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Psicologia: Reflexão e Crítica

versão impressa ISSN 0102-7972versão On-line ISSN 1678-7153

Psicol. Reflex. Crit. vol.28 no.2 Porto Alegre jan./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1678-7153.201528210 

Psychological Assessment

Parenting Styles and Dimensions Questionnaire - versão portuguesa de autorrelato

Parenting Styles and Dimensions Questionnaire - the portuguese self-report version

Marta Figueiredo Pedro1  * 

Elsa Carapito1 

Teresa Ribeiro1 

1Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugal

RESUMO

Os estilos parentais educativos constituem um conceito central na área de estudos da parentalidade e do desenvolvimento infantil. Neste sentido, décadas de investigação demonstram o impacto dos estilos parentais em vários aspectos do ajustamento socioemocional da criança e do adolescente. Este estudo teve como objetivo avaliar as propriedades psicométricas e a validade fatorial da versão portuguesa de autorrelato do Parenting Styles and Dimensions Questionnaire. A amostra foi constituída por 2081 indivíduos portugueses (1085 mães; 996 pais) com filhos dos 3 aos 15 anos. Os resultados da análise fatorial confirmatória replicaram a estrutura original de três fatores: autoritativo, autoritário e permissivo. Os índices de ajustamento revelaram uma boa adequação do modelo aos dados. Os níveis de consistência interna dos fatores autoritativo e autoritário revelaram-se adequados, mas o fator permissivo apresentou valores ligeiramente abaixo dos aceitáveis. Os valores de validade convergente e discriminante também se revelaram adequados. Apesar dos níveis menos aceitáveis de consistência interna do factor permissivo, o QDEP revelou, em geral, qualidades psicométricas adequadas para fins de investigação e clínicos, permitindo não só a avaliação de estilos parentais como também de diferentes dimensões e comportamentos parentais com impacto relevante no ajustamento socioemocional da criança e do adolescente.

Palavras-Chave: Estilos parentais educativos; análise fatorial confirmatória; propriedades psicométricas

ABSTRACT

Parenting styles have been a central construct in the field of parenting and child development studies. Many decades of research have supported the impact of parenting styles on several aspects of the social and emotional adjustment of children and adolescents. The purpose of this study was to examine the psychometric properties and the factorial validity of the Portuguese version of the Parenting Styles and Dimensions Questionnaire, through confirmatory factor analysis. Data were collected from 2081 participants (1085 mothers; 996 fathers) with children between 3 and 15 years old. Results replicated the original three-factor structure: authoritative, authoritarian and permissive. The results of confirmatory analysis indicated a good fit of the model. Authoritative and authoritarian factors showed good internal reliability coefficients, but the permissive factor presented values slightly below acceptable levels. Convergent and discriminant validity also showed appropriate values. In general, and despite the less acceptable levels of internal reliability demonstrated by the permissive factor, PSDQ revealed psychometric properties appropriate for research and clinical purposes. This instrument not only allows for the assessment of parenting styles, but also enables the measurement of parental dimensions and behaviors with a significant impact on child and adolescent well-being.

Key words: Parenting styles; confirmatory factor analysis; psychometric properties

Os estilos parentais educativos (EP) constituem um conceito central na área de estudos da parentalidade e do desenvolvimento infantil. O interesse nos EP deriva sobretudo das evidências empíricas que, ao longo de quatro décadas de investigação, demonstraram a associação dos EP a vários aspectos do ajustamento sócio-emocional da criança, bem como da psicopatologia infantil (por exemplo, Caron, Weiss, Harris, & Catron, 2006; Hoeve et al., 2009; Kawabata, Alink, Tseng, Ijzendoorn, & Crick, 2011; McLeod, Wood, & Weisz, 2007; Sartaj & Aslam, 2010; Simons & Conger, 2007).

Os EP constituem o conjunto de atitudes direcionadas e comunicadas à criança, que estabelecem o clima emocional no qual os comportamentos parentais são expressos. Incluindo as práticas parentais, os EP abrangem ainda outros aspectos da interação progenitor-criança que comunicam a atitude emocional, mas não são dirigidos a objectivos específicos de socialização (Darling & Steinberg, 1993). Por sua vez, as práticas parentais correspondem a "comportamentos definidos por conteúdos específicos e objectivos de socialização" (Darling & Steinberg, 1993, p. 492). Assim, para melhor se compreender a influência parental no ajustamento sócio-emocional da criança, é importante distinguir-se entre EP e práticas parentais. Mais concretamente, a investigação sugere que as práticas parentais têm um impacto direto no desenvolvimento infantil, ao passo que os EP exercem uma influência indireta (p. ex., Caron et al., 2006).

De entre as várias conceptualizações de parentalidade existentes (p. ex., Maccoby & Martin, 1983), a tipologia proposta por Diana Baumrind (p. ex., 1966 , 1971, 1991) tem sido uma das mais referidas na literatura e alvo de inúmeros estudos empíricos. A autora desenvolveu um modelo de autoridade parental, onde define três EP principais, originados a partir da combinação das dimensões afecto/responsividade e controlo parental/exigências de maturidade (Baumrind, 1971, 1991): o EP autoritário, o EP autoritativo e o EP permissivo. O presente estudo foca-se nestes três EP principais, os mais prevalentes na população não-clínica (p. ex., Baumrind, 1971).

Os pais autoritários apresentam níveis elevados de controlo e níveis baixos de afecto. São normalmente inflexíveis, críticos e rígidos, esperando que as regras sejam cumpridas sem explicações ou negociação. Pouco afectuosos na interação com os filhos, recorrem a medidas disciplinares punitivas (Baumrind, 1971, 1991). Contrariamente ao EP autoritário, os pais permissivos revelam níveis médios/elevados de afecto e níveis baixos de controlo parental, realizando poucas exigências de maturidade. Adoptam uma postura tolerante e aceitante relativamente aos desejos e comportamento dos filhos e são não-punitivos, evitando o exercício da autoridade e a imposição de limites (Baumrind, 1971, 1991; Simons & Conger, 2007). Os pais autoritati- vos são afectuosos e apoiantes, exercendo um controlo firme das actividades da criança e estabelecendo regras de conduta apropriadas. Têm em consideração as necessidades e desejos da criança e são responsivos, estabelecendo exigências adequadas de maturidade. São pais flexíveis, que partilham as razões por detrás das regras, estimulando a autonomia da criança e a exploração do meio (Baumrind, 1971, 1991; Pereira, 2009).

O EP autoritativo tem sido considerado fundamental para o bem-estar psicossocial da criança e do adolescente (p. ex., Lamborn, Mounts, Steinberg, & Dornbusch, 1991; Spera, 2005). Diferentes estudos associam o EP autoritativo, de forma consistente, a vários aspectos positivos do desenvolvimento infantil, tais como: níveis elevados de desempenho académico, ajustamento emocional, menos distúrbios de comportamento e níveis baixos de delin- quência (p. ex., Lamborn et al., 1991; S. M. Lee, Daniels, & Kissinger, 2006; McKinney & Renk, 2008; Simons & Conger, 2007). Pelo contrário, o EP autoritário relaciona-se com problemas de externalização e internalização (E. H. Lee et al., 2013), e os filhos de pais permissivos tendem a apresentar baixo envolvimento escolar e comportamentos desviantes, a par de boas competências sociais (p. ex., Lamborn et al., 1991). Contudo, importa referir algumas inconsistências ao nível da literatura. A investigação tem demonstrado que a relação entre o EP autoritativo e o desempenho académico não é consistente entre famílias de diferentes contextos culturais e socioeconómicos (Spera, 2005), assim como o EP autoritário parece poder estar associado a níveis mais elevados de bem-estar e desempenho académico no adolescente, sobretudo na população asiática (p. ex., Ang & Goh, 2006) ou em contextos sócio-económicos mais desfavorecidos (p. ex., Dahl, Ceballo, & Huerta, 2010).

A conceptualização de parentalidade tem sido alvo de alguma controvérsia, não sendo consensual se as dimensões parentais deverão ser analisadas de forma independente, como dimensões contínuas (p. ex., o afecto, relativo a um conjunto de características parentais que inclui expressões de carinho, disponibilidade e apoio parental ou tom emocional positivo, entre outras), ou agrupadas em categorias de EP (Caron et al., 2006; O'Connor, 2002). A abordagem dimensional tem a vantagem de considerar as contribuições únicas de cada uma das dimensões parentais para o funcionamento (des)adaptativo da criança, podendo ser especialmente útil em contexto de intervenção clínica (O'Connor, 2002). Por outro lado, alguns autores têm salientado a pertinência da abordagem tipológica, com base em dois pressupostos principais (Caron et al., 2006; O'Connor, 2002): (a) os comportamentos parentais correlacionam-se entre si, e, como tal, devem ser considerados em grupo e não de forma independente; e (b) os efeitos de um determinado comportamento parental dependente de outros comportamentos parentais, pelo que as tipologias de EP devem incluir várias práticas educativas. Assim, tem sido argumentado que a abordagem tipológica possui uma maior validade ecológica, por descrever combinações de práticas educativas que ocorrem no contexto parental natural (Caron et al., 2006; Pereira, 2009). Além do mais, o foco em dimensões independentes não capta a complexidade e os efeitos de interação existentes entre os diferentes comportamentos parentais (p. ex., Stewart & Bond, 2002).

Uma das maiores limitações da investigação da parentalidade tem sido o enfoque quase exclusivo nas práticas parentais maternas. Todavia, o papel do pai no desenvolvimento infantil tem sido cada vez mais realçado na literatura, acreditando-se que mães e pais contribuem de forma igualmente importante, e possivelmente distinta, para o ajustamento sócio-emocional dos filhos (p. ex., McKinney & Renk, 2008). A investigação salienta ainda a pertinência de se compreender o papel da concordância interparental, mostrando que a relação entre a parentalidade materna e paterna desempenha um importante contributo para o bem-estar da criança e do adolescente (p. ex., Winsler, Madigan, & Aquilino, 2005). Por outro lado, a literatura aponta para a existência de diferenças entre os EP paternos e maternos, sugerindo que as mães revelam maior tendência do que os pais para serem mais afectuosas, apoiantes e estabelecerem relações mais próximas com os filhos (McKinney & Renk, 2008; Simons & Conger, 2007). Os dados indicam também que as mães adoptam mais frequentemente que os pais um EP autoritativo, ao passo que os pais tendem a apresentar com mais frequência do que as mães um EP autoritário (p. ex., Winsler et al., 2005).

A avaliação dos EP tem sido realizada com o recurso a várias metodologias (p. ex., observação naturalista das interacções pais-filhos). Contudo, os questionários constituem a metodologia mais utilizada, em grande medida pela sua facilidade de aplicação, permitindo a recolha de uma grande quantidade de informação num curto espaço de tempo (Sessa, Avenevoli, Steinberg, & Morris, 2001).

O Parenting Styles and Dimensions Questionnaire

Entre o conjunto de questionários disponíveis para avaliar os estilos parentais, encontra-se o Parenting Styles and Dimensions Questionnaire (PSDQ; Robinson, Mandleco, Olsen, & Hart, 2001), denominado de Questionário de Estilos e Dimensões Parentais (QDEP) na versão portuguesa. O QDEP permite avaliar os três EP da tipologia de Baumrind (1971) - o autoritário, o autoritativo e o permissivo - bem como as práticas parentais que os constituem, apresentando duas vantagens relativamente aos instrumentos anteriores: (a) identifica práticas parentais específicas, permitindo a avaliação das consequências que determinadas práticas podem ter no desenvolvimento infantil; (b) pode ser utilizado com pais e mães, possibilitando o cruzamento dos resultados e permitindo ultrapassar os efeitos de desejabilidade social presentes nos instrumentos de auto-relato, onde os progenitores podem reportar mais práticas parentais positivas do que aquelas que têm na realidade (Robinson, Mandleco, Olsen, & Hart, 1995, 2001; Winsler et al., 2005). O PSDQ foi originado a partir da análise fatorial confirmatória (AFC) aos 62 itens de outro instrumento dos autores originais, o Parenting Practices Questionnaire (Robinson et al., 1995), numa amostra de 1251 pais e mães com filhos em idade pré-escolar e escolar. O PSDQ replica a estrutura fatorial original de três fatores do Parenting Practices Questionnaire, construído com base na tipologia e conceptualização de EP autoritário, autoritativo e permissivo de Baumrind. A seleção dos itens respeitou os seguintes critérios: (a) apresentar uma saturação igual ou superior a 0,30; (b) saturar para pais e mães; (c) saturar para pais e mães com filhos em idade pré-escolar e escolar. Os estudos psicométricos do PSDQ revelam uma consistência interna entre o bom e o aceitável para as três escalas (0,64 < α < 0,86; p. ex. Coplan, Prakash, O'Neil, & Armer, 2004; Robinson et al., 2001; Winsler et al., 2005).

O PSDQ foi elogiado num artigo de revisão de instrumentos de avaliação de práticas parentais (Locke & Prinz, 2002), sendo considerado uma das poucas medidas na área com boas características psicométricas, nomeadamente, bons níveis de consistência interna. Embora seja frequentemente utilizado em investigações (p. ex., Coplan et al., 2004; Winsler et al., 2005) e tenha sido adaptado para diversos contextos culturais, como a Rússia (Hart, Nelson, Robinson, Olson, & McNeilly-Choque, 1998), China (Wu et al., 2002), Turquia (Önder & Gülay, 2009) e comunidades Afro-Americanas (Coolahan, McWayne, Fantuzzo, & Grim, 2002), a confirmação da estrutura fatorial original não constituiu uma preocupação para a maioria dos autores.

Infelizmente, e apesar da relevância indiscutível dos EP, há ainda poucos instrumentos validados para a população portuguesa que avaliem os EP, e, em particular, a tipologia de Baumrind. Duas exceções são o Questionário de Estilos Educativos Parentais (QEEP; Ducharne, Cruz, Marinho, & Grande, 2006) e o EMBU-Pais (EMBU-P; Canavarro & Pereira, 2007), ambos com boas qualidades psicométricas. O QEEP avalia os EP de Baumrind, a partir do cruzamento das dimensões responsividade e exigência. Porém, o QEEP avalia as percepções que os adolescentes têm dos EP dos seus progenitores, não apresentando um versão de auto-relato para pais. Por sua vez, o EMBU-P é a versão portuguesa da escala sueca Egna Minnen av Barndoms Uppfostram e avalia a percepção dos estilos parentais na perspectiva dos progenitores, relativamente a três dimensões parentais: o suporte emocional, controlo e rejeição. No entanto, o EMBU-P não capta especificamente a tipologia de Baumrind. Campos e Cruz (2011) deram um primeiro contributo de adaptação do PSDQ, apresentando uma versão portuguesa - o Questionário de Estilos Parentais (QEP) - que replicou a estrutura original de três fatores, através de uma análise fatorial exploratória. O QEP revelou níveis de consistência interna entre 0,82 e 0,90 para o factor Autoritativo, entre 0,75 e 0,76 para o factor Autoritário, e entre 0,57 e 0,56 para o factor Permissivo, para mães e pais respectivamente. Contudo, dentro do conhecimento das autoras do presente trabalho, não existem ainda investigações publicadas que tenham avaliado a validade fatorial do PSDQ com recurso a AFC, apesar desta técnica ser considerada uma etapa importante no processo de adaptação de instrumentos (Fernandes & Raposo, 2010; Long, 1983). Em particular, a AFC permite testar a estrutura fatorial dos instrumentos, apresentando vantagens relativamente à análise fatorial exploratória: (a) permite testar uma estrutura fatorial tal como descrita na teoria; (b) permite avaliar os efeitos dos erros de medida; e (c) permite determinar se a atribuição dos itens a cada fator é, ou não, aceitável (Fernandes & Raposo, 2010; Long, 1983).

O presente estudo tem como objectivo adaptar e analisar as características psicométricas da uma versão portuguesa do PSDQ, o QDEP, tendo em conta que este é considerado um dos melhores instrumentos de avaliação dos EP e que a adaptação do QDEP à população portuguesa não foi realizada anteriormente. Importa ainda referir que, apesar do QDEP incluir uma versão de auto e de hetero-relato, apenas a versão de auto-relato será o alvo deste estudo. Pretende-se também contribuir para uma melhor compreensão dos EP de pais e mães portugueses, ainda pouco investigados.

Método

Participantes

O estudo foi realizado com uma amostra de 2081 participantes (1085 mães e 996 pais), casados ou em coabitação, residentes na zona de Lisboa e Vale do Tejo e zona Litoral Oeste. Os participantes tinham idades compreendidas entre os 22 e os 69 anos (M = 38,95, DP = 5,99) e diferentes graus de escolaridade (até ao 4º ano - 4,7%; do 6º ao 12º ano - 56,3%; ensino superior - 39%). As crianças tinham idades compreendidas entre os 3 e os 15 anos (M = 7,67, DP = 3,51) e apresentavam uma proporção equilibrada do sexo masculino (51,5%) e do sexo feminino (48,3%).

Procedimento

A amostra total de participantes foi obtida através da recolha de dados para dois estudos, com objectivos distintos, realizados com o QDEP. Para a recolha dos dados de parte da amostra (n = 1011), as famílias foram selecionadas em jardins de infância, de acordo com os seguintes critérios: crianças com idades entre os 3 e os 6 anos, nascidas em Portugal e não referenciadas com necessidades educativas especiais. Às famílias que aceitaram colaborar, foram entregues, e posteriormente recolhidos, dois protocolos (um para o pai e outro para a mãe), tendo sido pedido que os preenchessem separadamente, em casa. As famílias devolveram cada protocolo, em envelope fechado, ao respectivo educador de infância. Para a recolha dos dados da outra parte da amostra (n = 1070), os participantes foram recrutados em 14 escolas. A aprovação ética e o consentimento informado foi obtido junto do Conselho Executivo de cada uma das escolas, previamente ao início do estudo. Após recolhidas as respectivas autorizações das escolas para se iniciar o estudo, os pais eram contactados por intermédio dos seus filhos, através da distribuição de cartas aos alunos do 5º ano (M = 10,2 anos) e do 6º ano (M = 11,7 anos), descrevendo o estudo e convidando as famílias a participarem. Todos os pais entregaram o consentimento informado de que iam participar num estudo sobre a associação entre a relação conjugal e as interações pais-filhos. Os questionários dos pais eram enviados para casa através dos filhos, num envelope selado. Cada envelope continha dois protocolos (um para o pai e outro para a mãe), com instruções para os progenitores responderem em separado e de forma independente. De modo a clarificar eventuais dúvidas que pudessem surgir, o contacto do investigador principal era fornecido. Os questionários eram devolvidos através de envelopes pré-pagos facultados juntamente com os protocolos, ou entregues ao professor da criança. Os questionários eram anónimos e os participantes eram assegurados de que os dados recolhidos iriam ser utilizados apenas para fins de investigação.

Instrumentos

O PSDQ (Robinson et al., 2001) é um instrumento de auto-relato constituído por 32 itens, cotados numa escala de Likert de 5 pontos, variando de (0) Nunca a (5) Sempre. O PSDQ é composto por três escalas, as quais avaliam os três EP da tipologia de Baumrind (1971): o EP Autoritativo, o EP Autoritário e o EP Permissivo. A escala do EP Autoritativo é composta por 15 itens e compreende as subescalas Ligação, Regulação e Autonomia, cada uma com 5 itens (p. ex., "Sou sensível às necessidades e sentimentos do meus filho"; Ligação). A escala do EP Autoritário é constituída por 12 itens e inclui as subescalas Coerção Física, Hostilidade Verbal e Punição, cada uma com 4 itens (p. ex., "Castigo fisicamente o meu filho para o disciplinar"; Coerção Física). Os resultados das subescalas podem ser somados de forma a constituírem um resultado total de EP Autoritativo e EP Autoritário. A escala do EP Permissivo é composta por 5 itens e não inclui subescalas (p. ex., "Cedo quando o meu filho faz birra"). Os cinco itens são somados de forma a obter um resultado total de EP permissivo. Resultados elevados em cada uma das escalas refletem um uso mais frequente de práticas parentais associadas a um EP autoritativo, autoritário ou permissivo. A versão portuguesa de auto-relato do PSDQ (Questionário de Estilos e Dimensões Parentais - QDEP) foi obtida através de um procedimento de retroversão, realizado por indivíduos bilingues.

Os participantes responderam ainda ao Questionário de Coparentalidade (QC; Pedro & Ribeiro, 2015), ao EMBU-P (Canavarro & Pereira, 2007) e à Escala de Avaliação da Satisfação em Áreas da Vida Conjugal (EASAVIC; Narciso & Costa, 1996). O QC é um instrumento de auto-relato com 14 itens, avaliados numa escala de Likert de (1) Nunca a (5) Sempre, que pretende medir as percepções que os cônjuges têm um do outro enquanto pais, sobre a cooperação e conflito interparentais, e as tentativas de triangulação da criança. O EMPU-P é uma medida de auto-relato que avalia a percepção que os progenitores têm dos seus estilos parentais, incluindo 42 itens divididos por três susbescalas: suporte emocional, rejeição e tentativa de controlo. Os itens são avaliados numa escala de Likert de (1) Não, nunca a (4) Sim, sempre. A EASAVIC avalia a satisfação conjugal em várias áreas da vida conjugal e é um instrumento de auto-relato constituído por 44 itens, avaliados numa escala de Likert de (1) Não satisfeito a (6) Completamente satisfeito. Os dados sócio-demográficos foram recolhidos através de um questionário específico.

Análises Estatísticas

Numa primeira fase, foi realizada a análise descritiva dos dados (médias e desvios-padrão) através do software estatístico SPSS Statistics 19. Seguidamente, as análises estatísticas foram realizadas em quatro passos. Inicialmente, avaliou-se a validade fatorial da versão portuguesa de auto-relato do PSDQ, através de AFC utilizando o softwareAmos 19 (Arbuckle, 2010). Em primeiro lugar, estimou-se o modelo tri-fatorial de 2ª ordem, proposto originalmente pelos autores (Figura 1 - Modelo 1). Consistente com o modelo teórico original, os três fatores de 2ª ordem (autoritativo, autoritário e permissivo) foram correlacionados entre si. Não foram efectuadas correlações entre os resíduos dos itens. Para efeitos da identificação do modelo, o coeficiente de regressão não estandardizado de um dos itens foi fixado a 1 para cada um dos subfatores. Em segundo lugar, comparou-se o modelo original com modelos alternativos, com base no teste da diferença dos χ2 de modelos aninhados. O próximo passo consistiu na melhoria do modelo com o melhor ajustamento, tendo por base os valores dos índices de modificação (IM) e através do estabelecimento de cross-loadings. Por último, e de forma a recolher mais informações sobre a versão portuguesa de auto-relato do QDEP, examinou-se ainda a validade convergente e discriminante do instrumento. Para este efeito, os valores do QDEP foram correlacionadas com outro instrumento de práticas parentais (EMBU-P) e com medidas de satisfação conjugal (EASAVIC) e coparentalidade (QC).

Figura 1. Modelos testados no presente estudo. Modelo 1: modelo original tri-factorial de 2ª ordem; modelo 2: modelo tri-factorial de 1ª ordem; modelo 3: modelo de dois factores; modelo 4: modelo unidimensional. 

A avaliação do ajustamento dos modelos aos dados foi realizada com base na análise de dois índices de qualidade de ajustamento, seguindo as recomendações propostas por Hu e Bentler (1999): o standardized root-mean-square residual (SRMR) e o root-mean-square error of approximation (RMSEA). Segundo os autores, valores de RMSEA < 0,06 e de SRMR < 0,08 indicam um bom ajustamento do modelo aos dados.

Resultados

Estatística Descritiva

A Tabela 1 apresenta as médias e desvios-padrão dos itens do QDEP, de acordo com o modelo original proposto por Robinson e colaboradores (2001). A análise descritiva dos resultados demonstrou que os pais recorreram às cinco possibilidades de resposta existentes no QDEP, com as médias de resposta situadas entre 1,16 e 4,55. O cálculo do alfa de Cronbach para cada um dos fatores do instrumento revelou valores de consistência interna aceitáveis para efeitos de investigação (α Autoritativo = 0,88; α Autoritário = 0,73; α Permissivo = 0,62), de acordo com Nunnally e Bernstein (1994). Os níveis de consistência interna obtidos no QDEP são assim aproximados aos valores obtidos por Robinson e colaboradores (2001). À semelhança do instrumento original, a escala do EP permissivo é a que apresenta o nível de consistência interna mais baixo.

Tabela 1. Análise Descritiva dos Itens do QDEP 

Média Desvio-padrão Média Desvio-padrão
Item 1 4,46 0,75 Item 17 2,36 1,06
Item 2 1,56 0,64 Item 18 3,83 0,99
Item 3 3,29 1,05 Item 19 1,53 0,71
Item 4 2,25 1,07 Item 20 1,81 0,84
Item 5 3,99 0,99 Item 21 4,19 0,91
Item 6 1,50 0,59 Item 22 3,36 1,26
Item 7 4,31 0,92 Item 23 3,38 1,24
Item 8 1,96 0,92 Item 24 2,51 1,15
Item 9 3,94 1,10 Item 25 4,33 0,84
Item 10 1,33 0,64 Item 26 1,31 0,62
Item 11 3,76 1,12 Item 27 4,33 0,79
Item 12 4,60 0,71 Item 28 1,16 0,46
Item 13 2,57 0,98 Item 29 4,01 0,97
Item 14 4,55 0,72 Item 30 3,11 1,12
Item 15 1,64 0,74 Item 31 3,99 0,96
Item 16 1,54 0,67 Item 32 1,33 0,56

Análise Fatorial Confirmatória (AFC)

A validade fatorial do QDEP foi avaliada com uma AFC. Os índices de ajustamento revelam que o modelo original tri-fatorial de 2ª ordem (Figura 1 - modelo 1) é adequado aos dados da amostra portuguesa (Tabela 2). Os itens apresentam um peso fatorial entre .32 e .82. De seguida, procedeu-se à comparação do modelo tri-fatorial de 2ª ordem (modelo 1) com três modelos alternativos (Figura 1): um modelo tri-fatorial de 1ª ordem, composto pelos três fatores do modelo original, correlacionados (modelo 2); um modelo de dois fatores correlacionados - um factor de parentalidade positiva e outro de parentalidade negativa (modelo 3); e um modelo unifatorial, no qual todos os itens saturam num único fator de parentalidade positiva (modelo 4). A análise dos índices de ajustamento (Tabela 2), em conjunto com o teste do χ2, revelou que o modelo original de 2ª ordem (modelo 1) apresenta um ajustamento significativamente melhor que os modelos alternativos.

Tabela 2. Estatísticas de Adequação dos Modelos 

Modelos χ2 (gl) RMSEA SRMR ∆χ2
1 - 2ª ordem tri-factorial original 3167,70 (455)* 0,05 0,07 ___
2 - 1ª ordem tri-factorial 4896,09 (461)* 0,07 0,07 1728,39 (6)*
3 - Dois factores 5423,46 (463)* 0,07 0,07 2255,76 (8)*
4 - Unifactorial 4560,95 (464)* 0,09 0,10 1393,25 (9)*
5 - Modelo melhorado (cross-loadings) 2360,56(499)* 0,04 0,05 807,14 (6)

*p < 0,001.

Posteriormente, e a título exploratório, procedeu-se à melhoria do modelo tri-fatorial de 2ª ordem, com base na análise dos IM calculados pelo AMOS (Arbuckle, 2010) e através de cross-loadings. De acordo com as sugestões de Maroco (2010), para evitar a capitalização de erros de tipo 1, frequentes na utilização dos IM, procedeu-se apenas à correlação de resíduos para IM superiores a 11 valores. Devido à grande dimensão da amostra, valores baixos de IM são indicativos de melhoria no modelo. Assim, apenas os valores de IM > 11 foram considerados como indicadores de melhoria do ajustamento do modelo (Maroco, 2010). A existência de cross-loadings foi testada devido à presença de itens que pudessem ter um significado diferente na cultura latina, originando saturações num fator diferente do modelo proposto por Robinson e colaboradores (2001). Os valores dos IM sugeriram correlações entre os resíduos dos itens 7 e 9, 30 e 31, e 23 e 30. Os valores dos IM sugeriram ainda que os itens 23 e 30 fossem incluídos no subfator Regulação do EP Autoritativo, e que o item 24 passasse a pertencer ao subfator Ligação. Os valores dos coeficientes estandardizados do modelo melhorado são apresentados na Tabela 3. Comparativamente com o modelo tri-fatorial original de 2ª ordem, e considerando o teste do χ2 , o modelo melhorado apresenta valores de ajustamento mais adequados (Tabela 2). De igual modo, os níveis de consistência interna das escalas do modelo melhorado são também mais elevados comparativamente aos valores correspondentes ao modelo original avaliado (α autoritativo = 0,86, α autoritário = 0,75, α permissivo = 0,63).

Tabela 3. Coeficientes Estandardizados (CE) e Não Estandardizados (CNE) do Modelo Melhorado do QDEP 

Itens CNE CE Itens CNE CE
Item 1 0,71 0,55 Item 17 1,74 0,57
Item 2 1,00 0,76 Item 18 0,76 0,57
Item 3 0,65 0,49 Item 19 0,83 0,53
Item 4 0,94 0,30 Item 20 1,34 0,62
Item 5 0,94 0,50 Item 21 1,00 0,81
Item 6 1,02 0,78 Item 22 0,94 0,57
Item 7 1,00 0,67 Item 23 0,59 0,30
Item 8 1,17 0,48 Item 24 0,37 0,40
Item 9 1,00 0,67 Item 25 1,00 0,71
Item 10 1,00 0,60 Item 26 1,15 0,69
Item 11 0,93 0,49 Item 27 0,74 0,59
Item 12 0,84 0,74 Item 28 0,75 0,66
Item 13 1,22 0,56 Item 29 1,22 0,73
Item 14 0,66 0,63 Item 30 0,59 0,32
Item 15 1,00 0,57 Item 31 1,14 0,68
Item 16 1,00 0,69 Item 32 0,81 0,67

Validade Convergente e Discriminante

Para averiguar a validade convergente e discriminante do QDEP, procedeu-se à análise das correlações entre o QDEP, o EMBU-P, o QC e a EASAVIC (Tabela 4). Conforme o esperado, apesar das medidas se encontrarem associadas significativamente, as correlações são moderadas (0,13 < r <0,78). Estes resultados indicam que o QDEP tem validade convergente com o EMBU-P (dimensões suporte emocional, controlo, e rejeição), QC e EASAVIC, embora as correlações não sejam demasiados elevadas que sugiram sobreposição entre os constructos.

Tabela 4. Correlações entre o QDEP e o EMBU-P, QC e EASAVIC (p < 0,01) 

Suporte Emocional Controlo Rejeição Coparentalidade Satisfação conjugal
1. EP Autoritativo 0,78 0,13 -0,21 0,47 0,43
2. EP Autoritário -0,31 0,22 0,74 -0,31 -0,18
3. EP Permissivo -0,26 0,19 0,44 -0,33 -0,24

Semelhanças e Diferenças nos EP Reportados por Pais e Mães

Finalmente, examinaram-se os EP na amostra portuguesa, verificando-se que os pais e mães portugueses se percecionam como sendo mais autoritativos do que permissivos ou autoritários (Tabela 5). O EP percebido como menos prevalente é o autoritário. Com vista a examinar a existência de diferenças significativas entre pais e mães, relativamente aos três EP percebidos, realizou-se uma análise de t-test. Os resultados indicam que, em média, as mães reportam níveis mais elevados no estilo autoritativo do que os pais, t(996,71) = 7,30, p < 0,001. Não foram encontradas diferenças significativas ao nível do auto-relato dos EP autoritário e permissivo.

Tabela 5. Médias e Desvio-Padrão dos EP 

Amostra Total Pais Mães
Média Desvio-padrão Média Desvio-padrão Média Desvio-padrão
EP Autoritativo 4,06 0,56 3,94 0,61 4,17 0,51
EP Autoritário 1,88 0,40 1,52 0,40 1,59 0,41
EP Permissivo 2,06 0,59 1,83 0,58 1,85 0,58

Discussão

O presente estudo teve como objectivo testar a validade e a fiabilidade da versão portuguesa de autorrelato do PSDQ - o Questionário de Dimensões e Estilos Parentais (QDEP) - numa amostra de pais e mães com filhos entre os 3 e os 15 anos. Até à data (e que seja dos conhecimentos das autoras), este constitui o primeiro estudo a testar a estrutura fatorial do PSDQ através de AFC. A análise dos resultados permite concluir que a versão de autorrelato do QDEP apresenta características psicométricas equivalentes às da versão original. Os valores médios obtidos para as escalas do QDEP foram semelhantes aos que têm sido encontrados noutros estudos (p. ex., Winsler et al., 2005). Os valores de consistência interna são considerados adequados para fins clínicos e de investigação (Nunnally & Bernstein, 1994) e semelhantes aos obtidos com o instrumento original (Robinson et al., 2001). Como esperado, observou-se ainda que os EP do QDEP se encontram fortemente correlacionados com os EP do EMBU-P, e moderadamente com a satisfação conjugal e a coparentalidade, indicando que a versão de autorrelato do QDEP pode ser considerado um instrumento válido para medir os EP.

No que diz respeito aos resultados da AFC, a estrutura original de 2ª ordem tri-factorial, composta pelos factores Autoritativo, Autoritário e Permissivo, foi claramente identificada na amostra portuguesa, revelando-se mais adequada do que um modelo de 1ª ordem, bifactorial ou unidimensional. No entanto, os índices de modificação sugeriram a saturação (cross-loadings) de alguns itens em subescalas diferentes das do instrumento original, bem como a existência de correlações entre alguns resíduos. Em particular, os valores dos IM sugeriram que os itens 23 e 30 (pertencentes ao subfactor Hostilidade Verbal do factor Autoritário, na escala original) fossem incluídos no subfactor Regulação do factor Autoritativo, e que o item 24 (pertencente ao factor Permissivo na escala original) fosse incluído no subfactor Ligação do factor Autoritativo. Estas modificações são defensáveis teoricamente, uma vez que os resíduos correlacionados partilham conteúdo teórico, e os itens que foram incluídos em factores diferentes dos do modelo original são, na cultura latina, mais próximos do factor onde passaram a ser incluídos. Os itens 23 ("Repreendo e critico o meu filho para o bem dele") e 30 ("Repreendo ou critico o meu filho quando ele não se comporta como nós esperamos") parecem ser entendidos pelos pais e mães portugueses como práticas típicas de um EP autoritativo, utilizadas com o objectivo de gerir o comportamento da criança. O próprio conceito de "criticar" tem um duplo significado na cultura latina, podendo ser interpretado como uma crítica pejorativa, ou, num clima educacional autoritativo, como um feedback construtivo que auxilia a criança a regular e melhorar o seu comportamento, ao mesmo tempo que assegura que as regras adequadas de conduta são respeitadas. Por sua vez, o item 24 "Estrago o nosso filho com mimos", parece ser entendido na amostra portuguesa como uma prática educativa positiva e não como indicadora de permissividade, revelando uma atitude parental afectuosa que contribui para o desenvolvimento do laço emocional entre pais e filhos. Em função dos cross-loadings observados, procedeu-se, assim, ao teste de um modelo revisto, com os 23, 24 e 30 a saturarem nas escalas sugeridas pelos cross-loadings. Os índices de qualidade de ajustamento (Tabela 2) demonstram que o modelo revisto revela um melhor ajustamento do que o modelo original, demonstrando melhor validade factorial. Assim, propomos esta estrutura factorial para a versão portuguesa do PSDQ, por considerarmos é mais congruente com a cultura portuguesa.

O presente estudo contribui ainda para fornecer informação sobre a parentalidade dos pais e mães portugueses, considerando a escassez de estudos publicados em Portugal sobre os EP. Ao nível das diferenças entre os EP percebidos por pais e mães, observou-se que os progenitores percebiam mais semelhanças que diferenças entre os EP. A única diferença significativa encontrada foi ao nível do EP autoritativo, sendo que as mães se percepcionam como recorrendo a práticas parentais mais autoritativas do que os pais, e como não diferindo dos seus maridos ao nível de permissividade e de práticas autoritárias. Por sua vez, os pais se percepcionam como menos autoritativos que as suas mulheres, e, à semelhança das mães, como não divergindo do cônjuge ao nível da parentalidade autoritária e permissiva. Este resultado é congruente com estudos anteriores demonstrando que as mães adoptam mais frequentemente que os pais um EP autoritativo (p. ex., Winsler et al., 2005).

Embora o presente estudo constitua um contributo importante para a adaptação do QDEP à população portuguesa, importa referir algumas limitações. Em primeiro lugar, a amplitude da idade da amostra é bastante grande, compreendendo a faixa dos 22 aos 69 anos, o que poderá ter influenciado os resultados obtidos. Assim, sugere-se a realização de estudos que investiguem o impacto da idade dos pais na estrutura fatorial do QDEP. Em segundo lugar, trabalhos futuros que visem a melhoria do QDEP poderão investigar reformulações dos itens do fator "hostilidade verbal" mais adequadas à população portuguesa, através da realização de grupos focais com o objectivo de averiguar o que significa ser verbalmente hostil com os filhos. Por outro lado, sendo uma das principais vantagens do QDEP a existência de uma versão auto e heterorrelato, a ausência de dados sobre o heterorrelato constitui outra limitação deste estudo. Investigações futuras deverão assim procurar efetuar a validação da versão de heterorrelato, possibilitando a coleta de informação acerca dos estilos e práticas parentais do próprio e do cônjuge. Por fim, importa referir os níveis menos aceitáveis de consistência interna do EP permissivo. Este resultado é consistente com estudos anteriores que também verificaram valores baixos de consistência interna para o EP permissivo (p. ex. Önder & Gülay, 2009). Recentemente, uma meta-análise de estudos que utilizaram a versão de 62 itens do PSDQ, concluiu que o factor permissivo apresentava sempre níveis baixos de consistência interna, nos EUA e noutros países (Olivary, Tabliabue, & Confalonieri, 2013). Por outro lado, este resultado poderá estar relacionado com diferenças culturais entre os pais americanos e os pais portugueses. Os itens que constituem este factor parecem ser compreendidos pela população portuguesa como comportamentos parentais positivos (p. ex. "Estrago o meu filho com mimos") ou como dificuldades naturais sentidas por todos os pais (p. ex. "Acho difícil disciplinar o meu filho" ou "Ameaço o meu filho com castigos mais vezes do que o castigo efetivamente"), e não tanto como práticas parentais indicativas de um EP indulgente, pouco firme e inconsistente a nível disciplinar.

Atendendo ao impacto dos EP em vários aspectos do ajustamento sócio-emocional da criança (p. ex., Hoeve et al., 2009; Kawabata et al., 2011; Sartaj & Aslam, 2010; Simons & Conger, 2007; Spera, 2005), e considerando a escassa existência de instrumentos que avaliem os EP validados para Portugal, o QDEP deve, assim, continuar a ser objecto de estudo, de forma a confirmar a validade do modelo proposto e a melhorar a sua fiabilidade (p. ex., baixo nível de consistência interna da subescala EP Permissivo). Para tal, são necessários mais estudos que diversifiquem a amostra, incluindo, por exemplo, pais e mães de diferentes etnias e contextos sócio-económicos mais diversificados. A melhoria da validade e da fiabilidade poderá ainda ser conseguida com modificações ao nível dos itens, procurando reformulá-los ou substituí-los por itens novos, com maior representatividade na realidade parental portuguesa (p. ex., podia-se modificar o item 24 para "Exagero nos mimos que dou ao nosso filho", de forma a ficar mais claro o seu conteúdo de prática permissiva).

Em suma, este trabalho revela que a versão portuguesa do PSDQ - o QDEP - apresenta qualidades psicométricas aceitáveis, quer ao nível da validade quer da sua fiabilidade. Estes resultados comprovam a existência dos três estilos parentais postulados por Baumrind na população portuguesa, contribuindo, assim, para preencher uma lacuna ao nível da investigação da parentalidade em Portugal, onde os estudos publicados sobre EP são ainda escassos. O QDEP pode, assim, ter uma utilidade e aplicação diversificada, sendo útil ao nível da prática clínica com famílias e crianças, na intervenção parental, ou em contextos de investigação que pretendam estudar os EP.

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Received: October 15, 2013; Revised: April 12, 2014; Accepted: April 12, 2014

* Endereço para correspondência: Faculdade de Psicologia, Universidade de Lisboa, Alameda da Universidade, Lisboa, Portugal 1649-013. Fone: +35196801-8904. E-mail: mmpedro@psicologia.ulisboa.pt, elsa.carapito@gmail.com e mteresaribeiro@psicologia.ulisboa.pt

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