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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.21 no.3 Porto Alegre  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722008000300018 

Representações sociais da depressão em jovens universitários com e sem sintomas para desenvolver a depressão

 

Social representations of the depression in young university students with and without symptoms to develop the depression

 

 

Aline Arruda da Fonseca*; Maria da Penha de Lima Coutinho; Regina Lígia Wanderlei de Azevedo

Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil

 

 


RESUMO

Esta pesquisa objetivou apreender as representações sociais da depressão nos estudantes do curso de Psicologia de uma universidade na cidade de João Pessoa-PB. Fizeram parte da amostra 56 universitários de ambos os sexos, com idades de 18 a 26 anos. Como instrumentos, foram utilizados o Beck Depression Inventory para screening da amostra e o Teste de Associação Livre de Palavras. Os dados foram processados pelo software Tri-Deux-Mots e analisados através da Análise Fatorial de Correspondência. Os resultados obtidos revelaram que os estudantes objetivaram suas representações da depressão na melancolia e desilusão, num vínculo de apoio e necessidade de ajuda. A carência afetiva foi apontada como desencadeante depressivo e os fatores associados à percepção de si mesmos são elaborados com a realidade social do contexto em que vivem, mostrando que as associações semânticas trazidas pelos universitários resultam dos problemas que circundam seu posicionamento na sociedade, assim como a informação da doença.

Palavras-chave: Depressão; estudantes de Psicologia; Associação Livre de Palavras.


ABSTRACT

The objective of this research was to understand the social representations of depression in the students of the Psychology Course from a university in the city of João Pessoa, PB. A number of 56 university students participated of the research, from both genders, aged between 18 and 26 years old. As instruments, the Beck Depression Inventory for the screening of the sample and the Test of Free Association of Words were used. Data were processed by Tri-Deux-Mots software (version 2.2) and were analyzed through the Factorial Analysis of Correspondence. The results obtained showed that the students objectified their representations of depression in the melancholy and disillusion, in a bond of support and necessity of care. Lack of affection was also pointed as a depressive fact, and the factors associated to the perception of themselves are elaborated with the social reality of the context in which they live, showing that the semantic associations brought by the university students are a result of the problems that surround their position in the society, as well as the information they gave about the illness.

Keywords: Depression; Psychology students; Free Association of Words.


 

 

Depressão e Jovens

A tristeza é um sentimento subjetivo universal, através da qual as pessoas vivenciam ao longo da vida, face aos conflitos, as frustrações, as decepções, fracassos e as perdas, entre outras adversidades. Assim, em determinadas circunstâncias, é normal sentir-se triste. Contudo, se estas vivências perdurarem durante um longo período de tempo, poderá levar ao surgimento de um sofrimento psíquico associado aos transtornos do humor.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), desde a década de 1990, a depressão vem ocupando uma posição de destaque no rol dos problemas de saúde pública, considerada a quarta doença médica mais dispendiosa nos leitos de hospitais. Os pacientes deprimidos passam mais tempo internados do que os pacientes com diabetes, hipertensão, artrite ou doença pulmonar crônica, assim eles têm tanta incapacidade funcional quanto os pacientes com doença cardíaca (Coutinho, Gontiès, Araújo, & Sá, 2003; Dubovsky & Dubovsky, 2004).

Até o ano de 2010 a depressão será a segunda doença que mais afetará a população, perdendo apenas para as doenças isquêmicas cardíacas graves. Ainda segundo a OMS, esta síndrome, no ano de 2020, será a segunda moléstia que mais afetará os países desenvolvidos e a primeira em países em desenvolvimento (Coutinho et al., 2003).

No tocante, percebe-se que entre os transtornos do humor, emerge, com mais freqüência a depressão que, no senso comum, é considerada como sinônimo de tristeza, designando desde alterações psicológicas simples e perturbações psiquiátricas graves, à flutuações de humor ou de caráter (Coutinho, 2005). Contudo, sabe-se que no âmbito científico, a depressão é caracterizada não como uma simples tristeza, mas apresenta um significado psicológico geral, tendo como sintoma principal um quadro clínico grave, o qual é chamado doença depressiva.

De acordo com M. V. O. Lima (1999), Aaron Beck, insatisfeito com a formulação psicanalítica das neuroses, principalmente do conceito de depressão e com a longa duração do tratamento, iniciou com os pacientes deprimidos uma série de pesquisas e observações clínicas sistemáticas, originando, em seguida o livro Depressão: Causas e tratamento (1972). Nele Beck delineia seu modelo cognitivo e a Terapia Cognitiva da Depressão. Sua formulação da depressão foi focalizada no conteúdo do pensamento negativo do deprimido: autopunição, exacerbação dos problemas externos e desamparo, como sintomas mais proeminentes. Mostrou que os aspectos cognitivos eram mais centrais nas depressões e mais verificáveis que os processos dinâmicos (motivacionais) então postulados.

Assim, de acordo com Beck, Rush, Shaw e Emery (1982), são os pensamentos distorcidos, as idéias e imagens a base dos sintomas da depressão. O enfoque cognitivo não se preocupa com as causas e motivações de uma determinada patologia. Enfatiza as mal-adaptações na estrutura cognitiva do indivíduo e os mecanismos defeituosos de processamento de informação em uma determinada doença, a exemplo da depressão.

Trata-se de uma doença que pode comprometer toda a vida familiar, laborativa e social do paciente e que ocorre em todas as faixas etárias, sendo comprovado por Nardi (2000), em seus estudos acerca da depressão, que as taxas estão aumentando entre jovens e idosos.

A depressão aparece de fato como uma doença que vem alterar o sistema normal de regulação do humor, afetando as respostas emocionais do organismo. Neste contexto, é a tristeza que caracteriza esta reação patológica. Todos os outros sintomas são conseqüências da alteração fisiológica que estão na origem deste desregulamento (Wilkinson, Moore, & Moore, 2003).

Em episódios depressivos leves, moderados ou graves típicos, o paciente sofre de rebaixamento do humor, redução de energia e atividade diminuída. As capacidades de sentir prazer, interesse e concentração estão diminuídas, e é comum o cansaço marcante após esforço, mesmo mínimo. Em conseguinte, como descreve Nardi (2000), o sono é perturbado, com o hábito de despertar várias horas mais cedo que o habitual; o apetite é diminuído; há perda de peso e da libido. Nos aspectos cognitivos, alguns pacientes têm sentimento intenso de inadequação pessoal, tendência para apresentar baixa auto-estima e auto-confiança reduzida, além de idéias de culpa e algumas vezes de morte, podendo afetar sua vida no âmbito biopsicossocial (Coutinho & Saldanha, 2005).

Percebe-se assim, que este transtorno apresenta sintomas inter-relacionados a fatores psíquicos, orgânicos, hereditários, sociais, econômicos, religiosos entre outros, ocasionando um sofrimento que interfere consideravelmentemente na qualidade de vida (Coutinho, 2005). Sua manifestação acaba por refletir no relacionamento interpessoal, principalmente na estrutura familiar, situações de conflito, incompreensão e conseqüências econômicas, de forma individual ou social. Contudo a depressão tem suas maiores conseqüências a nível individual, que, em muitos casos, leva ao desespero e ao suicídio (Lima, 2004).

O conceito de depressão focalizado neste estudo referese a um sofrimento psíquico e/ou dor moral desencadeada por uma situação ou um acontecimento desagradável que interfere significativamente na diminuição da qualidade de vida, na produtividade e capacitação social do indivíduo, entendida como depressão reativa (Coutinho & Saldanha, 2005).

Em face destas premissas, pretende-se, nesta investigação, apreender as representações sociais da depressão em jovens universitários do curso de Psicologia em uma universidade, na cidade de João Pessoa-PB, comparando as representações do grupo com sintomas de depressão e as representações do grupo sem sintomas para desenvolver a depressão, tendo por base o enfoque psicossociológico ancorado na Teoria das Representações Sociais (Moscovici, 2003). As Representações Sociais propiciam, neste contexto, a apreensão de um conhecimento prático dos estudantes de Psicologia provenientes de uma estrutura social mais ampla. Neste sentido, as Representações permitem acessar as idéias, saberes e sentimentos incorporados pelos atores sociais. A importância da investigação dessa temática volta-se para uma melhor capacitação destes estudantes diante de suas práticas profissionais.

Depressão no Contexto Universitário

Pesquisas realizadas no contexto acadêmico vêm registrando um índice elevado de casos de depressão, a exemplo de um estudo desenvolvido por Santos, Almeida, Martins e Moreno (2003) com o objetivo de identificar e mensurar os sintomas de depressão mais freqüentes entre universitários. Este estudo apontou para a predominância de depressão em mulheres (97%) com idade média de 20 anos. No total de uma amostra de 99 estudantes, 41% apresentaram grau de depressão variando de leve até grave, cujos sintomas mais freqüentes foram auto-acusação, irritabilidade e fadiga. Para o desenvolvimento da pesquisa, foram utilizados um questionário sócio-demográfico e o Inventário de Depressão de Beck (BDI).

As propriedades psicométricas da versão em português do Inventario de Depressão de Beck (BDI) foram estudadas em diferentes amostras por Gorenstein, e Andrade (1998), as quais avaliaram em um primeiro estudo o perfil dos escores obtidos com o BDI em uma amostra de estudantes universitários brasileiros e comparou-o com o obtido nas versões de diferentes línguas e culturas. A consistência interna do BDI foi alta (0.81) e o padrão geral de resultados corroborou a validade de construto da versão em português. Em um segundo estudo as supracitadas autoras validaram a versão em português do BDI obtendo seu perfil em três amostras: estudantes universitários, pacientes com pânico e pacientes com depressão. No terceiro estudo, por meio de análise fatorial e análise discriminante, investigaram outras propriedades psicométricas, tais como diferença de gênero na sintomatologia depressiva em uma grande amostra não-clínica de universitários. Foram encontrados resultados que indicam que mulheres combinam afeto e auto-depreciação na mesma dimensão, enquanto homens combinam conjuntamente a dimensão somática e a auto-depreciação.

Fatores estressantes, principalmente de origem psicossocial, são enfatizados por Joca, Padovan e Guimarães (2003), o qual cita que cerca de 60% dos casos dos episódios depressivos são precedidos pela ocorrência desses fatores mencionados. Neste sentido, torna-se necessário averiguar que situações ambientais predispõem um indivíduo à depressão, sendo as Representações Sociais um fio condutor nesta investigação, podendo contribuir para uma melhor compreensão deste transtorno impregnado de signos sociais com os quais os indivíduos estabelecem relações.

De acordo com Moscovici (2003), as Representações Sociais são produtos da atividade humana, elaboradas a partir da interação sujeito-objeto social, sobre os quais os indivíduos constroem uma realidade particular que determina os comportamentos e direciona a comunicação. Elas representam não somente o objeto, mas também a pessoa que o representa, daí a importância destas se situarem no universo consensual das pessoas, visto que são um conceito e um fenômeno que pertencem ao subjetivo e ao intersubjetivo, simultaneamente.

A construção de representações sociais da depressão processa-se nas trocas de conhecimentos populares e científicos, através de experiências grupais e sociais que se repetem ao longo da vivência dos indivíduos, ou seja, a elaboração de um conhecimento prático e compartilhado no grupo social implica necessariamente, na combinação de dois fatores, o das permanências e o das diversidades. As primeiras referindo-se à rede de representações construídas pelo homem, ao longo da sua existência, sendo veiculadas numa sociedade específica como produções sociais, enquanto as diversidades contêm representações subjetivas nos seus aspectos singulares, próprios do vivenciar da problemática em questão (Coutinho et al., 2003).

 

Método

Tipo de Estudo

Trata-se de um estudo de campo de cunho quantitativo, fundamentado no aporte teórico das Representações Sociais.

Participantes

Participaram deste estudo, em um primeiro momento, 196 estudantes de ambos os sexos, na faixa etária de 18 a 26 anos, distribuídos em todo o curso de Psicologia, escolhidos de forma intencional, de acordo com os estudantes que se encontravam em sala de aula. Em seguida, compuseram a amostra 56 estudantes, com as mesmas características anteriormente citadas.

Instrumentos

Para a realização da presente pesquisa, seguiu-se a aplicação dos instrumentos, conforme a ordem citada.

Teste de Associação Livre de Palavra. É um tipo de investigação aberta que se estrutura na evocação de respostas dadas a partir de um estímulo indutor, o qual permite colocar em evidência os universos semânticos de palavras que agrupam determinadas populações, sendo uma estrutura submetida à influência do meio cultural e da experiência pessoal (Coutinho, 2005). No presente estudo, os estímulos abordados foram: "Depressão", "Pessoa Deprimida" e "Eu Mesmo". Com um tempo máximo de 1 minuto para escrever cada grupo de palavras.

Tendo obtido a associação semântica dos participantes do estudo, seguiu-se à aplicação do instrumento utilizado como screening para a seleção da amostra, de forma que este permitiu comparar as representações dos universitários que apresentaram riscos para desenvolver a depressão com os que não apresentaram, levando-se a uma complementaridade dos instrumentos.

Inventário de Depressão de Beck (BDI - Beck Depression Inventory). É um instrumento usado para a medida da intensidade da depressão. É uma escala de auto-relato de 21 itens, amplamente utilizada na clínica e em pesquisa. Cada item com quatro alternativas, subentendendo graus crescentes de gravidade de depressão, com escores de 0 a 3 (Cunha, 2001). Utilizado neste estudo enquanto instrumento de screening para a seleção da amostra, composta por estudantes universitários que apresentaram índices de sintomatologia depressiva e composta também por estudantes que não apresentaram este índice, os quais foram escolhidos de forma randômica, com um tempo de aproximadamente 10 minutos na aplicação do inventário.

Análise dos Dados

Os dados coletados através da Técnica de Associação Livre de Palavras foram processados por meio do softwere Tri-Deux-Mots, versão 2.2 (Cibois, 1998) e analisados através da Análise Fatorial de Correspondência (AFC), que põe em relevo as relações de atração e exclusão entre os componentes representacionais dos diferentes grupos, que se confrontam e se revelam graficamente na representação do plano fatorial (Coutinho, 2005).

Procedimento

Este estudo foi realizado considerando os aspectos éticos pertinentes a pesquisas envolvendo seres humanos, de acordo com a Resolução nº 196/96, do Ministério da Saúde, através de submissão e avaliação da Comissão de Ética Médica da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Após o recebimento do parecer favorável, iniciou-se a coleta de dados no curso de Psicologia, sendo solicitada a permissão dos professores para realização da pesquisa em sala de aula, de forma coletiva.

Após as devidas informações quanto aos procedimentos éticos e ao sigilo referentes à identificação de cada participante, foram fornecidas informações acerca do estudo, esclarecendo questões referentes ao caráter voluntário da participação e solicitando-se que assinassem um termo de concordância em participar da pesquisa. Em seguida procedeu-se à aplicação dos instrumentos, ocorrendo primeiramente à aplicação da Associação Livre de Palavras, seguida do BDI.

 

Resultados

No primeiro momento da pesquisa, toda a população respondeu aos instrumentos anteriormente referidos. Após avaliação do instrumento de screening, observou-se que 28 jovens obtiveram somatório superior ao ponto de corte (17 pontos), com uma média de 18,78 pontos, mostrando que estes estudantes encontram-se em um nível de depressão moderada. Desta forma, foi-se selecionado, de forma aleatória, igual número de participantes com somatório de pontos no BDI entre 0 e 2 para fazer um comparativo entre representações de participantes com a sintomatologia depressiva e sem sintomatologia depressiva, totalizando 56 participantes para a amostra.

Em relação ao período do curso acadêmico, observou-se que 57% da amostra freqüentavam do 1º ao 3º período, a média de idade foi de 21 anos, quanto ao gênero, 78% da amostra pertenciam ao sexo feminino. Destes estudantes, 93% não possuíam trabalho remunerado e 68% consideravam-se religiosos.

Na Figura 1, observa-se a emersão dos elementos significativos que representam as variações semânticas na organização do campo espacial, revelando aproximações e oposições das modalidades, conforme pode ser observado no plano fatorial, através dos dois fatores nele contemplados (F1 e F2). O somatório dos dois fatores correspondeu a 73,4% de significância. Observa-se ainda no campo espacial, a presença das variáveis fixas (grupo com e sem sintomas para desenvolver a depressão, sexo, idade e período acadêmico) associados aos campos semânticos das opiniões dos participantes.

No Fator 1, eixo horizontal, do lado esquerdo da Figura 1, em negrito, encontra-se o campo semântico elaborado pelos estudantes sem sintomas de depressão, em fase próxima à conclusão do curso (8º ao 10º período), com idades acima de 24 anos, no qual a depressão é associada à angústia e o ser depressivo como uma pessoa sem motivação. Esses alunos se auto-representaram como sendo tímidos, otimistas, dedicados e perseverantes.

Nesse mesmo fator no lado direito, tem-se os campos semânticos constituídos pelos estudantes com sintomas de depressão inseridos na faixa etária dos 21 aos 23 anos, estes objetivaram a depressão à necessidade de ajuda e à existência de problemas. O ser depressivo foi representado como sofrendo preconceitos, que sofre, sente-se solitário e precisa de apoio, e a auto-imagem do grupo foi descrita como desmotivada, triste e sozinha.

No segundo fator (F2), linha vertical, com palavras em itálico, na parte superior, encontram-se as estudantes do sexo feminino, independentemente de serem ou não acometidas de sintomas de depressão, as quais apresentaram um campo semântico da depressão como sendo associada à melancolia, desânimo e como algo ruim. O ser depressivo foi associado como sendo carente e sem vontade de viver e elas se auto-representam como preocupadas, inseguras e calmas.

Na parte inferior do eixo F2, encontra-se o grupo de estudantes do sexo masculino, do 4º ao 7º período, independentemente de serem ou não acometidos de sintomas de depressão, os quais objetivaram a depressão na desilusão e na morte, o ser depressivo foi objetivado como sendo desanimado. Estes estudantes se auto-definiram como estudiosos, cansados, decididos, responsáveis e fizeram ainda menção aos seus aspectos físicos.

 

Discussão

De acordo com os resultados, pôde-se observar que os estudantes, frente ao estímulo indutor "depressão", do Teste de Associação Livre de Palavras, revelaram idéias de desânimo e angústia, muito presentes nas adversidades do dia-a-dia. Estes estudantes encontram-se, num contexto acadêmico, com maiores responsabilidades que numa fase anterior de vida, gerando uma expectativa diante da realidade com a qual se confrontam, ocasionando, muitas vezes, um desânimo que pode levar à angústia.

Outro aspecto trazido foi a falta de vontade de viver e a idéia de morte como representativo do ser depressivo, corroborando com as pesquisas de Bahls (2002), nas quais apontam que um em cada três casos de suicídio entre os jovens é devido à depressão. Emerge assim o conceito de auteridade, no qual o outro vê a depressão associada à morte, ao próprio ser depressivo.

Os estudantes com sintomas de depressão representam a mesma como algo desencadeado por um conjunto de problemas advindos do sofrimento, da solidão, do preconceito e o fato de eles apresentarem sintomas dessa doença, faz com que eles tenham uma representação de si mesmos como tristes, sozinhos e desmotivados, que necessitam de ajuda para enfrentar este problema. O ser depressivo vem espelhado em seus conhecimentos do senso comum e de si próprios quando trazem a necessidade de apoio como fundamental para a saúde e melhora da pessoa que sofre com a depressão. Observa-se aqui, de acordo com o saber prático dos participantes da presente pesquisa que a depressão é conseqüência de problemas afetivos e relações sociais insatisfatórias, mostrando a necessidade de se priorizar o estado psicológico do indivíduo através da atenção, da compreensão e socialização.

A Figura 1 revela diferenças no que diz respeito à representação da auto-imagem, quando os estudantes de início de curso apresentam preocupação e insegurança, diferentemente dos estudantes de final de curso que se mostraram, apesar de cansados, decididos. A atual visão de si próprios é explicitada em diversas palavras quando eles trazem a timidez e a tristeza presentes nesta etapa de suas vidas.

As palavras emergidas na Figura 1, para os estudantes mais jovens, do sexo feminino, trazem uma associação da depressão, provavelmente às suas próprias posições de ainda necessitarem muito do apoio da família, associando também de acordo com seus conhecimentos do senso comum. Observa-se aqui, a valorização da família como uma fonte de apoio social, conceituado por Pietrukowicz (2001), como um processo de interação entre pessoas ou grupos, que através do contato sistemático estabelecem vínculos de amizade e de informação, contribuindo para o bem-estar físico e mental.

Este conhecimento é ratificado quando eles trazem semelhante descrição para o ser depressivo, quando o associam a uma pessoa carente e melancólica mais uma vez mostrando um conhecimento acerca da depressão que é mais comumente veiculado na sociedade.

A auto-imagem deste grupo está enlaçada com a própria insegurança, tão comumente presente aos que muitas vezes saem de casa para cursar uma faculdade, ou mesmo têm que assumir uma postura de responsabilidade e amadurecimento frente o mercado de trabalho.

Os estudantes no meio do curso, ou seja, entre o 4º e o 7º período, do sexo masculino, já trouxeram uma concepção mais naturalizada da depressão quando esta é representada associada à desilusão e a idéia de morte, esta última simbolizando a dor pela perda de alguém ou as tentativas de suicídio. A auto-imagem destes estudantes já ganha uma maior liberdade de expressão, levando-os a falar em responsabilidade e em aspectos físicos com conotação positiva, como esbelto, bonito, forte.

Destaca-se, portanto, algumas diferenças de gênero, apontando para algumas concepções da depressão quando as jovens do sexo feminino relatam mais aspectos subjetivos como sentimentos ruins e melancolia, trazendo também para si questões referentes à insegurança. Os jovens do sexo masculino trazem questões mais objetivas como a morte, questões de responsabilidade também são objetivadas por eles, de acordo também com pesquisas realizadas no contexto adolescente na cidade de João Pessoa, Paraíba (Barros, Coutinho, Araújo, & Castanha, 2006).

Pesquisas realizadas por Braconnier e Marcelli (2000), em Lisboa, apontam para um índice de depressão mais elevado para participantes do gênero feminino (t = -2,22; p <0,05, com sexo feminino apresentando 6,4%; n=9, relativamente ao sexo masculino 6%; n=7). A pesquisa aponta ainda para o fato de os adultos jovens apresentarem maiores níveis de depressão, devido ao fato de existir uma maior pressão exercida por parte do meio em que estão inseridos, de uma maior responsabilidade, e são criadas ainda algumas expectativas acerca do seu comportamento que por vezes é difícil de atingir.

Já na faixa etária dos estudantes acima de 24 anos, que foi significativo para o grupo que não apresentou sintomas de depressão, a consciência da doença é mais comumente associada à angústia, o sofrimento é uma característica presente ao que sofre de depressão, sob o ponto de vista dos alunos que já passaram por um maior aprofundamento de estudo, ao longo do curso de Psicologia, no qual puderam ter um melhor contato com o estudo da depressão. Assim como há uma maior objetividade de vida, pelo próprio fato de terem conseguido chegar ao final do curso, mesmo diante das adversidades sociais, como é o caso de constantes greves, que ocorrem nas universidades federais, apesar destes acadêmicos ultrapassarem o tempo médio de cinco anos para concluírem o curso universitário, eles se descreveram como sendo dedicados, tímidos, otimistas e perseverantes.

Alguns jovens sentem dificuldade em interiorizar a noção de responsabilidade, indispensável à vida pessoal e social, por vezes sendo pressionados para conseguirem atingir os seus próprios objetivos. No entanto, a maioria dos jovens adultos acede a este sentido de responsabilidade, muitas vezes, através de reflexões intelectuais, cada vez mais usuais, e de tarefas concretas que eles próprios reivindicam (Braconnier & Marcelli, 2000).

Questões referentes à perda foram elucidadas nas falas dos atores sociais do presente estudo, assim como estudos desenvolvidos por Dubovsky e Dubovsky (2004), os quais afirmaram que as perdas são acontecimentos da vida que têm sido mais confiavelmente associados à depressão.

É possível observar a generalização e a naturalização da depressão associada à tristeza, fortemente presente na fala dos participantes, nesta investigação e em outras realizadas por Coutinho (2005) e Scivoletto, Nicastri e Zilberman (1994), onde a tristeza emergiu como elemento figurativo em todas as faixas etárias (crianças, adolescentes, adultos e idosos).

Em face dessas exposições, é possível mencionar que o conhecimento do senso comum dos estudantes do curso de Psicologia, estrutura a representação social da sintomatologia depressiva objetivada nos elementos tristeza, melancolia, angústia e desilusão, o que vem corroborar com Coutinho (2005), a qual afirma que toda pessoa vivencia a tristeza, enquanto demonstração de estado emotivo, porém esta tristeza enquanto sintoma patológico perdura, mesmo que algo motivacional ocorra.

 

Considerações Finais

Os dados apreendidos possibilitaram o conhecimento consensual e particular destes jovens, de acordo com a sua inserção psicossocial, socioafetiva e cultural, revelando que os participantes deste estudo objetivaram suas representações sociais da depressão num vínculo de apoio e necessidade de ajuda, assim como a carência afetiva também foi fortemente apontada como desencadeante depressivo, quando emerge nos elementos "sozinha" e "solitária".

De acordo com os diferentes campos semânticos abordados, tornou-se evidente que os fatores associados à percepção de si mesmos são elaborados na interface do grupo com a realidade social do contexto em que vivem, ou seja, no funcionamento sócio-cognitivo articulado à realidade sociocultural de cada um. Segundo Coutinho (2005), a depressão, vem recebendo significados que vão se transformando de acordo com o meio social e a época em que fazem parte, articulando o conhecimento científico e o senso comum havendo, uma relação de influência mútua e permanente entre estes dois universos, os quais circulam através dos meios de comunicação e que são assimilados e reelaborados socialmente.

Compreender a forma como os estudantes de Psicologia se posicionam face ao fenômeno da depressão é um passo necessário diante da formação desses futuros profissionais, enquanto agentes promotores da saúde. Almeja-se que os resultados desta pesquisa auxiliem para a implementação de conteúdos correlatos nas grades curriculares nos cursos de Psicologia, contribuindo para um melhor aperfeiçoamento profissional em suas práticas com pessoas que vivenciam no seu cotidiano a síndrome da depressão.

A presente pesquisa, não intencionou abarcar toda a problemática da depressão, pois, como foi enfatizado no início, procurou ser estudada a depressão reativa, ou seja, uma depressão desencadeada por fatores externos. Reconhecese ainda que o presente estudo não esgotou as discussões sobre o tema da depressão em universitários, fazendo-se necessário investigar, em futuras pesquisas, um número maior de sujeitos que respondam aos instrumentos, assim como diferentes cursos e outros fatores que possam vir a influenciar de alguma forma a vivência da depressão, como fatores sócio-econômicos, religião e laços familiares, objetivando uma maior abrangência na realidade do contexto pesquisado.

 

Referências

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Recebido: 23/12/2006
1ª revisão: 08/05/2007
2ª revisão: 10/12/2007
Aceite final: 14/04/2008

 

 

* Endereço para correspondência: Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas Letras e Artes, Campus I, Campus Universitário, s/n, Cidade Universitária, João Pessoa, PB, 58059-900. E-mail: alineufpb@hotmail.com