SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.14 issue1EFEITOS DA RESSECÇÃO PARCIAL DA CARTILAGEM DO SEPTO NASAL NO DESENVOLVIMENTO DOS OSSOS DA FACE DE COELHOS EM CRESCIMENTOEFEITO DA RANITIDINA E DO OMEPRAZOL SOBRE O pH GÁSTRICO EM CÃES author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol. 14 n. 1 São Paulo Jan. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86501999000100002 

AUTO-TRANSPLANTAÇÃO DE OVÁRIO NA TELA SUBCUTÂNEA EM CÃES1

 

João Eduardo Schossler2
Marilaine Vistué Rios3
Marcia Regina Ilha4
Sandra Lima5

 

 

Schossler JE, Rios MV, Ilha MR, Lima S. Auto-transplantação de ovário na tela subcutânea em cães. Acta Cir Bras [serial online] 1999 Jan Mar; 14(1). Available from: URL:  http://www.scielo.br/acb.htm

RESUMO: Um segmento ovariano autólogo coletado após ovariohisterectomia sob técnica padrão de triplo pinçamento, foi implantado no subcutâneo em 11 cães fêmeas. Os animais foram posteriormente avaliados através do exame clínico, observando a manifestação de estro, atitude comportamental e monitoração do peso corporal trimestralmente durante 12 meses. O tecido ovariano implantado foi removido ao final do experimento para avaliação histopatológica. Não observou-se alteração do peso corporal significativa, sendo que todos os animais manifestaram cio, entretanto sem corrimento sanguinolento e não permitindo a aproximação do macho. Os animais mantiveram-se ativos, apresentando comportamento semelhante ao observado antes da cirurgia, constituíndo assim uma nova alternativa no controle reprodutivo de caninos.
DESCRITORES: Ovário. Cirurgia. Cães.

 

 

INTRODUÇÃO

A limitação da fertilidade dos carnívoros domésticos é um assunto de marcante interesse e discussão na última década2, sendo por idéias tradicionalistas e antropomórficas, a fêmea o alvo principal de intervenções de controle e supressão da reprodução7. Esta preocupação deve-se à crescente população de animais de estimação e de cães abandonados, problemas de fornecimento de alimento suficiente e para evitar a poluição e impedir acidentes por mordidas caninas3.

A fertilidade pode ser limitada pela contracepção, isto é, prevenção ou supressão do estro, que pode ser estabelecida cirúrgica, física ou quimicamente3. Referindo-se à procedimentos cirúrgicos, ou seja, de esterilização definitiva, existem três procedimentos de consagrada utilização, quais sejam, a ovariectomia, a histerectomia e a ovariohisterectomia.

A ovariohisterectomia é, sem dúvida, a mais rotineiramente utilizada na casuística veterinária. Esta técnica apresenta as vantagens da ovariectomia, de supressão de toda a atividade sexual, não deixando o animal sujeito à alterações uterinas, tais como a piometrite, uma afecção tão comum em pequenos animais e não muito rara em pacientes submetidos à ovariectomia somente3.

Na fêmea normal, o principal objetivo da ovariohisterectomia é a prevenção do estro, ou seja, uma esterilização eletiva11, bem como os inconvenientes deste, tais como, descarga sanguínea, atração de machos, coberturas acidentais, prenhez e filhotes indesejados9.

Como os ovários são glândulas endócrinas, sua remoção afeta o metabolismo orgânico do animal, tendo como sinais mais comuns de deficiência ovariana a obesidade e vulvite com incontinência. A obesidade pode ser controlada por uma dieta adequada e exercícios, enquanto que na vulvite com incontinência é necessária a terapia por estrógenos9. Estes fatores devem ser esclarecidos aos proprietários, para os quais, serão informações necessárias para que se considere seriamente a opção ou não pela esterilização definitiva com remoção ovariana3.

Apesar da atenção no desenvolvimento de métodos alternativos de esterilização, a ovariohisterectomia permanece consagrada como o principal procedimento para controle da população de animais de estimação4.

O auto-enxerto ovariano é sugerido por KNECHT & ARCHIBALD4 como uma alternativa à ovariectomia na cadela, pois implica na produção de hormônios ovarianos e, se empregado em associação com a histerectomia para a prevenção das desordens uterinas, poderá ser um método futuro de eleição segundo CHRISTIANSEN3.

A técnica de auto-enxerto ovariano descrita por LE ROUX & VAN DER VALT5 consiste na ovariectomia de rotina, sendo que, do ovário removido são seccionadas fatias de 1 a 2mm de espessura, implantando-as em uma alça subserosa do estômago. Os animais submetidos à auto-enxerto ovariano não apresentaram estro e puderam ser treinadas e usadas normalmente como cães de trabalho, enquanto que as ovariohisterectomizadas comportaram-se inferiormente. Moderado aumento tecidual local estava presente um ano após o procedimento de auto-enxerto na serosa estomacal5.

O aumento de volume tecidual do implante observado por LE ROUX & VAN DER VALT5 são preocupantes ao se pensar nas possíveis alterações que podem ocorrer no tecido implantado, como as tumorações. Nesta possibilidade os sintomas produzidos pelo aumento de volume seriam obstrutivos, e quando presentes, indicadores de uma grave alteração digestiva, cujo tratamento poderia exigir inclusive a gastrectomia parcial. Portanto, qualquer alteração deste tecido ovariano implantado seria de difícil diagnóstico precoce e, tardiamente, de difícil tratamento, com grande risco para o animal.

A presente pesquisa pretende observar o comportamento de caninos submetidos à auto-enxerto ovariano na tela subcutânea, quanto à manifestação de estro, peso corporal e atividade comportamental.

 

MÉTODO

Foram utilizadas 11 fêmeas da espécie canina, de porte médio, adultas, sem raça definida, clinicamente sadias e que já tivessem manifestado pelo menos um ciclo estral, sendo submetidas ao procedimento cirúrgico durante a fase de anestro.

Após jejum alimentar de 24 horas os animais foram pesados e pré-anestesiados com acepromazinaa 0,2% na dosagem de 0,2mg/kg por via intramuscular,e logo após tricotomizada a região abdominal ventral. A indução e manutenção anestésica foi feita com thiopental sódicob a 2,5% na dosagem de 12,5mg/kg por via intravenosa.

Os animais eram posicionados na mesa cirúrgica em decúbito dorsal e então realizada a anti-sepsia da região com álcool-iodo-álcool.

A abordagem cirúrgica foi realizada mediante laparotomia retroumbilical mediana, e procedida a localização e exposição dos cornos uterinos e ovários. Em cada ligamento suspensório do ovário e no corpo do útero, cranialmente à cérvix, foi aplicado triplo pinçamento com ligadura transfixante abaixo destas, utilizando-se categute cromado 3-0c. O mesmo fio foi utilizado na laparorrafia, constando de pontos isolados em padrão X na linha alba e pontos isolados simples para redução do espaço morto e aproximação do tecido subcutâneo.

De um dos ovários removidos foi coletado um segmento central de 1mm de espessura, obtido por dupla secção transversal, apresentando as camadas cortical e medular (Figura 1) que foi posicionado na tela subcutânea, na altura da glândula mamária abdominal caudal direita, mediante um túnel obtido por dissecção romba com tesoura ponta fina, aproveitando-se a incisão mediana ventral, antes da dermorrafia. Esta sendo realizada com pontos isolados simples com fio mononylon 3-0d.

 

ACBf1.gif (22815 bytes)

Fig. 1 - Ovário após remoção e secção transversal, evidenciando o segmento central utilizado para implantação subcutânea.

 

Em todos os animais foi feito curativo tópico diário da ferida cirúrgica com tintura de timerosale até o 7º dia de pós-operatório, quando foram removidos os pontos cutâneos. O comportamento dos animais, a manifestação ou não de ciclo estral e o peso corporal foram observados trimestralmente pelo período de 12 meses e registrados no protocolo de acompanhamento.

 

RESULTADOS

Todos os animais apresentaram atitude comportamental normal semelhante a demonstrada antes da cirurgia, sendo que três manifestaram sinais evidentes de estro nos primeiros seis meses e todos até os 12 meses de pós-operatório. Contudo, durante o cio as cães fêmeas não apresentaram corrimento sanguinolento e não permitiram a aproximação do macho. O implante foi facilmente identificado em todos os animais através da palpação (Figura 2), sendo observado um aumento de até o dobro do seu tamanho durante o cio.

 

a2f2.GIF (39573 bytes)

Fig. 2 - Implante ovariano identificado no tecido subcutâneo, 12 meses após a cirurgia.

 

A variação do peso corporal monitorada trimestralmente durante o experimento é apresentada na figura 3.

 

Fig. 3 - Representação gráfica do peso corporal (kg) monitorado antes, aos três, seis, nove e 12 meses após auto-enxerto ovariano na tela subcutânea em cães fêmeas.

 

O aumento de peso corporal, observado em três animais, ao final do experimento, não foi estatisticamente significativo, segundo a análise de variância destes.

Macroscopicamente o implante apresentava-se inserido no tecido circun-jacente, mas facilmente separado por dissecção, sem formação de bolsa ovárica e com vascularização apropriada entre o tecido implantado e o receptor. Na superfície de corte foram identificados corpos amarelos, separados do tecido circunjacente por feixes de tecido conjuntivo (Figura 4), essas estruturas e folículos foram também observadas histologicamente.

 

a2f4.GIF (57691 bytes)

Fig. 4 - Fotomicrografia do tecido ovariano implantado no tecido subcutâneo há 12 meses. Observam-se folículos em vários estágios de desenvolvimento. H-E 6,3.

 

DISCUSSÃO

A técnica cirúrgica empregada para a ovariohisterectomia foi a recomendada por CHRISTIANSEN3, MIALOT7 e WILSON & HAYES JR.11, de uso consagrado, sendo de fácil execução e mínima complicação como hemorragias no trans e pós-operatório.

A técnica para o auto enxerto ovariano utilizada seguiu a orientação da descrita por LE ROUX & VAN DER VALT5 e MATERA e cols.6 com alteração do sítio de implantação, tornando possível sua monitoração através da palpação externa do sítio de implantação. Todas as cirurgias foram realizadas no período do anestro como recomenda MIALOT7 evitando assim o risco de hemorragias tanto no período do pró-estro quanto do estro quando o útero, por ação hormonal apresenta-se irrigado.

LE ROUX & VAN DER VALT5 realizando implantação ovariana na serosa estomacal observaram aumento no implante de até 10 vezes o tamanho original do fragmento ovariano, enquanto que, neste experimento observou-se aumento de até o dobro do implante, atingindo até as dimensões compatíveis com um ovário normal.

Uma grande vantagem do auto enxerto na tela subcutânea é a possibilidade de monitoração do implante, que pode ser observado por inspeção e palpação, permitindo, em caso de alteração, sua remoção para biópsia prévia e, se necessário, remoção total, inclusive com infiltração anestésica local, demandando pequeno risco ao paciente.

Os inconvenientes da remoção ovariana como a obesidade vulvite e incontinência urinária descritos por CARTER2, SMITH9 e MIALOT7 não foram verificados neste trabalho, que também nào foram observados no trabalho de MATERA e cols.6, realizando a autotransplantação ovariana no espaço subperitonial.

Nenhum animal manifestou estro até o 3o mês de pós-operatório, posteriormente três animais apresentaram sinais clínicos compatíveis com estro antes do 6o mês e todos ciclaram até o 12o mês de pós-opertório. Os sinais clínicos apresentados foram de eritema e edema vulvar, agitação, atração de machos, entretanto, não manifestando interesse na cópula com os machos atraídos. O comportamento receptivo da cadela esta estreitamente relacionado com a liberação de progesterona8 que só ocorre se houver um folículo ovariano que tenha começado a luteinização após a onda de hormônio luteinizante10.

Esta situação indica que provavelmente os níveis de progesterona estiveram abaixo dos valores fisiológicos de uma cadela intacta, mas acima daqueles encontrados em uma cadela castrada, como descreveram LE ROUX & VAN DER VALT5.

A confirmação histológica de folículos e corpos amarelos, aos 12 meses de pós-operatório, confirma a manifestação clínica do ciclo estral, observada em todos os animais. Corpos amarelos podem existir somente após a ovulação, sendo responsáveis pela produção de progesterona. A maturação do folículo ovariano e consequente ovulação, por sua vez, somente ocorrem sob efeito da secreção de hormônio folículo estimulante e luteinizante, de origem hipofisária1. Portanto, houve manifestação do ciclo hormonal ovariano completo.

 

CONCLUSÕES

Tendo em vista as observações obtidas com o transplante autólogo de ovário na tela subcutânea em cães fêmeas, pode-se concluir que

- há implantação ovariana no subcutâneo, tendo em vista a localização do tecido enxertado, através da palpação em todos os animais,

- não há aumento estatisticamente significativo do peso corporal,

- há manifestação de ciclo estral, sem secreção hemorrágica e de características clínicas leves

 

REFERÊNCIAS

1. Banks WJ. Ciclo ovariano. In: ___Histologia veterinária aplicada. São Paulo: Manole; 1992. p 566-72.        [ Links ]

2. Carter CN. Pet population control: another decade without control. J Am Vet Med Assoc 1990;197(2):192-5.        [ Links ]

3. Christiansen IJ. Limitação da fertilidade na fêmea e no macho. In:___Reprodução no cão e gato. São Paulo: Manole; 1988. p 145-78.        [ Links ]

4. Knecht CD, Archibald J. Female genital system. In: Archibald J, Catcott EJ, editors. Canine and feline surgery. Santa Barbara: American Veterinary Publications; 1984. p 249-92.        [ Links ]

5. Le Roux PH, Van Der Valt LA. Ovarian autograft as an alternative to ovariectomy in female dogs. J Am Anim Hosp Assoc 1978;14:418-9.        [ Links ]

6. Matera JM, Barnabe VH, Gambarini ML, Guerra JL. Estudo experimental do enxerto autólogo de ovário em cães fêmeas submetidas a ovariectomia e ovariosalpingo histerectomia. Acta Cir Bras 1998;13:44-52.         [ Links ]

7. Mialot, JP. Métodos anti-reprodutivos. In: ___Patologia da reprodução dos carnívoros domésticos. Porto Alegre: A Hora Veterinária; 1988. p 28-33.        [ Links ]

8. Shille VM. Fisiologia reprodutiva e endocrinologia da fêmea e do macho. In: Ettinger SJ, editors. Tratado de medicina interna veterinária. São Paulo: Manole; 1992. p 1857-68.        [ Links ]

9. Smith KW. Female genital system. In: Archibald J. Canine surgery. Santa Bárbara: American Veterinary Publications; 1974. p 751-82.        [ Links ]

10. Stabenfeldt GH. Endocrinologia. In: Cunningham JG. Tratado de fisiologia veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1993. p 313-8.        [ Links ]

11. Wilson GP, Hayes Jr, HM. Ovariohisterectomia em cães fêmeas e gatas. In: Bojrab, MJ. Cirurgia dos pequenos animais. São Paulo: Roca; 1986. p 365-9.        [ Links ]

 

 

Schossler JE, Rios MV, Ilha MR, Lima S. Ovarian autograft in subcutaneous tissue in dogs. Acta Cir Bras [serial online] 1999 Jan Mar; 14(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.htm

SUMMARY: A segment of autologous ovary, collected by standard surgical technique of triple forceps was implanted in the subcutaneous tissue of 11 dogs. The animals were subsequentley evaluate by clinical exam, especially monitoring heat manifestations, and behaviour. Body weight was monitored every trhee months for 12 months. The implanted ovarian tissue was removed by the end of the experiment for histopathological evaluation. There was no significant changes in body weights. All the experimental implanted female dogs presented heat, although without bloody vaginal discharge. All of the animals remained alert and active, with a behaviour similar to the one presented before surgery. It is concluded that this method represents an alternative for canine reproductive control.
SUBJECT HEADINGS: Ovary. Surgery. Dogs.

 

 

 

Trabalho desenvolvido com o auxílio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Processo 523663/94-3.

Endereço para correspondência:
Prof. Dr. João Eduardo Schossler
Depto. Clínica de Pequenos Animais-CCR
Hospital Veterinário-UFSM - Campus Universitário
97105-900 Santa Maria - RS
e-mail: schossle@lince.hcv.ufsm.br

 

 

 

1Trabalho do Departamento de Clínica de Pequenos Animais, Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
2 Médico Veterinário, Mestre, Doutor, Prof. Adjunto Depto. Clínica de Pequenos Animais - UFSM, Santa Maria, RS.
3 Acadêmica de graduação em Medicina Veterinária, Bolsista de Iniciação Científica CNPq, Setor de Cirurgia, UFSM.
4 Acadêmica de graduação em Medicina Veterinária, Bolsista de Iniciação Científica CNPq, Setor de Patologia, UFSM.
5 Médica Veterinária Autônoma.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License