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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.15 no.3 Porto Alegre  2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722002000300021 

RESENHA

 

O Autismo e sua positividade

 

 

Leônia Cavalcante Teixeira1

Universidade de Fortaleza

 

 

O livro Autismo de Ana Elisabeth Cavalcanti e Paulina Schmidtbauer Rocha reserva ao leitor – seja ele psicanalista, psicólogo, psiquiatra, neurologista, educador ou um interessado descomprometido com os rigores de tais campos – um excelente contato com a clínica psicanalítica e tudo o que ela pode nos ensinar quando praticada com competência e audácia. Conjugar essas qualidades pode parecer fácil, mas não sem paradoxos e enigmas, muitos enigmas.

Ana Elisabeth e Paulina nos apresentam suas trajetórias de trabalho no Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) junto a crianças e seus pais. A partir de entusiasmantes narrativas de casos, as autoras radicalizam a emergência de construções teóricas que privilegiam a escuta clínica e suas surpresas, sempre desafiantes àqueles que não tomam os conceitos neurológicos, psiquiátricos e psicológicos, bem como as metapsicologias psicanalíticas, como escudos contra o inusitado que a clínica constrói.

Defrontadas com a assertiva questionadora de Teresa Campello – psicanalista em João Pessoa e interlocutora das autoras – "o que essas crianças têm? Vocês só falam o que elas não têm!", Ana Elisabeth e Paulina se lançam na escrita de uma obra concisa, porém consistente e clara, respeitando as plurais leituras, desdobramentos e inovações teóricas do texto freudiano. Assim, as autoras interrogam as atitudes de submissão tão freqüentes no campo teórico-clínico da Psicanálise. Com elas compartilho a ênfase na clínica e o perene exercício de construção que todos nós – psicanalistas – somos convidados a fazer. Acredito que é somente indo contra a maré das "auto-denominações" e "auto-reconhecimentos" mantenedores de visões dogmáticas da Psicanálise, que podemos percorrer trajetórias que privilegiem o sujeito sofrente. As armadilhas são muitas e se concentram tanto nas classificações sintomatológicas da Psiquiatria, das Psicologias e da Psicanálise, como também nas "exigências" de sujeição à burocracia e cristalização das Instituições. Quanto a esse segundo item, vale citar a concepção das autoras sobre a sociedade psicanalítica, apresentada no artigo "Reflexões sobre a instituição psicanalítica na contemporaneidade", escrito em parceria com Cármen Cardoso e publicado em Função fraterna (2000, p.115): "uma visão compartilhada da psicanálise enquanto saber marcado pela exigência radical de sustentar, na produção (teórica, clínica e institucional), um posicionamento contínuo de interrogação, de questionamento e de convivência com as incertezas e as impossibilidades, exigência derivada do seu próprio objeto – o trabalho com o inconsciente e, portanto, com o desconhecido, o não-sabido, o irrepresentável".

Retoma-se aqui a concepção da Psicanálise em construção, perspectiva ética que é assumida pelas autoras nos quatros capítulos nos quais o livro se constitui. Em "Algumas questões preliminares", os preconceitos estereotipados e, paradoxalmente, o fascínio que o autismo exerce sobre o imaginário profissional e leigo em geral são discutidos. Neste primeiro capítulo, são problematizadas questões relativas aos mitos que cercam o autismo, mesmo nos meios científicos, expressos pelas metáforas que constituem concepções hegemônicas, como "fortaleza-vazia", "tomada desligada", "ovo", "concha", "carapaça", "folha de papel", como ainda são expostas as posições de autores como Léo Kanner, Margareth Mahler, René Diatkine, Donald Meltzer, Marie-Christine Lasnik, Cristina Kupfer, dentre outros. Um ponto interessante neste momento do escrito é quando Ana Elisabeth e Paulina discutem o autismo em relação às configurações subjetivas e sociais contemporâneas e aos enigmas que despertam atenção sobre a constituição do sujeito. Nessa linha de raciocínio, o livro O que a clínica do autismo pode ensinar aos psicanalistas (1991) constitui uma obra importante aos interessados em abordar a questão por esses vieses. No capítulo segundo, intitulado "Construção de uma patologia", são a etiologia, o diagnóstico e as possibilidades de encaminhamento clínico-teórico os itens destacados.

As preocupações das autoras quanto à origem do termo autismo se desdobram em considerações críticas acerca das bases lançadas por Kanner, teórico que é posto em interlocução com elaborações contemporâneas sobre o tema como as de Lasnik, Ribas e Kupfer. Ressaltando a primazia da clínica, Ana Elisabeth e Paulina apresentam relatos de casos ricamente elaborados e ratificadores de narrativas que ampliam as visibilidades de escuta do sofrimento, da singularidade.

Seguindo este raciocínio, as psicanalistas desenvolvem no terceiro capítulo, "Algumas narrativas psicanalíticas sobre o autismo", a história desse conceito, pensando, a partir de construções e desconstruções, o autismo como invenção e não "como uma descoberta científica, passível de comprovação, palpável, que existe independente dos sistemas de crenças e da cultura, enfim, desprendido do seu contexto" (p.96).

"Com Winnicott na contramão", Ana Elisabeth e Paulina reconhecem a perspectiva desse autor como incitadora de interrogações produtivas às concepções e à escuta clínica que vêem o autismo como defeito, deficiência e patologia. A partir da tese winnicottiana "o autismo, isso não existe!", as psicanalistas pronunciam o seguinte: "a conclusão a que podemos chegar, junto com Winnicott, é que, na clínica psiquiátrica e sobretudo na clínica psicanalítica, é a escuta da longa, complicada e singular trajetória do indivíduo, que permite apreender os vários modos de subjetivação sem se deixar enredar pelas classificações sintomatológicas desses campos teóricos. Winnicott toma, portanto, como ponto de partida para a compreensão das dificuldades psíquicas do indivíduo, a história de seu desenvolvimento e não os sinais que, porventura, possam vir a ser agrupados como sintomas de uma doença ou síndrome, como uma forma específica de funcionamento ou como uma estrutura psíquica" (p.100).

É, então, analisando a psicopatologia e o diagnóstico, que a não concordância com a concepção do autismo como doença é tomada como idéia nuclear na opção das autoras pela escuta psicanalítica. Escuta qualificada como "sem qualquer preocupação diagnóstica" (p.109), ao tentar escapar das amarras das classificações baseadas na idéia de um ideal de subjetivação.

Ana Elisabeth e Paulina ratificam o árduo, porém belo, exercício do psicanalisar. A opção delas por Winnicott não se dá de modo cego, mas é apoiada na consistência advinda do rigor de 20 anos de trabalho com crianças. É isso que possibilita às psicanalistas apresentarem uma obra cheia de vitalidade.

Fugindo das fórmulas fáceis, elas dão visibilidade aos sujeitos que sofrem ao positivar estilos e produções subjetivos das crianças diagnosticadas de autistas. A obra interroga modelos ideais de subjetivação e suas implicações normativas na clínica, ressaltando o autismo como invenção histórica e não como essência limitadora dos plurais destinos dos sujeitos. Interessante lembrar os ensinamentos de Canguilhem e de Foucault sobre o normal e o patológico no campo epistemológico das ciências da vida, da história e da cultura em relação às possibilidades variadas e inusitadas de construção de nossas experiências.

Penso que a clínica constitui um solo de saber e as proposições metapsicológicas nela sustentadas se dispõem a serem reconstruídas sempre. A frase "teoria é bom; mas não impede as coisas de existirem" de Charcot, marcou o percurso de Freud – sendo indicada pelo editor de sua obra como sua citação favorita –, ilustrando a tese de que a primeira preocupação da terapêutica é com o sofrimento, mesmo que os pressupostos teóricos que cultivamos tenham que ser interrogados e contextualizados mediante outros olhares.

Que este livro traga implicações para todos nós, psicanalistas, contribuindo com a tarefa ética que marcou a obra dos que foram e são criadores da psicanálise.

 

Referências

Cavalcanti, A . E. & Rocha, P. S. (2001). Autismo. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Kehl, M. R. (2000). Função fraterna. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

Lasnik, M. C. ( 1991). O que a clínica do autismo pode ensinar aos psicanalistas. Salvador: Ágalma.

 

 

Recebido: 17/01/2002
1ª Revisão: 05/04/2002
Última Revisão: 07/05/2002
Aceite Final: 13/05/2002

 

 

Sobre a autora
Leônia Cavalcante Teixeira é Doutora em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Mestre em Educação; Professora nos cursos de Mestrado e de gradução da Universidade de Fortaleza.

 

 

1 Endereço para correspondência: Av. Santos Dumont, 7007/902, 60150 160, Fortaleza, CE. Fone/fax: (85)2341463/ 4773219. E-mail: leoniat@unifor.com.br