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Contexto Internacional

Print version ISSN 0102-8529

Contexto int. vol.33 no.1 Rio de Janeiro Jan./June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-85292011000100007 

ARTIGOS

 

Migração internacional recente no amazonas: o caso dos Hispano-americanos

 

Latest international migration in the amazon: the case of Hispanic-Americans

 

 

Sidney Antônio da Silva

Doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Antropologia Social e do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde desenvolve pesquisas sobre os hispano-americanos na Amazônia, entre eles peruanos e colombianos. Coordena o Grupo de Estudos Migratórios na Amazônia (GEMA), que reúne pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento em torno de temáticas como migração, cultura, identidades, gênero, direitos humanos, saúde etc. E-mail: sidsilva@ufam.edu.br

 

 


RESUMO

A imigração para o Amazonas continua sendo um campo aberto à pesquisa antropológica, seja aquela de cunho histórico, ainda pouco pesquisada, seja a mais recente, sobretudo a oriunda de países fronteiriços da Região Amazônica. Entretanto, o grande desafio que se coloca aos estudiosos dessa temática é superar a referência teórica que norteou as análises que tiveram como marco explicativo os ciclos econômicos, entre eles o da borracha. No caso da imigração recente para o Amazonas, a tentação é relacioná-la também com o ciclo de desenvolvimento econômico propiciado pela criação da Zona Franca de Manaus em 1967, fator que poderia por si só explicar a presença de novos imigrantes, entre eles os hispano-americanos. Compreender a lógica e as especificidades dessa presença é o que pretendemos discutir neste artigo, que se insere em uma preocupação de pensar a imigração no Amazonas não apenas como um fenômeno demográfico e econômico, mas sobretudo como um processo social de mão dupla, ou seja, que afeta tanto a sociedade de origem quanto a de acolhida, em suas dimensões sociais e culturais, nas relações de gênero e nos processos identitários.

Palavras-chave: Imigração - Amazonas - Gênero - Identidades


ABSTRACT

Immigration to Amazonas state remains an open field for anthropological research, either that of a historical nature, still poorly researched, or that with a current focus, especially from neighboring countries of the Amazon region. However, the great challenge posed to scholars of the subject is to overcome the theoretical framework that guided analysis based on business cycles, such as rubber. In the case of recent immigration to the Amazonas state, the challenge is also to relate it to the cycle of economic development made possible by the creation of the Manaus Free Trade Zone, in 1967. This factor alone could explain the presence of new immigrants, among them, Hispanics. This article, which intends to discuss the rationale and the specifics of this presence, is immerse in the concern to focus immigration in the Amazon, not only as a demographic and economic phenomenon, but mainly as a social two-way process, that is, it affects both societies, that of origin and that receiving, in their social and cultural dimensions, gender relations and identity processes.

Keywords: Immigration - Amazon - Gender - Identities


 

 

Introdução

A imigração para o Amazonas continua sendo um campo aberto à pesquisa antropológica, seja aquela de cunho histórico, ainda pouco pesquisada, seja a mais recente, sobretudo a oriunda de países fronteiriços da Região Amazônica. Entretanto, o grande desafio que se coloca aos estudiosos dessa temática é superar a visão teórica que norteou as análises que tiveram como marco explicativo os ciclos econômicos, entre eles, o da borracha. Nessa perspectiva, a imigração não era vista como um processo social, mas apenas como parte de um período de expansão econômica que, por sua vez, terminaria quando os fatores de atração também deixassem de existir. Contudo, não foi o que se deu na Amazônia. Mesmo com o declínio da economia gomífera, imigrantes de diferentes nacionalidades permaneceram em cidades amazônicas distintas, entre elas Manaus e Belém (EMMI, 2009, p. 274).

No caso da imigração recente para o Amazonas, a tentação é relacioná-la também com o ciclo de desenvolvimento econômico propiciado pela criação da Zona Franca de Manaus em 1967, fator que poderia, por si só, explicar a presença de novos imigrantes, entre eles os hispano-americanos. Se, por um lado, é verdade que em um passado não muito distante esse parque industrial exerceu um poder de atração sobre quem buscava qualquer tipo de emprego na linha de montagem, sobretudo os migrantes internos, por outro, é preciso considerar que hoje a indústria absorve cada vez menos mão de obra e com um grau de qualificação cada vez maior. Nesse contexto, como poderíamos explicar a crescente presença de peruanos e colombianos na cidade de Manaus, especialmente a partir da década de 1980? Compreender a lógica e as especificidades dessa presença é o que pretendemos discutir neste artigo, que se insere em uma preocupação de pensar a imigração no Amazonas não apenas como um fenômeno demográfico e econômico, mas sobretudo como um processo social de mão dupla, ou seja, algo que afeta tanto a sociedade de origem quanto a de acolhida (SAYAD, 1998), em suas dimensões sociais e culturais, nas relações de gênero e nos processos identitários.

 

Hispano-americanos no Amazonas: a controvérsia dos dados

Quantificar o número de imigrantes hispânicos no Amazonas não é uma tarefa fácil. Em primeiro lugar, tal intento esbarra na limitação dos dados oficiais, como é o caso do censo e dos dados da Polícia Federal, que não captam aqueles que estão no país sem documentos ou entraram no Brasil sem passar pelo controle de fronteiras. Em segundo lugar, as estimativas, em geral de organizações não governamentais, procuram superestimar os dados em razão de interesses políticos. A Pastoral do Migrante, por exemplo, estimava a presença de 40 mil imigrantes (regulares e irregulares) no Amazonas em 2000. Já a Polícia Federal apontava para o modesto número de 12.638 imigrantes (regulares) em 2008, dos quais 1.695 seriam peruanos, 612 colombianos, 229 bolivianos, 117 guianenses e 116 venezuelanos. Esses números sofreram uma pequena mudança em 2010, totalizando 15.369 imigrantes. Dados da mesma Polícia Federal sobre as entradas de estrangeiros no Amazonas em 2010 mostram que os hispano-americanos não são os que mais visitaram o estado naquele ano, mas sim os norteamericanos; 10.003 visitaram o Amazonas, mais da metade do total das entradas, seguidos pelos argentinos, com 1.030, e pelos alemães, com 818. Os peruanos aparecem em quarto lugar com 776, e os colombianos em sexto, depois dos japoneses, com 613 entradas. Entretanto, se as entradas por outras vias, como a fluvial, também fossem contabilizadas, essa ordem poderia se inverter, uma vez que o imigrante mais pobre, via de regra, não utiliza o aeroporto como porta de entrada no Brasil em razão dos custos e do controle.

No entanto, se recorrermos aos dados do Censo Demográfico 2000, ainda que defasados, veremos que o país que mais enviou imigrantes para a Amazônia Legal foi a Bolívia, com 4.554, seguida pelo Peru, com 4.059. Depois vêm Japão (3.093), Portugal (2.979), Paraguai (2.941), Guiana (1.486), Colômbia (1.375), Itália (1.240), Estados Unidos (973), Venezuela (837), Guiana Francesa (587), Argentina (556), entre outros (CARMO; JAKOB, 2009, p. 208). Tais dados mostram que a Amazônia brasileira não é um dos destinos preferidos somente de imigrantes oriundos de países que formam a Região Amazônica, mas também de imigrantes de fora dela, como é o caso de japoneses, chineses, indianos, portugueses, italianos e, mais recentemente, haitianos. No caso dos peruanos e colombianos, é óbvio que o objetivo primeiro de sua vinda para o Amazonas não é o "turismo ecológico", mas sim a busca de oportunidades no mercado de trabalho e de proteção, no caso dos refugiados.

Com relação à origem, a maioria dos peruanos é oriunda da "Selva Peruana", onde ficam as cidades de Iquitos, Yurimaguas e Pucallpa (OLIVEIRA, 2004). Também há migrantes de outras regiões do país, como Lima (capital), Cuzco etc. Em geral, eles entram pela Tríplice Fronteira: Santa Rosa (Peru), Letícia (Colômbia) e Tabatinga (Brasil), onde, segundo dados da Pastoral dos Migrantes, há uma presença significativa deles: cerca de 15 mil. A faixa etária predominante gira em torno de 25 a 35 anos. Já para os colombianos, além de Tabatinga, onde há uma presença significativa deles, outra via de entrada é a Venezuela, via Boa Vista (RR), como é o caso dos refugiados. Grande parte destes são originários do Vale del Cauca e a faixa etária também é maior, ficando entre 35 e 50 anos.

Além de Tabatinga, há outras cidades onde a presença peruana é significativa, como é o caso de Benjamin Constant, São Paulo de Olivença, Atalaia do Norte, Jutaí, Novo Airão, entre outras. Nessas cidades eles ocupam postos de trabalho que não exigem qualificação nem documentação, como é o caso do comércio informal de produtos hortifrutigranjeiros, do comércio de roupas, CDs, artesanato e utensílios para a casa. Vale lembrar que nessas cidades há uma significativa presença de profissionais que se dedicam ao ramo da saúde, como é o caso dos médicos, que aceitam trabalhar em condições precárias, ganhando menos do que um profissional brasileiro com a mesma qualificação. O problema enfrentado por eles é a revalidação de seus diplomas e o registro no Conselho Regional de Medicina.

Em Manaus, o leque de atividades se amplia, já que, além do comércio informal, como a atividade de ambulantes voltada para a venda de artesanato ou de outras mercadorias, como CDs, produtos eletrônicos, roupas etc., há também os que se dedicam à gastronomia, à música, às profissões liberais, ao comércio em geral, ao ensino e aos estudos (pós-graduação). Em geral, entram como turistas ou sem passar por nenhum controle fronteiriço, permanecendo no Brasil na condição de indocumentados, fator que interfere diretamente na realização de seus projetos de vida, como conseguir um emprego formal, abrir uma firma, alugar ou financiar um imóvel, continuar os estudos, entre outros.

Apesar das anistias concedidas pelo governo brasileiro, a última em 2009,1 e dos acordos bilaterais no contexto do Mercosul, a imigração regular na região tem se pautado por seu caráter seletivo, tanto em termos educacionais, quanto em termos ocupacionais (PATARRA; BAENINGER, 2006). Vale notar, aliás, que essa tendência está em perfeita sintonia com o Estatuto do Estrangeiro de 1980, que prioriza a imigração qualificada para o Brasil. Já a imigração irregular e pouco qualificada segue outra lógica, ou seja, depende da continuidade e da dinâmica das redes sociais, bem como das demandas de mão de obra para setores específicos do mercado de trabalho, como é o caso das confecções em São Paulo ou do serviço doméstico e do artesanato em Manaus.

 

Os meandros do mercado de trabalho e a perspectiva de gênero

À semelhança de outras atividades no mercado de trabalho brasileiro, nas quais não há qualquer forma de regulamentação, no ramo do artesanato, desenvolvido pelos peruanos em Manaus, a situação não é muito diferente. Nesse setor funciona um esquema de arregimentação de trabalhadores semelhante ao utilizado pelos bolivianos e paraguaios no contexto das oficinas de costura em São Paulo; eles são trazidos por seus compatriotas com promessas de que na cidade é possível ganhar muito dinheiro (SILVA, 2008).

É o que aconteceu com Gustavo, peruano de 33 anos, há seis anos em Manaus. Em Tabatinga ele conheceu uma peruana que o levou para a capital amazonense a fim de trabalhar na produção de artesanato. Segundo Gustavo, ele trabalhou para essa senhora durante três anos, dia e noite. Às vezes ela lhe dava algum dinheiro no fim de semana, mas não pagava o correspondente ao que ele produzia durante o mês, alegando que os compradores não lhe pagavam pela mercadoria entregue. Desconfiado, um dia Gustavo seguiu a mulher, foi até onde ela vendia os produtos e perguntou ao comprador se ele lhe pagava; comprovou que sim. Tentando fazer valer seus direitos, confrontou a senhora, que ficou irritada e o mandou embora. Hoje Gustavo trabalha na barraca de sua nova esposa, uma brasileira, já que no Peru era casado e pai de três filhos. Ele mesmo produz algumas das mercadorias que estão à venda, outras são compradas no mercado local e apenas revendidas. Apesar da dura experiência vivida por Gustavo, a avaliação que faz de Manaus é positiva, pois, segundo ele, "aqui não trabalha quem não quer; tudo o que se faz se vende".

A mesma representação da cidade como um lugar de oportunidades é feita por Francisco, peruano de 39 anos, original de Iquitos e com ensino médio completo. Ele vive há quatro anos em Manaus, mas, antes de chegar à capital, viveu um ano em Tabatinga, onde vendia produtos hortifrutigranjeiros trazidos do Peru. Depois, mudou-se para Tefé, no Alto Solimões, onde trabalhava como comerciante de roupas e outros produtos industrializados. Lá casou-se com uma brasileira e teve um filho, o que lhe possibilitou requerer a permanência no Brasil em 2001. Em 2004, Francisco mudou-se para Manaus, com o documento abriu uma firma e agora importa produtos de outros estados brasileiros para revender na cidade. Segundo Francisco, valeu a pena ter ido para Manaus, pois tudo melhorou e há mais oportunidades, sobretudo para quem chega à cidade com algum recurso econômico, o que foi seu caso.

Já para os que não dispõem de recursos econômicos, mas possuem algum "capital cultural", as possibilidades de inserção no mercado de trabalho local podem ser reais. É o caso de Jorge, colombiano formado em engenharia que por razões políticas teve que deixar seu país juntamente com a esposa e três filhas. Vivendo há pouco mais de dois anos em Manaus, a forma que encontrou para sobreviver no novo contexto foi dar aulas de espanhol e inglês. A atividade laboral escolhida deu certo e, por essa razão, Jorge pretende abrir uma escola de idiomas na cidade, já que suas filhas também ensinam línguas.

Para quem não tem capital econômico nem cultural e não dispõe do documento de permanência no país, as possibilidades de inserção no mercado de trabalho local são, em geral, as mesmas oferecidas aos migrantes internos sem qualificação, isto é, o trabalho doméstico para as mulheres e os chamados "bicos" para os homens, entre eles a atividade de camelô.

É o que aconteceu com Carmen, peruana de 38 anos com ensino médio completo e original de Cuzco. Como tantos outros, ela entrou com os três filhos por Tabatinga, onde permaneceu por um ano para aprender o português. Depois viajou até Manaus, onde começou trabalhando como faxineira. Atualmente trabalha em um restaurante peruano no centro da cidade. Carmen desabafa: "Es difícil trabajar aquí sin tener documentos.''" Apesar das dificuldades pelas quais passa, Carmen afirma que valeu a pena ter ido para Manaus, pois, segundo ela, a cidade oferece mais oportunidades, sobretudo para quem pretende estudar, o que em seu país é muito caro. Para ela o Brasil é um país adiantado no que se refere à ciência e à tecnologia e, por isso, um de seus sonhos é que seus filhos sejam bons profissionais quando terminarem a universidade. Outro é fazer um curso de pedagogia quando obtiver o visto de permanência no país.

O direcionamento da mulher para setores específicos do mercado de trabalho, como o serviço doméstico, o setor de gastronomia, o cuidado de pessoas idosas ou de crianças, ou ainda o ramo da costura, caso estudado por Silva (1997, 2008) em São Paulo, contribui também para uma inserção mais rápida no novo contexto. Nesses casos, o grande problema enfrentado por todo imigrante desprovido de recursos, a moradia, passa a ser um desafio que terá que ser enfrentado ou postergado para um momento posterior. Contudo, é bom lembrar que o fato de se conjugar o lugar de moradia com o de trabalho contribui sobremaneira para aumentar a dominação dos patrões sobre os empregados. Situação diferente é a enfrentada pelos que vêm em busca de aperfeiçoamento profissional em alguma universidade brasileira. Nesse caso, o fato de terem uma bolsa de estudos possibilita-lhes resolver os problemas básicos de infraestrutura.

Outros problemas apontados pelas mulheres colombianas e peruanas, os quais não são enfrentados da mesma forma por todas elas, são as dificuldades de comunicação e de documentação. Quanto à primeira, aquelas que pertencem às camadas sociais mais baixas não dispõem de nenhum conhecimento da língua portuguesa, ao contrário das que vêm ao Brasil para estudar. Já com relação à documentação, grande parte das colombianas entra no país com o visto de turista e depois permanece na condição de indocumentada, até que uma nova anistia resolva seus problemas de documentação. No caso das estudantes, um visto específico, com a duração de dois anos, é solicitado, podendo ser renovado.

Além do aprendizado da língua, o processo de inserção em um novo contexto sociocultural requer dessas mulheres mudanças visuais, ou seja, a adaptação aos padrões locais de vestimenta, já que as que vieram de pequenas cidades ou do meio rural se vestiam, segundo elas, "de forma mais recatada". Nessa perspectiva, é inevitável a comparação com o modo de vestir-se da mulher brasileira, particularmente da manauara, cuja imagem generalizada é a de uma mulher mais "liberal" do que a colombiana ou peruana. Entretanto, essa percepção é diferente dependendo do nível de formação e da condição social, uma vez que a imagem da brasileira veiculada pela mídia é, em geral, de cunho sexista e relacionada a uma demanda do mercado internacional do sexo (PISCITELLI, 2009). É com base nesse estereótipo que as diferenças entre a mulher brasileira e a hispano-americana são definidas. Enquanto esta estaria mais voltada para a família e para os deveres do lar, aquela estaria mais aberta às exigências do mercado de trabalho e aos arranjos amorosos/sexuais. Entretanto, no contexto migratório, a mulher em geral é obrigada a assumir o lugar de chefe de família, sendo responsável por sua organização e manutenção, como constatamos no caso das colombianas e peruanas que emigraram com os filhos, ou no caso daquelas que formaram família no Brasil e se separaram do marido. Para essas mulheres o desafio é ainda maior, pois o grande problema é conseguir um lugar para deixar os filhos enquanto trabalham fora.

A preocupação com a sobrevivência, com o aperfeiçoamento profissional, com a estabilidade ou simplesmente com o desejo de desfrutar a vida acaba interferindo nas relações amorosas dessas mulheres, como afirmou Claudia, colombiana de 25 anos, solteira e estudante: "Minha vida passou a ser uma preocupação com o presente imediato"; ela está fazendo um curso de línguas para trabalhar como professora de idiomas, de olho nas demandas que a realização da Copa de 2014 poderá ensejar. Já no caso de Flor, uma colombiana de 44 anos, médica e recentemente separada de um brasileiro, a principal preocupação no momento é cuidar do filho mais jovem, que requer cuidados especiais. Segundo ela, a possibilidade de outro relacionamento não estaria descartada, porém a prioridade passou a ser outra. Se para algumas mulheres novos relacionamentos podem ser protelados em razão de necessidades mais urgentes, para outras essa possibilidade estaria descartada, pelo menos com a finalidade de formar uma nova família, como é o caso de Sandra, peruana de 42 anos, servidora doméstica que não pretende se casar, pois para ela "los hombres son todos iguales".

Se, por um lado, existe uma percepção generalizada do machismo latino-americano, por outro, no entender das mulheres entrevistadas, existem algumas diferenciações, sobretudo quando se compara o homem brasileiro ao homem colombiano e peruano. De modo geral, a imagem que se tem é a de que o brasileiro é mais aberto, mais carinhoso e festivo, em contraposição ao peruano e ao colombiano, que seriam mais machistas e tradicionalistas e considerariam que o lugar da mulher estaria circunscrito ao contexto da casa (DA MATTA, 1981). Contudo, é preciso relativizar essa percepção estereotipada, pois se por um lado o brasileiro é mais aberto com relação às formas de se relacionar com a mulher, por outro, é visto também como "safado", como alguém que gosta de ter várias mulheres ao mesmo tempo. Nessa perspectiva, é possível verificar também uma diferenciação cultural entre os homens brasileiros, pois para Claudia o amazonense é diferente do paulista ou do carioca. Quando perguntada se teria um relacionamento com um amazonense, ela respondeu: "Ah! Isso é outra coisa." Em sua opinião, o manauara não gosta muito de trabalhar e vê as mulheres como meras procriadoras e donas de casa. Já o colombiano, segundo ela, tem outros valores, inclusive muita vontade de superação, valor, aliás, constatável em qualquer grupo de migrantes, já que todos emigram com o propósito de vencer. Outro diferencial seria a gentileza, valor mencionado por colombianas de diferentes extratos sociais. Para Ana, por exemplo, o homem brasileiro não é capaz de lavar a roupa íntima da esposa, mas ela lava a dele; ou, ainda, não tem a gentileza de estender-lhe a mão quando ela quer sair do carro.

O que se observa é que, da mesma forma que se constrói uma imagem idealizada do lugar para onde se imigra, o mesmo acontece com as relações de gênero, pois o homem "nativo" é sempre visto como ideal para um novo relacionamento, ou seja, o exótico é sempre mais interessante do que o familiar e, portanto, também mais fácil de "domesticar".

Na verdade, em um novo contexto, as chances de essas mulheres se relacionarem com homens fora de seu grupo de imigrantes diminuem, seja pelas diferenças socioculturais, seja pelo preconceito atribuído de forma generalizada a todo o grupo, por serem oriundas de países estigmatizados pela questão do narcotráfico, seja ainda por questões étnico-raciais, como é o caso das peruanas originárias da região amazônica, cujos traços indígenas são marcantes. Pode-se dizer o mesmo das colombianas oriundas da costa oeste daquele país, onde há uma presença significativa de afrodescendentes. É o que observou Ana, colombiana e professora universitária: "Aqui (Brasil) é muito mais gritante, agressivo, porque eu estou na condição de mulher negra e estrangeira (colombiana). Por mais que você queira provar que os colombianos também são pessoas de bem, você sempre tem que estar provando que você é boa na profissão que exerce."

Com relação ao preconceito, ela observou que, às vezes, ele se torna agressivo, pois, segundo Ana, quando chega a algum lugar lhe perguntam: "'Você é de onde?' Eu fico calada. 'Ah, você é da terra de Pablo Escobar, tem violência, não sei o quê...' Eu fico irritada e faço um contraponto. Nas favelas do Rio de Janeiro quantos morrem em relação ao meu país?" Já com relação ao preconceito racial, a mesma entrevistada assim se expressou: "Um dia subi em um ônibus e uma pessoa sentou-se do meu lado e me perguntou: 'Você é de onde?' Eu disse: 'Da Colômbia'. Então ela me disse: 'Ah, você está trabalhando de empregada doméstica nesse conjunto habitacional!'" Nesse caso fica evidente que o preconceito de marca, como aponta Nogueira (1985), lhe atribui um lugar social no mercado de trabalho brasileiro, cujas marcas da experiência escravocrata ainda não foram apagadas.

Contudo, é bom lembrar que, se essas mulheres enfrentam preconceitos no contexto brasileiro, no país de origem a situação não é diferente, sobretudo no que diz respeito a sua condição de gênero, origem étnica e social, cujos preconceitos são reproduzidos dentro do próprio grupo no novo contexto em que estão inseridas. Isso incide na rede de relações sociais, fazendo com que as relações com os próprios compatriotas sejam limitadas e permeadas por estranhamentos. Indagada se tinha amigos dentro do próprio grupo de imigrantes, a maioria afirmou que conhece poucos compatriotas. O mesmo se reflete em outros grupos de imigrantes, pois parece haver certa evitação entre colombianos e peruanos, questão esta que deve ser entendida a partir de um contexto mais amplo de disputas históricas, seja por questões políticas, seja pela conquista de territórios fronteiriços no final do século XIX (SILVA, 2010). No dia a dia, o que se observa é que o preconceito está presente nas falas de ambas as partes, pois, se os peruanos são vistos pelos colombianos como pessoas "pouco honestas", estes, por sua vez, são vistos por aqueles como pessoas possivelmente envolvidas com o "tráfico" ou com a "guerrilha".

Apesar das dificuldades enfrentadas pelas colombianas e peruanas em Manaus, a maioria afirmou que não pretende retornar ao país de origem, por uma simples razão: o Brasil, e particularmente Manaus, continua sendo o lugar das oportunidades de emprego e de aperfeiçoamento profissional, em especial para quem apresenta um nível de formação mais elevado, como explicitou Ana: "Em 2000 eu queria voltar definitivamente, mas quando voltei para saber como seria, vários de meus colegas já tinham ido embora. Então, isso me desmotivou. Tenho uma vida constituída aqui, já fiz um caminho. Se eu voltar para a Colômbia terei que começar do zero." Isso não significa que os vínculos com o lugar de origem são rompidos. A maioria das entrevistadas afirmou manter algum tipo de contato com a família ou parentes em seu país. As formas mais comuns de contato apontadas por elas são o telefone e a internet. Algumas voltam apenas para visitá-los, ainda que de forma esporádica. Outro exemplo da permanência desses vínculos é o envio de ajuda econômica aos que lá ficaram, cujo desdobramento pode ser a emigração de todo o grupo familiar, desejo expresso por algumas delas, particularmente as que estão em uma condição econômica menos favorável.

A questão que se coloca para todo imigrante, como afirma Sayad (2000), é que o retorno é um elemento constitutivo da condição do (i)migrante, pois quando ele não se fizer mais presente como uma possibilidade, tal condição deixará de existir, uma vez que ninguém é imigrante sem ser também emigrante, ou seja, é preciso conviver sempre com uma dupla ausência: viver em um lugar sem ser do local, e desejar voltar sem regressar definitivamente.

Contudo, os laços com o Brasil poderão se consolidar na medida em que peruanas e colombianas forem capazes de estabelecer relações amorosas/sexuais dentro do próprio grupo de imigrantes, o que parece ser uma tendência, ou fora dele. O problema é que, para elas romperem a endogamia, será necessário, por um lado, romper com as diferenças culturais que podem limitar as chances de um relacionamento com homens brasileiros e, por outro, negociar continuamente uma identidade positiva, em razão dos preconceitos que lhes são atribuídos, seja pela condição de mulheres estrangeiras, seja por serem oriundas de países considerados pobres, marcados pela violência, pelo tráfico de drogas e com raízes etnoculturais indígenas ou africanas. Seja como for, é preciso investigar melhor para podermos aferir até que ponto o preconceito opera na dinâmica relacional dessas mulheres.

 

Os artifícios do estigma e a reconstrução de identidades

A migração, em seu caráter multifacetado, enseja inevitavelmente conflitos e estranhamentos, pois coloca face a face diferentes grupos étnicos e culturas, que passam a reivindicar em um novo contexto a legitimidade e a especificidade de suas diferenças. Nessa perspectiva, atitudes etnocêntricas são tidas como "normais", pois toda cultura, no confronto com outras, reivindica para si sua singularidade. O problema é quando o etnocentrismo extrapola os limites da tolerância, transformando a convivência humana em algo inviável. Nesse caso, a única via possível é a eliminação do outro. Esse fenômeno, denominado xenofobia, vem ganhando expressão política nos mais diferentes contextos e se manifesta de forma contundente contra os migrantes, em geral os mais pobres. Exemplos dessa triste realidade se multiplicam pelo mundo afora, seja nos Estados Unidos, por meio da aprovação de leis que criminalizam os indocumentados ou de milícias que se formam por sua própria iniciativa para defender a extensa fronteira com o México, seja no Brasil, por meio de manifestações racistas contra bolivianos e seus filhos, bem como contra nordestinos em São Paulo.

As formas de representação das diferenças, sejam elas étnicas, culturais, de gênero ou religiosas, no mundo contemporâneo nos remetem ao tema da identidade. A adoção desse conceito nos estudos da imigração a partir dos anos 1970, partindo, em um primeiro momento, de uma crítica aos estudos ancorados na teoria da assimilação/aculturação/absorção, significou novas possibilidades de análise da pluralidade cultural ou étnica, seja das migrações históricas, seja das mais recentes, como é o fenômeno da emigração brasileira desde a década de 1980 (SEYFERTH, 2007, p. 15).

Com a incorporação das contribuições de Barth (1976) sobre os grupos étnicos e suas fronteiras, os estudos sobre as identidades ganharam uma nova direção no contexto brasileiro, pois as diferenças culturais e étnicas passaram a ser vistas não mais como atavismos, mas como elementos diacríticos de identidades, que, como representação simbólica, são construídas e ressignificadas continuamente, dependendo do contexto histórico e político em que são veiculadas. Nessa perspectiva, vale notar as contribuições de Roberto Cardoso de Oliveira (1976), que já no final dos anos 1960 apontava caminhos para pensar as relações entre indígenas e sociedade nacional, em um contexto de mudanças socioeconômicas e políticas denominado por ele de "fricção interétnica".

No contexto em que estamos focando, as abordagens de Bauman (2005) e Hall (2006) parecem vir ao encontro de nossas inquietações, pois a experiência da migração enseja um estado permanente de insegurança e mudanças, colocando em xeque ideias como pertencimento, identidade nacional, fronteiras, cidadania, entre outras. É nesse contexto, em que "tudo o que é sólido se desmancha no ar", que a proposta de Hall parece fazer sentido, pois, para ele, a identidade pode ser entendida como uma "celebração móvel, formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam" (HALL, 2006, p. 13). Isso significa que em um contexto de permanente mudança é necessário negociar sempre uma nova imagem individual e coletiva. Daí a importância da articulação política para reconhecer-se e ser reconhecido como tal.

Em Manaus, os processos de construções identitárias apresentam algumas peculiaridades, porque, em primeiro lugar, há que se considerar a dimensão espacial e demográfica de uma cidade com mais de 1,7 milhão de habitantes, muitas vezes maior do que as cidades fronteiriças de Tabatinga e de Letícia. Tais dimensões propiciariam aos imigrantes um certo anonimato, que naquelas cidades seria muito difícil vivenciar. Em segundo lugar, por não ser uma zona de fronteira, em Manaus a tensão ensejada pelo controle da entrada e saída de pessoas, típico de uma região fronteiriça, tenderia a se diluir.

Outro fator que poderia favorecer um possível anonimato seriam as semelhanças fenotípicas de peruanos e colombianos com a população local, pois é comum constatar entre eles traços indígenas, como olhos amendoados, pela morena e cabelos escuros. Entretanto, essas semelhanças se diluem quando afloram outros elementos diferenciadores, como é o caso do idioma e, junto com ele, a nacionalidade, pois há uma percepção generalizada em Manaus de que todo imigrante hispânico se transforma em "colombiano", com toda a carga negativa que essa identidade representa, independentemente de qual seja sua verdadeira origem.2 Assim, para o senso comum, "colombiano" é sinônimo de "traficante", até que se prove o contrário, como ressaltou Jorge, colombiano que vive em Manaus há dezesseis anos. Segundo ele, essa forma de identificação é generalizada entre os manauaras e atinge a todos os seus compatriotas, independentemente de sua condição social. Apesar dos constrangimentos decorrentes dessa visão estigmatizante e generalizada dos colombianos na cidade, ele não nega sua origem e faz questão de reafirmá-la, já que está documentado e é dono de um pequeno negócio.

É preciso balizar, contudo, que a percepção do preconceito é diferenciada dependendo do contexto e da condição social. É evidente que os profissionais liberais que vivem em Manaus não são atingidos pelos preconceitos da mesma forma que um peruano ou um colombiano pobre que trabalha como camelô, atividade que geraria a suspeita de que ele poderia estar vendendo algo de origem duvidosa. Vale notar, porém, que em Tabatinga, região da Tríplice Fronteira onde a presença peruana é expressiva e visível, o preconceito em relação a eles é mais forte e explícito, pois lá brasileiros e colombianos se unem para acusálos de tudo o que acontece de ruim no lugar (SILVA, 2008, p. 43). Além disso, o preconceito na fronteira tem implicações étnicoculturais, pois os peruanos são identificados como "personas de la sierra", ou seja, camponeses e indígenas. Um exemplo disso é a reação de uma artesã nascida no Brasil, porém filha de pais peruanos. Quando lhe perguntei se ela era peruana, respondeu-me enfaticamente: "Sou brasileira, graças a Deus. O pessoal me chama de peruana porque falo espanhol."

Quando indagados sobre quais seriam os imigrantes mais discriminados em Manaus, a maioria dos peruanos entrevistados afirmou que seriam os colombianos, em razão de sua relação com a imagem estigmatizada da Colômbia veiculada nos meios de comunicação local, imagem esta resultante do problema do tráfico de drogas e da situação de violência gerada pela guerrilha e por outros grupos armados atuantes no país. Assim, para os colombianos entrevistados, a acusação se inverte. Para eles os peruanos seriam os mais discriminados, em razão de seu baixo nível sociocultural e por não serem confiáveis quando se trata de negócios.

Na verdade, essa acusação mútua faz parte do jogo identitário, pois em um contexto no qual ambos são igualmente discriminados pelos brasileiros, em maior ou menor grau, cada grupo assume uma estratégia de contra-ataque, com o objetivo de veicular uma nova imagem de si mesmo e do grupo como um todo. Entre as estratégias adotadas por cada grupo, destacamos a veiculação de elementos diacríticos da cultura de cada país, como a gastronomia, a música, as danças, a religiosidade, entre outros. No caso peruano, dois elementos aparecem com grande visibilidade: a gastronomia e a música, particularmente a da Região Andina.

No centro histórico de Manaus, há dois restaurantes onde é possível saborear pratos de várias regiões do Peru.3 Em um deles, o Tres Fronteras, é possível encontrar também produtos industrializados e artesanato peruano. Já o outro, o Dona Yolanda, tem um aspecto mais discreto e "familiar", já que não ostenta nenhuma placa indicativa de sua existência para quem passa na rua e funciona na parte inferior da casa da proprietária. Além dos pratos peruanos, oferece também alternativas no cardápio para quem não é do país. Há na cidade pelo menos três grupos musicais, o Salazar, o Tati Corazón Latino e o Kantu. Os dois primeiros tocam ritmos regionais do Peru e outros ritmos conhecidos na América Latina, como a cúmbia, a salsa e o bolero. Já o terceiro divulga mais a música andina e instrumental peruana e prefere tocar em eventos e não em praças, como os outros dois.

Um dos momentos de encontro e de maior visibilidade dos peruanos é a celebração do dia da sua independência, comemorada em 28 de julho. A festa social é organizada pela senhora Belma, uma peruana que vive na cidade há vários anos e, segundo ela, não conta com o apoio de seu consulado. Vale notar que o local escolhido para a festa, a sede social do Clube Atlético Rio Negro, localizado no centro da cidade, também lhe confere significados. Nessa perspectiva, a escolha do local não é aleatória, uma vez que o clube era frequentado pela elite manauara, que organizava no local bailes de gala, como nos tempos da Belle Epoque. Outro detalhe que merece ser destacado é o nome atribuído à festividade: confraternidad latinoamericana, que busca sobretudo um canal de diálogo com o contexto local, pois a presença de brasileiros na festa costuma ser significativa.4

Outro momento de afirmação identitária é a festa religiosa em louvor ao Senhor dos Milagres, realizada no último fim semana de outubro na Igreja São Geraldo, uma das sedes da Pastoral do Migrante em Manaus. Essa devoção ao "Cristo moreno", como é chamada no Peru, surgiu em Lima, em uma zona chamada Pachacamilla, onde no século XVII se formou uma confraria de negros. Segundo a tradição, um escravo teria pintado a imagem do Cristo crucificado em uma parede de adobe, que permaneceu intacta após o terremoto de 1655. Contudo, foi somente após a atividade sísmica de 1746, que teria sido a mais intensa em Lima, que a devoção ao Cristo "Morado" (referência à cor roxa) passou a ser uma das festas mais importantes do catolicismo popular peruano, que no exterior reúne os imigrantes em torno de um sentimento de pertencimento comum, ou seja, "uma necessidade de integração enquanto peruanos" (DIEZ CANSECO, 1992, p 159-160). Trata-se, portanto, de uma festa que celebra a memória de tradições culturais indígenas, africanas e hispânicas, sendo que estas parecem ter triunfado sobre aquelas, tidas pelo conquistador como idolátricas, já que o culto ao Cristo moreno suplantou o culto à deidade andina, denominada Pachacamac, a quem os indígenas recorriam quando eram acometidos por algum temor.

Vale notar alguns elementos culturais que são veiculados nessa festa, os quais passam a ser diacríticos das identidades veiculadas em um novo contexto, como a cor "morada", lembrando a paixão de Cristo, presente nos adornos e na vestimenta dos devotos que acompanham a procissão; as comidas, como o ceviche (peixe cru temperado com limão, cebola, pimentão amarelo e vermelho), o lomo saltado (carne de vaca fatiada com batata frita); as bebidas, como a chicha morada (bebida doce feita com farinha de milho roxo), o pisco sauer (bebida destilada de uva com limão, açúcar e clara de ovo) e o refrigerante de cor amarela Inca Kola; e, por fim, a música com ritmos andinos e latinos para animar a festa.

Se entre os peruanos a busca de uma maior visibilidade e de um canal de diálogo com o contexto local é mais perceptível, entre os colombianos esse processo parece ser mais recente. Na cidade, há dois locais de encontro para a comunidade colombiana: o bar e restaurante La Finca, localizado no bairro D. Pedro, na Zona Oeste, e o restaurante La Fonda Paisa, no centro histórico da cidade. Este último oferece refeições para colombianos e também para brasileiros durante a semana, mas com tempero colombiano. Segundo o seu proprietário, a maioria aprova o sabor, mas há aqueles que evitam o local quando descobrem que ele fala castelhano. Já aquele é uma pequena chácara arborizada com coqueiros, de onde vem o nome do espaço, ou seja, um lugar que lembra o campo. Lá, debaixo de uma pequena cobertura de telha de amianto contígua à casa do dono do negócio, são oferecidos pratos da Colômbia, como o sancocho (ensopado de vários tipos de carne e legumes), a arepa (empanada de farinha de milho pré-cozida), o lechón recheado, tamales (prato encontrado em vários países latinos e que, na versão colombiana, é feito de arroz com frango ou carne bovina, encoberto com uma massa de farinha de milho e envolto em uma folha de bananeira para o cozimento), entre outros. Enquanto se degusta algo, é possível assistir a um DVD que apresenta danças e ritmos regionais do país, como o vallenato. Às sextas-feiras há música ao vivo para dançar; às vezes, o baile é animado por uma cantora peruana. Vale notar que nesse restaurante são vendidos também pratos peruanos, como o ceviche.

O fato de um restaurante colombiano estar aberto a peruanos e outros imigrantes sugere algumas considerações. Em primeiro lugar, vender comidas de outro país hispânico poderia ser apenas uma estratégia de mercado em busca de clientes, já que se trata de uma atividade econômica como qualquer outra. Em segundo, poderia ser uma proposta de integração entre esses imigrantes, já que em Manaus todos são igualmente estrangeiros e podem enfrentar diferentes formas de preconceitos. Em terceiro, poderia ser também uma forma de diluir os preconceitos dos brasileiros em relação a eles, pois o lugar não seria destinado apenas a colombianos, fato que os tornaria mais visíveis e sujeitos aos preconceitos, mas a latino-americanos, inclusive brasileiros.

A pouca participação de colombianos em alguns momentos festivos celebrados no restaurante La Finca, como é o caso da data da independência da Colômbia (20 de julho), ou em outros locais, como a Pastoral do Migrante, pode revelar que a desconfiança entre eles é uma questão a ser considerada, pois um compatriota pode ser também um delator em razão dos possíveis envolvimentos políticos no país de origem. Daí que o anonimato parece ser a melhor estratégia adotada por esses imigrantes, já que, além dessas complicações, há que se enfrentar também o estigma de ser considerado um possível "traficante".

Cabe perguntar, portanto, se os problemas de organização enfrentados tanto pelos peruanos quanto pelos colombianos em Manaus, bem como os preconceitos que lhes são atribuídos pelos manauaras de forma generalizada, teriam alguma influência em suas trajetórias de mobilidade econômica e social na cidade. Se, em um primeiro momento, os possíveis estranhamentos são comuns na inserção de qualquer imigrante em um novo contexto, em outro, tudo pode ser distinto, desde que o grupo se organize e seja reconhecido na cidade.

Apesar das situações adversas enfrentadas por muitos deles, o Brasil continua sendo o país das oportunidades e de múltiplas possibilidades de mobilidade econômica e social. É o que afirmou Juan, colombiano formado em engenharia que dá aulas de inglês e espanhol em Manaus. Ele pretende abrir uma escola de idiomas, tendo em vista a demanda que haverá em razão de a cidade ter sido escolhida para ser uma das sedes do mundial de futebol em 2014. E para realizar esse sonho ele já está se preparando, fazendo um curso nessa área na Universidade Federal do Amazonas. Além da preparação profissional, Juan acaba de dar entrada no pedido de permanência no país com base na lei de anistia concedida pelo governo brasileiro a todos os que se encontravam indocumentados no Brasil até fevereiro de 2009. Com isso, ele passa da condição de estrangeiro à de imigrante, e deveria gozar dos mesmos direitos concedidos aos nacionais. Entretanto, transformar a cidadania "regulada" em cidadania plena é outro desafio a ser enfrentado por eles, além da reconstrução de suas identidades.

O problema é que a desconstrução dos preconceitos atribuídos a esses imigrantes parece estar relegada a um futuro mais distante, já que depende em parte de ações que envolvem outras esferas, como é o caso dos acordos políticos e econômicos entre os países que compõem a Tríplice Fronteira. No caso do Brasil e do Peru, acordos bilaterais têm avançado no âmbito econômico, já que esses países pretendem construir um corredor de escoamento de mercadorias do Amazonas ao Pacífico através da rodovia Transoceânica. Já no caso colombiano, as relações bilaterais parecem mais complicadas em razão dos acordos de cooperação militar entre a Colômbia e os Estados Unidos, o que gera preocupação entre as nações vizinhas, particularmente o Brasil.

No interior da comunidade, o que se verifica é a ausência de uma organização capaz de reuni-los em torno de objetivos comuns. Há, contudo, iniciativas isoladas de grupos que se reúnem para festejar o dia da Pátria ou realizar festas religiosas no espaço privado ou no âmbito da Pastoral do Migrante. Vale notar que essa organização, uma iniciativa da Igreja Católica voltada para a promoção social, cultural e religiosa dos migrantes, também tem dificuldades para congregá-los, mesmo oferecendo dois lugares de encontro na cidade, um no centro histórico (Igreja Nossa Senhora dos Remédios) e outro no bairro da Chapada (Igreja São Geraldo). Descartadas essas possibilidades, a percepção de alguns imigrantes é a de que a maioria está relegada à própria sorte, como disse Francisco em tom jocoso: "Cada quien danza con su pañuelo." Todavia, do ponto de vista dos grupos culturais existentes na cidade, a percepção parecer ser outra. Verificamos que redes de sociabilidades são acionadas em diferentes momentos, seja para celebrar as identidades nacionais, culturais e étnicas, seja simplesmente para festejar o aniversário de um compatriota, motivo suficiente para reafirmar os vínculos de pertencimentos com a pátria de origem ou com aquela que lhes dá o pão e mantém viva a esperança de dias melhores.

 

Notas

1 Nessa anistia foram regularizados cerca de 43 mil imigrantes em todo o país. Os bolivianos ocuparam o primeiro lugar, com 16.881 pedidos, seguidos pelos chineses, com 5.492, pelos peruanos, com 4.642, pelos paraguaios, com 4.135, e pelos coreanos, com 1.129.

2 Situação análoga acontece em São Paulo; porém, nesse contexto os peruanos são identificados como bolivianos, dada a exposição frequente desses imigrantes na mídia paulistana em razão dos problemas relacionados à situação laboral nas oficinas de costura. Tal fato incomoda esse grupo de imigrantes, visto que a imagem dos peruanos veiculada na mídia local é negativa, relacionando-os à prática de atividades ilícitas.

3 Em São Paulo o grupo tem adotado a mesma estratégia: conquistar o paladar dos paulistanos oferecendo-lhes bons restaurantes, localizados sobretudo em bairros nobres da cidade, como é o caso do La Mar e do Nipo-peruano, no Itaim; do Sabor Peruano, na Vila Madalena; do Salero, nos Jardins; do Killa, em Perdizes; e do Roky's, em Moema.

4 Vale lembrar que na região da Tríplice Fronteira entre o Brasil, o Peru e a Colômbia existe uma festa chamada Confraternidad Amazônica, celebrada no final de julho em Letícia, cidade colombiana contígua a Tabatinga (AM). Na festa são apresentadas danças típicas dos três países e no último dia é escolhida a señorita confraternidad, a jovem mais bonita da região, cuja missão é promover a integração entre os amazônidas, em uma fronteira marcada pela violência em razão do tráfico de drogas.

 

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Artigo recebido em 28 de janeiro de 2011 e aprovado para publicação em 25 de julho de 2011.