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Psicologia: Reflexão e Crítica

versão impressa ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. v.20 n.1 Porto Alegre  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722007000100004 

Construção e validação da escala fatorial de Socialização no modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade

 

Development and validation of an Agreeableness scale in the Big Five personality model

 

 

Carlos Henrique Sancineto da Silva NunesI, *; Claudio Simon HutzII

IUniversidade de São Francisco, Itatiba, Brasil
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

 

 


RESUMO

O presente estudo visou a construção e validação de construto de uma escala para a mensuração de Socialização no modelo dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade. Neste Modelo, Socialização é uma dimensão da personalidade que agrupa traços como altruísmo, franqueza, confiança nas pessoas, bem como frieza, falta de empatia, comportamentos antisociais, etc. Os participantes deste estudo foram 1.100 pessoas de cinco estados brasileiros, de ambos os sexos, com nível de escolarização médio ou superior. Foram realizadas análises fatoriais para a verificação da dimensionalidade da EFS, sendo que a solução de três fatores foi considerada mais adequada. Os fatores extraídos foram denominados Amabilidade, Pró-sociabilidade e Confiança nas pessoas. A consistência interna dessas escalas (calculada por Alpha de Cronbach) foi de 0,91; 0,84 e 0,80 respectivamente, e da escala geral 0,92.

Palavras-chave: Personalidade; socialização; avaliação psicológica; Cinco Grandes Fatores de Personalidade.


ABSTRACT

The present study was designed to develop and assess construct validity of an Agreeableness scale (Escala Fatorial de Socialização – EFS) in the Big Five model. In this model, Agreeableness is comprised by traits that describe altruism, straightforwardness, trust in people, as well as coldness, antisocial behaviors, among others. The participants were 1.100 individuals, from five States in Brazil, of both sexes, with high school or university level of education. Factor analyses were conducted to determine the EFS dimensions. A 3-factor solution was found to be more adequate. The factors found were named: Cordiality, Pro-sociability, and Trust in people. Internal consistency (Cronbach's alphas) for the factors were .91, .84, and .80 respectively, and .92 for the general scale.

Key Words: Personality, Agreeableness, Psychological Assessment, Big Five Factors


 

 

Construção e Validação da Escala Fatorial de Socialização

Socialização é um importante componente da personalidade humana que, no modelo dos Cinco Grandes Fatores (CGF), descreve a qualidade das relações interpessoais dos indivíduos. Na sua formulação atual, o modelo dos CGF propõe fatores denominados extroversão, socialização, realização, neuroticismo e abertura para novas experiências. Vale salientar que a embora denominação dos fatores ainda não seja consensual, os traços de personalidade que os constituem e sua forma de agrupamento são equivalentes nas diferentes abordagens ao Modelo. O fator socialização, por exemplo, foi denominado nas escalas americanas como agreeableness, o que foi traduzido para as escalas portuguesas como "agradabilidade". No entanto, optamos por utilizar o termo socialização por acreditarmos que, ao menos em português, ele descreve melhor o construto em questão. Porém, deve-se enfatizar, os traços de personalidade que são descritos pelo fator, seja sua denominação agreeableness ou socialização, são os mesmos.

O interesse por esse modelo deve-se também em grande parte ao acúmulo de evidências de sua universalidade e aplicabilidade em diferentes contextos. De uma forma geral, pode-se dizer que o modelo dos CGF desenvolveu-se a partir das pesquisas realizadas na área das teorias fatoriais e das teorias de traços de personalidade, sendo que as últimas contribuíram grandemente para o desenvolvimento da sua base teórica. Já as teorias fatoriais contribuíram grandemente sob o aspecto instrumental e metodológico que, de uma forma gradual, convergiram para uma solução de cinco fatores. Este processo deu-se a partir do avanço das técnicas fatoriais e da computação, da elaboração de métodos mais sofisticados de localização e extração de fatores que acabaram dando respaldo a essa forma de compreensão da personalidade. São descritos, a seguir, cada um dos fatores do modelo dos CGF.

O fator extroversão refere-se à quantidade e à intensidade das interações interpessoais preferidas, nível de atividade, necessidade de estimulação e capacidade de alegrar-se. O Fator realização representa o grau de organização, persistência, controle e motivação para alcançar objetivos. Pessoas que são altas em realização tendem a ser organizadas, confiáveis, trabalhadoras, decididas, pontuais, escrupulosas, ambiciosas e perseverantes. Por outro lado, pessoas que são baixas em realização tendem a não ter objetivos claros, não são confiáveis e geralmente são descritas como sendo preguiçosas, descuidadas, negligentes e hedonistas. neuroticismo refere-se ao nível crônico de ajustamento emocional e instabilidade. Alto Neuroticismo identifica indivíduos propensos a sofrimentos psicológicos e que podem apresentar níveis elevados de ansiedade, depressão, hostilidade, vulnerabilidade, autocrítica e impulsividade (Costa & Widiger, 1993).

Abertura é frequentemente referido como Intelecto. Porém, Abertura não está diretamente relacionada com inteligência. Este fator refere-se aos comportamentos exploratórios e reconhecimento da importância de ter novas experiências. Indivíduos altos nesta dimensão são curiosos, imaginativos, criativos, divertem-se com novas idéias e com valores não convencionais; eles experienciam uma gama ampla de emoções mais vividamente do que pessoas fechadas (baixas em Abertura). Pessoas que são baixas em Abertura tendem a ser convencionais nas suas crenças e atitudes, conservadoras nas suas preferências, dogmáticas e rígidas nas suas crenças; tendem também a ser menos responsivas emocionalmente (Costa & Widiger, 1993).

Socialização é considerada uma dimensão interpessoal que indica quão empática, interessada e prestativa as pessoas tendem a ser com as demais. Socialização também avalia o quão compatíveis ou o quão capazes elas se percebem no convívio social (Nunes, 2005). Costa e Widiger (1993) indicaram que esta dimensão da personalidade relaciona-se com tipos de interações que uma pessoa apresenta ao longo de um contínuo que se estende da compaixão ao antagonismo. Pessoas que são altas em socialização tendem a ser generosas, bondosas, afáveis, prestativas e altruístas. Ávidas para ajudar aos outros, elas tendem a ser responsivas e empáticas, e acreditam que a maioria das outras pessoas irá agir da mesma forma. Indivíduos que são baixos em socialização tendem a ser pessoas cínicas, não cooperativas e irritáveis, podendo também ser pessoas manipuladoras, vingativas e implacáveis.

Costa e McCrae (1980) têm argumentado que, em contextos clínicos, não somente socialização, mas todos os cinco fatores podem ser úteis para a identificação de demandas de tratamento ou de sintomas de transtornos da personalidade. Mais especificamente, os autores propõem três motivos pelos quais tais medidas podem ser usadas nesses contextos: (a) elas avaliam estilos emocionais, interpessoais e motivacionais que podem ser de interesse aos clínicos; (b) elas oferecem um panorama compreensível do indivíduo que não pode ser obtido com a maioria dos instrumentos clinicamente orientados; (c) elas provêm informações suplementares que podem ser úteis na seleção do tratamento e avaliação do prognóstico dos casos.

Vários estudos têm mostrado a importância e a aplicabilidade das escalas CGF no diagnóstico clínico. Por exemplo, há indicações claras na literatura de que pessoas com diagnóstico de Transtorno de Personalidade Histriônica ou com Transtorno de Personalidade Anti-social apresentam altos escores nas escalas de extroversão e baixos escores de socialização, respectivamente (Widiger, Trull, Clarkin, Sanderson & Costa, 2002). Estudos sobre aspectos individuais de adictos têm apontado características de personalidade, especialmente o fator socialização, como importantes para a explicação do quadro (Ballone, 2005). Muitos destes estudos indicam associação entre o uso de substâncias e desordens como depressão, ansiedade e transtorno de personalidade anti-social, ampliando, assim, a possibilidade de uso de um instrumento que avalie socialização para diagnósticos diversos (Chambless, Cherney, Caputo, & Rheinstein, 1987; Grant & Harford, 1995; Helzer & Pryzbeck, 1988; Hesselbrock, Meyer, & Keener, 1985; Kessler et al., 1997; Merikangas et al., 1998; Merikangas & Swendsen, 1997; Regier et al., 1990).

O fator socialização também é importante no contexto da psicologia do trabalho e organizacional, especialmente para avaliar ou prever desempenho contextual e global, facilitação interpessoal, orientações básicas de sucesso, entre outros (Ross, Rausch, & Canada, 2003; Witt, Kacmar, Carlson, & Zivnuska, 2002).

O presente estudo visa o desenvolvimento de uma escala para mensuração de socialização no contexto dos Cinco Grandes Fatores de personalidade e sua validação de construto. Essa escala soma-se as escalas dos demais fatores já disponíveis ou em construção e poderá ser um instrumento útil tanto para a pesquisa na área da personalidade como para psicólogos atuando na área do diagnóstico clínico ou na área organizacional.

 

Método

Participantes

A amostra para a avaliação psicométrica da EFS foi composta por 1.100 participantes sendo 30% do sexo masculino. Estudantes secundaristas representaram cerca de 40% da amostra, seguidos por estudantes de psicologia (38%). A maioria era solteira (69%). A idade variou de 14 a 64 anos (M= 21,3; DP= 5,84).

Os dados foram coletados em cinco estados brasileiros por professores e pesquisadores na área da avaliação psicológica que se propuseram a colaborar com a pesquisa. O número de participantes deste estudo foi calculado para gerar soluções fatoriais estáveis, sendo utilizado o critério "razão itens/sujeito".

Construção da Escala Fatorial de Socialização

O primeiro passo para a construção da Escala Fatorial de socialização consistiu na elaboração de itens com base na literatura corrente sobre esse construto, com especial atenção às suas facetas (Goldberg, 1990; Hutz & Nunes, 2001; Hutz, Nunes, Silveira, Serra, Anton, & Wieczorek, 1998; O'Connor & Dyce, 2002; Widiger et al., 2002).

Alguns itens foram elaborados com base em estudos que têm verificado a relação entre a avaliação da personalidade pelos CGF e a descrição de transtornos de personalidade a partir de sistemas categóricos, como o DSM-IV (American Psychiatric Association, 1994; O'Connor & Dyce, 2002; Trull & McCrae, 2002; Widiger & Frances, 2002; Widiger et al., 2002).

Apesar da grande variedade de traços que foram cobertos com os itens elaborados a partir dos marcadores de traços compilados para o Brasil (Hutz et al., 1998) e de quadros do DSM-IV, restaram ainda alguns aspectos descritos na literatura sobre socialização que não haviam sido contemplados. Assim, uma terceira fonte de itens utilizada adveio de um projeto internacional de pesquisa em personalidade, denominado International Personality Item Pool (http://ipip.ori.org/ipip/index.htm).

Conjuntos de itens disponibilizados pelo projeto IPIP foram traduzidos para a língua portuguesa, buscando-se uma linguagem de fácil compreensão, considerando que a população-alvo (adolescentes e adultos com ensino médio incompleto) não apresenta nível cultural elevado. Finalmente, os itens foram submetidos à apreciação de quatro juízes familiarizados com o modelo dos CGF para avaliar validade de conteúdo.

Após a elaboração da primeira versão da escala de socialização, os itens foram apresentados para 11 pessoas, de diferentes níveis culturais e áreas de atuação para avaliar sua compreensibilidade e clareza. Os itens considerados confusos, incompreensíveis, ambíguos ou que apresentavam problemas na sua construção foram reelaborados ou eliminados. A escala ficou com 140 itens. As instruções para aplicação das escalas também foram discutidas com os juízes para assegurar clareza e precisão. O mesmo foi feito com o roteiro de aplicação das escalas, visando a padronização da coleta de dados. Finalmente, um estudo piloto com 65 estudantes de ambos os sexos permitiu reduzir a escala para 110 itens.

Estudo da Validade de Construto da EFS

Procedimentos de coleta de dados. A coleta de dados foi coletiva, sendo usualmente realizada em sala de aula das instituições que participaram do estudo (escolas públicas e privadas; universidades públicas e privadas, cursos preparatórios para concursos, etc.).

Nas instituições de ensino superior foram escolhidas turmas com estudantes de vários cursos para diversificar a amostra. As regras de conduta ética na pesquisa com seres humanos foram seguidas neste estudo. Os estudantes, após serem informados dos objetivos do estudo, de que a sua participação era voluntária e da garantia de sigilo, assinaram formulário de consentimento esclarecido e receberam o caderno com os itens, a folha de respostas e instruções de preenchimento. Foi também oferecida uma devolução da avaliação aos estudantes que assim desejassem.

 

Resultados

Para a verificação da dimensionalidade da EFS, foram extraídas soluções fatoriais com 3, 4, 5 e 6 fatores. Como os itens representam o mesmo construto (socialização), considerou-se mais adequada a rotação Direct Oblimin, específica para a extração de fatores correlacionados.

O scree plot (Cattell, 1966), apresentado na Figura 1, sugere que a solução de 3 fatores seria preferível. Porém, inúmeras são as regras para a identificação do número de fatores a serem extraídos, mas nenhuma gera unanimidade ou é considerada conclusiva. Em última análise, prevalece o princípio de que os fatores devem ser compreensíveis e teoricamente justificáveis.

 

 

As soluções fatoriais extraídas foram verificadas levando-se em conta a pertinência dos fatores encontrados (em termos de conteúdos) e suas características psicométricas. A solução de três fatores mostrou-se mais robusta, simples e com características psicométricas melhores do que as soluções de dois, quatro ou mais fatores. Reteve-se, portanto, esta solução. Os fatores extraídos foram denominados, respectivamente, Amabilidade, Pró-sociabilidade e Confiança nas pessoas. Para o cálculo dos escores gerais da escala, os escores dos subfatores foram calculados de tal forma que apontassem para um alto nível de socialização. Assim, S1 permaneceu com a sua orientação original (indicando amabilidade), S2 foi invertido (de tal forma que escores altos indicassem comportamentos pró-sociais) e S3 também foi invertido (indicando nível de confiança).

Como regra para inclusão dos itens nos fatores, foi determinado que teriam no mínimo 0,35 de carga fatorial. Usualmente a linha de corte utilizada é de 0,30, mas, como o objetivo era criar uma escala reduzida e composta somente por itens mais relacionados aos construtos avaliados, essa opção pareceu ser justificada. Não houve a ocorrência de itens com cargas fatoriais acima da linha de corte em mais de um fator.

Nas tabelas 1 a 3, a seguir, são apresentados os fatores extraídos, alguns exemplos de itens, seus conteúdos e carga fatorial. Os fatores apresentaram, respectivamente, eigenvalues de 16,56; 5,28 e 3,59 que explicaram 15,06%; 4,80% e 3,27% da variância total.

 

 

 

 

 

 

Este fator agrupa itens que descrevem o quão atenciosas, compreensivas e empáticas as pessoas procuram ser com as demais. Além disso, indica o quão agradáveis as pessoas buscam ser com os outros, observando suas opiniões, sendo educadas com elas e se importando com as suas necessidades. O'Connor e Dyce (1993) e Widiger, Trull, Clarkin, Sanderson e Costa (1993) indicaram que indivíduos com Transtorno de Personalidade Antisocial e Narcisista geralmente não se identificam com esses itens. Porém, pessoas com Transtorno de Personalidade Dependente apresentam essas características de forma marcante.

Este fator agrupa itens que descrevem comportamentos de risco, concordância ou confronto com leis e regras sociais, moralidade, auto e hetero-agressividade, padrões de consumo de bebidas alcoólicas, etc. O'Connor e Dyce (1993) e Widiger et al. (1993) sugerem que indivíduos com Transtorno de Personalidade Anti-social e Narcisista apresentam elevada identificação com essas características. McCormick e Smith (1995) indicaram que adictos a variadas substâncias (lícitas ou não) apresentam um nível muito alto de ocorrência dos comportamentos descritos nesta escala. Loukas, Krull, Chassin e Carle (2000) apontaram para a relação entre altas freqüências desses comportamentos em adictos ao álcool. É importante notar que a escala de Pró-sociabilidade foi invertida de tal forma que altos escores no fator apontem para um nível mais alto de socialização.

Esta escala agrupa itens que descrevem o quanto as pessoas confiam nas outras e acreditam que elas não as prejudicarão. Casos com escores muito baixos nessa escala frequentemente relatam constante percepção de que as pessoas podem estar tentando prejudicá-las em variados contextos, tendem a ser muito ciumentas em relação aos seus casos amorosos e têm uma acentuada dificuldade desenvolver intimidade com outros.

O'Connor e Dyce (1993) e Widiger et al. (1993) verificaram que casos com Transtorno de Personalidade Paranóide, Esquizotípico e Borderline apresentam um nível muito baixo de identificação com esses conteúdos. Em contrapartida, pessoas com Transtorno de Personalidade Histriônica e Dependente tendem a apresentar níveis muito elevados de confiança nas demais pessoas.

O próximo passo para a análise das características psicométricas da Escala Fatorial de socialização foi a verificação da consistência interna das suas subescalas. A Tabela 4 apresenta o Alpha de Cronbach de Amabilidade, Prósociabilidade e Confiança bem como da EFS completa. É possível observar que a consistência interna das subescalas, apesar de serem bem abreviadas em relação ao número de itens, apresenta valores considerados adequados na literatura psicométrica (Pasquali, 1999, 2001).

 

 

Para verificar possíveis diferenças de gênero e origem geográfica dos participantes, foi realizada uma análise General Linear Model (GLM) para medidas repetidas. Para tanto, um fator geral de socialização foi gerado pela definição de três níveis (S1, S2 e S3) e os fatores entre-sujeitos foram sexo e Estado onde foi realizada a testagem. Essa análise indicou que independentemente as variáveis sexo e Estado do respondente geram perfis diferenciados para socialização. No entanto, quando essas variáveis são combinadas, não há diferença estatisticamente significativa. A diferença encontrada entre os Estados onde foram realizadas as testagens é muito pequena e a significância estatística decorre do tamanho da amostra não tendo implicações clínicas, o que fica claro ao se calcular o tamanho do efeito para a escala geral (d=0,06). A Tabela 5 apresenta as médias e medianas por sexo para cada faceta da EFS.

 

 

As correlações entre idade do respondente e os escores observados nas escalas da EFS foram calculados. Apesar de serem significativas as correlações entre a Idade com S1, S3 e escala total, o valor dessas associações é muito baixo (r=0,10 a r=0,12) e não parece justificar a elaboração de tabelas normativas para diferentes faixas etárias.

 

Discussão

As análises realizadas no presente estudo indicaram que a escala construída apresenta boas qualidades psicométricas, com sub-dimensões freqüentemente listadas na literatura (Widiger & Trull, 1992), que apresentam uma alta consistência interna e associam-se entre si de acordo com os resultados obtidos na área. É necessário fazer uma ressalva, contudo, para relembrar que os dados foram colhidos a partir de uma amostra de conveniência, que talvez não represente adequadamente a população brasileira. O estudo deve ser ampliado com amostras em todas as regiões do País e em diversas classes sociais e culturais para gerar tabelas nacionais.

Além disso, são necessários estudos para identificar os contextos nos quais a EFS pode ser utilizada adequadamente. Um estudo para verificar se a associação entre adicção e personalidade poderia ser corroborada com o uso da EFS (Nunes, 2005; Nunes, Nunes, Cunha, Falcón, & Saab, 2005) foi realizado com um grupo de 37 pessoas em tratamento para adicção a álcool e outras drogas e indicou que, em média, a amostra apresentava um nível de socialização mais baixo do que a amostra utilizada para a validação de construto da EFS. Esse resultado foi estatisticamente significativo para todas as dimensões da escala bem como para a escala geral (t=5,92, gl=1.130, p<0,001).

Por fim, é importante enfatizar que já existem escalas validadas e normatizadas para a avaliação dos fatores neuroticismo, extroversão e socialização para a utilização no Brasil (Hutz & Nunes, 2001; Nunes, 2005). Essas escalas indicaram bons resultados em pesquisas para a avaliação da sua validade de critério (Nunes, 2005; Nunes, Alves, Tomazoni & Hutz, 2001) e estudos têm sido realizados a partir da sua aplicação simultânea a variados grupos para testar a relação entre os construtos. Vale acrescentar que estão sendo iniciadas pesquisas para a construção, validação e normatização das escalas de abertura e realização. Após a sua conclusão, será possível a construção de uma bateria completa para a avaliação da personalidade no contexto dos Cinco Grandes Fatores no Brasil.

 

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Recebido: 29/09/2005
1ª revisão: 15/12/2005
Aceite final: 30/05/2006

 

 

* Endereço para correspondência: Carlos Henrique Sancineto da Silva Nunes/ Claudio Simon Hutz , Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ramiro Barcelos, 2600, Porto Alegre, RS, 90035-003. E-mail: carlos.sancineto@terra.com.br; hutzc@terra.com.br