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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.17 no.2 Porto Alegre  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722004000200012 

Aspectos psicossociais e HIV/Aids: um estudo bibliométrico (1992-2002) comparativo dos artigos publicados entre Brasil e Espanha

 

Psychosocial aspects and HIV/Aids: a comparative bibliometric study of the published articles between Brazil and Spain

 

 

Elisa Kern de Castro1; Eduardo Augusto Remor2

Universidad Autónoma de Madrid, Espanha

 

 


RESUMO

O presente estudo examina os artigos publicados sobre os aspectos psicossociais relacionados ao tema HIV/Aids entre 1992 e 2002 comparando as publicações de Brasil e Espanha indexadas ao PsychINFO. O material encontrado foi analisado a partir de sete categorias: 1) país onde foi realizado o estudo; 2) profissão do autor; 3) país da revista; 4) idioma; 5) metodologia empregada; 6) população; e 7) tema da pesquisa. Os resultados mostraram uma quantidade similar de artigos publicados nos dois países. Verificou-se que grande parte dos estudos brasileiros são realizados em parceria entre centros nacionais e estrangeiros, resultando em publicações em revistas internacionais de língua inglesa, enquanto que os estudos espanhóis são feitos e publicados principalmente dentro da Espanha. Os médicos publicam mais em ambos países, e a metodologia predominante é a quantitativa. A população e os temas investigados refletem os dados epidemiológicos e a realidade social dos dois países.

Palavras-chave: HIV; Aids; estudo bibliométrico; Brasil; Espanha.


ABSTRACT

The present work examines the published papers related to the HIV/Aids topic between 1992-2002 comparing Brazilian and Spanish indexed publications at PsychoINFO. The papers collect were analyzed within seven categories: 1) country where the work was performed; 2) authors' profession; 3) journal's country; 4) language; 5) used methodology; 6) work's target population; and 7) topics researched. The results showed similar amount of published papers in both countries. It was found that most part of the Brazilian studies are performed in partnership between national and foreign institutions, resulting in international English-written publications, while the Spanish studies are both developed and published in Spain. The physicians are the professionals who publish more in both countries, and the predominant methodology is quantitative. Target population and investigated topics reflect the epidemiological data and the social reality of both countries.

Keywords: HIV; Aids; literature review; Brazil; Spain.


 

 

Após 20 anos da descoberta do vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) e do início da epidemia da Aids que atingiu todo o mundo, diversos avanços relativos ao tratamento, prevenção e políticas de saúde têm sido feitos. Apesar disso, o problema está longe de ser resolvido e muitos desafios continuam instigando cientistas de todas as disciplinas em relação a este tema. A psicologia e áreas afins, nesse contexto, têm importantes contribuições a dar, como por exemplo no âmbito da prevenção dos comportamentos de risco, da adesão ao tratamento farmacológico, da influência dos estados de ânimo na saúde do paciente e nas terapias dirigidas a pacientes enfermos.

O presente artigo busca examinar os avanços científicos em Psicologia e áreas afins no âmbito da infecção por HIV e Aids através de um estudo bibliométrico. Procurou-se identificar e analisar as publicações feitas sobre o tema entre 1992 e 2002 (publicações indexadas ao PsycINFO), comparando a produção de dois países: Brasil e Espanha. A importância desse tipo de estudo é o de resumir e quantificar o que vem sendo escrito sobre HIV e Aids numa perspectiva psicossocial bem como refletir sobre os temas e modelos de investigação utilizados, mostrando um panorama das lacunas científicas existentes e de futuras prioridades de investigação. A comparação entre dois países distintos mas com algumas semelhanças culturais, por outro lado, permite nos dar alguns parâmetros de quais são os principais problemas psicossociais comuns e particulares relativos ao tema, e como profissionais de distintos países têm se preocupado com isso e proposto novas formas de prevenção e intervenção com essa população.

Antes de descrevermos os procedimentos e resultados do presente estudo bibliométrico, vejamos alguns dados sobre a situação epidemiológica atual em relação ao HIV e Aids, dando ênfase ao Brasil e à Espanha.

Estima-se que atualmente existam cerca de 42 milhões de pessoas infectadas por HIV ou já com os sintomas da Aids em todo o mundo, com mais de 22 milhões de pessoas falecidas por esse motivo e com o surgimento de aproximadamente cinco milhões de casos a cada ano (UNAIDS, 2003). Apesar da situação mais preocupante estar na África, onde a epidemia ainda encontra-se em expansão, em alguns países da América Latina ela está apenas parcialmente contida, enquanto na Europa ocidental os novos casos de HIV e Aids diminuíram nos últimos anos.

No Brasil, a epidemia da infecção por HIV e Aids, como em todo o mundo, surgiu como um importante problema de saúde pública e de bem-estar social (Parker, 1997). Por outro lado, segundo o mesmo autor, o Brasil tem tido uma importância estratégica nas políticas de combate à Aids, com o apoio freqüente de agências internacionais, tornando-se foco de políticas governamentais, organizações da sociedade civil, filantrópicas, religiosas, etc. No ano de 2000 haviam sido oficialmente relatados a existência de 203 mil casos de pessoas casos de Aids (Coordenação Nacional DST & Aids, 2002), embora possivelmente exista mais do dobro de casos de infecção por HIV. Dados do Ministério da Saúde do ano de 2002 mostram que a maior taxa de incidência de casos está na região sudeste, com 185,4 casos para cada 100.000 habitantes, seguido pela região sul (117,1 casos), centro-oeste (94,5 casos), nordeste (37,8 casos) e norte (33,5 casos). A razão por sexo dos casos de HIV no Brasil, que em 1990 era de cada 6 de homens infectados 1 mulher, praticamente se igualou em 1999 para 2/1, sendo que para pessoas infectadas maiores de 13 anos a razão é 1/1 e para maiores de 50 anos é de 3/1.

Em países considerados desenvolvidos como a Espanha, estima-se que desde o início da epidemia, na década de 1980, entre 160.000 e 200.000 pessoas tenham sido contaminadas pelo HIV, sendo que cerca de 70.000 pessoas desenvolveram os sintomas da Aids (Instituto de Salud Carlos III, 2002). O Ministerio de la Sanidad y Consumo da Espanha (MSC, 2002) calcula que vivem hoje entre 110.000 e 150.000 pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, e que aproximadamente mais da quarta parte delas ainda desconheçam estar infectadas (Tabela 1).

 

 

Outro aspecto que revolucionou a intervenção no âmbito da Aids e que consideramos importante ressaltar refere-se à mudança de rumo que houve no tratamento do HIV e da Aids a partir 1996. Essa grande mudança aconteceu devido à introdução no mercado de uma nova geração de fármacos antiretrovirais de inibidores de protease e de sua combinação com os inibidores da transcriptase (conhecida também como HAART — Highly Active Antiretroviral Therapy). Esses tratamentos reduziram de forma importante a mortalidade relacionada a esta infecção (Barlett & Moore, 1998), embora exijam dos pacientes a ingesta simultânea de múltiplos medicamentos sob rigorosas condições de administração e por tempo indeterminado (Remor, 2002a; Tseng, 1998). Essa nova era no tratamento da Aids repercutiu também fortemente nos comportamentos de risco dos indivíduos e na prevenção. Diversas investigações recentes têm verificado que esses avanços no tratamento da Aids, que pode reduzir a carga viral do paciente a níveis indetectáveis pelos exames laboratoriais, têm levado algumas pessoas a diminuírem o cuidado e o uso de preservativos nas relações sexuais (Miller & cols., 2000; Ostrow & cols., 2002; Van der Straten & cols., 2000). Por exemplo, o estudo de Van der Straten e colaboradores (2000) constatou que, embora a terapia de inibidores de protease não tenha tido efeito negativo com relação à prática de sexo seguro em casais em que um indivíduo é soropositivo e o outro é soronegativo, houve uma diminuição da preocupação sobre a transmissão do vírus em uma minoria dos participantes. Segundo esses autores, esse aspecto deve ser monitorado pelos profissionais de saúde, visto que esta diminuição da preocupação pode ser precursora de comportamentos de risco efetivos. Miller e colaboradores (2000) também verificaram que não houve um aumento da prática sexual de risco em indivíduos soropositivos em geral e em seus cônjuges (inclusive naqueles parceiros soronegativos) com a introdução da terapia antiretroviral. Entretanto, entre casais homossexuais ou bissexuais constatou-se um aumento da prática sexual sem proteção, em particular em parceiros vulneráveis à infecção por HIV cujos parceiros eram soropositivos. Em outra investigação, dessa vez realizada exclusivamente com participantes homossexuais soropositivos e soronegativos, Ostrow e colaboradores (2002) verificaram uma diminuição da preocupação com o sexo seguro e um aumento da atividade sexual de risco associado às terapias antiretrovirais, risco que é ainda maior em casais homossexuais em que ambos estão contaminados com o HIV. Para esses autores, esse fator deve ser considerado em futuros programas preventivos, pois embora o tratamento HAART possa reduzir a quantidade de vírus no plasma a níveis bastante baixos, o risco de contágio entre os indivíduos permanece e há maiores chances de se criar uma nova geração de vírus resistentes a essas drogas.

Após duas décadas de constante pesquisa e intervenção no âmbito da Aids percebe-se como conseqüência que o impacto do HIV na vida das pessoas afetadas pelo vírus sofreu mudanças e suas necessidades psicológicas também. Alguns trabalhos têm alertado para essas novas necessidades psicossociais, como por exemplo: as mudanças na expectativa de vida e portanto rever as perspectivas de futuro; necessidade de uma re-definição dos objetivos pessoais, da situação profissional e dos relacionamentos; necessidade de re-avaliar as expectativas, crenças e beneficios com relação ao tratamento; necessidade de normalizar os vinculos afetivos e as relações sexuais, entre outros (Catalan, Meadows & Douzenis, 2000; Remor, 2002b). Da mesma forma, podemos observar refletida na bibliografia internacional os efeitos dessas transformações, por isso cabe-nos perguntar: Como estão se refletindo essas novas necessidades psicossociais no âmbito do HIV/Aids nos artigos publicados no Brasil e na Espanha? Como essas necessidades têm norteado o interesse dos pesquisadores? Que lacunas existem e que deveriam nortear as futuras diretrizes de pesquisa? Essas perguntas pretende responder o presente estudo.

Nenhum tipo de estudo de revisão na área psicossocial, seja revisão teórica, estudo bibliométrico ou meta-análise sobre o tema HIV e Aids foi feito até o momento comparando Brasil e Espanha. Bennet, Rose, Jackson e Thomas (1998) desenvolveram um estudo que consistiu em uma análise dos temas e da metodologia empregada nos artigos publicados na revista Aids Care entre 1989 e 1995, e este trabalho norteou a categorização dos temas dos resumos investigados no presente estudo, que serão descritos a seguir.

 

Método

Procedimentos

Para a pesquisa das publicações realizadas nos dois países, Brasil e Espanha, utilizou-se os descritores em inglês HIV, Aids, Brazil e Spain na base de dados PsycINFO. A pesquisa compreendeu o período dos últimos 10 anos (1992-2002), foi realizada em dezembro de 2002 e atualizada em janeiro de 2003.

Inicialmente fez-se uma leitura exaustiva do material para certificar de que os descritores Brazil e Spain diziam respeito ao local onde o estudo havia sido realizado. Aqueles artigos que mencionavam algum dos dois países no resumo mas que não foi feito com a população desses países foi excluído da análise. Ao final, foram encontrados 60 resumos de trabalhos realizados com a população brasileira e outros 59 com a população espanhola entre 1992 e 20023.

As categorias e subcategorias analisadas no presente estudo são as seguintes:

  1. O país da universidade ou centro onde foi realizado o estudo: universidade/centro nacional, universidade/centro estrangeiro ou parceria de universidades/centros nacionais com universidades/centros estrangeiros;
  2. O profissional que publicou o artigo: psicólogo, médico, centro multiprofissional, outros profissionais ou profissional não identificado;
  3. O país da revista em que o artigo foi publicado: revista brasileira, espanhola ou de outros países;
  4. O idioma em que foi publicado: português, espanhol, inglês ou outro;
  5. A metodologia utilizada na investigação: discussões gerais sobre o tema HIV/Aids, estudo quantitativo, estudo qualitativo, revisão de literatura/meta-análise, editorial ou comentários;
  6. A população que fez parte do estudo: população em geral, homossexuais/bissexuais, mulheres com hiv/aids ou com parceiros soropositivos, usuário de drogas, crianças/adolescentes, e outros;
  7. Os assuntos tratados na investigação: construção de instrumentos ou medidas, avaliação de conhecimentos e atitudes frente à Aids, condutas sexuais e/ou de risco, uso de drogas, tratamento, políticas de prevenção/educação, impacto psicossocial do HIV/Aids, características demográficas/culturais, profissionais que atendem pacientes HIV/Aids.

Cada resumo foi classificado apenas em uma subcategoria dentro das categorias apresentadas acima, com exceção da categoria 7 "assuntos tratados na investigação", em que cada resumo podia estar inserido em mais de uma subcategoria.

 

Resultados

Em primeiro lugar, é importante observarmos que a produção científica sobre HIV/Aids realizada no Brasil e na Espanha é muito semelhante com relação à quantidade de artigos publicados (60 publicações com a população brasileira e 59 com a população espanhola). Isto demonstra que apesar das diferenças em termos de desenvolvimento entre esses dois países, ambos participam igualmente na contribuição para o avanço da ciência nessa área. Essas pesquisas, por outro lado, são divulgadas em diferentes revistas, como podemos observar na Tabela 2.

Embora as pesquisas publicadas tenham tido como objetivo estudar a população brasileira e espanhola, podemos verificar que nem sempre os centros ou universidades que levam a cabo essas investigações são do mesmo país da população estudada (ver Figura 1). As pesquisas feitas com a população espanhola são basicamente realizadas em centros nacionais, ou seja, totalmente dentro da Espanha (98,3%). Não foram encontradas investigações espanholas feitas em parceria com centros de pesquisa de outros países. Já no Brasil, a freqüência de publicação de centros nacionais é bem menor (55%), ficando os centros estrangeiros realizando 38,3% da pesquisa sobre HIV/Aids no Brasil, e uma parcela menor de parcerias de centros nacionais e estrangeiros (6,7%).

 

 

Dentre os centros profissionais/pesquisadores que publicaram os artigos, a grande maioria são médicos, seguidos por psicólogos, tanto na Espanha quanto no Brasil, sendo que no Brasil a quantidade de centros ou universidades de Psicologia que publicaram artigos científicos é consideravelmente menor que na Espanha (Figura 2). Outra parcela importante de estudos foi realizada por centros multiprofissionais, e uma parcela pequena dos resumos não foi possível identificar os profissionais, como se pode verificar na Figura 2.

 

 

Congruente com os resultados apresentados anteriormente, em que as pesquisas sobre HIV/Aids com a população espanhola era basicamente realizada em centros ou universidades espanholas, podemos verificar no Figura 3 que a maioria desses estudos também foram publicados em revistas na Espanha (57,6% dos estudos) embora também tenha havido publicações em revistas estrangeiras (42,4%). No entanto, como podemos ver no Figura 4, 67,8% dos artigos são publicados em língua espanhola e somente 30,5% em revistas de língua inglesa, ou seja, uma parcela dos artigos publicados em revistas estrangeiras pelos espanhóis estão em revistas de países também de língua espanhola. Por outro lado, estudos com a população brasileira foram publicados maciçamente em revistas estrangeiras (80%, ver Figura 3), especialmente de língua inglesa (78,3%, ver Figura 4), ficando uma pequena parcela (20%) para as revistas nacionais que publicam em língua portuguesa (21,7%).

 

 

 

 

A grande maioria dos artigos publicados entre 1992 e 2002 utilizou a metodologia quantitativa, sejam eles realizados com a população espanhola (91,5% do total de artigos) ou brasileira (80%). O segundo tipo de metodologia mais comum usado nos estudos com a população brasileira é a qualitativa (10%), enquanto no outro país essa metodologia foi usada por apenas 1,7% dos estudos. Os demais tipos de metodologias foram menos comuns, como é possível observar no Figura 5.

 

 

Com relação a população investigada nos estudos sobre HIV/Aids, nota-se importantes peculiaridades, conforme mostra a Figura 6. Os estudos com a população espanhola centram-se basicamente na população em geral (52,5%) e usuário de drogas (40,7%), sendo que apenas essas duas categorias somam 93,2% da população-alvo dos artigos. O estado da arte das publicações com a população brasileira é mais variado, ainda que as categorias população em geral (30%) e usuário de drogas (18,3%) ocupem a primeira e a segunda posição respectivamente. Isto mostra que os estudos com a população brasileira são mais diversificados e abrangentes, e todas as demais categorias têm merecido atenção considerável dos pesquisadores. Cabe aqui explicar que a categoria Outros (13,3%) reflete o estudo de algumas particularidades da população brasileira, como moradores de rua ou profissionais do sexo, entre outros.

Por fim, com relação aos assuntos investigados com a população brasileira e espanhola sobre HIV/Aids, nota-se contrastes significativos em algumas subcategorias, enquanto outras se mostram semelhantes. Chama a atenção que os estudos com a população espanhola estavam interessados nesses últimos 10 anos com o uso de drogas (28,8%) e com questões relativas aos efeitos do tratamento em pacientes com HIV/Aids (20,3%), enquanto os estudos sobre uso de drogas com a população brasileira ocupou o terceiro lugar dentre os temas mais investigados (16,7%) e os efeitos do tratamento foi o tema menos investigado, junto com a construção de instrumentos e medidas para pacientes com HIV/Aids (3,3% cada uma das subcategorias). Por outro lado, devemos salientar que os estudos sobre condutas sexuais e de risco com a população brasileira (40%) e sobre políticas de prevenção e de educação frente ao HIV/Aids (33,4%) foram foco de preocupação considerável dos pesquisadores, em contraste com as investigações com a população espanhola em que as subcategorias condutas sexuais e de risco (20,3%) e políticas de prevenção e educação (8,5%) não tiveram tanta atenção dos cientistas (ver Figura 7).

 

Discussão e Considerações Finais

Podemos verificar a partir dos resultados apresentados que o volume de publicações realizadas com a população brasileira e espanhola não apresenta discrepâncias, sendo muito parecidos no período entre 1992-2002. Contudo, há particularidades importantes em diversos aspectos da produção científica quando se compara os dois países.

Verificou-se a partir dos resumos dos artigos publicados que a grande maioria das pesquisas com a população espanhola foi realizada por centros/universidades da Espanha, publicadas em revistas do mesmo país e no idioma espanhol. Com relação aos estudos feitos com a população brasileira, observou-se que uma parcela importante foi realizado em parceria de centros/universidades brasileiras com estrangeiras e por centros/universidades estrangeiras, refletindo num maior número de publicações em revistas estrangeiras em inglês. Essas diferenças entre Espanha e Brasil são bastante curiosas e suscitam várias interpretações. É possível inferir que as investigações com a população espanhola tenham como principal objetivo informar os pesquisadores e profissionais daquele país interessados no tema HIV/Aids, embora elas também sejam possivelmente aproveitadas e assimiladas por pessoas de diversos países visto que o espanhol é um idioma bastante conhecido. Já quanto aos estudos com a população brasileira, por um lado podemos considerar bastante positivo a realização de pesquisas entre centros/universidades brasileiras e centros de diferentes países pelo intercâmbio de conhecimentos e de experiência que proporciona esse tipo de parceria, gerando trabalhos de qualidade que em sua maioria são publicados em revistas de renome internacional, que podem ser lidas por um grande número de pessoas já que estão escritos na língua inglesa. Por outro lado, cabe-nos perguntar em que medida esses avanços de ponta produzidos são incorporados no dia-a-dia dos brasileiros interessados no tema e das pessoas que trabalham com HIV/Aids que estão fora da academia, pois o fato desse material muitas vezes não estar facilmente disponível e de estar numa língua estrangeira dificulta o acesso a esse conhecimento por essas pessoas e, de certa forma, a sua aplicação.

Outro aspecto importante a ser salientado é o fato de que, embora os artigos analisados tratem dos aspectos psicossociais do HIV/Aids, grande parte das investigações são realizadas por médicos, nos dois países. Os psicólogos ainda ocupam papel secundário nesse cenário, sendo esse dado ainda mais alarmante nos estudos com a população brasileira, investigada e publicada por uma parcela pequena de psicólogos entre 1992 e 2002. Podemos supor que embora muitos psicólogos trabalhem no âmbito do HIV/Aids, lhes falte ainda conhecimentos sobre pesquisa para que possam desenvolver trabalhos metodologicamente corretos que possam e mereçam ser publicados. Além disso, cabe ressaltar a quantidade considerável de investigações que são realizadas por centros multiprofissionais, resultado que demonstra a tendência atual da multi e interdisciplinaridade já que nenhuma ciência é capaz sozinha de abarcar todo o conhecimento necessário sobre um tema tão complexo como é o HIV/Aids.

A metodologia empregada nos trabalhos publicados é muito similar em ambos países, sendo a metodologia quantitativa a mais amplamente utilizada nos estudos empíricos. Contudo, a metodologia qualitativa vem ganhando seu espaço, principalmente no Brasil, como uma forma válida de se fazer pesquisa. As demais categorias que foram menos mencionadas refletem, basicamente, artigos que não são pesquisas empíricas.

Quanto à população-alvo dos estudos, novamente importantes peculiaridades foram constatadas entre Espanha e Brasil. Os estudos com a população espanhola centram-se majoritariamente em, além da população em geral, usuários de drogas. Podemos constatar que esse dado reflete uma um dos principais problemas daquela população, pois segundo os dados epidemiológicos do Ministerio de Sanidad y Consumo (MSC, 2002), a principal via de contágio do HIV entre as pessoas infectadas ocorreu devido ao uso de drogas. Já os grupos da população brasileira alvos dos estudos foram mais diversificados, também refletindo uma necessidade social particular. Levando-se em consideração que a principal forma de contágio entre a população brasileira é a via sexual, diferentes grupos devem ser alvos dos estudos, pois atualmente não existe mais o conceito de grupo de risco e a proporção entre homens e mulheres infectadas está se igualando (Ministério da Saúde, 2002). Além disso, outros grupos não menos importantes como usuários de drogas e crianças e adolescentes também mereceram atenção dos cientistas.

As temáticas abordadas nos trabalhos é diversa em ambos os países, destacando-se uma maior freqüência de trabalhos em prevenção e transmissão do HIV e sobre condutas sexuais e de risco nos estudos brasileiros e as áreas de usuário de drogas, impacto social do HIV e tratamento nos estudos com a população espanhola. Observa-se que as temáticas de pesquisa estão bastante de acordo com as situações e preocupações de cada país se considerarmos mais uma vez os dados epidemiológicos apresentados anteriormente. Além disso, a partir desses resultados é possível ter uma idéia das lacunas existentes e que necessitam ser mais investigadas. Com relação aos estudos com a população brasileira, ainda que os assuntos estivessem bastante diversificados, muito pouco foi pesquisado sobre os aspectos psicossociais do tratamento do HIV/Aids, em temas como adesão e avaliação do tratamento, percepção dos sintomas, relação entre estado de saúde física e bem-estar psicológico, etc, e construção de instrumentos de avaliação específicos. Nos estudos com a população espanhola chama a atenção, especialmente quando se contrasta com os dados das investigações com a população brasileira, a pouca quantidade de pesquisas sobre implementação de políticas de prevenção ao contágio do HIV e educação, como implementação e avaliação de políticas de combate à transmissão do vírus HIV ou de campanhas informativas sobre os riscos de contágio.

O presente estudo apresenta algumas limitações que devem ser comentadas. Estudos de revisão (bibliométricos, meta-analíticos, etc.) como o que aqui descrevemos podem apresentar o problema de que os trabalhos que estão à disposição dos revisores, através das bases de dados bibliográficas, sejam provavelmente uma parte dos estudos que tenham sido realizados sobre o tema. No entanto, essa limitação pode ser minimizada a partir da hipótese de que aqueles estudos que estão publicados em revistas indexadas a base de dados internacionais e que são de mais fácil localização possuem qualidade e relevância assegurada, ao contrário daqueles artigos que porventura tenham ficado de fora do presente estudo por não estarem publicados em revistas indexadas ao PsycINFO.

Outro possível viés radica em que é mais freqüente que publiquem trabalhos os profissionais vinculados a universidades ou centros de pesquisa do que aqueles dedicados à prática, sejam eles médicos, psicólogos ou outros profissionais. Nesse sentido, o viés da publicação pode afetar a generalização dos estudos de revisão, visto que muitas vezes o trabalho feito na prática não aparece nos artigos publicados.

Apesar dessas possíveis limitações, estudos de revisão dessa natureza são importante para assegurar-se do importante papel que desempenha tanto Brasil quanto Espanha no cenário internacional dos estudos sobre HIV/Aids, além de dar a direção para futuras investigações sobre o tema. Muitas descobertas já foram feitas no âmbito do HIV/Aids, e muitas outras ainda devem surgir principalmente se os psicólogos pesquisarem mais e ocuparem um espaço que ainda é pequeno nos estudos nessa área.

 

Referências

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Recebido: 28/02/2003
Última Revisão: 12/08/2003
Aceite Final: 30/09/2003

 

 

Sobre os autores
Elisa Kern de Castro é Psicóloga, Mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente cursa o Doutorado em Psicología Clínica y de la Salud, na Universidad Autónoma de Madrid, Espanha (bolsista CAPES).
Eduardo Augusto Remor é Psicólogo, Doutor em Psicología Clínica y de la Salud pela Universidad Autônoma de Madrid, Espanha. Professor Associado da Faculdade de Psicologia da mesma universidade. Pesquisador Associado no Serviço de Hematologia e Hemoterapia do Hospital Universitário La Paz, Madrid.
1 Estudo realizado para a disciplina "Trastornos crónicos de la salud: Infección por VIH-SIDA" ministrada pelo Professor E. Remor, do curso de doutorado em Psicología Clínica y de la Salud, da Universidad Autónoma de Madrid. Os autores agradecem à CAPES pelo auxílio financeiro fornecido através de bolsa de doutorado pleno no exterior para a primeira autora (Proc. BEX 1129 01-5).
2 Endereço para correspondência: Dept. Psicología Biológica y de la Salud. Facultad de Psicología. Universidad Autónoma de Madrid. Ciudad Universitaria de Cantoblanco, 28049, Madrid, España. E-mail: eduardo.remor@uam.es
3 Os leitores interessados em obter a lista completa das 119 referencias analisadas neste trabalho podem contactar diretamente com os autores deste artigo.