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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.24 no.2 Porto Alegre  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722011000200003 

AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

 

Estudos de confiabilidade e validade do questionário de respostas socialmente habilidosas versão para pais - QRSH-Pais

 

Studies in reliability and validation of the social skills questionnaire - parents version (SSQ-P)

 

 

Alessandra Turini Bolsoni-SilvaI, *; Edna Maria MarturanoII; Sonia Regina LoureiroII

IUniversidade Estadual Paulista, Bauru, Brasil
IIUniversidade de São Paulo, Ribeirão Preto, Brasil

 

 


RESUMO

Constata-se uma carência de instrumentos que avaliem habilidades sociais de crianças da educação infantil, de modo a predizer problemas comportamentais e instrumentar ações preventivas, justificando a proposição de instrumentos. Objetivou-se testar propriedades psicométricas de validade e confiabilidade do Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas para pais (QRSH-Pais). Foram avaliados por suas mães 131 pré-escolares, diferenciados em subgrupos com e sem problema de comportamento com base na Escala Comportamental Infantil (ECI-Pais e ECI-Professor). Procedeu-se aos estudos de validade discriminativa e concorrente e a verificação da consistência interna pelo alfa de Cronbach. Os resultados apontaram para indicadores positivos de consistência interna e validade discriminativa. Considera-se que o questionário está aferido para avaliação de habilidades sociais em pré-escolares, podendo ser utilizado em pesquisas de avaliação e de intervenção clínica controlada.

Palavras-chave: Validação de instrumento; Habilidades sociais; Desenvolvimento infantil; Problemas de comportamento; Prevenção.


ABSTRACT

There is a lack of social skills evaluation instruments for preschoolers, which may work as useful tools by psychologists, to predict behavior problems and plan preventive actions. This lack justifies the elaboration and assessment of such instruments. The objective of this study was to assess the psychometric properties of reliability and validity of the Social Skills Questionnaire - Parents Version (SSQ-P). For that purpose, mothers of 131 preschoolers evaluated their children, in subgroups with or without behavioral problems, based on the Child Behavior Scale (CBS-Parents and CBS-Teacher). We assessed internal consistency by means of the Cronbach's alpha and conducted concurrent and discriminant validity analyses. The results pointed to positive indicators of internal consistency and discriminant validity. The questionnaire is considered to be gauged for the evaluation of preschool children social skills and is as well applicable in assessment surveys and controlled clinical interventions.

Keywords: Instrument validation; Social skills; Child development; Behavior problems; Prevention.


 

 

As interações estabelecidas entre pais e filhos são evidentemente de natureza social e alguns estudos (Bolsoni-Silva & Marturano, 2007, 2008) têm mostrado relações entre as habilidades sociais de pais e o repertório de filhos. Devido à falta de consenso e complexidade quanto ao conceito de habilidades sociais, considera-se necessário defini-lo.

Z. A. P. Del Prette e Del Prette (2002) utilizam três denominações para definir interações sociais: habilidosa, que se refere à expressão de sentimentos, assertividade, empatia; não habilidosa passiva que demonstra esquiva ou fuga da situação social; e não habilidosa ativa em que a pessoa se expressa, porém de maneira autoritária, agressiva ou irônica.

Z. A. P. Del Prette e Del Prette (2001) apresentaram uma taxonomia, organizada em categorias amplas e específicas: (a) habilidades sociais de comunicação: fazer e responder perguntas; gratificar e elogiar; pedir e dar feedback nas relações sociais; iniciar, manter e encerrar conversação; (b) habilidades sociais de civilidade: dizer por favor; agradecer; apresentar-se; cumprimentar; despedir-se; (c) habilidades sociais assertivas de enfrentamento: manifestar opinião, concordar, discordar; fazer, aceitar e recusar pedidos; desculpar-se e admitir falhas; estabelecer relacionamento afetivo/sexual; encerrar relacionamento; expressar raiva e pedir mudança de comportamento; interagir com autoridades; lidar com críticas; (d) habilidades sociais empáticas: parafrasear, refletir sentimentos e expressar apoio; (e) habilidades sociais de trabalho: coordenar grupo; falar em público; resolver problemas, tomar decisões e mediar conflitos; habilidades sociais educativas; e (f) habilidades sociais de expressão de sentimento positivo: fazer amizade; expressar a solidariedade e cultivar o amor. Avaliar estas topografias de respostas é importante porque parecem estar funcionalmente relacionadas à aquisição de reforçadores sociais. Nas palavras de Z. A. P. Del Prette e Del Prette (2001):

. . . defendemos a idéia de que as pessoas socialmente competentes são as que contribuem na maximização de ganhos e na minimização de perdas para si e para aquelas com quem interagem . . . o desempenho socialmente competente é aquele que expressa uma leitura adequada do ambiente social, que decodifica corretamente os desempenhos esperados, valorizados e efetivos para o indivíduo em sua relação com os demais. (p. 33).

As habilidades sociais assim caracterizadas dizem respeito, sobretudo, às interações sociais entre adultos; quanto às crianças, esperar-se-ia que apresentassem habilidades sociais condizentes com idades e com seus contextos de convivência. Caldarella e Merrell (1997), a partir de revisão de literatura, apontaram as seguintes habilidades sociais na infância: (a) habilidades de relacionamentos com pares (cumprimentar, elogiar, oferecer ajuda, convidar os colegas para brincar etc); (b) habilidades de auto-controle (controlar humor, negociar, lidar com críticas etc); (c) habilidades acadêmicas (tirar dúvidas, seguir as orientações do professor, saber trabalhar de forma independente etc); (d) habilidades de ajustamento (seguir regras e instruções, usar tempo livre de forma apropriada, atender pedidos etc); (e) habilidades assertivas (iniciar conversação, aceitar convites, responder cumprimentos etc), entre outras. Mais recentemente, no que diz respeito a habilidades sociais infantis, Z. A. P. Del Prette e Del Prette (2006) reiteraram as habilidades de: autocontrole e expressividade emocional, civilidade, empatia, assertividade, solução de problemas interpessoais, habilidades para fazer amizades e habilidades sociais acadêmicas.

Okano, Loureiro, Linhares e Marturano (2004), com base em estudo empírico, com objetivo de avaliar o autoconceito de crianças com dificuldade de aprendizagem, compararam 20 crianças com dificuldades de aprendizagem (G1) e 20 escolares sem tais dificuldades (G2). Relataram que as crianças do G1 apresentaram escore estatisticamente inferior para autoconceito global, status intelectual e popularidade, quando comparadas ao G2. As autoras afirmaram, enquanto encaminhamento, a necessidade de investimento junto às famílias e às próprias crianças no que se refere ao desenvolvimento de habilidades sociais como proteção para o desenvolvimento infantil. O estudo destaca a relação inversa entre dificuldade de aprendizagem e o repertório de habilidades sociais das crianças. O estudo do NICHD (National Institute of Child Health and Human Development Early Child Care Research Network, 2003) reiterou que as habilidades sociais avaliadas por mães e professoras nos anos da educação infantil foram importantes preditores de posterior ajustamento.

Outros pesquisadores também afirmaram que comportamentos socialmente habilidosos promovem o desenvolvimento e previnem o surgimento de problemas de comportamento (Caballo, 1997; Z. A. P. Del Prette & Del Prette, 2001; Ferreira & Marturano, 2002; Keane & Calkins, 2004). Tal relação pode ser explicada do seguinte modo: à medida que comportamentos socialmente habilidosos possibilitam que as crianças interajam mais positivamente com colegas, professores e familiares, podem aumentar a chance destas obterem reforçamento social, como elogios e atenção, além de resolverem problemas, sem, contudo, utilizarem a agressividade, por exemplo. Nessa linha de raciocínio, tais comportamentos poderiam propiciar "saltos" comportamentais (Rosales-Ruiz & Baer, 1997), os quais dizem respeito a mudanças no processo de desenvolvimento que seriam importantes ou para o indivíduo ou para a espécie, pois permitiriam que a criança encontrasse contingências relevantes para a aprendizagem, seja social, seja acadêmica.

Os estudos mencionados justificam a importância de pesquisas sobre habilidades sociais infantis, no entanto, no contexto brasileiro, observa-se uma carência de instrumentos para mensurar habilidades sociais, sobretudo de crianças na idade pré-escolar (Z. A. P. Del Prette & Del Prette, 2006). Recentemente, foi proposto um instrumento (Sistema Multimídia de Habilidades Sociais para Crianças [SMHSC-Del-Prette], A. Del Prette & Del Prette, 2005) para avaliar habilidades sociais de crianças do ensino fundamental (Z. A. P. Del Prette & Del Prette, 2006), o qual implica que a própria criança avalie seu desempenho. Conforme os autores, o SMHSC-Del-Prette contempla 21 situações interpessoais que requerem as seguintes habilidades, organizadas em subescalas: (a) Empatia e civilidade: habilidades de expressão de sentimentos positivos de solidariedade e companheirismo ou de polidez social, por exemplo, fazer e agradecer elogio, oferecer ajuda e pedir desculpas; (b) Assertividade de enfrentamento: habilidades de afirmação e defesa de direitos e de auto-estima, com risco potencial de reação indesejável (maior probabilidade de rejeição, de réplica ou de oposição) por parte do interlocutor, por exemplo, solicitar mudança de comportamento do outro, defender-se de acusações injustas e resistir à pressão do grupo; (c) Autocontrole: habilidades que envolvem controle emocional diante de frustração ou de reação negativa ou indesejável de colegas, por exemplo, recusar pedido de colega, demonstrar espírito esportivo e aceitar brincadeiras; (d) Participação: habilidades de envolver-se e comprometer-se com o contexto social mesmo quando as demandas do ambiente não lhes são especificamente dirigidas, por exemplo, responder à pergunta da professora, mediar conflitos entre colegas e juntar-se a um grupo em brincadeiras. Ainda que seja um instrumento interessante o fato da criança avaliar seu próprio desempenho o torna apropriado para o ensino fundamental e não para a pré-escola.

O instrumento que é foco da presente pesquisa foi validado em sua versão para professor (Bolsoni-Silva, Marturano, & Loureiro, 2009), denominada de Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas para Professores - QRSH-Pr. Para a sua validação foram avaliados 260 pré-escolares, diferenciados em subgrupos com e sem problemas de comportamento com base na Escala de Comportamento Infantil ([ECI-Professor], Santos, 2002). Procedeu-se aos estudos de validade de construto, discriminante, concorrente e preditiva. Para avaliar a consistência interna foi calculado o alfa de Cron-bach. Os resultados com o QRSH-Pr apontaram para boa consistência interna (alfa 0,93) e indicadores positivos quanto às validades de construto, discriminante e preditiva, indicando que os itens mensuraram consistentemente o construto habilidades sociais e diferenciaram crianças com e sem problemas de comportamento. Foram obtidos quatro fatores: (a) Sociabilidade e expressividade emocional: tem relações positivas, mostra interesse pelos outros, faz amigos, expressa frustração, comunica-se, expressa desejos, expressa direitos, expressa carinhos, brinca com colegas, usualmente fica de bom humor, faz elogios, cumprimenta, interage de forma não verbal, participa de grupos; (b) Iniciativa social: toma a palavra, expressa opiniões, participa de temas de discussão, toma iniciativas, negocia e convence, presta ajuda; (c) Busca de suporte: procura atenção, faz pedidos, faz perguntas; (d) Item "não se intimidar": Diante desses achados, surgiu o interesse em descrever e testar as propriedades psicométricas da versão para pais.

Diante da escassez de estudos acerca da avaliação de propriedades psicométricas de instrumentos que avaliem habilidades sociais infantis, segundo o relato de pais, este artigo se propõe a contribuir para a construção e validação de um questionário de avaliação de habilidades sociais de pré-escolares, tendo como objetivos: (a) descrever o processo de construção do Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas, segundo relato de mães/pais (QRSH-Pais), destinado à avaliação de crianças de quatro a sete anos de idade; (b) avaliar sua consistência interna e validades discriminantes e concorrente (Nunnally, 1970; Pasquali, 1997, 2000). O trabalho está dividido em duas seções, sendo a primeira destinada à apresentação do instrumento e a segunda aos estudos psicométricos.

 

Método

Este estudo abrange duas etapas, sendo a primeira relativa ao desenvolvimento do instrumento e a outra referente à validação do mesmo, as quais são apresentadas abaixo.

Participantes

Participaram do estudo 131 alunos de EMEIs - Escolas Municipais de Educação Infantil, suas mães e seus professores, residentes em uma cidade de porte médio do centro-oeste paulista, sendo 68 meninos e 63 meninas, com idades variando de quatro a sete anos (média = 5,5 anos, DP = 0,99). Tais participantes já tinham sido incluídos em três estudos prévios (Boas, 2007; Bolsoni-Silva & Marturano, 2007; Leme, 2008), compondo um banco de dados de 131 participantes, o que permitiu a condução dos estudos de confiabilidade e de validade concorrente e discriminante.

Instrumentos

Além do QRSH-Pais, foco da investigação, foram utilizados outros três instrumentos, com vistas ao estudo de validade discriminativa: o Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas, versão para professores ([QRSH-PR], Bolsoni-Silva et al., 2009), descrito na introdução, e a Escala Comportamental Infantil - ECI, versões para pais ([ECI A2], Graminha, 1994) e professores ([ECI-B], Santos, 2002). A ECI é um instrumento rastreador de problemas de comportamento que sugere a necessidade de ajuda psicológica ou psiquiátrica, não fornecendo diagnóstico nosológico, mas sim pontos de corte a partir do escore total, considerados sinalizadores de risco para problemas comportamentais em nível clínico. O ponto de corte da ECI A2, versão pais, no estudo nacional é escore maior que 16 (Graminha, 1994) e na ECI-B, versão professores, é escore maior que 9 (Santos, 2002).

Etapa 1. Desenvolvimento do Instrumento. O QRSH-Pais foi concebido para ser utilizado por diferentes cuidadores, não apenas por mães. O interesse em elaborar o instrumento surgiu primeiro de uma possível relação inversa entre habilidades sociais e problemas de comportamento, tal como demonstrado por algumas pesquisas (Bolsoni-Silva et al., 2009; Cia & Barham, 2009; Keane & Calkins, 2004) e, em segundo lugar, da escassez de instrumentos que avaliem habilidades sociais de crianças da pré-escola.

O primeiro passo foi a realização de uma revisão da literatura de forma a obter itens preditivos de habilidades sociais infantis. Poucos foram os estudos encontrados; dentre esses o que teve maior impacto na elaboração do instrumento foi o de Caldarella e Merrell (1997), acrescido dos estudos de Caballo (1997), Z. A. P. Del Prette e Del Prette (1999), Hidalgo e Abarca (1992), McFall (1982). Com base na revisão identificou-se um total de 24 itens relativos a habilidades na interação professor - aluno, os quais foram avaliados em estudo piloto tendo sido verificado que podiam ser compreendidos por professores e que eram pertinentes ao contexto escolar (Bolsoni-Silva et al., 2009). A partir desse estudo selecionaram-se os itens que poderiam ter correspondência no caso da avaliação de pais, perfazendo um total de 18 itens, sendo excluídos aqueles que eram mais apropriados para o contexto escolar, a saber: mostra interesse pelos outros, tem relações positivas, não é facilmente intimidado, toma a palavra, participa de grupos de jogos e participa de temas de discussão. Tais itens envolvem relações com pares e desempenhos em tarefas, mais apropriadas para o contexto escolar, caracterizado pela presença de várias crianças e de tarefas de execução, que nem sempre estão presentes no ambiente familiar.

Em um estudo prévio conduzido com 60 cuidadores, entre mães, pais e avós (Bolsoni-Silva, A. Del Prette, & Oishi, 2003), foi efetuada a calibração do instrumento, tendo em vista a aproximação da redação com a linguagem dos respondentes e o significado dos itens para seu cotidiano. Nesse estudo, a avaliação dos participantes foi a de que o instrumento estava claro quanto às instruções e aos itens. Com base nessa testagem piloto foram implementadas ainda as seguintes alterações: (a) aplicação face a face em lugar do preenchimento por escrito; (b) modificação da forma de avaliação do modelo que era sim/não para uma escala de três pontos, em que a avaliação da ocorrência de respostas passou a ter três opções: "não se aplica", "se aplica um pouco" e "certamente se aplica", às quais foram atribuídos respectivamente os valores 0, 1 e 2. A opção por uma escala de três pontos se baseou no modelo de instrumentos usados em larga escala para avaliar habilidades sociais e problemas de comportamento de crianças nessa faixa etária, tais como o Social Skills Rating System - SSRS (Bandeira, Z. A. P. Del Prette, Del Prette, & Magalhães, 2009) e o Child Behavior Checklist - CBCL (Achenbach & Rescorla, 2001).

Comparações entre o relato de mães e professoras em uma amostra de 24 crianças pré-escolares com problemas de comportamento e 24 sem problemas, foram realizadas por Bolsoni-Silva, Marturano, Pereira e Manfrinato (2006) que apontaram para semelhanças e diferenças entre as avaliações, sugerindo a necessidade de ambos os instrumentos para avaliar habilidades sociais infantis, dadas as peculiaridades dos contextos escolar e familiar.

Conclui-se que as exigências metodológicas iniciais da elaboração de instrumento foram satisfeitas: o QRSH versão pais (QRSH-PR) foi construído a partir de um referencial teórico; baseou-se em pesquisa empírica na área de habilidades sociais infantis, inclusive já possui validação de sua versão para professor; teve seus itens descritos em termos comportamentais; foi conduzido um estudo piloto para adequação da redação dos itens e a operacionalização do construto ocorreu a partir de número de itens suficiente e não excessivo (Pasquali, 1999). O instrumento QRSH-Pais encontra-se no Anexo.

Etapa 2. Estudos de Confiabilidade e Validade. Esta seção apresenta as análises de confiabilidade, validade concorrente e validade discriminativa.

Procedimentos de Coleta de Dados

A pesquisa foi conduzida dentro dos padrões éticos exigidos pela Declaração de Helsinque e pela Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde do Brasil. Foi aprovada pelo Comitê de Ética da universidade a que está filiada a primeira autora (Processo no. 484/46/01/09).

Nos três estudos referidos a Secretaria de Educação da cidade foi contatada e aprovou a coleta de dados. Com esse encaminhamento, as diretoras das EMEIs foram contatadas por telefone e agendadas visitas nas escolas. A diretora, então, recebia informações sobre o projeto e apresentava as pesquisadoras para as professoras da escola; nessa oportunidade, era agendada nova visita para colher os dados. Cada professora, dos três estudos mencionados, indicou três alunos que, segundo seu julgamento, tivessem comportamentos socialmente habilidosos (Grupo ICSH) e três alunos que apresentassem indicativos de problemas de comportamentos (Grupo IPC). Foi também solicitada à professora a avaliação do comportamento dos alunos indicados como ICSH e IPC, de acordo com a Escala Comportamental Infantil - ECI-B (Santos, 2002). Permaneciam na amostra os alunos cujo escore na ECI-B confirmava a indicação inicial da professora (> 9 para IPC; < 9 para ICSH). Desse modo, o critério de inclusão foi baseado na avaliação da professora.

As professoras também responderam ao Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas para Professoras (QRSH-PR), que foi utilizado para avaliar a validade discriminativa do QRSH-Pais. As mães responderam à Escala Comportamental Infantil - ECI A2 (Graminha, 1994) e ao Questionário de Respostas Socialmente Habilidosas para Pais, apresentado no Anexo.

Após colher os dados com as professoras foi solicitada à direção da escola permissão para contatar as famílias. As escolas forneceram os telefones e/ou endereços após permissão das famílias, que ocorreu através de bilhetes entregues pelas crianças e assinados pelos pais. A etapa seguinte de coleta de dados consistiu em visitas domiciliares em horários compatíveis em que os instrumentos foram aplicados face-a-face, isto é, a entrevistadora fazia as perguntas e anotava as respostas dos dois instrumentos: QRSH-Pais e ECI A2.

Análise de Dados

Os dados foram organizados de forma a realizar as análises de validade concorrente e discriminante, bem como de consistência interna do instrumento. Antes de iniciar essas análises foi testada a normalidade da distribuição dos escores do instrumento. Constatou-se distribuição não normal, indicando a necessidade do uso de estatística não paramétrica. A análise da consistência interna do instrumento foi feita sobre a amostra total. Para estimar a consistência interna foi calculado o alfa de Cronbach.

Os dados obtidos com o QRSH-Professores foram utilizados para a análise da validade concorrente, em que esse instrumento foi tomado como "padrão ouro" para o QRSH-Pais. Para a realização das análises de correlação (Coeficiente r de correlação de Spearman) foi elaborada uma planilha contendo os escores dos itens em comum dos dois instrumentos (N = 18) para cada um dos 131 participantes.

Quanto à validade discriminativa, dois procedimentos foram adotados para compor os grupos com e sem problemas de comportamento, um com base na avaliação feita pelas mães, por meio da ECI A2, e a outra com base na avaliação feita pelas professoras, por meio da ECI-B. No procedimento apoiado na avaliação das mães, foram identificados 73 participantes sem problema de comportamento e 58 com indicação de risco para problema de comportamento na ECI A2 (escore total >16). No procedimento apoiado na avaliação das professoras, identificaram-se 63 participantes sem problema de comportamento e 68 com indicação de risco para problema de comportamento na ECI-B (escore total > 9).

Para verificar a validade discriminativa, foi utilizado o Teste Mann Whitney na comparação dos grupos problema e não problema, de forma a diferenciar o instrumento quanto à presença de problemas de comportamento. Tal análise foi conduzida a partir do relato de mães que responderam à ECI A2 de Rutter (58 problema x 71 sem problema) e das professoras que responderam à ECI-B de Rutter (68 problema x 63 sem problema). Os cálculos foram realizados com o auxílio do pacote estatístico SPSS. Foram considerados os resultados estatisticamente significativos até o valor de 5% (p < 0,05).

 

Resultados

Confiabilidade

A consistência interna foi aferida para o escore total. O valor de alfa obtido foi igual a 0,82 indicando satisfatória consistência interna do instrumento. Segundo Cortina (1993) tem sido aceito o alfa 0,50 por convenção, independente do número de itens e no caso de a escala ter mais de 14 itens então o alfa de 0,70 seria o mais apropriado. Analisando-se a correlação de cada um dos itens com o escore total observou-se que no geral os itens se relacionaram bem com o escore total, variando de 0,30 a 0,60 (média 0,41), com exceção de um item, com correlação igual a 0,21. Verificou-se que caso os itens fossem retirados do instrumento não ocorreriam alterações significativas nos valores encontrados do alfa.

Validade Concorrente

Pela Tabela 1 constata-se correlação baixa, porém significativa, entre os escores totais do QRSH nas versões para pais e professor. Poucos itens apresentaram correlação entre as duas versões: brinca com colegas, comunica-se positivamente, faz amigos e expressa desejos.

Validade Discriminativa

As Tabelas 2 e 3 apresentam os resultados das sondagens de validade discriminativa. A Tabela 2 apresenta os resultados da comparação entre dois grupos de crianças avaliadas pelas mães por meio da ECI A2. O Grupo Problema reúne 58 crianças que alcançaram o ponto de corte para presença de problemas de comportamento; o Grupo Não Problema se compõe de 73 crianças com pontuação abaixo do ponto de corte. Os resultados indicam que o instrumento obteve resultados aceitáveis quanto à validade discriminativa, pois para o escore total e para seis itens (brinca com colegas, comunica-se, bom humor, expressa direitos, frustrações e desejos) foram encontradas diferenças significativas na comparação entre os grupos problema e não problema, do ponto de vista das mães. Portanto, o QRSH-Pais é capaz de diferenciar grupos com e sem indicativos de problemas de comportamento, quanto ao repertório de habilidades sociais.

A Tabela 3 apresenta os resultados da validade discriminativa na comparação entre os grupos problema e não problema, formados a partir da avaliação das professoras por meio da ECI-B. Os resultados apontam, em consonância com os apresentados na Tabela 2, que o instrumento obteve resultados aceitáveis quanto à validade discriminativa, pois para o escore total e quatro itens (comunica-se positivamente, bom humor, procura atenção e expressa frustrações) foram encontradas diferenças significativas entre os grupos. Esses achados reiteram que o QRSH-Pais é capaz de diferenciar grupos com e sem indicativos de problemas de comportamento, quanto ao repertório de habilidades sociais, seja na opinião das próprias mães (Tabela 2), seja na das professoras (Tabela 3).

 

Discussão

A presente investigação apresenta o QRSH-Pais e a aferição das suas qualidades psicométricas no que se refere à validade concorrente e discriminante. O questionário visa avaliar habilidades sociais de pré-escolares por suas mães e se destina a crianças de quatro a sete anos de idade. Na sua construção, as exigências metodológicas básicas da elaboração de instrumentos foram satisfeitas. Os 18 itens que o compõem foram derivados empiricamente, tendo por base a taxonomia organizada por Caldarella e Merrell (1997). A aferição da validade concorrente teve por padrão ouro a sua versão já aferida para professores (Bolsoni-Silva et al., 2009).

O instrumento apresenta satisfatória consistência interna. Uma limitação do estudo é o número de participantes insuficiente para a realização de análise fatorial, o que deverá ser feito em pesquisa futura, de modo a verificar sua estrutura fatorial e compará-la com aquela obtida para a versão do professor (Bolsoni-Silva et al., 2009).

Os itens estão de acordo com o proposto por Z. A. P. Del Prette e Del Prette (2002, 2006), que encontraram achados empíricos que atestam que essas habilidades sociais podem maximizar a obtenção de reforçadores sociais, tendo impacto para a competência social e acadêmica das crianças. A análise da validade concorrente com a versão para professores (QRSH-PR) indicou discreta associação entre as duas versões, quanto ao escore total.

Fagan e Fantuzzo (1999), com o SSRS versão pré-escolar, encontraram baixa correspondência entre avaliações feitas nos ambientes familiar e escolar, sugerindo habilidades específicas conforme o contexto em que está inserida a criança. A presente pesquisa concorda em parte com esses achados, uma vez que, ao avaliar habilidades sociais específicas, apenas quatro mostraram correlação entre os julgamentos de mães e professoras.

Bolsoni-Silva et al. (2006), comparando avaliações de mães e professoras da educação infantil, verificaram que as crianças com problema de comportamento parecem ter, na escola, dificuldade para enfrentar situações interpessoais, mostrando, nesse contexto, menos habilidade para expressar sentimentos, direitos e desejos. Supondo que crianças com problemas de comportamento teriam dificuldades para lidar com os desafios interpessoais do ambiente escolar, mais complexo e exigente que o ambiente de suas casas, pode-se entender a correlação apenas moderada, encontrada neste estudo, entre as avaliações feitas por mães e professoras.

No entanto, a correlação foi significante e na direção esperada, sugerindo que, de maneira geral, quando as crianças são habilidosas na família também o são na escola. Parece, porém, que as habilidades sociais exigidas no contexto familiar são diferentes das exigidas na escola, com exceção de brinca com colegas, comunica-se positivamente, faz amigos e expressa desejos.

O questionário mostrou capacidade em diferenciar crianças com e sem problemas de comportamento (validade discriminativa), seja a partir da indicação das próprias mães, seja das professoras. Desta forma, o instrumento pode, com cautela, ser utilizado em pesquisas de avaliação e de intervenção clínica controlada, uma vez que pode ser utilizado na avaliação de crianças com e sem problemas de comportamento, bem como ser aplicado em medidas antes e depois de intervenção, verificando a aquisição ou não de repertório de habilidades sociais. Nesses estudos, se o pré-escolar apresentar baixos índices no QRSH-PR é possível que apresente alto escore em problemas de comportamento, o que pode ser atestado com a aplicação de um instrumento próprio para avaliar problemas de comportamento, por exemplo, a ECI ou o CBCL (Achenbach & Rescorla, 2001).

A validação do questionário de respostas socialmente habilidosas versão pais (QRSH-Pais) torna-se importante, sobretudo para a realidade nacional, carente em instrumentos que avaliem habilidades sociais em pré-escolares, podendo ter uma aplicabilidade nos âmbitos científico, clínico e educacional. Sua principal limitação encontra-se na amostra reduzida utilizada, o que inviabilizou a análise relativa à validade de constructo, sugerindo a necessidade de novos trabalhos nesta direção de forma a aferir melhor o instrumento e, por esse motivo, o QRSH-Pais, ainda que possa ser utilizado em pesquisas, deve ser utilizado com cautela até ter plenamente suas propriedades psicométricas aferidas.

 

Referências

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Recebido: 11/02/2009
1ª revisão: 01/10/2009
2ª revisão: 04/02/2010
Aceite final: 25/02/2010

 

 

* Endereço para correspondência: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Faculdade de Ciências de Bauru, Departamento de Psicologia, Engo. Luiz Edmundo C. Coube, s/n, Bauru, SP, Brasil, CEP 17033-360. Tel.: (14) 3103 6087. E-mails: bolsoni@fc.unesp.br, emmartur@fmrp.usp.br e srlourei@fmrp.usp.br