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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.15 no.3 Porto Alegre  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722002000300004 

A segregação sexual na interação de crianças de 8 e 9 anos

 

Sexual segregation in interaction of 8-9 years old children

 

 

Fabrício de Souza1, 2 ; Maria Margarida Pereira Rodrigues

Universidade Federal do Espírito Santo

 

 


RESUMO

A segregação sexual é observada na interação entre crianças em diferentes culturas e grupos sociais. O presente trabalho investigou, sob uma perspectiva etológica, o papel das variáveis situacionais na regulação da segregação sexual durante as interações lúdicas. Registrou-se o comportamento, em vídeo, de um grupo de crianças de 8 e 9 anos, participantes do movimento bandeirante de Colatina/ES, Brasil. O número de componentes oscilou entre 9 e 18. Frente a esta variação, a análise incidiu sobre os comportamentos expressos nos diferentes contextos. Os meninos apresentaram um padrão de comportamento mais agitado que o das meninas. Estas se mostraram mais calmas entre si e mais agitadas em dadas interações com eles. Várias foram as aproximações entre meninos e meninas e as interações não-agonísticas entre ambos. As variáveis situacionais e os estilos de brincadeira mostraram-se importantes na análise das diferentes categorias comportamentais, bem como na determinação da segregação sexual.

Palavras-chave: Crianças; desenvolvimento; interação social em crianças; sexo-diferenças.


ABSTRACT

Sexual segregation is a common phenomenon observed during the interaction between children in different cultures and social groups. The present work studied sexual segregation under an ethological view aiming to understand the role of situational variables over the regulation of that behavior during play interactions. A group of 8-9 years old children from the Scout movement of Colatina/ES, Brazil, had their behaviors registered in a video cassette. Due to the possible changes in the numbers of participants during data collecting period (among 9 and 18), the analysis focused on the expressed behaviors in different contexts. The results showed that boys had a more agitated behavior pattern than girls. Girls showed up calmer during the contact between themselves and more agitated in some interactions with boys. Despite the differences, many kinds of contexts in which a closer contact between boys and girls, such as maintenance of non-agonistic interactions between both, were observed. Situational variables are discussed in the analysis of different behavioral categories, showing the importance of play style in the determination of sexual segregation.

Keywords: Children; development; social interaction among children; sex–differences.


 

 

A partir do terceiro ano de vida, a criança é capaz de fazer distinções de gênero e a interação social lúdica, já nessa idade, pode refletir as diferenças sexuais percebidas (Benenson, Parnass & Apostoleris, 1997; Stagnitti, Rodger & Clarke, 1997). É justamente em meio a esse processo de interação, baseado em uma separação entre os diferentes sexos, que a criança desenvolve, dentre outras coisas, diferentes padrões de comportamento que irão persistir durante sua vida adulta.

Segundo Oliveira (1996), a construção da individualidade, como pertencente a uma determinada categoria de gênero, inicia-se ao nascimento da criança. Essa construção ocorre a partir da observação das próprias ações e das de seu meio social e da categorização dessas ações como masculinas ou femininas. Estabelecido o processo de categorização, as crianças tendem a perceber e a avaliar o comportamento de seu próprio grupo e o dos demais, exagerando tanto algumas diferenças quanto algumas similaridades entre os mesmos (ver Tajfel, 1982).

Assim, a preferência das crianças por outras de seu próprio sexo, segundo Powlishta (1995), é acompanhada de: "a) exagero das diferenças entre meninos e meninas e das similaridades entre indivíduos do mesmo sexo, b) uso dos estereótipos de gênero e c) crença de que alguém de seu próprio sexo seja mais heterogêneo ou variável que outros" (p. 782).

Segundo Maccoby (1988), a tendência à composição de grupos segregados sexualmente aparece entre 2 e 3 anos de idade e intensifica-se com o aumento da idade. São as meninas quem primeiramente manifestam essa postura, em torno dos 2 anos, quando começam a se aproximar mais umas das outras. Já os meninos permanecem mais "neutros" até, aproximadamente, os 3 anos e, quando atingem o quinto ano de vida, manifestam uma preferência bem mais forte do que as meninas por parceiros do mesmo sexo.

A preferência por parceiros de mesmo sexo, segundo Maccoby e Jacklin (1987), estaria relacionada, principalmente, a três fatores: os diferentes estilos que meninos e meninas têm para influenciar os colegas, a esquiva de contatos que podem ser interpretados, pelos colegas, como relacionamentos românticos e a capacidade que adquirem de classificar os diferentes gêneros e assumir o próprio.

Discutindo as estratégias que meninos e meninas utilizam para influenciar seus companheiros, Maccoby (1988) mostra que, de 3 ¹/² anos a 5 ¹/² anos de idade, as meninas apresentam aumento do uso de "sugestões educadas". Já entre os meninos, o que se observa é o desenvolvimento de um padrão em que prevalecem as "exigências diretas". Decorre então que os meninos, nesse período de suas vidas, tornam-se cada vez menos responsivos às sugestões provenientes das meninas. Estas, por sua vez, crescem aprimorando um estilo de influência múltipla que dá resultados com as demais pessoas, mas é, progressivamente, cada vez menos efetivo com os meninos (ver também Powlishta & Maccoby, 1990).

Sendo o estilo desenvolvido pelas meninas desprovido do efeito esperado sobre os meninos, é possível que tal fato seja tido como uma das possíveis justificativas para a esquiva da interação entre ambos, dado que pode ser, para as meninas, aversiva a interação com alguém que não responde a seus requerimentos verbais. Assim, elas evitam o contato com os meninos e isso dificulta a formação de grupos com crianças de ambos os sexos (Maccoby, 1990).

Argumentos semelhantes são apresentados por Geary (1998), mostrando-nos que os grupos formados pelas crianças estão ligados aos seus interesses mútuos e às suas habilidades de influenciar o comportamento de companheiros. Isso sugere que a segregação sexual, ao menos em parte, resulta tanto de diferenças sexuais nos interesses pelos tipos de brincadeiras como pelos diferentes estilos de influenciar os demais.

Para alguns pesquisadores, as explicações da preferência por parceiros de mesmo sexo devem ser baseadas na análise de fenômenos sócio-culturais. Segundo F. Braza, P. Braza, Carreras e Muñoz (1997), a segregação sexual entre as crianças constitui-se mais como reflexo de um fenômeno social do que a manifestação de gostos e de preferências individuais da criança (ver também Maccoby, 1988, 1990). Nesse sentido, Zamberlam (1979) afirma que uma possível explicação para a segregação pode ser identificada na dependência entre o comportamento da criança e os estereótipos culturais do meio com o qual ela interage e na maior atenção dada à observância de padrões comportamentais que se expressem consonantes com tais estereótipos.

Alexander e Hines (1994) argumentam que os diferentes estilos de brincadeira não podem ser completamente tomados como justificativa para a segregação sexual porque as crianças manifestam sua preferência por outras de mesmo sexo, mesmo quando envolvidas em brincadeiras semelhantes. É provável, segundo estes autores, que a segregação seja um fenômeno cognitivo-social evidenciado a partir de quando as crianças adquirem uma compreensão acerca dos diferentes gêneros e começam a avaliar as demais de seu próprio gênero (ver também Maccoby, 1988). Desse modo, embora haja a possibilidade de que os diferentes estilos de brincadeira iniciem e até mesmo reforcem o favoritismo por parceiros de mesmo gênero, esse padrão de seleção dá-se primeiramente com base na identificação de seu próprio gênero.

Nenhuma teoria consegue contemplar, por si só, a total complexidade envolvida na explicação da segregação entre as crianças e, tampouco, o papel que o estilo de brincadeira e a identificação dos gêneros desempenham em favor dessa preferência. Uma completa compreensão do fenômeno em questão somente seria possível através de um modelo teórico que incorpore aspectos de diversas teorias (Alexander & Hines, 1994).

De outro lado, a despeito do grande número de pesquisas sobre o desenvolvimento da preferência por companheiros de mesmo sexo, a maior parte dos estudos foi conduzida em ambiente escolar e focalizou muito mais os comportamentos responsáveis pela segregação que os comportamentos exibidos nas interações meninas-meninos. Supomos que o estudo das interações meninas-meninos poderá contribuir para a compreensão da segregação sexual, especialmente em condições que permitam a formação espontânea de grupos e sejam caracterizadas pela ludicidade.

Nessa perspectiva, esta pesquisa teve como objetivo identificar a ocorrência de comportamentos indicativos de segregação sexual e as possíveis variáveis envolvidas na determinação de tais comportamentos a partir da investigação das interações sociais espontâneas de crianças de 8 e 9 anos.

 

Método

Os sujeitos escolhidos para participarem deste estudo são as crianças de 8 e 9 anos, participantes do Movimento Bandeirante Marista, de Colatina/ES.

As crianças participam do movimento pelo tempo que desejarem. Por isso, durante a coleta de dados, houve variação no número de crianças observadas em função de saídas e da admissão de novos membros. O total de crianças participantes deste estudo variou de 9 a 18, sendo que 8 meninos e 5 meninas tiveram seus comportamentos mais freqüentemente registrados por terem participado do movimento por quase todo o período de coleta de dados.

O ambiente deste estudo constituía-se de uma vasta área contendo um galpão coberto, quatro quadras poliesportivas, uma pista de corrida, dois campos de futebol e dois playgrounds.

A coleta de dados ocorreu no período de reuniões semanais do grupo que aconteceram aos sábados das 14 às 17 horas. O registro era iniciado quando ocorria interação entre pelo menos duas crianças.

Enquanto aguardavam o início da reunião, as crianças tinham à disposição algumas bolas de futebol e de voleibol, além de poderem brincar nos playgrounds. Jogos de equipe figuravam entre as atividades mais freqüentes que os coordenadores preparavam para as reuniões. Competições entre as equipes de meninos e de meninas alternavam-se com os períodos em que os coordenadores afastavam-se das crianças, permitindo a elas escolher o tipo de brincadeira ou atividade.

Utilizou-se a vídeo-gravação para o registro dos comportamentos das crianças, quando estas estiveram em grupos de no mínimo dois membros. As filmagens aconteceram de forma a proporcionar:

– a observação das interações quando a(s) criança(s) brinca(m) em grupos compostos por parceiros de mesmo sexo – same sex peer

– a observação das interações quando a(s) criança(s) brinca(m) em grupos compostos tanto por parceiros de mesmo sexo quanto por aqueles de sexo diferente do dela – mixed sex peer

Foram totalizadas 24 horas de registros, ao longo de 8 meses, referentes às interações das crianças tanto em situações livres da interferência direta dos coordenadores como naquelas em que estes se faziam presentes.

Decidiu-se registrar também as interações das crianças durante a presença dos coordenadores porque, segundo Maccoby e Jacklin (1987), quando os adultos mantêm um contexto estruturado no qual a segregação é favorecida, as crianças segregam-se mesmo que na presença deles.

 

Resultados

Selecionaram-se para análise as interações das crianças em situação livre sem a interferência dos adultos na constituição dos grupos e nos tipos de brincadeiras adotados. A decisão de excluir da análise as interações ocorridas durante as atividades coordenadas pelos adultos deveu-se à constatação de que os adultos favoreceram e, em alguns casos, determinaram a formação de grupos unissexuais.

Estabeleceram-se, então, categorias comportamentais, algumas das quais elaboradas por F. Braza e colaboradores (1997). A Tabela 1 apresenta o conjunto de categorias utilizadas neste estudo para a quantificação das interações vídeo-gravadas.

 

 

Os dados coletados com o registro das interações em grupos constituídos por iniciativa das próprias crianças foram agrupados de acordo com a constituição desses grupos. Tais grupos, temporariamente constituídos, foram classificados da seguinte maneira: Grupo MO (inclui dados de todos os grupos compostos somente por meninos), Grupo MA (inclui dados de todos os grupos constituídos apenas por meninas) e Grupo MI (todos os grupos formados por crianças de ambos os sexos). Calculou-se a freqüência dos comportamentos que as crianças exibiam em um determinado grupo. Obtidas as freqüências dos diferentes comportamentos, estas foram transformadas em percentagens. A decisão de utilizar apenas dados percentuais decorreu do fato de os totais de meninos e de meninas serem diferentes.

Quando um grupo reunido continha a presença de meninos e de meninas, e um dos meninos emitia um comportamento direcionado a outro, esse comportamento era classificado como pertencente ao grupo MO, visto que o comportamento, mesmo com a presença de meninas, foi emitido por um menino e direcionado a outro. Sendo o comportamento direcionado tanto a um menino quanto a uma menina, o mesmo foi classificado como pertencente ao grupo MI.

A Figura 1 mostra os percentuais de comportamentos emitidos em interações agonísticas (importunar, ameaçar, insultar e jogar objetos no outro) e aqueles manifestados nas de aproximação e de manutenção de interações (aproximar-se, acompanhar, abraçar e pedir para brincar).

 

 

Comparando as interações ocorridas nos grupos MI com os demais grupos, pôde-se constatar que neste houve percentagens mais altas de importunar (60%), de ameaçar(53%), de insultar (72,2%) e de jogar objetos no outro (77%). O grupo MO apresentou maior percentual de tais comportamentos quando comparado com o grupo MA, em que não ocorreram os comportamentos de jogar objetos no outro e insultar, tendo este grupo MA apresentado freqüências baixas para o importunar e o ameaçar (5,6% e 4%, respectivamente).

Os comportamentos de abraçar e de pedir para brincar, em comparação com os de aproximar-se e os de acompanhar, apresentaram seus percentuais distribuídos irregularmente entre os três grupos. A totalidade dos pedidos para brincar ocorreu no grupo MI, enquanto 87,8% dos abraços foram observados entre os meninos (grupo MO). Do total de aproximações, 43,7% deram-se no grupo MI, 30,3% no MA e 26% no MO.

Os dados também mostram que as meninas foram as que mais apresentaram o comportamento de acompanhar umas às outras (42,4%). Já os meninos obtiveram um percentual de 27,6% enquanto o registrado no grupo MI foi de 30%.

As interações no grupo MI mostram-nos que os contatos entre meninos e meninas foram, freqüentemente, agonísticos. Comparando-se as percentagens de importunações, ameaças, insultos e de jogar objetos no outro, pode-se afirmar que as diferenças existentes entre os grupos MO e MA são indicativas de que os meninos interagem de maneira mais ativa e turbulenta. Em um primeiro momento, analisando as percentagens do grupo MO, pode-se pensar que as meninas apresentam um padrão mais calmo de interação. Entretanto, o cálculo de percentagens e a verificação da tomada de iniciativa para tais comportamentos no grupo MI, como será mostrado adiante, evidenciam uma situação diferente.

Mesmo diante de interações agonísticas, deve-se assinalar a freqüência com que meninos e meninas aproximaram-se uns dos outros quando das interações no grupo MI. Soma-se a essa constatação o fato de que os pedidos para engajamento em brincadeiras somente ocorreram no interior do grupo MI. Outro resultado interessante: os meninos abraçaram-se mais que as meninas.

Foram registrados 115 episódios de brincadeira turbulenta, que ocorreram tanto no grupo de meninos (MO) quanto entre estes e as meninas (MI). Desse total, 77,4% dos episódios aconteceram entre os meninos e 22,6% envolveram meninos e meninas. Nos grupos compostos unicamente por meninas não foram registrados quaisquer episódios de brincadeira turbulenta.

As brincadeiras turbulentas consistem em uma forma de interação através da qual as crianças empurram, puxam, dão socos, perseguem, lutam, agarram e apertam umas as outras. Como assinalado por DiPietro (1981), ainda que tais padrões motores, característicos desta brincadeira, algumas vezes permitam classificá-la como uma espécie de agressão, convém ressaltar que nela se inclui um componente fortemente ligado à sociabilidade. Isso permite opor a brincadeira turbulenta às brigas "de verdade" e a outras interações agonísticas, tais como as apresentadas na Figura 1, uma vez que nelas existe a real intenção de provocar ferimentos no parceiro ou o seu afastamento, intenção esta que se encontra ausente na brincadeira turbulenta (DiPietro, 1981). Por esse motivo, preferimos não incluir na figura 1 as percentagens relativas à brincadeira turbulenta.

No intuito de mostrar o padrão de contatos que meninos e meninas exibiram quando interagiam no grupo MI, os dados apresentados na Figura 2 são especificamente restritos aos comportamentos emitidos nesse grupo. As iniciativas das interações eram tomadas tanto pelos meninos como pelas meninas.

 

 

A maioria das importunações (54,7%) partiu dos meninos e, provavelmente, em decorrência disso, as meninas iniciaram mais freqüentemente as ameaças (62,7%), os insultos (51,4%) e os arremessos de objetos dirigidos aos meninos (60%).

As aproximações mais freqüentes foram as dos meninos para com as meninas (55,1%). Eles também apresentaram percentagem maior de iniciativas para acompanhá-las (54,8%) em alguma atividade que elas estivessem realizando. Entretanto, os pedidos para se inserir em uma brincadeira partiram, em sua maioria (69,5%), das meninas. Nenhum abraço foi registrado no grupo MI.

Os resultados revelados pela Figura 2 confirmam que os meninos, como nos mostra a Figura 1, interagem de forma mais ativa e irrequieta. Entretanto, as meninas, na presença destes, passaram a manifestar as importunações (45,3%), os insultos e as ameaças que não apresentavam quando interagiam apenas entre si.

Envolvendo-se em muitas conversas, as meninas permaneceram por mais tempo paradas em um dado lugar. Esse padrão provavelmente favoreceu uma maior aproximação dos meninos em relação a elas (54,8%).

Embora os meninos tenham se aproximado mais das meninas e acompanhado-as em algumas de suas atividades, deve-se notar que os pedidos para brincar, para inserir-se em algum tipo de brincadeira partiram mais das meninas visando à participação em brincadeiras como rebater bola, cabo de guerra, futebol e para encenar "Os escravos de Jó". Dentre tais pedidos, os mais freqüentes foram para rebater bola e jogar futebol. Os meninos, por sua vez, quando pediram para brincar com as meninas, queriam rebater bola, encenar "Os escravos de Jó" e brincar de jogo da velha.

Supondo que as meninas parecem assumir padrões de interação mais "agitados" diante dos meninos, considerou-se importante apresentar as tomadas de iniciativas quando da ocorrência das brincadeiras turbulentas no grupo MI (ver Figura 3).

 

 

Conforme Figura 3, as meninas iniciaram 23% dos episódios de brincadeira turbulenta enquanto os demais 77% de iniciativas pertenceram aos meninos.

Os dados percentuais relativos à brincadeira turbulenta envolvendo meninos e meninas foram obtidos a partir de um total de 26 episódios deste tipo de interação. Desse total, 20 episódios foram iniciados pelos meninos e os 6 restantes pelas meninas.

Vale lembrar que esses 26 episódios de brincadeira turbulenta registrados no grupo MI representam 22,6% do total registrado juntamente com os ocorridos apenas no grupo MO.

 

Discussão

No grupo MI houve uma maior ocorrência de aproximações entre meninos e meninas do que entre meninos e meninos, no grupo MO, e de meninas e meninas, no grupo MA. No grupo MI, 55,1% das iniciativas de aproximação partiram dos meninos, sendo interessante pensar a importância que essas aproximações assumem na compreensão e no desenvolvimento dos rituais de acesso que virão a ter uma funcionalidade específica na vida adulta.

Segundo A. M. A. Carvalho e J. E. C. Carvalho (1990), o contato social exige que um acesso ao espaço interpessoal do outro seja obtido pelos parceiros. Torna-se importante, então, conhecer os processos envolvidos na iniciação dos contatos sociais entre as crianças devido à sua importância científica e social. Estes autores sugerem que, ao se utilizarem de estratégias de acesso a seus coetâneos, as crianças desenvolvem uma consciência acerca das funções dos rituais de acesso e isso seria uma característica de grande valor para o desenvolvimento da competência social.

Algumas vezes os meninos se aproximaram das meninas no intuito de pedir algo a elas, de inserir-se em alguma atividade que estas estivessem desenvolvendo, como, por exemplo, brincar com a bola, conversar, ou simplesmente para observar o que elas estavam fazendo no momento. Dependendo da atividade, eles mantinham a aproximação ou afastavam-se. Algumas dessas aproximações culminaram com algum tipo de importunação.

Os meninos mantiveram suas aproximações junto às meninas principalmente para conversar e participar de alguma atividade com bola ou outra atividade que envolvesse contatos físicos ou um padrão de interação mais agitado, como, por exemplo, encenar "os escravos de Jó". As meninas, por sua vez, aproximaram-se dos meninos no intuito de estabelecer uma conversa, para observar suas atividades ou para pedir algo a eles.

Poucos foram os comportamentos agonísticos registrados entre as meninas e insultos e arremessos de objetos não foram observados. As importunações e as ameaças apareceram com uma freqüência muito baixa quando comparadas com a ocorrência desses comportamentos entre os meninos.

É no contato entre os sexos, no grupo MI, que a situação se modifica. Os meninos continuam detendo a maior freqüência do comportamento de importunar; mas, para as meninas, observou-se também um aumento. Em relação aos demais comportamentos agonísticos dispostos na Figura 2, as maiores percentagens foram registradas para as meninas. Os meninos apresentaram porcentagens não muito diferentes, com menor ocorrência do que as meninas.

Bussab (2000) comenta que o contato social, a interação e o vínculo encontram-se relacionados ao desenvolvimento psicológico do indivíduo e, sendo assim, agressão e apego são necessários ao ajustamento do sujeito ao contexto sócio-afetivo de desenvolvimento, ou seja, "amor e ódio se ligam de diversas maneiras" (p. 205). A autora ainda afirma que a grande maioria de incidentes agressivos tem origem em algum tipo de problema ligado a relacionamentos estabelecidos pelos sujeitos.

Algumas dificuldades de interação e de ajustamento parecem estar associadas a uma ausência ou escassez de reações de defesa e de disputa (Bussab, 2000). Esse raciocínio dá-nos pistas para pensar que exposição a situações agressivas em um contexto lúdico é funcional. Essa assertiva pode ser constatada na observação da brincadeira turbulenta, que parece ser essencial ao desenvolvimento (Bussab, 2000).

Boulton (1996) discute que é possível, sob o ponto de vista evolucionário, imaginar que a brincadeira turbulenta proporcione muitos benefícios às crianças porque ocorre a despeito de demandar um alto consumo de energia e risco de ferimentos. Um dos grandes benefícios, segundo o autor, estaria ligado à aquisição de habilidades para lidar com situações que podem colocar em risco a integridade física da criança.

Ao estudar as relações entre as brincadeiras turbulentas e as brigas reais entre as crianças, Smith (1997) apresenta quatro benefícios principais que, dentre outros, geralmente são atribuídos a este tipo particular de interação, que é o próprio "brincar de brigar" (Castro & Carvalho, 1981). São eles: a) reforçar os laços e a coesão social, b) permitir a prática de certas habilidades, tais como tomar parte nas resoluções de problemas e oportunizar a codificação e a decodificação de signos sociais, c) possibilitar o desenvolvimento de habilidades para lutar com e/ou perseguir algo (ver também Boulton, 1996) e d) estabelecer ou manter as relações de dominância, fornecendo informações relevantes para tais relações durante os encontros entre as crianças (ver também Boulton, 1996).

A proximidade e o contato físico, característicos da brincadeira turbulenta, permitem-nos algumas considerações acerca das expectativas que meninos e meninas apresentam frente às suas relações de amizade.

Ray e Cohen (1996) mostram-nos que, para os meninos, um dos fatores tidos como importantes ao se estabelecer uma relação de amizade é justamente a proximidade física. E, no grupo estudado no presente trabalho, 87% dos abraços envolveram meninos e nenhum abraço entre meninos e meninas foi observado.

Não foi caracterizada uma situação específica que pudesse estar ligada à ocorrência dos abraços entre as meninas. Quando elas se abraçavam, o gesto de pôr os braços ao redor dos ombros da colega acontecia em meio a conversas. Em algumas das vezes parecia que tal gesto era apenas uma extensão de seu comportamento verbal.

Com os meninos não foi assim. Quando estes se abraçavam era perceptível que tal gesto caracterizava situações bem específicas. A comemoração de algum feito que por ventura eles tivessem conseguido, como fazer gols durante o jogo de futebol. Outras situações em que foram observados abraços entre os meninos foram: tentativa de convencer o colega de algo, chamá-lo para algum tipo de brincadeira ou para uma conversa. Por fim, a última situação foi a de resolução de conflitos.

Segundo Bussab (2000), existem certos comportamentos que são ritualizados e que têm por objetivo atenuar a tensão de determinados encontros, promovendo um estreitamento do vínculo e uma diminuição do medo e da agressividade. Dentre esses comportamentos estão o aperto de mão e os tapinhas nas costas. O abraço também pode ser incluído como tal.

Todas as interações envolvendo chamados ou pedidos para brincar foram seguidas de atividades lúdicas que não traziam em si a marca de uma tipificação sexual específica. Rebater bola, encenar "Os escravos de Jó", brincar de jogo da velha e jogar futebol foram, com exceção deste último, atividades nas quais as crianças se envolveram sem demonstrar preocupação com sua adequação a meninos ou a meninas.

Referente à manutenção da segregação nos contextos organizados pelos adultos, observou-se o que nos afirmaram Maccoby e Jacklin (1987). Várias foram as situações em que os coordenadores mantiveram uma estrutura que favoreceu a segregação por incentivarem a disputa entre os sexos, por reforçarem as diferenças entre ambos e por organizarem o grupo de modo que suas equipes fossem compostas exclusivamente por meninos ou por meninas. Em outras palavras, constatou-se que as crianças alvo desta pesquisa, mesmo diante dos adultos, exibiram padrões de comportamentos relacionados à segregação sexual.

Nas condições do presente estudo, é possível assinalar que os principais determinantes da segregação sexual constituíram-se nos diferentes padrões de interação que as crianças demonstraram em suas atividades lúdicas.

De maneira geral, meninos e meninas mantiveram-se afastados uns dos outros porque elas mostraram-se mais calmas e envolvidas em conversas enquanto eles exibiram um padrão mais irrequieto e turbulento. Obviamente, esses padrões de interação, como pôde ser observado nos resultados obtidos, não se constituíram em exclusividade de nenhum dos sexos. Justamente por isso, em várias situações, as crianças interagiram de forma a permitir a proximidade dos colegas de sexo oposto.

Em algumas ocasiões, as meninas engajaram-se em brincadeiras turbulentas, e os meninos mantiveram diálogo com elas, inclusive por um tempo maior do que o fizeram entre si. A constatação desse tipo de comportamento mostra-nos a propriedade de novas pesquisas para a composição de mais dados referentes à importância do comportamento verbal e das brincadeiras turbulentas como determinantes da separação entre crianças de diferentes sexos.

No contexto em que se realizou este estudo, pôde-se observar que o Clube do Bolinha e o da Luluzinha interagiram em dadas ocasiões. A despeito das diferenças de interesses, motivações e níveis de atividade de meninas e de meninos, as interações inter-sexuais persistiram. Isto mostra que, embora diferentes padrões de interação se constituam em determinantes importantes, não deve ser desconsiderado o pressuposto que considera a multiplicidade de determinantes na regulação dos comportamentos de segregação (Alexander & Hines, 1994; Ge & cols., 1996; Maccoby, 1988; Rutter, 1997).

Foi importante constatar como a segregação entre as crianças manteve-se constantemente ligada tanto ao contexto de interação das crianças entre si quanto ao de interação com os adultos. Tal constatação permite-nos ressaltar a pertinência do desenvolvimento de pesquisas com a finalidade de fundamentar novas hipóteses sobre a relevância do papel dos adultos na manutenção da segregação.

Embora o objetivo do presente trabalho não tenha sido investigar especificamente os aspectos cognitivos, nem tampouco os biológicos, envolvidos na determinação da segregação sexual, pode-se afirmar que os dados coletados com a pesquisa aqui descrita apontam para a importância que diferentes estilos de brincadeiras apresentados pelas crianças assumiram como variáveis situacionais na caracterização da segregação.

Talvez o emprego de uma metodologia que tenha primado pela observação direta do comportamento, caracterizando a pesquisa etológica, tenha favorecido a apreensão dos dados coletados de forma que este pudesse ser um resultado esperado. Entretanto, deve-se considerar que mesmo com o emprego de um instrumento que pudesse nos oferecer melhores condições para a avaliação dos aspectos cognitivos, foi muito marcante o fato de que a interação entre meninos e meninas se deu de maneira intensa e envolvendo padrões comportamentais aceitos pelas crianças dos dois gêneros em diferentes contextos.

 

Referências

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Recebido: 09/08/2001
1ª Revisão: 04/12/2001
2ª Revisão: 07/02/2002
3ª Revisão: 01/04/2002
Aceite Final: 16/04/2002

 

 

Sobre os autores
Fabrício de Souza é Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.
Maria Margarida Pereira Rodrigues é Doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo.

 

 

1 Endereço para correspondência: Rua Francisco Eugênio Mussielo, 440, bl 10, 402, 29060-290, Vitória/ES. Fone: (27) 3224-0638 / 9276-8170. E-mail: fabrissouza@hotmail.com
2 O presente artigo é parte da Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação da UFES em Novembro de 2000.