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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.15 no.2 Porto Alegre  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722002000200013 

Milton H. Erickson e o cavalo de tróia: a terapia não convencional no cenário da crise dos paradigmas em psicologia clínica

 

Milton H. Erickson and the trojan horse: the nonconventional therapy in the paradigms crisis scenario in clinical psychology

 

 

Maurício S. Neubern1, 2

Universidade de Brasília

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O presente artigo busca situar a obra de Milton Erickson no cenário da transição de paradigmas científicos, particularmente da psicologia clínica. Destaca-se que as contribuições desse autor, ao mesmo tempo em que denunciam as limitações do paradigma dominante, apontam na direção de pressupostos distintos, muito afins com as perspectivas de um paradigma emergente. A metáfora do cavalo de Tróia busca retratar a influência sutil e intensa do trabalho desse autor sobre as perspectivas consagradas, de modo que, enquanto fascina e causa admiração, traz em si um potencial elevado de reflexão crítica e incisiva sobre essas mesmas perspectivas. Destacando três aspectos centrais desse processo — a impossibilidade teórica, o resgate da subjetividade complexa e a busca de novas racionalidades — o artigo é concluído delineando possíveis caminhos para a concepção e o uso do legado de Erickson.

Palavras-chave: Milton Erickson; terapia não convencional; hipnose; paradigmas; psicologia clínica.


ABSTRACT

This article places Milton Erickson's work in the scenerio of transition of scientific paradigms, especially in clinical psychology. The text shows that Erickson' contribution denounces the limitations of the dominant paradigm and at the same time points to different assumptions that are very similar to the emergent paradigm's perspectives. The trojan horse metaphor aims at showing the powerful and subtle influence of Erickson's work on sacred perspectives. While Erickson's work cause fascination and wonder it simultaneously provoques critical and incisive reflections about the sacred perspectives. This paper makes salient three main aspects — the theorical impossibility, the rescue of a complex subjectivity and, at last, the search of new racionalities. As a conclusion, possible pathways for understanding and using Erickson's legacy in the field of clinical psychology are enphasized.

Keywords: Milton Erickson; uncommon therapy; hypnosis; paradigms; clinical psychology.


 

 

Uma incômoda questão permanece em aberto para quem quer que reflita sobre a obra de Milton Erickson: como ela deveria ser compreendida no atual cenário do conhecimento das ciências psíquicas. Tal questão, mesmo parecendo simples e despretensiosa, reveste-se de profunda importância, uma vez que toca diretamente em pontos fundamentais sobre a própria construção do conhecimento e principalmente sobre a crise de paradigma vivida na atualidade (Morin, 1983, 1998; Santos, 1987, 1989). Pode-se, sem dúvidas, compreender tal obra como fruto de um gênio excêntrico, associando-se suas contribuições à uma forma de trabalho muito pessoal e singular de seu autor. Pode-se também buscar concebê-la como um conjunto de noções a serem posteriormente traduzidas para um esquema conceitual inteligível dentro de noções consagradas da psicologia. Dito de outro modo, a riqueza e a complexidade da terapia não convencional3 podem permitir inúmeras narrativas e formas de compreensão.

Por outro lado, o que a maioria de tais alternativas busca consiste em uma tarefa impossível, na medida em que procuram conceber uma obra complexa, irregular e subversiva dentro de noções simplificadoras, sistemáticas e reguladoras que caracterizam profundamente não só as epistemologias da psicologia (Gonzalez-Rey, 1997; Mahoney, 1991; Neubern, 1999, 2000, 2001a), como também o próprio paradigma4 do conhecimento científico (Morin, 1983, 1996a, 1998; Santos, 1987, 1989). Nesse sentido, pode-se entender a insatisfação de Hoffman (1992) ao criticar as tentativas de sistematização do legado de Erickson. É justamente nesse ponto que o presente artigo assume sua posição: procura-se compreender a obra de Erickson como um conjunto de contribuições que ao mesmo tempo questionam, denunciam a falência e apontam soluções diante dos dilemas e limitações do paradigma dominante na ciência e suas influências na psicologia5. Vale destacar que tais ações da obra desse autor antes de apontarem para a simples e cômoda construção de uma nova teoria, remetem para transformações profundas em termos epistemológicos, cujos rumos e implicações são imprevisíveis. Tratam-se muito mais de um conjunto múltiplo de desafios que exigem constantes construções de seus interlocutores, dando lugar a uma tarefa sempre inacabada.

Nessa perspectiva de conceber o problema, pode-se notar a considerável similaridade entre a forma como Erickson lidava com seus pacientes e, talvez sem que o soubesse, a forma como se posicionou diante dos próprios paradigmas dominantes na psicologia. Ao invés de confrontar abertamente suas crenças e ativar suas resistências, em sua prática terapêutica e hipnoterapêutica ele procedia de forma indireta desviando sua atenção e ativando aos poucos, via inconsciente, seus processos de mudança (Erickson & Rossi, 1979; Erickson, Rossi & Rossi, 1976; Haley, 1991; Zeig & Geary, 2000). De modo semelhante, seu legado estético e pragmático, ao mesmo tempo em que evoca profunda admiração e curiosidade da comunidade científica, parece promover em seu seio, sem que se perceba, importantes modificações que questionam profundamente os pressupostos da psicologia clínica. É nesse sentido que será aqui tomada a metáfora do cavalo de Tróia, isto é, a de um presente belo e imponente que, ao cair da noite e já no interior das muralhas do saber, anula suas defesas, permitindo a revolução e a construção de uma nova ordem. Contudo, parte-se do pressuposto de que o momento atual do conhecimento científico, particularmente em psicologia, é o dessa noite confusa e tumultuada, própria das crises paradigmáticas, cujo alvorecer ainda parece distante, pois as próprias surpresas presentes no interior do cavalo de Erickson ainda não se mostraram por inteiro.

Dentro do exposto, pode-se destacar que o objetivo deste artigo é o de caracterizar a terapia não convencional de Erickson como um dos principais marcos de transição que denuncia a crise do paradigma em psicologia clínica e também aponta caminhos e possibilidades de um paradigma emergente nessa disciplina. Tal caracterização abordará brevemente três tópicos básicos (a construção teórica, a subjetividade como objeto complexo e a busca de novas racionalidades) que colocam a noção complexa de subjetividade (Gonzalez-Rey, 1997; Morin, 1996a, 1996b, 1998; Neubern, 1999, 2000, 2001b) como um eixo fundamental para um novo paradigma. Essa tentativa, ao invés de se constituir em um exercício de previsão, pois o novo paradigma ainda está por se constituir, busca apenas delinear algumas de suas principais noções mestras, sem a pretensão de esgotar as possibilidades do imprevisível e da surpresa, tão comuns em investigações desse tipo. Optou-se ainda, por diversas razões, pela restrição da discussão às reflexões mais abrangentes sobre a transição e crise de paradigmas, sem considerar com mais propriedade as contribuições de autores que buscam sistematizar o legado de Erickson. A tentativa é a de demonstrar a sintonia do autor com importantes reflexões epistemológicas do momento, delineando seu lugar central no cenário da atual crise.

 

Um Imenso Cavalo de Madeira é Acolhido na Fortaleza Científica

Fissuras na Unicidade Teórica

Um dos principais pilares em torno do qual a fortaleza científica erigiu-se de forma imponente foi a possibilidade de um acesso único e confiável ao real (Gonzalez-Rey, 1997; Morin, 1996a, 1998; Prigogine & Stengers, 1997; Santos, 1987). Uma vez afastada toda aparente complexidade das condições iniciais, tornava-se possível o acesso às leis imutáveis e universais que regiam os fenômenos. Assim sendo, os cientistas passaram a possuir o privilégio de prever e controlar a natureza, impondo-se sobre ela e transformando-a de modo nunca antes visto. Tal perspectiva promoveu considerável impacto social para os avanços científicos de modo a associar-lhes intrinsecamente à produção de riquezas e ao capitalismo (Lyotard, 1979), alçando o homem a um posto antes ocupado apenas por Deus — o de senhor da natureza (Morin, 1996a). Os cenários sociais no Ocidente dos últimos séculos promovem, então, a superioridade da racionalidade científica, legando as outras formas de saber a um plano secundário. Uma vez que a realidade seria única e universal e seu acesso, um privilégio restrito aos métodos específicos da ciência, os sistemas científicos foram imbuídos de uma lógica exclusivista a fim de corresponder de modo preciso e confiável ao real. Os reflexos desse processo incidem diretamente sobre a concepção da teoria que passa a conceber realidades únicas, exclusivas e universais.

A psicologia, por sua vez, movida pelo afã de pretensão científica, passou por um percurso histórico ao mesmo tempo curioso e embaraçoso quanto à construção de seus sistemas teóricos. Por um lado, as categorias generalistas sobrepuseram-se quase que por completo às noções singulares, dissolvendo os sujeitos cotidianos em estruturas universais inconscientes, comportamentais ou sociais (Gergen, 1996; Gonzalez-Rey, 1997; Neubern, 2001b). As conseqüências dessa primazia generalista vão desde o paradoxo de um indivíduo universal (Santos, 1995) até a constituição da psicologia como uma ciência muito mais voltada para o polo da regulação do que da emancipação6 (Santos, 1989). Por outro lado, a diversidade e a tendência exclusivista e autocêntrica de seus sistemas de idéias colocou sob suspeita a tão almejada cientificidade, pois o pressuposto de uma realidade única e absoluta era incompatível com a multiplicidade de noções de homem. Desse modo, um campo disciplinar povoado de uma diversidade de escolas, em que cada uma delas reivindicava o privilégio da realidade sobre a psiquê humana, permitiu com que a psicologia fosse concebida como uma ciência atrasada, pré-paradigmática no sentido de Kuhn (1996), com relação às ciências da natureza, onde o consenso estaria mais amplamente estabelecido.

No entanto, os percalços para um reconhecimento científico não impediram a conquista de espaços sociais e daí a construção de fortalezas que delimitavam os domínios da psicologia. De forma similar, não impediram as defesas acirradas contra qualquer ataque à racionalidade científica dominante da qual tal ciência buscava se imbuir. Neste contexto, tal como ocorrido na guerra de Tróia, os psicólogos recebem a obra de Erickson em meio à profunda admiração, sem vislumbrar os perigos que comporta contra suas construções teóricas. A ebriedade das festas e comemorações das pretensas vitórias de sua cientificidade parece tê-los embalado na doce ilusão de enquadrá-la em perspectivas tradicionais, reconhecidas por suas respectivas comunidades. É assim que sua forma não convencional de terapia é associada ao humanismo, ao behaviorismo e à psicanálise (Chertok, 1998), como também às teorias sistêmicas (Haley, 1991; Hoffman, 1992). Entretanto, em seu seio, a obra de Erickson parece guardar um ataque contundente contra o pilar universal e generalista das construções teóricas.

Contrapondo-se ao paradigma dominante, Erickson resgata de modo radical a noção de singularidade. Tal noção, em termos epistemológicos, implica em considerar os indivíduos como seres únicos e inéditos que, mesmo possuindo determinações gerais (como da espécie, da família, da sociedade, dentre outras), constituem-se em qualidades emergentes (Morin, 1999) que não se esgotam nessas determinações nem se repetem nas construções sociais. Suas qualidades ativa, consciente e interativa permitem-lhes serem considerados na condição de sujeito (Gonzalez-Rey, 1997; Morin, 1996a, 1996b) que retroage sobre as próprias determinações que o antecedem. Isso implica em considerar que a possibilidade de uma teoria de conteúdos universais e a-priori torna-se inviável, conforme a citação abaixo (Zeig, 1995):

Acho que o terapeuta não faz nada além de fornecer a oportunidade de pensar no problema dentro de um clima favorável. E todas as regras da teoria gestáltica, de psicanálise, de análise transacional ... vários autores redigiram-nas nos livros, como se cada pessoa fosse igual à outra. E até onde descobri em cinqüenta anos, cada pessoa é um indivíduo diferente. Sempre trato cada pessoa como um indivíduo, enfatizando as qualidades individuais dele ou dela. (p. 241)

O que se destaca nesta citação, na perspectiva aqui discutida, não é apenas a confirmação do caráter a-teórico de Erickson (O'Hanlon, 1994; Zeig & Geary, 2000), mas organização complexa de pensamento que apresenta diversas rupturas com os pressupostos dominantes sobre a construção e o papel da teoria. Em outras palavras, ao mesmo tempo em que se considera a impossibilidade teórica para a terapia não convencional, remete-se a questão à uma forma distinta de construir teoria em considerável sintonia com os questionamentos epistemológicos atuais.

Diante de uma realidade singular e que se modifica à cada instante, a construção de pensamento teórico deve privilegiar uma relação distinta com o real, calcada em outros pressupostos epistemológicos. À princípio, uma vez que não é possível um conhecimento direto e absoluto do real (Anderson & Goolishian, 1988; Gergen, 1996; Gonzalez-Rey, 1997; Keeney, 1994; Mahoney, 1991; Morin, 1996a, 1998; Santos, 1987, 1989), estabelece-se uma relação de diálogo, em que as construções relativas e parciais do sujeito modificam-se diante dos movimentos ativos dos objetos complexos do real. A construção do pensamento teórico torna-se, portanto, uma atividade local e relativa, que gera sentidos em função de momentos singulares e que remete à uma noção de realidade marcada pela complexidade constitucional, ao invés de aparente, pela transformação constante, ao invés da imutabilidade, e pelo retorno do acontecimento, que rompe com os tecidos deterministas comuns nas teorias psicológicas. Tal como pode ser notado em diversos momentos do trabalho de Erickson (Erickson & Rossi, 1979; Haley, 1991; Zeig, 1995; Zeig & Geary, 2000) a geração de pensamento teórico adquire o caráter de construção, marcada histórica, cultural e subjetivamente, ao invés de um corpo transcendente e desvencilhado de seu sistema sócio-cultural; uma construção que não permite uma relação de controle e manipulação deliberada dos objetos, mas que considera, admira e contempla o entrelaçamento complexo de dimensões próprio aos mesmos.

Há também um segundo ponto que depõe contra a possibilidade de teorização, em termos tradicionais, do legado de Erickson, mas que ganha um papel central se assumido em termos epistemológicos — o terapeuta ou pesquisador enquanto sujeito. Dentro de uma perspectiva dominante, as colocações sobre o estilo pessoal desse autor (Haley, 1991; O'Hanlon, 1994; Zeig & Geary, 2000) fazendo referência à sua genialidade, podem conduzir à idéia da impossibilidade teórica, posto que o conhecimento de tais pressupostos jamais poderia ser repetido por se tratar de um conjunto de habilidades muito pessoais e particulares. Sem analisar os diversos ângulos desse tipo de pensamento, chama-se à atenção para a maneira radical com que Erickson toma a questão do sujeito. À princípio seu esforço concentra-se muito mais no atendimento de necessidades específicas dos momentos terapêuticos ou de pesquisa e na criação de novas formas de abordá-los, passando longe da tentativa de coerência ou convencimento teóricos de uma comunidade científica. Dito de outro modo, sua anarquia metodológica parece ser focada prioritariamente sobre seu autoconvencimento (Santos, 1989), abusando de seu potencial criativo no sentido de fazer frente às diversas exigências do real, prestando pouca ou nenhuma importância à validação de pressupostos consagrados da psicologia.

Essa infidelidade teórica, contrabalançada pela fidelidade à originalidade das próprias idéias, longe de indicar qualquer ausência de compromisso histórico com o pensamento coletivo, resgata rigorosamente a ação do sujeito enquanto um campo onde as idéias ganham vida, conforme a citação que se segue (Morin, 1996a):

Uma teoria não é o conhecimento; ela permite o conhecimento. Uma teoria não é uma chegada; é a possibilidade de uma partida. Uma teoria não é uma solução; é a possibilidade de tratar um problema. Em outras palavras, uma teoria só realiza seu papel cognitivo, só ganha vida com o pleno emprego da atividade mental do sujeito. É essa atividade mental do sujeito que dá ao termo método seu papel indispensável. (p. 335)

Destaca-se desta citação a noção segundo a qual a condição do sujeito, marginal em uma perspectiva dominante, torna-se um momento fundamental para a construção teórica na perspectiva de um novo paradigma, de maneira que a própria investigação científica passa também a assumir sua singularidade. Em outras palavras, tais abordagens de pensamento, como se dá com o legado de Erickson, procuram romper com a idéia tradicional em que as teorias são corpos impessoais sem qualquer relação com a subjetividade social e individual que as antecede e as acompanha (Bateson, 1998; Keeney, 1994; Morin, 1983, 1996a; Santos, 1987). Por outro lado, isso não implica em considerar que se deva abandonar qualquer perspectiva comum e coletiva de pensamento, mas apenas que, no seio das construções teóricas e das crenças partilhadas na comunidade científica, o consenso e a generalização precisam aprender a conviver com a singularidade, a criação e a diferença, próprias dos sujeitos.

Diante do exposto, considera-se que as questões encontram-se muito mais como um problema a ser trabalhado de que como uma solução a ser oferecida, particularmente no que diz respeito às relações entre o geral e o singular, o comum e o diverso e o papel do sujeito em sua relação com os marcos teóricos que lhe servem de referência. No entanto, cabe ainda ressaltar que, embora a obra de Erickson possa ser refletida sob a dicotomia teoria e prática, as características aqui apresentadas sobre a construção teórica apontam para a superação inquestionável de tal dicotomia. Tal herança empirista, que aponta para momentos estanques do conhecimento como teoria — prática ou teoria — método, desconsidera por completo que toda ação prática ou metodológica implica na geração de pensamento. Porém, uma vez que o sujeito é epistemologicamente assumido, tais ações tornam-se essencialmente teóricas. Em outras palavras, a pesquisa e a intervenção clínica não se caracterizam em si mesmas pelo uso de instrumentos ou técnicas terapêuticas, mas pela geração de pensamento teórico desenvolvido pelo sujeito, onde tais instrumentos e técnicas ganham sentido (Gonzalez-Rey, 1997, 1999). Logo, no que se refere à obra de Erickson, as afirmações que ressaltam seu valor puramente prático passam a carecer de sentido, porque toda prática é geração de pensamento e, portanto, teoria que necessita ser qualificada a fim de retroagir sobre a própria prática de onde nasce. Desse modo, a obra desse autor apresenta um valor teórico central, pois, mesmo que incompreendida em muitos de seus momentos, aponta caminhos que permitem situá-la como uma das principais precursoras do paradigma emergente em psicologia clínica.

O Resgate de uma Figura Maldita: A Subjetividade

Outro fundamento que permitiu considerar a ciência como um conhecimento confiável e preciso do real foi a exclusão da subjetividade (Gonzalez-Rey, 1997; Morin, 1983, 1996a; Neubern, 1999, 2000; Santos, 1987). Colocando-se como tarefa impessoal e coletiva, o empreendimento científico buscava eliminar nos sujeitos, fossem pesquisadores, fossem objetos de estudo, tudo o que constituísse ameaça ou fonte de erro, por meio de noções generalistas e universais ou ainda pela vulgata dos contextos de experimentação.

Esse processo de exclusão da subjetividade abrangeu intensamente os diversos ramos do conhecimento, vindo a se estabelecer como um dos principais eixos do paradigma dominante sob a forma de uma grande divisão (Morin, 1998; Santos, 1987, 1989). Um lado dessa divisão era o universo da objetividade, regido por leis que permitissem a previsão e o controle. A linguagem era essencialmente técnica e prosaica e contava com o recurso inestimável da matemática, cuja lógica quantitativa oferecia maior precisão e segurança à empresa científica. Trata-se do lado onde a física reinava como modelo de ciência apontando um conjunto de procedimentos a serem seguidos por todas as demais, o que leva a química a divorciar-se da alquimia, a astronomia da astrologia e a medicina a expulsar de seu seio todos os representantes estranhos às pretensões científicas, como o mesmerismo e os magnetizadores do século XVIII. O mundo dos objetos, ícone de uma realidade estática e a-histórica, concentrou-se inicialmente sobre o movimento e as propriedades dos corpos, as reações químicas, as rotas planetárias, dentre outros.

Do outro lado do abismo, achava-se o reino da subjetividade cuja linguagem permitia o senso poético e estético, o pensamento qualitativo e a reflexão filosófica. Encontravam-se lá diversas disciplinas que ocupavam um patamar inferior à racionalidade científica, posto não serem capazes de um retrato fiel da realidade. O direito, a filosofia, a teologia, a literatura e o senso comum poderiam abordar as relações humanas, Deus, a alma, o amor, a sociedade, a produção literária, enfim, objetos cujo teor subjetivo não poderia permiti-los pertencerem aos interesses científicos.

Esse macrocontexto clivado é o que permite considerar que a psicologia, como boa parte das ciências humanas, nasce, desenvolve-se e se estabelece em crise, pois suas pretensões de se constituir como ciência e sua busca de objetos de estudo no reino da subjetividade consistiu na árdua tentativa de união de dois universos irreconciliáveis pela própria organização disjuntiva do paradigma dominante (Neubern, 1999, 2000, 2001a, 2001b). Desse modo, o estabelecimento de um saber confiável, embora nunca por inteiro, implicou em preços altos a serem pagos sob a forma de uma dupla exclusão dos processos subjetivos. Por um lado, as interdições à própria subjetividade do pesquisador, fosse na construção teórica ou na ação metodológica, romperam com as diversas possibilidades de interação presentes no cenário da investigação psicológica. Toda a dimensão subjetiva própria de tais contextos assume um status intrinsecamente marginal, de modo que as tentativas de qualificá-las como momentos integrantes da pesquisa, como no caso dos métodos clínicos, passam a ser concebidas como propostas muitos específicas de tais contextos, desprovidas de confiabilidade de poder de generalização7 (Gonzalez-Rey, 1997).

Por outro lado, as exigências impostas para a realização da empresa científica implicaram em um processo de múltiplas disjunções e reduções sobre os objetos de estudo. O caso das emoções é bastante ilustrativo neste sentido (Despret, 1999; Gonzalez-Rey, 1997; Neubern, 2000, 2001b). Um processo complexo, marcado por múltiplas articulações com os sistemas internos do sujeito ou com seus sistemas sociais, passa por um conjunto de procedimentos que o atomizam, isolando-o de suas conexões e momentos históricos, o esgotam em outra dimensão (como a biologia ou a linguagem) ou o relacionam isomorficamente com números ou respostas comportamentais, desconsiderando as propriedades auto-reguladoras dos processos subjetivos que integra. Tal descaracterização dos objetos de estudo contava ainda com uma associação arbitrária a conteúdos a priori e universais que freqüentemente faziam mais sentido ao corpo teórico do que aos cenários próprios dos sujeitos. No entanto, determinados objetos de estudo poderiam ainda sofrer intensa marginalização, colocando-se como terrenos proibidos ou míticos para a investigação científica. Tal parece ser o caso da hipnose (Chertok, 1998; Despret, 1999) que, por diversos motivos e apesar dos esforços delineados em sua pesquisa (Erickson, 1939, 1967; Erickson, Hershman & Secter, 1998; Erickson & cols., 1976; Rossi, 1997) ainda se encontra cercada por mitos e preconceitos e não consiste em unanimidade para a comunidade científica8.

Todavia, a próxima surpresa escondida no cavalo de madeira de Erickson aponta para um objeto complexo, que não se apreende pelas teorias tradicionais e que aponta na direção de profundas modificações epistemológicas. Tal objeto, que aparece na obra do autor apenas por fragmentos, apresenta considerável sintonia com o tema da subjetividade discutido sob diferentes perspectivas no cenário científico (Morin, 1996a, 1996b; Santos, 1995; Tourraine, 1999) e na psicologia de modo geral (Anderson & Goolisnhian, 1988; Ausloos, 1995; Gergen, 1996; Gonzalez-Rey, 1997; Keeney, 1994; Mahoney, 1991; Neubern, 1999). As contribuições da terapia não convencional revestem-se de especial importância na medida em que retomam a complexidade das questões envolvidas com o tema da subjetividade, promovendo articulações entre noções classicamente opostas pelo paradigma dominante.

À princípio, Erickson destaca a impossibilidade de conhecer a subjetividade (O'Hanlon, 1994) tanto pelas diversidade de processos emaranhados que lhe são próprios, como por sua contínua mutação. A citação seguinte (Rossi, Ryan & Sharp, 1983) é ilustrativa nesse sentido:

Seu paciente é uma pessoa hoje, totalmente outra amanhã, mais totalmente outra ainda na semana que vem, no mês que vem, no ano que vem. Daqui a cinco, dez, vinte anos será outras pessoas. É bem verdade que possuímos certo background genérico, mas somos pessoas diferentes a cada dia de nossas vidas. (p.3)

Um dos pontos centrais que se destacam desta citação é a relação que Erickson estabelece entre a ação do sujeito e sua determinação histórica. Sob o auxílio de sua própria orientação naturalista (Erickson, 1958; Erickson & Rossi, 1979) pode-se conceber que ele preconiza um sujeito atual e auto-regulado que qualifica de forma própria as influências sociais e históricas sem colocar-se como um autômato das mesmas. Dito de outro modo, o sujeito é atual, subjetiva sua história, ao invés de se escravizar à ela, e permanece aberto às opções presentes em suas ações sociais. É dentro dessa mesma perspectiva que se pode compreender sua orientação de presente e futuro (O'Hanlon, 1994; Zeig, 1995) que não lhe constrangia a um retorno obrigatório ao passado de seus pacientes.

Porém, a passagem acima evoca ainda outra dimensão, cujas implicações epistemológicas são fundamentais. As constantes modificações podem ser compreendidas em função da dialética permanente entre as constituições e construções (Gonzalez-Rey, 1997) presentes na ação do sujeito que o levam à redimensionar com freqüência significados, sentidos e padrões subjetivos. Dentro dessa perspectiva, uma primeira implicação refere-se à própria manutenção dos sintomas que, ao invés de obedecerem obrigatoriamente à uma estrutura profunda onde desempenha funções, baseiam-se em modelos costumeiros de resposta (O'Hanlon, 1994), próprios de seu interjogo social. Trata-se mais uma vez da possibilidade de retorno acontecimento (Morin, 1996a), cuja compreensão apresenta importantes alternativas quanto ao determinismo psicológico e histórico que podem possuir influência sobre a produção de sintomas, mas não necessariamente a esgotam.

Em segundo lugar, depreende-se dessa noção uma postura de observação atenta quanto às várias expressões do sujeito, sejam elas verbais, sejam não verbais (respiração, postura, expressão facial, vestimentas, dentre outras). Tal observação que busca atender ao mesmo tempo à uma visão holística, singular e momentânea do sujeito refere-se ao que Erickson designou como minimal cues (Erickson, 1964; Erickson & Rossi, 1979) e remete à exigência de qualificação (ou utilização) das diversas expressões do sujeito sem a necessidade de enquadrá-las em uma dada perspectiva teórica. A relevância deste ponto refere-se à possibilidade de conceber o processo interativo (seja da terapia, da pesquisa ou da própria construção do conhecimento) com uma infinidade de pontos (minimal cues) que conferem a tal processo momentos, rupturas e aberturas. A história desenvolvida, importante para a consideração dessas interações, parte de uma perspectiva linear e homogênea para uma perspectiva múltipla, heterogênea e com diversas possibilidades de significação e narrativa.

Aqui toca-se em uma terceira implicação epistemológica na medida em que se busca privilegiar os próprios cenários dos sujeitos, de modo que a utilização efetivada pelo terapeuta volta-se para o desencadeamento de mudanças nos processos particulares dos pacientes. Nesse sentido, a função da teoria não é outra que não a de fornecer referências para o diálogo com a realidade múltipla do sujeito, abstendo-se do mecanismo tradicional de conceber e interpretar tal problemática a partir de conteúdos universais e a priori. Essa perspectiva pragmática busca envolver o paciente em seus projetos particulares de mudança, criando condições para sua participação efetiva como sujeito nos mesmos.

Finalmente, cabe ressaltar que semelhante resgate da subjetividade coloca problemas de difícil abordagem no atual panorama científico. O fato de iniciar a criação de espaços epistemológicos para o sujeito cotidiano, livre das amarras das superestruturas inconscientes e sociais, pronto para viver seus próprios dramas em seus cenários sociais, ao invés de viver os dramas de Édipo em seu cenário teórico e artificial, remetem à um confronto direto quanto a um conjunto de noções e mecanismos do paradigma dominante para quem a subjetividade constituiu, nos últimos séculos, uma terrível ameaça. Entretanto, esse confronto parece inevitável. O próprio homem começa a se perguntar no seio do cenário científico sobre suas origens, sua condição existencial (Neubern, 2000) e o para que se faz ciência (Santos, 1989). As dúvidas e paradoxos que tais exclusões legaram não parecem mais ser toleráveis. Porém, da mesma forma que um ser aberto ao presente e o futuro não permitiram à Erickson construir uma teoria, as incertezas do porvir do conhecimento só permitem indagações ainda não respondidas.

Promovendo a Subversão: Rumo a Novas Racionalidades Para Lidar com o Imponderável

O caráter a-teórico com que Erickson conduziu suas construções traz à tona um terceiro ponto que sintoniza seu trabalho com as possibilidades de um paradigma emergente: a busca de novas racionalidades que faça frente à complexidade das questões estudadas. Nesse sentido, o ponto que pareceria ser sua maior falha, afigura-se como uma de suas maiores contribuições. Sua insistência em não construir sistemas condizentes com a tradição psicológica é altamente significativa, pois diante de uma realidade altamente complexa, Erickson prefere contemplá-la e respeitá-la, posto que qualquer forma de teorização conhecida o levaria aos mesmos equívocos de seus contemporâneos, isto é, à uma profunda mutilação e descaracterização dos objetos de estudo. Ao limitar-se a construir alguns princípios de abordagem, ele não só apontava para a necessidade de respeito das realidades subjetivas, mas também para a necessidade de investigações e desenvolvimentos epistemológicas mais profundos que pudessem contemplar e abordar semelhante complexidade.

Tal postura adotada pelo autor aproxima-se sobremaneira dos desafios com que se depararam os físicos na mecânica quântica e na relatividade. À medida que se depararam com noções contraditórias (paradoxo partícula-onda), incertezas e ausência de referenciais absolutos (Heisenberg, 1999; Morin, 1997; Santos, 1987) os físicos viram-se constrangidos a buscar novas concepções, cujos questionamentos abalaram pilares centrais do paradigma dominante como a matéria, o tempo, o espaço, o universo e a participação do espírito humano. É interessante notar que possivelmente a considerável amplitude da atual crise de paradigmas ocorra pelo fato de que os questionamentos mais incisivos sobre seus fundamentos partiram da ciência que mais protagonizou a racionalidade dominante. O impacto dessas reflexões tem levado cada vez mais ao questionamento crítico dessas bases, particularmente sobre a grande divisão do paradigma dominante. Nessa perspectiva, antigas dicotomias como homem — natureza ou sujeito — objeto passam cada vez mais a carecer de sentido, tornando-se possível repetir com Santos (1987) que "toda natureza é humana" (p. 44) e que "o sujeito se vê naquilo que vê." (p. 45)

A questão que se coloca em meio à tal cenário é, portanto, a da necessidade de busca de conjuntos alternativos de cosmovisões e pressupostos que permitam ir além das disjunções e reduções promovidas pelo paradigma dominante. Uma vez que o materialismo é condenado à morte por falta de matéria, é necessário ir além das concepções enraizadas nos sentidos físicos, para que se torne possível o diálogo com um universo invisível, irregular, paradoxal e permeado por acontecimentos singulares, em que as tradicionais divisões encontram cada vez menos condições explicativas9. Nesse sentido, um manancial de conceitos e noções, antes próprios das ciências sociais, passam aos poucos a serem inseridos nas explicações físicas, permitindo novas leituras à respeito dos fenômenos. História, imprevisibilidade, criatividade, acidente, revolução social, violência, dominação, escravatura, democracia nuclear, auto-poiesis vêm não somente proporcionando uma nova ótica de fenômenos complexos, mas principalmente incluindo o humano no âmago daquilo mesmo que toma como objeto de estudo (Morin, 1996a, 1998; Santos, 1987, 2000). Logo, noções como analogias, textos, biografia e teatro passam a adquirir um papel central na psicologia (Anderson & Goolishian, 1996; Gergen, 1996), como nas ciências em geral (Santos, 1987).

É numa perspectiva semelhante que cabe uma reflexão sobre uma das principais características do trabalho de Erickson: o conto de histórias e o uso de analogias (Erickson & Rossi, 1979; Haley, 1991; Mendonça, 1995; O'Hanlon, 1994; Rosen, 1994; Zeig & Geary, 2000). Tal recurso aparece em sua obra aliado à todo um conjunto de pressupostos que, conforme discutido, remetem à uma noção complexa da subjetividade. Entretanto, o ponto central que se destaca em sua utilização é que as histórias e analogias, contrariamente à diversas escolas psicológicas, não aparecem subordinadas à um esquema teórico subjacente. Ou seja, seu uso não está determinado de antemão por uma leitura sobre estruturas de personalidade ou conflitos psíquicos, mas por um processo interativo em que se resgata o sujeito cotidiano. Histórias e anedotas não ocupam, portanto, uma posição hierarquicamente inferior, mas constituem-se em uma forma privilegiada de abordagem de importantes implicações epistemológicas.

À princípio remetem a uma noção de uso em que o próprio jogo interativo promove um contexto em que se torna possível a reconstrução de significados e sentidos singulares do sujeito. A pragmática de tal recurso refere-se tanto à consideração dos cenários específicos do sujeito como à própria coreografia que se desenha entre paciente e terapeuta, abrangendo múltiplos níveis ou dimensões (Erickson & Rossi, 1979; Erickson & cols., 1976). Apesar das críticas quanto à noção de níveis de relação que podem sugerir hierarquizações, tal perspectiva apresenta afinidades com as noções pós-modernas que enfatizam uso e jogos de linguagem (Anderson & Goolishian, 1988; Gergen, 1996). As construções dos sujeitos sobre suas vidas, seus conflitos e problemas não consistem em subprodutos de estruturas gerais e impessoais, mas remetem a seus cenários cotidianos onde se desenvolvem, por assim dizer, organicamente.

Por outro lado, o uso de analogias e histórias tocam ainda em outra questão epistemológica de considerável importância. Uma vez que não é possível um conhecimento direto da complexidade dos sujeitos, tornam-se necessárias formas indiretas de abordá-los que desencadeiem processos de mudança (Erickson, 1958; Erickson & Rossi, 1979; Erickson & cols., 1976). Esse uso indireto da linguagem abre, ao mesmo tempo, duas perspectivas importantes: por um lado, promove importantes reconstruções e experiências que remetem o sujeito a um auto-conhecimento, isto é, um conhecimento vivencial e aberto ao qual ele se engaja ativamente como sujeito e não espectador. De outra parte, remete à uma reflexão aprofundada sobre o próprio conhecimento psicológico que necessita comportar aberturas, buracos negros, ruídos e interrogações que o abram para o diálogo com a complexidade do real, ao invés de buscar mantê-lo na ilusão de um conhecimento homogêneo, linear e acabado.

Desse modo, pode-se compreender que a terceira surpresa que salta de dentro do cavalo de madeira é a criação de buscas de novas racionalidades em que o humano sai de uma posição marginal para se situar no centro de um universo onde ele mesmo se contempla. A perspectiva de uma linguagem indireta parece mesmo redundante nesse sentido, pois em termos epistemológicos toda linguagem, por sua própria condição subjetiva, é necessariamente indireta. O que Erickson destaca ao encontro disso é que o uso de analogias e o conto de histórias não consistem em um anteparo indireto subjugados a perspectivas diretas e finalistas, mas em legítimas alternativas epistemológicas para a construção do conhecimento. Tal uso promove uma pertinência para pesquisador e sujeito que rompe por completo com formas tradicionais de interlocução da natureza, em que ela é vista como um autômato ignorante e estúpido. Mais que isso, promove uma pertinência em que ciência e senso comum apontam para a construção de um futuro promissor para o conhecimento10 (Santos, 1989).

 

Conclusão

O Legado de Erickson Como um Presente de Grego

A questão principal que animou o desenvolvimento deste artigo foi o de situar o legado de Erickson como uma contribuição central no seio da crise e transição de paradigmas da atualidade tanto nas ciências em geral como na psicologia. A proposta não implica, portanto, em desvincular as contribuições desse autor das prováveis fontes que tenham alimentado a construção de sua obra. Da mesma forma que toda obra original possui vínculos com o pensamento coletivo de uma época, autores como Erickson são frutos de seu tempo e ao mesmo tempo precursores que anunciam revoluções nas próprias concepções que dominaram o cenário de seu tempo. A originalidade de uma obra não deve subentender ausência de relações com os cenários sociais e culturais, as preocupações epistemológicas, os debates e reflexões críticas, os componentes políticos, econômicos e ideológicos, enfim, todo o conjunto de processos que permeiam a construção do saber.

No entanto, uma das principais intenções do artigo consiste em prevenir os interessados no assunto quanto a um erro epistemológico, social e político muito comum nas comunidades científicas, particularmente da psicologia: a de buscar travestir propostas novas com roupagens antigas. Ou seja, de forma quase automática e linear, busca-se explicar contribuições revolucionárias à partir de esquemas consagrados, em que todo o potencial de reflexão criativo é esgotado em formas teóricas e metodológicas aceitas pela tradição, mesmo que caducas diante dos inúmeros desafios sociais com que se depara. Nessa sentido, todo processo de institucionalização, embora necessário, corre sérios riscos, seja pela tentativa deliberada de enquadrar tais propostas em perspectivas consagradas, seja pelo acordo tácito e inconsciente com epistemologias dominantes. Em ambos os casos, o apelo à uma situação cômoda que evita os árduos percalços da reflexão epistemológica que busca qualificar o novo, pode desempenhar papel decisivo.

É justamente neste ponto que se concebe que o legado de Erickson consiste prioritariamente em um presente de grego, na medida em que convida seus interlocutores à transformações profundas não apenas em suas formas de abordagem terapêutica, mas também a uma revisão crítica de todos os momentos e situações onde o conhecimento se constrói. Por tais razões, após a pergunta feita na introdução do artigo sobre como conceber a obra de Erickson, outra interrogação torna-se inevitável: que usos devem ser feitos da obra de Erickson. Essa seqüência de perguntas implica na abertura de consideráveis desafios movidos pela busca de coerência entre os princípios adotados e às diversas formas de relação que se desenvolvem nos setores da comunidade científica.

Em outras palavras, tais desafios podem ser sintetizados da seguinte forma. Se: os sujeitos são complexos, singulares, auto-regulados e modificam-se à cada instante; não se permitem apreender pelas formas tradicionais de construir teorias; remetem a um universo imponderável mais invisível que visível e permeado por acontecimentos, desordens e caos; exigem formas indiretas de abordagem em que a linguagem analógica e anedótica passa a conviver com o rigor científico; implicam na superação de dicotomias tácitas para o pensamento psicológico — Então: como deveriam ser conduzidas as relações nos contextos de ensino e formação? Que parâmetros poderiam nortear as relações nos conclaves e encontros científicos? Que pautas poderiam permear os bastidores e o cotidiano dos institutos? Quais diretrizes serviriam de referências para a condução da pesquisa e da terapia? Quais parâmetros auxiliariam na reflexão sobre a inserção social dessa forma de conhecimento?

Na mesma linha de pensamento, a lista de questões pode ser estendida consideravelmente. Contudo, não se pode alimentar a ilusão de que tais questões sejam facilmente respondidas e, mais ainda, executadas. O teor epistemológico desses princípios vai frontalmente de encontro aos pressupostos dominantes na tradição psicológica e suas formas de institucionalização do saber. Efetivamente, uma ciência que buscou se erigir numa missão social regulatória (Santos, 1989) com pressupostos de previsão, controle, generalização e impessoalidade (Neubern, 2000, 2001a, 2001b) encontrará certamente dificuldades diante de propostas emancipatórias, com pressupostos de imprevisibilidade, autonomia, singularidade, história e criação.

No entanto, embora o desconforto e o incômodo epistemológicos se constituam no preço pago por não considerar a terapia não convencional como um simples legado de técnicas, eles trazem também outra perspectiva para a apreciação desse presente de grego — a estética (Keeney, 1994). A admiração e o espanto mobilizados pelo cavalo ericksoniano de Tróia seduzem e ameaçam conduzir psicólogos e cientistas às destruições necessárias, mas também resgatam a imaginação, a fantasia e o sonho com um futuro distinto para o conhecimento. Contudo, uma vez que tais transformações são inevitáveis é sem dúvida um dado significativo que tal obra tenha impressionado tão profundamente as comunidades psicológicas, não tanto por um conhecimento que se supre na razão, mas principalmente por um conhecer que a surpreende, beira o absurdo, toca fundo em seus interlocutores e mobiliza encantamento. As possíveis conseqüências deste processo para o conhecimento são ainda muito obscuras, pois em uma transição de paradigmas existem poucos fundamentos firmes e seguros para concebê-las. Entretanto, o legado de Erickson parece apontar para uma transição entre o mundo seco e morto pela arrogância do paradigma dominante, para um universo vivo e encantado do paradigma emergente (Neubern, 2000; Prigogine & Stengers, 1997).

 

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Endereço para correspondência
Maurício S. Neubern
SQS 411 Bl C, 101
70277-030, Brasília, DF
Fone (61) 346-4838
E-mail: mneubern@hotmail.com

Recebido: 03/01/2002
Revisado: 15/02/2002
Aceito: 22/03/2002

 

 

Sobre o autor

Maurício S. Neubern é Psicólogo Clínico. Doutorando em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB).

 

 

1 Endereço para correspondência: SQS 411 Bl C, 101, 70277-030. Brasília, DF. Fone (61) 346-4838. E-mail: mneubern@hotmail.com
2 Este artigo remete a um momento da tese de doutorado do autor sobre complexidade e psicologia clínica. Agradecimentos à orientadora Dra Maria Fátima Olivier Sudbrack (UnB), ao co-orientador Dr. Fernando Gonzalez Rey (UnB) e à psicologa Larissa Polejack, pela revisão do abstract. Agradeço ainda à CAPES, pelo apoio financeiro. Agradecimentos profundos aos psicólogos Angela Mendonça e José Augusto Mendonça do Instituto Milton Erickson de Belo Horizonte.
3 Adota-se a noção de Haley (1991) que designa terapia não convencional como o conjunto de abordagens desenvolvidas por Milton H. Erickson.
4 As noções de paradigma são tomadas de Morin (1998) de modo que, inscrevendo-se no núcleo dos sistemas de idéias, determinam a formação de idéias chave e conceitos mestres, como as regras e formas de associação entre elas. Fazendo-se invisível e inatacável diretamente, os paradigmas determinam a visão de realidade que é tomada como certa pelos sujeitos.
5 Embora o artigo enfatize a psicologia clínica, ele pode também ser compreendido enfatizando-se as ciências psíquicas de modo geral.
6 Segundo Santos (1989), a psicologia e a psicanálise parecem surgir com o propósito de conciliar os sujeitos com o que existe, daí sua função reguladora.
7 Gonzalez-Rey (1997) aponta para a falácia empirista segundo a qual os métodos clínicos só são válidos para o contexto clínico.
8 Sem sombra de dúvidas, esta colocação é questionável, pois a aceitação das comunidades científicas quanto à hipnose progrediu vertiginosamente durante o século XX. No entanto, também não deixa de ser correto afirmar que ainda existem muitas controvérsias sobre o tema. A próprio reconhecimento tardio do CFP da hipnose como recurso auxiliar do psicólogo (dezembro de 2000) é um indicador da sua dificuldade de aceitação.
9 São várias as clivagens que se tornam cada vez mais questionáveis. Além de matéria orgânica — inorgânica, seres vivos — seres inanimados, natureza — homem ou natureza — sociedade, corpo — alma, sujeito — objeto, questiona-se sobremaneira o próprio caráter construído da ciência (ciência — sociedade), concebendo-a como uma atividade intensamente imbuída das ideologias, mitos, pressupostos, linguagem e preconceitos de sociedades e culturas (Gergen, 1996; Morin, 1983, 1998; Santos, 1987, 1995).
10 Santos (1989) destaca que em um paradigma pós-moderno a transformação da ciência à partir do senso comum, permitiria ao cientista a fronesis aristotélica, isto é, o hábito de decidir bem. Dentro disso, ele pode ser mais pertinente para indagar o para que se faz ciência, refletindo e transformando as relações entre conhecimento e sociedade.