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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972

Psicol. Reflex. Crit. vol.24 no.3 Porto Alegre  2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722011000300006 

AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA

 

Motivações para responder sem preconceito: evidências de uma medida frente a gays e lésbicas

 

Motivation to respond without prejudice: evidences of a measure toward gays and lesbians

 

 

Valdiney V. Gouveia*, I; Luana Elayne Cunha de SouzaI; Kátia Correa VioneI; Maria de Fátima Baracuhy CavalcantiI; Walberto Silva dos SantosII; Emerson Diógenes de MedeirosIII

IUniversidade Federal da Paraíba, João Pessoa, Brasil
IIUniversidade Federal do Ceará, Fortaleza, Brasil
IIIUniversidade Federal do Piauí, Teresina, Brasil

 

 


RESUMO

Este artigo objetivou conhecer evidências psicométricas da Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito ([EMEI], Plant & Devine, 1998), considerando dois grupos-alvo: gays e lésbicas. Realizaram-se dois estudos. No Estudo 1 participaram 234 pessoas da população geral de João Pessoa (PB), com média de idade de 26 anos, a maioria do sexo feminino (54,3%) e heterossexual (95%). Eles responderam a versão da EMEI para gays. Análises fatoriais confirmatórias revelaram como mais adequado o modelo bifatorial (AGFI = 0,94, CFI = 0,98 e RMSEA = 0,05). Os Alfas de Cronbach dos fatores foram 0,74 (motivação interna) e 0,76 (motivação externa). No Estudo 2 participaram 202 pessoas da população geral da mesma cidade, com idade média de 25 anos, a maioria do sexo feminino (60,9%) e heterossexual (95%). Eles responderam a versão da EMEI para lésbicas. Corroborando o estudo anterior, uma estrutura bifatorial se mostrou mais adequada (AGFI = 0,90, CFI = 0,95 e RMSEA = 0,08). Os Alfas de Cronbach para os dois fatores foram 0,71 (motivação interna) e 0,84 (motivação externa). Reuniram-se evidências complementares de validade de construto destas versões. Concluindo, os resultados apoiaram a adequação psicométrica (validade fatorial, validade convergente-discriminante e consistência interna) da EMEI, que poderá ser empregada em pesquisas futuras sobre preconceito frente a gays e lésbicas.

Palavras-chave: Motivação Interna; Motivação Externa; Preconceito; Gays; Lésbicas.


ABSTRACT

The current article aimed to find psychometric evidences in the Internal and External Motivation to Respond without Prejudice Scale (Plant & Devine, 1998) taking into account two target-groups: gays and lesbians. Two studies were carried out. In Study 1 participants were 234 subjects from the general population of João Pessoa-PB, with mean age of 26 years old, most of them female (54.3%) and heterosexual (95%). They answered the gay version of the Internal and External Motivation to Respond without Prejudice Scale (IEM Scale). Confirmatory factor analyses indicated that the two-factor model (AGFI = .94, CFI = .98, and RMSEA = .05) is the most adequate. Cronbach's Alphas for the factors were .74 (internal motivation) and .76 (external motivation). In Study 2 participants were 202 subjects of general population from the same city, with mean age of 25 years old, most of them female (60.9%) and heterosexual (95%). They answered the lesbian version IEM Scale. Corroborating the previous study, a two-factor model was more adequate (AGFI = .90, CFI = .95, and RMSEA = .08). Cronbach's Alphas for the two factors were .71 (internal motivation) and .84 (external motivation). Complementary evidences of the construct validity were also presented. In conclusion, the results support the psychometric adequacy (factorial validity, convergent-discriminant validity, and reliability) of the IEM Scale suggesting it can be used in future studies about prejudice toward gays and lesbians.

Keywords: Internal Motivation; External Motivation; Prejudice; Gays; Lesbians.


 

 

Os danos que o fascismo da década de 1940 causou na Europa impulsionaram o estudo do preconceito (Myers, 1995). De fato, não tardou em esta temática se tornar uma das mais importantes na Psicologia Social. Recorrendo a uma análise histórica a respeito, encontram-se desde a antiguidade greco-romana registros sobre preconceito de base cultural e contra escravos (Lacerda, Pereira, & Camino, 2002). Todavia, a sociedade no decorrer da his-tória teve um avanço evidente em termos de direitos humanos e estratégias de resolução de conflitos intergrupais (Pereira, Torres, & Almeida, 2003). Por exemplo, observam-se nos últimos anos organizações da sociedade civil que lutam pelos direitos de grupos minoritários, como homossexuais, negros e índios. Tais organizações têm contribuído para provocar mudanças na legislação que coíbem manifestações de comportamentos e atitudes discriminatórias (Ministério da Saúde, 2004).

Ao analisar a literatura acerca do preconceito, constata-se que este é definido e utilizado por diversos autores de formas variadas, não havendo consenso acerca de seu significado (Vasconcelos, Gouveia, Souza Filho, Souza, & Jesus, 2004). Contudo, quando se trata da compreensão deste construto é menção quase obrigatória a obra clássica de Gordon W. Allport, publicada em meados de 1950, The Nature of Prejudice (Allport, 1954). Nesta obra o autor define o preconceito como uma atitude hostil e desfavorável, relacionada a um julgamento errôneo e generalizado. Tal construto envolve ainda uma aversão sentida ou expressada que pode ser direcionada a um grupo ou a um de seus membros. Jones (1973) destaca a presença de dois elementos centrais na concepção de Allport: (a) representa uma atitude negativa e (b) evidencia a situação de desvantagem em que se encontra seu objeto, isto é, o grupo ou a pessoa a quem se dirige o preconceito.

Apesar de evidências de preconceitos na sociedade contemporânea, verifica-se que atos preconceituosos têm sido ampla e abertamente desencorajados (Plant & Devine, 1998). Não obstante, embora seja possível imaginar que o preconceito esteja diminuindo, de fato ele segue existindo, mas sob uma forma mais moderna de expressão. Esta nova forma consiste em uma maneira menos aberta de expressá-lo, denominada por diversos autores como sutil ou moderno (McConahay, Hardee, & Batts, 1981; Pettigrew & Meertens, 1995; Santos, Gouveia, Navas, Pimentel, & Gusmão, 2006).

Partindo do estudo realizado por Pettigrew e Meertens (1995) sobre o preconceito racial manifesto e sutil, Castillo, Rodríquez, Torres, Pérez e Mertel (2003) concluíram que esta diferenciação entre tais tipos de pre-conceito se verifica também em relação aos homossexuais. A homofobia ou o preconceito sexual refere-se às atitudes negativas frente a um indivíduo devido a sua orientação sexual (Herek, 2000). Segundo Herek (2000), assim como ocorre com os outros tipos de preconceito, este apresenta três características principais: (a) é uma atitude, (b) direcionada a um grupo social e seus membros (homossexuais) e (c) tem conotação negativa, envolvendo sentimento de hostilidade ou aversão.

Gays e lésbicas fazem parte de um grupo minoritário que é algumas vezes rechaçado na sociedade, padecendo de discriminação e injustiças (Toro-Alfonso & Varaz-Díaz, 2004). Quando encontrados em homens, os atri-butos masculinos são desejáveis e vistos positivamente; todavia, se observados em mulheres, estas são desqua-lificadas e alvos de preconceito; o mesmo fenômeno pode ser observado quando atributos femininos são verificados em homens (Whitley & Egisdóttir, 2000). Desta forma, os comportamentos sexuais e afetivos que não obedecem tal distinção são vistos como ameaças aos valores e papéis tradicionais da família (Basow & Johnson, 2000).

A maioria dos estudos sobre preconceito frente aos homossexuais tem como foco indicadores diretos de atitudes ou crenças preconceituosas. Tais indicadores têm sido correlacionados com diversas variáveis, a exemplo de personalidade autoritária e crenças nos papéis tradicionais de gênero (Whitley & Egisdóttir, 2000), valores tradicionais (Gouveia, Souza Filho, Araújo, Guerra, & Souza, 2006), religiosidade (Rowatt et al., 2006) e contato social (Vasconcelos et al., 2004).

Como antes indicado, as novas formas de preconceito, ao contrário daquele tradicional e mais aberto, envolvem meios encobertos de expressão. Observa-se, portanto, uma tendência de as pessoas indicarem não ter preconceito ou procurarem expressar respostas não preconceituosas (Gouveia et al., 2006; Santos et al., 2006). Com base nesta tendência, Plant e Devine (1998) realizaram um estudo cujo objetivo foi propor uma medida acerca da fonte de motivações internas e externas para responder sem preconceito frente a negros. No Brasil, esta medida foi adaptada por Gouveia et al. (2006), os quais reuniram evidências de sua validade fatorial e consistência interna.

Em busca realizada no Google Acadêmico (2009) e no Index Psi (2009), considerando conjuntamente as palavras "preconceito" e "homossexuais" e a expressão "motivações para responder sem preconceito", foram encontrados no cenário internacional estudos utilizando a Escala de Atitudes Frente a Lésbicas e Gays (Whitley & Egisdóttir, 2000), o Teste de Associação Implícita (Banse, Seise, & Zerbez, 2001; Rowatt et al., 2006) e uma pesquisa sobre as diferenças de gênero quanto ao papel das motivações para responder sem preconceito frente a gays e lésbicas (Ratcliff, Lassiter, Markman, & Snyder, 2006). No contexto nacional, também foram encontradas algumas publicações a respeito, tratando de representações sociais da homossexualidade (Lacerda et al., 2002; Scardua & Souza Filho, 2006), uma medida sobre crenças acerca da homossexualidade (Cerqueira-Santos, Winter, Salles, Longo, & Theodoro, 2007) e a adaptação da Escala de Homofobia Implícita e Explícita (Marinho, Marques, Almeida, Menezes, & Guerra, 2004).

Fica evidente a inexistência de instrumento publicado no contexto brasileiro para avaliar as motivações interna e externa para responder sem preconceito frente a gays e lésbicas. Tendo-se em vista a importância de se contar com ferramentas úteis para entender as razões de diferentes expressões do preconceito frente a grupos mino-ritários, planejou-se a presente pesquisa. Seu objetivo principal foi adaptar a Escala de Motivações Interna e Externa para Responder sem Preconceito, considerando duas versões em relação ao grupo minoritário-alvo: gays e lésbicas. Procura-se a seguir descrever o embasamento teórico e a medida correspondente, como propostos por Plant e Devine (1998).

 

Motivações para Responder sem Preconceito: Teoria e Medida

Em pesquisas recentes sobre o preconceito tem sido observado o interesse em compreender as motivações subjacentes às respostas não preconceituosas (Devine, Plant, Amodio, Harmon-Jones, & Vance, 2002; Gouveia et al., 2006; Plant & Devine, 1998; Ratcliff et al., 2006). Contudo, há muito se sabe que esta motivação pode não refletir mudanças pessoais nas atitudes dos indivíduos, sendo apenas uma contingência social, reflexo de normas que pressionam o indivíduo a responder sem preconceito (McConahay et al., 1981).

Enquanto tema específico de pesquisa, a tendência de as pessoas indicarem não ter preconceito ou procurarem mostrar respostas não preconceituosas foi inicialmente abordada por Plant e Devine (1998). Segundo estas autoras, a motivação externa compreende uma preocupação com a aprovação dos outros, refletindo um componente forte de desejabilidade social; as pessoas que apresentam tal tipo de motivação, em geral, não demonstram o mesmo comportamento na ausência de outras. Este tipo de motivação deriva do desejo de evitar uma avaliação negativa por parte dos demais. Por outro lado, a motivação interna deriva de interesses pessoais do indivíduo, sendo considerada uma resposta motivada por crenças pessoais já incorporadas ao autoconceito; quando este tipo de motivação é mais forte, as pessoas são presumivelmente menos influenciadas em seus juízos frente a grupos minoritários (Devine et al., 2002).

Plant e Devine (1998) desenvolveram um instrumento com o propósito único de medir tais motivações, denominado Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito. A pesquisa que a fundamentou e possibilitou conhecer evidências de sua adequação psicométrica foi conduzida em três fases, resumidas a seguir:

Primeira Fase. Compreendeu propriamente a cons-trução da escala, sendo criados itens para avaliar a mo-tivação externa, baseando-se em padrões relacionados com os outros e impostos ao indivíduo, e motivação interna, fundamentando-se na auto-imposição de padrões não-preconceituosos. As escalas finais foram desenvolvidas a partir de análises fatoriais exploratória e confir-matória, checando-se a consistência interna dos fatores resultantes. No caso da análise fatorial confirmatória, esta foi realizada em três amostras, observando-se resultados que reforçaram a adequação do modelo bi-fatorial, como GFI e AGFI em torno de 0,90, com redução substancial do qui-quadrado quando comparado ao modelo uni-fatorial (15,06 < Dc2 < 1413,41; p < 0,01). Os índices de consistência interna (Alfas de Cronbach) variaram para os fatores de motivações externa (0,79 0,80) e interna (0,81 0,85). O instrumento final contou com dez itens, igualmente distribuídos entre os dois fatores.

Segunda Fase. Consistiu na verificação da validade convergente e discriminante da escala. Neste sentido, as motivações externa e interna foram relacionadas com medidas de auto-relato sobre preconceito, considerando tanto atitudes positivas quanto negativas, e medidas de avaliação social e auto-percepção, avaliando a deseja-bilidade social, o medo e a ansiedade com relação a avaliações negativas. Considerando as definições destes construtos, estes tipos de motivação deveriam se corre-lacionar de maneira diferente com as medidas de preconceito, as reações a avaliações sociais e a auto-percepção. Coerentemente, estas autoras observaram que as moti-vações internas se correlacionaram diretamente com medidas de atitudes positivas, tendo sua correlação sido inversa com aquelas de atitudes negativas; isso evidencia que as pessoas motivadas internamente a responder sem preconceito possuem menos sentimentos negativos em relação aos negros. Esta motivação não se correlacionou com variáveis de avaliação social, indicando que os indivíduos que a endossam estão menos preocupados com as avaliações sociais. Por outro lado, as motivações externas para responder sem preconceito se correlacionaram diretamente com o medo de avaliações negativas e as pontuações na medida de racismo moderno, indicando que indivíduos com tais motivações tendem a refletir sentimentos mais negativos em relação aos negros, temendo as avaliações das demais pessoas.

Terceira Fase. Comprovou-se a validade preditiva dos fatores desta medida a partir de dois métodos. O primeiro procurou explorar a natureza das reações afetivas das pessoas ao falharem quanto aos seus próprios padrões (internos) e aos padrões dos demais (externos), em relação a como os negros deveriam ser tratados. O segundo procurou avaliar o quanto as pessoas endossam este-reótipos em relação aos negros em situações privadas e públicas. Observou-se que pessoas guiadas por motivações internas sentiam-se culpadas quando percebiam uma discrepância entre seus padrões pessoais e reações afetivas, enquanto que as pessoas motivadas externamente ao perceberem a discrepância entre os padrões externos e suas reações, sentiam-se ameaçadas. No que se refere à diferença do que as pessoas relatam em relação aos estereótipos em situações públicas e privadas, verificou-se que aquelas motivadas externamente ajustavam suas expressões de acordo com a pressão social quando presumiam estar diante de pessoas não preconceituosas.

As dimensões de motivações a responder sem preconceito têm se mostrado legítimas, sendo mais plausíveis como fatores independentes do que contrários. A propósito, os tipos externo e interno de motivação têm apresentado correlações médias entre si na ordem de -0,14, indicando que são melhor pensados como construtos independentes (Plant & Devine, 1998). Portanto, ambas podem estar presentes na explicação das reações precon-ceituosas manifestas pelas pessoas frente a grupos minoritários ou membros deles (Gouveia et al., 2006; Plant & Devine, 1998).

Finalmente, o estudo de Gouveia et al. (2006) adaptou a Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito frente a Negros ao contexto brasileiro. Seus achados foram consistentes com os de Plant e Devine (1998), isto é, claramente foram identificados dois fatores que refletiram as motivações interna e externa. Entretanto, o item 5 deste instrumento (De acordo com meus valores pessoais, é certo usar estereótipos em relação aos negros) foi removido, pois não se mostrou adequado, saturando em um fator diferente do teoricamente esperado, isto é, deveria estar presente no fator de motivação interna, porém sua carga fatorial foi mais forte naquele de motivação externa. Os índices de consistência interna (Alfas de Cronbach) dos fatores motivação externa e interna foram, respectivamente, 0,80 e 0,55. Apesar de o Alfa de Cronbach do fator motivação interna ter sido baixo, tais autores o justificaram em razão do número reduzido de itens. Na presente pesquisa, entretanto, o foco não compreende os negros, mas os gays e as lésbicas como grupos minoritários, demandando checar a estrutura fatorial observada por estes autores.

 

Estudo 1. Motivações para Responder sem Preconceito frente a Gays

Este estudo teve como objetivo adaptar a Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito frente a Gays por meio de modelagem por equações estruturais. Este procedimento favorece conclusão mais contundente acerca da validade fatorial da medida, indicando o quanto ela se ajusta aos dados empíricos.

Método

Amostra

Participaram 234 pessoas da população geral de João Pessoa (PB). Esta compreende uma amostra de conve-niência (não-probabilística), tendo participado aquelas pessoas que, convidadas, decidiram colaborar voluntaria-mente. Tais participantes apresentaram idades entre 15 e 63 anos (m = 26,0, DP = 10,43), sendo a maioria do sexo feminino (54,3%) e heterossexual (95%).

Instrumentos

Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito (MEIG). Elaborada por Plant e Devine (1998), compõe-se de dez itens distribuídos equitativamente em dois fatores: motivação externa (por exemplo, Procuro não apresentar preconceito contra gays, para evitar a desaprovação dos outros; Se eu agir de forma preconceituosa contra os gays, vou me preocupar se as pessoas vão ficar com raiva de mim) e motivação interna (por exemplo, É importante para meu autoconceito não ser preconceituoso com gays; Procuro agir de forma não preconceituosa em relação aos gays porque isso é importante para mim). Estes itens avaliam em que medida as pessoas dão respostas não-preconceituosas em relação a exogrupos, neste caso, gays; as respostas são dadas em escala de nove pontos, com os seguintes extremos: 1 = Discordo totalmente e 9 = Concordo totalmente. Esta versão foi elaborada com base no trabalho de Gouveia et al. (2006), mudando a palavra "negros" por "gays". O leitor interessado poderá solicitar aos autores uma cópia desta versão.

Caracterização Demográfica. Foram elaboradas perguntas de caráter demográfico (por exemplo, idade, religiosidade, sexo) e questões que permitissem avaliar a interação dos participantes com os gays. Especificamente, abordaram-se a preferência sexual, quantos amigos íntimos a pessoa tem e quantos desses são gays, se conhece alguém que tem preconceito em relação aos gays, se algum amigo íntimo tem preconceito em relação aos gays e se na família alguém tem preconceito com relação à preferência sexual.

Procedimento

A coleta de dados foi realizada por quatro aplicadores devidamente treinados, abordando individualmente os participantes em locais públicos (shoppings, parques). Todos os instrumentos eram auto-aplicáveis, exigindo o mínimo de interferência por parte dos aplicadores. Foi dito aos participantes que não existiam respostas certas ou erradas, sendo fundamental que expressassem sinceramente como pensam, sentem ou se comportam no seu dia-a-dia. Fez-se um apelo para que respondessem individualmente, sendo-lhes informado que suas respostas seriam confidenciais e tratadas estatisticamente no conjunto. Informou-se que eles eram livres para deixar o estudo a qualquer momento, sem penalizações, sendo sua concordância em preencher o questionário o consenti-mento livre e esclarecido para que os dados pudessem ser utilizados em trabalhos acadêmicos e/ou publicações, preservando seu anonimato. O projeto correspondente foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, da Universidade Federal da Paraíba (Processo CEP Nº 451/2004). Em média, aproximadamente 20 minutos foram suficientes para completar sua participação.

Análise de Dados

O SPSS (versão 15) foi utilizado para calcular estatísticas descritivas (por exemplo, média e desvio padrão) e consistência interna dos fatores. Empregou-se o AMOS (versão 7) para realizar as análises fatoriais confirmatórias. Partiu-se da matriz de covariâncias entre os itens como entrada, assumindo o estimador ML (Maximum Like-lihood). Este tipo de análise oferece alguns indicadores de ajuste do modelo teórico aos dados empíricos, sendo os seguintes amplamente considerados (Byrne, 2001; Garson, 2003; Tabachnick & Fidell, 2006): (a) O c² (qui-quadrado) testa a probabilidade de o modelo teórico se ajustar aos dados; quanto maior este valor, pior o ajustamento. Este tem sido pouco empregado na literatura, sendo mais comum considerar sua razão em relação aos graus de liberdade (c²/gl). Recomendam-se valores entre 2 e 3 como indicador de um ajustamento adequado, admitindo-se até 5. (b) O Goodness-of-Fit Index (GFI) e o Adjusted Goodness-of-Fit Index (AGFI) indicam proporção de variância-covariância nos dados explicada pelo modelo. Estes variam de 0 a 1, com valores na casa de 0,90 (ou superior) indicando um ajustamento satisfatório. (c) O Comparative Fit Index (CFI) compara a matriz de covariância predita pelo modelo com aquela realmente observada. São admitidos como expressando um ajuste adequado valores de CFI iguais ou superiores a 0,90. (d) A Root-Mean-Square Error of Approximation (RMSEA), com seu intervalo de confiança de 90% (IC90%), é considerada um indicador de "maldade" de ajuste, isto é, valores altos indicam um modelo não ajustado. Assume-se como ideal que a RMSEA se situe entre 0,05 e 0,08, aceitando-se valores de até 0,10. O Pclose é um indicador mais criterioso, testando a hipótese nula de RMSEA < 0,05. Quando seu valor é próximo a zero, rejeita-se esta hipótese, sugerindo ausência de ajuste do modelo. Portanto, é recomendado Pclose > 0,05 como indicativo de modelo ajustado. (e) O Expected Cross-Validation Index (ECVI) e o Consistent Akaike Information Criterion (CAIC) são indicadores geralmente empregados para avaliar a adequação de um modelo determinado em relação a outro; valores baixos do ECVI e CAIC expressam o modelo com melhor ajuste. Nesta mesma linha de comparar modelos, pode-se empregar a diferença entre os qui-quadrados (Dc²) de dois modelos alternativos; um valor Dc² com um p < 0,05 sugere melhor ajuste do modelo com menor qui-quadrado.

Por fim, reunindo evidências complementares de validade de construto, procurou-se calcular a variância média extraída (VME) e a confiabilidade composta (CC) (Fornell & Larcker, 1981; Hair, Anderson, Tatham, & Black, 1998). Valores iguais ou superiores a 0,50 e 0,70, respectivamente, asseguram a adequação da medida. A VME pode ser considerada indicadora de validade conver-gente de cada fator, isto é, o quanto ele serve para explicar o conjunto de itens; no caso da validade discriminante, esta é assegurada quando o valor da raiz quadrada da VME é superior àquele da associação entre dois fatores (F). Por último, o valor da CC para cada fator pode contribuir para dirimir dúvidas quanto ao Alfa de Cronbach, que é influenciado pelo número de itens e pode não ser adequado quando se trata de uma medida com dois ou mais componentes interdependentes (Pasquali, 2003).

Resultados

Inicialmente, realizou-se uma análise fatorial confir-matória testando o modelo bifatorial original, composto por dez itens igualmente distribuídos nos dois fatores de motivações. De acordo com os resultados da SEM (Structural Equation Modeling), os indicadores de adequação de ajuste deste modelo foram pouco aceitáveis: c² (34) = 165,77, p < 0,001; c²/gl = 4,87, GFI = 0,88, AGFI = 0,80, CFI = 0,81, RMSEA = 0,129 (IC90% = 0,110 0,149) e Pclose = 0,000. Neste sentido, procurando identificar um modelo mais adequado, foram observados os IMs (Índices de Modificação) para as satu-rações (Lambdas, l) e os erros de medida (Deltas, d). No caso, constatou-se que seria recomendável (IM = 15,92) correlacionar os d dos itens 7 (De acordo com o que eu acredito, sinto-me particularmente motivado a não ter preconceito em relação aos gays) e 8 (Segundo meus valores pessoais é errado usar estereótipos em relação aos gays) do fator motivação interna, e eliminar o item 5 (De acordo com meus valores pessoais, é certo usar estereótipos em relação aos gays) deste fator e o item 1 (Devido a normas politicamente corretas, hoje em dia procuro não demonstrar preconceito contra gays) de motivação externa. Ambos saturaram de forma signifi-cativa (z > 1,96) em fator diferente do teoricamente esperado; precisamente, seus IMs indicaram saturação nas motivações externa (IM = 13,79) e interna (IM = 11,37), respectivamente.

Procedendo da forma anteriormente descrita, a estru-tura fatorial resultante reuniu melhores indicadores de ajuste aos dados empíricos: c² (18) = 28,34, p < 0,05, c²/gl = 1,57, GFI = 0,97, AGFI = 0,94, CFI = 0,98, RMSEA = 0,050 (IC90% = 0,000 - 0,083) e Pclose = 0,468. Neste caso, todos os l foram superiores a 0,30, sendo estatis-ticamente diferentes de zero (l ¹ 0; z > 1,96, p < 0,05). Os dois fatores apresentaram correlação entre si (F) de 0,24 (valor Phi padronizado). Na Figura 1 é resumido este modelo.

 

 

Assumindo a versão com oito itens, testou-se a possibilidade de contar com um modelo unifatorial das motivações para responder sem preconceito. A estrutura fatorial resultante reuniu os seguintes indicadores de ajuste: c² (20) = 243,07, p < 0,05, c²/gl = 12,15, GFI = 0,77, AGFI = 0,59, CFI = 0,60, RMSEA = 0,219 (IC90% = 0,195 - 0,244) e Pclose = 0,000. No caso, a comparação dos valores de qui-quadrados e respectivos graus de liberdade deste modelo com o bifatorial revelou dife-rença significativa [Dc² (2) = 214,73, p < 0,001], indicando que este último é mais adequado. Coerentemente, comprovaram-se valores maiores de CAIC (346,36) e ECVI (1,181) para o modelo unifatorial quando comparados com aqueles do bifatorial (144,54 e 0,276, respectivamente). Portanto, existem evidências de que a MEIG pode ser mais adequadamente representada por oito itens em uma estrutura bifatorial.

Quanto a indicadores complementares de validade de construto desta escala, calculou-se a VME para cada fator, cujos resultados foram: 0,62 (motivação interna) e 0,73 (motivação externa). A raiz quadrada destes valores é superior ao observado para a correlação (F) entre estes fatores, indicando que ambos apresentam validade discriminante.

Finalmente, complementando os resultados anteriormente descritos, a estrutura unifatorial apresentou consistência interna (Alfa de Cronbach) de 0,73, com homogeneidade de 0,30, variando de 0,27 (Item 8: Segundo meus valores pessoais é errado usar estereótipos em relação aos gays) a 0,40 (Item 9: Procuro não ter idéias negativas dos gays para que as pessoas não me critiquem). Os Alfas foram melhores para a estrutura bifatorial, com valores de 0,74 (Motivação Interna) e 0,76 (Motivação Externa). Os índices de homogeneidade destes fatores foram, respectivamente, 0,56 e 0,64. No caso da motivação interna, os valores variaram de 0,51 (Item 8: Segundo meus valores pessoais é errado usar estereótipos em relação aos gays) a 0,60 (Item 7: De acordo com o que eu acredito, sinto-me particularmente motivado a não ter preconceito em relação aos gays). Já no que diz respeito à motivação externa, estes oscilaram entre 0,60 (Item 2: Procuro não apresentar preconceito contra gays para evitar a desaprovação dos outros) e 0,67 (Item 9: Procuro não ter idéias negativas dos gays para que as pessoas não me critiquem). Os indicadores de confiabili-dade composta destes fatores foram como se descrevem: 0,69 (motivação interna) e 0,80 (motivação externa).

 

Estudo 2. Motivações para Responder sem Preconceito frente a Lésbicas

Este estudo procurou replicar os achados anteriormente descritos, embora considerando membros de outro grupo minoritário: lésbicas. Especificamente, seu objetivo foi adaptar a Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito frente a Lésbicas, conhecendo sua validade fatorial e consistência interna.

Método

Amostra

Participaram 202 pessoas da população geral de João Pessoa. Esta foi uma amostra de conveniência (não-probabilística), participando os indivíduos que, após serem convidados, decidiram colaborar voluntariamente. Suas idades variaram entre 15 e 71 anos (m = 24,9, DP = 9,62), sendo a maioria do sexo feminino (60,9%) e heterossexual (95%).

Instrumento, Procedimento e Análise dos Dados

Os participantes responderam o mesmo questionário descrito no Estudo 1, isto é, formado pela Escala de Motivações Externa e Interna para Responder sem Preconceito (MEIL) e Caracterização Demográfica. Não obstante, na descrição dos itens, onde havia escrita a denominação "gays" substituiu-se pela palavra "lésbicas" (por exemplo, É importante para meu autoconceito não ser preconceituoso com lésbicas; Procuro não apresentar preconceito contra lésbicas, para evitar a desaprovação dos outros). Seguiram-se as mesmas instruções acerca de como responder e o procedimento de aplicação, tendo a pesquisa sido aprovada pelo Comitê de Ética (Estudo 1). Empregaram-se o SPSS (versão 15) e o AMOS (versão 7) para as análises dos dados.

Resultados

Como primeiro passo, realizou-se uma análise fatorial confirmatória testando o modelo bifatorial original, formado pelos dez itens, cinco por fator. Os indicadores de ajuste sugeriram um modelo, no máximo, marginalmente aceitável: c² (34) = 109,27, p < 0,001, c²/gl = 3,21, GFI = 0,90, AGFI = 0,84, CFI = 0,87, RMSEA = 0,105 (IC90% = 0,083 - 0,127) e Pclose = 0,000. Entretanto, observando os IMs (Índices de Modificação), constatou-se a pertinência de efetuar duas modificações: (a) correlacionar os erros de medida (d) entre os itens 7 e 8 (IM = 15,49) e (b) eliminar os itens 5 e 1, correspondendo, respecti-vamente, aos fatores de motivação interna e motivação externa, haja vista que saturaram fortemente em fatores diferentes daqueles aos que pertenciam teoricamente (IMs = 5,57 e 10,71, respectivamente).

O novo modelo resultante, contando com menor número de itens, revelou uma estrutura bifatorial cujos indicadores de ajuste foram mais promissores: c² (18) = 43,34, p < 0,05; c²/gl = 2,41; GFI = 0,95; AGFI = 0,90; CFI = 0,95, RMSEA = 0,084 (IC90% = 0,052 0,116) e Pclose = 0,041. Ressalta-se que todos os lambdas foram superiores a 0,30, compreendendo valores estatisticamente diferentes de zero (l ¹ 0; z > 1,96, p < 0,05). A correlação entre os fatores (F) foi 0,18 (valor Phi padronizado). Um resumo deste modelo é oferecido na Figura 2.

 

 

Como no estudo anterior, procurou-se testar um mo-delo alternativo, unifatorial, reunindo os oito itens selecionados. Este modelo apresentou os seguintes indica-dores de ajuste: c² (20) = 199,10, p < 0,05, c²/gl = 9,95, GFI = 0,78, AGFI = 0,60, CFI = 0,64, RMSEA = 0,211 (IC90% = 0,185 - 0,238) e Pclose = 0,000. Comparando este modelo com o bifatorial, percebe-se uma diferença significativa [Dc² (2) = 155,76, p < 0,001], sugerindo que este último seja mais adequado. Apoiando este achado, observou-se que os valores de CAIC e ECVI para o modelo unifatorial (300,03 e 1,15, respectivamente) foram maiores do que os encontrados para o bifatorial (156,89 e 0,39, respectivamente). Deste modo, reuniram-se evidências de que a MEIL pode ser mais adequadamente representada por oito itens que se distribuem em dois fatores de motivações (externa e interna) para responder sem preconceito frente às lésbicas.

As validades convergente e discriminante desta escala foram avaliadas por meio da VME para cada fator. No caso, as motivações interna e externa apresentaram valores de 0,59 e 0,75, respectivamente, assegurando validade convergente desta escala. No que se refere a sua validade discriminante, esta foi comprovada em razão dos valores da raiz quadrada da VME serem superiores à correlação (F) entre os fatores de motivações para responder sem preconceito.

A estrutura unifatorial apresentou consistência interna (Alfa de Cronbach) de 0,69, com homogeneidade foi de 0,35, variando de 0,28 (Item 8: Segundo meus valores pessoais é errado usar estereótipos em relação as lésbicas) a 0,40 (Item 2: Procuro não apresentar preconceito contra lésbicas para evitar a desaprovação dos outros). Por outro lado, no caso da estrutura bifatorial, verificaram-se os seguintes Alfas: 0,71 (motivação interna) e 0,84 (motivação externa). A homogeneidade do fator motivação interna foi 0,53, variando de 0,46 (Item 8: Segundo meus valores pessoais é errado usar este-reótipos em relação as lésbicas) a 0,57 (Item 4: Procuro agir de forma não preconceituosa em relação as lésbicas porque isso é importante para mim; Item 7: De acordo com o que eu acredito, sinto-me particularmente motivado a não ter preconceito em relação as lésbicas). No caso do fator motivação externa, sua homo-geneidade foi 0,67, com valores entre 0,64 (Item 10: Se eu agir de forma preconceituosa contra as lésbicas, vou me preocupar se as pessoas vão ficar com raiva de mim) e 0,67 (Item 2: Procuro não apresentar preconceito contra lésbicas para evitar a desaprovação dos outros). A confiabilidade composta para cada fator foi como se indica: 0,67 (motivação interna) e 0,80 (motivação externa).

 

Discussão

Como indicado, o preconceito segue existindo sob uma forma mais moderna de expressão, que é mais sutil ou disfarçada (McConahay et al., 1981; Pettigrew & Meertens, 1995; Santos et al., 2006). Diversos estudos vêm sendo realizados acerca deste tipo de preconceito frente aos negros (Gouveia et al., 2006; Plant & Devine, 1998), cabendo igualmente considerar outros grupos minoritários. Gays e lésbicas fazem parte de um grupo minoritário que algumas vezes sofre rechaço na socie-dade, sendo alvo de injustiças e discriminações (Toro-Alfonso & Varaz-Díaz, 2004).

Embora existam indícios de que o preconceito, apesar de combatido socialmente, manisfesta-se frente aos homossexuais (Castillo et al., 2003), não foram encontrados no Brasil estudos sobre medidas de motivações para responder sem preconceito frente a gays e lésbicas. Portanto, decidiu-se adaptar o instrumento proposto por Plant e Devine (1998), levando-se em consideração estes grupos-alvo, reunindo evidências de sua validade fatorial e consistência interna. Confia-se que este objetivo tenha sido alcançado. A propósito, discutem-se a seguir os principais achados.

Na sua versão original, a Escala de Motivações para Responder sem Preconceito se mostrou válida (validade fatorial, convergente e preditiva) e precisa (consistência interna) (Plant & Devine, 1998). Especificamente, identificaram-se os dois fatores hipotetizados (motivação externa e motivação interna), que apresentaram Alfas de Cronbach próximos a 0,70, com correlação pequena entre si (Amodio, Harmon-Jones, & Devine, 2003; Plant & Devine, 1998). Os achados descritos no presente artigo reforçam a pertinência desta medida, inclusive quando se consideram grupos minoritários diferentes. Efetivamente, foram identificados os dois fatores teorizados, embora tenha sido mais adequado eliminar um item de cada um, aspecto que já se anunciava no estudo de Gouveia et al. (2006). Os indicadores de ajuste do modelo bifatorial foram mais adequados do que os encontrados para o modelo alternativo unifatorial, com valores que atendem recomendações da literatura (Byrne, 2001; Tabachnick & Fidell, 2006).

A consistência interna dos dois fatores, com independência do grupo-alvo (gays ou lésbicas), atendeu o ponto de corte comumente recomendado (0,70; Nunnally, 1991; Pasquali, 2003), coerente com estudos prévios (Amodio et al., 2003; Plant & Devine, 1998), embora com um item a menos por fator. Uma observação precisa ser feita quanto à confiabilidade composta; embora sugerido idealmente valores na casa de 0,70 (Hair et al., 1998), admite-se a partir de 0,60 (Fornell & Larcker, 1981). Se observadas as Figuras 1 e 2, pensa-se, à primeira vista, que a correlação (F) diferente de zero entre os fatores contradiz o modelo de Plant e Devine (1998) acerca de sua ortogonalidade. Não obstante, considerando que estes coeficientes são padronizados, compreendem tamanhos de efeito pequenos (Kline, 2005), evidenciando escassa variância compartilhada. Destaca-se, neste contexto, que os fatores observados reúnem evidências de validade discriminante, uma vez que as raízes quadradas das VMEs foram superiores aos valores correspondentes de F em cada escala.

Estudos futuros deverão ser levados a cabo para checar outros indicadores psicométricos destas escalas (Pasquali, 2003). Por exemplo, pode ser interessante averiguar sua estabilidade temporal, assim como conhecer sua validade preditiva frente a comportamentos de discriminação de gays e lésbicas. De uma perspectiva mais social, valeria a pena conhecer os correlatos de tais atitudes. No caso, possivelmente os valores seriam bons preditores de motivações para responder sem preconceito, sobretudo os valores suprapessoais e interacionais (Gouveia et al., 2006).

Em resumo, reuniram-se evidências empíricas acerca da adequação psicométrica da Escala de Motivações para Responder sem Preconceito, com resultados muito similares quando se consideraram os gays e as lésbicas como grupos-alvo de preconceito. Neste sentido, o presente artigo é justificado em três aspectos: (a) propõe dois instrumentos psicometricamente adequados para avaliar as motivações para responder sem preconceito frente a gays e lésbicas, favorecendo estudos futuros sobre tais grupos minoritários; (b) conta com participantes da população geral, escassamente considerada. Os estudantes, prin-cipalmente universitários, têm sido os participantes mais freqüentes em estudos sobre preconceito, possivelmente minorando este tipo de resposta socialmente indesejá-vel; e, finalmente, (c) embora esta pesquisa seja de natureza instrumental, psicométrica, parece evidente seu potencial para orientar ações afirmativas que visem à diminuição do preconceito, sobretudo ao conhecer o tipo de motivação que faz com que as pessoas indiquem não ter preconceito.

 

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Recebido: 29/04/2010
1ª revisão: 20/07/2010
Aceite final: 27/07/2010

 

 

* Endereço para correspondência: Universidade Federal da Paraíba, Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Departamento de Psicologia, João Pessoa, PB, Brasil, CEP 58051-900. E-mail: vvgouveia@gmail.com
Este artigo contou com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por meio de bolsa de Produtividade em Pesquisa concedida ao primeiro autor; o segundo e terceiro autores contaram com bolsas PROLICEN e PROBEX, respectivamente, da Universidade Federal da Paraíba. Os autores agradecem a estas instituições.