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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.16 no.3 Porto Alegre  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722003000300003 

Abordagem estrutural e componente afetivo das representações sociais

 

Social representations: affective impregnation and structural approach

 

 

Pedro Humberto Faria CamposI, 1; Michel-Louis RouquetteII

IUniversidade Católica de Goiás
IIUniversité Paris V, France

 

 


RESUMO

A "Abordagem Estrutural" das representações sociais define uma representação social como uma organização, que é atravessada por diferentes dimensões e não como um conjunto de eventos e processos puramente cognitivos. No estado atual da teoria, propomos o princípio que a dimensão afetiva observa uma relação "não-aleatória" com o núcleo central. Dois estudos anteriores são brevemente descritos, assim como os resultados acerca de três representações, ("menino de rua", "estudos superiores"e "família"), com o intuito de apresentar uma perspectiva de estudo que parece indicar que as relações entre elementos "semânticos" e "afetivamente carregados" não são aleatórias. Os dados corroboram a tese de que o Núcleo Central das representações organiza igualmente a distribuição das cargas afetivas no conjunto da representação social. As pesquisas, aqui apresentadas, correspondem a uma primeira aproximação exploratória das relações existentes entre a estrutura e a impregnação afetiva dos elementos de uma representação.

Palavras-chave: Representações sociais; abordagem estrutural; cargas afetivas; núcleo central.


ABSTRACT

The "Structural Approach" of social representations defines a social representation as an organization which comprises different dimensions and not as a group of purely cognitive events and processes. In the present state of theory, we propose the principle that the affective dimension maintains a random relationship with the Central Core. Two previous studies are briefly described as well as the results concerning three representations ("street children", "higher education" and "family") in order to present a perspective that seems to indicate that the relationships between "semantic" and "affectively charged" elements are random. The data seem to confirm the principle that the Central Core of social representations equally organizes the distribution of the affective charges on the social representation as a whole. The studies presented here correspond to a first exploratory approach of the relationships between the structure of a representation and the affective impregnation of representation elements.

Keywords: Social representations; structural approach; affective impregnation; central core.


 

 

Desde que Moscovici (1961, 1976) abriu o campo teórico do estudo das representações sociais, os campos de pesquisa e aplicação vêm se multiplicando. Inúmeros pesquisadores têm se dedicado ao estudo desta teoria, seja em busca do conhecimento de novas representações (no domínio da saúde, da educação, da economia, etc), seja no desenvolvimento teórico-metodológico do próprio campo. Entretanto, se, de um lado, é forçoso reconhecer que muito pouco se tem estudado sobre a dimensão afetiva que atravessa as representações, de outro lado, é preciso salientar que a importância desta dimensão, no funcionamento das representações, nunca foi rejeitado, ao contrário, os principais trabalhos de elaboração e consolidação da teoria reconhecem o papel da esfera emocional (da experiência privada e subjetiva) no funcionamento das representações. Em outras palavras, significa dizer que, se consideramos que uma representação é um conhecimento estruturado que tem um papel determinante no modo como os indivíduos vêm e reagem face à realidade, fica evidente que este conhecimento é dotado de cargas afetivas, é atravessado (ou poderia se dizer, "ativado") por um componente afetivo.

De fato, é pertinente a crítica de que psicologia social, de modo geral e em específico no campo das representações sociais, encontra sérias dificuldades em integrar o estudo dos aspectos emocionais ao estudo dos comportamentos coletivos e processos sócio-simbólicos. Em muitos casos, é o estudo empírico que nos remete à retomada destes aspectos, como exemplifica Lane (1995, p. 65): "Um segundo aspecto, emergente em várias pesquisas, foi a constatação da importância das emoções como uma mediação, ao lado da linguagem e do pensamento, na constituição do psiquismo humano".

No campo das representações, é notório que a grande maioria dos trabalhos de pesquisa se consagram à dimensão lógico-semântica. A grande dificuldade, a se pensar as relações existentes entre representações sociais e dimensão afetiva, reside na ausência de uma teoria da afetividade, ou do "comportamento emocional", que possa ser integrada satisfatoriamente ao campo teórico dos processos sócio-cognitivos. Contudo, a crítica de Banchs (1995) à teoria das representações sociais, nos parece um tanto quanto precipitada ao afirmar que:

... essa teoria não desenvolve a reflexão sobre o papel que jogam, na construção do self e da realidade (construções que se desenvolvem simultaneamente) os aspectos fundamentais da subjetividade tais como: necessidades, motivações, emoções, afetos, pulsões inconscientes ou conteúdos reprimidos, embora ela não negue a subjetividade individual... (p. 97)

Gostaríamos de decompor esta crítica em duas: na primeira parte, Banchs (1995) insiste numa visão da teoria das representações como teoria que não desenvolve certos aspectos (as emoções e afetos entre eles), porque não analisa como a subjetividade individual participa na elaboração das representações; na segunda, a autora critica certos autores que insistem em tentar reduzir a emoção a um fenômeno puramente cognitivo, e assimila esta posição à da teoria das representações sociais. Ora, quanto à primeira crítica, podemos dizer que as emoções e afetos não são aspectos exclusivos da vida privada subjetiva; as emoções vividas em situação de interação coletiva (intersubjetiva) influenciam na elaboração de representações2; quanto à segunda crítica, devemos dizer que a teoria das representações insiste no caráter socialmente partilhado das representações e não no caráter cognitivamente partilhado. Isto significa que buscamos trabalhar na direção do que Rime (1993) chama de "partilha social das emoções". As representações são definidas enquanto modalidade de pensamento social, o pensamento social sendo também mediado por uma dimensão afetiva.

A abordagem estrutural não concebe as representações como um conjunto de eventos e processos puramente cognitivos; tampouco ela se dedica às tentativas de estabelecer relações de primazia do aspecto cognitivo sobre o afetivo ou vice-versa. A abordagem estrutural tal qual ela é definida por Abric (1994 a, 1994 b, 1998), Flament (1994) e Rouquette e Rateau (1998) estabelece uma representação social como uma organização, uma estrutura que é atravessada por diferentes dimensões. Neste sentido, ao enfocarmos a dimensão afetiva, ela não se constitui em uma estrutura paralela, nem em uma subestrutura secundária: conforme as diferentes situações, a representação é ativada de modo mais normativo ou funcional; podem ser ativados elementos mais, ou menos, carregados afetivamente. Uma situação intensamente carregada do ponto de vista emocional, vivida pelo grupo, pode, como veremos adiante, produzir alterações na estrutura da representação (Giraud-Heraud, 1998).

Alguns pesquisadores que trabalham com a perspectiva estruturalista no estudo das representações (Moliner, 1996; Rateau, 1995; Rouquette & Rateau, 1998) promovem a retomada do que genericamente se pode chamar de dimensão afetiva, assimilando esta dimensão ao que chamam de "dimensão atributiva". Para estes pesquisadores, a dimensão afetiva é importante à medida que influencia, às vezes organiza ou determina cognições ou comportamentos avaliativos. A partir do momento em que os indivíduos produzem uma avaliação do objeto de representação, ou de alguns de seus aspectos, pode-se dizer que uma dimensão afetiva é ativada, dentro de um raciocínio do tipo "isto me agrada"ou "isto não me agrada". Em uma perspectiva mais restrita de definição do componente afetivo, a abordagem estrutural apresenta ainda vários exemplos de estudos, citados em Abric (1998), como sobre mudança de atitudes e representações:

Parece que, sob a luz dos resultados obtidos, de um lado, os elementos avaliativos de uma representação social constituem a estrutura subjacente de uma atitude relativa a um dado objeto; de outro lado, é somente quando as influências contra-atitudinais atingem um elemento central de uma dada representação (Ex.: a empresa ou os estudos) que elas podem provocar uma mudança de atitude. (p.37)

Apesar do reduzido número de pesquisas que se aplicam ao estudo do componente afetivo, o nosso primeiro propósito é o de apresentar estudos empíricos que indicam a importância da abordagem estrutural na constituição de novas pistas de estudo. Assim sendo, dois trabalhos recentes (Campos & Rouquette, 2000; Giraud-Heraud, 1998) e os resultados de três pesquisas empíricas serão apresentados, afim de ilustrar uma perspectiva de aproximação da dimensão afetiva, não somente enquanto cognições ou comportamentos avaliativos. Sem a pretensão de propor uma nova teoria da afetividade, estes trabalhos reconhecem o papel das emoções e afetos no funcionamento das representações.

Os três estudos de representação (meninos de rua; estudos superiores e família), que serão apresentados após os dois trabalhos acima mencionados, correspondem a uma primeira aproximação exploratória das relações possíveis existentes entre a estrutura de uma representação (e, em especial, em relação ao núcleo central) e a impregnação afetiva da qual os elementos da representação são objeto. No estado atual da teoria, podemos propor o princípio que a dimensão afetiva observa uma relação não-aleatória com o núcleo central. Isto significa dizer que o núcleo central assegura sua função organizadora e estruturante, também em relação à dimensão afetiva. Deste modo, elas compõem a parte inicial de um programa de verificação da hipótese segundo a qual o núcleo central de uma representação organiza e determina a participação estrutural das cognições afetivamente carregadas através de relações de significação.

A Representação Social de Multidão em Policiais Responsáveis pela Manutenção da Ordem (Giraud-Herault, 1998)

Em seus trabalhos de pesquisa, Giraud-Herault (1998) objetivou estudar a representação social da multidão (ou das massas) em grupos de policiais responsáveis pelo acompanhamento e controle de situações de grande público e a intervenção de fatores emocionais na estruturação desta mesma representação3. Partindo da noção de "sujeito em ação"4, o autor considera que os elementos de uma representação são, dentro de situações sociais específicas, impregnados por uma carga afetivo-emocional, a qual é variada segundo as características de cada elemento, a natureza social do objeto, a natureza da relação dos sujeitos com este mesmo objeto e as características conjunturais da situação. Segundo o autor, estas cognições atualizam a experiência emocional, que foi concretamente percebida pelos "sujeitos em ação", sob dois aspectos: o fisiopsicológico, que traduz a intensidade vivida sob a forma de ativação visceral ou de ataque à integridade física dos sujeitos; e o aspecto psicocognitivo, sob a forma de produção verbal, relativa à experiência, mais ou menos intensa, original e singular. Com fundamento nestes pressupostos, o autor distingue "cognições quentes" e "cognições frias", distinguindo cognições afetadas com carga afetivas intensa e cognições pouco impregnadas de cargas afetivas.

Do ponto de vista metodológico, a estratégia utilizada para integrar os estudo do componente afetivo ao estudo da estrutura da representação, foi o de classificar as cognições (elementos do conteúdo da representação) em cognições "quentes ou frias".

Assim, o autor identificou e analisou a estrutura da representação de multidão em três grupos de sujeitos policiais: o primeiro constituído de estudantes ainda na academia (élèves gardiens de la paix); o segundo, composto de policiais "iniciantes"; e, o terceiro, de policiais já com bastante experiência na prática. Analisando um conjunto de entrevistas semi-diretivas, centradas nas práticas efetivas dos policiais nas atividades de acompanhamento, vigilância e controle dos eventos de massa, identificou-se que a passagem do estado de iniciante para o estado de profissional experiente não era marcado pelos anos de atividade profissional, mas, sobretudo, por um acontecimento chamado de batismo de fogo. Esta expressão é utilizada pelos policiais para marcar o momento no qual um policial se confronta, pela primeira vez, à uma massa populacional hostil e "fora do controle"; nesta situação os sujeitos devem operar uma gestão dos riscos, ou seja, atuar, de modo coletivo e organizado, para controlar o perigo, e de modo individual (interno) para controlar o medo. Os resultados empíricos mostram que: a) a representação de multidão apresenta uma estrutura muito semelhante entre os alunos da academia e os policiais iniciantes (antes do batismo de fogo), à diferença que, nos segundos, há maior riqueza de elementos; b) a comparação das representações, entre o grupo de policiais experientes e os iniciantes, mostra que a vivência de um evento afetivamente carregado e traumatizante (o batismo de fogo) provoca um deslocamento das cognições quentes dentro da estrutura da representação, enquanto que elas são distribuídas de forma dispersa no grupo iniciante, elas se deslocam e vão se concentrar na região central da representação, no grupo experiente.

Carga Afetiva e Nexus (Campos & Rouquette, 2000)

A noção de nexus, introduzida por Rouquette (1994), refere-se a uma modalidade de conhecimento coletivo, que se estrutura como nódulos afetivos pré-lógicos que servem de referência para uma determinada comunidade, numa determinada época e funcionam como espécies de "etiquetas" das situações, capazes de provocar (desencadear) a mobilização das massas. Como exemplos o autor cita as palavras igualdade/liberdade/fraternidade, na época da Revolução francesa ou esquerda/direita no período da guerra fria. Em um conjunto de pesquisas, o autor demonstra que a etiquetagem diferenciada de determinadas situações ou com o título de "nazista" ou de "partido nacional socialista", em uma primeira pesquisa (ou o título de "louco" ou de "doente mental", em uma segunda) provoca diferentes posicionamentos da parte dos sujeitos.

Em seguida a estes trabalhos, nós nos propusemos (Campos & Rouquette, 2000) a verificar a possibilidade de se obter uma produção discursiva, de caráter afetivo, a partir de uma etiqueta (palavra ou imagem). Neste estudo, nos baseamos no método de análise das evocações, através de questionário de evocações (Campos, 1998; Pereira de Sá, 1998; Tura, 1998; Vergès, 1989, 1992, 1994), já clássico na abordagem estrutural do estudo das representações sociais, e, se funda na associação livre produzida por uma palavra indutora, apresentada dentro de uma pergunta, assim formulada: "quais são as palavras ou expressões que vêm espontaneamente à sua mente quando você escuta a palavra...".

A evocação de uma representação (e igualmente de um nexus) pode ser provocada tanto por uma palavra indutora quanto por um ícone. Desenvolveu-se então um plano quase experimental com a manipulação de duas variáveis: a indução por ícone ou por palavra e a consigna, uma de orientação padrão (que chamaremos aqui de consigna semântica) e a segunda consigna de orientação afetiva (que chamaremos aqui de consigna atributiva). O efeito das duas variáveis sobre a produção discursiva dos sujeitos foram testados tanto para um nexus quanto para uma representação social. Assim, o plano quase-experimental era constituído pelo cruzamento de duas variáveis, portanto, composto de quatro condições: imagem/semântica; imagem/atributiva; palavra/semântica; e, palavra/atributiva, tanto para um nexus quanto para uma representação.

As quatro condições foram aplicadas sobre um objeto de representação (Brasil) e sobre um nexus (imagem e nome do piloto de Fórmula 1, Ayrton Senna); e os sujeitos, estudantes universitários, foram submetidos aos questionários e procedimentos de exposição à imagem. Os resultados comprovaram as hipóteses principais de ativação significativa da dimensão afetiva pela consigna atributiva e pela indução por imagem; e a consigna atributiva apresenta uma tendência a aumentar a concentração das palavras dominantes (aumento do consenso) para um nexus, em contrapartida de uma diminuição desta mesma concentração das palavras dominantes para uma representação social. Isto equivale a dizer que a ativação afetiva de um nexus remete à qualidade de núcleo pré-lógico homogeneizante dos grupos sociais, conquanto a mesma ativação, para uma representação, parece remeter a produção discursiva do grupo à dispersão própria à experiência individual dos afetos, ou seja, a uma diminuição do consenso.

 

Estudo da Dimensão Afetiva e da Centralidade na Representação Social de "Meninos de Rua"

Método

Para uma primeira abordagem do estudo das relações entre dimensão afetiva e centralidade, optamos pela estratégia de obter duas produções distintas, com base no mesmo método (análise das evocações), uma semanticamente orientada (pergunta padrão do método, que solicita respostas em termos de "palavras ou expressões") e outra, afetivamente orientada (que solicita respostas em termos de "sentimentos ou emoções"). A partir da expressão indutora "menino de rua", referente ao objeto social assim denominado, a questão de evocação do tipo padrão (palavras e expressões) foi aplicada a 136 sujeitos, estudantes universitários; e a questão do tipo atributiva (sentimentos ou emoções) foi aplicada a 142 sujeitos universitários.

As duas produções foram submetidas ao método dos "juizes"(foram utilizados 3 professores universitários de língua portuguesa, aos quais foi solicitado de indicar as palavras com conotação afetiva), e verificamos, assim como nos trabalhos de pesquisa sobre os nexus (Campos & Rouquette, 2000), um aumento significativo das palavras consideradas afetivamente carregadas. Em um segundo tempo, selecionamos as palavras mais freqüentes obtidas na questão padrão e as mais freqüentes obtidas através da questão atributiva, constituindo assim um único instrumento, cuja finalidade era de verificar a organização que os sujeitos atribuem a um material composto de produções originárias de ativação "mista".

É importante salientar que, na construção do referido instrumento, não optamos por selecionar as palavras mais freqüentes "afetivamente carregadas"; e sim aquelas mais freqüentes em cada conjunto de respostas, padrão ou atributiva. No caso do objeto "meninos de rua", selecionamos 10 palavras de cada lista. Na realidade, inicialmente, 5 delas pertenciam às duas listas, exigindo uma equalização com outras palavras freqüentes. Deste modo a lista semântica foi composta com os seguintes itens: abandonado, fome, droga, miséria, violência, sem-família, pobre, frio, roubo e injustiça. Enquanto a lista afetiva ficou assim composta: pena, medo, revolta, tristeza, "dó", desamparado5, esperança, frustração, "largado" e excluído.

A partir destas duas listas, construímos uma questão, do tipo "constituição de famílias de palavras"(Vergès, 1992, 1995); apresentando ao sujeito uma lista de 20 palavras e solicitando-lhes de comporem "grupos de palavras que se combinam". Os dados foram submetidos a uma análise de similitude, sobre a qual obtivemos um gráfico da árvore máxima (Figura 1).

 

 

Resultados

A natureza exploratória deste primeiro instrumento exige uma grande prudência na análise dos resultados. Entretanto, o gráfico obtido parece indicar que as relações entre elementos semânticos e elementos afetivamente carregados não são aleatórias em relação à estrutura da representação. Neste ponto, gostaríamos de relembrar que compreendemos que os elementos, ditos afetivos, são também semânticos , e vice-versa; o que estamos estudando é o fato que alguns elementos são impregnados de forte carga afetiva e outros o são com baixa intensidade. Nosso objeto são as relações entre elementos intensamente impregnados de cargas afetivas e elementos centrais na estrutura da representação.

No caso específico estudado, o gráfico parece indicar que a dimensão afetiva observa uma certa independência em relação aos outros elementos, ou seja, os elementos afetivamente carregados permanecem reagrupados entre si, formando dois blocos, quase autônomos, ligados entre si pelo elemento "abandonado"(o qual também pertencia, originariamente à lista afetiva, sendo a palavra mais freqüente nas duas condições). Trabalhos de pesquisa anteriores (Abric & Campos, 1996; Campos, 1998a, 1998b) permitem afirmar que a representação de "menino de rua", em estudantes universitários, é organizada em torno de um núcleo central composto de dois elementos: miséria e exclusão, sendo que a palavra "abandonado" está vinculada ao nódulo semântico da exclusão. Abric e Campos (1996) testaram e sustentam a idéia de uma forte polissemia do termo "abandonado", situado no cruzamento da noção de exclusão e da noção de miséria, no interior desta representação, em sujeitos educadores sociais. O gráfico da Figura 1 parece indicar também que o termo "abandonado" esteja situado no cruzamento das dimensões semântica e afetiva.

 

Estudo da Dimensão Afetiva e da Centralidade na Representação Social de "Estudos Superiores"

Método

Utilizando o mesmo método anterior, aplicamos duas questões, uma na condição padrão outra na condição atributiva, com a expressão indutora "Diploma de Curso Superior", em 54 sujeitos, estudantes universitários, para cada condição. A Tabela 1 mostra o nível de ativação das palavras com conotação afetiva e a Tabela 2 apresenta as palavras mais freqüentes nas duas condições.

 

 

 

 

Resultados

Podemos também destacar que, entre as palavras mais freqüentes, observa-se uma grande variação de freqüência, (Tabela 3) conforme a questão apresentada (condição atributiva ou condição padrão). Segundo a abordagem estrutural (Teoria do Núcleo Central), os elementos pertencentes ao sistema central deveriam permanecer relativamente estáveis, posto que se tratam de elementos "não-negociáveis". No caso específico, apenas uma palavra muito freqüente, nas duas condições, apresenta estabilidade, a palavra "realização".

 

 

Para proceder uma análise comparativa entre centralidade e dimensão afetiva, aplicamos em 97 sujeitos, estudantes universitários, um teste de centralidade clássico, com dupla negação (Abric, 1994a; Moliner,1992; Rouquette & Rateau, 1998), cujos resultados são apresentados na Tabela 4. Com base no teste de centralidade, identificamos dois elementos que, muito provavelmente, compõem o núcleo central da representação de "diploma superior": "conhecimento" e "profissão". Nota-se, de início, que nenhum destes dois elementos pertence à lista "afetiva". Compusemos então uma questão de "constituição de famílias de palavras", com 20 itens, correspondendo às 10 palavras mais freqüentes na lista "padrão" e as 10 mais freqüentes oriundas da lista "afetiva".

 

 

Um grupo de 97 respondeu à questão de constituição de famílias de palavras, e os dados foram submetidos a uma análise de similitude, da qual extraímos o seguinte gráfico:

Os resultados deste estudo, embora exploratórios, parecem ir na direção de nossas proposições iniciais, segundo as quais o componente afetivo (os elementos intensamente impregnados por cargas afetivas) entretém uma relação "não-aleatória" com o sistema central. Ou seja, o núcleo central assegura uma função organizadora e estruturante da representação também em referência à dimensão afetiva. No caso do objeto diploma superior, assim como, no caso da pesquisa anterior (objeto "menino de rua"), os elementos provindos da lista atributiva se agrupam em blocos, entre si, permanecem vinculados ao conjunto da representação através de um elemento central ("conhecimento") (Figura 2).

 

 

Estudo da Dimensão Afetiva e Centralidade na Representação Social de "Família"

Método

O mesmo procedimento, com a expressão indutora "Família", foi aplicado em sujeitos estudantes universitários (47 sujeitos na condição atributiva; 54 na condição padrão; 96 para a questão de constituição de famílias de palavras; e, 96 no teste de centralidade). A Tabela 5 mostra o nível de ativação das palavras com conotação afetiva e a Tabela 6 apresenta as palavras mais freqüentes nas duas condições.

 

 

 

 

Como se trata de um objeto social de natureza mais explicitamente afetiva do que o objeto "diploma superior", esperávamos uma maior presença de palavras com conotação afetiva na questão de evocação padrão e um maior nível de ativação pela questão atributiva. A variação das palavras mais freqüentes mostra que dois elementos (os mais freqüentes nas duas condições) permanecem estáveis (Tabela 7).

 

 

Os resultados do teste de centralidade nos indica que dois elementos muito provavelmente pertencem ao núcleo central da representação: "amor" e "amizade"(Tabela 8).

 

 

Como se havia previsto, o fato de se tratar de um objeto social de natureza mais explicitamente afetiva, obteve-se um elevado índice de palavras com conotação afetiva, oriundos tanto da questão padrão quanto da atributiva (amor, união, carinho, respeito, compreensão, confiança, amizade, companheirismo e fraternidade). Podemos observar, em primeiro lugar, que, os quatro elementos identificados como muito provavelmente centrais, são palavras muito freqüentes nas duas listas; em segundo, que, dentre as palavras freqüentes na lista padrão, apenas 6 não são freqüentes na lista atributiva (segurança, conflito, apoio, responsabilidade, ajuda, e solidariedade); e, finalmente, que 5 palavras freqüentes na lista atributiva, não apresentam alta freqüência na lista padrão (afeto, felicidade, paz, alegria e harmonia).

Os resultados da questão de constituição de famílias de palavras são apresentados no gráfico de similitude (Figura 3). Neste caso, os dados obtidos parecem indicar que há forte correspondência entre elementos afetivamente carregados e núcleo central.

 

 

Discussão

Em um texto recente, Moscovici (2002) reafirma que as representações sociais têm uma estrutura particular, composta de "crenças-nucleares" que geram e gerenciam outras em uma seqüência, por assim dizer "infinita". Esta estrutura explica como os sujeitos podem armazenar e partilhar crenças básicas (estruturantes), e, ao mesmo tempo, integrar as experiências individuais, a riqueza das diversidades individuais. Esta diversidade, uma vez introduzida no campo da representação, pode vir a ser partilhada e, assim explicar como as representações sociais se transformam.

São, como denominadas por Dennet, crenças-nucleares, que são armazenadas e produzem uma massa de outras quando necessário, assim como, a partir de um pequeno número de frases que conhecemos, nós produzimos uma grande quantidade de frases novas. (Moscovici, 2002, p.19)

Para ele, então as questões fundamentais que se colocam são relativas aos processos pelos quais certas crenças se fixam e se tornam nucleares, enquanto outras se tornam periféricas; relativas também aos processos cognitivos e sociais que difundem certas crenças e proposições no espaço público. De nossa parte, podemos afirmar que uma questão fundamental, no campo da Teoria da Representações Sociais, é a de compreender aquilo que, de forma genérica, Flament (1994, 2002) designa como a "dinâmica das representações sociais". Focando estas idéias no objetivo proposto pelo presente trabalho, podemos então destacar que, evidentemente, o processo de engajamento dos sujeitos nas práticas relativas a um determinado objeto social, não é um processo aleatório, ao acaso; nem poderia ser explicado por uma espécie de associacionismo básico, a exemplo do behaviorismo social. Se este engajamento é claramente marcado por processos sociais (produzidos pela estrutura social), ele é marcado também por uma ou várias motivações. Assim, voltamos ao ponto de início de nossas interrogações: as representações são marcadas por cargas afetivas, as quais não podem ser consideradas meros epifenômenos. Podemos afirmar que, os trabalhos aqui descritos (Campos & Rouquette, 2000; Giraud-Herault, 1998) e os resultados empíricos apresentados, indicam que as cargas afetivas, identificadas pelos próprios sujeitos, não se encontram distribuídas de forma aleatória na estrutura das representações estudadas. Considerando a natureza exploratória destes estudos, os resultados têm alcance reservado. Contudo, eles parecem apontar para o fato que um ou mais elementos centrais aglutinam, em torno de si, os elementos mais carregados afetivamente. A investigação das relações entre significação e "atribuição de intensidade afetiva" nos elementos (e, sobretudo, entre os elementos centrais e os de periferia próxima) poderá permitir uma melhor compreensão das relações entre estrutura e cargas afetivas.

É preciso salientar que, quando se trata de um objeto mais marcado socialmente por sua carga afetiva (Ex.: família, multidão) os resultados parecem mais difusos, uma vez que mais de um elemento central são fortemente carregados; entretanto, são também resultados mais instigadores, visto que a concentração de elementos no núcleo ou próximos a ele, reforçam as perspectivas de uma "partilha social das emoções" e de não se tratar as representações como estruturas cognitivas no sentido restrito do termo "cognitivo".

Os trabalhos apresentados parecem também indicar a possibilidade de se estudar a dimensão afetiva, sem necessariamente estarmos restritos aos pesados recursos metodológicos do tipo coleta de indicadores fisiológicos (das emoções), observações comportamentais ou entrevistas do tipo clínico. Não se trata de recusar o valor de tais recursos na pesquisa empírica, mas de produzir instrumentos que articulem de modo satisfatório e objetivo, os dados cognitivos e os dados relativos particularmente às cargas afetivas. Evidentemente, sob este aspecto, o campo de pesquisa aqui apresentado deve ser ainda consolidado.

Os resultados descritos (sobretudo aqueles representados nas Figuras 1, 2 e 3) parecem indicar que a distribuição dos elementos intensamente impregnados de cargas afetivas, mantém uma relação não-aleatória com o núcleo central das representações estudadas. Assim, nos parece pertinente propor que, o núcleo central, sendo resultado de uma partilha histórica de valores (Abric, 2002) e responsável pela gestão do significado do conjunto da representação, seria também o resultado da partilha histórica das emoções associadas aos valores e práticas desenvolvidas. Em todo caso, podemos afirmar que nossos dados vão na direção já apontada por outros pesquisadores citados neste trabalho, de que significado (significado das representações sociais) e afetividade não se encontram dissociados no interior da representação. É claro que as relações, entre núcleo central e dimensão afetiva, estão ainda por serem estudadas; embora nossos dados, apesar de provisórios, pareçam corroborar a nossa hipótese de que o sistema central e elementos afetivamente carregados, componham uma estrutura sócio-cognitivo-afetivo coerente.

 

Referências

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Recebido: 25/06/2002
1ª Revisão: 12/12/2002
Última Revisão: 06/02/2003
Aceite Final: 12/02/2003

 

 

Sobre os autores
Pedro Humberto Faria Campos é Professor do Mestrado em Psicologia da Universidade Católica de Goiás e Doutor em Psicologia Social pela Universidade de Provence, França.
Michel-Louis Rouquette é Professor da Universidade de Paris VIII e Pesquisador vinculado ao Laboratório de Psicologia Social da Universidade de Paris V.
1 Endereço de correspondência: Rua 221, 45, 74643 110, Goiânia, GO. Fone: (62) 2553807. E-mail: phd2001@terra.com.br
2 Como exemplo, podemos citar que Abric (1996) assinala o importante papel desenvolvido pela forte carga afetiva de uma dada situação social, na dinâmica de influências recíprocas entre representações e práticas sociais.
3 Na França, as chamadas forças de manutenção da ordem são organizadas em grandes agrupamentos denominados "Companhia Republicana de Segurança", os C.R.S.; e suas atividades correspondem, no Brasil, em parte, ao trabalho dos policiais militares e, em parte, ao trabalho das chamadas "tropas de choque".
4 Em francês, sujet agissant.
5 A palavra "abandonado" foi a mais freqüente nas duas listagens, então, devido à proximidade semântica e a elevada freqüência, optamos por acrescentar, na lista atribuitiva, a palavra "desamparado".