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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.23  supl.1 Porto Alegre  2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722010000400002 

A internacionalização dos programas de pós-graduação em Psicologia: perfil e metas de qualificação

 

Internationalization of graduate programs in Psychology: profile and qualification goals

 

 

Anna Carolina Lo BiancoI; Sebastião Sousa AlmeidaII; Silvia Helena KollerIII; Vera PaivaIV

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro
IIUniversidade de São Paulo Ribeirão Preto
IIIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul
IVUniversidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


Resumo

O trabalho examina a internacionalização como parte fundamental nos esforços para alargar o horizonte de interlocuções das pós-graduações no país e para a maior qualificação dos mesmos. Circunscreve a internacionalização no fenômeno indiscutível da globalização ao mesmo tempo em que aponta a necessidade de se manter uma visão crítica sobre suas consequências para o funcionamento das instituições. Analisa, a partir das categorias de formação e produção, dados relativos à internacionalização em 57 Programas de Pós-Graduação em Psicologia. Conclui apontando para a acentuada valorização da publicação em periódicos internacionais por parte das agências avaliadoras. Por outro lado, observa as inúmeras ações, que visando à internacionalização, apresentam-se de forma mais diversificada acompanhando a especificidade das subáreas que constituem a Psicologia.

Palavras-chave: Pós-Graduação; Internacionalização; Qualificação; Publicação.


Abstract

Internationalization is examined as part of the efforts pursued by graduate courses in Brazil to enhance the possibilities of exchanges with courses abroad which may improve their qualification. Even encompassed by the indisputable phenomenon of globalization, a critical view must be kept over internationalization, especially on its consequences for institutional functioning. Data of 57 Psychology graduate programs regarding academic education and production are analyzed. Conclusions point to the accentuated valorization for publishing in international journals as far as evaluating agencies are concerned. On the other hand, aiming the internationalization, innumerable actions which are presented in a more diversified form in order to follow the sub-areas covered by Psychology in Brazil are observed.

Keywords: Graduate studies; Internationalization; Qualification; Publishing.


 

 

O Seminário Horizontes da Pós-Graduação em Psicologia, realizado em novembro de 2008, ofereceu a oportunidade para que a comunidade se detivesse no exame cuidadoso das decisões cruciais que vem sendo levada a tomar. O presente texto, que procurou contribuir com subsídios para a discussão daquele momento, retoma dela novos argumentos e vem agora reafirmar alguns dados relevantes sobre o perfil de qualificação e internacionalização que os Programas apresentam ou que visam a sustentar como participantes do Sistema Nacional de Pós-Graduação. Utiliza para tanto as informações da última Avaliação Trienal dos Programas de Pós-Graduação conduzida pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em 2007 (baseada em dados do período 2004-2006) (CAPES, 2008). Recorre ainda a levantamentos disponíveis no documento Plano Nacional de Pós-Graduação (PNPG) 2005-2010, divulgado pela mesma CAPES e pelo Ministério da Educação (MEC) (PNPG, 2004). Parte, sobretudo, da importância que adquire no referido debate a consideração dos objetivos de internacionalização e dos modos em que essa se inscreve na realidade da subárea de cada Programa, vale dizer, o quanto é relevante para que ele alcance os objetivos de qualificação da formação e da produção de conhecimento a que se propõe.

Enquanto a globalização é um fato inequívoco em que estamos todos implicados, é ao mesmo tempo necessário mantermos uma visão crítica sobre sua incidência e suas consequências para o funcionamento de nossas instituições. Nesse sentido, de um lado, a internacionalização das pós-graduações - que tomaremos de início como parte do fenômeno da globalização a que estamos submetidos - tem relevância e função indiscutíveis. Ela é parte fundamental nos esforços para alargar o horizonte de interlocuções do Programa, colocando seus membros em contato produtivo com uma comunidade científica mais ampla. Constitui-se, assim em importante caminho para favorecer uma maior qualificação dos Programas. De outro lado, no entanto, é fundamental que mantenhamos uma interrogação sobre o que queremos quando pensamos em internacionalização, e sobre as implicações para o funcionamento e o atendimento aos objetivos de cada Programa em suas características singulares.

A partir de uma breve referência ao contexto histórico ou às características da história das ideias no país podemos situar os sentidos dados à internacionalização, atualmente, pela comunidade científica e pelas agências de fomento que avaliam a Pós-Graduação nacional. E, talvez mais que situar os sentidos, que dificilmente se formulam num consenso, possamos examinar os valores em jogo quando se trata de internacionalização.

Remontando a um passado não muito distante, encontramos um mal-estar constitutivo na camada culta da sociedade. Uma autocrítica severa fez com que ela se experimentasse como atrasada, andando a reboque dos avanços nos países centrais. Esforçou-se, então, em se atualizar para colocar-se a altura dos desenvolvimentos europeu e americano. Não viu que as condições políticas e econômicas sendo diferentes - o país era escravagista - iriam levar a um distanciamento cada vez maior entre os estratos intelectuais, mais ricos, e a grande massa de pobres. Enquanto os primeiros se aplicavam em modernizar-se tomando as ideias liberais, os segundos eram excluídos do universo da cultura contemporânea.

Com perdão da menção rápida a quadro tão complexo, é necessário, quando agora tratamos de qualificação e internacionalização, não o perdermos de vista. Do mesmo modo como é impossível desconsiderarmos o fenômeno mais recente - tão recente quanto definitivo e marcante quando se trata de internacionalização -, que é a internet. Não temos nesse ponto um completo domínio sobre os efeitos que a troca quase ilimitada de conhecimento irá trazer. Referimo-nos a uma "quase" total falta de fronteiras, por esbarrarmos com alguns limites - o das línguas, da impossibilidade de entendimento de um texto em línguas estrangeiras que não dominamos. No entanto, é certo que a rede nos lança de forma evidente e incontestável num mundo globalizado.

Trata-se então de ver que lugar ocupará a Pós-Graduação em Psicologia frente ao cenário internacionalizado em que está imersa por fatores históricos, por sua tradição, bem como por sua inserção no novo contexto social (Lo Bianco, 2009). É necessário, nesse momento, admitirmos que, para além do fim pragmático de se inserir num mundo globalizado, a Pós-Graduação na área tem a responsabilidade de sustentar as consequências que tal cenário traz para as ações que toma sejam elas voltadas ou não para a internacionalização.

 

A área de Psicologia face ao Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG)

Os dados do Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) mostram que todas as áreas de conhecimento apresentaram expressivo crescimento nos últimos anos. Se tomarmos o período 1976-2004 como base podemos observar um salto de 673 para 2.993 programas de Pós-Graduação stricto sensu recomendados pela CAPES, indicando um crescimento de cerca de 5,6% ao ano (PNPG, 2004).

 

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Esse aumento no número de programas levou por sua vez a um aumento significativo do número de alunos matriculados que passou de 37.195 em 1987 para 112.314 em 2003, com consequente aumento no número de alunos titulados, em torno de 757% no caso de mestrado e 932% no caso de doutorado.

Todo esse crescimento no número de programas e de alunos também foi acompanhado de um crescimento no número de docentes credenciados em programas de Pós-Graduação, que hoje conta com cerca de 32.000 docentes em todo o país.

De maneira ainda mais marcante, a área de Psicologia acompanhou esse crescimento do número de programas no SNPG, saltando de 13 para 61 programas entre 1976 e 2007 - um expressivo crescimento de cerca de 470%.

 

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Dos 55 programas considerados na avaliação trienal de 2007, observamos que 12 (21,8%) obtiveram a nota 3, 21 (38,4%) a nota 4, 19 (34,5%) a nota 5 e 3 (5,3%) a nota 7. É interessante notar que a área não conta com nenhum programa com nota 6 na última avaliação.

 

A Psicologia

A Avaliação Trienal realizada pela CAPES em 2007 faz ressaltar mais uma vez a multiplicidade acentuada de subáreas. Esta, por seu turno, aponta para uma característica constitutiva da Psicologia: a somatória de inúmeros saberes e práticas que não comportam uma definição unívoca.

Deparamo-nos, portanto, com diferentes definições de Psicologia e de seu objeto de estudo, bem como de métodos de pesquisa diversos. A Psicologia é o estudo do comportamento, ou o estudo das representações, ou ainda o estudo do sujeito (do inconsciente), ou da subjetividade, ou o estudo da cognição, ou o estudo do desenvolvimento humano, ou estudo das interações grupais e organizacionais etc. e, cada objeto desses se deixa apreender de uma maneira diferente, i.e., exige procedimentos investigativos específicos.

Cada uma das subáreas terá interface com outras disciplinas que acabam por formar um espectro extremamente abrangente e complexo: há subáreas que fazem interface com a literatura, a linguística, a filosofia; há aquelas que estão próximas da sociologia, da antropologia, da ciência política; há outras próximas às ciências econômicas ou da administração; há aquelas que se enfileiram junto às ciências da saúde, às áreas mais exatas da fisiologia ou da biologia - as interfaces são, na verdade, incontáveis. Procuraremos tratar, então, da internacionalização levando em conta a multiplicidade de pontos de referência em que se apóia a Psicologia.

 

Internacionalização da pós-graduação em Psicologia: formação e produção

Foram escolhidas duas categorias - formação e produção - para servirem de apoio para o exame das questões com que teremos que lidar. Ainda que o que tenha sido feito nesse campo muitas vezes se baseie nas ciências exatas, cujas características são marcadamente distintas das que apontamos acerca das várias subáreas da Psicologia, pode-se contar com propostas de formação e com índices de produção já estabelecidos há algumas décadas pela área, segundo orientação da CAPES. É, pois, sob esse ponto de vista que será feita a análise a seguir.

A Formação

Pelo menos dois âmbitos em que se entende a formação de docentes e pesquisadores estão aqui em jogo. O primeiro orienta-se pela idéia de um mercado internacional competitivo, que dá valor ou não ao profissional (ao pesquisador e professor). O segundo focaliza a formação de recursos humanos de alto nível, face às necessidades nacionais e regionais. Os dois âmbitos estão relacionados e em ambos o objetivo é desenvolver a capacidade dos Programas de se tornarem centros de excelência equiparáveis aos estrangeiros. Mas há consequências sensivelmente diferentes caso se privilegie uma ou outra maneira de se entender para o quê se forma.

Se os pesquisadores são preparados para atender à demanda do mercado internacional, é este mercado que ditará as condições dessa formação. Para responder às demandas do mercado, os Programas terão que se adequar às exigências dele. Ele decidirá que saberes e práticas serão privilegiados. Os efeitos dessa concepção, em última instância, levarão os Programas mais bem sucedidos - aqueles que oferecem melhores chances para a inserção no mercado - a se oferecerem como mercadorias valiosas aos alunos transformados em consumidores e não em sujeitos de um projeto pensado por e para brasileiros.

Ter como alvo a inserção no mercado significa ainda investir na empregabilidade dos discentes para aumentar as chances deles ensinarem e pesquisarem no estrangeiro. Num país que se encontra em déficit com o número de pesquisadores em todas as áreas, e carente de pesquisadores dedicados a dar conta de questões próprias de nosso contexto sócio-cultural e político, chama a atenção a volta para um objetivo que acaba por não fazer reverter a formação dos discentes e o investimento de grande parte do orçamento do Estado no campo da educação superior, ciência e tecnologia para as necessidades com que nos deparamos. Além disso, nessa mesma lógica, visando o lucro e a redução das despesas para aumentar sua competitividade no mercado, os objetivos da instituição formadora não serão da esfera das escolhas do sujeito ou do âmbito social.

A internacionalização da formação para atividades associadas ao ensino e à pesquisa na Pós-Graduação poderá, no entanto, ser considerada de uma segunda maneira. Nos documentos das agências, enquanto não encontramos menção ao mercado, é frequente a preocupação com a integração de todo o SNPG no debate internacional.

A CAPES, cujo objetivo primeiro foi a capacitação daqueles envolvidos com o ensino superior, explicita sua direção afirmando que se trata de "formar segundo as necessidades nacionais e regionais". Em seu relatório da Avaliação Trienal de 2007 considera que:

uma das principais inovações dessa Avaliação consiste no fato de ter-se efetivamente implantado a convicção de que o mestrado e, sobretudo, o doutorado exigem, como condição necessária, a qualidade da produção intelectual, mas esta não é requisito suficiente para atender à missão de formação de recursos humanos altamente qualificados, que caracteriza a Pós-Graduação. Manteve-se a condição de uma produção científica de qualidade cada vez mais elevada, mas acrescentou-se a exigência de uma formação de mestres e doutores que corresponda à qualidade e quantidade compatíveis com a idade e a vocação do programa. A avaliação tornou-se, assim, mais abrangente. Exige grupos de pesquisa, mas exige também que eles formem recursos humanos, isto é, mestres e doutores. (CAPES, 2008).

O papel da produção intelectual na internacionalização será tomado posteriormente. No momento, importa enfatizar que a formação de recursos humanos, na esfera da internacionalização, significa o apoio a inúmeras atividades que visam à cooperação com os diversos centros estrangeiros de produção do conhecimento. Nesse sentido, e isso não apenas do lado da CAPES, mas também do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e de outras instâncias de avaliação, regulação e fomento, a formação de pesquisadores é entendida como aquela que os integrará ao contexto mundial, através das ações de cooperação, de parceria, de intercâmbio e de acordo bilateral com os centros estrangeiros.

Trata-se, assim, de incentivar projetos de pesquisa conjuntos, missões de trabalho visando à estada de professores brasileiros em universidades estrangeiras e a de pesquisadores dessas universidades nos Programas brasileiros; trata-se também de financiar a ida desses pesquisadores para estágios pós-doutorais, bem como a dos discentes em doutorados-sanduíches, sempre no âmbito dos acordos bilaterais. A vinda de docentes e pesquisadores, bem como a de doutorandos do exterior, para participarem das pesquisas desenvolvidas nas universidades nacionais é outra modalidade encorajada. Chama a atenção o fato de que essas trocas visam à integração da Pós-Graduação brasileira no contexto internacional com base quase sempre na cooperação bilateral entre instituições, não apenas entre indivíduos, de dois ou mais países.

O presente trabalho passa agora a analisar os Programas da área de Psicologia para que se observe como se situam em relação aos objetivos de internacionalização no que diz respeito à formação. Foram analisados relatórios de 57 Programas de Pós-Graduação na área, especialmente a "Proposta do Programa". Foram também examinadas as Fichas de Avaliação (CAPES, 2007) feitas pela Comissão de Avaliação da CAPES na Avaliação Trienal, em relação a esses 57 cursos. Nas referidas Fichas, são enfatizados os itens referidos diretamente aos aspectos de mérito do Programa de Pós-Graduação, no que diz respeito às suas ações visando à internacionalização (ver Tabela 3).

A análise revelou que praticamente todos informam intercâmbios, estágios e participações no estrangeiro. As atividades incluídas com mais frequência são: (a) a participação de alunos e professores em eventos internacionais; (b) a organização (conjunta ou não) de eventos internacionais; (c) visitas a centros e laboratórios estrangeiros; (d) visitas de professores estrangeiros aos Programas. Essas visitas podem ser pontuais (para palestras, oficinas, bancas) ou mais prolongadas (cursos).

Muitos Programas têm investido na circulação de alunos e professores em estágios pós-doutorais nas universidades estrangeiras para estimular a internacionalização, o que pode ser uma estratégia adequada. Alguns Programas citam como critério para descredenciamento a ausência de publicações internacionais.

Costuma-se valorizar os intercâmbios com universidades francesas e norte-americanas, holandesas, espanholas, mas surpreende o intercâmbio com universidades da América Latina, em especial com Colômbia, México, Argentina, Peru e Chile. Não parecem muito valorizados os "financiamentos internacionais" para pesquisa, resultantes da colaboração ou de competição por recursos internacionais de Fundações e Agências Internacionais, que são, no entanto, citados por alguns Programas; ou a utilização de consultorias a agências internacionais (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization [UNESCO], Organização Mundial da Saúde [OMS], etc.). Alguns elementos valorizados pelos Programas como ações que visam à internacionalização não constam das fichas de avaliação, outros são bizarros (acesso ao Portal de periódicos da CAPES).

Destaca-se o fato de que o número de docentes permanentes no Programa, o fato de Programas pertencerem a uma mesma universidade, terem décadas ou apenas alguns anos de existência não é definitivo para o modo como descrevem suas ações, ou o número de ações realizadas que visam à internacionalização.

Os Programas que descrevem com maior ênfase os detalhes relativos à internacionalização, tanto no Relatório feito pelos Programas, quanto na Ficha realizada pelos avaliadores da CAPES, receberam conceito 5 ou 7. Nota-se aí a descrição mais precisa do tipo de intercâmbio, do local de intercâmbio, do projeto de pesquisa e das atividades desenvolvidas, bem como do docente (ou docentes) e dos discentes que participam dele.

Se examinadas por subáreas, observa-se que o volume de ações, bem como o detalhamento dessas ações, estão em geral mais bem descritas nas fichas dos Programas das subáreas da Psicobiologia, Análise do Comportamento, Psicologia Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento. Entre as subáreas que também descrevem essas ações, entretanto, em menor volume e com menor detalhamento, estão a Psicologia Institucional/Organizacional e a Psicologia da Saúde. Nas áreas de Psicologia Social e Psicologia Clínica é onde encontramos quase sempre um menor volume de ações e também um menor detalhamento dessas ações.

Os Programas das subáreas de Psicobiologia, Análise do Comportamento, Psicologia Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento são aqueles que mais apresentam, em suas fichas, ações que, de acordo com as exigências da CAPES, são voltadas para a internacionalização. Dentre esses, vale a pena citar a guisa de exemplo, os Programas da subárea Psicobiologia (3 Programas) onde os principais relatos dizem respeito a: (a) Intercâmbio com Instituições Internacionais (América do Norte, América Central, América do Sul, Europa e Ásia); (b) Estágio pós-doutoral em instituições internacionais; (c) Expressiva produção publicada em revistas internacionais (média de 75% dos artigos); (d) Participação de discentes em programas de doutorado sanduíche; (e) Participação do corpo docente como membros do corpo editorial de revistas internacionais conceituadas na área; (f) Recebimento de alunos estrangeiros para o Mestrado e para o Doutorado; (g) Pareceres ad hoc emitidos por docentes para revistas internacionais; (h) Participação de docentes de discentes em congressos internacionais; (i) Pareceres ad hoc emitidos por docentes para revistas internacionais.

Algumas Fichas de Avaliação não trazem nenhuma menção a atividades que aparecem nos Relatórios feitos pelos Programas de Pós-Graduação. Acreditamos que tal fato provavelmente se dá porque algumas destas atividades são mencionadas de forma muito breve, sem descrição e sem que tenham merecido o devido destaque, ou porque são exercidas por apenas um ou dois membros do Programa, configurando iniciativa isolada. De qualquer forma, mesmo em alguns Programas que as descrevem e detalham, a internacionalização às vezes parece esforço pessoal de apenas parte do corpo docente, ou mesmo de membro único, sem que se configure em uma atividade do Programa como um todo. A análise das Fichas, salvo problemas de preenchimento das mesmas, parece mostrar que na ausência de indicadores objetivos da internacionalização (artigos internacionais, pós-doutorado no exterior, desenvolvimento de projetos, bolsas sanduíche, participação em corpo editorial de revistas internacionais, etc.), o Programa apenas descreve que está fazendo esforços para melhorar o intercâmbio dos docentes com pesquisadores e instituições estrangeiras. Estes Programas obtiveram, em geral, conceito 3 ou 4.

A Produção

Nas últimas três avaliações trienais da CAPES podemos observar que houve um aumento significativo da produção bibliográfica dos docentes na área de Psicologia, sendo que no triênio 2004-2006a média do total de itens era em torno de 4,2, a média de artigos era de 1,75 e a média de capítulos de livros era de 1,16. Esses dados mostram um aumento significativo quando comparados com os valores do triênio 2001-2003 que foram de 2,65; 1,31 e 0,84, respectivamente. A Figura 1 apresentada a seguir mostra o crescimento da produção bibliográfica no período.

Embora tenhamos demonstrado todo esse crescimento na produção bibliográfica dos Programas da Área, ainda é comum um número significativo de artigos publicados em revistas qualificadas como Nacional C e mesmo em revistas Locais (no período mencionado adotava-se a classificação das revistas por Circulação Internacional/ Nacional/ Local e em cada categoria havia a sub-classificação A/B/C). No quesito publicação internacional, a produção média da área ainda se encontra distante da produção de outras áreas. Voltaremos a esse tópico mais adiante.

Apesar também dos números que indicam um aumento das publicações, há um grande consenso de que o fluxo de publicações na área da Psicologia, dadas as suas características, que diferem das daquelas das ciências exatas, segue um padrão que nem sempre acompanha os resultados quantitativos dessas ciências. Ao longo dos anos, várias iniciativas foram tomadas no sentido de adaptar os padrões de avaliação da produção intelectual, de maneira a reconhecer e incluir as especificidades da área. No entanto, não há como negar que as subáreas da Psicologia, cujas técnicas de pesquisa e registros de resultados mais pretendem se aproximar das ciências exatas, são as que mais publicam e, portanto, as que têm o conceito mais alto.

No que diz respeito à internacionalização da produção intelectual da área, o mesmo panorama será divisado. Analisando os dados, parece haver uma relação bastante estreita entre aquelas ações descritas para os Programas das áreas de Psicobiologia, Análise do Comportamento, Psicologia Cognitiva e Psicologia do Desenvolvimento e sua produção em forma de artigos completos publicados em revistas internacionais. Assim, embora várias ações possam ser descritas nas fichas a título de internacionalização, o indicador mais preciso parece ser a porcentagem de artigos publicados em revistas internacionais (ver Tabela 4 para uma comparação entre as subáreas).

 

 

É interessante também notar que a porcentagem de artigos completos publicados em revistas internacionais guarda uma relação bastante estreita com o conceito obtido na última Avaliação Trienal da CAPES (2008), uma vez que, justamente, atendem aos critérios que norteiam a referida Avaliação. A Tabela 5 apresenta uma análise média dessas porcentagens para os Programas classificados nos vários conceitos. Observa-se que, como esperado, apenas os Programas que apresentam uma porcentagem média de artigos internacionais acima de 50% receberam conceito 7, enquanto os Programas que têm uma média de 33% receberam conceito 5 e aqueles que têm valores em torno dos 20% receberam conceitos 4 e 3.

 

 

Assim, parece inquestionável que sem a publicação internacional fica difícil o Programa ser reconhecido pela CAPES como de excelência. Um índice claro do valor dado à publicação internacional reside nos critérios usados tanto pela CAPES quanto pelo CNPq para avaliar Programas e pesquisadores respectivamente.

Quanto à CAPES é importante enfatizar que a disseminação da pesquisa através de revistas, livros e capítulos internacionais vem recebendo maior peso nas avaliações dos Programas. Alguns periódicos brasileiros, por publicarem artigos de pesquisadores estrangeiros, tê-los em seu corpo editorial e estarem incluídas em indexadores receberam o status de Internacionais.

Embora este texto tenha o objetivo de avaliar o cenário da qualificação e internacionalização da produção científica na área de Psicologia, não podemos deixar de mencionar que a internacionalização da produção científica brasileira é um fato inquestionável. Uma publicação recente da Thomson Reuteurs (King, 2009) mostra que a produção científica brasileira ultrapassou a produção da Rússia e deve também, em breve, ultrapassar a da Índia, se consolidando em 2º lugar entre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China). De acordo com esses dados, a produção científica brasileira em 2008 representou 2,6% dos artigos publicados nas 10.500 revistas analisadas, contra apenas 0.6% no ano de 1990.

Quanto ao CNPq, também para a concessão de financiamento em geral, à época em que foram coletados os dados aqui apresentados, usava um escore que incluía publicações internacionais, denominado Prodger2, que consistia no cálculo do escore geral de produtividade dos cinco anos anteriores, conforme apresentado na figura abaixo:

 

 

Vale a pena observar que o sentido dado à internacionalização do ponto de vista da produção é valorizado no Prodger2 apenas no item publicação em revistas internacionais, com índices maiores para revistas internacionais de qualidade A. As revistas de qualidade B e C internacionais são equiparadas às revistas nacionais A e B. Não há inclusão de avaliação explícita ou diferenciada para os demais itens de produção e nem de formação internacionalizada. A formação melhor avaliada é de nível de Pós-Graduação (teses e dissertações), colocando a iniciação científica em segundo plano.

Dessa forma, fica apontada de forma inquestionável a necessidade da publicação internacional. Por outro lado, no entanto, não se pode deixar de problematizá-la do mesmo ponto de vista que foi examinada a Formação em sua relação com a internacionalização: a diversidade entre as subáreas que compõem a Psicologia.

De início se justificaria a publicação em inglês por ter ele "se tornado a língua franca moderna num mundo que é amplamente dominado econômica, científica e culturalmente por países anglo-saxões" (Meneghini & Packer, 2007, p. 112). Porém, conforme afirmamos anteriormente, há diversas subáreas da Psicologia que não sofrem qualquer influência anglo-saxã. Ou seja, o conhecimento nessas subáreas não é preferencialmente veiculado na língua das ciências exatas e biológicas que via de regra é o inglês. Há ainda outras situações, como, por exemplo, subáreas que até dependem de um conhecimento em inglês, mas cuja natureza ou objetivo faz com que não tenha sentido a veiculação do seu produto final em outra língua que não o português. Pensamos particularmente em subáreas ligadas à saúde coletiva, por exemplo, em que o idioma em que interessa publicar, em função dos resultados de destacado mérito prático (muitas vezes para manter em funcionamento projetos cruciais que concernem à vida de pessoas no país) não é o inglês, dominado por poucos profissionais de saúde atuando no Sistema Único de Saúde. Vários Programas, ao exigir de seus docentes que se esforcem para publicar nos veículos acadêmicos de língua inglesa, portanto, estariam retirando tempo e investimento de ações que realmente atingem diretamente aqueles que se beneficiariam de seu trabalho de pesquisa ou reflexão crítica sobre a prática de políticas públicas relevantes para o país (ver aqui especialmente Guédon, 2009).

É necessário ressaltar que tais projetos estão longe de se situarem em campos periféricos, de pequena relevância ou de pouco alcance para o avanço da Pós-Graduação em Psicologia no país. Ao contrário, eles colocam para os docentes e futuros pesquisadores o desafio de desenvolver a sistematização em termos teóricos e conceituais rigorosos para garantir a transmissão das experiências em que se implicam.

Da mesma maneira, há subáreas que simplesmente não contam com nenhum veículo em língua inglesa; tampouco elas são periféricas, ao contrário, são campos muitas vezes tradicionais e mesmo fundadores e representativos da pesquisa em Psicologia no país, como, por exemplo, a pesquisa universitária em várias áreas da Psicologia clínica, em especial a de teoria da clínica psicanalítica. Torna-se certamente impossível julgar se esse programa tem ou não reconhecida excelência internacional apenas através de suas publicações internacionais.

Há, por outro lado, muitos Programas inseridos em campos que podem utilizar uma vasta lista de periódicos estrangeiros de elevado padrão editorial, ainda que muitas vezes os critérios que determinam tais padrões sejam questionados. A utilização do Fator de Impacto que serve como medida de avaliação para esses periódicos muitas vezes é alvo de críticas. Argumenta-se que tal indicador pode não ser relevante para o impacto das publicações sobre o avanço do conhecimento (ver, por exemplo, Castiel, Sanz-Valero, & Red Mel Red Mel CYTED, 2007). E, ainda, se levantam casos em que, veículos tidos como de excelência, apresentam inúmeros problemas devido a falhas dos índices mais comumente utilizados para avaliar os referidos veículos (Biblioteca Virtual em Saúde [BIREME], Organização Pan-Americana de Saúde [OPAS], & Organização Mundial da Saúde [OMS], 2009). No entanto, é inegável o alcance que a inserção em certas bases de dados confere ao periódico, proporcionando, por conseguinte, igual possibilidade à publicação ali veiculada. Há, pois, subáreas que encontram menos problemas para que sua produção seja publicada no exterior, possibilitando o incremento de uma das formas de inserção internacional da Psicologia. Muitas das subáreas com possibilidades para publicarem sua produção nestes veículos agora começam a atentar para a necessidade de fazer as publicações brasileiras em inglês (por exemplo, os Brazilian Journal of...). Ainda que os periódicos indexados no Institute for Scientific Information (ISI) sejam poucos, vale nesse ponto mencionar o esforço para a criação da revista Psychology & Neuroscience pelo Grupo de Trabalho de Neurociências e Comportamento no Simpósio da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (ANPEPP) de Florianópolis, no ano de 2006. Esse periódico, agora em seu quarto número, optou por publicar todos os artigos em inglês face às seguintes razões: a primeira por não se dispor de uma revista nacional da área que pudesse abrigar a produção da maioria dos pesquisadores da subárea de psicobiologia no país; a segunda por ter sido preciso tornar pública a produção dessa subárea da Psicologia tanto para os pesquisadores nacionais, quanto para a comunidade científica internacional. É uma revista de acesso aberto, o que facilita sua consulta por cientistas de qualquer parte do mundo, interessados em saber o que se produz nessa subárea no Brasil. Outra iniciativa nesse mesmo sentido está sendo realizada na área de estudos sobre a sexualidade. Nela se produz uma revista, também de acesso livre, em três línguas: português, espanhol e inglês. Essas subáreas também, ao contrário de outras na Psicologia para as quais não faz sentido, é menos relevante, ou é impossível publicar em inglês, têm ainda muito que crescer com o intuito de acompanharem as demais áreas do conhecimento cujos saberes encontram-se na mesma esfera.

Concluindo, resta apontarmos uma importante questão que ressalta do quadro encontrado nas pós-graduações em Psicologia no país acerca da qualificação em sua relação com a internacionalização. Esta se refere ao uso quase exclusivo do número de publicações em periódicos internacionais e estrangeiros como indicadores mais valorizados, os quais são avaliados homogeneamente em um universo inteiramente heterogêneo. Se as avaliações privilegiam um número grande de publicações dando-lhe um peso bem maior que aos outros índices de internacionalização, outros critérios não terão sido considerados para medir o nível de internacionalização, ou não chegam sequer a ser nomeados de forma a serem quantificáveis. Fica-se dependente da produção intelectual disseminada em veículos estrangeiros ou internacionais, de preferência em inglês. É necessário observar que se a publicação vem com frequência representar todas as outras ações em direção à internacionalização a dedicação a outras iniciativas perde seu sentido, se torna inútil. Certamente o esforço de, acima de tudo ter como objetivo novas atividades que proporcionem a internacionalização de fato, só serão implementados pelos Programas e por seus docentes-pesquisadores se tais ações tiverem um peso que as nomeie e as reconheça como trazendo benefícios para a Pós-Graduação em Psicologia.

Essas são as questões principais que resumem o quadro encontrado nas Pós-Graduações acerca da qualificação em sua relação com a internacionalização. Espera-se que ofereçam subsídios relevantes para que estas possam prosseguir na atualização constante das iniciativas da área e contribuam para uma formulação adequada das metas de qualificação a serem por ela atingidas, em nosso país.

 

Referências

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Endereço para correspondência:
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Psicologia
Av. Pasteur, 250, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
CEP 22290-240
E-mail: aclobianco@pq.cnpq.br

Recebido: 04/05/2010
Revisão: 26/07/2010
Aceito: 01/08/2010

 

 

Versão atualizada do trabalho apresentado em 2008 no Seminário Horizontes da Pós-Graduação em Psicologia no Brasil pelo GT2.