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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.17 no.3 Porto Alegre  2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722004000300016 

O método fenomenológico de Merleau-Ponty como ferramenta crítica na pesquisa em psicopatologia

 

Merleau-Ponty's phenomenological method as a critical tool to the research on psychopathology

 

 

Virginia Moreira1

Universidade de Fortaleza; Harvard Medical School

 

 


RESUMO

Na medida em que existem várias e não uma única fenomenologia, a metodologia fenomenológica de pesquisa em psicologia e psicopatologia sofre variações, de acordo com o pensamento filosófico que a sustenta. Este artigo descreve sucintamente a re-leitura que Merleau-Ponty realiza do pensamento de Husserl, apontando para seu potencial enquanto ferramenta crítica na pesquisa em psicopatologia. Propõe um enquadre a partir da perspectiva de múltiplos contornos, onde os pressupostos metodológicos incluem um instrumento que priorize a experiência, a utilização de variáveis descritivas e a hipótese como desconfiança, compreendendo esta metodologia como intimista, prestando-se, portanto, ao uso de vinhetas ou trechos das falas. Descreve uma análise fenomenológica mundana, de base merleau-pontyana onde, em vez de se buscar a essência, busca-se o significado da experiência vivida. Propõe, finalmente, o sair dos parênteses como última etapa de análise, onde o pesquisador deixa de praticar a redução fenomenológica para assumir sua posição mundana, evitando o pensamento de sobrevôo na forma de uma suposta neutralidade científica.

Palavras-chave: Método fenomenológico; Merleau-Ponty; crítica; psicopatologia.


ABSTRACT

Having in mind that many, rather than only one phenomenology exist, the phenomenological methodology in the research in both psychology and psychopathology varies according to the philosophical thought by which it is sustained. This article describes briefly the re-reading that Merleau-Ponty does of Husserl's thought, pointing to its potential as a critical tool in the research in psychology and psychopathology. It proposes a perspective of multiple contours as a framework, which includes a methodology that uses descriptive variable and hypothesis as suspicion. It understands itself as an intimate methodology, which can make proper use of vignettes or part of the talks. It describes a worldly phenomenological analysis, based on a merleau-pontyan foundation, where rather than the essence, the meaning of the lived experience is searched. It finally proposes leaving the brackets as the last step of the analysis, where the researcher stops doing the phenomenological reduction. The researcher then assumes his or her worldly position, thus avoiding the over flight thought in the form of a pretended scientific neutrality.

Keywords: Phenomenological method; Merleau-Ponty, critical, psychopathology.


 

 

Costuma-se falar de método fenomenológico de pesquisa em psicologia sem que se leve em conta características e nuances específicas da fenomenologia de cada um dos grandes nomes deste movimento. De que fenomenologia estamos falando? Da de Husserl, o fundador da fenomenologia em seu idealismo transcendental? Da de Heidegger, com sua ontologia do ser-no-mundo? Da de Merleau-Ponty, com sua fenomenologia existencial mundana de cunho antropológico?

O método fenomenológico é atualmente amplamente utilizado no âmbito da pesquisa qualitativa em psicologia e psicopatologia por autores brasileiros como Amatuzzi (1993, 1996), Forghieri (1993) e Gomes (1998) e norte-americanos como Giorgi (1985, 1997), Giorgi, Fiescher e von Eckartsberg (1971), Moustakas (1994), Fischer (1989) e Polkinghorne (1989), entre outros, que raramente colocam a idéia de plural que trate de métodos de pesquisa fenomenológicos. No geral, a literatura específica desta área se refere ao método fenomenológico de pesquisa, no singular.

Sabemos que, para o investigador fenomenólogo, é fundamental ter uma base filosófica assentada na fenomenologia, para que possa atuar como pesquisador (Creswel, 1998). Novamente a pergunta: qual a perspectiva fenomenológica filosófica que embasa cada um desses autores em suas propostas de trabalhar com o método fenomenológico na pesquisa?

Entendo que a metodologia fenomenológica de pesquisa em psicologia e psicopatologia também sofre variações, segundo o pensamento filosófico que a sustenta. Não terei um mesmo método de pesquisa se tomo como base a fenomenologia de Husserl ou a de Merleau-Ponty, por exemplo. Grave engano, então, falar de método fenomenológico no singular.

Este artigo aponta, inicialmente, algumas diferenças fundamentais entre a fenomenologia existencial de Merleau-Ponty e aquela do fundador da fenomenologia, Edmund Husserl, para em seguida discutir as implicações do pensamento de Merleau-Ponty no método fenomenológico de pesquisa em psicopatologia.

 

Pressupostos Filosóficos

A re-leitura da fenomenologia de Husserl por Merleau-Ponty

No prefácio da Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty (1945) faz uma re-leitura da fenomenologia husserliana, criticando o idealismo transcendental e transpondo a essência idealista para a existência factual em fenomenologia:

A fenomenologia é o estudo das essências; e todos os problemas, segundo ela, voltam a definir as essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo. Mas a fenomenologia é também uma filosofia que recoloca a essência na existência, e não pensa que se possa compreender o homem e o mundo de outra forma, que não seja a partir de sua 'facticidade'. É uma filosofia transcendental, que põe em suspenso, para compreendê-las, as afirmações da atitude natural, mas é também uma filosofia para a qual o mundo já está sempre lá, antes da reflexão, como uma presença inalienável, e cujo esforço de reencontrar o contato ingênuo com o mundo pode lhe dar, enfim, um status filosófico. (p. I)

Percebe-se que Merleau-Ponty não interpreta Husserl ao pé da letra, mas percorrendo o seu caminho e retomando o pensamento do criador do método fenomenológico, principalmente a partir de seus últimos textos da Husserlinana, só recentemente publicados parcialmente em francês (Husserl, 2001) e não publicados ainda em português, o que dificulta o acesso ao pensamento do Husserl tardio, de que trata o filósofo francês. No Brasil, quando se fala em fenomenologia, o mais comum é que se esteja falando de Husserl, e do primeiro Husserl apenas.

Merleau-Ponty (1945) entende que a consciência não é consciência sozinha e critica a idéia de que sou produto de uma coisa, na medida em que esta afirmação exige uma experiência. A fenomenologia não caminha, então, na direção da ciência porque põe entre parênteses as informações científicas e não é, absolutamente, um retorno idealista. Ao afirmar que "não há homem interior", Merleau-Ponty, além de transcender uma perspectiva dualista que divide o homem em interior e exterior, nega o idealismo transcendental, que despoja o mundo de sua opacidade. Coloca a percepção como o fundo sobre o qual todos os atos se liberam, ao mesmo tempo em que ela é pressuposta por estes. A percepção, para Merleau-Ponty, é o campo de revelação do mundo - campo de experiência - não é um ato psíquico. A percepção é o campo onde se fundem sujeito e objeto.

Merleau-Ponty (1945) retoma a crítica husserliana a Descartes e Kant, que diferenciam sujeito e objeto e para quem as relações não são bilaterais, mas o mundo é reconstruído pelo sujeito. Ao contrário desta forma de pensar, defenderá a idéia de que homem é mundo e o mundo é homem, o homem é parte do mundo e vice-e-versa. Trata-se, então, do enraizamento do homem no mundo, ou seu "atolamento congênito" o que justificará a necessidade da utilização da redução fenomenológica como um artifício lógico para que o pesquisador alcance a realidade, ainda que não se possa esquecer que a maior característica da redução fenomenológica é que esta nunca é completa. Ou seja, a prática da redução fenomenológica será sempre uma tentativa, nunca inteiramente realizada, exatamente pela mundaneidade intrínseca ao homem. Para Merleau-Ponty, um mal-entendido de Husserl foi pensar que para ver o mundo, e captá-lo como paradoxo, é preciso romper nossa familiaridade com ele. Esta familiaridade nunca poderá ser totalmente rompida e é por isso que se deve sempre partir do princípio de que "o maior ensinamento da redução é a impossibilidade da redução completa" (Merleau-Ponty, 1945, p. VIII).

Para o pesquisador fenomenólogo, a redução é um artifício para revelar o mundo, ou seja, duvidar deste mundo para dar-se conta dele (Moreira, 1987). Mas a fenomenologia não é idealismo transcendental. Seu destino é existencial, portanto, a fenomenologia é o contato com os paradoxos da facticidade. Não é, então, possível ver a essência como objeto, e é um grande engano pensar a essência desvinculada do mundo: "a fenomenologia recoloca a essência na existência" (Merleau- Ponty, 1945, p. I)

Percebe-se que a leitura que Merleau-Ponty faz de Husserl privilegia a posição de Heidegger, ao contrário de uma leitura essencialista. A busca das essências é, nada mais, que um meio de revelação da existência ou facticidade; não se pode pensar a essência desvinculada do mundo. Compreender, então, significa distinguir a singularidade de cada acontecimento. Como assinala Johnson (1996):

... tanto Husserl como Merleau-Ponty eram fenomenólogos, mas o que eles queriam dizer por "experiência" os separou. Husserl entendeu o 'fenômeno' a partir da história imanente da consciência, Merleau-Ponty a partir de um ponto de vista mundano de encarnação corporal e intersubjetiva, como uma situação histórica. (p. 8)

O objeto não é, portanto, constituído pela consciência, dado que o próprio conceito de consciência se dilui no último Merleau-Ponty, que criticará também, portanto, o conceito de intencionalidade: "Só sairemos desse impasse quando renunciarmos à bifurcação entre a 'a consciência de...' e o objeto, admitindo que meu corpo sinérgico não é objeto, que reúne um feixe de 'consciência' aderente a minhas mãos, a meus olhos..."(Merleau-Ponty, 1984, p. 137).

A noção de verdade em Merleau-Ponty caminha, então, na direção do sentido que aparece e desaparece, escapa, na opacidade do mundo. A verdade é um movimento em constituição, não um estado. Esse momento se constitui na minha relação com o mundo, no meu campo perceptivo e o que caracteriza a essência dessa verdade é o mistério inesgotável, uma gênese perpétua, sempre aberta. A verdade é mistério, infinitamente recomeçando, inesgotável. Trata-se de revelá-lo. Merleau-Ponty abole verdades fechadas e pensamentos idealistas. Põe a fenomenologia de pé no mundo. O conhecimento é sempre inacabado, não existe absoluto. Sua perspectiva tem uma postura política que desautoriza qualquer tipo de totalitarismo:

Faz parte da própria configuração do pensamento de Merleau-Ponty, ao seu estilo de interrogação, inscrever a política e a história na 'carne do mundo' e não de fazê-la o objeto de um questionamento secundário ou periférico. A política não vem à filosofia como de fora. (D'Allonnes, 2001, p. 12)

Não há verdade exata ou absoluta. Neste sentido, a fenomenologia de Merleau-Ponty pode ser utilizada como ferramenta crítica de revelação do mundo na pesquisa em psicopatologia, na medida em que compreende o fenômeno psicopatológico de forma mundana, com múltiplos contornos, tal como descreveremos em seguida.

Do olhar fenomenológico com múltiplos contornos2

Em La doute de Cézanne, Merleau-Ponty (1966) faz uma analogia entre sua filosofia e a pintura de Cézanne, mostrando que nesta pintura pode-se constatar que o real se mistura com a realidade, deformando, assim, a realidade. Para Merleau-Ponty, a pintura de Cézanne, assim deformada e com múltiplos contornos, é muito mais real que uma fotografia, por exemplo, que pretende retratar a realidade exata de um determinado momento. A fotografia perde o movimento e separa o real do imaginário, o que a transforma em algo fictício, irreal, já que a realidade, tal como percebida, está sempre em movimento e é sempre deformada, sobretudo porque não existe uma demarcação definida entre o real e o imaginário (Moreira, 1998, 2001). Nas palavras de Merleau-Ponty: "Não assinalar nenhum contorno seria privar os objetos de sua identidade. Assinalar somente um significaria sacrificar a profundidade, quer dizer, as dimensões que nos facilita a coisa" (p. 25). O desenho resulta, assim, da cor e não de um traço único e, o mundo se coloca em sua espessura como uma massa densa, um organismo de cores e de linhas. A cor lhe dá textura e consistência através de seus múltiplos contornos e não de um traço único e limitante, de maneira que a pintura de Cézanne retrataria, assim, o pensamento de Merleau-Ponty pela ruptura definitiva das dicotomias, através do reconhecimento das ambigüidades inerentes ao ser humano na idéia de múltiplos contornos (Moreira, 1998, 2001).

Em estudos anteriores (Moreira, 1998, 2001, Moreira & Sloan, 2002) utilizei esta idéia de múltiplos contornos para uma compreensão fenomenológica mundana da psicopatologia, propondo a compreensão do psicótico como aquele que fica sem contornos. O vivido na psicose, fazendo uma analogia com a pintura de Cézanne, é pura cor que se dispersa sem limites em alguns momentos, ocasionando muito sofrimento psíquico. Por outro lado, o neurótico contemporâneo (que incluiria as síndromes de caráter enrijecedor da personalidade caracterizadas por comportamentos impulsivos e ansiosos) tão pouco vive um múltiplo contorno com o mundo, mas um contorno rígido, supostamente exato e definido com pouca ou nenhuma cor, sendo puro traço, com a mesma exatidão mentirosa que Merleau-Ponty (1966) aponta na fotografia. Nesta perspectiva, o doente mental teria sua existência estacionada, sem movimento, seja por encontrar-se sem contornos com a realidade, seja por encontrar-se com contornos rígidos, vivendo, em ambos os casos, em um mundo descolorido.

Retomo, agora, esta compreensão da psicopatologia a partir dos múltiplos contornos para pensar a questão da pesquisa em psicopatologia, também com tantos contornos, tantas origens que se mesclam, se entrelaçam e se constituem mutuamente, assim como na pintura de Cézanne.

Neste artigo entendo psicopatologia a partir de sua definição: [de psic(o)- + patologia.] como patologia das doenças mentais ou como o estudo das causas e natureza das doenças mentais. Psic(o)- vem do grego - psyché - e significa alento, sopro de vida, alma. Patologia, afecção, dor, pato, que também provém do grego - pathos - significa 'doença, paixão, sentimento' (Cunha, 1997). Penso que um olhar crítico é fundamental para a compreensão do fenômeno psicopatológico de maneira não ingênua, em sua complexidade e em suas determinações múltiplas constituídas também cultural e ideologicamente. Assim, ainda que a conceituação de uma psicopatologia crítica, que propus em estudos anteriores (Moreira & Sloan, 2002), se desenvolva na interseção da assim chamada psicologia crítica com a clínica psicológica e psiquiátrica, de tradição fenomenológica, acredito que uma perspectiva crítica será fundamental a qualquer abordagem da psicopatologia que estude o ser humano no mundo em que vive.

A partir da compreensão do fenômeno psicopatológico em seus múltiplos contornos é que o método fenomenológico é, potencialmente, uma ferramenta crítica, tal como descreverei a seguir. Ou seja, a descrição e a redução serão artifícios para revelar o mundo. A psicopatologia é entendida de forma mundana, com seus múltiplos contornos. Passemos, então, à aplicação prática desta perspectiva teórica e filosófica na pesquisa em psicopatologia.

Pressupostos Metodológicos

Tradicionalmente a pesquisa fenomenológica, ou melhor dizendo, os vários modelos de pesquisas fenomenológicas, ainda que divergentes em tantos outros aspectos são unânimes em alguns, o que aliás diz de seu caráter fenomenológico, apesar de suas diferenças. Entre estes, a busca do significado da experiência será o sempre o fim último da pesquisa fenomenológica. O que será diferente será o modo de compreensão deste significado. Ele poderá ser uma compreensão idealista, e aí a descrição buscaria alcançar a essência, dentro de um modelo husserliano mais tradicional, idealista. Ou poderá ser uma compreensão mundana, dentro da visão merleau-pontyana, eminentemente crítica. Por exemplo, na pesquisa da psicopatologia da depressão, o pesquisador poderá estar buscando a essência desta doença (dentro da tradição fenomenológica idealista), que consistirá na descrição e compreensão do que é invariante, ou universal nesta patologia, o que estaria mais próximo da abordagem fenomenológica de Jaspers (1996), que em 1912 inaugura o início da psicopatologia enquanto um campo de estudos próprio, com sua proposta de uma Psicopatologia Geral. Ou poderá estar buscando compreender a experiência da depressão com seus significados de múltiplos contornos, isto é, determinados por aspectos endógenos, culturais e situacionais (Moreira, 2002) que consiste em compreender o significado da experiência depressiva enquanto uma experiência mundana. Obviamente este artigo se insere na segunda opção de pesquisa. Não busca a essência da patologia mental, mas seu significado, entendendo que, como ferramenta crítica, o método fenomenológico pode ser extremamente útil para o desenvolvimento de uma psicopatologia crítica:

No lastro da Psicologia Crítica, esta compreensão crítica da psicopatologia põe em cheque a epistemologia individualista que perpassa as abordagens tradicionais da psicopatologia, marcadas pela ideologia individualista que faz parte do mundo ocidental como um todo. Transcende o modelo etiológico onde a origem e responsabilidade da doença mental é atribuída a um indivíduo e de um ponto de vista interno. Entende a psicopatologia como mutuamente constituída em seus múltiplos contornos - não apenas biológicos e psicológicos como também históricos, sociais, políticos, antropológicos - portanto, culturalmente produzidos a partir de processos ideológicos. Uma Psicopatologia Crítica não tem a ambição de ser um enfoque ou, menos ainda, uma disciplina. Trata-se de uma compreensão des-ideologizadora das manifestações psicopatológicas onde, a partir da compreensão do complexo arcabouço ideológico que sustenta a psicopatologia hoje, se construam caminhos para uma prática clínica que vá além, perpassada pela utopia de uma psicologia realmente comprometida com o humano. (Moreira & Sloan, 2002, orelhas)

Um instrumento que priorize a experiência

O instrumento é o artifício utilizado para colher dados sobre o fenômeno que se pretende compreender. Dado que o caminho que se pretende seguir é, basicamente, a descrição da experiência, a entrevista tem sido o instrumento amplamente utilizado por pesquisadores fenomenológicos. Na verdade, a entrevista e talvez o instrumento mais utilizado pelos vários métodos qualitativos, tais como a Etnografia, o Estudo de Caso, etc. No caso da utilização deste instrumento na pesquisa fenomenológica, ele tem características específicas. Trata-se de uma entrevista semi-estruturada, pautada em uma pergunta norteadora, ou "disparadora" (Amatuzzi, 1993). Esta pergunta pode estar subdividida, em forma de duas ou três, mas que visem essencialmente a compreender o significado da experiência vivida a ser pesquisada. No caso da experiência psicopatológica, esta pergunta terá como objetivo a descrição, no sentido de se alcançar o seu significado que, a partir de uma lente de múltiplos contornos, inclui significados culturais, biológicos, psicológicos, ideológicos entre outros. É exatamente o potencial de compreensão da psicopatologia a partir de seus múltiplos significados que transforma o método fenomenológico em ferramenta crítica, ideal para a aplicação na pesquisa em psicopatologia que pretenda ter uma abordagem o mais ampla possível da complexidade do fenômeno psicopatológico.

As entrevistas tradicionalmente são gravadas e transcritas para posterior análise. Transcreve-se o conteúdo das gravações em sua totalidade, o que consistirá no texto nativo. O ideal é que o entrevistador seja também a pessoa que transcreve o que possibilita que o texto nativo contenha não apenas a fala verbal como também as várias falas não verbais tais como silêncios, tons de voz, choros, intervalos etc. A entrevista não é, portanto, entendida como um simples diálogo entre o sujeito-colaborador e o pesquisador. Parte-se do pressuposto de que o sujeito-colaborador está se propondo a colaborar (daí a denominação de sujeito-colaborador) com o pesquisador, contribuindo para que este possa compreender um pouco melhor o fenômeno que quer estudar. Quando um paciente depressivo descreve sua experiência de depressão para o pesquisador, a postura deste será eminentemente compreensiva, buscando aprender sobre depressão com o sujeito-colaborador, que tem ou teve a experiência de depressão.

Além de entrevistas, mais comumente utilizadas na pesquisa fenomenológica, ou de registros, onde se solicita ao sujeito-colaborador que escreva um registro da experiência vivida (Fischer, 1989) pode-se utilizar fitas de vídeo, por exemplo, onde a transcrição do texto nativo a ser analisado inclui a observação de tudo o que se passa, além do que está sendo verbalizado. Tive a oportunidade de utilizar tal recurso em uma pesquisa com mulheres maltratadas desenvolvida na Pontifícia Universidad Católica de Santiago (Moreira, 1999) e pude constatar que a análise do fenômeno visual, além do auditivo, sem dúvida pode ser extremamente enriquecedora. Ali o instrumento consistiu em sessões terapêuticas de grupo que foram videogravadas para análise posterior. Mais ou menos dentro do mesmo modelo, orientei também pesquisas que se utilizaram de videogravações ou somente de audiogravações de grupos focais, respectivamente sobre experiência de professores no ensino humanista e sobre a experiência adolescente da ditadura chilena (Pezoa, Fernández, Riveros & Tolentino, 2000; Troncoso, Moreno & Videla,1999). Em ambas as pesquisas, a utilização do grupo focal, onde a pergunta norteadora passou a ser o foco de discussão do grupo, multiplicou as possibilidades de compreensão do fenômeno, agora discutido em grupo. Por outro lado, o grupo, como sabemos torna a discussão pública, o que em alguma medida pode inibir a descrição de experiências mais íntimas ou dolorosas,o que pode acontecer mais facilmente na entrevista.

Sabemos que na América Latina, onde as condições financeiras para a pesquisa são tão precárias, raramente o pesquisador terá uma oportunidade como estas mencionadas, com a utilização de vídeos. No entanto, esta forma pode iluminar outras possibilidades de instrumentos mais flexíveis e complexos, quem sabe mais de acordo com um modelo de pesquisa baseado na fenomenologia mundana de Merleau-Ponty, permitindo sua utilização como ferramenta crítica.

O mais importante para a pesquisa fenomenológica neste enfoque, seja qual for o instrumento utilizado, será a priorização da experiência. Parte-se do pressuposto metodológico de que o sujeito-colaborador sabe desta experiência, já que a vivenciou. O pesquisador se propõe, portanto, a aprender com quem já viveu ou vive a experiência sobre a qual ele quer aprimorar seus conhecimentos. Por exemplo, para compreender a experiência depressiva o pesquisador coloca entre parênteses seus conhecimentos teóricos e clínicos sobre a depressão para buscar a compreensão desta patologia mental a partir da descrição de pacientes que tenham tido ou tenham depressão. Na medida em que é priorizado o experencial entende-se que o doente mental, como aquele que sofre vivendo o que é chamado de depressão, pode descrever este fenômeno, já que ele, melhor que ninguém o conhece. A descrição do fenômeno vivido deve ser exaustiva, o entrevistador sempre estará voltando à pergunta norteadora de maneira a possibilitar distintas formas de expressão por parte do sujeito-colaborador que, desta forma, enriquecerá sua descrição do fenômeno vivido propiciando uma melhor compreensão do fenômeno estudado.

Variáveis descritivas

Pesquisadores qualitativos, inclusive os fenomenólogos - entendendo que na tradição qualitativa temos, além da fenomenologia, o estudo de caso, a etnografia, a biografia e a teoria fundamentada (Creswel,1998) - freqüentemente se negam a utilizar critérios ou denominações utilizadas pela pesquisa quantitativa dentro de uma tradição positivista. E aí se inventam novos nomes para, muitas vezes, a mesma coisa, como por exemplo, em lugar de se falar de 'resultados' (o que assemelharia à pesquisa positivista) se utilizaria 'achados', ou outra palavra mais de acordo com uma tradição qualitativa.

Penso que, mais do que por uma afinidade com uma tradição qualitativa ou quantitativa, muitas vezes esta busca de outros termos, ou a eliminação de alguns critérios estabelecidos pela pesquisa mais tradicional de cunho positivista, tem a ver com um clima de competição que permeia o meio acadêmico nas ciências humanas e da saúde em geral, como se um modelo pudesse ser melhor que outro. Acredito que isto é um erro acadêmico grave, já que ambas as formas de fazer pesquisa são essenciais, em realidade são complementares. Na pesquisa em psicopatologia este fato é notório. Não resta dúvida que as pesquisas quantitativas são importantes, fundamentais para a epidemiologia, por exemplo. Mas os estudos qualitativos serão essenciais para uma compreensão qualitativa da vivência psicopatológica, da sintomatologia, da determinação cultural e ideológica da doença mental. Assim não tenho nenhum problema em usar alguns termos que são utilizados pela pesquisa tradicional positivista, desde que eles se adéqüem à minha metodologia de pesquisa, que é qualitativa, fenomenológica.

Este é o caso do termo variável, que não é utilizado por pesquisadores fenomenólogos e que, me parece, muitas vezes deixa lacunas na pesquisa por não ter levado em consideração alguns critérios que variam, segundo o sujeito-colaborador que integra a pesquisa. Em outras palavras, penso que é importante que se saiba alguns dados mínimos sobre a amostra (outro termo não utilizado por pesquisadores qualitativos) em estudo, não no sentido do controle, mas no sentido descritivo, buscando uma compreensão mais ampla do fenômeno estudado. Quando falo de variável, portanto, estou falando de uma variável que descreve o meu sujeito-colaborador, uma variável descritiva.

Na pesquisa em psicopatologia a utilização das variáveis descritivas me parece de extrema importância. Sabe-se, por exemplo, como a variável gênero é importante em algumas das patologias mentais mais comuns da contemporaneidade, como a depressão (Dawson & Tylee, 2001; Moreira, 2003; WHO, 2002). Por sua vez, esta mesma depressão, que poderá ser uma depressão melancólica, uma depressão reativa, ou uma depressão neurótica na idade adulta, poderá ser uma depressão pré-psicótica, que denuncia o início de um surto esquizofrênico quando na adolescência, merecendo, portanto, cuidados específicos (Tatossian, 1984). O que é patológico em uma idade, não necessariamente o será em outra faixa etária. Assim como o que é patológico em uma cultura, não necessariamente será patológico em outra (Devereux, 1997; Kleinman & Good, 1985; Tatossian, 1997a). O nível intelectual, associado à forma de expressar verbalmente o que se sente, terá também um papel importante na capacidade de expressão do sofrimento psíquico. Pesquisas mostram, por exemplo, como, nas classes mais baixas e nos países não desenvolvidos, a queixa depressiva é basicamente de cunho corporal, com uma sintomatologia prioritariamente vinculada a aspectos físicos (Tatossian, 1984, 1997b).

Enfim, o sujeito-colaborador é um ser mundano, no sentido merleau-pontyano. Ou seja, ele é constituído por aspectos múltiplos, que por sua vez o descrevem como ser humano, neste mundo em que vive. Neste sentido, é útil ao pesquisador conhecer o que for possível conhecer desta mundaneidade que é inerente e intrínseca ao sujeito. Nunca, repito, no sentido de controlar (quando se trata do humano esta é uma pretensão totalmente equivocada, sem falar do questionamento ético em que ela implica), mas no sentido de compreender realmente o significado. Este sujeito-colaborador não é um "ser humano planetário" (Moreira, 2001), o homem ou a mulher do planeta terra. Ele é um ser humano, que pode ser homem ou mulher, que faz parte de uma determinada faixa etária com todas as suas implicações da sua respectiva fase de desenvolvimento, que se constitui mutuamente com uma determinada cultura, uma classe social específica, uma história que é simultaneamente individual e social, interior e exterior. Longe de se alcançar algum tipo de controle pretensamente absoluto ou que dá conta de uma verdade fechada, descrever alguns aspectos que variam não significa rotular ou categorizar, mas simplesmente descrever, sempre tendo claro que esta descrição nunca será completa, da mesma forma que a redução fenomenológica nunca se completa; estará sempre em movimento, em uma dialética sem síntese, sem fechamento, já que "a dialética transformada em tese (enunciado) não é mais dialética" (Merleau-Ponty1964, p. 229).

Hipótese como desconfiança

Na mesma linha de pensamento, assim como o sujeito-colaborador é um ser humano mundano, o pesquisador também o é. E é por isso que na minha experiência como pesquisadora (obviamente mundana) tenho utilizado, não sempre, mas com bastante freqüência, a hipótese, recurso que só os pesquisadores positivistas utilizam. Pesquisadores fenomenólogos geralmente se negam a utilizar hipóteses, alegando que eles vão voltar às coisas mesmas de Husserl, ao fenômeno tal como ele aparece, independente de qualquer idéia pré-concebida.

Esta posição, mais uma vez diz de uma visão idealista da fenomenologia, mais apoiada no primeiro Husserl, e que do ponto de vista político pode ser perigoso já que omite uma posição do pesquisador, quando ele de fato a tem, de alguma forma. Estou falando da famosa neutralidade científica do pesquisador, herdeira da ciência que se pretende exata, quando, na verdade, não existe neutralidade, tratando-se de um engodo! O pesquisador jamais será neutro e, na medida em que faz parte do mundo, o constitui e é constituído por este, o conhece, este mundo lhe é familiar. Será justamente para romper esta familiaridade que ele utilizar-se-á da redução fenomenológica, que, como adiantei, nunca será completa tão pouco. O pesquisador vive um atolamento no mundo que é congênito; ele não é um passarinho capaz de praticar um pensamento de sobrevôo, esquecendo este atolamento, o que tanto irritava a Merleau-Ponty:

Eles gabavam-se, diria ele mais tarde, de olhar para o mundo de frente: não saberão eles que ele, mundo, nos envolve e nos produz? O mais independente dos espíritos traz a sua marca e não se pode formular um único pensamento sem que ele seja profundamente condicionado desde a sua origem, pelo ser que ele pretende visar. (Sartre 1972, p. 166)

Assim, quando o pesquisador elege um tema de pesquisa, ou delimita um problema a investigar, ele quase sempre terá uma hipótese, uma pista, uma intuição, um palpite. A palavra hipótese, proveniente do grego, hypóthesis e do latim hypothese, significa suposição, conjetura, acontecimento incerto, eventualidade, suposição duvidosa, mas não improvável, não necessariamente (agora contrariamente à definição encontrada no dicionário da língua portuguesa) "relativa a fenômenos naturais, pela qual antecipa um conhecimento, e que poderá ser posteriormente confirmada direta ou indiretamente" (Ferreira, 1975, p. 728). Trata-se, no caso da pesquisa em psicopatologia, da pesquisa de fenômenos eminentemente humanos e em nenhum momento está posta a idéia de confirmar ou negar algo. Trata-se, ao contrário, de apontar direções possíveis que possam auxiliar na compreensão do fenômeno em estudo. Às vezes o pesquisador não tem sequer esta direção, mas na maioria das vezes a tem, dada a sua mundaneidade, ou seja sua (con)vivência que, se por um lado o levou ao desejo de querer estudar um determinado fenômeno, por outro, este mesmo desejo denuncia sua familiaridade com este fenômeno.

Um bom exemplo deste argumento pode ser encontrado em Barbosa (2002), que realiza uma pesquisa como dissertação de mestrado sobre o fracasso psicoterapêutico. Em suas palavras:

Havia, desde o início do trabalho, uma hipótese de que falar e vivenciar o fracasso possibilitava o crescimento... Na minha compreensão havia esta tese, mas eu não podia me fixar nela, pelo risco de perder o contato com o mais importante em uma pesquisa deste tipo: o dado, o fenômeno. Assim, foi com certa satisfação que pude ouvir textualmente os entrevistados, ressaltando esta nuança do fracasso. Minhas teses não eram e não são de todo só minhas. (pp. 128-129)

A "tese" da pesquisadora era de fato sua hipótese, já que ela tem realmente uma experiência como psicoterapeuta, que também vivenciou a sensação de fracasso como psicoterapeuta e, exatamente por esta familiaridade com este fenômeno é que o tomou como seu objeto de pesquisa. A satisfação que ela menciona nada mais é que o prazer pela comprovação de sua hipótese, ou pelo menos parte dela. É interessante notar como a autora "se trai". Não explicita uma hipótese mas esta lhe escapa, no próprio texto. E fica claro que não fala de uma hipótese porque com isto ela acredita que correria o risco de distanciar-se do fenômeno. Ora, a redução fenomenológica existe exatamente para ser utilizada neste momento. A hipótese existe pela familiaridade da pesquisadora com o mundo. Não se trata de fixar-se nesta hipótese e sim de colocá-la entre parênteses, duvidando, então, dela, para dar-se conta. Mas em nenhum momento se trata utilizar a hipótese como forma de restrição ou de fixação do pesquisador. Por outro lado, "fazer de conta" que não tem nenhuma hipótese, nenhuma pista ou intuição sobre o tema pesquisado, quando na verdade se tem, é uma posição hipócrita por parte do pesquisador, que fica amarrado dentro do modelo de uma suposta neutralidade científica e, o que é pior, fazendo uso enganosamente de uma metodologia fenomenológica, para tal fim. Quando, ao contrário, a utilização de uma metodologia fenomenológica como ferramenta crítica não pode nunca negar o atolamento congênito do pesquisador no mundo em que vive, estamos falando de um pesquisador mundano. Como nos ensina o próprio Merleau-Ponty (1963): "Pensadores contemporâneos admitem prontamente que o mundo sensível e a consciência sensível deveria ser descrita em termos do que é original para eles. Mas tudo continua como se estas descrições não afetassem nossas definições de ser e nossa subjetividade"( p. 71).

Uma metodologia de pesquisa intimista: O uso de vinhetas ou trechos das falas

Minha experiência como pesquisadora fenomenóloga, ao longo destes anos, tem me levado a pensar nesta metodologia como uma metodologia de pesquisa intimista. Freqüentemente pesquisadores que utilizam o método fenomenológico são também psicoterapeutas que acabam utilizando-se de técnicas de intervenção fenomenológica (Moreira, 2001) na prática psicoterapêutica. Isto não é errado, pelo contrário, é extremamente valioso, desde que se mantenham os devidos limites e cuidados éticos para com o sujeito-colaborador da pesquisa, que não e um cliente e, portanto, não terá continuidade no processo que freqüentemente se inicia na entrevista, ao descrever experiências vividas.

Entrevistas fenomenológicas demandam a privacidade de um lugar tranqüilo, onde a pessoa possa se expressar livremente. Este aspecto foi muito bem ilustrado em uma pesquisa que orientei como dissertação de mestrado na Universidade de Fortaleza. A pesquisadora queria compreender o significado da internet na experiência de adolescentes e para tal realizou entrevistas com adolescentes em um shopping center (Delgado, 2002). O que aconteceu foi uma enorme dificuldade de expressão dos adolescentes, não apenas pela dificuldade característica desta fase do desenvolvimento, mas também, me pareceu, pela má escolha do local para a realização das entrevistas. Falar de experiências pessoais em um lugar público, ruidoso, não faz muito sentido.

Ainda relacionado ao aspecto que estou chamando de intimista deste método de pesquisa, tenho utilizado excertos ou trechos das falas dos próprios sujeitos-colaboradores, além dos significados alcançados através da análise fenomenológica. Penso que estas falas, de alguma forma, são o fenômeno mesmo presente, ilustrando os significados apreendidos. Por exemplo, no artigo que descreve os resultados sobre uma pesquisa com esquizofrênicos no Brasil e no Chile (Moreira & Coelho, 2003) foi encontrado que o significado da variação da experiência corporal é atribuído somente à doença mental, no Chile, enquanto que no Brasil é freqüente que a vivência de alterações na corporeidade vivida nos surtos esquizofrênicos seja atribuída também à incorporação de espíritos relacionada à Umbanda e ao Espiritismo. A compreensão deste resultado é corroborada através dos seguintes trechos de entrevistas.

No Brasil

Então minha mãe me internou aqui porque ela pensa que sou psicótico, na cabeça dela eu sou psicótico, mas não sou psicótico, sou um cidadão normal, só que às vezes aparece um trauma, não sei, coisa que não sai da cabeça, que nem agora, agora eu tô vendo... Os remédios ajudam a melhorar.
Minha vó é mãe de santo... eu freqüento desde pequeno. Eu nasci nisso, eu já fui pra festa de Iemanjá, já fui em festa de Cosme e Damião, tem muito doce, tem bolo, aí as pessoas encarnam os espíritos das crianças mortas... se você vê... ficam tomadas mesmo. É que para a medicina isso é uma coisa impossível, os médicos não acreditam nisso.
Pois não é? Pensam que isso tudo é de doença, mas a gente sabe que vem de outro canto.... tanto que cura também no terreiro...
Parece que tem um espírito maligno em mim, ou, maligno, que fala pra eu cortar fora a cabeça do cara.

No Chile

Escuchaba voces. Me sentía mal porque estaba enferma, estaba enferma, tenía que andar con médicos y por eso no me dava susto caminar...
Mi cuerpo se pone rígido y siento como que me llegan las vibraciones, como que me traspasan.... Me siento mal poh, porque no tiene porque pasarme esas cosas a mí en mi departamento. Después de las radiaciones me siento débil... Me han ido debilitando...La sentía como real, ahora no las percibo porque estoy acá...
Como he sentido lo he sentido (su cuerpo) un poco pesado, quizá debido a las inyecciones... con ganas de estar durmiendo, somnoliento... como cansacio.... noté los cambios solo con las inyecciones....

Da mesma maneira, vinhetas podem ser extremamente ilustrativas da experiência que se pretende elucidar, tal como se pode observar, por exemplo, no artigo sobre o significado ideológico da depressão (Moreira, 2003), ou no capítulo sob o mesmo título em Moreira (2002). A vinheta resume, numa situação prática de vida, o que se pretende pesquisar:

Era uma vez uma família de agricultores, que vivia no interior do Ceará, no Nordeste do Brasil. Três mulheres, parte desta família, sofriam, com alguma freqüência, de uma intensa angústia. A mulher mais velha, a avó da família, dizia que quando lhe baixavam estas coisas, ela precisava rezar muito e procurar uma rezadeira que lhe benzesse. Tinha certeza de que se tratava de espíritos do outro mundo, por conta de mal olhado, e só muita reza pra ajudar; só ir a missa não dava vencimento não. A segunda mulher, filha da primeira, já era velha conhecida no hospital da cidadezinha perto de onde moravam. Vez por outra, marcava uma consulta com o médico se queixando de zoeira na cabeça e de um aperto no peito, sem fim, isso sem falar da dor nas pernas que lhe atacava sempre. Dizia que sofria dos nervos e não se conformava em ir embora do hospital sem a prescrição de um remédio pro seu corpo já cansado, que sofria destas coisas de tanta labuta naquele sertão seco e sofrido de meu Deus... A terceira mulher, a mais jovem das três, se chamava Fátima. Tinha ido morar na cidade grande e, com muito esforço agora tinha um bom trabalho como secretária de uma empresa. O chefe a adorava, pois ela era muito organizada e não parava nunca, era "escrava do trabalho". Fátima era casada com um funcionário do banco e tinha duas filhas. Seus parentes pobres do interior achavam que ela era rica, mas na verdade, Fátima cansava de perder o sono, angustiada, pensando nas dívidas do casal; estavam sempre devendo muito dinheiro. Vez por outra, Fátima vinha visitar a mãe e a avó no interior. Chegou um dia, em uma destas visitas, contando a elas que era doente, que tinha depressão. Tinha começado a ter insônias, angústias intensas e crises de choro anos atrás, quando o marido tinha batido nela pela primeira vez ao chegar bêbado em casa, mas nunca tinha contado isso porque tinha vergonha. Fátima tinha parado até de trabalhar um certo tempo, mas aí começou a se tratar. Desde que começara a tomar os remédios pudera a voltar a trabalhar normalmente e ia levando com o marido. Não tinha coragem de se separar dele. Preferia se conformar. Tinha medo. Já tinha conseguido tanto na vida... A mãe e a avó de Fátima a acharam estranha, como que anestesiada. Justo ela, que sempre tinha sido tão animada, parecia meio "morta em vida"...

Uma análise fenomenológica mundana

As etapas de uma análise fenomenológica mundana não devem ser necessariamente as mesmas para todas as pesquisas. Ao contrário, na medida em que se pesquisa um fenômeno que é mundano e, sem esquecer da minha própria mundaneidade como pesquisadora que vivencia uma subjetividade própria, com características tanto universais quanto singulares, acredito que cada pesquisador deverá construir suas etapas de análise, segundo as peculiaridades de cada situação de pesquisa.

Em Moreira (2001) realizei uma análise fenomenológica inspirada nos passos do modelo de Giorgi, mas introduzindo modificacões específicas que configuram o que estou chamando aqui de análise fenomenológica mundana, através dos seguntes passos: a) Divisão do texto nativo (transcrição literal da entrevista) em movimentos, segundo o tom da entrevista (Moreira, 1993); b) Análise descritiva do significado emergente do movimento; e c) "Sair dos parênteses". A seguir descrevo de que forma esta metodologia funciona como ferramenta crítica na pesquisa em psicopatologia.

Esta proposta se diferencia totalmente de uma metodologia fenomenológica transcendental, notadamente no que se refere a dois aspectos fundamentais. O primeiro é que como pesquisadora, nunca estarei buscando uma "síntese", já que como coloquei anteriormente, estamos falando de um pensamento e de um método que é sempre movimento. Trata-se de uma dialética aberta, ou de uma dialética cíclica, que seria o que Merleau-Ponty (1984) entendia como a "boa dialética". Nesta mesma linha de pensamento, tampouco buscarei como pesquisadora uma "essência" do fenômeno. Acreditando que, como já dizia Merleau-Ponty (1945), "a essência está na existência" e que não existe de fato uma verdade absoluta, não faz nenhum sentido a busca de uma essência, postura que, por sua vez, tem evidentes conotações políticas.

Em vez de estar buscando uma essência do fenômeno, de uma maneira abstrata, como pesquisadora estarei buscando sempre o significado da experiência vivida. A busca do significado é a tarefa fundamental para o pesquisador fenomenólogo que conta com um método que se presta a alcançar uma compreensão dos múltiplos signficados da experiência vivida, que tem, por sua vez, múltiplos contornos. A busca de um significado mundano da experiência vivida inclui uma visão de ser humano em mútua constituição com o mundo, com a história, com a cultura.

No caso da psicopatologia isto implica em um significado sempre múltiplo, nunca exato ou enquadrado dentro de uma determinada categoria diagnóstica única. Ao contrário do que reza a tradição diagnóstica que busca inserir o doente mental dentro de uma categoria determinada, o que de fato se tenta compreender é como os significados biológicos, políticos, culturais, ideológicos etc. se entrelaçam na constituição do tecido que compõe um quadro psicopatológico, sempre inexato e com múltiplos contornos. Não e por acaso que mesmo os diagnósticos realizados da forma mais tradicional possível se enganam, se superpõem tantas vezes, variando de uma forma longitudinal, ao longo de difrentes momentos históoricos, e de uma forma horizontal, em culturas diferentes em um mesmo período histórico. Um exemplo clássico da variação diagnóstica ao longo do tempo e da história é encontrada no famoso caso de Ellen West (Binswanger, 1997). Diagnosticada com depressão no inicio do século passado por Binswanger, Ellen West seria provavelmente diagnosticada como anoréxica nos dias atuais das crescentes desordens alimentares. Mas, será que Ellen West não tinha depressão? Ou tinha também? O diagnóstico de Binswanger estaria "incorreto" à luz das novas descobertas no campo da psicopatologia? No que diz respeito à relatividade diagnóstica em diferentes culturas, a atual literatura em psiquiatria e psicologia cultural e transcultural é unânime em reconhecer variações tanto em termos da expressão da sintomatologia como, e principalmente, em termos do significado da experiência sintomatólogica vivida (Devereux, 1977; Jenkins, 1996; Kleinman, 1986, 1995; Kleinman, Das & Lock,1997; Kleinman & Good, 1985; Moreira 2000; Moreira & Aramburu, 1999; Moreira & Sloan, 2002; Sam & Moreira, 2002; Tatossian, 1997a, 1997b).

Um segundo aspecto importante de uma análise fenomenológica mundana se refere à atitude fenomenológica do pesquisador ao exercer a redução fenomenológica (Moreira, 1987, 2002). Uma pesquisa desta natureza deverá sempre levar em conta e estar atenta a todos os fenômenos emergentes. O pesquisador deverá, portanto, praticar a redução, tentando pôr de lado seus próprios pensamentos e interesses, estando aberto à qualquer tipo de conteúdo ou tema que venham a emergir na sua pesquisa. Por isso é comum que em uma pesquisa fenomenológica resultados novos, totalmente imprevistos, venham a surgir. Esta seria, na minha opinião, uma das fortalezas deste tipo de pesquisa, sempre aberta ao novo e a possibilidades criativas de compreensão do objeto de estudo, o que por sua vez também caracteriza seu caráter crítico.

Re-lembrando com Merleau-Ponty que a redução nunca se completa, poderíamos dizer que o pesquisador estará tentando sempre, sem nunca conseguir completamente, deixar de lado suas hipóteses para estar aberto ao fenômeno emergente. Na última etapa da análise dos dados - saindo dos parênteses - o pesquisador volta a olhar para a sua hipótese, as suas suspeitas sobre possíveis caminhos para a compreensão de seu objeto de estudo. Este passo está atrelado ao item anterior, quando descrevi a existência de uma hipótese como desconfiança. Quando proponho que deve haver esta etapa na análise, onde o pesquisador estará saindo do parênteses, isto significa que, neste momento, o pesquisador deixa de praticar a redução fenomenológica, onde estava colocando entre parênteses idéias pré-concebidas, suspeitas, hipóteses relacionadas ao seu "ancoramento congênito". Aqui o pesquisador retorna, então à sua hipótese como desconfiança, se assume integralmente como pesquisador mundano, dialogando plenamente com os resultados da pesquisa e, principalmente posicionando-se frente a estes resultados, evitando o pensamento de sobrevôo na forma de neutralidade científica (Moreira, 2002). Configura-se aqui todo o potencial crítico do método fenomenológico com base no pensamento de Merleau-Ponty, na medida em que neste momento da pesquisa, talvez mais que em qualquer outro, os vários significados emergentes, bem como a atitude subjetiva do pesquisador, terão múltiplos contornos, que incluem contornos políticos e ideológicos sempre.

Na medida em que a psicopatologia é entendida como uma experiência tanto biológica quanto cultural, política e ideológica, existindo em mútua constituição com o mundo, para pesquisar a psicopatologia é, portanto, fundamental não que se busque sua essência, mas sim seus múltiplos contornos. O que se pode observar é que, apesar dos avanços na pesquisa da psicopatologia, o fato é que os índices de enfermidade mental aumentam tanto quanto os novos tratamentos, as inovadoras técnicas psicoterapêuticas ou os psicofármacos revolucionários. Urge que a clínica e a pesquisa em psicopatologia usem lentes críticas. Quem sabe este seria um caminho mais frutífero para pensar possíveis formas de prevenção e tratamento da epidemia de doença mental que invade o mundo contemporâneo.

 

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Recebido: 7/2/2003
1ª Revisão: 5/5/2003
Aceite Final: 5/11/2003

 

 

Sobre a autora
Virginia Moreira é Psicóloga. Pós-doutora pela Harvard University. É Professora da Universidade de Fortaleza, Ceará.
1 Endereço para correspondência : Harvard Medical School, Department of Social Medicine, 641Huntington Avenue, Boston, MA 02115, USA. Fone : 1 (617) 432-1707; Fax : 1 (617) 432-2565. E-mail: virginia_moreira@hms.harvard.edu, virginiamoreira@unifor.br
2 Este tópico encontra-se em Moreira (2002, pp. 159-160). Ele se repete aqui com algumas modificações no sentido de trazer este enquadre filosófico explicitamente para o âmbito da pesquisa em psicopatologia, foco deste artigo.