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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.21 no.1 Porto Alegre  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722008000100009 

Interações mãe-bebê de um e cinco meses: aspectos afetivos, complexidade e sistemas parentais predominantes

 

Mother-infant (one and five months) interactions: affective aspects, complexity and predominant parental systems

 

 

Maria Lucia Seidl-de-MouraI, *; Adriana Ferreira Paes RibasII; Karla da Costa SeabraI; Luciana Fontes PessôaI; Susana Engelhard NogueiraI; Deise Maria Leal Fernandes MendesI; Simone Biangolino RochaI; Carla Cristine VicenteI

IUniversidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
IIUniversidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, Brasil

 

 


RESUMO

Interações iniciais parecem ser adaptativas, e conhecê-las é fundamental para compreender a ontogênese humana. Este estudo compara dados de observações de díades mãe-bebê, analisando os comportamentos dos parceiros, a complexidade das trocas e seu componente afetivo. Participaram 56 díades (28 com bebês de um mês e 28 com bebês de cinco meses), filmadas em suas casas em situações livres. Foram identificados e analisados episódios de interação. Os resultados indicaram efeito do fator tipo de díade (de bebês de um ou de cinco meses) em quatro variáveis dependentes que indicam complexidade das interações. Diferenças foram observadas nos dois grupos quanto à manifestação de afetividade recíproca dos parceiros. As interações mostram-se predominantemente de tipo face-a face quando os bebês têm um mês e de estimulação por objeto aos cinco meses, indicando assim uma tendência observada em grupos urbanos ocidentais. As manifestações afetivas e a presença de interações que envolvem o sistema de contato corporal levam a que se hipotetize um padrão de autonomia relacional. Os resultados confirmam a literatura quanto à possibilidade de trocas em etapas iniciais do desenvolvimento, e o estudo contribui para o conhecimento de suas características. É destacada a afetividade, e enfatizado seu papel constitutivo nas interações, de fundamental importância no desenvolvimento infantil.

Palavras-chave: Interação mãe-bebê; sistemas parentais; complexidade; aspectos afetivos.


ABSTRACT

Early interactions seem to be adaptive, it is fundamental to know them in order to understand human ontogenesis. This study compares data of observations of mother-baby dyads, analyzing the behavior of the partners, the complexity of the interchanges and their affective components. The participants were 56 dyads (28 with one-month old babies and 28 with five-month old babies), filmed in their homes in free situations. Interaction episodes were identified and analyzed. The results showed the effect of the factor type of dyad (one or five months-old babies) in four dependent variables that indicate complexity of the interactions. Differences in the manifestation of reciprocal affectivity of the partners were observed in the two groups. The interactions were predominantly face-to-face when the babies are one-month old, and the system of object stimulation is predominant when the babies are five-months old. This indicates a tendency observed in Western urban groups. The affective manifestations and the presence of interactions which are characterized by the system of body contact favor the formulation of a hypothesis of the presence of an autonomous relational pattern. The results confirm the literature about the possibility of interchanges in initial stages of the development, and the study contributes for the knowledge of its characteristics. The affective aspect is stressed, and its constitutive role in interactions is emphasized, assuming its importance in child development.

Keywords: Mother-infant interaction; parental systems; complexity; affective aspects.


 

 

Desde o nascimento os bebês da espécie humana apresentam um repertório de capacidades de sensibilidade e predisposição em relação a pessoas, que os tornam socialmente responsivos. Essas capacidades permitem respostas seletivas aos eventos sociais (vide Seidl-de-Moura & Ribas, 2004 para uma revisão), e a participação ativa em interações com outras pessoas. Nesse repertório inicial os comportamentos de sorriso, choro ou expressões faciais são eficazes em deflagrar cuidados e contato corporal, e constituem pistas potentes que são interpretadas pelos cuidadores, regulando as trocas sociais iniciais, nas quais a díade parece engajar-se reciprocamente (Trevarthen, 1998).

Os cuidadores, sobretudo a mãe, constituem importantes fontes de estimulação afetiva. Teorias contemporâneas sobre desenvolvimento do self, afeto e cognição vêm ressaltando a relevância das interações interpessoais e enfatizando seu aspecto afetivo e emocional (Walker-Andrews, 1997). Os processos e capacidades envolvidos na percepção e na produção de expressões emocionais têm sido considerados fundamentais para a qualidade das interações iniciais que, por sua vez, revelam-se um contexto propício ao desenvolvimento emocional (Rochat, 2001; Tronick, 1989).

Desde muito cedo o bebê humano revela aptidões para o reconhecimento e a produção de expressões emocionais. Aos dois meses, pode discriminar mudanças nas características faciais que denotam expressão emocional (Nelson & Horowitz, 1983) e apresenta respostas afetivas diferenciadas para expressões faciais de alegria e tristeza, além de exercer certa regulação de suas emoções (D'Entremont & Muir, 1997). Também aprecia o significado emocional da aparência afetiva de seus cuidadores (Weinberg & Tronick, 1994). Desse modo, entende-se que as potencialidades reveladas pelo bebê e a sensibilidade do cuidador permitem a ambos regular mutuamente suas interações.

A literatura tem apontado que a natureza de interações precoces mãe-bebê e especialmente as trocas iniciais face-a-face envolvem características de sincronia, co-regulação e contingência de comportamentos exibidos pelos parceiros, caracterizando episódios de "comunicação afetiva" (Stern, 1992). As trocas que ocorrem na metade do primeiro ano de vida do bebê são de natureza diádica e parecem envolver brincadeiras rítmicas corporais, toques, vocalizações e expressões faciais.

Segundo Rochat (2001), os olhos e a face humanos constituem recursos primários dos quais os bebês se utilizam desde cedo para monitorar o outro, servindo também como pistas para comunicação de estados afetivos em contexto de interações face-a-face. Nas trocas face-a-face os bebês, nos primeiros seis meses de vida, coordenam expressões faciais de emoção (positiva e negativa) com vocalizações e com olhares para a face da mãe (Yale, Messinger, Cobo-Lewis & Delgado, 2003).

O bebê sofre mudanças expressivas nos primeiros meses, e transformações críticas são relatadas. A primeira delas é em torno dos dois/três meses de vida. Para Keller (2007), essa é a primeira transição, em que se observa o surgimento do sorriso social e mudanças na qualidade das interações dele com os adultos. Para Rochat e Striano (1999), há a emergência de um novo senso de self, como agente no ambiente. A perspectiva em relação às pessoas torna-se contemplativa.

Gradualmente, a partir do segundo semestre de vida dos bebês, na medida em que desenvolvem novas capacidades sensoriais, perceptivas e motoras, as trocas com seus parceiros passam a incorporar outros objetos, passando de diádicas a triádicas. Nessas interações estão presentes os comportamentos de atenção conjunta, que permitem aos bebês coordenar, monitorar ou dirigir seu foco de atenção e ação para um mesmo objeto ou evento que seu parceiro. Para Tomasello (2003), essa conquista representa uma "revolução" no modo como os bebês compreendem seu mundo social: o bebê começa a entender os outros como seres intencionais. Nesse contexto diádico e triádico, os bebês, segundo Rochat e Striano (1999), conseguem comunicar e relacionar seus próprios estados internos com os de seus parceiros. Esse engajamento é tanto social quanto afetivo.

Diversos estudos têm sido realizados sobre as características das interações iniciais mãe-bebê, incluindo investigações longitudinais e transculturais (Ex. Bornstein, Maital, Tal & Baras, 1995). Kaye e Fogel (1980) relatam mudanças importantes na estrutura e temporalidade das comunicações face-a-face entre mães e bebês acompanhados longitudinalmente com seis, 13 e 26 semanas. A proporção total de tempo que o bebê olha para a mãe diminui com a idade (de 70,1% às seis semanas para 32,8% às 26 semanas), mas o período de atenção dirigida a ela aumenta significativamente quando ela exibe expressões faciais exageradas ou sorrisos. Ribas e Seidl-de-Moura (1999) também realizaram uma investigação longitudinal e observaram um aumento no número de interações e uma modificação em sua natureza em quatro momentos do desenvolvimento do bebê: duas (exclusivamente diádicas), 10 (início de interações triádicas), 15 e 21 semanas.

O sorriso do bebê é um comportamento importante nessas trocas, e Van Beek, Hopkins e Joekoma (1994) relatam um aumento de freqüência de sorrisos, entre seis e 18 semanas de vida. Stack e Muir (1992) constataram que o toque da mãe é um eliciador de afeto positivo no bebê (avaliado pela expressão de sorrisos).

Lavelli e Fogel (2005) relataram mudanças nas interações face-a-face das díades mãe-bebê ao longo dos três primeiros meses de vida. As expressões faciais dos bebês inicialmente eram de atenção simples para a face da mãe, sem outras expressões emocionais, transformando-se em interações com sorrisos e expressões faciais, durante o segundo e o terceiro mês.

Os estudos focalizam principalmente interações face-a-face porque são feitos em geral com mães de grupos urbanos e ocidentais. Há evidências, no entanto, de variações nos padrões de interação inicial, já que em algumas culturas, por exemplo, os bebês são carregados por suas mães junto ao corpo e as interações face-a-face não são predominantes (LeVine, 1989). A variabilidade observada nas formas de contato e cuidados da criança por seus pais em diferentes contextos pode ser compreendida, segundo Keller (2007), pelas diferenças de orientações encontradas em cada cultura, de acordo com duas dimensões: da distância interpessoal (separação versus relação) e do alcance da ação (autonomia versus heteronomia).

Keller (2007) identificou três modelos diferenciados de contato/cuidado de pais frente a seus filhos. O primeiro privilegia a independência, compreendendo autonomia e separação, caracterizando um tipo de relacionamento distal, o qual enfatiza trocas face-a-face e estimulação por objetos, sendo considerado um padrão de interação característico de famílias de classe média, urbanas e educadas do Ocidente. O segundo modelo, interdependente, privilegia a heteronomia e a relação, caracterizando um tipo de relacionamento proximal. Este enfatiza contato e estimulação corporal, sendo considerado característico de famílias rurais com baixos níveis socioeconômicos e educacionais. No terceiro modelo, autônomo-relacional, são priorizadas tanto a autonomia quanto a relação. Este modelo seria uma forma intermediária entre o primeiro e o segundo, sendo considerado característico de famílias de classe média urbanas e educadas, em sociedades tradicionalmente interdependentes.

Keller (2007) salienta ainda que esses modelos de parentalidade comportam cinco sistemas de estilos de cuidados e interação: (a) cuidados básicos, (b) contato corporal, (c) estimulação corporal, (d) estimulação por objetos e (e) contato face-a-face. Considerando as conseqüências dessas formas de relacionamentos para o desenvolvimento infantil, essa autora indica que, nas culturas em que a independência é privilegiada, as crianças em idades bastante precoces desenvolvem o auto-reconhecimento (self independente). Já nas culturas em que a interdependência é privilegiada, o desenvolvimento da auto-regulação (self interdependente) é também alcançado em idades bastante precoces, diferindo do grupo acima referido. O modelo intermediário, que contempla tanto autonomia quanto relação, desenvolve o auto-reconhecimento e a auto-regulação em etapas precoces do desenvolvimento, porém tanto um quanto outro em níveis mais baixos do que os grupos acima referidos.

Assim, pensa-se que os bebês nascem biologicamente preparados para participar e ser agentes de uma matriz social a partir de um conjunto de competências precoces que lhes permitem estar sensíveis e interagir com seus cuidadores. As limitações e possibilidades que esse conjunto de competências enseja interagem com predisposições comportamentais dos pais para cuidar e interagir com seus bebês e com as práticas de cuidado que delas derivam, organizadas em diferentes estilos segundo influências culturais.

Estudos brasileiros sobre interações adulto-criança no primeiro ano de vida ainda são pouco freqüentes. Seidl-de-Moura et al. (2004) analisaram interações de 30 díades mãe-bebê, quando estes tinham em média 30 dias, observadas em suas casas, em situação não estruturada. Nesse grupo, predominaram interações face-a-face, como na idade de duas semanas em Ribas e Seidl-de-Moura (1999). Os episódios de interação foram de curta duração e ocorreram em contextos específicos, sobretudo de amamentação. Foi possível ilustrar o início do processo de inclusão de objetos como mediadores. Investigaram-se, ainda, relações entre as concepções de mães, através do Questionário de Avaliação das Competências de Bebês Recém-nascidos, e suas atividades e interações com os bebês. Os dados obtidos indicaram que os bebês são vistos pelas mães como ativos e participantes das trocas sociais. Mais importante do que esse resultado, no entanto, são as correlações significativas obtidas entre o escore total nesse instrumento, o índice geral de atividade da mãe e as variáveis falar, sorrir e atribuir significado. Isso revela uma relação entre algumas das representações das mães e suas ações direcionadas a seus bebês. Não foram realizadas análises específicas sobre isso, mas os resultados indicam um tipo de cuidado que, segundo Keller (2007), seria característico da orientação para a autonomia e desenvolvimento de um self independente.

Acredita-se que tanto os bebês como as mães participam ativamente nas trocas interativas, e que além das tendências de cuidados das mães em contextos culturais diversos, as características individuais dos bebês e de seu momento de desenvolvimento devem ser levadas em conta nas discussões sobre o processo interacional. Os bebês com um mês de vida apresentam ainda um repertório limitado de ações. Em geral, ainda não manifestam sorriso social e outras características do primeiro conjunto de transformações significativas que vão ocorrer um mês mais tarde. Em contraste, aos cinco meses encontram-se no meio do caminho das transformações revolucionárias dos nove meses. Nesse momento mostram-se sensíveis a comportamentos contingentes, como demonstrou Bigelow (1998).

Espera-se, assim, que as interações em culturas específicas tenham certas tendências e também que se transformem ao longo do desenvolvimento do bebê, em princípio no sentido de uma maior complexidade. Tal complexidade pode manifestar-se de diversas formas: na duração das instâncias de interação, no número de "turnos" dessas trocas e na diversidade dos comportamentos apresentados pelos parceiros, inclusive nas manifestações afetivas. Pensa-se que esses não são componentes isolados. O trabalho de DeBoer e Boxer (1979) dá pistas nesse sentido. Os resultados discutidos por eles mostraram que as mães, ao tentarem fazer seus bebês de quatro a oito meses sorrirem, modificavam seu comportamento em função de expressões de afeto e atenção dos bebês. Considera-se particularmente relevante a análise de características qualitativas/afetivas das interações, pois apesar da discussão de autores como Keller, Lohaus, Volker, Cappenberg e Chasiotis (1999) apontar aspectos de calor emocional como um dos componentes da responsividade materna, poucos estudos têm enfrentado o exame dos aspectos afetivos e qualitativos das interações iniciais.

A dimensão emocional e afetiva da relação mãe-bebê possibilita a expressividade do microcontexto em que a criança está se desenvolvendo. Inicialmente, é basicamente nas relações com as figuras de apego que a criança aprende sobre emoção. A disponibilidade emocional da mãe pode ter implicações para o desenvolvimento (Otta, 1994), promovendo compreensão emocional e social em seu bebê.

Como não foram encontrados estudos na literatura que contemplem a natureza das interações mãe-bebê em seus aspectos afetivos, culturais e de complexidade nesses dois períodos de desenvolvimento, este trabalho focaliza esses aspectos. Tem como objetivos comparar dados de observações de díades mãe-bebê (em dois momentos de desenvolvimento), em um contexto urbano brasileiro, analisando os comportamentos dos parceiros, a complexidade das trocas e seu componente afetivo e o tipo de sistemas parental predominante nas trocas.

 

Método

Aspectos Éticos

Os vídeos dos dados analisados fazem parte do acervo do grupo de pesquisa Interação Social e o Desenvolvimento Infantil da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Foram coletados em pesquisa aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (COEP). As mães foram informadas sobre os objetivos gerais do estudo e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido e a autorização para uso de imagens de vídeo.

Participantes

Participaram da pesquisa 56 díades mãe-bebê, divididas em dois grupos. O grupo 1 foi constituído por 28 díades em que os bebês tinham entre 22 e 37 dias (média de 29 dias) na ocasião da visita e registro em vídeo. O grupo 2 foi constituído por 28 díades nas quais os bebês tinham entre quatro meses e 25 dias e cinco meses e 12 dias (média de cinco meses e quatro dias). As famílias foram contatadas no grupo 1 a partir de indicações de pediatras e dos pesquisadores. No grupo 2, as famílias foram recrutadas em diversas fontes: as unidades de Pediatria e Obstetrícia de dois hospitais universitários (da UFRJ e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro [UERJ]); o Hospital da Força Aérea; o Instituto Pediátrico da UFRJ; e pediatras locais. Em ambos os grupos, foram selecionadas famílias que concordassem em participar e que preenchessem os requisitos dos protocolos da pesquisa: as mães serem primíparas, viverem com o pai do bebê e terem mais de 18 anos; e os bebês terem nascido a termo e não apresentarem problemas identificados de saúde e de desenvolvimento.

No grupo 1, 16 das mães tinham até 30 anos (57,14%) e 12 mais de 30 anos (42,86%). No segundo grupo, 15 tinham até 30 anos (53,57%) e 13 tinham mais de 30 anos de idade (46,43%). Predominam, em ambos os grupos, níveis de escolaridade médio e superior completo (22 mães nos dois grupos). As famílias residiam em bairros distribuídos por diversas regiões das cidades de Rio de Janeiro, Nova Iguaçu e São Gonçalo.

Procedimentos

As díades mãe-bebê foram visitadas em suas residências, em uma situação em que apenas a mãe e o bebê estavam presentes. Solicitou-se à mãe manter sua rotina diária e ignorar a presença do observador, na medida do possível. Para o grupo 1, após 10 minutos de familiarização, registrou-se em vídeo a díade durante 20 minutos. Para o grupo 2, o registro em vídeo teve a duração de 60 minutos.

Codificação dos Dados

Em ambos os grupos foram considerados 15 minutos para análise. No grupo 1, dos 20 minutos de vídeo, foram desconsiderados cinco minutos (iniciais ou finais), sendo analisados os 15 minutos restantes. No grupo 2, os 60 minutos foram divididos em quatro períodos de 15 minutos, sendo selecionado aleatoriamente o período a ser analisado.

Todos os vídeos foram decupados, descrevendo-se a sessão, e, para cada nível de análise, foram vistos independentemente por uma dupla de membros da equipe, especialmente capacitados para esse trabalho, que já haviam atingido níveis adequados de concordância (acima de 90%). As codificações independentes foram cotejadas, as discordâncias levadas para reunião de equipe e resolvidas por consenso, sempre na direção mais conservadora, ou seja, em caso de dúvida, em instâncias de interação, por exemplo, elas não foram marcadas. Tendo em vista esses procedimentos, análises de concordância não foram realizadas.

As filmagens foram analisadas com os seguintes objetivos: identificação das instâncias de interação, determinação da freqüência e da duração dessas instâncias para cada díade e a média para o grupo; análise do número de turnos e do número de comportamentos diferentes da mãe e do bebê em cada interação; identificação e registro dos comportamentos indicadores de afetividade em cada interação: para a mãe – sorrir, beijar e toque afetivo; para o bebê – sorrir. Para analisar a complexidade das interações, foram considerados: o número de turnos e o de comportamentos diferentes da mãe e do bebê (ex.: a mãe sorrir, falar e beijar em um episódio de interação). Cada comportamento socialmente dirigido ao outro (mãe ou bebê), ou conjunto de comportamentos simultâneos, foi considerado um turno. Por exemplo, "a mãe olha e fala com o bebê (T1), o bebê vocaliza (T2)". Finalmente, o principal sistema de cuidado parental presente em cada interação foi identificado.

O início de uma interação foi caracterizado por um dos parceiros dirigir um comportamento social em relação ao outro e ser respondido por ele com um comportamento social, num intervalo de cinco segundos. O fim do episódio de interação foi caracterizado por um dos parceiros, ou ambos, deixar de dirigir comportamentos sociais (atividades) em relação ao outro por um intervalo maior que cinco segundos. Não foram consideradas interações cujo tempo de duração fosse igual ou inferior a cinco segundos.

Diante de uma situação de ação contínua de um dos membros da díade, em que houvesse uma resposta do outro membro, considerou-se o início da interação um segundo antes dessa resposta, para efeito de consideração de interação. Essa decisão foi tomada a fim de evitar distorções com a identificação de "interações" falsamente mais longas. As seqüências poderiam ser iniciadas pela mãe ou pelo bebê, ao emitir um comportamento que deflagrasse uma resposta na mãe.

Os comportamentos da mãe considerados foram: gestos (G), vocalizações (V), fala (F), atribuição de significado (AS), sorrir (S), toque afetivo no bebê (TBa), toque de cuidado no bebê (tbc), olhar o bebê (OB), mostrar objeto (MO), cantar (CA), beijar (B) e pegar no colo (PC). Para o presente estudo, os seguintes comportamentos afetivos foram destacados: sorrir (S), toque afetivo (TBa) e beijar (B).

Os comportamentos do bebê estudados foram: olhar o ambiente (OA), olhar a mãe (OM), movimentar membros (MM), tocar a mãe (TM), mamar (M), pegar objeto (PO), vocalizar (V) e sorrir (S). Neste estudo, o sorriso – sorrir (S) – foi a categoria utilizada para identificar o comportamento afetivo dos bebês.

As categorias dos sistemas parentais avaliados foram:

1. Sistema de cuidados (SC) – ocorre toda vez que a mãe realiza tarefas a fim de regular as necessidades do bebê, quando dá banho, troca fraldas, alimenta-o etc.

2. Posição face-a-face (PFF) – quando a mãe posiciona o bebê de forma a facilitar as trocas face-a-face por um período não inferior a cinco segundos. Suas faces estão próximas e eles mantêm o contato pelo olhar.

3.Estimulação por objetos (EO) – identificada quando a mãe tenta atrair a atenção do bebê utilizando-se de um objeto e a interação é mediada por ele.

4. Contato corporal (CC) – inclui posições nas quais o contato corporal é predominante, como quando se segura o bebê no colo, estando a mãe em pé ou sentada, ou quando se encontram muito próximos.

5.Estimulação corporal (EC) – refere-se a qualquer estimulação motora, sinestésica, tátil e/ou do equilíbrio do bebê. Trata-se de uma categoria geral, sem especificação de partes do corpo do bebê.

Análise dos Dados

Os dados foram analisados descritivamente para comparar os dois grupos em vários aspectos e através de técnicas inferenciais específicas. Para testar efeito de variáveis na complexidade das interações, foi empregado um General Linear Model (GLM) multivariado, usando como fatores fixos o tipo de díade segundo a idade do bebê (mãe-bebê de um mês e mãe-bebê de cinco meses), e a faixa de idade da mãe (até 30 anos e mais de 30 anos). Como variáveis dependentes foram consideradas: número de turnos, duração das interações, número de comportamentos diferentes das mães nas interações e número de comportamentos diferentes do bebê nas interações. As variáveis número de turnos, e número de interações da mãe e do bebê foram transformadas, dividindo-se os valores pelo tempo de observação. Foi adotado o nível de significância Bonferroni de 0,025 para as comparações (Kutner, Nachtsheim, Neter, & Li, 2005) e 0,7 como ponto de corte para o poder do teste (Boniface, 1995). Os escores das variáveis dependentes foram correlacionados para verificar a adequação do uso de um modelo multivariado em vez de quatro testes univariados. Os resultados, apresentados na tabela 1, indicam que as quatro variáveis apresentam coeficientes de correlação significativos (p<0,01), confirmando a adequação do emprego do modelo multivariado.

 

 

Para comparar incidências de comportamentos afetivos maternos e do bebê nos dois grupos foram realizados testes de Qui-quadrado, com nível de significância de 0,05.

 

Resultados

Foram identificadas interações nos dois grupos e o total de instâncias não é muito diverso: 51 no grupo de mães com bebês no primeiro mês e 53 no de bebês de cinco meses. Em sete (20%) díades do primeiro grupo e oito (21%) do segundo, não foram identificadas interações.

As interações foram descritas conforme pode ser visto nos exemplos a seguir.

Um mês – díade 13 – interação 4: O bebê está deitado na cama e a mãe sentada ao lado do bebê, debruçada sobre ele. Diante do bebê, sobre a cama há um objeto, um palhacinho, tocando música. Em 8:00 o bebê está olhando para o objeto e sorri. A mãe, olhando para o bebê, fala: Ah, é o palhacinho, amor e também sorri. A mãe continua falando sobre o palhacinho e o bebê agita o corpo, movimentando os membros. Em 8:10 a mãe toca o bebê e fala com ele, em seguida se afasta do bebê, permanecendo sentada na cama.

Cinco meses – díade 7 – interação 4: Mãe e bebê continuam sentados no sofá da sala. O bebê está em pé sobre a mãe, sendo segurado pela mãe. Em 41:54 a câmera volta para a díade, pois havia se deslocado, mostrando o início da interação. A mãe está fazendo um barulho com a boca, olhando para o bebê, e o bebê olha para a mãe em 41:55. Ele tenta colocar a mão na boca da mãe em 41:56, segundo também em que a mãe para de fazer o barulho. O bebê consegue colocar a mão na boca da mãe no segundo seguinte. Em 41:58 a mãe fala: Bambaram. O bebê ainda está em pé no colo da mãe. Em 41:59 ele para de olhar a mãe, mas ainda mexe os braços na sua direção. Em 42:01 volta a olhar a mãe, que sorri em 42:02. Em 42:03 a mãe faz um barulho com a boca. Em 42:04 o bebê coloca a mão na boca da mãe de novo, assim como em 42:05. Em 42:06 a mãe dá um beijo na mão do bebê. Em 42:07 a mãe fala Dá mão. Dá mão pra mamãe. Dá beijo. Em 42:08 o bebê coloca novamente a mão na boca da mãe e para de olhá-la, mas ainda está com os braços em direção da mãe se movendo. Em 42:09 aperta seu nariz; a mãe grita Ai, ai, ai!. Em 42:11 o bebê volta a olhar a mãe, que volta a falar em 42:13 Ai! Dá um beijo mamãe; dá um beijo mãe. Em 42:14 o bebê vocaliza. Em 42:15 a mãe ri. Ela continua olhando para o bebê. Em 42:17 o bebê para de olhar a mãe, que beija seu braço. O bebê mexe os membros, os braços em direção da mãe, olhando o ambiente. Enquanto isso a mãe fala em 42:19 Ai, ai mãe. A mãe fala em 42:21 Faz um carinho na mãe, faz. Faz um carinho na mãe. Em 42:25 Faz um carinho na mãe. Em 42:28 o bebê volta a olhar a mãe, quer colocar a mão em seu rosto e fica se mexendo, movendo os braços. A mãe fala neste mesmo tempo: Ai! Em 42:29 Ai! Em 42:30 Ai! Em 42:31 a mãe dá um beijo e sorri e o bebê vocaliza e em 42:32 sorri. Em 42:34 a mãe volta a falar Deixa mãe dá um beijo. Em 42:34 o bebê para de olhar a mãe e põe a mão na boca dele, olha para uma almofada e para o ambiente apesar de a mãe ainda falar e balançar o bebê. Em 42:35 ela fala Guidom, guidom, guidom. Em 42:37 o bebê vocaliza. Neste tempo ele passa a olhar fixamente para as folhas no sofá. Em 42:38 a mãe fala O que que é isso aqui?. Em 42:39 ela fala Quer pegar? Em 42:42 a câmera não mostra mais a díade, terminando a interação.

Quanto à complexidade das interações, o modelo multivariado na análise realizada indicou um efeito significativo (F4, 49= 4,35, p=0,04, poder observado=0,90, Lambda de Wilks=0,738) do fator tipo de díade (de bebês de um mês ou de bebês de cinco meses) sobre as variáveis dependentes, que são consideradas indicadoras da complexidade das interações (duração, número de turnos transformada, número de comportamentos diferentes do bebê transformada e número de comportamentos diferentes da mãe transformada). Isso indica que as interações dos dois grupos (díades com bebês no primeiro mês de vida e aos cinco meses) apresentaram características diferentes. O fator faixa de idade da mãe não apresentou efeito significativo sobre as variáveis dependentes (F4, 49= 0,914, p=0,464). Os resultados em cada uma das variáveis dependentes consideradas na análise geral serão comentados a seguir.

As interações foram em geral mais longas quando os bebês tinham cinco meses. Considerando-se a média de duração das interações por díade e depois a média geral, o resultado é 20,86 segundos. Em comparação, as interações de bebês com um mês de idade tiveram em geral uma duração média de 18,16 segundos.

A média de turnos no grupo em que o bebê tinha um mês de idade foi em torno de dois (2,13). Isso significa a mãe fazer algo, como falar com o bebê (F), um turno, o bebê responder olhando para a mãe (OM), segundo turno. Muitas interações nesse grupo de díades foram de dois turnos, em geral face-a-face e envolvendo os comportamentos de troca de olhares entre a mãe e o bebê.

Na categoria "comportamentos maternos" foram observados no grupo em que o bebê tinha um mês de idade: OB, TB, F, S, V, AS, PC e CA. O número médio de comportamentos maternos com os bebês nesse período, por interação, foi de 2,26. As mães podiam emitir comportamentos simultâneos em um mesmo turno, como olhar o bebê e sorrir, ou olhar e falar. Dos comportamentos observados na mãe, o "olhar para o bebê" foi o mais freqüente. Já os bebês, com seu repertório ainda limitado em termos de ação, tiveram uma média de um comportamento por interação (1,04). Os comportamentos por eles apresentados foram: OM, V, TM, S e CH, tendo sido o primeiro desses o mais freqüente.

Em contraste, nas interações das díades em que o bebê já estava com cinco meses, os parceiros emitiam mais comportamentos diferentes (a mãe, em média, 3,00 e o bebê, 2,06) e as trocas prolongavam-se por mais turnos (média=4,3). Os seguintes comportamentos da mãe foram observados nesse grupo: OB, TB, F, S, V, AS, PC, CA, B, G e MO. O exibido com maior freqüência foi "olhar o bebê". Em relação aos bebês, os comportamentos apresentados foram: OM, TM, V, S, OO, PO e TO. Nesse grupo, o comportamento de "olhar para a mãe" foi também predominante, mas o repertório aumenta e os objetos parecem começar a fazer parte das trocas.

Em relação ao componente afetivo, observou-se que, com o aumento da complexidade das trocas, sua manifestação também aumentava e, principalmente, elas se tornavam mais recíprocas. Os bebês com um mês, como esperado, sorriram muito pouco. Foram identificadas duas instâncias de sorriso nas interações (em contraste com 28 nos bebês de cinco meses). As mães dos dois grupos sorriram para seus bebês (um mês, em 27,45% das interações; cinco meses, em 35,84% das interações) e apresentaram comportamentos afetivos nas interações. No grupo de bebês com um mês, em 47,06% das interações houve algum comportamento afetivo por parte da mãe e em 3,92% por parte do bebê. Em 49,02% das interações pelo menos um comportamento afetivo na díade estava presente, e em 28% dos comportamentos dessa natureza estavam presentes na mesma interação.

No grupo de cinco meses, 66,04% das interações apresentaram algum comportamento afetivo por parte da mãe e 52,83% por parte do bebê. Em 73,58% do total de interações pelo menos um comportamento afetivo estava presente, e em 48,72% dos casos dois ou mais comportamentos desse tipo foram observados na mesma interação. O total de interações com comportamentos afetivos tanto maternos como do bebê foi de 3,92% (30 dias) e 45,28% (cinco meses). Foram realizados testes de Qui-quadrado para verificar essas diferenças. Em relação à comparação das incidências de comportamentos afetivos maternos nas duas idades, o resultado indicou uma tendência, mas não foi significativo (x1=3,77; p>0,05). No entanto, para as situações em que estão presentes tanto comportamentos da mãe como do bebê e aquelas em que isso não ocorre, observou-se um resultado significativo (x1=30,27; p<0,05).

Predominaram nas díades em que os bebês tinham um mês as interações face-a-face (40%). Aos cinco meses a situação se modifica e as interações em que há a estimulação por objetos (eo) são as mais freqüentes (35%). Essa modificação, no entanto, ainda se mostra dentro de um padrão de interações característico de contextos urbanos ocidentais e de tendências de socialização orientadas para um self independente. O que chama a atenção, no entanto, é que, quando o bebê tem um mês, as interações face-a-face dão-se, principalmente, em situações de amamentação, em que a mãe posiciona o bebê em seu colo, junto do corpo, e ainda o acaricia. Aos cinco meses, são também observadas interações identificadas pelo contato corporal (28%) que são marcadas por manifestações de afetividade. Estas são, principalmente, sorrisos de ambos os parceiros aos cinco meses, mas também o toque afetivo da mãe e o beijo. Talvez, por essa característica, possam indicar uma orientação para a constituição de um self autônomo-relacional.

 

Discussão e Conclusões

Os resultados indicam que são observadas interações nos dois grupos. São corroborados resultados acerca da presença de interações mãe-bebê em fases iniciais do desenvolvimento encontrados em Ribas e Seid-de-Moura (1999). As interações de díades em que os bebês têm cinco meses, como esperado, mostraram-se mais complexas do que as que envolvem bebês de um mês e suas mães. Os parceiros estabelecem "protoconversas" de mais turnos e com maior variedade de comportamentos aos cinco meses. O foco da díade é também diferente. No grupo de díades em que o bebê tinha um mês, as interações centram-se na própria díade. Aos cinco meses, a mediação pelo objeto já se faz presente.

Não foram encontradas análises de complexidade de interações na literatura, mas há indicações de mudanças na estrutura das trocas quando o bebê tem seis e 26 semanas (Kaye & Fogel, 1980). Os resultados observados neste grupo confirmam essa mudança. As correlações significativas observadas entre as quatro variáveis podem indicar que as transformações podem ocorrer em múltiplas dimensões. Tendo em vista a ausência de efeito do fator idade da mãe, as diferenças observadas não podem ser explicadas apenas por características da mãe. O processo é diádico, e isso fica claro se considerarmos os dados referentes aos comportamentos afetivos.

Em relação ao componente afetivo, observou-se que sua manifestação é maior quando as trocas são mais complexas, aos cinco meses, e que há maior reciprocidade nessas manifestações. Parece, assim, estar presente a sensibilidade dos bebês à contingência social discutida por Bigelow (1998). Com o aumento do repertório comportamental do bebê, as mães mostraram-se igualmente sensíveis a suas manifestações (DeBoer & Boxer, 1979), e também iniciam trocas com comportamentos como o toque afetivo. Como foi visto, em quase a metade das interações das díades em que o bebê tem cinco meses foram observadas manifestações afetivas da mãe e do bebê. Esse indicador pode estar subestimando a reciprocidade afetiva pela escolha de categorias mais diretamente observáveis. Não foi incluída a entonação da fala materna, por exemplo. Caso fosse, esse índice poderia ser mais alto.

As interações observadas nos dois grupos inserem-se em padrão cultural característico de grupos urbanos ocidentais. No grupo de bebês de um mês são predominantemente face a face. No grupo de cinco meses as trocas que incluem os objetos como mediadores são mais freqüentes. Parecem estar sendo construídos comportamentos de atenção conjunta (Tomasello, 2003), que vão aparecer alguns meses mais tarde. Há, no entanto, indicações de um modo de cuidar que pode privilegiar a socialização de um self autônomo relacional, que foi identificado em grupos latinos (Keller, 2007).

Embora o estudo não seja longitudinal, traz dados para que se hipotetize que interações iniciais transformam-se nos primeiros meses. O parceiro adulto, nesse caso a mãe, responde ao aumento do repertório comportamental dos bebês, e as trocas complexificam-se. Ao mesmo tempo, o bebê de um mês tem a oportunidade de ter contato com expressões emocionais e manifestações afetivas de sua mãe nas interações. Aprende sobre os outros e sobre si nessas trocas. Com o aparecimento do sorriso social aos dois meses, um poderoso estímulo para interações é incluído. A reciprocidade das trocas afetivas se enriquece.

Outra conclusão importante é que o contexto cultural é um fator que de certa forma organiza as interações. Os grupos estudados são de um contexto urbano e incluem mães com escolaridade principalmente média e superior e as interações apresentam características identificadas em outros grupos similares. Além disso, as manifestações afetivas presentes nas interações, inclusive o toque afetivo e o beijo, e a incidência do sistema de contato corporal podem estar ressaltando a importância de tradições culturais específicas que vêm sendo identificadas em grupo de mães latinas. Espera-se que estudos que avaliam as etnoteorias parentais de mães brasileiras e suas metas para o desenvolvimento de seus filhos possam trazer resultados que permitam a ampliação dessa discussão. Duas investigações nesse sentido estão sendo conduzidas por grupos de diversas instituições de nível superior, coordenadas pela primeira autora.

Em síntese, foi identificado um conjunto de atividades de mães e bebês como parceiros em trocas sociais e comparado em dois momentos de desenvolvimento dos bebês, variáveis que indicam complexidade dessas trocas iniciais foram avaliadas e elas foram analisadas em termos de tendências culturais. Com esses resultados e discussões, considera-se que o presente trabalho traz uma contribuição ao estudo de interações iniciais, do ponto de vista teórico, metodológico e empírico. Contribui para a compreensão de interações iniciais em um contexto específico e contempla algumas das lacunas apontadas na literatura. Seus resultados mostram-se congruentes com a literatura internacional e trazem elementos importantes para a discussão acerca da natureza e de aspectos universais e específicos dos primeiros processos interacionais. Finalmente, soma-se aos trabalhos reflexivos acerca do modelo interativo de diferentes vertentes na pesquisa sobre o desenvolvimento humano e que consideram esse processo necessariamente vinculado às interações sociais.

 

Referências

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Recebido: 16/08/2006
1ª revisão: 28/02/2007
2ª revisão: 13/06/2007
Aceite final: 27/06/2007

 

 

* Endereço para correspondência: Rua Fritz Feigl, 465, Eldorado, Freguesia, Jacarepaguá, RJ, 22750-600. Tel.: (21) 2447 1588. E-mail: mlseidl@gmail.com
Os autores agradecem aos demais membros do grupo de pesquisa Interação Social e Desenvolvimento que, participaram da coleta e da codificação dos dados que compõem o acervo do grupo: Catia dos S. Barcelos, Clarissa G. Stein Lopes, Danielle de P. Pietroluongo, Fábia M. S. Santos, Flavia G. Luz, Gabriela G. Albernaz, Guilherme de Carvalho, Ivoneide V. da Silva, Leandra S. Oliveira, Lívia de Santana, Maíra C. Caniello, Michelle S. Martins, Paloma N. Travisco da Silva, Renata E. Miranda, Sanya F. Ruela, Soraya Costa Monteiro de Oliveira, Taís M. Rollof e Tatiana T. Alves Bandeira. Os autores desejam também expressar sua gratidão às mães que aceitaram participar do estudo, ao professor José de Oliveira Siqueira, pelas discussões sobre glm, e às entidades financiadoras: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CCNPQ) e Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).