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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.21 no.2 Porto Alegre  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722008000200007 

"Mãe, quero ficar contigo...": comportamentos de dependência do primogênito no contexto de gestação de um irmão*

 

"Mum, I want to stay with you...": firstborn's dependence behaviours in the context of a sibling's gestation

 

 

Débora Silva de Oliveira**; Rita de Cássia Sobreira Lopes***

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

 

 


RESUMO

O estudo investigou os comportamentos de dependência do primogênito no contexto de gestação de um segundo filho. Participaram cinco primogênitos em idade pré-escolar e suas respectivas mães, no terceiro trimestre de gestação. Foi aplicado Teste das Fábulas nas crianças e realizadas entrevistas semi-dirigidas com as mães. Os resultados revelaram tendência de comportamento de dependência do primogênito. Observaram-se também comportamentos de independência, indicando ambivalência. Os resultados sugerem que a gestação do irmão constitui-se momento especial para a criança que tem que deixar de ser filho único e aprender a compartilhar os cuidados maternos. A investigação acerca das mudanças nas relações familiares e suas implicações para cada um dos membros são de fundamental importância para a compreensão do desenvolvimento humano. Este artigo contribui para a literatura existente que não tem contemplado especificamente em que medida o comportamento do primogênito é afetado pela existência de um irmão durante a gestação.

Palavras-chave: Comportamentos de dependência; primogênito; percepções maternas; gestação do segundo filho.


ABSTRACT

The study investigated the firstborn's dependence behaviors in the context of a second child's pregnancy. Five preschool firstborns and their respective mothers, in the third trimester of pregnancy, took part in the study. The Fables Test was used in order to assess children's perceptions, and a semi-structured interview in order to investigate mothers' perceptions. The results revealed a dependence behavior tendency in the firstborn. There were also independence behaviors suggesting ambivalence. The results indicate that a second child's pregnancy is a special moment for the firstborn who is no longer an only child and has to learn to share maternal care. The investigation concerning changes in family relationships and their implications for each family member are of fundamental importance for understanding human development. This article represents a contribution to the literature which has not studied the extent to which the firstborn's behavior is affected by the presence of a sibling already during pregnancy.

Keywords: Dependence behaviours; firstborn; maternal perceptions; second child's gestation.


 

 

O contexto de nascimento de um segundo filho constitui um momento de transição no ciclo de vida da família, por acarretar modificações em cada um dos membros e nos diferentes subsistemas familiares (Carter & McGoldrick, 2001; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Minuchin, 1985; Stewart, Mobley, Tuyl & Salvador, 1987; Volling, 2005). Embora poucos estudos tenham se dedicado ao estudo desse período de transição, pesquisas indicaram que pode ser estressante tanto para os pais como para o primogênito a chegada de uma nova criança (Dunn & Kendrick, 1980; Dunn, Kendrick & MacNamee, 1981; Field & Reite, 1984; Kendrick & Dunn, 1980). Em pesquisa realizada em bancos de dados (Bireme, LILACS, PsycInfo, Scielo, Social Sciences Full Text, entre outros) foram encontrados apenas quatro artigos recentes que abordaram o contexto de nascimento do segundo filho (Dessen & Braz, 2000; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Kramer & Ramsburg, 2002; Volling, 2005). A maioria dos estudos data da década de 1990 (Baydar, Greek & Brooks-Gunn, 1997; Cox & Paley, 1997; Gottlieb & Baillies, 1995; Gottlieb & Mendelson, 1990; Gullicks & Crase, 1993; Kramer & Gottman, 1992; Teti, Sakin, Kucera, Corns & Eiden, 1996) e da década de 1980 (Dessen & Mettel, 1984; Dunn & Kendrick, 1980; Dunn, et al., 1981; Kendrick & Dunn, 1980; Kreppner, Paulsen & Schuetze, 1982). Outros estudos recentes sobre família também foram encontrados, porém abordavam a relação entre os irmãos após o nascimento do segundo filho, não contemplando o foco da presente pesquisa (Dunn, 2005; Kramer & Bank, 2005).

Esse momento de transição e de adaptações transcende o período imediatamente após o nascimento do novo bebê (Baydar et al., 1997) e reflete-se, de diferentes maneiras, nas respostas empreendidas pelo primogênito, sofrendo ajustes de maneira distinta, antes, durante e depois do nascimento do bebê. Algumas crianças apresentam uma variedade de reações e mudanças de comportamento, já no período gestacional, mostrando-se severamente estressadas, enquanto outras vivenciam tal momento com grande tranqüilidade (Dunn et al., 1981; Gottlieb & Baillies, 1995; Volling, 2005). As reações mais freqüentes observadas ainda antes do nascimento foram: aumento nos comportamentos de confrontação e de agressão com a mãe, problemas no sono, aumento nos comportamentos de dependência, demanda e regressão, maior ambivalência, aumento no afastamento, nos comportamentos de independência e de domínio de tarefa, entre outros (Dunn et al.; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Baillies; Kendrick & Dunn, 1980; Stewart et al., 1987).

Especialmente os pré-escolares parecem vivenciar grande estresse quando da chegada de um irmão, já que esta pode ameaçar a sua relação com a mãe (Field & Reite, 1984; Kramer & Gottman, 1992; Stewart et al., 1987) e, possivelmente, abalar a confiabilidade do ambiente familiar (Dunn & Kendrick, 1980; Gottlieb & Mendelson, 1990; Kowaleski-Jones & Dunifon, 2004; Walz & Rich, 1983). A relação diádica mãe-primogênito é a mais afetada, uma vez que há uma diminuição da interação e da atenção materna e uma redução do tempo que ocupa em brincadeiras com o filho (Baydar et al., 1997; Dunn & Kendrick; Feiring & Lewis, 1978; Kowaleski-Jones & Dunifon; Stewart et al.). A mãe tende a dirigir seu interesse para a gestação e para a preparação da chegada do novo bebê, e também não está mais tão disponível fisicamente quanto antes (Brazelton & Sparrow, 2003; Gullicks & Crase, 1993; Walz & Rich).

Dos estudos sobre o assunto, destacam-se pesquisadoras pioneiras que acompanharam cerca de quarenta díades inglesas mãe-primogênito, entre 18 e 43 meses, desde o último trimestre de gestação do segundo filho até os quatorze meses após seu nascimento e examinaram o processo de adaptação do primogênito e sua interação com a mãe (Dunn & Kendrick, 1980; Dunn et al., 1981; Kendrick & Dunn, 1980). Através de observação da interação e de entrevistas com a mãe, constataram que o primogênito apresentou alterações de comportamento, como problemas no sono, aumento na dependência, no choro, no pedido de colo, regressão na aprendizagem e hábitos de higiene e de toalete, fala infantilizada, além de demonstrações de carinho e de interesse pela gestação e pelo nascimento do novo irmão. Foi constatado também que houve uma diminuição da atenção, da brincadeira e do nível de apoio emocional fornecido pela mãe aos seus filhos. Outros pesquisadores também se debruçaram sobre esta temática, ao investigarem 50 famílias longitudinalmente, antes e após o nascimento do segundo filho, com primogênitos entre dois e cinco anos. Gottlieb e Mendelson (1990) observaram que o primogênito, nessa faixa etária, tende a apresentar maior sinal de estresse quando recebe menor apoio materno já durante o período gestacional. Esses autores verificaram que o ajustamento do primogênito e o envolvimento com a preparação e com os cuidados quanto à chegada do irmão estão diretamente relacionados ao apoio parental. Nesse mesmo sentido, Baydar et al. (1997), ao examinarem os efeitos do nascimento de uma nova criança no ambiente familiar, nas relações entre mãe e primogênito e no desenvolvimento infantil no período pré-escolar, apontaram que os primogênitos mostravam-se mais estressados, em função de receberem menos atenção materna e terem suas relações fora de casa com amigos e coleginhas de escola diminuídas, por ficarem mais em casa com suas mães nas semanas finais de gestação e primeiros meses após o nascimento do irmão. Para Volling (2005), a partir de uma perspectiva ecológica associada ao funcionamento das relações familiares, além das mudanças ocorridas na família e no funcionamento da criança que vivencia este momento de tornar-se um irmão, haveria também outros processos operando simultaneamente no sistema familiar, como o trabalho dos pais, amigos, escola, entre outros, que interferem nesse período de transição.

Mesmo que a criança, nesta fase do desenvolvimento, esteja tendo maiores habilidades motoras, cognitivas e emocionais para ter outras experiências no mundo externo, está vivenciando um processo evolutivo de separação e de individuação (Balaban, 1988; Mahler, 1979/1982; Mahler, Pine & Bergman, 1975/2002) e elaborando sua independência (Dunn & Kendrick, 1980), a partir dos cuidados fornecidos pela mãe (Winnicott, 1956/2000). Os comportamentos do primogênito parecem oscilar entre uma maior autonomia e independência (assumindo o papel de "filho mais velho") e o desejo de receber a mesma atenção que a gestação e o bebê que está por nascer (Dunn & Kendrick, 1980; Dunn et al. 1981; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Mendelson, 1990; Stewart et al. 1987; Volling, 2005). Ao investigar uma amostra canadense composta de 80 crianças e suas mães que aguardavam, ou não, a chegada do segundo filho e que se encontravam em diferentes momentos da gestação, Gottlieb e Baillies (1995) verificaram que as reações dos primogênitos diferiram conforme o período gestacional e também quando comparadas ao grupo de crianças que não aguardavam o nascimento de um irmão. O primogênito se mostrou mais angustiado e apresentou diferentes comportamentos de dependência, em resposta a momentos de separação da mãe nas semanas finais da gestação. Estas respostas variaram conforme a idade e o sexo do primogênito. Neste mesmo sentido, Gullicks e Crase (1993) estudaram o comportamento de 70 primogênitos, antes e após o nascimento de um irmão, e as percepções e expectativas de seus progenitores, através de questionários, sobre estes comportamentos. Os resultados também apontaram que o primogênito foi percebido por ambos os pais, dentre outros aspectos, como apresentando maior demanda, solicitando mais carinho, e mostrando-se menos independente durante o período gestacional. Os dados também indicaram que os pais possuíram expectativas mais negativas dos comportamentos dos primogênitos do que realmente foram observados.

Ainda que estudos tenham apontado que a gestação do segundo filho possa acarretar alterações nos comportamentos do primogênito e de sua interação com os pais (Baydar et al., 1997; Dessen & Mettel, 1984; Dunn & Kendrick, 1980; Dunn et al., 1981; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Kramer & Gottman, 1992; Stewart et al. 1987; Teti et al., 1996), chamam atenção as poucas pesquisas sobre o assunto (Volling, 2005) e, especificamente, sobre a separação psicológica ou emocional do filho mais velho nesse momento do ciclo de vida da família. No Brasil, somente alguns pesquisadores se dedicaram ao estudo de famílias no contexto de nascimento do segundo filho (Dessen, 1997; Dessen & Mettel). Sendo assim, torna-se relevante a continuidade de pesquisas sobre esse assunto, uma vez que a investigação sobre esse importante momento de transição do ciclo de vida familiar pode contribuir para a elaboração de propostas de intervenção junto às famílias que precisam se adaptar às mudanças inerentes a esse novo período (Kramer & Ramsburg, 2002). Além disso, pode trazer uma nova contribuição à literatura existente, ao investigar especificamente em que medida os comportamentos de dependência do primogênito são afetados pela existência de um irmão, já no período gestacional. Dessa forma, este estudo teve como foco o período gestacional e investigou os comportamentos de dependência do primogênito em idade pré-escolar e as percepções maternas sobre as alterações de comportamento neste período, em termos de dependência.

 

Método

Participantes

Participaram cinco primogênitos, entre quatro e cinco anos, e suas respectivas mães, que se encontravam no terceiro trimestre de gestação do segundo filho. As mães, com idade entre 31 e 38 anos, eram residentes na região metropolitana de Porto Alegre, casadas, sendo que o marido era o pai dos dois filhos. O status ocupacional das participantes foi classificado de acordo com a Escala de Hollingshead (1975). A Tabela 1 apresenta as características demográficas dos participantes.

 

 

Os participantes fazem parte do Estudo longitudinal sobre o impacto do nascimento do segundo filho na dinâmica familiar e no desenvolvimento emocional do primogênito (Piccinini, Lopes, Rossato & Oliveira, 2005). Este projeto acompanha cerca de trinta famílias ao longo de dois anos (terceiro trimestre de gestação, 6º, 12º e 24º meses do segundo filho) e investiga os aspectos subjetivos e comportamentais das relações pai-mãe-primogênito, bem como o impacto do nascimento do segundo filho no relacionamento familiar e no desenvolvimento emocional do primogênito. As famílias que fazem parte deste estudo maior foram contatadas, inicialmente, em creches (4%), escolas de educação infantil (44%) e em escolas de ensino fundamental (26%). Foram também selecionadas por meio de hospitais (12%), unidades sanitárias de saúde quando a gestante fazia pré-natal (5%) e por indicação (9%). O presente artigo considerou apenas dados obtidos na primeira fase de coleta de dados, quando a mãe estava no terceiro trimestre de gestação do segundo filho.

Procedimentos e Instrumentos

A coleta de dados foi realizada em escolas de educação infantil, em creches, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e/ou na casa dos participantes, conforme a disponibilidade e preferência destes. Os comportamentos de dependência do primogênito foram investigados a partir do Teste das Fábulas (Cunha & Nunes, 1993), e de entrevistas semi-dirigidas realizadas com a mãe. O Teste das Fábulas caracteriza-se por ser um método projetivo plenamente adequado para amostras de crianças pré-escolares, além de ser sensível para detectar conflitos relacionados ao desenvolvimento emocional infantil (Cunha & Nunes; Cunha et. al, 1989; Nunes, Cunha & Oliveira, 1990). É composto por dez fábulas que apresentam situações-problemas que mobilizam questões passíveis de projeção (Cunha & Werlang, 1995). Foi aplicado o Teste das Fábulas em todas as crianças do estudo maior, de forma individual. Para o presente estudo, foram considerados somente os conteúdos revelados nas seguintes fábulas: F1(Fábula do Passarinho), F2 (Fábula do Aniversário de Casamento), F3 (Fábula do Cordeirinho), F5 (Fábula do Medo) e F10 (Fábula do Sonho Mau). A escolha destas fábulas se deu em função dos objetivos deste estudo.

As percepções maternas sobre as alterações dos comportamentos de dependência foram analisadas a partir de entrevistas semi-dirigidas que contemplaram o cotidiano das relações mãe-pai-primogênito durante o período gestacional e aspectos referentes ao crescimento, comportamentos, habilidades e características emocionais do primogênito1. Contudo, foram consideradas, para fins de análise do presente estudo, somente as questões destacadas a seguir:

Tu percebeste alguma mudança no comportamento do/a [primogênito] em relação a ti? O que aconteceu? Como tu te sentes com isto? Eu gostaria que tu falasses um pouco sobre: alimentação; uso do bico/chupeta; linguagem/fala; sono; controle do xixi e do cocô; cuidados e higiene pessoal [hora do banho, troca de roupa, escovação de dentes] do/a [primogênito]; Eu gostaria que tu falasses um pouquinho sobre os momentos em que o/a [primogênito] tem ficado longe de ti? Com quem ele/a é mais agarrado?

Caso o conteúdo investigado nestas questões aparecesse em outros momentos da entrevista, era também considerado para fins de análise. As entrevistas foram realizadas de forma semi-dirigida e o entrevistador foi orientado a explorar as respostas maternas. Estes instrumentos foram gravados e transcritos para posterior análise dos dados. Além das entrevistas com a mãe, foram considerados para o presente estudo dados importantes que permitiram caracterizar a família, em termos de escolaridade e de nível socioeconômico2. Ressalta-se que as famílias assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O projeto longitudinal, do qual o presente estudo faz parte, foi aprovado pela Comissão de Pesquisa e Ética da UFRGS, pela Resolução nº/2004373, sendo considerado ético e metodologicamente adequado, de acordo com as Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisa envolvendo Seres Humanos (Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde).

 

Resultados e Discussão

Foi realizada uma análise de conteúdo qualitativa (Bardin, 1977; Laville & Dione, 1999) para se investigar os comportamentos de dependência de primogênitos que aguardavam o nascimento de um irmão. Estes comportamentos foram analisados com base no instrumento projetivo e em entrevistas semi-dirigidas, a partir de duas categorias temáticas: (a) Comportamentos de dependência do primogênito; (b) Alterações dos comportamentos de dependência do primogênito. As autoras do presente estudo classificaram separadamente os dados em cada categoria. Apresenta-se, a seguir, a caracterização de cada uma destas, buscando exemplificá-las através de trechos das respostas dos primogênitos e dos relatos maternos.

Comportamentos de Dependência do Primogênito

Esta primeira categoria temática refere-se aos conteúdos revelados pelo primogênito nas fábulas do teste projetivo. Foi considerado comportamento de dependência quando o primogênito indicava que o personagem-héroi da história buscava a atenção, a presença e a disponibilidade parental, sobretudo da mãe, em situações que lhe mobilizavam ansiedade.

Foi observado que as cinco crianças, em situação de medo, de crise do ambiente familiar e de separação em relação aos pais, indicaram que gostariam que as mães as ajudassem e procuraram por sua presença. Isto pode ser ilustrado através de respostas fornecidas pelo primogênito na F1, em que uma família de passarinhos que está dormindo em um galho de uma árvore cai após um vento muito forte e os pais voam cada um para árvores diferentes e a criança deve indicar a reação do filhote passarinho:

Era uma vez um papai e uma mamãe e um filhotinho que estavam numa árvore dormindo. E o papai voou para uma árvore e a mamãe voou para outra (P)3 Ele sabe voar só um pouquinho (P) Acho que ele se sentiu bem (P) Acho que ele foi pra outra árvore, a pequenininha, ele foi encontrar a mamãe (F1; C24). Eu acho que ele vai voar. (P) Vai lá onde a mamãe dele está indo. (P) Ele caiu no chão e machucou a pata, a asa, daí não conseguiu voar. (P) Se sentiu bem. Ele cresceu e ficou feliz para sempre (F1; C1). Aí ele voa um pouquinho e depois não sei. (P) O papai voou para essa [árvore da esquerda] e a mamãe para essa [árvore da direita] e ele voa para a árvore do meio. (P) Se sentiu mal. (P) porque caiu do alto. (P) Ele vai e a mãe dele pega ele nas costas eu acho. (F1; C4).

Percebeu-se também que quatro primogênitos (C1, C2, C3 e C4) fizeram referência a personagens indefesos e vulneráveis, sugerindo a necessidade de atenção e de cuidados maternos, ocupando uma posição de dependência. Isto pode ser ilustrado pelo conteúdo revelado na F2, a qual relata a história de uma criança que se retira da festa de aniversário de casamento de seus pais e vai ficar sozinha no fundo do quintal, devendo a criança indicar o motivo pelo qual o personagem tomou tal atitude: "Porque ela não queria ver (P) O casamento (P) A festa (P) Se sentiu triste (P) Foi brincar, aí ela caiu. Foi lá pra mãe dela (P) Botou um Band-Aid e ficou bem" (F2; C3). As lesões, seguidas ou não de cuidados adequados, costumam aparecer nas respostas reveladas nas fábulas, sugerindo que o personagem da história esteja ocupando uma posição de maior dependência de seus cuidadores (Cunha & Nunes, 1993).

Houve ainda, por parte de dois primogênitos (C4 e C5), referência ao medo de separação da criança em relação aos pais, sugerindo comportamentos de dependência. Este tema pode ser ilustrado pelo conteúdo revelado na F10, que retrata uma criança que deve contar qual foi o sonho mau que o personagem teve e que o deixou muito cansado e assustado:

Ela sonhou que os pais dela tinham ido embora. E aí ela ficou braba e foi ver no quarto e na sala, e eles não tavam em nenhum lugar. E quando foi ver na sala tavam lá o tio, a mãe, o pai, a tia, o dindo, o vô e a vó, porque era o aniversário da criança. E aí ela ficou com eles e ficou feliz de novo. E aí eles ficaram felizes para sempre. E aí viveram sempre juntos. (F10; C5)

Este medo de separação da mãe também foi relacionado por uma criança ao contexto de chegada de um irmão e à ameaça de perda de seu amor, se a criança não se comportasse de maneira educada e obediente. Na F5, o personagem está com medo e a criança deve responder qual é a causa deste medo:

Dos papéis (P) Porque ele ficou com medo de colocar a mão na ponta do papel. E ele é muito mal educado e chorou, e colocou o dedo na tomada e chorou. Um dia ele foi no shopping e colocou o dedo na porta do carro e bateu e chorou e foi pro hospital e ficou três dias no hospital. E aí a mãe foi no shopping com a Graziela que nasceu naquele dia que ele foi pro hospital. Um dia ele foi de novo para casa (P) Se sentiu muito bem e nunca mais foi mal educado e desobedeceu a mãezinha dele e fim. (F5; C4)

A temática da separação associada ao contexto de gestação de um irmão também foi apontada por pesquisas (Gottlieb & Baillies, 1995; Kramer, 1996). Os primogênitos se mostraram mais angustiados e apresentaram comportamentos de dependência, em resposta a momentos de separação da mãe nas semanas finais da gestação (Gottlieb & Baillies) e também manifestaram preocupação quanto a sua separação em decorrência da hospitalização (Kramer).

É possível dizer que os comportamentos de dependência sugeridos pelo primogênito nas fábulas analisadas podem estar associados a uma experiência real ou a um representante simbólico, bem como podem estar relacionados a eventos situacionais em que a criança pôde identificar-se com o personagem herói da história (Cunha & Nunes, 1993). O modo como a criança indicou as reações dos personagens frente a condições que lhe causavam ansiedade e medo pode ter sugerido como encontrava soluções em seu cotidiano, assim como pode ter sugerido a percepção que possuía da disponibilidade materna frente a essas situações. Estes dados confirmam achados da literatura que examinaram o primogênito, no contexto de gestação de um irmão, e apontaram-no como mais dependente, agarrado e demandando mais atenção e cuidados maternos (Baydar et al., 1997; Dessen & Mettel, 1984; Dunn & Kendrick, 1980; Gottlieb & Baillies, 1995; Gottlieb & Mendelson, 1990; Gullicks & Crase, 1993; Kendrick & Dunn, 1980; Murphy, 1993; Oliveira, 2005; Stewart et al., 1987).

Foram interessantes ainda algumas respostas reveladas no conteúdo das fábulas que sugeriram comportamentos de independência do primogênito. Dois primogênitos (C1 e C2) indicaram que os personagens agiram independentemente do apoio e da presença das figuras parentais, sobretudo materna, sugerindo que estivessem ocupando uma posição menos dependente. Foi observado um desejo de crescimento e uma capacidade de compartilhar os cuidados, atenção e disponibilidade materna frente à chegada de um novo membro na família, especialmente na F3:

Eu acho que vai comer capim (P) Cresceu que nem a mãe e o pai. Daí ficou feliz pra sempre (F3; C1); Era uma vez dois cordeirinhos e o filhinho foi mamar na teta da mamãe. E daí veio o outro filhote pra mamar na teta da mamãe. E a mamãe disse que não tem teta pros dois. O maior foi comer grão sozinho (P) se sentiu bem. E o outro tava crescendo mais ainda, e daí ele foi brincar com o outro irmão mais velho. (F3; C2)

A referência ao crescimento foi associada ao desejo de crescer de forma a igualar-se às figuras parentais, sugerindo uma posição de menor dependência, sobretudo dos cuidados maternos. As crianças, algumas vezes, se esforçam em abandonar o papel de bebê da família, desejando ser grandes da mesma forma que os pais (Brazelton & Sparrow, 2003). O fato de ser como estes torna-se um meio de a criança sentir-se mais próxima, especialmente quando sente-os distantes e ocupados. A aprendizagem de compartilhar os cuidados e o amor dos pais constitui-se momento especial para o primogênito que também deve abandonar seu papel de ser o bebê e o filho único da família (Brazelton & Sparrow). Assim, entende-se que os primogênitos do presente estudo podem ter utilizado o desejo de crescimento como um meio de lidar com o difícil momento de se ajustar às alterações provenientes do contexto de gestação de um irmão (Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Murphy, 1993; Stewart et al., 1987).

A referência a comportamentos de independência pode ser ainda evidência de ambivalência do primogênito. Estes achados corroboram pesquisas que indicaram que, no contexto de nascimento de um irmão, o primogênito também apresenta um padrão oscilatório e, até mesmo, contraditório de comportamentos (Dessen & Metel, 1984; Field & Reite, 1984; Gottlieb & Mendelson, 1990; Stewart et al., 1987). De modo geral, os estudos apontaram que o primogênito ou apresentava sinais de crescimento e de independência, ou mostrava-se mais dependente e imaturo nesse contexto (Dunn & Kendrick, 1980; Dunn et al., 1981; Teti et al., 1996). Entretanto, algumas pesquisas indicaram reações oscilatórias e, até mesmo contraditórias, havendo, por um lado, a manifestação de maior independência e autonomia, e, por outro, o desejo de receber a mesma atenção e cuidados que a gestação e o bebê (Field & Reite; Gottlieb & Mendelson; Stewart et al.). Estes dados também podem ser entendidos em função de a criança em idade pré-escolar vivenciar sentimentos oscilatórios, visto que ora deseja manter-se independente das figuras parentais, ora mostra-se mais dependente (Brazelton & Sparrow, 2003; Osborne, Harris, O'Shanghnessy & Rosenbluth, 1974). O desenvolvimento motor, cognitivo e emocional não segue uma trajetória contínua e crescente de aquisições, oscilando entre oportunidades de crescimento e situações que exigem regressão de comportamentos, sobretudo quando a criança vivencia eventos situacionais que podem ser estressantes (Brazelton, 2002). Nesse sentido, é possível dizer que a ansiedade de separação, característica desse período, pode estar acirrada em função da gestação de um irmão, de forma a levar o primogênito a comportar-se ora de modo independente, ora dependente.

Alterações dos Comportamentos de Dependência do Primogênito

Esta segunda categoria temática refere-se às percepções maternas sobre as alterações de comportamento do primogênito em termos de dependência, em diversas áreas do desenvolvimento e também no relacionamento com a mãe, reveladas nas entrevistas semi-dirigidas. Houve indicação de alterações nos comportamentos no sentido de dependência no uso da mamadeira e da chupeta, linguagem e hora do sono. O uso da mamadeira e do bico foi percebido, por uma mãe (M4), como um hábito que foi retomado pela criança depois que ficou sabendo da gestação:

Ela teve uma regressão . . . nunca chupou bico, nem mamadeira. Agora, olha lá a mamadeira, desde o início do ano quando eu descobri que estava grávida, começou a mexer no baú dos achados dela, de bebê . . . e daí começou a me pedir bico . . . e agora . . . parece que intensificou . . . não engatinhou ainda [risos]. (M45)

Outro comportamento foi fala mais infantilizada, o qual foi percebido de diferentes modos por três mães (M2, M4 e M5), ou como algo passageiro, ou como uma influência da gestação do segundo filho e/ou de amiguinhos:

Ultimamente, ele vai no berço do bebê, deita e diz 'mamãe, nhém, nhém, nhém', como se ele fosse bebê, pequeno, que não fala, mas isso é só um momentinho e depois já passa' (M2); Eu noto que ela começou a falar que nem nenê, mas isso eu não sei se foi por causa do nenê, ou se foi por causa de . . . uma visita da minha gerente que trouxe a filhinha que falava igual a nenê' (M4)

Foi percebido ainda como um jogo realizado pela criança para ter mais atenção materna:

A linguagem dela sempre foi elogiada . . . Mas ela começou a fazer uma voz . . . deu uma mexida, uma infantilizada na voz, disse 'mãezinha, faz de conta que eu tenho...', eu disse 'o quê, filha?', 'não, não, eu tenho cinco anos mesmo', se abraçou em mim e daí ficou quietinha. Talvez ela fosse fazer algum jogo. (M5)

O uso das palavras possibilita à criança compreender a si mesma e ao ambiente a sua volta, auxiliando na formulação de pensamentos próprios (Brazelton & Sparrow, 2003). A criança, na idade pré-escolar, está descobrindo a linguagem como forma de comunicar idéias e sentimentos (Brazelton & Sparrow) e o seu desenvolvimento está intimamente relacionado às capacidades individuais da criança e também a ambientes ricos em termos de estimulação (Bee, 1997). Assim, no presente estudo, pode-se entender que a fala infantilizada pode ter sido usada como um recurso próprio da criança para expressar a influência do contexto de gestação de um irmão. A forma como a criança utilizou a linguagem pode estar refletindo a necessidade de demanda e de dependência da figura materna naquele momento.

Houve relatos (M2, M4 e M5) que indicaram alterações nos comportamentos do primogênito no sentido de dependência também na hora do sono. Ainda que as crianças fossem capazes de dormir sozinhas, desejavam permanecer por mais tempo na cama dos pais, ou até mesmo dormir com estes naquele momento da gestação e passaram a exigir mais atenção, presença e disponibilidade materna na hora do sono:

Agora, ela está mais 'ai, quero dormir na cama de vocês', 'não, eu quero pegar no sono, aqui', 'hoje, eu quero dormir aqui' (M5); Desde que eu estou grávida ela vem pra minha cama... sempre quis ir muito pra minha cama, mas agora mais ainda, então, ela dorme na minha cama . . . Se vai no meio da noite e acorda sem eu do lado, ela tem um troço. Ela grita, 'mãe, cadê a minha mãe' . . . 'mãe eu quero ficar contigo.' (M4)

De modo geral, a hora do sono pode tornar-se um problema para pais e filhos, uma vez que se constitui em um momento de separação física e/ou emocional (Brazelton & Sparrow, 2003). As mudanças nos arranjos do sono, em momentos de transição, podem ser difíceis para a criança, uma vez que não só dependerá de sua própria capacidade de aprender a dormir sozinha, mas também da habilidade dos pais separarem-se dela durante a noite (Brazelton & Sparrow). Pode-se dizer que essas alterações de comportamento do primogênito na hora do sono, manifestadas pelo desejo de dormir com os pais ou ainda pelos episódios de despertar durante a noite, caracterizaram-se como possibilidade de reencontro do primogênito em relação à mãe. Esses comportamentos podem estar indicando dependência e demanda de proximidade da criança em relação à figura materna, especialmente em momentos cuja separação física e/ou emocional pode ter sido associada ao medo de separação, em decorrência do nascimento do irmão e ao fato de deixar de ser filho único e bebê da família.

No tocante ao relacionamento mãe-primogênito, todas as mães (M1, M2, M3, M4 e M5) apontaram que as crianças estavam mais apegadas, agarradas, grudadas e próximas: "Ele está bem mais próximo de mim, mais carinhoso, atencioso . . . Antes era sempre com o pai dele" (M1); "Aquela coisa assim, de não querer desgrudar. Eu acho que ela não quer desgrudar nunca" (M4). Indicaram também que o primogênito estava mais atencioso, carinhoso e solicitava mais atenção, presença e cuidado materno: "Eu acho que ele está extremamente solicitante mesmo, então ele quer a minha atenção . . . quer que seja eu que faça as coisas" (M2). Esses comportamentos foram apontados como tendo surgido ou se intensificado ao longo da gestação do segundo filho, especialmente no último trimestre de gestação, quando a barriga tornava-se mais saliente:

Mais dependente, não quer perder o espaço, acho que isso é inconsciente, não sabe o que vai acontecer, porque pra ele é uma coisa muito nova. . . . Depois da gravidez [ficou mais dependente] . . . Porque antes pra ele tanto faz, ou o pai, ou a mãe, ou os dois, sabe? (M2); Todo o foco dela sou eu. [Ela é mais agarrada] Comigo. Eu acho que aumentou um pouco. Eu noto mais comigo uma dependência, tem que ser a mamãe, 'a mamãe aqui, a mamãe isso, mamãe aquilo'. E mais agora pro final [da gravidez], mais agora que a barriga ficou aparente, que a proximidade ficou muito clara, ficou mais. (M5)

Esse dado também corrobora estudo realizado por Gottlieb e Baillies (1995), que apontou a existência de diferentes reações do primogênito ao longo do período gestacional, intensificando-se nas semanas finais da gestação.

As percepções maternas revelaram que houve alteração no comportamento do primogênito, indicando tendência à dependência no uso do bico e da mamadeira, linguagem, hora do sono e, também no relacionamento com a mãe. Os dados observados confirmam achados da literatura que apontaram o primogênito como mais dependente, agarrado e demandando maior atenção e cuidados maternos no contexto de espera de um irmão (Baydar et al., 1997; Brazelton & Sparrow, 2003; Dessen & Mettel, 1984; Dunn & Kendrick, 1980; Gottlieb & Baillies, 1995; Gottlieb & Mendelson, 1990; Gullicks & Crase, 1993; Holditch, 1992; Kendrick & Dunn, 1980; Murphy, 1993; Oliveira, 2005; Osborne et al., 1974; Stewart et al., 1987). Em momentos importantes e de transição do ambiente familiar, a criança eventualmente regride para um estágio anterior, principalmente quando os controles nas áreas do desenvolvimento foram recém adquiridos (Brazelton & Sparrow; Kramer & Ramsburg, 2002; Osborne et al.). Esta regressão pode ser observada através de mudanças de comportamento, no sentido da dependência nessas áreas, como fala infantilizada, mudanças no arranjo do sono ao longo da noite, diminuição na quantidade de ingestão de alimento durante as refeições, entre outros (Brazelton & Sparrow).

Houve ainda referência a alterações de comportamento do primogênito no sentido de independência em algumas áreas do desenvolvimento, como hora do banho (M3 e M5) e hábitos de toalete (M4):

Ela começou a desenvolver isso de tomar banho sozinha, só controlo a quantidade de xampu, se precisar ela faz sozinha . . . tem que dar um voto de confiança . . . comecei a tentar imprimir um tomar banho sozinha e um se vestir sozinha prevendo já o final da minha gravidez que ia ser difícil a movimentação (M5); Com quatro anos eu tentei tirar [as fraldas da noite] durante um mês eu acordava, eu levantava ela pra fazer xixi, tava grávida já e ela fazia xixi na cama, foi assim umas duas semanas. Aí eu fiquei uma semana fora, tava grávida de cinco meses . . . e ela ficou só com o pai, não fez um xixi na cama . . . quando eu voltei nunca mais fez. (M4)

Pesquisas também apontaram que primogênitos apresentaram sinais de crescimento e de independência, no contexto de gestação de um irmão, na medida em que insistiam em comer sozinhos, vestir-se, ir ao banheiro, tomar banho sozinhos, brincar mais tempo sozinhos, além de deixarem de usar a mamadeira (Baydar et al., 1997; Dunn & Kendrick 1980; Dunn et al., 1981; Gottlieb & Baillies, 1995; Stewart et al., 1987). Essas alterações de comportamento no sentido de independência podem estar associadas ao fato de que estes primogênitos já poderiam ter adquirido certo grau de independência para a realização dessas atividades do cotidiano (Brazelton & Sparrow, 2003; Holditch, 1992), não havendo regressão a um estágio anterior do desenvolvimento. Este crescimento e maturidade da criança podem também ter sido estimulados pelas mães ou como espécie de recompensa (Kramer & Ramsburg, 2002) ou como forma de incitar a criança a se adaptar às novas demandas decorrentes desse momento (Walz & Rich, 1983).

 

Considerações Finais

No presente estudo, buscou-se considerar, tanto o ponto de vista da criança, quanto o ponto de vista materno, a fim de atingir uma melhor compreensão a respeito dos comportamentos de dependência do primogênito no contexto de gestação de um irmão. O envolvimento de diferentes e importantes fontes de informação garante a obtenção de um melhor entendimento acerca do fenômeno estudado (Stake, 1994). No que tange ao ponto de vista da criança, o instrumento projetivo foi essencial para identificar os comportamentos de dependência do primogênito. O Teste das Fábulas não foi aplicado com o intuito de realizar um processo diagnóstico clínico. Optou-se por utilizá-lo como um estímulo (Cunha et al., 1989) para que crianças em idade pré-escolar pudessem expressar os comportamentos de dependência em relação às mães no contexto de gestação de um irmão. Embora as crianças dessa idade apresentem um desenvolvimento significativo na linguagem, que as possibilita formular e utilizar frases complexas e mais desenvolvidas (Brazelton & Sparrow, 2003; Papalia & Olds, 2000), torna-se difícil investigá-las sem que haja algum estímulo para que expressem suas vivências emocionais. O conteúdo revelado por histórias oferece subsídios para conhecer a maneira como a criança enfrenta sua realidade (Brazelton & Sparrow), uma vez que ainda está muito associada às situações já experienciadas (Holditch, 1992). Do ponto de vista materno, as entrevistas semi-dirigidas possibilitaram a compreensão das alterações dos comportamentos do primogênito no sentido da dependência.

Os dados analisados, no presente estudo, permitem apontar uma tendência de comportamentos de dependência do primogênito. Estes comportamentos podem ter se constituído num meio que a criança encontrou para enfrentar situações que lhe causavam ansiedade, assim como podem ter indicado uma identificação com o irmão. Podem ainda ter sido um dos recursos utilizados para desviar a atenção materna do bebê e da gestação, ou para comunicar aos pais os custos de assumir novas responsabilidades, na medida em que o primogênito teve de renunciar a antigos papéis e compartilhar os cuidados maternos com outra criança (Brazelton & Sparrow, 2003). Os movimentos de independência também revelados, tanto pelas crianças, quanto pelas mães, podem ter indicado uma tentativa de o primogênito se ajustar às alterações provenientes do contexto de gestação de um irmão ou ter sido um meio de lidar com sua própria necessidade de dependência (Gottlieb & Baillies, 1995; Kendrick & Dunn, 1980; Murphy, 1993; Stewart et al., 1987).

Os resultados indicaram que o primogênito é afetado pela existência de um irmão já no período gestacional, apresentando alterações de comportamento em termos de maior dependência. Os dados sugeriram ainda que este contexto de chegada de um novo membro na família constitui-se em um momento especial para a criança que tem que deixar de ocupar o papel de filho único e aprender a compartilhar os cuidados maternos. A investigação de questões acerca das mudanças nas relações familiares e suas implicações para cada um dos membros é de fundamental importância para a compreensão do desenvolvimento humano. Identificar os pontos de transição familiar que podem acarretar mudanças são tarefas básicas da psicologia do desenvolvimento. É nos períodos previsíveis de dificuldade que os profissionais podem ajudar os pais a compreender seus filhos, fazendo com que os apóiem em seu desenvolvimento. Na medida em que a mãe puder compreender as competências de seu filho em idade pré-escolar e entender que pode haver oscilações de crescimento e de dependência, terá a oportunidade de auxiliá-lo neste contexto. A compreensão e as adaptações às mudanças fortalecerão ainda mais a relação mãe-primogênito, sobretudo em momentos especiais do ciclo de vida da família, como é o contexto de gestação de um segundo filho (Brazelton & Sparrow, 2003; Kramer & Ramsburg, 2002).

Dessa forma, o profissional pode tomar contato mais íntimo com o sistema familiar e auxiliar os pais a compreender que em períodos de transição a criança pode procurar estabelecer ela própria seu padrão de autonomia (Brazelton, 2002), sendo, portanto, possível que a criança venha a apresentar comportamentos mais regressivos e dependentes. Através dessas ações, os profissionais podem prevenir as dificuldades futuras decorrentes de eventos de transição familiar. Podem ainda ajudar os pais a minimizar outras possíveis mudanças, bem como um excesso de reação e de conflito nas relações com o filho mais velho. Espera-se estimular novas pesquisas que possam contribuir para o entendimento das repercussões que a gestação do segundo filho podem acarretar no desenvolvimento emocional do primogênito e no ambiente familiar. Além disso, é importante dar continuidade aos estudos nessa área, a fim de verificar de que forma o primogênito recebe esse irmão.

 

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Recebido: 16/11/2006
1ª revisão: 11/05/2007
2ª revisão: 24/09/2007
Aceite final: 11/10/2007

 

 

* Este artigo é baseado em parte da Dissertação de Mestrado da primeira autora, realizada sob a supervisão da segunda. Esta Dissertação de Mestrado foi desenvolvida no Curso de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
** Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, Rua Ramiro Barcelos, 2600, Porto Alegre, RS, 90035-003. Tel.: (51) 9955 9035. E-mail: débora_deoli@yahoo.com.br
*** Endereço para correspondência: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Psicologia, Programa de Pós-Graduação em Psicologia do Desenvolvimento, Rua Ramiro Barcelos, 2600, Porto Alegre, RS, 90035-003. E-mail: sobreiralopes@portoweb.com.br
1 Para fins de análise deste estudo, foram consideradas apenas duas entrevistas respondidas pela mãe, a Entrevista com a mãe sobre o impacto da gestação do segundo filho na dinâmica familiar (Grupo de Interação Social, Desenvolvimento e Psicopatologia [GIDEP], 2005a) e a Entrevista com a mãe sobre o desenvolvimento do primogênito (GIDEP, 2005b). O projeto longitudinal maior contemplava também a Entrevista sobre a gestação e as expectativas da gestante, e a Entrevista sobre a experiência da maternidade. O pai respondia aos mesmos instrumentos, adaptados ao contexto da paternidade. A família também participava da Observação filmada da interação familiar, realizada na Sala de Brinquedos da UFRGS.
2 Dados retirados dos instrumentos de Ficha de Contato Inicial (GIDEP, 2005c) e da Entrevista de Dados Demográficos da Família (GIDEP, 2005d).
3 Será utilizada, no decorrer deste trabalho, a abreviação "(P)" para designar alguma pergunta realizada pelo examinador durante a aplicação do teste projetivo.
4 Na categoria temática, Comportamentos de dependência do primogênito, serão utilizadas, dentro dos parênteses, as seguintes informações: o número da Fábula analisada e a identificação da criança, cf. Tabela 1.
5 Na categoria temática Alterações dos comportamentos de dependência do primogênito, as falas maternas serão identificadas por M seguido do número da participante, conforme relacionado na Tabela 1.