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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.19 no.1 Porto Alegre  2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722006000100017 

Discussões sobre violência: trabalhando a Produção de Sentidos

 

Discussions on violence and the Production of Meaning

 

 

Neuza M. de Fátima Guareschi*; Andrei Weber; Luciele Nardi Comunello; Milena Nardini

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

Esse artigo tem como objetivo compreender a Produção de Sentidos sobre violência, a partir da observação e discussão em grupo com homens considerados agressores. Fundamentou-se no campo da Psicologia Social, mais precisamente a partir da perspectiva do Construcionismo Social, trabalhando com pressupostos da Produção de Sentidos e das Práticas Discursivas. A pesquisa foi realizada com homens que freqüentam um grupo denominado ''Agressores Anônimos'', coordenado por técnicos de uma ONG, em parceria com o Sistema Judiciário. Nossa condição nesses grupos foi a de observadores participantes e estivemos presentes em 22 encontros, cada um com duração aproximada de 90 minutos, por 20 meses. A partir das análises, entendemos que os significados sobre violência indicam que esses homens a situam no espaço das relações familiares e estão implicados com outros acontecimentos como uso de drogas, formas diversas de agressão. Também foi apontada a dificuldade de estabelecer diálogo, sendo este entendido como uma possibilidade de contornar situações violentas.

Palavras-chave: Produção de sentidos; violência; práticas discursivas; relações familiares.


ABSTRACT

This article aims to understand the Production of Meaning on violence through observations and discussions with men who are considered aggressors. Our discussion is based on the theoretical approaches of Social Psychology, more precisely through the perspective of Social Constructionism with postulations from the production of meaning and discursive practices. The research was accomplished with men that participate in a group called «Anonymous Aggressors». We have participated in these groups as participant-observers and have taken part in 22 sessions of 90 minutes each for the period of 20 months. From our analysis, we understand that the meanings of violence indicate that these men situate themselves in the space of family relationships and that these meanings are implicated with other events like the use of drugs, diverse forms of aggression, and the lack of dialogue as a possibility to overcome violent situations.

Keywords: Production of meaning; violence; discursive practices; family relationships.


 

 

Pode-se dizer que a violência, em suas manifestações plurais na sociedade contemporânea, é constituída a partir de uma perspectiva individualista. Wieviorka (1997) apresenta duas faces complementares e, eventualmente opostas, do individualismo. Por um lado, o indivíduo quer participar da modernidade, do que ela oferece, de seus fluxos de consumo, de seus meios de comunicação e das demandas de um consumo de massa cujo espetáculo está globalizado; por outro, quer ser reconhecido como sujeito, construir sua existência e não ser tão dependente de papéis e funções. Produzir e não somente reproduzir-se (Wieviorka, 1997). Émile Durkheim (1968) já reconhecia, de certa forma, essas duas faces do individualismo na formulação da distinção entre indivíduo, ligado ao profano, e pessoa, ligado ao sagrado.

Essas duas facetas mantêm, hoje, uma estreita relação com a violência. Podemos pensar nos atores das violências instrumentais, aqueles que se engajam em motivações econômicas, querendo o dinheiro para consumir e comprar para si ou para os seus. E, em um outro modo bem distinto, a violência pode assumir, também, um caráter ilimitado, não-instrumental, relacionado a um desejo frustrado de aceder aos frutos da modernidade.

A violência, neste último caso é, ou busca, a produção do sentido, esforço para produzir por meios próprios aquilo que antes lhe era dado pela cultura ou pelas instituições... ou então apelo à subjetividade impossível ou infeliz, expressão de recusa pela pessoa em dar prosseguimento a uma existência em que ela se sente negada. (Wieviorka, 1997, p.23)

Assim, a violência traz a marca de uma subjetividade arrebentada, esmagada, frustrada. O ator que não pode existir enquanto tal é a voz do sujeito não-reconhecido, prisioneiro da massa. Nessa perspectiva, ''a violência é suscetível de emergir na interação ou no choque das subjetividades negadas ou destruídas'' (Wieviorka, 1997).

Para problematizar a violência no âmbito das Políticas Sociais, mais precisamente as formas de intervenções que buscam combatê-la, consideramos necessário utilizar algumas perspectivas de autores que discutem a violência nesta área. Abramovay et al. (2002) citam, pelo menos, três dessas perspectivas. A primeira se refere à violência direta, relacionada aos atos físicos resultantes, com prejuízo deliberado, ou seja, quando alguém sofre algum tipo de dano físico, a partir de um contato corporal. A segunda diz respeito à violência indireta, que envolve todos os tipos de ação coercitiva ou agressiva, resultando em prejuízo psicológico ou emocional, quando, por exemplo, o sujeito é destituído de possibilidades de reação. Por fim, a violência simbólica, relações de poder que se estabelecem por meio de instituições, cerceando a ''livre ação, pensamento e consciência dos indivíduos'' (Abramovay et al., 2002, pp.27-28). Como exemplo desta última, citamos o estabelecimento hegemônico de hierarquias de valores nas relações sociais (Soihet, 1997).

A partir desse percurso da produção de conhecimento acerca da violência, entende-se a violência sob o ponto de vista de um contexto social, cultural e político. Dessa forma, propomos a aproximação dos Estudos Culturais com a produção de sentidos, sendo essa última uma proposta teórico-metodológica voltada à análise de práticas discursivas, embasada no Construcionismo Social (Spink, 1999). Essas articulações têm particular relevância na forma como entendemos as identidades, como fluidas, descontínuas e constituídas pelas diferenças e pelas relações de poder, em redes discursivas, as quais constituem saberes que podem objetivar formas de violência e de ser violento.

Assim, a partir dessas compreensões teóricas, não mais é possível considerar a violência como algo que se esgota no campo individual. Propomos, portanto, entendê-la como práticas complexas, constituídas por diversos vetores, socialmente produzidos. Um dos objetivos deste estudo é mostrar de que forma homens considerados agressores passam a se subjetivar e, conseqüentemente, a se constituir a partir de atos ditos de violência, propiciando pensar sobre formas de discriminação social que surgem a partir de um tal reconhecimento. O presente estudo também aponta diferentes modos desses sujeitos se pensarem, não só como agressores, conforme são considerados pelas Políticas Sociais, de modo que se possa romper com a idéia de uma identidade natural, que sustenta a existência de uma essência de agressor.

Para tanto, buscamos compreender como esses homens, situados em um contexto cultural e social particular, produzem sentidos relacionados à violência que passam a subjetivá-los e a constituir suas identidades. Essas problematizações sobre o tema da violência, a partir da abordagem teórico-metodológica da produção de sentidos, são construídas pela análise das formas de agressão nas práticas cotidianas que os envolvem.

A concepção de identidade da forma como a entendemos, aqui, está em consonância com os Estudos Culturais. Assim, trabalhamos com a noção de identidades, constituídas nos jogos de saberes e poderes que se estabelecem entre diferentes marcadores identitários: raça, classe, sexualidade, gênero. As identidades não podem ser pensadas fora dos sistemas de significação nos quais adquirem sentido (Silva, 1999, 2000). Isto não quer dizer que sejam estáveis, pois, a linguagem é entendida como uma estrutura instável, que vacila, vaza, está assujeitada, assim como as identidades e diferenças às quais fala:

É precisamente porque as identidades são construídas dentro e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas. (Hall, 2000, p.109)

Sobre o Contexto da Pesquisa e da Metodologia

Para desenvolvermos esta pesquisa, integramo-nos a uma ONG que trabalha instituindo propostas eficazes, inibidoras e interventivas de fatores desencadeantes da violência. Uma das atividades desta ONG, que atua na região metropolitana do Estado do Rio Grande do Sul, é o grupo denominado ''Agressores Anônimos'', do qual participamos durante mais de dois anos na condição de observadores participantes. Segundo a proposta desta organização, os procedimentos de intervenção grupal visam a prevenção da violência, sendo entendidos como condição de possibilidade para a diminuição das situações de risco e da reincidência da agressão.

Entendemos essa ONG como uma Política Pública e Social, à medida que está inserida numa rede de prestação de serviços, interconectada com órgãos públicos, entre os quais o Sistema Judiciário, em uma relação de interdependência. Essa ONG desempenha importante papel político de intervenção junto à população, de maneira a implementar a ação do Estado (Carvalho, Salles, Guimarães, & Ude, 2002).

Os participantes que compunham os grupos de discussão foram encaminhados, inicialmente, pelo Sistema Judiciário, advindos do Fórum, do Conselho Tutelar ou, ainda, da Delegacia de Polícia da Região, devido a queixas sobre algum envolvimento em situação de agressão e/ou risco. Os participantes, em geral, são moradores de comunidades carentes, de baixa renda, com baixo nível de instrução devido a dificuldades de acesso à escola1, convivem em condições precárias, em relação à moradia, ao trabalho (ou falta deste), à falta de recursos ou possibilidades para o lazer. Alguns deles estão desempregados, outros são autônomos, carpinteiros, metalúrgicos, etc. Esse contexto, atravessado por diversos vetores sociais, culturais, econômicos e políticos, remete a uma situação de desigualdade e desvantagem na articulação de recursos materiais e simbólicos no que diz respeito à possibilidade de mobilidade social (Abramovay et al., 2002).

Em um primeiro momento, as reuniões, com freqüência semanal, foram realizadas em um espaço cedido por uma Associação de Trabalhadores de uma cidade na Região Metropolitana de Porto Alegre. Foram realizados oito encontros, com a participação de cinco homens. Os primeiros encontros foram relatados em um diário de campo pela impossibilidade de gravá-los, foram registrados datas, horários e combinações diversas em relação aos grupos.

Em função da dificuldade de locomoção até a Associação e pelos encontros se realizarem em horário de trabalho, alguns homens não puderam mais comparecer no horário marcado e, conseqüentemente, abandonaram o grupo. A Delegacia de Polícia era o local de mais fácil acesso para os participantes, e acreditou-se que o encaminhamento imediato ao grupo garantiria sua presença. Desta forma, as reuniões começaram a ser realizadas na Delegacia, onde os encaminhamentos eram feitos imediatamente após a auditoria2 pelo próprio delegado. Assim, foi possível gravar as falas dos participantes, sempre com o seu consentimento.

Cabe assinalar o caráter compulsório da participação dos sujeitos nos grupos, tendo em vista o local e o momento em que foram realizados. Após dois encontros nesse local, tendo a participação de três homens, o projeto foi transferido para um Fórum situado na Grande Porto Alegre, em função da necessidade da própria ONG, pela facilidade de sua inserção nesse local e pela disponibilidade de uma sala mais apropriada para a realização dos encontros.

As reuniões ocorreram quinzenalmente neste Fórum, que acolhe a demanda de quatro delegacias da cidade, sendo que os homens eram encaminhados pela juíza do local durante a audiência3. Os encontros eram abertos, tendo duração de aproximadamente uma hora e a presença de seus membros era rotativa. Participamos, sempre como observadores, no total de 22 encontros coordenados pela técnica4, sendo que participaram das reuniões, em grupos distintos, 23 homens entre 16 e 68 anos.

A partir das transcrições das falas dos participantes, das anotações do diário de campo e das observações realizadas, buscou-se, em um primeiro momento, discutir os sentidos que os homens, juridicamente considerados agressores, produzem em relação à violência, tendo como ponto de partida aspectos de seu contexto de vida, pelos quais são constantemente atravessados. O material levantado sobre a violência remete às relações familiares, que são perpassadas pelo uso de drogas, às diferentes formas de agressão, à ausência de diálogo ou a possibilidade deste como forma de contornar as situações de violência. É importante ressaltar que a discussão realizada sobre a violência toma como questões de análise vetores como família, drogas, ausência de diálogo, entre outros; vetores esses que se cruzam, de maneiras não-lineares, instáveis e descontínuas e não como categorias estáticas.

A partir do trabalho de campo, pensamos na necessidade de observar as intervenções que estavam sendo realizadas, com o objetivo de problematizar não somente os modos como significam a violência, mas, também, indicativos de como determinadas estratégias ou ações estabelecidas pelas Políticas Públicas e Sociais possam estar entendendo os comportamentos apresentados por esses homens.

Nesse momento da pesquisa, buscamos a ampliação dos questionamentos sobre violência, a partir de ações de Políticas Públicas e Sociais e das práticas psicológicas, utilizando a abordagem teórico-metodológica da Produção de Sentidos e o material de pesquisa produzido como subsídio para essas reflexões. Assim, compreendemos que as práticas psicológicas podem ser ações e estratégias de intervenção em determinado campo, quer seja no espaço privado ou no espaço público.

A Pesquisa a partir da Abordagem Teórico-metodológica da Produção de Sentidos

O processo de análise e compreensão da produção de sentidos acerca da violência se fundamenta a partir da perspectiva teórico-metodológica proposta por Spink (1999), situada no Construcionismo Social. Segundo Gergen (2000, citado em Spink, 2000), o Construcionismo Social trabalha com a idéia da explicitação dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem e explicam o mundo em que vivem, trazendo coladas várias problematizações sobre a maneira como entendemos o ''conhecimento''.

Assim, a perspectiva é de que o conhecimento é algo que as pessoas fazem juntas, por meio de suas práticas sociais, e não algo que é apreendido do mundo. Desse modo, trata-se, fundamentalmente, de uma teoria social do conhecimento, desconstruindo a dicotomia sujeito-objeto, pois é o conhecimento socialmente produzido que constrói ambos, o sujeito e o objeto. Portanto, a partir dessa perspectiva surge a idéia de uma desnaturalização da realidade, opondo-se, assim, a uma abordagem representacionista em que a relação sujeito-objeto encontra-se fragmentada.

A perspectiva construcionista não implica negação da existência material das pessoas, eventos, fenômenos, mas, sim, na reflexão de que a existência material não tem em si significados fixos e universais, permitindo ao ser humano pensar-se de determinado modo, diferentes formas de ser, de se reconhecer. Ibáñez (1993) afirma que na postura construcionista não existem objetos naturais: os objetos são como são porque nós somos como somos, não há objetos independentes de nós e nem existimos independentemente dos objetos que criamos.

Tomamos a produção de sentidos como um processo interativo: ninguém produz sentido individualmente. Situamos o sentido como uma construção social, e enfatizamos que tal construção se dá num contexto, numa matriz que atravessa questões históricas e culturais e que é essa construção que permite lidar com situações e fenômenos do mundo social. Produzir sentido, portanto, é o que permite lidar com situações e fenômenos do dia-a-dia, do cotidiano. Na perspectiva da linguagem em uso, o sentido é sempre interativo: os enunciados de uma pessoa estão sempre em contato ou são endereçados a outra pessoa, e esses endereçamentos se interanimam mutuamente, mesmo quando os diálogos são internos (Spink, 2000).

O sentido produzido é uma construção social. É um empreendimento coletivo, mais precisamente interativo, por meio do qual as pessoas, na dinâmica das relações sociais – historicamente datadas e culturalmente localizadas – constroem os termos a partir dos quais compreendem e lidam com as situações e fenômenos a sua volta (Spink, 2000).

A produção de sentido e as práticas discursivas são relevantes à medida que visibilizam a importância da linguagem na interação social, visto que ao significar as práticas, as pessoas produzem sentidos e posicionam-se em redes discursivas. Essa produção de sentido é, por sua vez, orientada pelas práticas discursivas, ou seja, pela forma como os sujeitos significam determinados discursos. Esse processo de significação engendra e posiciona os sujeitos em redes discursivas, fazendo com que produzam determinado modo de ser e de viver.

Segundo Spink (1999), o rigor da pesquisa está na possibilidade de explicitar os passos da análise e da interpretação propostas pelo pesquisador, descartando o aspecto de neutralidade do mesmo. Dessa forma, rompe com o modelo de pesquisa no qual o rigor pressupõe categorias como replicabilidade, generalidade e fidedignidade.

Nessa perspectiva, procuramos compreender os sentidos que os homens considerados agressores produzem em relação aos motivos, aos sentimentos, às experiências e ao contexto relacionado aos atos violentos. Como já expresso, as questões que emergiram a partir dessas observações participantes e do diário de campo são relacionadas à família, aos tipos de agressão, ao uso de drogas e ao diálogo. É importante ressaltar que essas questões são compreendidas como vetores de determinados discursos que se interpelam, se atravessam e não como categorias estáticas. Dentro do modo como significam esses discursos, emergem sentidos sobre a falta de diálogo; a destituição, seja de ''voz ativa na família'', de possibilidades de obter recursos para o sustento; afetividade; autoridade, principalmente relacionada à família; valores para distinguir o certo do errado; diferenciação entre agressão verbal e física; falta de controle e sentimento de culpa.

Os Sentidos Produzidos sobre a Violência

Conforme afirmado anteriormente, os primeiros encontros do grupo foram registrados em um diário de campo, bem como demais combinações e horários. Os encontros subseqüentes foram gravados e transcritos na íntegra. Nossa análise iniciou-se com uma imersão neste material e posteriormente no confronto dos sentidos construídos no processo de pesquisa e interpretação com aqueles decorrentes da nossa familiarização prévia com o campo de estudo e teorias de base (Spink, 1999).

A partir desse confronto, emergiram categorias gerais relacionadas aos objetivos da pesquisa. A transcrição então foi disposta, respeitando-se a seqüência das falas, de acordo com as categorias temáticas que refletiam o contexto ao qual a fala se refere: relação/ família, agressão, drogas/bebida, intervenção, valores, dinheiro, diálogo, sentimentos e busca de soluções. Os mapas usados nesse artigo são ilustrativos do processo de análise e interpretação e, até mesmo por impossibilidade de espaço, não se propõem a dar conta de todo o contexto dialógico no qual as falas foram produzidas.

Em alguns momentos, destacamos a fala de um sujeito e a apresentamos no mapa para explicitar esse processo. Temos claro que uma fala recortada do contexto no qual foi produzida não atende aos requisitos das perspectivas dialógicas. Dessa forma, nossa intenção é mais de exemplificar (Tabela 1) como tomamos a questão da produção de sentidos do que de mostrar o processo dialógico no todo, embora saibamos que não há como dissociá-los, pois, a produção de sentidos acontece, justamente, nesse contexto dialógico.

Assim, a partir da compreensão da Produção de Sentidos proposta por Spink (1999, 2000), pensamos não mais ser possível pensar a violência como algo que se esgota no campo individual, como algo que sugeriria uma identidade agressiva, uma essência humana violenta. Propomos entendê-la como uma prática complexa, constituída por múltiplos vetores socialmente produzidos, que se interpelam na significação dos diferentes marcadores identitários.

As Relações Familiares...

A violência é associada a diversos vetores que, constantemente, se interpelam nos discursos desses sujeitos, sendo, assim, objetivada de várias maneiras, desde uma forma de cuidado através da repreensão de atos considerados errados, até uma maneira de buscar o diálogo e novos modos de ser e pensar. Nesse sentido, a família é referenciada em modelos tradicionais, nos quais as figuras parentais têm papéis definidos na manutenção de determinadas relações, por exemplo nas relações de respeito e autoridade (Tabela 2).

No contexto das relações familiares, os atos de agressão são, por vezes, associados como formas de cuidado: ''Eu tenho carinho por todos... Se eu achar bonito o que ele (referindo-se ao filho) faz (bater) é o carinho que ele acha!'', objetivando atos violentos como uma forma de expressar carinho e cuidado, pois, a agressão, aqui, é tida como prevenção e correção do que se considera certo ou errado em relação a determinadas práticas. Esta questão acerca das relações na família, que envolvem carinho e respeito, também está associada à importância dos modelos a serem seguidos: ''apesar do meu pai ser rígido, se ele fosse vivo eu o respeitaria''; onde a relação é legitimada como reciprocidade de duas partes: ''a mãe tem que respeitar (o filho) para ser respeitada''. O carinho aparece nessa discussão tanto no que se refere a sua presença quanto à sua falta: ''Não lembro quando dei o último abraço na minha mãe. Faz uns 4 ou 5 anos... E faz falta''.

Quanto à produção de sentido sobre essas relações familiares, se faz necessário propormos um debate acerca das Políticas Sociais, problematizando os tipos de intervenções que vêm sendo desenvolvidas no trabalho com homens envolvidos em situações de violência.

Em geral, os discursos que constituem as Políticas Sociais vêm ao encontro de algumas práticas da Psicologia que objetivam a questão da agressão e da violência como algo do indivíduo, de sua essência, procurando explicá-las através de traços de personalidade e de diagnósticos clínicos. Em outros casos, procura-se localizar a violência no espaço das relações familiares. Assim, este saber trata o indivíduo como dissociado de seu contexto social, cultural e político, legitimando o que pertence à esfera pública e o que pertence à esfera privada. Passa, assim, não só a adotar e a trabalhar somente dentro de uma perspectiva, de uma lógica do privado mas, sobretudo, a compreender o sujeito, ou melhor, tudo aquilo que é do sujeito e que este apresenta e produz, como tendo sua origem no privado, no individual, no familiar. Ao encerrarmos a violência em um espaço doméstico, familiar, privado, retira-se seu caráter político-social, encarcerando-a em um ''terreno facilmente psicologizante, familiarizante, intimizante'', sendo um direito de todo cidadão – independente de hierarquia social, gênero, raça, etc, até mesmo da forma de violência sofrida – ser atendido pelo Estado (Coimbra, 2002, p.82).

Ainda no espaço familiar, a violência é associada à destituição, às diversas impossibilidades existentes. Estes aspectos aparecem quando homens choram ao falar sobre filhos e filhas, embora tenham sido afastados deles e delas por tê-los agredido. Essas situações os colocam diante do Judiciário, em processos de destituição da guarda dos filhos, por causa da prática de atos considerados agressivos.

Desta forma, a busca do diálogo é compreendido como uma estratégia possível de reverter processos de acusação, à medida que os sujeitos se mostram disponíveis a conversar, explicar e justificar seus atos. Algumas falas postulam que ''bater não resolve nada dentro de casa'', mas que quando sofrem tentativas de destituição de voz (Ex.: quando a mulher lhes manda ''calar a boca'') acabam partindo para a agressão: ''me sinto um lixo'', pois ''continua a última palavra sendo dela..''. Assim, a destituição da palavra acaba por gerar atos violentos, assim como o desconforto causado pela impossibilidade de escuta: ''Ninguém me escuta'' - que aparece relacionado a um sentimento de desvalorização. Porém, cabe, aqui, um questionamento: será que essa destituição de palavra é feita só pela sua mulher? Ou será que é somente contra ela que ele pode reagir assim? Essa destituição ocorre num âmbito muito maior (Ex.: destituição de cidadania) e envolve questões propriamente sociais e políticas mais do que familiares.

Outra situação que emerge dos discursos dos participantes se refere à falta de recursos devido à baixa renda. Esta é associada às relações familiares e à questão das relações de gênero, pois, na maioria dos casos, o homem é visto como mantenedor dos recursos financeiros da família: ''..porque, poxa vida, eu não posso, eu não fabrico dinheiro, eu tenho que trabalhar pra ganhar dinheiro. Elas dizem 'Te vira', pô, peraí, por que vocês também não se viram. Aí é pior né, quando eu peço alguma coisa pra elas, aí elas acham ruim, quer dizer... eu não posso pedir e agredir de tudo que é forma, eu não posso pedir nada...''.

A questão financeira também aparece juntamente com as cobranças que existem no espaço da família. Por exemplo, alguns homens mostram suas mãos calejadas, demonstrando a árdua jornada de trabalho. Costumam justificar que entregam toda a renda advinda do trabalho para as mulheres, o que denota, mais uma vez, uma situação de destituição financeira relacionada à cobrança por atitudes a serem tomadas: ''Será que eu sou o culpado? Só eu? Eu tava fora de casa... Mas será que só sou eu? Todo o dinheiro que eu ganho, eu entrego pra ela...''. O aspecto de cobrança é visto como algo que torna o espaço familiar um espaço de opressão: ''Eu ainda dou satisfação para o meu pai. Ele já pegou muito no meu pé''. Assim, pode-se pensar que estes homens compreendem a violência como algo que pertence ao espaço individual, intrafamiliar. Em momento algum, eles a localizam no espaço público, isto é, eles não atribuem seus atos violentos ao fato de estarem desempregados e terem poucas possibilidades de manter o sustento de sua família, mas referem que agrediram por que o outro os provocou, e não por toda destituição de poder e de ascensão social que se apresenta no espaço público.

Apesar de muitas das pressões exercidas nessas famílias serem extrafamiliares, os conflitos e os problemas são cristalizados como uma expressão exclusiva de tensão familiar, um problema de relacionamento; ou algo que se refere unicamente à família ou ao relacionamento afetivo. Essa via unívoca de significação da família como foco de tensões que em si são extrafamiliares, acaba literalmente explodindo em atos violentos contra os membros da mesma, agora identificados como irritantes e agravadores de tensões.

O Diálogo (falta)...

No momento em que se parte de uma perspectiva essencialista e biológica para dar conta da questão da violência, acaba-se por ignorar a diversidade de possibilidades de expressão do sujeito, suas diferenças culturais, sociais, econômicas, sexuais, geográficas, etc., engessando formas de ser e pensar. Pensar o ser humano através de seus vetores existenciais complexos é um desafio que se nos impõe, pois lidar com a alteridade, com a diferença ou com o outro nunca é uma tarefa fácil.

Na tentativa de contornar situações desagradáveis, o diálogo é enunciado como uma possibilidade de resolução, sendo ao mesmo tempo objetivado como algo difícil e complicado. Por mais que a maior parte das tentativas anteriores para o estabelecimento de algum tipo de diálogo tenham sido frustradas, ainda permanece a concepção do diálogo como possibilidade de resolução. O fato de o diálogo aparecer configurado desta maneira mostra a influência do discurso''normalizante'' da Psicologia sobre o senso comum. Pode-se, aqui, pensar sobre as influências que se refletem de diversas formas, como nas novelas, programas de televisão, jornais populares, ...

Estas tentativas frustradas são ilustradas em falas como ''bota água em cima da fogueira sempre'' (frente a uma tentativa de conversar), e ''tento conversar, mas dizem: já tá puxando o saco''. Essas situações demonstram o quanto as tentativas de estabelecer diálogos são tomadas como fracassadas: ''depois a gente senta e dá uma esfriada, mas na hora da ira...''. Para maiores detalhes, ver Tabela 3.

A partir de uma perspectiva um pouco diferente, Deleuze, e Guattari (1995, citados em Barros & Lima, 2001, p.112) afirmam que ''a linguagem é a transmissão de palavras de ordem, em que um enunciado efetua um ato e o ato se efetua no enunciado... designam a relação instantânea e imediata dos enunciados com as transformações incorpóreas que expressam, transformações estas que se reconhece na simultaneidade do enunciado expresso e do efeito produzido''. De acordo com Deleuze e Guattari, linguagem é transmissão de palavras de ordem, ou seja, os enunciados fazem coisas, efetuam atos. Esse aspecto performativo da linguagem nos permite percebê-la agindo nos objetos que supostamente descreve. Poderíamos, até, afirmar que a linguagem efetivamente constitui os objetos de que fala, não sendo de modo algum neutra.

Assim, os discursos acerca do diálogo enunciam a dificuldade de os sujeitos resolverem seus problemas através do diálogo e, por vezes, essa dificuldade é atribuída às problemáticas conjugais: ''Não são as crianças que nos atrapalham, somos nós dois''; ''Ela não consegue se controlar, quando começa a dizer as coisas ninguém segura''; ''Não quero dizer nada, só quero que a Maria me deixe em paz... Por mim eu nem precisava falar com ela''. A dificuldade que o diálogo representa acaba fazendo com que evitem estas situações, o que proporciona um afastamento nas relações familiares. Nesse contexto, tensões e conflitos se tornam condições de possibilidade para a ocorrência de atos violentos: ''Eu não posso reclamar, muitas vezes eu tava errado... eu sempre achei que dava para sentar e conversar... mas com ela não dá'', associando as relações familiares à falta de controle.

As Agressões...

Conforme Almeida (2002, p.46), ''a violência no Brasil não existe como estado, mas como processo, como produto de relações históricas''. Por isso, é necessário entender as particularidades que tornam possíveis a emergência de determinadas formas de violência e criminalidade, discutir o inventário hierarquizado da violência e o grau de reprovação social que lhe é atribuído. A cultura da violência torna-se a base na qual se constroem formas de sociabilidade dominantes na contemporaneidade, ou seja, existe uma luta cotidiana na busca de diferentes modos de lidar e viver com a violência.

No discurso regulador da psicologia, comportamentos violentos são relacionados a uma estruturação específica da personalidade: a estrutura perversa, que não se autoflagela ou culpa por questionar e levar a cabo formas de subverter estruturas vigentes ''cegamente'' (ou seja, sem muitos propósitos políticos). Essas formas de subversão são, muitas vezes, codificadas como comportamentos violentos, e entendidas como inerentes ao indivíduo. O sujeito, com essa estruturação, é percebido como essencialmente agressivo. Tais comportamentos para esse discurso normalizante, não ocorrem por alguma insatisfação social, política ou econômica, mas, sim, por instâncias internas que não se adaptaram à ''realidade'', um Édipo mal-resolvido, uma família desestruturada, um ego demasiadamente narcísico. Ou seja, o que o indivíduo precisa para não se produzir psiquicamente agressivo neste discurso é uma família nuclear tipicamente burguesa, mesmo na favela.

O ato de agressão aparece relacionado a questões de autoridade quando a submissão torna-se presente nas relações familiares: ''às vezes até baixo a cabeça para ela''. Para maiores detalhes, ver Tabela 4.

Em geral, dificilmente os homens consideram-se agressores, embora alguém os reconheça dessa forma, pois foram encaminhados ao grupo devido a uma queixa de agressão: ''Eu não faço nada!''; ''Eu acho que eu errei, que eu até fui correto demais''. Assim, atribuem valores para o que seja certo ou errado em seu cotidiano, para a violência que, em alguns momentos, aparece banalizada. Ao mesmo tempo, a delegacia, enquanto espaço de controle e normatividade, é vista como infame: ''Vir na delegacia é um vexame para mim''. A violência, então, aparece colada a julgamentos de valor e autoridade, pois praticar um ato violento pode ser entendido como exercer poder sobre o outro: '''Existe uma opção e o medo da opção ou certa ou errada. De repente eu tô em casa, tudo bem e aí 'pum' explode tudo''; ''Eu fiquei muito sem autoridade em relação a eles (esposa e filhos), aí eu explodi, peguei a porta e quebrei tudo''.

As Drogas...

Determinadas práticas cotidianas são consideradas fatores estressantes que podem levar ao ato de violência, por exemplo, a ausência de diálogo, a noção de justiça e a falta de controle. Esta última aparece associada, principalmente, a situações que consideram injustas e ao uso de drogas (maconha e bebidas alcoólicas). A respeito disso, demonstram preocupação com o uso de drogas dentro da família, em função de suas conseqüências como o afastamento nas relações familiares, ou prejuízos no trabalho.

O fato de as drogas estarem socialmente associadas à idéia de fuga da realidade ajuda a compor um quadro de uma ''essencialidade artificial'' percebida como própria desses indivíduos; e não o de estarem se construindo em práticas discursivas pelos significados dos discursos das conseqüências da droga ou das características de quem faz uso dela, que os demarcam e os inscrevem numa territorialidade exclusiva, como própria deles, e excludente, porque os exclui da normalidade.

Estabelece-se, assim, uma relação entre a violência e a impossibilidade de controle em situações de abuso de drogas: ''Quando eu misturo cerveja com vinho eu não lembro de nada... Às vezes eu bebo umas geladas e chego em casa incomodando... Eu tomo duas a três cervejas, aí eu já tô doidão, aí eu misturo''. Ao emergir a temática das drogas, alguns dos participantes que as usaram e que as significam dentro de discursos hegemônicos sobre o mal da droga, falam o quanto o vício influencia em suas vidas e o quão difícil é abandoná-lo: ''Acho que ele é corajoso. Assumiu o problema e conseguiu resolver (comentário sobre um dos homens que participa do Alcoólicos Anônimos e está conseguindo parar de ingerir bebidas alcoólicas)''; ''Se eu entrasse, eu ia procurar sair porque isso não é uma coisa boa. O que a gente quer, a gente consegue''.

Ainda em relação ao fato de como significam esses discursos sobre as drogas, os participantes relatam os meios que utilizam para não recair: ''tem que achar alguma coisa pra fazer''. A bebida está, muitas vezes, associada ao uso de outras substâncias como tranqüilizantes: ''tomava uma ou duas cervejas para conseguir dormir'', vistas igualmente com estratégia para suportar o frio e as condições físicas no trabalho. O uso é associado à inquietação, à impossibilidade de estar ''parado'': ''Eu não consigo ficar dentro de casa vendo TV, quietinho...'', cuja solução encontrada é ir para o bar beber.. Ver Tabela 5.

Por vezes, alguns discursos enunciam as drogas como única fonte de prazer, quando suas falas trazem que nenhuma atividade lhes é prazerosa sem o uso da bebida. Em outro momento, enunciam o uso de álcool como uma prática do cotidiano, corriqueira, que passou a se tornar rotina e que não se consegue mais ficar sem: ''Eu nunca tive história de alcoolismo... era um aperitivo antes da janta... (num segundo momento) fiz aquela história (encaminhamento ao A.A) e me ajudou''.

 

Considerações Finais

A participação desses homens nos grupos, que compreendemos como um espaço de escuta, de troca, mais do que um processo de intervenção, propicia-lhes pensarem sobre si mesmos e sobre as situações que vivenciam de modo diferenciado, produzindo sentidos sobre as diferentes práticas que possibilitam significar cotidianos, advindos dos discursos pelos quais são constantemente interpelados: ''onde foi que eu comecei com o erro e onde é que eu posso acabar? É isso que eu queria saber''.

Esse espaço para a reflexão pode produzir mudanças na forma como os homens são subjetivados pela agressão, no momento em que passam a ter a oportunidade de significar os discursos que os colocam como homens agressores de diferentes maneiras. Isso acontece quando se mostram dispostos à troca de experiências e à participação de um espaço no qual possam pensar questões acerca da violência: ''Tudo é bom para gente refletir...''.

Os homens produzem sentidos sobre violência que remetem aos discursos que enunciam o ambiente familiar como algo muitas vezes estressante, opressor e, por conta disso, o acontecimento dos atos agressivos são considerados um meio para resolverem essas situações. Apesar do diálogo ter sido discutido como uma estratégia passível de ser utilizada para contornar atos violentos, são reincidentes as tentativas frustradas para estabelecê-lo. Muitas vezes, antes do ato agressivo, tentam parar, respirar fundo, se controlar: ''... eu já tentei até contar até 10...''. Essas experiências de vida reveladas nos encontros podem ser encaradas como possibilidades de os participantes passarem a se subjetivar de outras formas, construindo outros modos de ser e se pensar enquanto sujeitos e não só como homens agressores. Porém, ao mesmo tempo em que possuem esta possibilidade, relatam ausência de perspectivas futuras: ''ah... vai indo... por enquanto eu não tenho (projetos para o futuro)'', dizem que pretendem, em algum momento de suas vidas, satisfazer suas realizações pessoais: ''O meu objetivo sempre foi ter uma casinha, com os móveis novinhos, um carro na garagem, e quando estivesse tudo certo, eu queria colocar uma mochila nas costas e viajar...''.

As análises realizadas neste artigo levantaram alguns questionamentos produzidos pelas nossas discussões sobre violência: essa mostra-se situada em um âmbito familiarista por discursos jurídico-psicológicos. Assim, a significação que determinadas marcas identitárias assumem pelo olhar do outro, inscrevem o sujeito como violento, tornando-o, assim, objeto de programas e práticas públicas.

Desta maneira, alguns programas de políticas públicas com a violência que se propõem a colocar os sujeitos ditos agressores como anônimos, correm o risco de, ao mesmo tempo em que buscam promover a proteção a esses sujeitos, também privatizar as práticas dessas políticas públicas. Desta maneira evidenciando entender que as questões sobre violência não se encontram em domínio público, produzida pelo social, e sim como algo que é intrínseco ao individuo, essencializando, desta forma a existência de uma identidade de agressor, a qual passa a ser naturalizada pelas práticas psicológicas.

Contudo, ainda vemos o fato de esses homens, considerados agressores, terem um espaço para refletirem sobre si mesmos – de uma forma que não ocorra discriminação e que não sejam reconhecidos, nem por eles mesmos nem pelas práticas psicológicas e pelas Políticas Sociais como possuidores de uma ''identidade agressiva'', nesse espaço propiciado para problematizar as intervenções realizadas pelo Sistema Jurídico. Enquanto se pensam, constituem-se performativamente em si e para si, e acabam reterritorializando as interpelações dos discursos que os codificam como os ''exteriorizados'' (exteriores à normalidade e ao padrão), discursos que os essencializam e os descontextualizam, enclausurando suas questões em terrenos mais deterministas e familiaristas.

 

Referências

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Submissão: 30/07/2004
1ª revisão: 20/12/2004
Aceite final: 14/02/2005
Apoio: CNPq (Edital Universal, bolsa produtividade pesquisador do autor principal; bolsas BIC-CNPq e FAPERGS da terceira e quarta autoras).

 

 

* Endereço: Av. Ipiranga, 6681, Prédio 11, 9º andar, sl. 930, 90619 900, Porto Alegre, RS. Fone: (51) 33203633 (R: 216). nmguares@pucrs.br
1 O abandono ou evasão escolar ocorre por motivos como a necessidade de trabalho, que é reforçada pelo grande abismo que se estabelece entre o ensino formal e as demandas do mercado de trabalho, entre outros.
2 Momento em que acontece a queixa de envolvimento em agressão, em que os homens são ouvidos pela primeira vez pelo técnico responsável.
3 Momento em que as partes envolvidas na situação de agressão são ouvidas pelo/a juiz/a e se busca chegar a uma solução a respeito do caso.
4 Esta profissional responsável pelas intervenções é graduada em Psicologia e Direito, exercendo, neste momento, uma função de mediadora dos grupos a partir de referências da Psicologia, no entanto, em um local que remete a um saber jurídico, o que facilitou sua inserção.