente, também, com o fato de poder caminhar com maior autonomia, antes usava muletas mas as manejava com muita dificuldade, tinha medo de ir de um lugar a outro. Depois começou a fazê-lo com certa confiança, deslocando-se sozinha de sua cama até a mesa de trabalhos do grupo de artes.

Algumas interações traziam a possibilidade de pensar-se a si próprio e a atividade como uma maneira de transformar-se. Uma das coordenadoras do grupo de pessoas com história de deficiência que havia verbalizado nas sessões iniciais algo sobre o seu medo de ficar velha, começou a ver e entender a velhice a partir de uma outra perspectiva: "A velhice não é a morte, mas é preciso preparar-se para ficar velho".

Estes momentos falam do processo de constituição dos sujeitos, sobre aquilo que se universalizou enquanto organização da totalidade do grande grupo (o não à deficiência e à incapacidade) e, principalmente, da dimensão que traz a arte segundo Vygotski (1998), ou seja, de que a mesma, enquanto atividade mediada, implica em algo que transforma, que supera o episódico.

Investigação III – Esta investigação foi realizada com um grupo de servidores públicos federais participantes de um programa de formação de gerentes em serviço (PFGS), elaborado em resposta à demanda de muitos funcionários que identificavam problemas gerenciais na instituição. A coleta de dados foi feita através de gravação em fita cassete de depoimentos dos participantes; fotografias do grupo e de seus membros no decorrer das atividades; imagens em vídeo; produções escritas, decorrentes das atividades propostas; anotações feitas pelo monitor da turma e avaliação escrita feita pelos sujeitos.

A partir dos dados coletados constatou-se que a turma pesquisada constituiu-se enquanto grupo, o que entendemos possível a partir do momento em que engendra ações coletivas. Os indicadores de tal constituição foram os momentos em que os sujeitos: 1) disponibilizaram-se a um relacionamento informal e pessoal; 2) tomaram a iniciativa e mobilizaram-se coletivamente na produção de algo não previsto pelo programa, tais como atividades, discussões, entretenimento, etc; 3) buscaram um objetivo sempre coletivo nas tarefas propostas pela coordenação; 4) apresentaram-se como porta-vozes do grupo; 5) produziram circunstâncias que permitiram a constituição/manutenção do grupo; 6) assumiram lugares sociais diferenciados, ou seja, não cristalizados; e, 7) criaram estratégias para se manterem como grupo, a despeito de condições não favorecedoras.

Concomitante à análise do processo grupal foi investigado o movimento de constituição de dois sujeitos nesse contexto, Sara e Hélio, tendo sido observadas as relações que estabeleceram com os colegas e a participação nas atividades propostas. Com relação a Sara, no início do programa fez um movimento de afastamento do grupo e foi de certo modo excluída por este, em decorrência do modo como se revelou: altamente crítica e exigente, tendo sido vista também como problemática, encrenqueira, chata. Porém, ao aproximar-se o final das atividades, Sara começou a fazer um movimento de união com o grupo, indicando que se apropriou do seu modo de funcionamento, lidando com algumas situações de uma forma diferente da costumeira.

Quanto a Hélio, esse se apresentou ao grupo mostrando como características suas a inconstância e instabilidade. Apesar de fazer um movimento inicial de afastamento, o grupo o aceitou em sua singularidade, com as características ali demonstradas. Paulatinamente o acolheu, chamando-o a participar mais e, assim, inserir-se no grupo.

 

O Movimento dos Sujeitos e dos/nos Grupos

O contexto atual, conforme apontamos na fundamentação teórica, caracteriza-se por relações sociais cada vez mais descoladas dos próprios sujeitos que a produzem. A descorporificação das experiências, a perspectiva a-histórica que naturaliza sujeitos e contextos, a fragmentação da realidade e sua descontinuidade temporal (conforme Jameson, 1997), resultam em sujeitos cujas relações se pautam pelo imediatismo e busca incessante de conquistas que, tão logo obtidas, tornam-se efêmeras.

Embora predominantes, tais características vêm sendo/precisam ser continuamente combatidas, pois urge a produção de uma nova sociedade pautada em relações sociais éticas e democráticas que permitam a superação do alarmante quadro de exclusão social em que hoje nos encontramos. Para tanto, é necessário investigar sujeitos nos diferentes contextos em que se inserem, com o intuito de compreender os movimentos e mudanças que mutuamente produzem. Essa questão é maximizada quando se toma por base os processos de ensinar e aprender em situações sistematizadas, os quais se pautam na intencionalidade dos sujeitos que ali se encontram.

Profundamente complexas e abrangentes, as problemáticas ora arroladas consistem em plano de pesquisa cujas respostas demandam anos de investigação. Não nos atrevemos a querer aqui respondê-las, porém as investigações realizadas possibilitam tecer algumas considerações sobre a dinâmica das relações estabelecidas por adultos - os sujeitos de pesquisa - a partir de atividades de ensinar e aprender sistematizadas, com destaque para os diálogos estabelecidos entre os sujeitos e grupos que mutuamente se constituíam.

As três investigações caracterizaram-se por direções diversificadas: a primeira analisou a dinâmica das interlocuções travadas por um sujeito a partir de uma atividade específica – o fazer renda de bilro – com o grupo social que faz desta atividade ícone que o constitui e consolida. Nesse embate, o sujeito re-significou tanto a própria atividade e o seu produto, quanto quem a objetivou – as renderias - num movimento que redimensionou a todos em razão da dinâmica das relações e práticas sociais que caracterizam o contexto atual. Como resultado, modificaram-se sujeito e grupo de referência, posto que a atividade que permitiu consolidá-los a partir de uma relação de pertença constituiu-se nesse caso como fundamento do diálogo estabelecido com os muitos outros que caracterizam a cultura da qual fazem parte/participam ativamente (análise pormenorizada desse processo encontra-se em Zanella, Balbinot & Pereira, 1999 & 2000)

Quanto à segunda investigação, é possível considerar que os "muitos outros que caracterizam a cultura" expressaram-se de diversas formas: o encontro promovido entre sujeitos que têm uma história marcada pela discriminação – os chamados "deficientes – com sujeitos também sujeitados a discriminações que secundarizam as suas experiências – as velhas - possibilitou a todos re-significarem suas histórias e imprimirem às relações das quais participam características distintas daquelas até então vivenciadas.

Os sujeitos com histórias de deficiência puderam assumir um novo lugar social enquanto coordenadores de grupo e reconheceram-se não como sujeitos incapazes e passivos frente às exigências da sociedade, rompendo assim com o legado cultural da inoperância e impotência. A conquista realizou-se num determinado lócus, com novas significações e sentidos. Quanto aos velhos, considerados socialmente como um problema em razão da suposta deficiência orgânica, o que é adequadamente discutido por Sais (2000), puderam revelar-se como artistas, como produtores do novo do qual resultaram emoções que marcaram suas vidas (análise desse processo encontra-se em Da Ros, 2000).

Pelo exposto constata-se que nessas investigações foi possível verificar o movimento (in) tenso dos sujeitos em relação a lugares sociais historicamente produzidos que a eles eram designados. Nice, sujeito da investigação 1, dialoga através da atividade de fazer renda com a tradição e as rendeiras que buscam perpetuá-la. Nesse embate, re-significa tanto o ser rendeira quanto os produtos dessa atividade, imprimindo-lhe características que singularizam tanto a renda como sua artesã.

Na investigação 2, os lugares da exclusão resultantes da deficiência ou velhice, embora não tenham sido superados posto a firmeza com que cotidianamente são reafirmados, puderam ser ali confrontados com as possibilidades outras produzidas por esses sujeitos.

Na investigação 3, por sua vez, a reflexão suscitada pelas condições de trabalho dos servidores públicos e o lugar que assumem no contexto social, embora circunscritas pelo encerramento prematuro do programa de formação do qual participaram, produziu inquietações, mobilizou interesses e permitiu o reconhecimento das possibilidades e limites das necessárias ações coletivas em prol da transformação dessas mesmas condições e lugares.

Lugares sociais historicamente produzidos foram, portanto, nos contextos grupais foco das investigações realizadas, ativamente re-significados pelos sujeitos em relação. Consistiram assim em indicadores das mudanças ali produzidas, tanto nos sujeitos em particular quanto nas relações que compunham os grupos dos quais participavam.

Outra temática que merece considerações diz respeito aos grupos em si e as diferentes formas como se constituíram. Na investigação 1 observou-se que havia a princípio um grupo social já constituído, considerado pela literatura como espontâneo: sua formação decorreu de um processo histórico onde sujeitos passaram a se identificar em razão de uma atividade específica – o fazer renda de bilro. O movimento analisado foi, nesse caso, o de inclusão de um novo integrante no referido grupo.

Importante observar que, embora a afirmação da inclusão só seja possível a partir das falas de sujeitos que a este grupo efetivamente pertencem, o que nos interessou analisar foi a fala do sujeito investigado sobre sua própria condição em relação ao grupo social "rendeiras da Lagoa da Conceição". Destaca-se em seu discurso o sentimento de pertença, o fato de considerar-se uma rendeira na medida em que sua atividade é movida pelo desejo de contribuir para que a renda de bilro não desapareça enquanto manifestação cultural, ainda que para tanto precise ser modificada. O pertencer, neste caso, assume contornos diferentes do que pontuamos no capítulo da fundamentação teórica: de acordo com a literatura consultada, pertencer a um grupo significa pautar sua conduta pelas características e exigências deste. O que constatamos, no entanto, foi o movimento de um sujeito que ativamente re-significou essas características e exigências, modificando-as e sendo ao mesmo tempo por elas modificado.

No caso da investigação 2, deflagrou-se o processo de constituição do grupo de futuros coordenadores sendo o mesmo marcado pela aliança dos membros que já se conheciam: estes disputavam com os demais componentes determinados lugares sociais de diferenciação, algo como "já sabemos mais do que vocês, conhecemos as coordenadoras antes de vocês...". Manifestações de controle, preconceito e disputa de mando foram evidentes nos primeiros encontros.

O estabelecimento e consolidação de um espaço em cada sessão para que se falasse de si e do grupo, para que se pudesse ver no que e quando "eu me relacionei com os demais mediado pela deficiência", o compartilhar dos momentos em que atuavam como adultos, com história de deficiência mas não como deficientes e incapazes, o exercício metacognitivo constante, enfim, todos esses aspectos conferiram outro panorama às relações. Como resultado, constituiu-se um grupo que foi capaz de assumir uma tarefa comum, a de mediadores de atividades artísticas e de lazer junto à velhice institucionalizada.

Além da coordenação, o grupo de pessoas com história de deficiência fazia todo o planejamento daquilo que seria desenvolvido com as senhoras, discutindo o objetivo das atividades, avaliando o que já havia sido executado tanto em relação à atividade como um todo, quanto do desempenho do coordenador e de seus companheiros que, no caso, atuavam como auxiliares na distribuição do material e ajuda ao coordenador em momentos que as senhores necessitavam de mediação.

As idosas que participaram do trabalho, por sua vez, não compunham um grupo: constituíam-se na verdade como um agrupamento de seis a oito senhoras que realizam atividades a elas propostas. Havia momentos de troca, de comunicação, de conversas sobre aquilo que produziam; a tarefa era comum, mas a execução e seus resultados era individual, sendo, na maioria das vezes, marcado por um ensimesmamento. O que compartilhavam era a alegria de pintar, fazer dobraduras, entre outras atividades.

Foi um processo árduo e que não garantiu aos componentes do grupo sucesso em toda sua empreitada, mas ficou claro o deflagrar do processo de auto-regulação (Vygotski, 1991c) que permitiu reconstruir, numa outra direção, o legado social da incompetência, re-significando-se como sujeitos capazes. Isto foi possível em razão da experiência vivida, pois...

"O processo de mudança onde o aprender promove o desenvolvimento, dá-se através de uma aproximação ou interação mediada ativa, isto é, aquela que concebe o ser humano como capaz de se transformar e que restitui à pessoa com história de deficiência (...) a possibilidade de se relacionar com o mundo de uma forma diferente daquela marcada pela condição de deficiente (Da Ros, 1997, p. 44)".

A produção de novos significados, por sua vez, resultou de uma construção mútua entre o "grupo de deficientes" e as idosas, tanto nos momentos de interação presencial, quanto nos momentos de preparação de si como mediadores, momentos de encontro de subjetividades que partilhavam um projeto na prática e de subjetividades anônimas que apareciam nas interlocuções onde o tema era a velhice, a "deficiência" e a "incapacidade".

Com relação à investigação 3, havia a princípio um grupo espontâneo, de servidores públicos federais, que se reconhecia enquanto tal na medida em que ações coletivas eram promovidas por seus participantes (no momento em que participavam do programa de formação havia um movimento grevista nacional dos funcionários dessa instituição pública). Outros sinalizadores desse reconhecimento foram explicitados já no primeiro dia de atividades: os discursos proferidos em relação à instituição - reveladores da satisfação quanto ao local de trabalho - bem como em relação às condições de trabalho – consideradas inadequadas, em especial no que se refere à remuneração – indicavam de saída o fato de reconhecerem-se enquanto integrantes de um coletivo. Se neste caso havia um grupo espontâneo que era reconhecido pelos seus integrantes, no decorrer do processo de formação em serviço constatou-se a constituição de um novo grupo. A partir das atividades e situações ali promovidas, as relações entre os sujeitos foram assumindo características diversas, o que possibilitou o estreitamento de vínculos sociais. Esse processo, no entanto, não foi linear e muito menos homogêneo, pois para além do projeto de harmonia característico das leituras funcionalistas dos grupos, analisadas por Rodríguez e Hera (1998), ou do projeto de libertação destacado por Lane (1985), entendemos que grupos se constituem como espaços interpsicológicos em permanente movimento, onde embates são produzidos, alianças firmadas e/ou rompidas, contradições explicitadas e/ou camufladas. O processo vivido por aqueles sujeitos no decorrer das duas semanas em que estiveram juntos caracterizou-se, portanto, pelo movimento tenso e intenso que possibilitou reconhecerem-se e desenvolverem ações coletivas.

A propósito da construção da pertença é importante compreender que esta condição relaciona-se à noção de totalidade, onde cada parte do todo é simultaneamente sua sustentação e manifestação. A dialeticidade da pertença se expressa no tornar próprio algo que é social e constituir o social com o que de si é próprio, produzindo-se aí um complexo de encontros e desencontros que justamente caracteriza o movimento dos sujeitos e o/no grupo como vir-a-ser.

Considerando a apropriação do que foi vivenciado nos contextos grupais como totalidade - sendo a apropriação aqui entendida como sinônimo de internalização tal como proposto por Vygotski, ou seja, como processo de "reconstrução interna de uma operação externa" (Vygotski, 1991c) - vislumbra-se o vir-a-ser como possibilidade do sujeito que, ao constituir-se em ator social, seja simultaneamente fonte de produção de novos atores em relação aos grupos sociais dos quais cotidianamente participa. A re-significação de si mesmo, viabilizada nos grupos de reflexão propostos é, assim, possibilidade de produção de novas relações sociais que, por sua vez, detonam novos movimentos, novos encontros e desencontros, debates e embates, materializando nesse processo o vir-a-ser.

Por fim, importante destacar aqui alguns aspectos que as investigações realizadas nos permitem apontar como viabilizadores de um profícuo diálogo com a literatura consultada a respeito de grupos e sua formação. Se, por um lado, as teorias de grupo analisadas por Carlos (1998) o consideram enquanto tal na medida em que prevalecem relações cooperativas e marcadas por forte conteúdo afetivo - entendendo afeto como sentimento positivo –, os grupos analisados e as relações ali entabuladas permitem afirmá-lo como contexto plural, marcado pelo encontro/ desencontro/ confronto de diferentes sujeitos, enfim, como espaço em que sentimentos diversos podem ali emergir e se expressar.

Nas análises realizadas, resultado do confronto com realidades diversas, deparamo-nos portanto com situações que nos impedem de pautar novas leituras sobre processos grupais a partir da noção de um ideal de grupo, o que diferencia as reflexões aqui apresentadas tanto das que seguem a tradição lewiniana – onde o grupo é visto como estrutura coesa que congrega relações sociais coerentes e regulares – quanto das apontadas por Lane (1985) – onde o grupo é condição de libertação dos sujeitos a partir da produção coletiva (vide Carlos, 1998). Libertação e dominação, coerência e incoerência, regularidade e irregularidade: o grupo social, de acordo com o que nos foi possível aprender e apreender até então, é na verdade um espaço de encontro/confronto de singularidades que ali se expressam/ constituem/ transformam, configurando ao mesmo tempo como um coletivo e lócus de diferenças.

 

Referências

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Recebido:17/11/2000
Revisado: 08/07/2001
Aceito: 16/08/2001

 

 

Sobre as autoras

Andréa Vieira Zanella é Professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutora em Psicologia da Educação pela PUCSP. Pesquisadora do CNPq.

Sílvia Zanatta Da Ros é Professora do Departamento de Estudos Especializados em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutora em Psicologia da Educação pela PUC-SP.

Clarissa Teres Lessa é Acadêmica do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Bolsista de Iniciação Científica do CNPq.

 

 

1 Endereço para correspondência: UFSC – CFH – Departamento de Psicologia, Campus Trindade, Florianópolis,SC, 88010-970. Fone/Fax: (48) 3319984. E-mail: andreavz@uol.com.br
2
Agradecemos ao CNPq pelo apoio a esta pesquisa.
3
Uma discussão a esse respeito pode ser encontrada em Zanella (2001).
4
Uma discussão aprofundada sobre os processos de apropriação e objetivação segundo a perspectiva marxista encontra-se em Duarte (2000).
5
A significação é entendida, segundo os aportes vygotskianos, como propriedade dos signos. Refere-se àquilo que "... 'as coisas querem dizer', aquilo que alguma coisa significa. Como as coisas não significam por si só, e nem tão pouco significam a mesma coisa para indivíduos diferentes, depreende-se que a significação é fenômeno das interações, sendo, pois, social e historicamente produzida. (Zanella, 1997, p. 67).