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Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650

Acta Cir. Bras. vol.12 no.2 São Paulo Apr./May/June 1997

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86501997000200010 

10 – ARTIGO ORIGINAL

 

Técnica para produção de criptorquia experimental em ratos1

 

Technique for experimental cryptorchidism in rats

 

 

Elaine AlvesI; Carlos RangelII; Alexandre GarciaII; Maurícia CammarotaIII; Paulo TubinoIV

IProfessora Adjunta de Cirurgia Pediátrica da UnB. Doutora em Medicina pelo Curso de Pós-Graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Escola Paulista de Medicina - Universidade Federal de São Paulo
IIMédicos formados pela UnB
IIIMédica-Residente de Cirurgia Geral do Hospital de Base de Brasília
IVProfessor Titular de Cirurgia Pediátrica da UnB. Chefe do Centro de Clínicas de Pediatria Cirúrgica do HUB-UnB. FACS. Livre-Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Foram utilizados 18 ratos machos albinos Wistar, divididos em dois grupos de acordo com a idade e a época do sacrifício. Todos foram submetidos ao fechamento do ânulo inguinal superficial esquerdo para a produção de criptorquia experimental. Os animais de ambos os grupos sobreviveram ao procedimento e foram sacrificados no 30º. e no 60º. dias de pós-operatório. Todos apresentavam o testículo esquerdo retido.

Descritores: Testículos. Criptorquismo experimental.


SUMMARY

Eighteen albine Wistar rats were used, divided in two groups according to the age and the time of sacrifice. In all of then we have been closed the left superficial inguinal ring, with the goal of producing experimental cryptorchidism. All rats survived and were sacrifyed on the 30th  and on 60th postoperative day. In  all cases the left testis were inside the inguinal canal.

Headings: Testis. Experimental cryptorchidism.


 

 

INTRODUÇÃO

A criptorquia é uma patologia congênita freqüente, incidindo em cerca de 0,8% a 1% da população masculina.8 Sua etiologia é complexa, multifatorial e ainda não completamente compreendida.

Experimentalmente, a produção de criptorquia uni ou bilateral tem sido utilizada para provocar alterações histológicas, tanto no testículo retido quanto no tópico.

O objetivo deste trabalho é propor uma técnica de execução simples, eficaz, capaz de preservar a morfologia do testículo retido e que possa ser realizada em animais com poucos dias de vida.

 

MÉTODO

Foram utilizados 18 ratos machos Wistar (Rattus norvegicus albinus), fornecidos pelo Biotério Central da Universidade de Brasília, com idade variando entre nove dias e 60 dias de vida e pesando entre 10 g e 350 g.

Os animais foram divididos em dois grupos:

  • Grupo A - Seis ratos com 60 dias de vida, sacrificados aos 30 dias de pós-operatório.
  • Grupo B - 12 ratos com nove dias de vida, que foram subdividos em dois subgrupos: 
    • B1 - Seis ratos sacrificados aos 30 dias do experimento;
    • B2 - Seis ratos sacrificados aos 60 dias de pós-operatório.

    Os animais foram mantidos em gaiolas de plástico, forradas com serragem, recebendo ração comercial · e água ad libitum. Os lactentes permaneceram com suas mães até o desmame.

    Todos os animais foram submetidos a procedimento cirúrgico que constou de:

    ⇒ Anestesia inalatória com éter sulfúrico administrado, inicialmente, sob máscara e mantida sob máscara;

    ⇒ Colocação dos ratos em decúbito dorsal, tricotomia do local a ser operado e antissepsia com solução de álcool iodado a 2%;

    ⇒ Delimitação da área operatória com campo esterilizado fenestrado;

    ⇒ Incisão transversa paraumbilical esquerda, medindo 0,8 cm no grupo A e 0,5 cm no grupo B;

    ⇒ Acesso ao ânulo superficial do canal inguinal por túnel confeccionado entre o tecido subcutâneo e o músculo oblíquo externo (Fig. 1);

     

     

    ⇒ Fechamento do ânulo inguinal superficial com dois pontos separados, usando-se fio monofilamentado de náilon 5-0 (Figs. 2 e 3). No grupo A, os pontos foram dados após a redução do testículo para a cavidade abdominal;

     

     

     

    ⇒ Sutura da pele com pontos separados e invertidos com categute simples 5-0 (Figs. 4 e 5).

     

     

     

    Os testículos do lado direito não foram operados, sendo mantidos para controle.

    Os animais foram sacrificados por inalação de éter em câmara fechada. Após verificação da situação de ambas as gônadas, os testículos foram retirados e fixados em líquido de BOUIN e, posteriormente, processados pelos métodos usuais de histopatologia e incluídos em parafina. Foram obtidos cortes com cinco micra de espessura, corados pela hematoxilina-eosina e analisados em microscópio óptico.

     

    RESULTADOS

    Não houve óbitos até o dia do sacrifício. Todos os animais apresentavam o testículo esquerdo retido, sendo possível a identificação dos pontos de fechamento do ânulo inguinal superficial. O testículo direito estava tópico (Fig. 6).

     

     

    Nos ratos dos grupos A e B2, todos os testículos retidos apresentavam tamanho nitidamente menor do que o dos testículos tópicos (Fig. 7). Essa diferença não foi observada no grupo B1.

     

     

    Histologicamente, nos grupos A e B2, os testículos retidos evidenciavam atrofia tubular e ausência de espermatozóides na luz tubular (Fig. 8 A e B). No grupo B1 não houve diferença entre os testículos tópico e retido, que eram normais para a idade.

     


     

    DISCUSSÃO

    Desde os estudos iniciais sobre a descida testicular, feitos por HUNTER no século XVIII5, que se tem observado a natureza degenerativa do testículo retido. A criptorquia unilateral está freqüentemente associada  à infertilidade, mesmo com a presença de um testículo contralateral aparentemente normal. Em nossa experiência, em cerca de 20% dos casos, o testículo tópico contralateral apresenta alterações histológicas semelhantes ou mesmo mais graves do que as do testículo não descido.

    Mesmo hoje em dia, há dúvidas se as anormalidades do testículo escrotal são congênitas ou adquiridas. O uso de um modelo experimental de criptorquia unilateral em animal possibilita a avaliação de ambos os testículos, tanto histológica quanto funcionalmente.

    Várias técnicas têm sido utilizadas para a produção de ceriptorquia  em animais de experimentação. Porém, a secção do gubernaculum testis, realizada por QUINN, CROCKARD e BROWN (1991)6, além de requerer o uso de microscópio cirúrgico, significa a secção do nervo genitofemoral. Segundo BEASLEY e HUTSON (1988)1, a desnervação do gubernáculo suprime o efeito androgênico na diferenciação gubernacular, já que esse efeito é mediado pelo nervo. HUSMMANN, BOONE e McPHAUL (1994)3, evidenciaram que alguns fatores de crescimento parácrinos, tais como o fator de crescimento epidérmico, o fator de crescimento neurotrófico e o peptídio relacionado ao gene da calcitonina, estão sob controle androgênico e, com a secção do nervo, tendo sua produção diminuída, poderiam alterar a morfologia do próprio nervo e dos apëndices testiculares. A anatomia das regiões inguinal e escrotal também estaria comprometida. Esta poderia ser uma causa de erro na avaliação dos testículos não descidos pela secção do gubernáculo.

    O procedimento usado por SALMAN, ADKINS e FONKALSRUD (1988)7 e por KORT, HEKKIING-WEIJMA e VERMEIJ (1991)4, fixando o testículo na parede abdominal, também é questionável, uma vez que a sutura pode provocar reações nos tecidos,prejudicando a avaliação histológica. DIXON, RITCHEY, BOYKIN, HARPER, ZEIDMAN e THOMPSON (1993)2 encontraram reações inflamatórias significantes em todos os ratos pré-puberais nos quais fixaram o testículo ao dartos por meio de sutura trans-parenquimatosa, a despeito do tamanho da sutura ou do material empregado.

    O fechamento do ânulo inguinal superficial foi eficaz para a produção de criptorquia experimental, sem que houvesse necessidade de manipulação do próprio testículo (ou manipulação mínima) ou de estruturas que pudessem influenciar a maturação testicular.

    O uso de pontos invertidos e o desencontro entre a incisão cutânea e os pontos de fechamento foram motivados pela observação de que os ratos retiravam os pontos, caso não houvesse essa proteção.

     

    CONCLUSÃO

    O fechamento cirúrgico do ânulo inguinal superficial foi um procedimento rápido, sem morbidade ou mortalidade, e capaz de produzir uma retenção testicular efetiva.

     

    REFERÊNCIAS

    1. BEASLEY, S. W. & HUTSON, J. M. - The role of the gubernaculum in testicular descent.  J. Urol., 140:1191-3, 1988.         [ Links ]

    2. DIXON, T. K.; RITCHEY, M. L.; BOYKIN, W.; HARPER,B.; ZEIDMAN, E. - Transparenchymal suture fixation and testicular histology in a prepubertal rat model.  J. Urol., 149:1116-8, 1993.         [ Links ]

    3. HUSMANN, D. A.; BOONE, T. B.; McPHAUL, M. J. - Flutamide-induced  testicular  undescent  in  the  rat  is  associated  with alterations  in  genitofemoral  nerve morphology.  J. Urol., 151:509-13, 1994.         [ Links ]

    4. KORT,  W. J.;  HEKKING-WEIJMA, I.; VERMEIJ, M. - Temporary intraabdominal cryptorchidism in the weanling rat leads to irreversible azoospermia. J. Surg. Res., 51:138-42, 1991.         [ Links ]

    5. PALMER, J. F. - The works of John Hunter. London, Longman, 1837. 4v.         [ Links ]

    6. QUINN, F. M. J.; CROCKARD, A. D.; BROWN, S. - Reversal of degenerative changes in the scrotal testis after orchidopexy in experimental unilateral cryptorchidism. J. Pediatr. Surg., 26: 451-4, 1991.         [ Links ]

    7. SALMAN, T.; ADKINS, E. S.; FONKALSRUD, E. W. - Morphologic effects of unilateral cryptorchidism on the contralateral descended testis. J. Pediatr. Surg., 23:439-43, 1988.         [ Links ]

    8. SCORER, C. G. & FARRINGTON, G. H. - Congenital deformities of testis and epididymis. London, Butterworths, 1971. 203p.         [ Links ]

     

     

    Endereço para correspondência:
    Elaine Alves
    Departamento de Pediatria
    Faculdade de Ciências da Saúde
    Universidade de Brasília
    Campus Universitário - Asa Norte
    70910-900 Brasília - DF

    Data do recebimento: 05.02.97
    Data da revisão: 04.03.97
    Data de aprovação: 09.03.97

     

     

    1 Trabalho realizado no Centro de Clínicas de Pediatria Cirúrgica do Hospital Universitário de Brasília - Universidade de Brasília (HUB-UnB). Apresentado no IV Congresso Nacional de Cirurgia Experimental, realizado de 22 a 25 de novembro de 1995 em Porto Alegre, RS.
    (*) Labina; ração para camundongos, ratos e hamsters da Purina

     

     

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