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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.19 no.1 Porto Alegre  2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722006000100004 

Um estudo sobre a prática da cola entre universitários

 

Cheating on college exams

 

 

Gabriela Andrade da Silva; Marina Monzani da Rocha; Emma Otta*; Yevaldo Lemos Pereira; Vera Silvia Raad Bussab

Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

O objetivo da presente pesquisa foi comparar a prática da "cola" entre estudantes universitários, num contexto de baixa competitividade e num contexto de elevada competitividade. Participaram da pesquisa 56 estudantes de Engenharia de dois tipos de universidades públicas do Estado de São Paulo. Num deles, que denominamos Sem Competição, os alunos entravam no vestibular sabendo que área iriam seguir, e no outro, que denominamos Com Competição, os alunos entravam no ciclo básico e as áreas eram escolhidas dois anos depois, de acordo com as notas obtidas. Os resultados foram coletados através de um questionário com perguntas sobre o comportamento dos alunos com relação à cola nos últimos meses. Nos dois tipos de universidades, os estudantes geralmente passavam cola para os seus amigos mais próximos, sendo a prática da cola mais freqüente nas universidades em que não havia competição em comparação com aquela em que havia. Os resultados obtidos foram discutidos com base nas Teorias do Intercâmbio Social e do Altruísmo Recíproco.

Palavras-chave: Avaliação escolar; cola; intercâmbio social; altruísmo recíproco.


ABSTRACT

The goal of the present research was to investigate cheating among undergraduates in two different contexts: low competitiveness versus high competitiveness. Participants were 56 undergraduates from Faculties of Engineering of two kinds of public universities located at Sao Paulo State. In one of the kinds, named Without Competition, students enter knowing the Engineering specialization they will follow, whereas in the other, named With Competition, the students' grades during the two first years of a basic cycle will determine the Engineering specialization they will follow. The participants completed a questionnaire about cheating during the last months. In both universities, communication of answers during examinations occurred between friends. Cheating was less frequent in the university with high competitiveness. Results were discussed from the perspective of the Theories of Social Interchange and Reciprocal Altruism.

Keywords: Examination; cheating; social relationship; reciprocal altruism.


 

 

Por mais egoísta que o homem possa ser, há evidentemente alguns princípios em sua natureza que o levem a se interessar pela sorte dos outros, tornando a felicidade alheia necessária para ele, embora nada obtenha disso, exceto o prazer de testemunhá-la. (Adam Smith, The theory of moral sentiments, 1759)

 

As pessoas ajudam umas às outras, às vezes colocando a própria vida em risco. Ações menos dramáticas são abundantes, tais como doar sangue, dinheiro, dedicar tempo voluntário a causas sociais, dar informações. Segundo alguns psicólogos, ajudamos para nos esquivar de nossos próprios sentimentos de culpa e para apresentar uma imagem favorável diante das outras pessoas (Cialdini, 1991; Cialdini & Kenrick, 1976). Segundo outros psicólogos (Batson, 1991; Batson, Duncan, Ackerman, Buckley, & Birch, 1981), ações altruístas são motivadas por uma preocupação genuína com o bem-estar dos outros. A Tabela 1 apresenta um quadro resumo destas posições.

Os psicólogos analisam a questão do altruísmo com base em mecanismos proximais. Os etólogos e psicólogos evolutivos (Hoffman, 1981) acrescentam à análise a dimensão dos mecanismos distais, buscando explicar como ações altruístas poderiam ter sido selecionadas pela evolução. À primeira vista, a evolução do altruísmo parece paradoxal, pois implica em seleção natural de um traço que prejudica seu portador, o que contraria o princípio básico da seleção. Recentemente, o impasse parece ter sido resolvido pelo desenvolvimento de duas teorias explicativas: seleção de parentes e altruísmo recíproco. A teoria da seleção de parentes associa ajuda a similaridade genética. Ao ajudar pessoas aparentadas, o indivíduo aumenta indiretamente sua aptidão, preservando seus genes através dos parentes, ou seja, aumentando sua aptidão inclusiva. Segundo esta lógica evolutiva, quanto maior a semelhança genética, maior seria o investimento altruísta esperado. Haldane (citado em Myers, 1999) brinca dizendo que não renunciaria à própria vida por um irmão, mas se sacrificaria por três irmãos ou por nove primos. Um resultado em concordância com esta teoria é a constatação de maior apoio mútuo entre gêmeos monozigóticos que entre gêmeos dizigóticos (Segal, 1984).

De acordo com a teoria do altruísmo recíproco (Trivers, 1971), o valor adaptativo da ajuda decorreria de uma potencial aliança de trocas pró-sociais: um indivíduo ajuda outro num certo momento, com um custo relativamente baixo, e mais tarde pode receber uma retribuição valiosa. O mecanismo de reciprocidade funciona bem em grupos pequenos e isolados, em que um indivíduo encontra com freqüência outros a que favorece. Neste contexto, o fracasso em retribuir pode ser punido; o padrão de evolução desse arranjo de ajuda mútua é baseado na seleção de predisposição para a ajuda de pessoas bem conhecidas e de mecanismos de avaliação da reciprocidade. Um morcego vampiro pode passar um ou dois dias sem obter alimento, mas se passar mais de 60 horas corre o risco de morrer de fome. Um morcego bem alimentado pode regurgitar alimento para um companheiro à beira da inanição. Quem ajuda, perde pouco. Quem obtém o favor, tem a vida salva. Companheiros familiares partilham o dar e o receber. Wilkinson (1990) observou que os que não têm relacionamento com o morcego doador não são ajudados e que aqueles que trapaceiam - sempre recebem e nunca dão – a longo prazo, deixam de ser atendidos.

A presente pesquisa investiga a prática da "cola" entre estudantes universitários. Durante uma avaliação formal de aproveitamento de estudos, um estudante comunica ilegalmente a um colega a(s) resposta(s) de uma ou mais questões que estão sendo exigidas pela avaliação. Apesar de envolver uma transgressão, consideramos que a prática da cola envolve questões de altruísmo, porque o estudante, ao praticar esse tipo de ação, está reagindo à situação de dificuldade de um colega, procurando atenuá-la e a princípio não visa o interesse próprio. Como envolve uma transgressão, a ação altruísta tem custo. O aluno que "passa a cola" corre o risco de ser descoberto e sofrer conseqüências negativas, como o rebaixamento de sua própria nota e a perda da confiança do professor.

Quem nunca ouviu falar 'Quem não cola não sai da escola'? Pedagogos discutem esta questão (Ex.: Andrade, 2004; Martins, 2004), reconhecendo que alunos optam por essa prática na hora do nervosismo, por não terem estudado e até por estarem acostumados. Os professores não podem simplesmente negar este fato e fazer vistas grossas. A questão é considerada complexa por pedagogos e educadores, que propõem novas posturas dos professores para a reversão do fenômeno da cola no processo de avaliação escolar.

Embora seja objeto de reflexão de educadores, não localizamos pesquisas sistemáticas sobre a prática da cola em nosso meio. A literatura internacional sobre desonestidade acadêmica é extensa (Ex: Schab, 1991; Anderman, Griesinger, & Westerfield, 1998; McCabe, 1999).

Newstead, Franklyn-Stokes, e Armstead (1996) pesquisaram a prática da fraude1 em estudantes universitários ingleses. Os estudantes responderam de forma confidencial um questionário com 21 comportamentos, assinalando aqueles que já haviam praticado. Práticas comuns foram: copiar material de uma fonte bibliográfica sem citar o autor (54%), inventar dados (48%), deixar um colega copiar um trabalho (46%), alterar dados para obter um resultado significativo (37%). Razões freqüentemente apresentadas para trapacear foram: falta de tempo (21%), aumentar a nota (20%), todo mundo faz (16%), ajudar um amigo (14%). Razões para não trapacear foram igualmente apresentadas: é imoral/desonesto (20%), é desnecessário (17%), desvaloriza a própria conquista (10%), medo de punição (6%). Constatou-se que a prática de fraude era mais comum entre estudantes de sexo masculino que feminino; mais comuns em estudantes mais novos e mais comuns em estudantes de ciência e tecnologia do que em outras disciplinas.

Tentando compreender o que estudantes de curso colegial e de universidade (incluindo New York University, Cornell e Yale) pensam, McCabe (1999) coordenou quatro grupos de discussão focal, na Universidade Rutgers, USA. Os estudantes debateram o tema livremente durante duas horas e todos eles admitiram ter utilizado algum tipo de fraude. Os universitários pareciam mais blasé a respeito que os estudantes de curso colegial. Fraude parecia uma prática corriqueira no contexto universitário, conhecida por professores e alunos. Não era algo que pesasse na consciência dos estudantes. A decisão era baseada em considerações práticas, tais como passar num teste ou obter uma nota melhor numa situação competitiva.

Na primeira vez você se sente mal, mas depois se acostuma. Você diz para você mesmo que não está fazendo nada realmente errado ... Pode ser que dentro do seu coração você saiba que está errado, mas depois de algum tempo fica mais fácil de fazer. As pessoas trapaceiam. Você não vai ser uma pessoa pior ou menor por causa disso. Há momentos em que você precisa de um pouco de ajuda... Não sei se é só na nossa escola, mas todo mundo trapaceia. Todo mundo olha na prova de todo mundo. E os professores não se incomodam; deixam acontecer... Os estudantes continuam fazendo porque sabem que não vão ter problemas". (McCabe, 1999, p. 681)

Desonestidade acadêmica é considerada um problema significativo em universidades americanas (Whitley, Nelson ,& Jones, 1999). Num estudo de Whitley (1998), 70% dos estudantes admitiram ter praticado plágio, cola ou cópia de trabalhos escolares. "A universidade no nível do curso de graduação parece ser um lugar onde trapacear é quase tão natural quanto respirar, uma habilidade acadêmica quase tão importante quanto ler, escrever" (Moffatt, 1990, p.2).

A presente pesquisa foi realizada com o objetivo de comparar a prática da "cola", em nosso meio, em dois tipos de cursos de graduação em Engenharia de universidades públicas do Estado de São Paulo. Num tipo de curso, que chamaremos Sem Competição (SC), o ingresso no vestibular ocorre na área da Engenharia que os estudantes pretendem seguir. No outro tipo de curso, que chamaremos Com Competição (CC), os alunos prestam o vestibular para Engenharia sem especificar a área pretendida e passam os dois primeiros anos da graduação fazendo matérias do ciclo básico. Ao final desses dois anos, as médias das notas obtidas são utilizadas para a elaboração de uma lista de classificação. Os estudantes são, então, convocados por ordem de nota para fazer a escolha pela área da Engenharia que pretendem seguir. Dessa forma, o estudante que deseja optar por áreas mais concorridas, como costuma ser o caso, por exemplo, de Engenharia da Computação, Mecatrônica e Elétrica, precisa obter médias elevadas. Caso contrário, é obrigado a especializar-se em alguma outra área que tenha menos pessoas interessadas. O objetivo da presente pesquisa foi, portanto, comparar a prática da "cola" num contexto de baixa competitividade e num contexto de elevada competitividade.

A pesquisa foi planejada a partir de um estudo exploratório anterior em que solicitamos a estudantes de Engenharia destes dois tipos de cursos (69 CC e 45 SC) que respondessem a seguinte pergunta aberta: "Qual a sua opinião sobre a cola? Você é contra ou a favor? Acha imoral colar? Por quê?" Classificamos as respostas em cinco categorias ("Indiscutivelmente a favor", "A favor, mas ...", "Impossível decidir se é a favor ou contra", "Contra, porém ...." e "Indiscutivelmente contra"), que ilustramos a seguir:

1) Indiscutivelmente a favor

Sou a favor e não acho imoral, já que a sociedade é hipócrita. (CC, masculino)
Totalmente a favor e não acho imoral colar, apesar de muitos ficarem nervosos por tirarem menos notas que você. (CC, masculino)
Sou a favor da cola e não acho imoral, porque o nosso ensino é atrofiado e muito teórico, por isso a cola alivia um pouco essa chatice. (SC, masculino)
A cola é um estado de espírito que reflete o desamparo e a total insignificância da matéria para aquele que a faz. A favor. Moral. Pois todos têm o direito a não se interessar pelo que lhes bem convém. (SC, masculino)

2) A favor, mas ....

Sou a favor apenas em situações extremas (passar urgentemente na matéria). (CC, masculino)
Cola é um mal necessário. Sou a favor desde que não se torne um vício. (CC, masculino)
A favor. Lembrete é válido. Se você não sabe mesmo não é legal porque você não aprende. (SC, masculino)
Acho que a cola é um recurso necessário, embora não seja 100% correto, já que você não é obrigado a saber determinados detalhes sobre o assunto. (SC, feminino)

3) Impossível decidir se é a favor ou contra

Não sou contra nem a favor. (CC, masculino)
Tanto faz, quem quiser colar que cole! (CC, masculino)
Indiferente. Se pedem, eu passo. (SC, masculino)
Nem contra nem a favor, cada pessoa sabe das suas necessidades. (SC, masculino)

4) Contra, porém ....

Geralmente contra, depende da situação. (CC, masculino)
A cola é um recurso que deve ser evitado, usado apenas em situações críticas e com responsabilidade. (CC, masculino)
Colar não é certo, mas acontece devido ao sistema incorreto de avaliação nas escolas. A cola é uma conseqüência das provas. (SC, masculino)
A cola esconde o verdadeiro grau de aprendizagem do aluno na matéria. Dependendo da necessidade a cola pode ajudar. Colar com papéis é imoral, mas "consultas" é menos imoral. (SC, masculino)

5) Indiscutivelmente contra

Sou contra a "cola" devido à injustiça que ela causa, beneficiando pessoas que não são tão esforçadas quanto outras. (CC, masculino)
Sou responsável pela nota que tiro, portanto, abomino a cola. (CC, masculino)
Ela é prejudicial, eu sou contra, ela é imoral pois só engana quem está colando. (SC, masculino)
Sou contra, pois tenho medo que os prédios por ele projetados caiam em minha cabeça. (SC, masculino)

No estudo piloto os estudantes dos dois tipos de cursos tenderam a se diferenciar quanto à sua opinião sobre a cola (c2 de Pearson para a amostra total (4, N=14)=8,418, p=0,08). A diferença manifestou-se mais claramente nas opiniões extremas. A proporção de estudantes indiscutivelmente favoráveis à cola foi 2,6 vezes maior no curso sem competição (31%) que naquele com competição (12%). Já a proporção daqueles indiscutivelmente contrários à cola foi duas vezes maior no curso com competição (26%) do que sem (13%). Cursos de Engenharia são predominantemente masculinos e a nossa amostra refletiu este predomínio, o que limitou a possibilidade de testar a variável sexo, mas uma diferença interessante foi notada. A existência de um ambiente competitivo parece ter modificado mais a opinião dos homens que das mulheres. No estudo piloto quatro juízes classificaram independentemente as respostas dos estudantes e depois discutiram os desacordos para decidir a classificação final. Embora o grau de acordo fosse aceitável (índices de Kappa variando entre 0,75 e 0,79), optamos no prosseguimento do trabalho pela substituição da pergunta aberta por uma pergunta com alternativas previamente preparadas (a favor, contra e indiferente).

 

Método

Participaram da pesquisa 56 estudantes dos 1º e 2º anos de faculdades de Engenharia do Estado de São Paulo: 34 de universidade sem competição, de duas faculdades (n=24 e n=10, respectivamente), e 22 da universidade com competição, de uma única faculdade. Houve predomínio do sexo masculino nos dois casos: na faculdade com competição, 73% versus 27%, e nas faculdades sem competição, 66% versus 34%. As idades variaram de 18 a 23 anos, com média de 20 anos. Os participantes responderam um questionário com 15 questões a respeito do seu comportamento em relação à prática da "cola", tendo sido investigadas as seguintes questões: - opinião sobre a cola (favorável, desfavorável, indiferente); - se, na faculdade, o sujeito foi alvo ou agente de pedidos de cola (sim ou não); - a freqüência destes pedidos e dos respectivos atendimentos, nas últimas provas (de 1= nunca a 5= sempre); o grau de intimidade entre as pessoas envolvidas (de 1= desconhecido a 5= amigo); - o grau de risco, ansiedade e prejuízo percebidos (de1= baixo a 5= muito alto) (questionário no Anexo A). Os participantes foram abordados por duas pesquisadoras (G.A.S., M.M.R.), de idade equivalente à deles, durante o período de intervalo entre as aulas na sua respectiva faculdade. Foram consultados os alunos que estavam na área de lazer, em espaço próprio com mesas, destinado a atividades extra-curriculares típicas de intervalo, como conversar, descansar, tomar um lanche ou mesmo ler, usado pelos centros acadêmicos e pelos alunos em geral, de modo semelhante, nas universidades estudadas. As pesquisadoras se identificaram como estudantes de um curso de Psicologia e solicitaram a participação de alunos de primeiro ou de segundo ano numa pesquisa sobre "cola" na universidade. As pesquisadoras garantiram o anonimato das respostas e pediram que respondessem o questionário com sinceridade.

 

Resultados

Encontrou-se uma relação estatisticamente significativa entre a opinião dos estudantes em relação à cola e a existência ou não de um contexto competitivo (c2 de Pearson (2, N=53)=21,797, p<0,001). Na universidade com competição, nenhum estudante afirmou ser favorável à cola, 54,5% declararam indiferença e 45,5% disseram ser contrários a essa prática. Na universidade sem competição, 48,4% dos estudantes afirmaram ser a favor da cola, 48,4% indiferentes e apenas 3,2% contrários.

Quando questionados se haviam recebido algum pedido de cola desde que entraram na faculdade, 72,7% dos estudantes responderam afirmativamente e 27,3%, negativamente, na universidade com competição, enquanto todos os estudantes da universidade sem competição responderam afirmativamente, uma diferença significativa (c2 de Pearson (1, N=56) = 10,385, p<0,01). Quando questionados se eles próprios já haviam pedido cola, 45,5% dos estudantes responderam afirmativamente e 54,5%, negativamente, na universidade com competição, enquanto 94,1% dos estudantes responderam afirmativamente e 5,9%, negativamente, na universidade sem competição, uma diferença significativa (c2 de Pearson (1, N=56)=16,870, p=0,001).

Analisou-se também a influência do tipo de universidade (com competição vs. sem competição) sobre as respostas que envolviam a utilização de escalas tipo Lickert, através do Teste de Análise de Variância Multivariada (MANOVA). Encontrou-se efeito global significativo (lambda de Wilks=0,541, F12,39=2,572, p<0,01). Análises univariadas subseqüentes revelaram efeito estatisticamente significativo de tipo de universidade sobre a freqüência com que os estudantes relataram que: (a) colegas lhes pediram cola na última prova (F1,50=24,149, p<0,001), (b) eles atenderam (F1,50=8,517, p<0,01), (c) eles próprios pediram cola aos colegas (F1,50=12,137, p<0,001), (e) foram atendidos (F1,50=7,784, p<0,01). Nestas questões a escala para resposta ia de 1=nunca a 5=sempre. As freqüências médias com que os colegas pediram cola aos participantes (1,8 vs. 3,1), eles atenderam (2,0 vs. 2,9), eles próprios pediram cola (1,7 vs. 2,7) e foram atendidos (1,8 vs. 2,7) foram menores na universidade com competição do que naquela sem competição.

Não encontramos efeito significativo do tipo de universidade sobre o grau de intimidade com a pessoa para a qual o participante passou cola, embora a média fosse mais alta na universidade sem competição (4,3) do que naquela com competição (3,8). O mesmo ocorreu em relação a pedidos de cola (4,2 em ambas as universidades). Como a escala era 1=desconhecido a 5=amigo, concluímos que nas duas universidades a cola é uma prática que ocorre entre estudantes que mantêm relações de amizade.

O tipo de universidade influenciou a percepção de risco tanto de solicitar (F1,50=5,964, p<0,05) quanto de fornecer cola (F1,50=8,286, p<0,01). A percepção de risco foi menor na universidade com competição que naquela sem competição tanto para solicitar (1,9 vs, 2,7, respectivamente) quanto para fornecer (2,1 vs. 2,8, respectivamente). O grau de ansiedade dos estudantes ao pedir (2,3 vs. 2,8, respectivamente) e ao fornecer cola (2,2 vs. 2,6, respectivamente) situou-se no meio da escala de avaliação e não diferiu significativamente nos dois tipos de universidades.

Finalmente, a avaliação do prejuízo que o estudante poderia ter ao fornecer (F1,50=10,482, p<0,01) ou receber a cola (F1,50=5,924, p<0,05) também foi influenciada pelo tipo de universidade. Os estudantes da universidade com competição atribuíram maior prejuízo tanto ao ato de fornecer (2,4 vs. 1,3) quanto de receber cola (3,3 vs. 2,4) em comparação com seus colegas da universidade sem competição.

Análise em função de sexo

Foi realizada uma análise adicional dos resultados em função de sexo. Não houve diferença entre os sexos em cada uma das universidades na opinião sobre a cola. No entanto, encontrou-se uma tendência a diferença entre os sexos significativa na resposta à questão "Desde que entrou na faculdade, alguma vez lhe pediram cola?" Na universidade sem competição todos os estudantes relataram ter sido alvo de pedidos de cola, independentemente de sexo. Na universidade com competição as mulheres relataram a mesma freqüência de pedidos (100%), mas os homens relataram diminuição dos pedidos (63%) (c2 de Pearson (1, N=22) = 3,094, p=0,08).

Incluindo a variável sexo na MANOVA, para avaliar a resposta a questões que envolviam a utilização de escalas tipo Lickert, encontrou-se uma tendência a diferença significativa entre homens e mulheres quanto ao grau de ansiedade que sentiram ao pedir cola (F1,46=2,955, p=0,09). As mulheres relataram sentir maior ansiedade do que os homens (3,1 vs 2,3). Não houve interação entre sexo e tipo de universidade nessa questão.

 

Discussão

A comparação entre os dois tipos de universidade mostrou um efeito notável na opinião geral sobre a cola, com predomínio de opiniões contrárias no contexto com competição e predomínio de opiniões favoráveis no contexto sem competição. A opinião avaliada por uma questão fechada, que obrigou os estudantes a optarem entre extremos (a favor ou contra) ou declarar indiferença, teve o efeito de salientar ainda mais as diferenças entre os dois tipos de universidade, em comparação ao estudo exploratório. Aparentemente, ao serem impedidos de tecer considerações como "sou a favor, mas..." ou "sou contra, porém...", os participantes tenderam a assumir as posições mais extremas conforme a condição de competitividade vigente e não a migrar para a indiferença. Estes resultados são sugestivos da complexidade dos determinantes envolvidos na composição das opiniões.

Analisando a opinião dos estudantes da faculdade Com Competição em relação à cola, poderíamos ser levados a esperar que esta prática não acontecesse nesse contexto, já que nenhum estudante foi favorável e as respostas se distribuíram nas categorias indiferente e contra. Ainda assim, 72,7% desses estudantes receberam pedidos de cola e 45,5% afirmaram ter pedido cola. Embora no conjunto dos nossos resultados, comparando as universidades Com Competição e Sem Competição, tenhamos encontrado correlação positiva entre as atitudes declaradas e as práticas referidas, essa correlação não é absoluta, o que fica evidenciado pelos dados relativos à prática de cola na faculdade Com Competição. Fica claro que as pessoas podem se envolver em práticas ainda que não sejam favoráveis a elas. Nesse caso, é possível que fiquem sujeitas a contingências especiais, como amizade, circunstâncias específicas relacionadas a determinadas disciplinas ou professores e imprevistos, como por exemplo doença.

Nos dois tipos de curso de Engenharia, os estudantes geralmente pediram e passaram cola para os seus amigos mais próximos. Os escores relativos ao grau de intimidade situaram-se na metade superior da escala. Esse resultado, em termos funcionais, está de acordo com a teoria do altruísmo recíproco (Trivers, 1971): é esperado que um amigo esteja mais propenso a retribuir um favor do que uma pessoa com a qual se tem menos intimidade e que talvez não se reencontre ou encontre pouco. Em termos de determinação causal mais direta, tudo indica que a amizade esteja diretamente relacionada à ajuda recíproca.

Segundo a teoria do intercâmbio social, as interações humanas são orientadas por uma "economia social". Além de trocarmos dinheiro e bens materiais, trocamos informações, amor, status e serviços (Foa & Foa, 1975). Esta troca é feita segundo uma estratégia "minimax": o mínimo de custos e o máximo de recompensas (Myers, 2000). Previsão similar é feita pela teoria do altruísmo recíproco (Trivers, 1971).

Os resultados da presente pesquisa estão de acordo com a estratégia "minimax": a prática da cola foi mais freqüente na universidade em que não havia competição em comparação com aquela em que havia. O comportamento altruísta tendia a ocorrer com maior freqüência em situações de baixo custo do que em situações de alto custo.

A menor freqüência de cola na universidade com competição estava aparentemente associada a preocupações com prejuízo a longo prazo (tais como formação profissional, escolha da área de especialização) mais do que a preocupações com riscos imediatos (ex: ser apanhado em flagrante), significativamente menores na condição com competição. Note-se também que o grau de ansiedade foi equivalente nos dois tipos de universidade, tanto para pedir quanto para passar cola. Embora a freqüência de cola fosse maior na universidade sem competição do que naquela com competição, em ambas os escores situaram-se na metade inferior da escala. Desonestidade acadêmica ocorreu em nossas universidades, mas não pareceu ser um problema tão freqüente quanto o encontrado por Whitley (1998) e Whitley et al. (1999) em universidades americanas, especialmente quando analisados os dados de freqüências especificadas em níveis de 1 a 5, em contraste com as comparações das informações sobre a eventual ocorrência de episódios de cola, do tipo sim ou não.

Não replicamos os resultados de Newstead et al. (1996), no sentido de predomínio da prática de cola entre estudantes do sexo masculino. Na maior parte das questões investigadas, não foram registradas diferenças significativas entre homens e mulheres. Ainda assim, o comportamento de pedir cola para as mulheres parece ter sido menos afetado na condição de competição do que o de pedir cola para os homens. Independentemente do tipo de universidade, as mulheres sistematicamente recebiam pedidos de cola, enquanto os homens da universidade com competição passaram a receber um número menor de pedidos. As mulheres também tenderam, de modo geral, a relatar maior ansiedade do que os homens na situação em que elas mesmas pedem cola.

Na situação com competição os estudantes passaram menos cola que na situação sem competição. Mas é importante considerar que a demanda também foi menor na situação com competição. A própria prática em ação parece ter produzido uma demanda diferencial, possivelmente decorrente de uma composição complexa de fatores determinantes, incluindo a opinião geral sobre a cola (vide questão 1).Se confrontarmos os escores médios de pedidos e de atendimentos (CC: pedido recebidos=1,8; atendidos=2,0 e pedidos feitos=1,7; recebidos=1,8; SC pedido recebidos=3,1; atendidos=2,9 e pedidos feitos=2,7; recebidos=2,7) concluímos que ocorreu um certo equilíbrio entre os pedidos e os atendimentos, com ajuste à demanda. É como se houvesse um conhecimento da rede social suficientemente bem estabelecido que garantisse previsibilidade. O grupo parecia ter uma sabedoria. Mesmo não havendo um tratado normativo explícito, uma prática acabou se estabelecendo nas próprias interações e relações. Os estudantes pareciam sintonizados para as questões do dar e do receber, dos riscos e prejuízos envolvidos e dos valores vigentes no grupo.

 

Referências

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Submissão: 22/06/2004
Última revisão: 04/11/2004
Aceite final: 22/11/2004
Apoio: CNPq.

 

 

Os autores agradecem ao Prof. Fernando José Leite Ribeiro pela discussão crítica dos resultados.
* Endereço: IP/USP, Av. Prof. Mello Moraes, Cidade Universitária,05508 900, São Paulo, SP. emma.otta@pesquisadorcnpq.br
1 Cheating, em inglês.