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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.24 no.2 Porto Alegre  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722011000200017 

PROCESSOS BÁSICOS

 

Passos e listas na investigação do priming ortográfico

 

Steps and lists in investigating orthographic priming

 

 

Rosa Helena Delgado BusnelloI, *; Lilian Milnitsky SteinI; Jerusa Fumagalli de SallesII; Leticia Leuze MachadoI; Carlos Falcão de Azevedo GomesI

IPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil
IIUniversidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Brasil

 

 


RESUMO

A presente comunicação apresenta (a) os critérios e procedimentos inerentes à elaboração de um instrumento de pesquisa para o efeito de priming ortográfico; e (b) listas de palavras e pseudopalavras, elaboradas segundo os critérios apresentados, próprias para utilização em tarefas como a decisão lexical, o preenchimento de lacunas ou a nomeação de palavras.

Palavras-chave: Instrumento; Priming; Listas de palavras.


ABSTRACT

This article presents (a) the criteria and elaboration steps for a research instrument in the orthographic priming paradigm; and (b) word and pseudo-word lists, elaborated based on those criteria, may be used as instruments for lexical decision, word completion or nomination tasks.

Keywords: Instrument; Priming; Words lists.


 

 

O efeito de priming é um paradigma experimental utilizado por diferentes áreas de estudo, em diferentes tarefas. Em linhas gerais, o priming é observado quando a apresentação breve ou subliminar de um estímulo prévio (o prime) facilita o processamento de um estímulo subseqüente (o alvo), sendo este último idêntico ou de alguma forma relacionado ao prime. Quando prime e alvo são idênticos, observa-se o efeito de priming direto. Quando são diferentes, mas semanticamente relacionados, evidencia-se o priming indireto. Considera-se que o fenômeno de priming ocorreu quando há evidência de que a apresentação do prime facilitou a resposta ao alvo. Tal evidência é obtida comparando-se a condição de teste na qual houve a apresentação de primes a uma de controle, na qual não ocorreu esta apresentação (Busnello, Stein, & Salles, 2008; Foster, 1999, Versace & Nevers, 2003).

Atualmente, o paradigma de priming tem sido utilizado pela Psicologia Cognitiva, em estudos com foco no processamento de memórias implícitas (Besner, Risko, & Sclair, 2005); pela Psicolingüística, na investigação do acesso lexical (Foster, 2004), e pela Neuropsicologia, no estudo das funções cognitivas de participantes com ou sem lesões neurológicas (Dehaene et al., 2001; Fairhall, Hamm, & Kirk, 2007). Grande parte dos estudos efetuados nessas três áreas de pesquisa utiliza tarefas com estímulos ortográficos (i.e., com palavras e pseudopalavras), o que demanda a utilização de listas elaboradas segundo critérios cientificamente estabelecidos.

Na implementação de um estudo no paradigma de priming que utilize estímulos ortográficos, no entanto, o pesquisador brasileiro nem sempre encontra listas de palavras já testadas em português - o que o leva, forçosamente, à elaboração de seu próprio instrumento de pesquisa. Embora possa parecer uma tarefa fácil, a construção de uma lista de palavras requer procedimentos cuidadosos. O primeiro deles é a construção de uma lista no idioma do participante; ou, mais especificamente, no idioma tal como é falado e/ou escrito no lugar em que o participante vive. Essa medida exclui totalmente a tradução de listas de palavras utilizadas por pesquisadores de outros idiomas, bem como a utilização de listas construídas em lugares com o mesmo idioma, como é o caso de países de língua espanhola, inglesa e portuguesa.

A principal dificuldade na elaboração de uma lista de palavras diz respeito aos critérios lingüísticos que devem ser levados em consideração, tais como a freqüência e extensão das palavras, e o corpus lingüístico adotado para essa seleção. A inobservância de tais critérios poderá, eventualmente, enviesar o experimento. Uma palavra muito freqüente na língua, por exemplo, poderá evidenciar um resultado empírico relacionado, principalmente, à sua alta ativação no léxico do participante, e não a outros processamentos cognitivos eventualmente pesquisados no experimento, tais como atenção, memória ou percepção subliminar (para revisão, vide Busnello, 2007; Foster, 1999).

Portanto, constatando-se a carência de listas de palavras do português brasileiro, a presente comunicação breve tem por objetivo geral contribuir para o desenvolvimento de pesquisas no paradigma de priming ortográfico em língua portuguesa, tendo por objetivos específicos: (a) apresentar os procedimentos a serem observados na elaboração de listas de palavras; e (b) apresentar listas que poderão ser utilizadas, experimentalmente, em tarefas como a decisão lexical (i.e., a rápida decisão do participante quanto ao que percebe na tela do computador ser ou não uma palavra); o preenchimento de lacunas ou de radicais de palavras; ou a nomeação (i.e., a leitura em voz alta de palavras que aparecem rapidamente na tela do computador). Para revisão dos paradigmas experimentais de priming ortográfico citados, veja Busnello (2007) e Parente e Salles (2007).

 

A Elaboração das Listas de Palavras

Preliminarmente, os passos a serem seguidos pelo pesquisador na construção de uma lista de palavras são: (a) a seleção do corpus lingüístico, o qual deverá ser obtido, necessariamente, na literatura voltada aos estudos linguísticos do idioma escolhido; (b) o estabelecimento do critério de extensão das palavras, uma vez que palavras curtas e longas são processadas, cognitivamente, em tempos distintos; (c) a escolha do critério de freqüência lexical das palavras, pois estas possuem níveis de maior ou menor freqüência na língua escrita, sendo também processadas distintamente sob apresentação supra ou subliminar; e (d) caso a tarefa escolhida pelo pesquisador seja a decisão lexical, a construção das pseudopalavras.

O Corpus Lingüístico

Trata-se de uma variável de controle dos experimentos de priming que utilizam estímulos ortográficos. O corpus lingüístico selecionado para a elaboração das listas apresentadas na presente comunicação (vide Tabela 1) foi o NILC (Kuhn, Silva, Abarcca, & Nunes, 2000; Pinheiro & Aluísio, 2003). Outra referência adequada a esta etapa de procedimentos é o corpus do português ortográfico brasileiro de Sardinha (2004).

A Extensão das Palavras

Após a seleção do corpus lingüístico, o pesquisador define a extensão das palavras a serem utilizadas em seu experimento. Para tanto, ele deverá levar em conta os possíveis vieses de pesquisa, os quais não lhe permitirão resultados fidedignos e, eventualmente, comprometerão a validade interna de seu experimento. Por exemplo: em um experimento de priming ortográfico subliminar, palavras longas (i.e., polissílabos) podem inviabilizar a apresentação dos primes abaixo do limiar de consciência do participante. Isso significa que ele pode perceber o estímulo, ainda que este tenha sido apresentado em um tempo de apresentação apontado pela literatura como subliminar, simplesmente pela extensão da palavra.

Tendo em vista ensejar o maior aproveitamento possível das listas apresentadas na presente comunicação, todas as palavras são substantivos comuns e dissílabos (vide Tabela 1), com extensão de quatro a cinco letras. Este procedimento permite que a leitura dos primes ocorra tanto de forma rápida, em uma condição de teste supraliminar, como pré-consciente, no caso de um estudo de priming subliminar.

A Freqüência Lexical

Tal como a extensão, a freqüência lexical das palavras também impactará em seu processamento, durante a execução da tarefa experimental. Palavras muito e pouco freqüentes possuem níveis de propagação de ativação diferentes; o que torna seu processamento também diferenciado (Foster, 1999). Usualmente, os experimentos de priming com estímulos ortográficos buscam evidenciar essa distinção de processamento lexical excluindo-se palavras de freqüência média no idioma. Assim, os substantivos selecionados para as listas aqui apresentadas possuem freqüência lexical estabelecida entre alta e baixa (vide Tabela 1), de acordo com o corpus lingüístico adotado (Kuhn et al., 2000; Pinheiro & Aluísio, 2003).

A Construção das Pseudopalavras

Pseudopalavras são estímulos ortográficos que possuem a estrutura de palavras, mas que não têm significado, sendo utilizadas na tarefa de decisão lexical. Nessa tarefa, pede-se ao participante do experimento que decida, o mais rapidamente possível, se o que vê na tela do computador é ou não uma palavra (Busnello et al., 2008; Versace & Nevers, 2003). As pseudopalavras são construídas a partir das palavras selecionadas para o experimento, usualmente trocando-se duas letras. Nas listas aqui apresentadas, p. ex., a palavra mesa originou a pseudo-palavra teda; gato tornou-se cafo, e etc.

 

Considerações Finais

O efeito de priming ortográfico é um paradigma metodológico que vem sendo utilizado por diferentes áreas de investigação, em diferentes tarefas experimentais. A Psicologia Cognitiva, a Psicolingüística e a Neuropsicologia o têm utilizado de forma crescente em todo o mundo, mas o pesquisador brasileiro não encontra listas devidamente construídas e testadas em seu idioma.

A presente comunicação teve como objetivo principal oferecer uma contribuição às pesquisas no paradigma de priming ortográfico em nosso idioma, ensejando um suporte metodológico ao pesquisador na construção de seu instrumento de pesquisa. Para tanto, foram apresentados os critérios e procedimentos a serem observados na construção de listas de palavras, de forma a evitar os possíveis vieses metodológicos decorrentes da inobservância de pontos críticos do processamento lexical, tais como a extensão ou a freqüência das palavras.

Complementando, foram apresentadas listas de palavras, construídas a partir dos critérios expostos, as quais poderão ser utilizadas, eventualmente, em tarefas experimentais como a decisão lexical, o preenchimento de lacunas ou a nomeação de palavras. Tendo em vista o possível uso das listas na tarefa de decisão lexical, apresentaram-se critérios para a construção de pseudopalavras, bem como uma lista de estímulos ortográficos deste tipo construídos a partir das palavras selecionadas (Tabela 1).

Futuramente, sugerimos a inserção da variável complexidade silábica, visto que palavras cujas sílabas envolvem onsets complexos (do tipo consoante / consoante / vogal, como em troco), ou codas (do tipo vogal / consoante / vogal, como em lenda), podem envolver maior tempo de processamento do que aquelas compostas por sílabas simples ou canônicas, do tipo consoante / vogal, como em mala. Esta variável não foi controlada na lista apresentada na Tabela 1 mas é uma sugestão para futuros trabalhos.

 

Referências

Besner, D., Risko, E. F., & Sclair, N. (2005). Spatial attention is a necessary preliminary to early processes in reading. Canadian Journal of Experimental Psychology, 59(2), 99-108.         [ Links ]

Busnello, R. H. D. (2007). Efeito de priming subliminar no acesso ao léxico. Dissertação de Mestrado não-publicada, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS. Retrieved from http://tede.pucrs.br/tede_busca/arquivo.php?codArquivo=637        [ Links ]

Busnello, R. H. D., Stein, L. M., & Salles, J. F. (2008). Efeito de priming de identidade subliminar na decisão lexical com universitários brasileiros. Psico (Porto Alegre), 39(1), 41-47.         [ Links ]

Dehaene, S., Naccache, L., Cohen, L., Le Bihan, D., Mangin, J. F., Poline, J. B., et al. (2001). Cerebral mechanisms of word masking and unconscious repetition priming. Nature, 4(7), 752-758.         [ Links ]

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Kuhn, D. C. S., Abarca, E., & Nunes, M. G. V. (2000). Corpus Nilc de Português Escrito no Brasil (NILC-TR-00-7). São Carlos, SP: Universidade de Federal de São Carlos. Retrieved November 29, 2005, from http://www.nilc.icm.usp.br/nilc/publications.htm#TechnicalReports.htm        [ Links ]

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Sardinha, T. B. (2004). Linguística de corpus. Barueri, SP: Manole.         [ Links ]

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Recebido: 03/07/2009
1ª revisão: 14/12/2009
Aceite final: 14/01/2010

 

 

* Endereço para correspondência: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Faculdade de Psicologia, Departamento de Pós-Graduação em Psicologia, Avenida Ipiranga, 6681, prédio 11, sala 933, Partenon, Porto Alegre, RS, Brasil, CEP 90619-900. E-mails: rosa.busnello@gmail.com, lilian@pucrs.br, jerusafs@yahoo.com, leticia.leuze@gmail.com e carlos.fagomes@gmail.com