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Psicologia: Reflexão e Crítica

Print version ISSN 0102-7972On-line version ISSN 1678-7153

Psicol. Reflex. Crit. vol.27 no.4 Porto Alegre Oct./Dec. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/1678-7153.201427421 

Psicologia Do Desenvolvimento

Intergenerational patterns of family violence related to alcohol abuse: a genogram-based study

Padrões intergeracionais de violência familiar associada ao abuso de bebidas alcoólicas: um estudo baseado em genogramas

Cláudia Silveira Tondowski*  a  

Marianne Ramos Feijó b  

Eroy Aparecida Silva c  

Carla Ferreira de Paula Gebara c  

Zila M. Sanchez c  

Ana Regina Noto c  

aTribunal de Justiça do Estado de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

bUniversidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Bauru, SP, Brasil

cUniversidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil

ABSTRACT

The objective of this study was to analyze intergenerational patterns of alcohol related violence (ARV). An intentional sample comprising 42 family members was selected according to a set of criteria, including history of ARV. A genogram based on anonymous semi-structured taped interviews was created. The Content Analysis pointed to different patterns of repetition of intergenerational ARV. The most recurrent ones were those of lineal consanguinity (father/son) and through marriage. We observed similarities over the generations of each family as regards the pattern of alcohol consumption; the type of violence; the family reaction and the family life cycle in which ARV was intensified. Our results confirm the intergenerational reproduction of ARV. In conclusion, it is important to create intervention strategies to prevent intergenerational repetition of this association of behaviors.

Key words: Alcohol abuse; family violence; genogram; intergenerational repetition

RESUMO

O objetivo deste estudo foi analisar os padrões intergeracionais de violência familiar associada ao abuso de álcool (VAA). Foi composta uma amostra intencional por critérios, até a saturação teórica, com 42 familiares com histórico intergeracional de VAA, com os quais foi elaborado um genograma por meio de entrevistas semiestruturadas gravadas, individuais e anônimas. A análise de conteúdo indicou diferentes padrões de repetição intergeracional de VAA, sendo mais frequentes as recorrências em linha direta de parentesco (pai/filho) e por meio de casamento. Ao longo das gerações de cada família, foram observadas similaridades em relação ao padrão de consumo de álcool, tipo de violência, reação da família e etapas do ciclo vital familiar de intensificação da VAA. Os resultados confirmam a reprodução intergeracional de VAA. Concluiu-se a importância de estratégias de intervenção para prevenir a repetição intergeracional dessa associação de comportamentos.

Palavras-Chave: Abuso de álcool; violência familiar; genograma; repetição intergeracional

Existem evidências da frequente associação entre o consumo de bebidas alcoólicas e situações de violência interpessoal (Almeida, Pasa, & Scheffer, 2009; Laslett, Ferris, Dietze, & Room, 2012; Moreira et al., 2011; Stappenbeck & Fomme, 2010). Em um levantamento domiciliar nacional, 42% dos relatos de violência familiar referiram agressores que haviam consumido álcool (Fonseca, Galduróz, Tondowski, & Noto, 2009). Em outro estudo domiciliar, com enfoque na violência entre casais, 38,1% dos homens e 9,2% das mulheres haviam consumido álcool em eventos violentos (Zaleski, Pinsky, Laranjeira, Ramisetty-Mikler, & Caetano, 2010). O consumo de álcool também parece estar associado à severidade das agressões entre casais, sendo que quanto maior o número de doses consumidas, maior a intensidade de violência (Connor, Kypri, Bell, & Cousins, 2011; Graham, Bernards, Wilsnack, & Gmel, 2011).

Os filhos geralmente também são afetados pela violência familiar associada ao abuso de álcool, mesmo que as agressões não sejam diretamente dirigidas a eles. A exposição infantil à violência familiar parece ser um fator de risco para futuras perpetrações e vitimizações da violência na idade adulta (Vatnar & Bjorkly, 2008; Zanoti-Jeronymo, Laranjeira, & Figlie, 2008). São observadas ainda associações entre abandono ou outros tipos de violência contra a criança e a predisposição desta ao futuro abuso de álcool e outras drogas (Kaysen et al., 2007; Zanoti-Jeronymo et al., 2008; Zilberman & Blume, 2005).

A violência e o abuso de substâncias parecem sofrer influência de uma combinação de vários fatores de risco (social, psicológico e biológico) aos quais as crianças são expostas (Johnson & Left, 1999; Pears, Capaldi, & Owen, 2007). Dessa forma, a recorrência intergeracional também deve ser interpretada como multifatorial, sendo atribuída, por exemplo, a aspectos genéticos e processos de desenvolvimento psicossocial como a identificação dos jovens com figuras de referência (Bowen, 1978; Breunlin, Schwartz, & Kune-Karrer, 2000; Ducci & Goldman, 2008). Também vale destacar o aprendizado de padrões de relacionamento familiar e de resposta ao estresse e aos conflitos, que tendem a ser repetidos pelas gerações subsequentes (Cannon, Bonomi, Anderson, & Rivara, 2009; Cerveny, 2011; Ernst et al., 2009; Hare, Miga, & Allen, 2009).

Contudo, há menos literatura disponível quando se trata da repetição intergeracional da associação dos dois fenômenos: violência e abuso de álcool. Um estudo longitudinal conduzido nos Estados Unidos da América - EUA (Fuller et al., 2003) demonstrou como o alcoolismo e o comportamento agressivo (em relação ao cônjuge e/ou aos filhos) pode influenciar a repetição desses comportamentos pela geração dos pais que, por sua vez, parecem exercer papel importante no comportamento agressivo de seus filhos, ainda em idade escolar (Cerveny, 2011).

Apesar dos importantes resultados dos trabalhos já existentes em relação à repetição intergeracional da Violência Associada ao Álcool (VAA), ainda há lacunas de conhecimento sobre o fenômeno, exigindo pesquisas que busquem a compreensão sobre o processo de instalação e de perpetuação do comportamento. Nesse sentido, este trabalho teve por objetivo analisar os padrões intergeracionais de violência associada ao abuso de bebidas alcoólicas, as características dessa relação, os momentos do ciclo vital familiar e as crenças relacionadas.

Método

Delineamento

A metodologia qualitativa foi escolhida por favorecer a compreensão de fenômenos sociais em profundidade (Patton, 2002; World Health Organization [WHO], 1994). A partir da metodologia adotada foi possível obter informações sobre a repetição intergeracional da violência familiar associada ao abuso de álcool, sob a perspectiva dos valores e crenças dos participantes. Para tanto, o grupo de participantes foi selecionado por critérios, foram realizadas entrevistas individuais em profundidade, semiestruturadas, baseadas na construção do genograma (Patton, 2002).

Participantes

Os participantes foram selecionados por amostragem intencional, de acordo com os seguintes critérios: considerar-se vítima e/ ou agressor de VAA, e ter vivenciado no mínimo cinco episódios de VAA ao longo da vida, considerando violência psicológica, física ou sexual; ter histórico de VAA em mais de uma geração familiar (ascendente ou descendente) e ser maior de 18 anos.

Procedimentos

A seleção dos participantes foi realizada em três etapas. Em uma primeira etapa, foi realizado um mapeamento dos serviços relacionados à violência familiar no município de São Paulo, com visita a trinta e dois serviços de assistência a casos de violência familiar, dos quais nove Delegacias de Defesa da Mulher, dezessete serviços de apoio psicossocial e jurídico (na maioria organizações não governamentais [ONGs]) e seis serviços vinculados a hospitais, ambulatórios e Unidades Básicas de Saúde. Esta primeira etapa serviu para aproximação e identificação de possíveis informantes e participantes. Em uma segunda etapa, foram realizadas entrevistas com dezoito key-informants (KIs), pessoas com conhecimento sobre o fenômeno a ser estudado (Patton, 2002; WHO, 1994): médicos, psicólogos, assistentes sociais, policiais, advogados, membros de grupos de ajuda mútua. As informações obtidas deram suporte para a construção de um roteiro de entrevista. Em uma terceira etapa, foi realizada a seleção de vítimas e agressores de VAA. Foram utilizadas técnicas múltiplas para seleção: (a) convites via mídia (rádio e jornais de bairro); (b) cartazes em instituições de referência no atendimento de problemas relacionados a álcool/drogas e/ou violência; (c) indicação de conhecidos e/ou de usuários de serviços de apoio psicossocial, serviços de saúde e grupos de ajuda mútua.

Foram realizadas 42 entrevistas em profundidade, semiestruturadas, pautadas na construção do genograma, incluindo vítimas e agressores de ambos os sexos, de idades variadas, diferentes perfis socioeconômicos e com diferentes padrões de VAA. Foi possível verificar, ao longo do processo das entrevistas, que os dados obtidos passaram a ser redundantes e apresentar poucas informações novas, sugerindo assim que se tenha alcançado o ponto de saturação teórica para os principais temas analisados (Fontanella, Ricas, & Turato, 2008; Patton, 2002).

Instrumentos de Pesquisa

Genograma Familiar. Inicialmente proposto por Bowen (1978), o genograma familiar permite retratar a estrutura familiar, seus padrões de relacionamento, manutenção de conflitos, bem como reunir dados de sua história e dos indivíduos que a compõem (Cerveny, 2011; McGoldrick, Shellenberger, & Petry, 2008). O genograma tem sido utilizado na abordagem familiar, tanto na clínica quanto na pesquisa. Por incluir dados de várias gerações, permite observar e compreender a transmissão de comportamentos, valores e crenças entre as gerações familiares (Smith, Dancyger, Wallace, Jacobs, & Michie, 2010; Wendt & Crepaldi, 2008). A construção do genograma, ao longo da entrevista, facilita a interação do entrevistador com o entrevistado, encorajando-o a contar sua história. Essa construção favorece também a análise de conteúdo (McGoldrick et al., 2008). No presente estudo, a construção conjunta do genograma foi utilizada para iniciar as entrevistas. Foram incluídas três gerações familiares.

Entrevistas. A partir do genograma e durante sua construção, foram conduzidas as entrevistas, norteadas por um roteiro inicial, composto por 49 questões, divididas em sete temas principais.

  1. Identificação e configuração familiar - descrito no item anterior, que gerou o genograma;

  2. Violência: o que é violência para você? Tendo em vistas essas pessoas (incluídas no genograma) e no seu conceito de violência, quais você considera violentas? Como era essa violência? Como era/é o seu relacionamento com elas? Quais já tiveram problemas com álcool/drogas? Quais eram/são violentas sob o efeito da substância utilizada?;

  3. Ciclo de vida familiar: Como era seu relacionamento com seus pais? Como foi o início da sua vida conjugal?;

  4. Uso de álcool e violência: em que período iniciou o consumo? Houve um período em que o consumo aumentou ou diminuiu? E as agressões (histórico)? Qual era o tipo de agressão? Toda vez que a pessoa estava embriagada ocorria agressão? A agressão ocorria apenas quando a pessoa estava embriagada? Em sua opinião, o uso da substância está relacionado às agressões (ou vice versa)? Como? Você chegou a procurar ajuda?;

  5. Rotina familiar (durante o período de maior ocorrência de violência): como era a rotina da família? Como o consumo de álcool se encaixava nessa rotina?;

  6. Pensamentos/ comportamentos: como você se sentia e reagia durante as agressões? Você conversava com alguém?, e

  7. Procura por ajuda/mudanças: quem ou o que te incentivou a procurar (ou impediu de procurar) ajuda? O que mudou?

As entrevistas foram anônimas e tiveram duração aproximada de duas horas. O conteúdo foi gravado e transcrito na íntegra para posterior análise (Minayo, 2004).

Análise dos Dados

Foram entrevistadas 42 pessoas, das quais 23 se consideravam vítimas (20 mulheres e 03 homens) e 19 agressores (17 homens e 02 mulheres) de VAA, incluídas em um grupo ou outro de acordo com o principal papel desempenhado no momento da entrevista. Isto porque, foi observada uma mudança de papeis, ou seja, alguns indivíduos poderiam ser considerados vítimas em uma geração e agressores em outra. Além disso, durante um episódio violento, a mesma pessoa poderia ser tanto vítima quanto agressor.

As entrevistas transcritas receberam um código alfanumérico de identificação. A primeira letra especificava a forma como o familiar se percebia (V= vítima; A= agressor), seguida da indicação do gênero (F= feminino; M= masculino) e, ao final, um número indicava a idade. Caso dois entrevistados tivessem o mesmo código, era adicionada uma letra minúscula ao final da identificação.

Tanto as entrevistas, quanto os genogramas começaram a ser analisados antes do término da coleta de dados. Dessa forma, foi possível observar a redundância nos relatos, o que sugeriu que a saturação teórica estivesse sendo alcançada (Fontanella et al., 2008; Patton, 2002).

Análise das Entrevistas. Para a análise das entrevistas em profundidade, foi utilizada a técnica de Análise de Conteúdo (Bardin, 2004). As categorias de análise dos temas estudados foram criadas a partir do discurso dos entrevistados. Para tanto, foi feita uma primeira leitura flutuante e, posteriormente, todos os relatos foram lidos diversas vezes e seu conteúdo foi desmembrado em grandes temas. As categorias foram então definidas após a leitura dos conteúdos, por três pesquisadoras experientes em pesquisas qualitativas. Os principais temas de análise foram: existência de episódios de violência ao longo das gerações familiares; abuso de álcool/drogas pelo entrevistado e familiares; reação diante da violência; crenças a respeito da associação álcool-violência. Dentro dos temas foram priorizados os aspectos intergeracionais e então, criadas as categorias de análise, por exemplo: tipos de violência (física, psicológica, sexual); reação ou não reação contra a violência; crenças dos entrevistados relativas à VAA (crença de que o álcool é o responsável pela violência; percepção da possibilidade de romper a relação). Essas categorias estiveram presentes na maioria das entrevistas e, para facilitar sua compreensão, foram selecionados trechos de entrevistas e exemplos de genogramas. Por fim, foi feita a identificação das crenças familiares com potencial para manter a relação com padrão de comportamento VAA (Andolfi & Angelo, 1989; Bowen, 1978; Breunlin et al., 2000; Cerveny, 2011; Krom, 2000; McGoldrick et al., 2008).

Análise dos Genogramas. Os genogramas receberam a mesma identificação das entrevistas e foram incluídos no software GenoPro, de modo que fosse possível uma padronização dos elementos gráficos. Os genogramas favoreceram a visualização e compreensão de padrões familiares que se repetiam ao longo das gerações estudadas, tais como padrão de consumo de álcool/drogas, tipo de violência semelhante em mais de uma geração, reação diante do episódio violento, crenças sobre o fenômeno em questão. Além disso, elementos das relações familiares foram evidenciados a partir do genograma, como por exemplo, mulheres que, como suas mães, estabeleceram casamento com homens bebedores e agressivos. Para facilitar a visualização e análise dos padrões familiares de interesse ao estudo, foram criadas diferentes identificações gráficas para indivíduos com VAA, para aqueles que apresentavam apenas comportamento violento e, ainda, para aqueles que apenas consumiam álcool de forma abusiva.

Consistência Interna dos Dados

Visando à consistência interna dos dados, foi utilizado o processo de triangulação (Patton, 2002). Os dados foram obtidos a partir de duas técnicas: genograma e entrevistas; além disso, toda a análise foi realizada individualmente e, posteriormente, discutida entre as pesquisadoras. Este procedimento confere validade e confiabilidade aos dados de um estudo que utiliza metodologia qualitativa (Patton, 2002).

Ética

Os participantes receberam garantia de anonimato, privacidade e liberdade para desistir da entrevista a qualquer momento. Todos tomaram ciência sobre os objetivos do projeto, confirmaram sua participação e assinaram um termo de consentimento, sendo os procedimentos autorizados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP; CEP 386/07). Além disso, por se tratar de tema que, muitas vezes, implica em dificuldades emocionais, os entrevistados foram orientados a respeito da possibilidade de tratamento em serviços especializados em violência e/ou abuso de substâncias.

Resultados e Discussão

A idade dos 42 participantes variou entre 18 e 62 anos (média de 38,5 ± 12,4). A classe social foi definida a partir da percepção dos entrevistados, os quais foram distribuídos da seguinte forma: classe alta = 04; média = 24 e baixa = 14.

Os 42 genogramas analisados englobaram 890 pessoas, entre as quais 100 crianças (zero a 12 anos) e 790 adolescentes e adultos (>12 anos). Entre as pessoas com idade superior a 12 anos, 42 tinham histórico de violência familiar, 92 faziam uso abusivo de álcool/drogas e 176 apresentavam os dois comportamentos associados (VAA).

Foi possível observar vários padrões intergeracionais de VAA, sendo dois mais frequentes. Um deles foi a repetição em linha direta de parentesco, ou seja, pai/mãe - filho(a) (Figura 1). Esse padrão apareceu em 34 genogramas, sendo a maioria nas famílias dos agressores entrevistados.

Figura 1 Padrão de repetição de VAA em linha direta de parentesco: comportamento apresentado por um dos pais e repetido por um dos(as) fi lhos(as) (N=34). Nota. Quadrados representam homens; círculos, mulheres; os símbolos preenchidos são indivíduos que apresentam associação álcool-violência. 

O outro padrão de repetição intergeracional muito frequente foi por meio do casamento, ou seja, filhas de pais com comportamento VAA que se casaram com homens com comportamento semelhante. Essa repetição foi observada em 24 genogramas, principalmente entre as vítimas. Em algumas famílias esse padrão apareceu em praticamente todos os casamentos ao longo das três gerações estudadas. Isto é, quando havia três filhas de pais com comportamento VAA, as três perpetuaram esse padrão de relação com seus companheiros e algumas de suas filhas também.

Houve ainda famílias nas quais foi possível observar os principais padrões de repetição intergeracional de VAA simultaneamente (Figura 1 e Figura 2). Além disso, um entrevistado relatou que todos os membros do núcleo familiar apresentavam comportamentos de VAA: pai, mãe e três filhos.

Figura 2 Padrão de repetição de comportamento VAA por meio de casamento: mulher, com pai de comportamento VAA, que estabelece casamento com marido de comportamento semelhante (N=24). Nota. Quadrados representam homens; círculos, mulheres; os símbolos preenchidos são indivíduos que apresentam associação álcool-violência. 

Dessa forma, foi possível identificar os indivíduos que, em algum momento, apresentaram comportamento violento associado ao consumo de substâncias, bem como as implicações desse comportamento na dinâmica e nas relações familiares. A Figura 3 mostra o genograma de uma das famílias estudadas, com diferentes padrões de repetição de VAA.

Figura 3 Exemplo de um genograma completo, com vários padrões de repetição de comportamento de consumo abusivo de álcool ou VAA em linha direta de parentesco ou por meio de casamento. Nota. Quadrados representam homens; círculos, mulheres; os símbolos preenchidos são indivíduos que apresentam consumo abusivo de álcool ou VAA. 

Tal Pai Tal Filho

Na grande maioria dos casos, a repetição intergeracional não apareceu apenas em relação à existência de VAA, mas também aos seus padrões de ocorrência. Algumas pessoas relataram semelhanças em relação ao tipo de violência, isto é, violência psicológica ou física em mais de uma geração. Outras disseram que certos momentos críticos do ciclo vital familiar desencadeavam fases de maior consumo de álcool/violência, como desemprego, gestação e nascimento de filhos. Essas semelhanças foram observadas tanto em famílias nas quais a repetição intergeracional se deu por linha direta, quanto naquelas em que houve repetição pelo casamento.

"Meu pai bebia e ofendia, chamava minha mãe e a gente [ela e a irmã] de prostituta . . . O meu irmão fazia igualzinho, bebia e ficava xingando" (VF50a).

Ele [o pai] era alcoólatra! . . . ela [a mãe] teve nove filhos com ele... e apanhava [durante a gestação], aguentava e vinha fazendo filho . . . Com um mês de casada eu já comecei a apanhar dele [o marido] quando ele bebia . . . tive quatro gravidez, só na base da pancada. (VF58)

Para tentar compreender a repetição de VAA ao longo das gerações familiares, é necessário recorrer a algumas teorias. Segundo Bowen (1978), a repetição intergeracional ocorre em diferentes níveis, desde a aprendizagem consciente até as emoções e comportamentos automáticos e inconscientes. Essas informações transmitidas, relacional e geneticamente, contribuem para a formação do indivíduo.

Diversos trabalhos evidenciam a existência de sítios genéticos que, associados a fatores ambientais, modulam a vulnerabilidade individual ao desenvolvimento do alcoolismo e do comportamento agressivo (Dick, Rose, & Kaprio, 2006; Ducci & Goldman, 2008; Jaffee et al., 2005). Contudo, a hipótese genética contemplaria apenas a repetição VAA em linha direta de parentesco (avós-pais-filhos). A repetição por meio do casamento evidencia a necessidade de ampliar a compreensão, de se utilizar uma abordagem que contemple aspectos psicológicos, biológicos e sociais, considerando as mútuas influências (Chermack & Giancola, 1997) e as diferenças entre sexo (Almeida et al., 2009).

Uma alternativa complementar para compreender a repetição intergeracional de VAA poderia ser a identificação em relação a figuras de referência em gerações familiares anteriores. De acordo com a teoria da aprendizagem social (mais conhecida atualmente como teoria social cognitiva), o comportamento agressivo é aprendido principalmente pela observação das ações de outras pessoas, designadas como modelos, os quais estão presentes na família, nas subculturas e nos veículos de comunicação de massa (Bandura, Azzi, & Polydoro, 2008). É possível supor que, a cultura familiar e/ou a identificação do modelo de relações afetivas possam favorecer o estabelecimento de relacionamentos futuros com o mesmo tipo de comportamento (de agressão e de uso do álcool). Isto porque, as relações conjugais estão contextualizadas dentro de um sistema maior, no qual se incluem a família extensa (além do núcleo pais/filhos) e as gerações anteriores. Nesse sentido, a família de origem pode servir de alicerce para as novas constituições familiares (Andolfi & Angelo, 1989; Fuller et al., 2003). Dessa forma, seriam contempladas tanto a repetição por linha direta de parentesco, quanto por meio do casamento.

Ainda seguindo esse raciocínio, muitos entrevistados mencionaram que a VAA testemunhada por crianças em uma geração pode repetir-se nas gerações seguintes. Há relatos tanto de testemunhas de VAA que repetiram o comportamento na idade adulta e se tornaram agressores, quanto de testemunhas de VAA que se casaram com homens com esse mesmo comportamento. Assim, fica evidente um padrão relacional que se perpetua ao longo das gerações, o que leva a pensar sobre o fato de tais crianças aprenderem que VAA é uma forma possível de se relacionar em família e lidar com conflitos (Cerveny, 2011). Vários autores consideram que a maneira como os pais (ou figuras de referência) enfrentam e/ou resolvem dificuldades serve como modelo, e permite à criança aprender determinados comportamentos, além da forma como devem expressar seus sentimentos (Andolfi & Angelo, 1989; McGoldrick et al., 2008).

"O meu pai bebia e era agressivo com a minha mãe, consequentemente meu irmão foi uma pessoa agressiva quando bebia também, porque ele viu meu pai sendo agressivo com a minha mãe" (VF23).

"A violência e as bebedeiras dele [do pai] . . . isto talvez tenha me familiarizado mais a ser assim agressivo quando eu bebo, né? Talvez eu tenha me acostumado a ver ele e viver assim!" (AM37).

Além da transmissão intergeracional de VAA, foi possível identificar que as estratégias para lidar com esse padrão familiar também parecem ser repetidas ao longo das gerações. Não raro os entrevistados relataram comportamentos muito semelhantes em mais de uma geração, como por exemplo, a forma como as vítimas reagem (ou não) à violência sofrida. Alguns participantes relataram que, nas gerações estudadas, as vítimas reagiam apenas chorando ou calando, como se estivessem fadadas a aceitar as agressões.

Alguns entrevistados referiram ocorrência, na família, de dois ou mais casos, intergeracionais de vítimas com similaridade de comportamentos de reação/revide. Essa repetição foi observada tanto para agressões verbais quanto físicas.

"A minha mãe fica quieta, não fala nada . . . Minha avó não fazia nada também, como a minha mãe" (VF23).

Em alguns casos, foram referidas alternâncias de papeis, sendo difícil identificar quem era vítima e quem era agressor num determinado episódio violento, o que vai ao encontro dos dados existentes na literatura (Houry, Reddy, & Parramore, 2006). Segundo Zuma (2004), essa seria a diferença entre um ato violento e um processo violento. O primeiro aconteceria num momento específico, no qual há vítima, agressor e, possivelmente, testemunhas. Já o processo violento, seria um continuum presente nas interações familiares, no qual todos os envolvidos têm responsabilidade e participação.

Quando ele [o marido] bebia e vinha pra cima . . . eu revidava. Se ele me desse um tapa, eu dava outro; se ele socasse a minha cara, eu jogava qualquer coisa em cima dele . . . Com a minha mãe era a mesma coisa, porque o meu pai batia nela sempre que bebia, mas ele também apanhava! (VF24b)

Aprisionados pela História

Foi possível perceber que durante a entrevista algumas pessoas ficaram surpresas ao notar como o padrão VAA era frequente em sua família. Quando questionadas sobre o que acreditavam que contribuísse para que tal fenômeno ocorresse, as explicações mais frequentes foram a hereditariedade (genética) e o aprendizado. Ou seja, os entrevistados acreditavam que podiam ter sido condenados pela genética a repetir o comportamento de seus pais, ou ainda que, por terem sido expostos a episódios de violência associada ao álcool durante sua infância/adolescência, não tiveram outra opção além da perpetuação do comportamento.

Talvez essa dificuldade de perceber estratégias viáveis para romper a VAA nas relações familiares esteja vinculada às crenças mencionadas durante as entrevistas. Algumas pareceram contribuir de forma expressiva para a perpetuação das relações de VAA, como por exemplo, aquelas ligadas às questões de gênero e à indissolubilidade do casamento. Estudos mostram que os segredos geram mitos e pautas relacionais carregadas de emoção ao longo de várias gerações, o que dificulta a mudança de padrões relacionais (Cerveny, 2011). Comportamentos violentos e dependência de álcool, frequentemente fazem parte dos segredos familiares (Cerveny, 2011).

Alguns entrevistados demonstraram crer que homens e mulheres têm papéis distintos e claramente definidos nas relações familiares, de modo que o poder é visto como direito/atribuição masculina e, à mulher, cabe a aceitação. Além disso, muitos se referiram à separação conjugal como algo inaceitável e vergonhoso. De acordo com vários autores, as questões de gênero, ligadas às desigualdades de poder entre o homem e a mulher na família e na sociedade estão na base de muitos comportamentos violentos (Aldrighi, 2010; Covington, 2008; Macedo, 2007).

"Isto [a violência associada ao álcool] já vem de geração de família: na minha casa, o homem bebe e a mulher apanha" (VF24a).

"A minha família toda é daquela que casou pra vida toda . . . não separa. Apanha na cara, aguenta bebedeira, mas está ali. E comigo não ia ser diferente!" (VF34).

Segundo Boszormenyi-Nagy e Spark (1983), os relacionamentos amorosos estabelecidos com cônjuges podem ser utilizados, mesmo que inconscientemente, para reforçar um compromisso de lealdade com a família de origem. Dessa forma, a dificuldade de romper a VAA entre as famílias estudadas, pode estar relacionada à maneira como cada um percebe a repetição de padrão, interpretada com o legado familiar e com as expectativas da família em relação a si. Dentro dessa perspectiva teórica, as pessoas se sentiriam compelidas a reproduzir esse padrão em sua família constituída, de modo a ser leal à cultura de sua família de origem ou a um papel que nesta lhe foi delegado. Para McGoldrick et al. (2008), a história familiar e os padrões de relacionamento contribuem para a compreensão de como um comportamento pode ter surgido para preservar ou proteger algum legado de gerações anteriores.

O Problema é a Bebida?

Muitos entrevistados relataram que as relações de VAA mantinham-se por muitos anos, constituindo uma espécie de legado familiar. Diante disso, além de compreender como acontece a repetição intergeracional, parece importante entender como a VAA se mantém tanto tempo em uma mesma geração. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, crenças individuais e culturais de que o álcool causa agressão podem levar ao uso como desculpa/justificativa para atos violentos. E, ainda, o uso problemático de álcool pode ser desenvolvido como uma estratégia de coping entre as vítimas de violência doméstica (WHO, 2009). Nesse sentido, a crença de que o álcool causa a violência parece ser um dos pilares que sustentam e favorecem a manutenção da VAA. Isto porque, quando o álcool é percebido como causa da violência, o comportamento agressivo deixa de ser atribuído àquele que o comete, o que foi observado em muitas entrevistas. Desse modo, pode haver maior tolerância às agressões, uma vez que o agressor é visto como um homem bom, cujo único problema é a bebida. Em nosso estudo, foram frequentes os relatos de esposas afirmando que o agressor era um ótimo pai para as crianças, um bom marido e que o único problema da família eram as agressões causadas pela bebida.

Nesse mesmo sentido, segundo Leonard (2002), o álcool relacionado à violência pode diminuir o impacto desta na vida conjugal, pois quando a violência é atribuída ao álcool, a vítima é capaz de manter uma visão mais positiva de seu casamento. Nesses casos, o abuso/dependência do álcool e a violência podem ser entendidos como fatores que contribuem para a homeostase do sistema familiar, isto é, para um processo autorregulador que mantém a estabilidade desse sistema e protege-o de possíveis mudanças no padrão de relacionamento já estabelecido (Cerveny, 2011).

Tendo em vista essa estabilidade, a reincidência de episódios de violência associados ao álcool foi observada em diversos relatos. Tal aspecto pode ser favorecido pelo longo tempo de convivência dos casais que vivenciam o fenômeno (Jewkes, 2002; Klosterman & Fals-Stewart, 2006; Leonard, 2002).

Segundo Irons e Schneider (1997), tanto esposas de dependentes de álcool, quanto vítimas de violência familiar, geralmente têm dificuldade para deixar a relação. Tal dificuldade ocorre em função de questões financeiras, de medo de represálias ou relações mais complexas, na qual as vítimas sentem-se culpadas pela situação em que vivem. No presente estudo, a maioria das vítimas trabalhava e era financeiramente independente em relação a seus maridos/agressores. Diante disto, é possível pensar que outros fatores sejam preponderantes em relação às questões puramente financeiras. O medo, a dependência emocional, as crenças familiares (como a indissolubilidade do casamento) parecem exercer maior influência na decisão de manter a relação. A dificuldade de romper um ciclo de repetição de padrão intergeracional muito arraigado e carregado de emoções pode ser fator associado à dificuldade de separação.

Implicações para a Prática Clínica

Os resultados deste estudo evidenciam a importância de intervenções familiares em casos de VAA, assim como sugerido na literatura internacional (Irons & Schneider, 1997; Leonard, 2002). Para tanto, os resultados evidenciam a necessidade de trabalhar as crenças, como, por exemplo, a de que o álcool é o responsável pela violência, ou aquelas relacionadas às questões de gênero e à indissolubilidade do casamento. Assim, seria possível auxiliar os indivíduos a compreender seu modo de funcionamento, bem como propiciar uma ampliação das possibilidades de relação entre os membros da família e romper com os padrões de repetição de VAA.

O genograma pode ser um importante instrumento terapêutico nesses casos, uma vez que ajuda a tornar visíveis as relações entre os membros da família, a trazer à tona segredos, mitos, legados e questões da dinâmica familiar que contribuem para a manutenção do uso da violência e do abuso de álcool. Ao contarem suas histórias familiares, aqueles que vivenciam a violência, seja como vítimas, como agressores ou ambos, podem compreendê-las dentro de um contexto e refletir sobre a sua participação na manutenção de padrões.

São necessários também trabalhos preventivos com os filhos, para que a repetição dos comportamentos possa ser interrompida. As crianças podem beneficiar-se com um suporte emocional que as ajude a ressignificar os comportamentos de sua família, utilizar recursos criativos no estabelecimento de vínculos sociais saudáveis, que contribuam para o desenvolvimento de habilidades interpessoais e favoreçam a transformação de sua história.

Além disso, considerando que tanto a violência familiar, quanto o de abuso de álcool são comportamentos que envolvem segredo e negação, dificilmente os envolvidos buscam ajuda espontaneamente. Dessa forma, seria fundamental que profissionais de diferentes áreas (saúde, educação, social, segurança) fossem capazes de identificar e orientar sobre a possibilidade de atendimento para famílias que estivessem vivendo uma situação de violência associada ao abuso de bebidas alcoólicas.

Limitações

Foi entrevistado apenas um membro de cada família, o que possibilitou a expressão de sua narrativa pessoal frente aos acontecimentos estudados, portanto com ênfase em seus sentimentos, versões e possibilidades de compreensão. O segredo e a negação são comuns diante de questões que envolvem sentimentos como medo e vergonha, o que é comum em experiências relacionadas ao uso de violência e de álcool. Além disso, foram entrevistadas apenas pessoas dispostas a falar sobre o tema, o que pode ter levado a um viés. Por se tratar de um estudo de abordagem qualitativa, no qual a amostra não foi probabilística, os resultados obtidos não podem ser generalizados para população geral.

Considerações Finais

Os resultados confirmaram a reprodução intergeracional da VAA, sendo observada, nas famílias estudadas, repetição de especificidades das relações familiares ao longo das gerações, como padrão de consumo de álcool, tipo de violência, reação das vítimas e momento do ciclo vital. Tais dados sugerem a necessidade de intervenções familiares e evidenciam a importância dos fatores psicossociais na repetição intergeracional da VAA. Porém, os resultados observados neste estudo ressaltam a importância de futuros estudos que evidenciem as crenças e valores dos familiares que conseguiram romper o padrão familiar ligado à manutenção da VAA e transformaram sua história. A compreensão dessa outra perspectiva da dinâmica familiar talvez possa oferecer preciosas informações complementares para o direcionamento de abordagens terapêuticas e preventivas.

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Received: January 07, 2013; Revised: July 08, 2013; Accepted: August 12, 2013

* Endereço para correspondência: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, Setor de Psicologia das Varas da Família e Sucessões, Fórum João Mendes Jr., Praça João Mendes, s/n, Centro, São Paulo, SP, Brasil 01501-900. E-mail: clausilveirat@gmail.com, marifeijo@uol.com.br, eroyntc@gmail.com, carla_gebara@yahoo.com.br, zila.sanchez@gmail.com e anareginanoto@gmail.com

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