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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.23 no.1 Porto Alegre Jan./Apr. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722010000100020 

OUTROS ARTIGOS

 

Correlatos valorativos de atributos desejáveis de um/a parceiro/a ideal

 

Value correlates of desirable attributes of an ideal partner

 

 

Valdiney Veloso Gouveia*; Patrícia Nunes da Fonseca; Rildésia S. V. Gouveia; Pollyane K. Costa Diniz; Maria de Fátima Baracuhy Cavalcanti; Emerson Diógenes de Medeiros

Universidade Federal da Paraíba

 

 


RESUMO

Os objetivos deste estudo foram (a) conhecer em que medida e direção os valores humanos se correlacionam com os atributos desejáveis de um/a parceiro/a ideal; (b) saber quais destes atributos seriam considerados mais importantes em um parceiro ideal; e (c) avaliar se a importância dada a tais atributos desejáveis variaria em razão do sexo dos participantes. Fizeram parte da pesquisa 421 pessoas da população geral de João Pessoa (PB), com idade média de 25,9 anos, a maioria do sexo feminino (56,8%), solteira (70,5%) e com curso superior (65,4%). Estes responderam a Escala de Atributos do Parceiro Ideal, o Questionário dos Valores Básicos e perguntas demográficas. Os resultados indicaram que um conjunto consistente de subfunções valorativas se correlacionou com os atributos desejáveis de um/a parceiro/a ideal (por exemplo, as subfunções experimentação e normativa se correlacionaram com as dimensões atlética e tradicional, respectivamente). Por outro lado, revelaram também o papel do sexo dos participantes na diferenciação da importância dos atributos desejáveis; os homens valorizaram mais o atributo atlético e as mulheres o sociável . Estes resultados foram discutidos tendo-se em conta pesquisas prévias sobre a importância que homens e mulheres dão a atributos desejáveis de parceiros/as ideais.

Palavras-chave: Valores; Relação; Interpessoal; Atributos; Parceiro.


ABSTRACT

This study had three main aims: (a) to know to what extend the human values are correlated with desirable attributes of an ideal partner; (b) to identify what attributes could be considered most important for an ideal partner; and (c) to assess if the importance assigned to such desirable attributes vary according to participants' gender. Four hundred twenty one people of general population from João Pessoa-PB took part in the study with mean age of 25.9 years old. Most of them were female (56.8%), single (70.5%), and with undergraduate degree (65.4%). They answered the Attributes of Ideal Partner Scale, the Basic Value Survey and demographic questions. Results indicated that a consistent set of value subfunctions were correlated with the desirable attributes of an ideal partner (e.g. the subfunctions excitement and normative were correlated with athletic and traditional dimensions, respectively). On the other hand, it was observed the role of participants' gender in differentiating the importance assigned to desirable attributes; the men appreciated more the athletic attribute, and the women did with respect to the sociable attribute. These findings were discussed based on previous research about the importance that men and women give to desirable attributes of ideal partners.

Keywords: Values; Relationship; Interpersonal; Attributes; Partner.


 

 

As transformações ocorridas após a Revolução Industrial provocaram mudanças no comportamento humano, principalmente nos relacionamentos interpessoais entre o homem e a mulher, quando da incorporação da mão de obra feminina no mercado de trabalho e da necessidade da participação masculina no contexto familiar (Nogueira, 2004). Contribuindo para um cenário social mais igualitário entre ambos os sexos, teve lugar a Revolução Sexual. Esta ocasionou modificações no conjunto de idéias e crenças sobre o papel da mulher na sociedade e na família, as quais lhe afirmaram direitos no casamento, no amor e na sexualidade (Silva et al., 2005).

Conjugado a estas mudanças, esteve o avanço científico-tecnológico que instigou alterações nos valores culturais e sociais e, conseqüentemente, influenciou as relações conjugais (Garcia & Tassara, 2003; Gomes & Paiva, 2003). Na dimensão cultural, presume-se que ocorreram modificações nos valores dos membros da família. Por exemplo, percebe-se na prática diária que alguns comportamentos antes valorizados no seio familiar, como "almoçar com todos os membros da família sentados à mesa" ou "assistir televisão todos reunidos na sala", na atualidade, parecem já não ter tanta relevância; é comum constatar uma dispersão dos familiares durante as refeições e, muitas vezes, o isolamento de alguns deles, que optam por assistir programas específicos de televisão em suas acomodações.

Outro ponto a ser ressaltado refere-se à dimensão social do papel do homem e da mulher no contexto econômico. Neste caso, o desenvolvimento tecnológico acelerado vem despertando em homens e mulheres uma instabilidade emocional frente à necessidade de aperfeiçoamento profissional, mudança de trabalho ou possibilidade de perda de emprego. Estes aspectos repercutem de maneira negativa nas relações conjugais, principalmente para o homem, que tem, dentro do modelo tradicional de relacionamento, o papel de provedor (Gómez, 2006). Frente a um possível desemprego, o homem pode vir a apresentar doenças como a ansiedade e a depressão (Álvaro, 1992).

Há de se considerar também a oferta de mercado em termos de bens materiais e o comportamento de consumo exagerado dos cônjuges. Neste caso, há um excesso de horas de trabalho por parte dos cônjuges a fim de obter o poder aquisitivo necessário para atender às expectativas da sociedade de consumo e da inserção social. Esse afã de êxito e sucesso profissional, traduzido por valores extrínsecos (por exemplo, prestígio, poder, realização), tende a afastar os familiares, principalmente nas atividades que poderiam realizar em conjunto. Talvez, mais preocupante é que isso pode resultar em prejuízo ao bem-estar psicológico de cada um (Kasser & Ahuvia, 2002) e, inclusive, repercutir negativamente nas suas vidas sexuais (Beutel, Stöbel-Richter, & Brähler, 2007).

O acesso da população aos recursos tecnológicos, principalmente o computador e a Internet, também trouxe mudanças de comportamento dos membros da família (Baym, Zhang, Kunkel, Ledbetter, & Lin, 2007). Por exemplo, tem-se a sensação que cônjuges e/ou filhos passam mais horas em frente ao computador que interagindo entre si. No caso específico do relacionamento homem-mulher, começa a haver distanciamento entre os casais, limitação do companheirismo, da afetividade e da comunicação, ocasionando um enfraquecimento de atributos importantes na relação conjugal que, por sua vez, pode levar a insatisfações e a comportamentos de traição (Hertlein & Piercy, 2006; Millner, 2008).

Diante do contexto descrito, é pertinente questionar, por exemplo, que atributos pessoais são desejáveis que os cônjuges apresentem nos dias de hoje? Este questionamento, apesar de ser relevante, permitindo configurar as novas relações entre casais, não parece ter ocupado demasiadamente os pesquisadores no Brasil; exceções podem ser observadas (Féres-Carneiro, 1997, 1998; Silva et al., 2005), merecendo atenção no decorrer deste texto. Por exemplo, em busca realizada no Index Psi (2008), empregando-se a expressão "atributos desejáveis", encontraram-se onze publicações; destas, uma única se aproximava do tema, referindo-se à desejabilidade e às conseqüências de serem assumidos papéis sexuais no Nordeste (Radice, 1987). Por outro lado, quando considerada a expressão "atributos pessoais", foram identificadas 25 publicações; porém, unicamente quatro delas tinham alguma relação com o tema ora discutido, mas enfocando, principalmente, identidade de gênero, isto é, as identidades masculina e feminina e seus correlatos com os valores humanos (Ferreira, 1993), a auto-estima (Ferreira, 1994) e as atitudes frente à mulher (Ferreira, 1999), bem como procurando comparar a masculinidade entre amostras de civis e militares (Souza & Ferreira, 1997).

É evidente, portanto, a escassez no país de pesquisadores nesta área e publicações que tenham em conta este tema. Entretanto, cabe destacar, o Brasil tem sido incluído em diversas publicações internacionais levadas a cabo por David M. Buss e seus colaboradores, que em 1985 obtiveram respostas de 630 brasileiros (Buss et al., 1990; Shackelford, Schmitt, & Buss, 2005; Stone, Shackelford, & Buss, 2007). Portanto, considerando estes aspectos e o fato de ser importante compreender o que tem promovido a aproximação das pessoas, sobretudo em contexto de intimidade, justifica-se o presente estudo. Demanda-se a seguir discutir mais detidamente as relações entre casais e o que cada pessoa espera encontrar na outra.

 

Relações entre Casais e Atributos Desejados

De acordo com Perlin e Diniz (2005), o contrato matrimonial clássico começou a ser questionado frente às mudanças ocorridas na sociedade, que, conseqüentemente, afetaram a experiência conjugal. No século XIX e até a primeira metade do XX, aproximadamente, o casamento era constituído sob a égide de famílias que visavam interesses políticos e econômicos, de modo que o patriarca escolhia o esposo para sua filha, não importando a opinião que esta tinha a respeito da decisão de casar (Áries, 1978). Afinal, as mulheres não tinham direito de tomar decisões acerca de suas vidas. Na atualidade, entretanto, as pessoas se casam, principalmente, por razões de natureza afetiva e sexual (Perlin & Diniz, 2005; Silva et al., 2005), sendo as escolhas feitas pelas pessoas envolvidas no processo, revelando assim relações conjugais em um patamar diferente do que até então fora visto na história do casamento. Geralmente, homens e mulheres se conhecem e decidem o destino de suas vidas conjugais, estabelecendo entre eles uma "união contratual".

O relacionamento conjugal tem sido estudado com avidez durante décadas, justificando-se em razão de ser um aspecto relevante na vida das pessoas e na manutenção da sociedade (Villa, Del Prette, & Del Prette, 2007). É na vivência do casamento contemporâneo que o homem e a mulher se confrontam com duas forças paradoxais, isto é, a tensão entre a individualidade e a conjugalidade. Portanto, nos dias de hoje o casal vive entre dois pólos: os valores individualistas e os coletivistas. No primeiro caso, o casamento está mais baseado na autonomia e satisfação de cada cônjuge do que propriamente nos laços de dependência. Os parceiros buscam seus próprios interesses na relação que, quando não satisfeitos, termina sendo destituída. No segundo caso, onde o casal prioriza os valores coletivistas, busca-se construir uma relação conjugal onde há um ponto de intersecção entre os desejos e os interesses dos parceiros, de modo que os projetos individuais tornam-se apenas um (Féres-Carneiro, 1998).

Em estudo realizado por Perlin e Diniz (2005), a maioria dos homens e das mulheres participantes percebeu o casamento como feliz; todavia, os homens mostraram-se mais satisfeitos com o matrimônio do que as mulheres. Estes autores atribuíram este resultado ao fato de as mulheres arcarem com um ônus desproporcional na execução de diversos papéis no relacionamento. Por exemplo, a mulher sente-se mais cobrada uma vez que tem que desempenhar a contento os papéis de mãe, esposa, dona de casa e profissional. Quanto aos homens, apesar da necessidade latente de sua ajuda nas atribuições familiares, reservam-se, primordialmente, ao trabalho fora de casa, mostrando-se mais acomodados e satisfeitos com sua situação familiar. Este perfil, comentam os mesmos autores, revela resquícios de um modelo tradicional de casamento baseado na família patriarcal.

Em países coletivistas e menos desenvolvidos economicamente, as pessoas parecem indecisas quanto ao papel do sentimento (amor) na escolha do cônjuge para se casar. Já em países ocidentais, em desenvolvimento ou desenvolvidos, que gozam de melhores condições econômicas (por exemplo, Estados Unidos, França), o amor é um dos principais requisitos para o casamento (Silva et al., 2005).

Apesar de o amor ser apontado como variável importante na escolha do parceiro, este também parece ser influenciado por outras variáveis igualmente importantes. Petruccelli (2001) relatou que os grupos social e racial podem favorecer determinadas uniões. Analisando os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1999, este autor buscou verificar a influência da endogamia e da exogamia na escolha do cônjuge; endogamia indica que esta escolha se deu por parceiros do mesmo grupo racial, enquanto a exogamia indica a escolha de parceiros de outro grupo racial. Especificamente, constatou que os parceiros de raça branca apresentaram taxas maiores de endogamia, e os do grupo da população negra apresentaram menores taxas. Comparando as uniões endogâmicas e exogâmicas em função do sexo dos parceiros, ele observou que no primeiro tipo de relação os homens apresentaram-se de forma predominante; no segundo tipo, contrariamente, as mulheres se encontraram com número maior de casos. Quando este autor considerou as cinco regiões do Brasil, encontrou que no Sul e Centro-Oeste estavam os relacionamentos conjugais que apresentaram níveis extremos de endogamia.

Em pesquisa realizada em 37 culturas sobre a escolha do parceiro ideal para fins de casamento ou relação duradoura, Buss (1989; Buss et al., 1990) encontrou diferenças entre os gêneros. Constatou que as mulheres tendem a valorizar mais do que os homens a capacidade de ganho material. Já os homens deram mais relevância à capacidade reprodutiva da mulher. Estes mesmos resultados foram observados quando considerada a amostra específica do Brasil. Constatou-se igualmente neste país que os homens deram mais importância à boa aparência, enquanto as mulheres acentuaram mais a sociabilidade. De acordo com Kenrich, Sadalla, Groth e Trost (1990), as mulheres são mais cuidadosas na escolha do parceiro para qualquer tipo de envolvimento, o que não ocorre com os homens, exceto quando há interesse de uma relação para casamento. Asseveram estes autores que, em se tratando de selecionar os atributos importantes do parceiro, a mulher considera características como ser compreensivo, gentil e inteligente.

Féres-Carneiro (1997) verificou que homens e mulheres valorizavam as mesmas qualidades (fiel, companheiro, íntegro, carinhoso e apaixonado) nos parceiros, embora as ordens destas não sejam as mesmas. Os atributos menos valorizados pelos homens e mulheres foram a crença religiosa e a juventude do parceiro. Os homens não valorizavam a capacidade econômica, a ambição e a competência profissional de suas parceiras. Por outro lado, as mulheres não valorizavam a ausência de ciúme, a capacidade para ter filho e a atração física em seus parceiros. Dentre os atributos estudados, observou-se que a maioria dos homens privilegiou a atração física como o mais importante para a escolha da parceira, enquanto as mulheres majoritariamente valorizaram a capacidade econômica nas escolhas dos respectivos parceiros.

Silva et al. (2005) realizaram um estudo no estado do Rio de Janeiro com 225 mulheres entre 31 e 60 anos, a maioria casada ou convivente com companheiro, procurando conhecer os atributos que estas consideravam importantes para um parceiro ideal. Dentre os atributos que as mulheres não consideraram importantes figuraram a aparência física e a relação sexual. Quanto às características mais importantes, referiram-se ao parceiro ideal como uma pessoa de bom caráter, sincero, fiel, asseado e que dialogue. Seguiram-se a estas respostas, embora em menor proporção, que o parceiro fosse compreensivo, carinhoso, inteligente, trabalhador, que dividisse as tarefas domésticas e que gostasse da vida social. Existem também evidências de que as mulheres do mundo contemporâneo, principalmente aquelas que atuam no mercado de trabalho, demonstram ser mais exigentes com relação ao comportamento masculino, seja na área social, afetiva, sexual ou profissional (Perlin & Diniz, 2005).

Diante deste contexto, sugere-se que os critérios adotados por homens e mulheres na escolha do parceiro ideal podem ser diferentes, pois visam objetivos e/ou metas distintos. Mas, seguramente, não são apenas fatores concretos (por exemplo, dinheiro, aparência) que vão determinar a escolha. Mesmo que estes fossem preponderantes, provavelmente a decisão acerca dos atributos desejáveis para um/a parceiro/a ideal passaria também por uma contextualização axiológica, isto é, basear-se-ia em princípios que guiam a ação humana (os valores). Apesar desta conjectura, as buscas realizadas na literatura, previamente citadas, não mostraram qualquer estudo que relacionasse os atributos considerados desejáveis no/a parceiro/a ideal e os valores humanos. Esta é precisamente a contribuição principal do presente estudo, demandando esclarecer a concepção assumida dos valores.

 

As Funções dos Valores Básicos

Embora existam modelos mais conhecidos sobre os valores (por exemplo, Inglehart, 1991; Schwartz, 1994), nos últimos anos tem sido elaborado uma teoria mais parcimoniosa a respeito (Gouveia, 1998, 2003; Gouveia, Albuquerque, Clemente, & Espinosa, 2002; Gouveia, Fischer, & Milfont, 2008). Contudo, além da parcimônia, apresenta também a vantagem de ser integradora, permitindo explicar estruturas valorativas vistas, em princípio, como diferentes (por exemplo, os modelos de Ronald Inglehart e Shalom H. Schwartz). Neste sentido, optou-se por adotar o referido modelo, denominado teoria funcionalista dos valores humanos, exigindo descre-vê-lo brevemente.

Gouveia et al. (2008) assumem três pressupostos teóricos ao conceber os valores, a saber: (a) assumem a natureza benevolente do ser humano; (b) admitem que os valores são representações cognitivas das necessidades individuais, demandas da sociedade e institucionais, que restringem os impulsos pessoais e asseguram um ambiente estável e seguro; e (c) consideram como apropriado tratá-los como terminais, ou seja, expressam um propósito em si, sendo definidos como substantivos. Seu modelo tem como foco principal as funções dos valores, escassamente tratadas na literatura (Allen, Ng, & Wilson, 2002).

Tomando em conta os pressupostos antes citados e revendo a literatura acerca dos valores, Gouveia (2003; Gouveia et al., 2008) identificou duas funções consensuais dos valores: eles guiam as ações do homem (tipo de orientação; Rokeach, 1973; Schwartz, 1994) e expressam suas necessidades (tipo de motivador; Inglehart, 1991). Rokeach (1973) divide os valores terminais em sociais, que compreendem àqueles de caráter interpessoal, e pessoais, considerados de foco intrapessoal. Revisando estudos empíricos sobre o tema, Gouveia (2003) observou que alguns valores figuram entre, e são congruentes com os pessoais e sociais; tais valores são denominados por ele de centrais, representando o eixo motivador ao longo do tipo de orientação.

Segundo Gouveia (2003), embora não haja uma correspondência perfeita entre necessidades e valores, é possível identificá-los como expressões das necessidades humanas; portanto, todos os valores podem ser classificados como sendo materialistas (pragmáticos) ou humanitários (idealistas). Valores materialistas referem-se a idéias práticas, e a ênfase nestes valores implica uma orientação para metas específicas e regras normativas. Valores humanitários demonstram uma orientação universal, baseada em idéias e princípios mais abstratos. Tais valores são coerentes com um espírito inovador, sugerindo menos dependência de bens materiais.

Essas duas dimensões funcionais dos valores formam dois eixos principais, sendo o eixo horizontal correspondente ao tipo de orientação e o vertical ao tipo de motivador. Tais dimensões são combinadas em uma estrutura três por dois, ou seja, com três critérios de orientação (social, central e pessoal) e dois tipos de motivadores (materialistas e humanitários), compondo seis quadrantes: social-materialista, social-humanitário, central-materialista, central-humanitário, pessoal-materialista e pessoal-humanitário. A partir das interações dos dois eixos, são identificadas seis subfunções, distribuídas equitativamente nos critérios de orientação social (interacionais e normativos), central (suprapessoal e existência) e pessoal (experimentação e realização). Deste modo, os tipos de motivadores são representados por meio de três subfunções cada: por um lado, existência, realização e normativa, do tipo de motivador materialista, e, por outro, suprapessoal, experimentação e interacional, que cobre o motivador humanitário. Cada uma destas subfunções é descrita como segue (os valores específicos são listados entre parênteses):

Existência (estabilidade pessoal, saúde e sobrevivência). Reúne valores compatíveis com as orientações social e pessoal, situando-se no domínio motivador materialista; o propósito principal destes é assegurar as condições básicas de sobrevivência biológica e psicológica. Estes valores são referência para aqueles que representam as subfunções realização e normativa, sendo existência o motivador materialista principal.

Realização (êxito, poder e prestígio). Está formada por valores que expressam o motivador materialista, com orientação pessoal. As pessoas orientadas por tais valores são focadas em realizações materiais e buscam a praticidade em decisões e comportamentos.

Normativa (obediência, religiosidade e tradição). Esta subfunção compreende uma orientação social, sendo focada em regras sociais, e um princípio-guia materialista, que reflete a importância da preservação da cultura e das normas sociais. Seus valores enfatizam a vida social, a estabilidade grupal e o respeito por símbolos e padrões culturais que prevaleceram durante anos; a obediência é valorizada acima de qualquer coisa.

Suprapessoal (beleza, conhecimento e maturidade). Os valores desta subfunção apresentam orientação central e motivador humanitário. Reconhecidamente, os seres humanos possuem uma necessidade biológica por informação (curiosidade) que os conduzem a uma melhor compreensão e domínio do mundo físico e social. Esta tendência é representada por tal subfunção, que é referência para aquelas interacional e de experimentação; suprapessoal é a principal subfunção na representação do motivador humanitário.

Experimentação (emoção, prazer e sexualidade). Esta subfunção representa o motivador humanitário, mas com uma orientação pessoal. Os valores que a integram favorecem a promoção de mudança e inovação na estrutura das organizações sociais.

Interacional (afetividade, apoio social e convivência). Os valores desta subfunção permitem representar as necessidades de pertença, amor e afiliação, promovendo o estabelecimento e a manutenção das relações interpessoais por parte do indivíduo. Representa o motivador humanitário com orientação social.

Este modelo tem recebido apoio em vários estudos realizados no contexto brasileiro, revelando-se adequado para explicar diversos comportamentos e atitudes sociais, como: a intenção de constituir família (Milfont, Gouveia, & Costa, 2006), o uso de drogas (Pimentel, 2004), o liberalismo sexual (Guerra, 2005) e os comportamentos anti-sociais e delitivos (Santos, 2008). Contudo, apesar de ser intuitiva a relação dos valores com os atributos identificados como desejáveis em um/a parceiro/a ideal, não se encontrou qualquer estudo a respeito. Confia-se, entretanto, que o modelo funcionalista dos valores possa contribuir com o tema, uma vez que sugere que a importância dada a determinados atributos (por exemplo, tradicional) pode ser pautada em subfunções valorativas que primam pela estabilidade do indivíduo (existência) e manutenção do status quo (normativa).

Neste contexto, a presente pesquisa é justificável; permitirá não somente conhecer acerca da influência dos valores na escolha de um parceiro ideal, mas contribuirá na consolidação de uma área de estudo que, de acordo com o que antes se assinalou, parece promissora na psicologia. Diante do exposto, objetivou-se conhecer (a) a presumível relação que a importância dos atributos de um/a parceiro/a ideal tem com as subfunções valorativas, (b) os atributos que os participantes consideram mais desejáveis de um/a parceiro/a ideal e (c) se a importância dada a cada um dos atributos varia em razão do sexo dos participantes.

 

Método

Amostra

Contou-se com uma amostra de conveniência (não probabilística), formada por 421 pessoas da população geral da cidade de João Pessoa (PB). A maioria era do sexo feminino (56,8%), solteira (70,5%) e com curso superior (65,4%). As idades variaram de 18 a 58 anos (M = 25,9, DP = 8,05; 81,9% tinham até 30 anos de idade). Estes tinham renda familiar média de 3.262,42 (DP = 6.518,32; 91,6% ganhavam até R$ 6.000,00), sendo que estes valores, em média, cobriam as despesas de 2,4 membros da família (DP = 1,76). Este valor corresponde à renda familiar dividida pelo número de pessoas que dela dependem.

Instrumentos

Os participantes receberam uma folha impressa, frente e verso, com as seguintes medidas, todas auto-aplicáveis, tipo lápis e papel:

Escala de Atributos do Parceiro Ideal (EAPI). Este instrumento compreende uma versão construída e validada para o contexto brasileiro (Gouveia, 2008). Quando da sua elaboração, embora existisse uma expectativa acerca de atributos que poderiam surgir (Buss, 1989), preferiu-se adotar uma perspectiva exploratória, que poderia resultar em atributos próprios do contexto cultural. Este procedimento tem sido recomendado por Buss et al. (1990). Neste caso, onze pessoas, sete mulheres e quatro homens, foram solicitadas a escrever cada uma 20 atributos que pensassem ser desejáveis em um parceiro ideal. Eliminando sinônimos e antônimos, chegou-se a uma lista com 56 itens que descrevem uma pessoa com quem se pretende casar ou ter uma vida em comum. Os respondentes foram solicitados a indicar quão importante seria que a pessoa (sem diferenciar o sexo) apresentasse cada um dos atributos listados; isso foi feito tendo-se em conta uma escala de cinco pontos, variando de 1 = Nada importante a 5 = Totalmente importante. Estes itens se reuniram em cinco componentes (o alpha de Cronbach e os atributos figuram entre parênteses): sociável (tolerante, atenciosa, discreta, determinada, gentil, compreensiva, solidária, sensível, paciente, decidida, livre e cúmplice; 0,79), tradicional (de boa família, admirada, poderosa, religiosa, elegante, possui bens, saudável, bem sucedida, vigorosa e caseira; 0,77), atlética (sexy, sarada, boa forma, sensual e bonita; 0,79), afetuosa (carinhosa, amável, companheira, alegre, amiga, apaixonada e acolhedora; 0,74) e batalhadora (trabalhadora, corajosa, sincera, responsável e estudiosa; 0,63).

Questionário dos Valores Básicos (QVB). Este instrumento é composto por 18 itens ou valores específicos, avaliando as seis subfunções valorativas como descritas anteriormente (Gouveia et al., 2008): existência, realização, normativa, suprapessoal, interacional e experimentação. Os participantes são solicitados a indicar o grau de importância que cada um dos valores tem como um princípio-guia na sua vida, utilizando uma escala de resposta de sete pontos, com os seguintes extremos: 1 = Pouco importante e 7 = Muito importante.

Caracterização da Amostra. Finalmente, incluíram-se perguntas de caráter demográfico (por exemplo, idade, sexo, estado civil, nível de instrução, renda e número de dependentes) para descrição da amostra, as quais constavam ao final do questionário.

Procedimento

As pessoas foram abordadas em ruas, residências e centros comerciais, tendo participado aquelas que, convidadas, aceitaram colaborar com o estudo. A coleta de dados foi levada a cabo por oito colaboradores devidamente treinados. O respondente preenchia o questionário individualmente, sendo informado que sua participação seria voluntária e anônima. Indicou-se que não haveria resposta certa ou errada, que a participação não traria qualquer ônus ou prejuízo ao participante e que os dados seriam tratados no seu conjunto, assegurando o anonimato. Além disso, esclareceu-se que ao responder e devolver o questionário, o participante estaria aceitando o termo de consentimento livre e esclarecido, auto-rizando considerar seus dados com o fim de pesquisa e eventuais publicações. Em média, 20 minutos foram suficientes para concluir sua participação no estudo.

Análise de Dados

Os dados foram analisados por meio do SPSS (versão 15). Além de estatísticas descritivas (média, desvio padrão, freqüência), calcularam-se correlações de Pearson entre os valores e os fatores que definem um parceiro ideal. Neste caso, em razão do escasso conhecimento acerca deste tópico, decidiu-se separar as amostras de homens e mulheres, descrevendo os padrões de correlações em cada grupo. MANOVAs também foram realizadas com o propósito de comparar as pontuações das pessoas nos cinco componentes de atributos desejáveis de um parceiro ideal, avaliando também se estas variavam em razão do sexo dos participantes.

 

Resultados

Os resultados foram organizados em duas partes principais, relativas aos objetivos do estudo: (a) relação entre valores e atributos de um/a parceiro/a ideal e (b) dimensões de atributos de um parceiro ideal e comparação segundo o sexo do participante.

Relação entre Valores e Atributos de um/a Parceiro/a Ideal

Com o fim de conhecer em que medida e direção as pontuações nas subfunções valorativas se associavam com as dimensões de atributos desejáveis de um parceiro ideal, calcularam-se correlações de Pearson. Nesta oportunidade, decidiu-se computar correlações segundo o sexo do participante, sendo os resultados mostrados na Tabela 1. Para tornar a apresentação dos resultados mais clara, tomaram-se como referência as variáveis que podem ser pensadas como critérios ou dependentes, isto é, os atributos desejáveis do/a parceiro/a ideal.

 

 

Sociável. A importância atribuída a este atributo se correlacionou direta e significativamente com a pontuação em todas as subfunções valorativas na amostra masculina (r = 0,25 a 0,48, p < 0,01); na feminina, embora todos os coeficientes de correlação tenham sido positivos, foram algo mais fracos (r = 0,05 a 0,38), sendo que duas das subfunções apresentaram coeficientes não significativos (p > 0,05): experimentação (r = 0,05) e normativa (r = 0,08). Consistentemente, com independência do sexo do participante, apreciar como ideal o atributo sociável se mostrou mais fortemente correlacionado com as pontuações nas subfunções suprapessoal e interacional, nesta ordem.

Tradicional. Entre os participantes do sexo masculino, apreciar este atributo como descrevendo uma parceira ideal tem a ver com a importância atribuída às subfunções valorativas realização (r = 0,30, p < 0,01), normativa (r = 0,23, p < 0,01) e experimentação (r = 0,15, p < 0,05). Resultados bastante similares foram observados para a amostra feminina; neste caso, as magnitudes das correlações foram mais fortes (p < 0,01). Especificamente, dar importância a este atributo se pautou nas subfunções valorativas realização (r = 0,33), experimentação (r = 0,25) e normativa (r = 0,20).

Atlética. Os participantes do sexo masculino que consideraram este atributo como importante em uma parceira ideal pontuaram mais em duas subfunções (p < 0,01): experimentação (r = 0,34) e realização (r = 0,29). Embora os coeficientes de correlação na amostra feminina aparentem ser menores, foram na mesma direção antes observada (p < 0,01): experimentação (r = 0,27) e realização (r = 0,18).

Afetuosa. A importância atribuída a este atributo como definidor de uma parceira ideal se correlacionou diretamente com as pontuações nas seis subfunções valorativas (p < 0,01). Entretanto, observaram-se maiores correlações para as três seguintes subfunções: interacional (r = 0,51), suprapessoal e existência (r = 0,43 para ambas). Em se tratando das mulheres, unicamente a subfunção valorativa experimentação não se correlacionou com a importância dada a este atributo (r = 0,07, p > 0,05); as correlações mais fortes corresponderam às subfunções realização (r = 0,53), existência (r = 0,33) e suprapessoal (r = 0,32) (p < 0,01 para todas).

Batalhadora. Os homens apreciaram este atributo na mesma direção em que deram importância a todas as subfunções valorativas (p < 0,05). Destaca-se, entretanto, que as maiores correlações (p < 0,01) corresponderam às subfunções interacional (r = 0,30), suprapessoal (r = 0,29), normativa (r = 0,26) e existência (r = 0,23). Estes resultados foram muito consistentes com os observados para as mulheres, pois todos os coeficientes de correlação foram significativos (p < 0,05), embora algo mais baixos (r = 0,14 a 0,29), destacando-se como mais fortes as correlações das subfunções anteriormente citadas: interacional (r = 0,29), suprapessoal (r = 0,27), existência (r = 0,25) e normativa (r = 0,24).

Em resumo, os valores que servem como princípios-guia na vida das pessoas permitem compreender parte do que pode ocorrer no momento de julgar alguns atributos que podem definir um/a parceiro/a ideal. Este aspecto, como se viu, no geral parece variar pouco em razão do sexo, sugerindo que as prioridades axiológicas podem atuar como critérios transsituacionais no momento de pensar acerca de alguém ideal com quem manter uma relação de afeto profunda. Resta, entretanto, avaliar quais atributos são considerados como mais importantes para definir um/a parceiro/a ideal e se tal importância varia segundo o sexo dos participantes.

Dimensões de Atributos do Parceiro Ideal e Comparação Segundo o Sexo

Procurou-se verificar como se diferenciavam os participantes com relação à pontuação nas cinco dimensões da Escala de Atributos do Parceiro Ideal. Para tanto, realizou-se uma MANOVA para medidas repetidas, constatando diferenças nas pontuações destes componentes [Lambda de Wilks = 0,22; F(4, 417) = 370,04, p < 0,001]. O teste post hoc (Bonferroni) permitiu comparar suas médias, sendo os resultados descritos na Tabela 2.

 

 

Como é possível comprovar nesta tabela, as pontuações médias dos participantes foram diferentes em relação aos cinco fatores da medida de atributos de um/a parceiro/a ideal para casar ou com quem manter uma vida em comum. Especificamente, é mais desejável que o/a parceiro/a apresente atributos do fator afetuosa (M = 4,45), seguido de batalhadora (M = 4,17) e sociável (M = 4,06); tais participantes apreciaram em menor medida atributos dos fatores tradicional (M = 3,18) e, principalmente, atlética (M = 3,07).

Finalmente, foi realizada uma MANOVA tendo o sexo como variável independente (antecedente) e os cinco fatores de atributos do/a parceiro/a ideal como variáveis dependentes. Esta análise permitiu comprovar a importância do sexo [Lambda de Wilks = 0,86, F (5, 415) = 13,56, p < 0,001]. Os testes univariados revelaram diferenças em dois dos cinco fatores. Concretamente, a pontuação média dos homens (M = 3,99) foi inferior a das mulheres (M = 4,12) em sociável (F = 5,97, p < 0,05); por outro lado, no fator atlética (F = 49,98, p < 0,001) os homens alcançam pontuação média (M = 3,38) superior a das mulheres (M = 2,83).

Em resumo, os participantes dão importância diferente aos cinco fatores de atributos desejáveis para a escolha de um/a parceiro/a ideal com quem se quer casar ou conviver. Além disso, em dois destes fatores o sexo explicou a variabilidade de suas pontuações, com os homens apreciando mais a dimensão atlética e as mulheres a dimensão sociável.

 

Discussão

Os objetivos principais deste estudo foram conhecer em que medida e direção os valores humanos se correlacionariam com a importância dada aos atributos desejáveis de um/a parceiro/a ideal, se os participantes davam mais importância a alguns atributos específicos e se esta importância variava de acordo com o sexo destes. Confia-se que tais objetivos tenham sido alcançados. Presume-se que este estudo seja justificável como um primeiro passo para compreender como se relacionam os valores e os atributos desejáveis de um parceiro ideal. Neste caso, permite pensar hipóteses a serem testadas em estudos futuros, sugerindo como a escolha de um/a parceiro/a pode estar fundamentada em prioridades axiológicas.

A propósito do que foi anteriormente comentado, a teoria funcionalista dos valores humanos parece oferecer uma contribuição importante acerca desta temática. Por exemplo, consistentemente como o que poderia ser previsto por esta teoria (Gouveia, 2003; Gouveia et al., 2008), as pessoas que deram importância ao atributo sociável, que inclui elementos como tolerante, gentil e livre, guiaram-se por valores que cumprem as funções suprapessoal e interacional. Claramente, este resultado apóia a concepção de estes valores promoverem uma visão mais universalista do mundo, favorecendo o interesse por manter relações interpessoais mais igualitárias, primando pelo diálogo entre as partes.

No caso do atributo tradicional (de boa família, admirada, poderosa, bem sucedida), este foi mais apreciado por aquelas pessoas que deram mais importância às subfunções normativa e realização, que também seria esperado. Como foi dito previamente, tais valores têm uma orientação pragmática, concreta e hierárquica, evidenciando o respeito pela tradição, sendo compatível com a escolha de um/a parceiro/a que tenha reúna atributos mais conservadores e orientados ao êxito.

Quem deu mais importância ao atributo atlética (sarada, boa forma, sensual) priorizou, sobretudo, valores da subfunção experimentação. Isso é coerente com o que se descreve para esta subfunção, no sentido de que se ressaltam aspectos referentes ao prazer e à excitabilidade. Portanto, desejar uma pessoa com o atributo atlética é típico de quem não se prende a bens materiais ou normas convencionais concretos; almeja-se desfrutar o prazer e as sensações que a boa forma e a sensualidade proporcionam.

Esperava-se que o atributo batalhadora estivesse fortemente correlacionado com a subfunção existência (Gouveia, 2003), que acentua uma orientação materialista, centrada em elementos concretos (saúde, estabilidade pessoal); porém, isso não ocorreu exatamente como esperado. Embora positiva e significativa, a correlação entre estes dois construtos não foi a mais forte. Talvez ela tivesse sido mais nítida em contexto de maior discrepância ou mesmo escassez econômica, em que se ressaltassem idéias materialistas, voltadas para a sobrevivência (Inglehart, 1991).

Finalmente, no que diz respeito ao atributo afetuosa, como esperado, entre os homens se correlacionou mais fortemente com a subfunção interacional, porém, no caso das mulheres, sua correlação foi mais forte com as subfunções que acentuam princípios materialistas (realização e existência). Talvez em razão do contexto tradicional e coletivista em que a pesquisa foi realizada (Gouveia et al., 2002), as mulheres assumam o "afeto" como expressão de algo concreto, um elemento objetivo que permite a manutenção do status quo e assegure a união do casal. Não obstante, estas são explicações preliminares, carecendo de estudos futuros que visem dirimir dúvidas e lançar luz à compreensão da relação entre os valores e os atributos desejáveis de um/a parceiro/a ideal.

Os resultados também evidenciam a relevância de se considerar a variável sexo para compreender tanto a importância diferenciada que as pessoas dão aos atributos do/a parceiro/a ideal como conhecer em que medida esta pode estar correlacionada com os valores humanos. Estudos já apontavam a diferença entre os sexos no que se refere à escolha do parceiro ideal (Buss,1989; Buss et al., 1990; Féres-Carneiro, 1997). Corroborando pesquisas prévias, constatou-se que as mulheres valorizam mais a dimensão social (Silva et al., 2005); os homens valorizam mais do que as mulheres a aparência física (Féres-Carneiro, 1997; Silva et al., 2005). Contudo, quando se coloca em questão um compromisso sério, como o casamento, os homens dão menos importância a este aspecto, como refletido na dimensão atlética; coerente com o que tem sido previamente observado, atributos como afetuosa e batalhadora são mais apreciados nesta conjuntura (Kenrich et al., 1990).

Embora pareçam evidentes as contribuições desta pesquisa, é possível levantar suas limitações potenciais. Primeiramente, destaca-se a especificidade dos participantes; não se tratou de amostra probabilística, mas de conveniência, limitando a generalização dos resultados. Há que se ponderar, não obstante, que se realizou um esforço por incluir pessoas da população geral, evitando empregar a prática comum de pesquisar com universitários. No caso, incluíram-se pessoas de diferentes faixas etárias, escolaridades e níveis sócio-econômicos. Finalmente, destaca-se que foi adotado um delineamento correlacional, o que impede fazer afirmações acerca de relações causais entre os valores humanos e os atributos desejáveis de um/a parceiro/a ideal (Campbell & Stanley, 1979). Neste sentido, não é possível afirmar, por exemplo, que a importância dos atributos tradicional, sociável e afetuosa é função da prioridade dada aos valores normativos; a falta de controle das condições de pesquisa e a presença de uma terceira variável (por exemplo, a cultura em que estão inseridos) podem favorecer explicações alternativas às relações observadas entre tais construtos.

Concluindo, parece evidente que atributos desejáveis em um parceiro com quem se casar ou manter uma relação duradoura têm raízes nas prioridades axiológicas das pessoas. Não obstante, considerar o sexo destas pode auxiliar no conhecimento de que atributos são mais apreciados. Embora não sejam recentes os estudos sobre atributos desejáveis em um parceiro (Buss, 1989; Buss et al., 1990), o presente artigo oferece uma contribuição para a literatura em ao menos duas direções: (a) representa uma atualização do conhecimento, descrevendo os atributos que homens e mulheres paraibanos desejam hoje em dia em um/a parceiro/a ideal; e (b) procura relacionar a preferências por tais atributos com as prioridades axiológicas que as pessoas apresentam, reconhecendo o processo de socialização valorativa como decisivo no âmbito das relações interpessoais. Estudos futuros deverão ser realizados com o intuito de comprovar estes resultados, demandando-se ainda acrescentar outras variáveis que podem contribuir para entender que atributos as pessoas esperam encontrar no/a parceiro/a ideal.

 

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Recebido: 04/06/2008
1ª revisão: 02/12/2008
Aceite final: 22/01/2009

 

 

* Endereço para correspondência: Universidade Federal de da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Psicologia, Doutorado em Psicologia Social, João Pessoa, PB, Brasil, CEP 58051-900. Tel.: +(55) 83 3216 7924; Fax: +(55) 83 3216 7064. E-mail: vvgouveia@gmail.com