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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.15 no.2 Porto Alegre  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722002000200018 

A interação pai-bebê entre pais adolescentes e adultos

 

The father-baby interaction between adolescent and adult fathers

 

 

Daniela Centenaro Levandowski1, 2; Cesar Augusto Piccinini

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Embora muitos estudos investiguem a maternidade na adolescência, poucos têm investigado a paternidade adolescente. Uma vez que o adolescente precisa cumprir diversas tarefas próprias da fase na qual se encontra, ele tenderia a ficar sobrecarregado com as tarefas adicionais decorrentes da paternidade. Em virtude disso, sua interação com o bebê seria menos responsiva do que a de pais adultos. Nesse sentido, o objetivo deste estudo foi examinar eventuais diferenças entre pais adolescentes e adultos na interação com o bebê aos 3 meses de vida. Participaram do estudo 20 pais, sendo 9 adolescentes e 11 adultos, que esperavam seu primeiro filho. Quando o bebê completou 3 meses, foi realizada uma observação domiciliar da interação da díade pai-bebê. As análises não revelaram diferenças significativas na interação pai-bebê entre adolescentes e adultos. Estes resultados sugerem que a idade não é necessariamente um fator determinante da responsividade do pai em relação ao bebê. Ao contrário da expectativa inicial, estes adolescentes mostraram-se tão responsivos ao bebê quanto os pais adultos.

Palavras-chave: Interação; pai; adolescente; adulto; bebê.


ABSTRACT

Although many studies have investigated adolescent motherhood, only a few have focused on adolescent fatherhood. It is believed that since the adolescent already has several tasks to deal with concerning his own adolescent period, he would be overwhelmed by the additional tasks regarding fatherhood. As a result, his interaction with his baby would be less responsive than an adult father´s. This study aimed at examining possible differences between adolescent and adult fathers´ interaction with their 3-month-old baby. Twenty fathers, 9 adolescents and 11 adults, participated in the study. A home observation of the father-baby interaction was carried out when the baby was 3 months old. The analyses did not reveal significant differences between adolescent and adult fathers´ interaction with the baby. These results suggest that age is not necessarily a determinant factor of father´s responsivity towards his baby. Contrary to the initial hypothesis, the adolescents were as responsive to the baby as the adult fathers.

Keywords: Interaction; adolescent; adult; father; baby.


 

 

Os autores que se dedicaram ao estudo da adolescência são unânimes em afirmar que esta é uma fase bastante complexa do ciclo vital, pela quantidade e qualidade de transformações biológicas, psicológicas e sociais que o indivíduo experimenta (Knobel, 1970/1981). Dentre as mudanças biológicas, a puberdade é o evento que se destaca, evidenciando-se pelo aparecimento dos caracteres sexuais secundários, que modificam a aparência, a capacidade reprodutiva do adolescente e sua auto-imagem (Blos, 1962/1994; Outeiral, 1994; Steinberg, 1985). Já as mudanças cognitivas se traduzem pela aquisição progressiva de habilidades de pensamento mais avançadas, que trazem ao adolescente maior aptidão para pensar sobre situações hipotéticas e sobre conceitos abstratos, afetando o modo como ele pensa sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo (Piaget, 1976; Steinberg, 1985).

Já no que diz respeito aos aspectos psicossociais, a consolidação da identidade seria o mais importante. O jovem passa a se preocupar com quem ele é e o que será no futuro, passando por um período de experimentação de papéis, na tentativa de encontrar sua verdadeira identidade (Steinberg, 1985). Por sua vez, a aquisição da autonomia passa por uma menor dependência emocional dos pais, pela tomada de decisões e pelo estabelecimento de um código de valores próprios (Preto, 1989/1995; Steinberg, 1985). Para Blos (1962/1994, 1979/1996), a aquisição da autonomia em relação aos pais seria a tarefa psíquica principal da adolescência.

É plausível que estas transformações próprias da fase adolescente fiquem exacerbadas frente a uma situação de gravidez e paternidade. Com o advento das primeiras experiências sexuais, os adolescentes acabam expostos à gravidez inesperada da namorada, principalmente quando não há informação ou uso de métodos anticoncepcionais adequados. Nos últimos anos, tem havido um grande aumento no número de adolescentes grávidas, tanto em nosso país como no exterior (Soares, 1999). O envolvimento do jovem nesta situação precoce terá repercussão psíquica e comportamental, uma vez que, conforme ressalta Nunes (1998), ele terá que desempenhar simultaneamente dois papéis diferentes: ser adolescente e ser pai. Em relação a este segundo papel, o jovem poderia não estar ainda preparado psiquicamente.

Considerando especificamente a interação pai-bebê, de acordo com Lamb e Elster (1986), o adolescente teria dificuldade de proporcionar uma interação parental de alta qualidade por vários motivos. Primeiramente pelo seu nível de desenvolvimento cognitivo, pois ele está adquirindo o pensamento lógico e abstrato. Essa imaturidade cognitiva, aliada às tarefas da adolescência, criaria um egocentrismo que impediria que as necessidades do bebê fossem avaliadas corretamente e como mais urgentes do que as do próprio jovem (Marsiglio & Cohan, 1997; McArney, Lawrence, Aten & Iker, 1984; Sadler & Catrone, 1983; Young, 1988).

Além disto, a falta de um planejamento da gravidez também poderia afetar a interação do adolescente com o bebê, uma vez que este estaria associado a um maior envolvimento paterno (Cabrera, Tamis-LeMonda, Bradley, Hofferth & Lamb, 2000). Sua falta de conhecimento sobre os estágios de desenvolvimento do bebê, afetaria suas atitudes em relação à criação e cuidado do bebê, através de expectativas errôneas em relação às suas capacidades (Lamb & Elster, 1986). Esse desconhecimento se deve tanto à menor escolaridade dos jovens como à menor quantidade de contato e experiências com crianças (Dennison & Coleman, 1998; Lamb & Elster, 1986; Marsiglio & Cohan, 1997; Young, 1988). Esse conhecimento escasso impediria ainda uma interpretação correta das necessidades do bebê, e por conseguinte, uma resposta adequada a elas. Para Robinson (1988), Robinson e Barret (1987) e Reis e Herz (1987), as expectativas irreais sobre o bebê levariam a atitudes impacientes e intolerantes que freqüentemente resultariam em disciplinamento físico punitivo.

Outro fator que influenciaria a qualidade da interação pai-bebê seriam as características do bebê (psicológicas e comportamentais). Conforme Lamb e Elster (1986), alguns bebês são claramente mais sociáveis que outros, empregando mais formas de estabelecer contato com os pais. Quando as interações são mutuamente satisfatórias, os pais mais provavelmente desenvolvem um sentimento de auto-confiança e efetividade que por conseqüência melhoraria a qualidade da interação. No entanto, os adolescentes tendem a perceber seus bebês como sendo de temperamento difícil (Jorgensen, 1993), o que poderia dificultar a interação com o mesmo.

A qualidade da interação também seria afetada pelo estresse parental, que diminuiria a sensibilidade do genitor ao bebê (Christmon, 1990; Lamb & Elster, 1986). O estresse seria mais intenso entre os adolescentes em virtude da ocorrência da gestação fora do tempo previsto socialmente, podendo acarretar isolamento, rejeição, problemas educacionais, profissionais e econômicos. Além disso, os jovens também teriam menos recursos pessoais para lidar com a maior quantidade de estresse de uma gravidez precoce (Lamb & Elster, 1986; Russel, 1980).

Por fim, o apoio social também aparece como um fator influente no comportamento parental (Lamb & Elster, 1986). A rede de apoio poderá contribuir para a diminuição do estresse do jovem, o aumento do conhecimento sobre desenvolvimento infantil, a promoção da auto-estima e da efetividade percebidas e/ou através do fornecimento de uma ajuda prática. O apoio mais importante parece ser o emocional, principalmente quando proveniente da família de origem. Além disso, viver na casa dos próprios pais após o nascimento do bebê também ajudaria a obter melhores resultados profissionais e educacionais (Coley & Chase-Lansdale, 1998; Jorgensen, 1993).

Especificamente no que tange ao apoio social, alguns estudos (Allen & Doherty, 1996; Cervera, 1994; Dallas & Chen, 1999; Furstenberg, 1980) apontam que o sistema familiar da adolescente por vezes poderia bloquear uma aliança viável da jovem com o pai do bebê, diminuindo assim seu contato com a criança e sua participação no cuidado da mesma. De fato, a relação do adolescente com a mãe da criança pode ser tanto um fator promotor do seu envolvimento e participação como uma barreira, pois afeta a quantidade e a qualidade das interações do pai jovem com a criança (Allen & Doherty, 1996; Belsky & Miller, 1986; Dennison & Coleman, 1998; Marsiglio & Cohan, 1997).

Em relação a isso, Rhein e colaboradores (1997) ressaltam que os obstáculos para o envolvimento encontrados pelos pais adolescentes podem diminuir a intensidade de suas aspirações paternas. O estudo conduzido por Fagot, Pears, Capaldi, Crosby e Leve (1998) com pais adolescentes corroborou esta afirmação, pois revelou que menos da metade das crianças investigadas vivia com sua mãe e seu pai biológico aos 2 anos de idade, e que 40% delas não tinha contato com o pai, o que, para os autores, indicaria uma falha no desempenho do papel paterno. A revisão de literatura feita por Coley e Chase-Lansdale (1998) também mostrou que, apesar das baixas taxas de casamento e alta incidência de divórcio entre mães adolescentes e seus parceiros, pelo menos 50% dos pais adolescentes viviam com sua criança algum tempo depois do nascimento, embora esta situação não durasse muito e variasse conforme a etnia do pai.

No que se refere aos aspectos individuais, quando comparados aos pais adultos, os adolescentes não apresentariam uma prontidão psicológica, em virtude de serem menos racionais em suas decisões, menos capazes de fazer julgamentos morais e cognitivos e terem menos informações sobre o desenvolvimento infantil (Belsky & Miller, 1986). Isto poderia levar a uma interação menos responsiva com o bebê.

No entanto, apesar destes estudos apontarem para dificuldades na interação entre o pai adolescente e seu bebê, outros estudos apontam um certo nível de envolvimento paterno do adolescente, ou mesmo ausência de diferenças entre adolescentes e adultos. Em várias pesquisas recentes os pais adolescentes referiram um envolvimento expressivo na vida da criança, seja através de contribuição financeira ou outras formas alternativas de cuidado (Allen & Doherty, 1996; Dallas & Chen, 1999; Trindade & Bruns, 1999). Endossando estes achados, Lamb e Elster (1985), em um estudo comparando a parentalidade entre adolescentes e adultos, encontraram que os pais adultos e adolescentes de menor idade foram significativamente mais responsivos aos bebês do que os pais adultos jovens. No entanto, de forma geral, a idade do pai contribuiu para poucas diferenças nas interações pai-bebê, mãe-bebê e mãe-pai. Para estes autores, os adolescentes se assemelham muito aos pais adultos. Na verdade, a variação na idade parental é um determinante muito menos importante na qualidade do comportamento parental do que uma variedade de fatores sócio-ecológicos e de personalidade que estão freqüentemente correlacionadas com a idade parental, obscurecendo assim as relações envolvidas. O estudo de Nakashima e Camp (1984) que investigou algumas características de pais de bebês nascidos de mães adolescentes, também não encontrou diferenças significativas entre os pais adolescentes e adultos no que tange ao seu funcionamento cognitivo e suas atitudes em relação ao cuidado da criança.

Como pode ser visto na literatura, os achados em relação aos pais adolescentes nem sempre apontam na mesma direção. Enquanto alguns estudos demonstram que a interação do pai adolescente com o bebê ficaria prejudicada pelas limitações desenvolvimentais do próprio pai e pela falta de apoio social para enfrentar uma situação muitas vezes não planejada, outros estudos demonstram que os adolescentes poderiam superar todas as adversidades e propiciarem uma interação responsiva ao bebê, semelhante à dos pais adultos. De qualquer modo, as teorizações apontam mais para a primeira hipótese, a de menor responsividade do pai adolescente ao bebê. Neste sentido, o presente estudo visou investigar eventuais diferenças na interação de pais adolescentes e adultos com seu bebê aos três meses de vida. A idéia de se comparar pais adolescentes e adultos atende a sugestões de Robinson e Barret (1982) e Elster e Lamb (1986) sobre a necessidade de se verificar se existem diferenças entre os dois grupos e, caso existam, qual a extensão das mesmas nas duas faixas etárias.

 

Método

Participantes

Participaram deste estudo 20 pais, sendo 9 adolescentes e 11 adultos. Todos esperavam seu primeiro filho e durante a gravidez as gestantes não apresentaram complicações físicas. Todos os participantes faziam parte de um projeto longitudinal realizado pelo Grupo de Interação Social, Desenvolvimento e Psicopatologia - GIDEP/UFRGS (1999) que atualmente acompanha aproximadamente cem casais da gestação ao segundo ano de vida da criança, envolvendo diferentes idades, níveis sócio-econômicos e configurações familiares2. Os pais adolescentes e adultos do presente estudo foram selecionados em dois hospitais da rede pública da cidade de Porto Alegre que realizavam grupos de gestantes (16), por indicação de colegas ou outras gestantes (01) e também por anúncio em veículos de comunicação locais (03).

Os pais foram selecionados através de suas companheiras, que preenchiam uma ficha de contato inicial contendo alguns dados demográficos do casal. Aqueles casais que preencheram os critérios do estudo (Ex.: estar esperando o primeiro filho, não apresentar complicações físicas durante a gestação) foram contatados posteriormente por telefone. A recusa dos pais em participar do estudo foi de aproximadamente 20% em ambos os grupos. Buscou-se emparelhar os grupos em termos de morar ou não junto com a esposa/companheira, escolaridade e nível sócio-econômico. Para tanto, utilizou-se de todos os participantes disponíveis no banco de dados do estudo longitudinal acima mencionado.

A Tabela 1 e a Tabela 2 apresentam as características demográficas dos participantes adolescentes e adultos respectivamente. No grupo adolescente, a idade variou de 16 a 19 anos (m = 17,7 anos, dp = 1,0), e no grupo adulto, de 25 a 38 anos (m = 29,9 anos, dp = 3,8). A escolaridade variou no grupo adolescente de 4 a 11 anos (m = 7,9 anos, dp = 2,3) e no grupo adulto de 5 a 14 anos (m = 9,2 anos, dp = 3, 3), com uma diferença esperada entre os grupos, em função da faixa etária. O nível sócio-econômico variou de baixo a médio, com base na escolaridade e profissão dos pais. Em geral os participantes exerciam alguma atividade remunerada. Os termos casados e companheiros indicam os casais que moravam juntos, enquanto os denominados namorados não moravam juntos.

Delineamento e Procedimentos

O estudo envolveu dois grupos de comparação (Nachmias & Nachmias, 1996), sendo um de pais adolescentes e outro de pais adultos. Em cada grupo foi examinada a interação do pai com o bebê no seu terceiro mês de vida. Os casais que participaram da presente fase de coleta de dados, quando o bebê estava com três meses, já haviam participado de uma fase anterior de coleta de dados, no terceiro trimestre da gestação, como parte do projeto longitudinal mencionado acima. Naquela oportunidade foi preenchida a Ficha de contato inicial, assinado o Consentimento informado, e o casal respondeu a Entrevista de dados demográficos do casal, além de outras entrevistas sobre a gestação e a história do casal, cujos dados não são analisados no presente estudo.

Quando o bebê completou três meses de vida, os casais foram novamente contatados e visitados em sua residência. Nesta ocasião foi realizada a Observação da interação familiar, envolvendo uma seqüência de quatro situações de interação livre de oito minutos cada: pai-mãe-bebê, pai-bebê, mãe-bebê e novamente pai-mãe-bebê. Foi solicitado que o pai e a mãe agissem livremente com seu bebê, como faziam normalmente quando estavam juntos. A sessão foi filmada pela pesquisadora com a ajuda de uma auxiliar de pesquisa. Nas seqüências envolvendo pai-bebê e mãe-bebê, o genitor que não estava participando era solicitado a se retirar do local, evitando eventuais interferências na interação da díade sendo observada. Durante os episódios de interação a pesquisadora teve uma postura apenas de observação, não sendo encorajada nenhuma interação verbal ou comportamental com ela. A ordem da seqüência de interação mãe-bebê e pai-bebê foi alternada entre os participantes. Para fins do presente estudo analisou-se apenas a interação livre entre pai-bebê. Não foram também analisados aqui os demais instrumentos sobre a experiência da parentalidade e sobre o temperamento infantil, aplicados ao casal na mesma ocasião, logo após a observação da família interagindo.

Instrumentos e material

Ficha de contato inicial (GIDEP, 1998a3): esta ficha foi preenchida pelas gestantes nos hospitais com o auxílio da pesquisadora, ou por telefone, com o objetivo de selecionar os possíveis participantes do estudo. Para tanto, investigou alguns dados demográficos, tais como idade dos genitores, estado civil, existência de outros filhos, estado de saúde durante a gestação e data prevista para o nascimento do bebê. Era também anotado o telefone e/ou endereço para o contato posterior.

Consentimento informado (GIDEP, 1998b): este documento visou informar aos participantes, de forma sucinta, os objetivos da pesquisa, bem como o nome e telefone do pesquisador responsável. Foi assinado pelo casal em duas vias, permanecendo uma com a pesquisadora e a outra com os participantes.

Entrevista de dados demográficos do casal (GIDEP, 1998c): foi preenchida pelo casal, com o auxílio da pesquisadora em sua residência. Esta ficha visou obter dados demográficos adicionais sobre o casal, tais como escolaridade, profissão, religião, tempo de trabalho e demais moradores da casa.

Observação da interação familiar (GIDEP, 1999): foi composta por uma seqüência de quatro episódios de interação livre entre a família: pai-mãe-bebê, pai-bebê, mãe-bebê e novamente pai-mãe-bebê. Cada episódio da seqüência teve duração de oito minutos. Para o presente estudo, foi considerada apenas a interação do pai com seu bebê.

Avaliação da interação pai-bebê

Para fins de análise da interação pai-bebê, utilizou-se um protocolo desenvolvido por Belsky, Rovine e Taylor (1984), Isabella, Belsky e von Eye (1989) e a proposta derivada destes trabalhos utilizada por Carro, Piccinini e Millar (1999). As co-ocorrências sincrônicas foram definidas como trocas recíprocas entre o pai e o bebê, independente de quem iniciou tal troca, ou seja, quando os comportamentos de ambos aconteciam um após o outro ou simultaneamente. Operacionalmente, sincronia foi definida como responsividade ao comportamento do outro membro da díade, representando comportamento responsivo (Belsky, Gilstrap & Rovine, 1984; Belsky, Rovine & Taylor, 1984; Belsky, Taylor & Rovine, 1984; Carro & cols., 1999; Isabella & Belsky, 1991; Isabella, Belsky & von Eye, 1989). Assim, neste estudo, os comportamentos que compõem as seqüências sincrônicas foram definidos a partir do cruzamento de alguns comportamentos paternos e do bebê. Já assincronia foi definida como não responsividade de um membro da díade ao comportamento do outro (Ex.: bebê chora—pai ignora), ou a emissão de um comportamento não adequado ao comportamento emitido pelo outro membro (por exemplo, bebê sonolento-pai estimula), sendo os comportamentos que compõem as seqüências assincrônicas definidos da mesma forma.

Contudo, a simples ocorrência de comportamentos paternos e infantis em determinado intervalo não garantia que fossem computados como seqüências sincrônicas. Ao se examinarem tais seqüências, buscou-se avaliar a qualidade positiva ou negativa presente entre os comportamentos infantis e paternos. Por exemplo, definiu-se como interação sincrônica aquela em que ambos os membros contribuíam para a interação observada (por exemplo, bebê olha para o pai, pai vocaliza para o bebê), ou em que a interação envolvia uma clara troca de comportamentos (por exemplo, pai estimula, bebê sorri para o pai), ou em que o comportamento de pelo menos um dos membros da díade fosse julgado como apropriadamente responsivo ao comportamento do outro (por exemplo, bebê chora ou está agitado, pai embala).

Conforme indicado em vários trabalhos realizados por Belsky e colaboradores (1984), a dimensão sincronia é considerada importante para o desenvolvimento do apego, significando uma identificação correta das necessidades do bebê, a elaboração de um plano de ação e a execução de uma ação-resposta adequada à satisfação destas necessidades. Assim, esse conceito tem sido sistematicamente relacionado à sensibilidade materna. No presente estudo, entende-se que esta teorização sobre a sensibilidade e responsividade materna e a interação sincrônica mãe-bebê poderia ser aplicada também à interação pai-bebê. De acordo com os estudos de Belsky e colaboradores (1984) acima mencionados, trabalhos descritivos têm mostrado que os pais podem ser tão sensíveis com seus bebês quanto as mães, mesmo que seu estilo de brincar e suas razões para cuidarem de seu bebê sejam diferentes daquelas das mães.

Dos oito minutos da sessão de observação da interação pai-bebê, foram selecionados seis, excluindo-se sempre o primeiro e o último minutos. O período selecionado foi então dividido em intervalos de quinze segundos, totalizando vinte e quatro intervalos, em que se verificou a presença de comportamentos paternos e do bebê, além das trocas sincrônicas e assincrônicas entre a dupla.

Inicialmente, dois observadores receberam um treinamento de 30 horas, assistindo vídeos com episódios de interação pai-bebê de outros participantes do projeto de pesquisa em que os pesquisadores estavam inseridos. Este treinamento teve o objetivo de esclarecer dúvidas no uso das categorias de análise do protocolo inicialmente utilizado. Todas as dúvidas na análise dos comportamentos foram dirimidas na presença de um terceiro juiz. Este treinamento levou a algumas modificações na estrutura de categorias de comportamento e nas respectivas definições inicialmente propostas. Foram também incluídas categorias especialmente criadas para este estudo, em função da faixa etária dos bebês (3 meses) (Ex.: bebê responde ao estímulo, pai estimula sem objeto/brinquedo). Além disso, com base em uma análise inicial dos dados de 10 díades pais-bebê, diversas categorias foram excluídas do protocolo final, tendo em vista sua baixa freqüência (Ex.: pai interpreta/fala pelo bebê; bebê chora; sorri/sorri), pois ocorreram em menos de 20% do total de intervalos observados. Entre elas, destacam-se todas as categorias assincrônicas e várias categorias sincrônicas, bem como algumas categorias de comportamentos paternos e do bebê. Assim, o protocolo final utilizado no presente estudo foi composto por 14 comportamentos paternos (responde à vocalização/choro do bebê; fala para o bebê; estimula com objeto/brinquedo; estimula sem objeto/brinquedo; colo; sorri para o bebê; acaricia/beija o bebê; embala/aconchega o bebê; olha o bebê; olha para a câmera/outro lugar; posiciona-se face a face; acalma o bebê; fica em pé/movimenta-se com o bebê; ajeita o bebê), sete comportamentos do bebê (vocaliza/choraminga; alerta/acordado; olha para o pai; alerta/irriquieto; olha para a câmera/outro lugar; segura brinquedo/estímulo; responde ao estímulo) e seis seqüências sincrônicas (vocaliza/vocaliza; vocaliza/ajeita o bebê; vocaliza/olha; olha/olha; responde ao estímulo/estimula com objeto-brinquedo; alerta-irriquieto/resposta adequada). Quando em um mesmo intervalo de quinze segundos se observou mais que uma categoria de comportamento e/ou co-ocorrência, cada uma delas foi pontuada.

Dez casos foram analisados separadamente por dois codificadores para o cálculo do índice de concordância na análise das categorias, realizado através do Kappa. Dentre as categorias de comportamento paternos, o Kappa variou de 0,41 a 0,89 (m= 0,65). Nas categorias de comportamentos do bebê, o Kappa variou de 0,45 a 0,73 (m = 0,63). No que se refere às seqüências sincrônicas, o Kappa variou de 0,43 a 0,76 (m= 0,62). Após o cálculo do Kappa4, os dois codificadores continuaram a examinar também separadamente os outros dez videotapes. Isto foi feito buscando aumentar o controle sobre a codificação. Eventuais diferenças entre os codificadores foram dirimidas posteriormente por um terceiro juiz.

 

Resultados

Uma análise inicial usando o teste de correlação de Spearman foi utilizada a fim de se examinar eventuais relações entre os fatores demográficos (escolaridade, idade, sexo do bebê) e as categorias de comportamentos paternos, do bebê e as interações sincrônicas. De modo geral, os fatores demográficos apareceram pouco correlacionados com a maioria das categorias de comportamento observadas5. Esta ausência de correlações significativas sugere que os fatores demográficos examinados parecem não ser determinantes para a maioria das categorias de comportamentos paternos, do bebê e para as trocas sincrônicas consideradas no presente estudo.

O teste de Mann-Whitney foi utilizado para se examinar a expectativa inicial sobre diferenças na interação de pais adolescentes e adultos na interação com o bebê, em cada uma das categorias analisadas. A Tabela 3 apresenta a incidência média, o desvio-padrão, o valor de U e o nível de significância para cada categoria de comportamento paterno. Como pode ser visto, nenhuma diferença significativa foi encontrada entre os grupos nas diversas categorias de comportamento paterno examinadas. Isto indica que nos dois grupos os pais tenderam a ser bastante semelhantes quanto aos comportamentos emitidos durante a interação com o bebê.

As categorias de comportamentos paternos com maior incidência em ambos os grupos foram falar para o bebê, olhar para o bebê, dar colo e olhar para a câmera ou outro lugar. Este último comportamento sugere que a presença do observador e o uso da câmera interferiu na interação. No entanto, comparando-se as freqüências entre estas categorias de comportamentos e as demais, vê-se que a interferência parece ter sido uniforme entre os grupos. Também cabe mencionar algumas tendências que apareceram na Tabela 3, mesmo que não tenham sido significativas. Por exemplo, na categoria de comportamentos paternos fala para o bebê, sorri para o bebê e fica em pé/movimenta-se com o bebê, os pais adolescentes apresentaram uma incidência média um pouco maior de comportamentos do que os pais adultos. Isto sugere, inclusive, uma tendência à maior responsividade dos pais adolescentes, ao contrário do que se esperava inicialmente, com base na literatura revisada. Contudo, estas tendências necessitam ser melhor exploradas em estudos futuros.

O teste de Mann-Whitney também foi utilizado para se investigar eventuais diferenças na incidência média das categorias de comportamentos do bebê avaliadas neste estudo. A Tabela 4 apresenta a incidência média, o desvio padrão, o valor de U e o nível de significância para cada categoria de comportamentos do bebê. Os resultados não revelaram diferenças significativas em nenhuma das categorias.

 

 

Ao contrário do que se esperava, os bebês de ambos os grupos apresentaram comportamentos semelhantes durante a observação realizada. Como pode ser visto na Tabela 4, ocorreu variabilidade na incidência de comportamentos entre os bebês dos dois grupos. No entanto, nenhum padrão particular apareceu. A semelhança encontrada entre os bebês de ambos os grupos endossa a ausência de diferenças significativas nas categorias de comportamentos paternos analisadas acima.

Por fim, o teste de Mann-Whitney foi também utilizado para se examinar eventuais diferenças nas trocas sincrônicas entre pai adolescentes e adultos e seus bebês. A Tabela 5 apresenta a incidência média, o desvio padrão, o valor de U e o nível de significância para cada seqüência sincrônica observada neste estudo.

Os resultados não revelaram nenhuma diferença significativa entre os grupos nas diversas seqüências sincrônicas examinadas. Os dados indicam que pais adolescentes e adultos interagiram de forma bastante semelhante com seus bebês, pois apesar de ter ocorrido uma pequena variabilidade na incidência de seqüências sincrônicas entre os grupos, em decorrência da variabilidade nos comportamentos individuais paternos e do bebê, novamente nenhum padrão particular apareceu.

 

Discussão

De acordo com a hipótese inicial do estudo, baseada em parte da literatura existente sobre a interação pai adolescente-bebê, eram esperadas diferenças entre pais adolescentes e adultos no que tange à sua interação com o bebê. Contudo, os resultados do presente estudo não corroboram a expectativa inicial, principalmente de que o adolescente tenderia a ter uma interação menos responsiva com o bebê quando comparado ao pai adulto. Aos três meses de vida do bebê, pais adolescentes e adultos comportaram-se de forma bastante semelhante na situação de interação livre observada no presente estudo, sendo todos responsivos ao bebê. A ausência de diferenças entre o grupo de adolescentes e adultos endossa os achados de alguns estudos que enfatizam que a interação pai adolescente-bebê não diferiria tanto da interação pai adulto-bebê (Bolton & Belsky, 1986; Cochran, 1997; Marsiglio & Cohan, 1997; Nakashima & Camp, 1984).

Alguns fatores podem ter contribuído para que a expectativa inicial do estudo não fosse apoiada. Inicialmente, se poderia pensar que o instrumento utilizado não seria suficientemente sensível para captar eventuais particularidades na dinâmica pai-bebê nos dois grupos. No entanto, utilizando protocolo de análise semelhante e o mesmo tipo de interação, Carro e colaboradores (1999) encontraram diferenças significativas entre mães adultas que participaram de diferentes tipos de intervenção precoce. No estudo de Ferrari (2001), que também utilizou o mesmo protocolo para análise da interação do bebê com sua mãe solteira ou casada, foram encontradas diferenças apontando para uma menor responsividade das mães solteiras. Estas evidências reduzem a possibilidade de que o instrumento possa ser responsabilizado pela ausência de diferenças significativas entre os grupos. O mesmo se pode dizer do processo de coleta de dados, que utilizou a filmagem. Embora este procedimento sempre interfira com o que está sendo observado, ambos os grupos passaram pelo mesmo procedimento, e por isto sofreram, potencialmente, a mesma influência. Além disto, buscou-se facilitar a interação pai-bebê, evitando-se, sempre que possível, qualquer tipo de interferência no ambiente da filmagem. Esperava-se que isto contribuísse para que os pais ficassem bastante atentos ao seu bebê, respondendo a ele de forma sincrônica. No estudo de Carro e colaboradores (1999) também se utilizou uma filmadora, encontrando-se expressivas diferenças entre os grupos observados. Portanto, nem o protocolo, nem o procedimento de observação, parecem conseguir explicar a ausência de diferenças encontradas no presente estudo na interação pais-bebê entre adolescentes e adultos.

Na verdade, parece que os pais adolescentes do presente estudo assumiram a gestação da companheira, continuando a conviver com ela após o nascimento do bebê, e em alguns casos passando a morar junto com ela, o que contribuiu para um relacionamento próximo com o bebê. Achados semelhantes foram encontrados por Allen e Doherty (1996), Dallas e Chen (1999) e Trindade e Bruns (1999), no sentido de que muitos pais adolescentes tendem a assumir a criança e conviver com ela. Isto propicia uma convivência com o bebê semelhante a de pais adultos, o que por sua vez contribuiria para tornar a interação entre os grupos bastante similar. No presente estudo, suas companheiras, na grande maioria das vezes, participaram de grupo de gestantes, o que indiretamente também pode ter influenciando estes pais na sua interação com o bebê.

Uma vez convivendo com o bebê ao longo dos três primeiros meses de idade, os pais de ambos os grupos já conheciam seus bebês, podendo assim perceber seus sinais e atendê-los de forma sincrônica. Este fato é comentado por Brazelton e Cramer (1990/1992), ao assinalarem que é a interação contínua do pai com o bebê que traz o reconhecimento entre a dupla e permite o estabelecimento da sincronia da interação. Outros autores como Anderson (1996) e Cabrera e colaboradores (2000) também têm enfatizado que as experiências prévias de pais com cuidado de crianças aumentavam a probabilidade de envolvimento paterno.

Percebe-se também que a maioria dos participantes do presente estudo referiram que já possuíam conhecimentos sobre o cuidado de bebês e inclusive alguma experiência de cuidado de irmãos ou primos menores, o que com certeza contribuiu para sua interação com o bebê. Isto confirma os achados de Allen e Doherty (1996) e Dallas e Chen (1999), de que o conhecimento sobre o cuidado do bebê facilitaria a interação e envolvimento com o mesmo. Ao mesmo tempo, contraria o que geralmente é veiculado pela literatura sobre o desconhecimento dos adolescentes em relação ao desenvolvimento infantil (Bolton & Belsky, 1986; Lamb & Elster, 1986; Marsiglio & Cohan, 1997; Montmayor, 1986).

Talvez pelas razões acima mencionadas a incidência das seqüências assincrônicas tenha sido tão baixa, a ponto de serem excluídas do protocolo por não se mostrarem representativas da interação destes pais adultos e adolescentes com seus bebês aos três meses de idade. A respeito desse achado preliminar, se poderia levantar uma outra hipótese: o período de tempo de 15 segundos é bastante amplo para que um pai responda a um determinado comportamento do bebê. Nesse caso, se a análise fosse feita por contingência, com intervalo bem mais curto (Ex.: 6 segundos), poderia ter sido encontrada uma maior incidência de seqüências assincrônicas. Baixa freqüência de resposta também ocorreu inclusive com algumas seqüências sincrônicas observadas (Ex.: vocaliza/acaricia - beija; olha/estimula com objeto - brinquedo), o que sugere que estas seqüências podem não ser representativas da interação de pais adolescentes e adultos com seus bebês aos três meses de vida destes.

Apesar das eventuais dificuldades estruturais e pessoais (sem maturidade emocional e habilidades pessoais como apontado na literatura), muitos pais adolescentes parecem conseguir superá-las e interagir adequadamente com o bebê, principalmente quando suficientemente apoiados (Marsiglio & Cohan, 1997; Robinson, 1988; Sadler & Catrone, 1983). Conforme Barret e Robinson (1981), eles podem apresentar uma sensibilidade que a sociedade geralmente não reconhece. No entanto, um exame da escassa literatura existente sobre a interação pai adolescente-bebê mostra que os resultados dos estudos existentes não são conclusivos em relação a semelhanças ou diferenças com pais adultos (Ragozin, Basham, Crnic, Greenberg & Robinson, 1982; Young, 1988; Zuckerman, Winsmore & Alpert, 1979), e novas investigações se fazem necessárias. De qualquer forma, os resultados do presente estudo sugerem cautela quando se fala que a interação entre pais adolescentes e seus bebês tende a ser menos responsiva.

Além das diferenças individuais, outros fatores, tais como a rede de apoio social e a relação afetiva com a companheira, desempenham um papel fundamental na qualidade da interação do bebê com seu pai adolescente. A ausência de diferenças entre pais adolescentes e adultos apontada no presente estudo, adquire relevância particular quando se considera, conforme Cox, Owen, Henderson e Margand (1992), que a qualidade da interação aos 3 meses do bebê, junto com as atitudes em relação à criança e ao papel paterno e o tempo de contato do pai com o bebê, são fatores preditores da qualidade de apego seguro no primeiro ano de vida.

Os achados do presente estudo não têm a pretensão de ser um retrato da paternidade na adolescência, até mesmo porque estes pais e, inclusive os adultos, não podem ser considerados como um grupo social homogêneo (Lewis & Dessen, 1999), uma vez que existem diferenças individuais envolvendo características de personalidade, classes sociais, etnias, idades, etc., que contribuem para vivências diversas. Contudo, acredita-se que os resultados encontrados lançam idéias para novos estudos sobre o tema. Por exemplo, seria interessante complementar a avaliação da interação no terceiro mês do bebê com dados de entrevistas sobre a experiência da paternidade adolescente, a fim de se compreender os seus sentimentos e a sua participação na vida da criança. Também seria importante avaliar a interação de pais adolescentes com seu bebê em outras idades do bebê, traçando um perfil das modificações e da estabilidade por que passam durante o primeiro ano de vida. É provável que após os primeiros meses de vida do bebê a interação pai-bebê passe por grandes modificações, tendo em vista o surgimento de novas demandas familiares e do próprio bebê, com suas necessidades específicas. Assim, as dificuldades do adolescente na interação com a criança poderiam ser maiores, tendo em vista estes novos contextos. Isto poderia explicar, pelo menos em parte, a inconsistência dos achados entre os estudos aqui revisados, que podem estar se referindo a diferentes momentos da interação pai-bebê/criança.

É importante também ressaltar que os participantes deste estudo foram selecionados por conveniência, e não aleatoriamente, o que impede a generalização dos resultados. Soma-se a isto o pequeno número de participantes, que impediu, inclusive, que análises estatísticas mais sofisticadas pudessem ser utilizadas, ou que o eventual papel do sexo do bebê na interação com o pai pudesse ser examinado. Estudos futuros, com amostras maiores e selecionadas de forma aleatória, contribuirão para esclarecer muitas das questões levantadas pelo presente estudo.

Além de contribuir para o tema da paternidade, a presente investigação permitiu a comparação entre adolescentes e adultos, preenchendo uma lacuna encontrada na literatura, pois são escassos os estudos que comparam pais destes dois grupos etários em sua interação com o bebê. Além disso, permitiu a observação direta dos pais, evitando-se o eventual viés presente nos depoimentos maternos sobre os pais de seus bebês, tão sistematicamente apontado como falha metodológica por alguns autores (Robinson & Barret, 1982).

Talvez o ponto mais importante do estudo tenha sido mostrar que a paternidade na adolescência nem sempre assume um caráter negativo na vida dos jovens, como é representado freqüentemente, pelo menos em parte da literatura. É claro que os jovens enfrentam dificuldades na tarefa de ser pai, mas estas dificuldades não são necessariamente intransponíveis, especialmente quando eles recebem apoio de sua família e da família da namorada/companheira. Apesar das dificuldades que encontram em sua transição para a paternidade, os adolescentes parecem se tornar os melhores pais que eles podem ser.

 

Referências

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Endereço para correspondência
Daniela Centenaro Levandowski
Rua Ramiro Barcelos, 2600, sala 111
90035-030, Porto Alegre, RS
E-mail: d.cl@terra.com.br

Recebido: 04/01/2002
Revisado: 04/03/2002
Aceito: 11/04/2002

 

 

Sobre os autores

Daniela Centenaro Levandowski é Psicóloga (PUCRS), Doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento (UFRGS), Docente da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC/Chapecó) e da Universidade de Caxias do Sul (UCS).

César Augusto Piccinini é Psicólogo (UFRGS), PhD em Psicologia (University of London). Professor do Instituto de Psicologia da UFRGS.

 

 

1 Endereço para correspondência: Rua Ramiro Barcelos, 2600, sala 111, 90035-030. Porto Alegre, RS. E-mail: d.cl@terra.com.br
Agradecimentos para as acadêmicas de Psicologia (UFRGS) Patrícia Royer Voigt e Genilda Martins Maliska.
2 Este trabalho foi baseado na dissertação de Mestrado realizada por Daniela Centenaro Levandowski sob orientação do Prof. Dr. Cesar Piccinini, intitulada "Paternidade na adolescência: Expectativas, sentimentos e a interação com o bebê" (Órgão financiador: CNPq).
2 Esta pesquisa recebeu aprovação do Comitê de Ética dos dois hospitais envolvidos na coleta de dados.
3 Todos os instrumentos foram elaborados pelo GIDEP/UFRGS, não tendo sido ainda publicados.
4 Estes valores são considerados por Robson (1995) como suficientes (0,40 a 0,60) e bons (0,60 a 0,75), em função das características estatísticas do Kappa.
5 Foi encontrada somente uma correlação significativa: a escolaridade dos pais correlacionou-se negativamente com a categoria de comportamentos paternos fala para o bebê (-0,50; p = 0,02). Ao contrário do esperado, quanto maior a escolaridade do pai, menor foi a incidência de comportamentos nesta categoria.