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Acta Cirúrgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.15 n.1 São Paulo Jan./Mar. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502000000100008 

USO DO CIANOACRILATO NA SÍNTESE DA PELE DE RATOS TRABALHO DE PESQUISA EXPERIMENTAL1

 

Cláudio Carneiro Borba2
Eduardo Roubaud Neto3
Renata De Loreto R. do Val3
Cláudio de Oliveira Borba Jr.4
Marco Antônio Soufen5
Acácio Francisco
Neto6
Antônio Yoiti Sakotani7

 

 

Borba CC, Roubaud Neto E, Val RLR, Borba Jr CO, Soufen MA, Francisco Neto A, Sakotani AY. Uso do cianoacrilato na síntese da pele de ratos: trabalho de pesquisa experimental. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Jan-Mar;15(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb

RESUMO: O objetivo deste estudo foi investigar o uso dos adesivos etil-cianoacrilato e butil-cianoacrilato com o náilon monofilamentar, comparativamente , na síntese da pele de ratos. Trinta e dois ratos foram distribuídos em três grupos: A, B e C. Estes grupos foram divididos em dois subgrupos, para estudo no sétimo e no décimo-quarto dia pós-operatório. Foram efetuadas no abdome do rato, duas incisões longitudinais e paralelas distando cada uma delas um centímetro da linha mediana, sendo uma do lado direito e a outra do lado esquerdo. Em todos os grupos a síntese da incisão do lado direito, foi realizada com pontos separados de náilon 5-zeros, sendo este considerado o grupo controle (C). Nos animais do grupo A, a síntese do lado esquerdo foi realizada com etil-cianoacrilato (Super Bonder) e nos animais do grupo B, a síntese foi realizada com butil-cianoacrilato (Histoacryl). No sétimo e no décimo-quarto dia pós-operatório, o aspecto macroscópico da cicatriz não mostrou diferença significante.No aspecto microscópico.os grupos B e C foram melhores do que o A. Os resultados demonstraram que a síntese com o adesivo sintético é eficaz, mais rápida, indolor e com bons resultados estéticos.
DESCRITORES: Cianoacrilatos. Técnicas de sutura. Pele. Ratos.

 

 

INTRODUÇÃO

O uso de adesivos para a síntese de diversos tecidos de uma maneira mais simples e rápida, tem despertado a atenção dos cirurgiões para esse método.

Estas substâncias com características adesivas, além de promover adesão dos tecidos, também teriam propriedades hemostáticas, sem acarretar efeitos colaterais indesejáveis.

Desde 1940, tem se tentado empregar adesivos biológicos com resultados variáveis e, em 1962, utilizaram-se adesivos poliméricos sintéticos com caseína, álcool, polivinil, derivados de borracha, policuletos, anidridos, resina de epóxi e resina de formaldeído. Morandini e Ortiz ( 1992).

A partir de 1960, surgiram os cianoacrilatos com boas perspectivas de resultados, por apresentarem boa adesão e serem bactericidas.

O primeiro a ser utilizado foi o metil-2-cianoacrilato, que, segundo alguns autores, apresentava características tóxicas.

A seguir, visando diminuir a toxicidade, a composição do cianoacrilato foi alterada, substituindo-se o grupo metil por etil, butil, hexil até dexil, com prejuízo na sua capacidade adesiva e pouca diminuição do seu efeito tóxico. Fisch (1962).

ALLEN, BEAL, CREECH JR, HANLON, JUDD, RUSSELL, SWAN, WARREN e ZUIDEMA (1966), estudaram em chimpanzés, cães e ratos, o efeito tóxico, por um período de até 36 semanas, em neurorrafia, com uso do metil, hexil e decil-cianoacrilato observando-se ação mais tóxica com o metil, relacionando-se o efeito tóxico deste produto com o tempo de degradação do adesivo. Neste período, não se observou efeito carcinogênico, que pudesse ser afirmado como ação dos adesivos. Desde o início da década de 1980, o etil-cianoacrilato e o butil-cianoacrilato vêm sendo estudados, na síntese de tecidos, como reforço de sutura e na hemostasia, com resultados animadores pelo baixo custo e rapidez na execução do procedimento. LEHMAN, HAYES e LEONARD(1987).

TORIUMI, RASLAN, FRIEDMAN e TARDY (1990) compararam a histotoxicidade do etil-2-cianoacrilato (Super Bonderâ ) e butil-2-cianoacrilato (Histoacrylâ ) em cartilagem de orelha , observando-se no butil-2-cianoacrilato mínima reação inflamatória aguda, mínima reação do tipo corpo estranho, pequena quantidade de células gigantes e uma reação inflamatória de maior intensidade no etil-2-cianoacrilato.

Na cirurgia plástica e na síntese da pele de crianças, que sofreram lacerações, os resultados obtidos com o uso do butil-cianoacrilato, foram semelhantes ao uso de fios de sutura para o mesmo procedimento.

DIAZ BARREIRO, SERVIN RAMIREZ e DIAZ LOPES (1995) em 10 casos, utilizaram, experimentalmente, na sutura de pele, o etil-cianoacrilato, não observando intolerância ou deiscências.Os autores relatam a existência de poucos trabalhos nacionais sobre este método, para se obter uma conclusão mais detalhada.

DEBONO (1997) utilizou o butil-cianoacrilato na síntese de pele com bons resultados, salientando o cuidado que se deve ter para não deixar escorrer o adesivo em área vizinha, pois este fato decorre da baixa viscosidade do produto. Trata-se de um método rápido, simples e indolor.

 

OBJETIVO

Estudar o efeito dos cianoacrilatos na síntese da pele.

 

MÉTODO

Amostra

Foram utilizados 32 ratos machos pesando entre 200 e 250 gramas, de mesma linhagem provenientes do Biotério da Universidade de Mogi das Cruzes. Os ratos foram distribuídos aleatoriamente em 3 grupos: A, B e C, sendo que o grupo C foi controle dos demais. Nos animais do grupo A, utilizou-se o etil-cianoacrilato na incisão da pele no hemiabdome esquerdo. Na incisão da direita, a síntese foi feita com náilon monofilamentar 5-zeros , grupo controle (C).

Nos animais do grupo B , utilizou-se o butil-cianoacrilato obedecendo o mesmo padrão do grupo A. Cada grupo foi dividido em 2 subgrupos A1 e A2, B1 e B2 e C1 e C2 para serem observados no sétimo e no décimo-quarto dias pós-operatório, respectivamente.

32 Ratos
A (16) B(16) C(32)
A1(8) A2(8) B1(8) B2 (8) C1 (16) C2 (16)
7° Dia 14° Dia 7° Dia 14° Dia 7° Dia 14° Dia

 

PROCEDIMENTOS

Os animais foram operados na sala de cirurgia do laboratório de técnica cirúrgica e cirurgia experimental da U.M.C..

A anestesia foi feita por inalação de éter sulfúrico com máscara aberta durante o procedimento operatório.

Os animais foram colocados em decúbito dorsal horizontal, com suas patas atadas à mesa cirúrgica.

A secção dos pêlos do abdome foi feita com aparelho de barbear rente à pele. A anti-sepsia foi feita com solução alcoólica de iodo a 2% e a assepsia com panos fenestrados esterilizados.

Operação nos animais do grupo A (etil-cianoacrilato)

Foram efetuadas duas incisões longitudinais com 3 cm cada, uma no hemiabdome direito e outra no esquerdo,ambas distando 1 cm da linha mediana.(Fig 1).

 

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Fig. 1- Fotografia mostrando as incisões no abdome: direita (d) e esquerda (e).

 

Na incisão da direita, denominada grupo C, realizou-se a síntese do ferimento com cinco pontos de fio de náilon monofilamentar 5-zeros separados. (Fig 2).

 

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Fig. 2- Fotografia mostrando a incisão da direita, suturada com fio de náilon 5-zeros.

 

Na incisão da esquerda aproximamos as bordas digitalmente e a síntese foi realizada com a aplicação de uma fina película do etil-cianoacrilato, com o auxílio de uma pequena ponta metálica em forma de bola utilizada no bisturi elétrico. (Fig 3). Após a aplicação do adesivo esperou-se um minuto para a polimerização do mesmo.(Fig 4)

Findo o procedimento operatório, os ratos foram colocados em gaiolas apropriadas, observados até a recuperação anestésica e transportados para o Biotério.

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Fig. 3- Fotografia mostrando a aplicação do cianoacrilato na incisão, com ajuda da ponta metálica do bisturi elétrico.

 

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Fig. 4- Fotografia mostrando o aspecto final da síntese das incisões.

 

Operação realizada nos animais do grupo B (butil-cianoacrilato)

Até a realização das incisões os procedimentos foram semelhantes aos do grupo A.

Na incisão da direita foi utilizado o mesmo fio e o mesmo número de pontos do grupo C.

Na incisão da esquerda foi utilizado o butil-cianoacrilato, da mesma maneira que no grupo A, aguardando-se um minuto para sua polimerização.

Da mesma forma que no grupo A, estes animais foram encaminhados ao Biotério, após recuperação anestésica.

Reoperação

De acordo com os sub-grupos a que pertenciam, foram reoperados no sétimo e no décimo-quarto dias de pós-operatórios.

Ferida operatória

Observando-se a ferida operatória considerou-se como resultado bom a presença de cicatrização completa, regular quando havia deiscência da cicatrização de até 3 milímetros (mm) e ruim quando a deiscência foi superior a 3 mm, ou havia sinais de infecção. Realizou-se a eutanásia do animal com éter sulfúrico por inalação.

Exame Histológico

Retirou-se em bloco um segmento de parede abdominal que continha as duas incisões. Estes segmentos, foram fixados em formol à 10%, emblocados em parafina e submetidos a cortes de 3 micras de espessura, no laboratório CYTOLAB em Mogi das Cruzes, para estudo histológico.

Procedeu-se a colorações pelos métodos de Hematoxilina e Eosina, Tricrômio de Masson e P.A.S., com e sem digestão de glicogênio.

As lâminas foram analisadas levando-se em consideração a presença de fibrose, reação do tipo corpo estranho, tecido de granulação e reação inflamatória aguda.

Utilizou-se como critérios de interpretação:

Reação:
Leve ou discreta (+)
Moderada (+ +)
Acentuada (+ + +)

Sendo considerado:
(+ e + +) = não (Sem)
(+ + +) = sim (Com)

 

RESULTADOS

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Fig 5- Fotografia mostrando a cicatrização da pele no 7° P.O., com sutura (s) e etil- cianoacrilato (c).

  

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Fig 6- Fotografia mostrando a cicatrização da pele no 14° P.O., com sutura (s) e etil-cianoacrilato (c).

 

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Fig 7- Fotografia mostrando a cicatrização da pele no 7° P.O., com sutura (s) e butil-cianoacrilato (c).

 

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Fig 8-Fotografia mostrando a cicatrização da pele no 14° P.O., com sutura (s) e butil-cianoacrilato (c).

 

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

A utilização de adesivos para a síntese de tecidos, tem sido empregada e estudada mais intensamente desde 1940. Inicialmente, utilizaram-se os adesivos de origem biológica e a partir de 1962, os polímeros sintéticos. Os cianoacrilatos tem sido utilizados com resultados satisfatórios, dependendo dos locais aplicados.

Os cianoacrilatos têm despertado uma atenção especial pelo seu baixo custo e fácil manuseio. O efeito adesivo na pele apresentou bons resultados, sendo que os de cadeia mais longa, apresentam menor toxicidade e menor adesividade, sem prejudicar o efeito adesivo final, fato este observado, neste trabalho, quando comparamos o etil-cianoacrilato com o butil-cianoacrilato e o náilon monofilamentar.

O butil-cianoacrilato e o náilon apresentaram neste trabalho resultados semelhantes, não havendo diferenças significantes entre os achados macroscópicos e microscópicos, ficando o etil-cianoacrilato com os piores resultados microscópicos, devido a maior presença de tecido de granulação e de reação inflamatória de maior intensidade.

Nos casos de inflamação aguda, há aparentemente um maior número de mastócitos no foco inflamatório.

Por colorações especiais como: Tricrômio de Masson, para fibras de colágeno e PAS, com e sem digestão para glicogênio, não notamos alterações de substância fundamental nas amostras, bem como sinais de resíduos de cola.

A fácil obtenção, o baixo custo, o fácil manuseio e o menor trauma às crianças que necessitarem da síntese nos ferimentos de pele, poderá ser a grande indicação para o uso dos adesivos sintéticos.

O efeito carcinogênico dos cianoacrilatos carece de estudos a longo prazo, para comprovação desta condição, o que inviabilisaria a sua utilização.

 

CONCLUSÃO

- A síntese da pele com cianoacrilato foi eficaz.

- O butil-cianoacrilato apresentou resultados melhores do que o etil-cianoacrilato e semelhantes ao náilon.

 

REFERÊNCIAS

Allen JG, Beal JM, Creech Jr O, Hanlon CR, Judd ES, Russell PS, Swan H, Warren R, Zuidema GD. Toxicity of cyanoacrylates. Arch Surg 1966;93(1):34-40.

Debono R. Department of plastic surgery, Royal Preston Hospital, England. Plast Reconstr Surg 1997;100(2):447-50.

Díaz PGB, Servin Ramirez JF, Diaz Lopez DE. Experiencia en 10 casos de sutura cutánea usando el adhesivo etil-cianoacrilato. Ginecol Obstet Mex 1995;63:10-4.

Fisch RA. An adhesive for primary closure of skin incisions. Plast Reconstr Surg 1962;30:607-10.

Lehman RAW, Hayes GJ, Leonard F. Toxicity of alkyl 2-cyanoacrylates. Acta Surg 1987;93:245-8.

Morandini W, Ortiz V. Adesivos biológicos em cirurgia. Acta Cir Bras 1992;7(2):80-5.

Toriumi DM, Raslan WF, Friedman M, Tardy ME. Division of facial plastic and reconstructive surgery, University of Illinois, Chicago 60612. Arch Otolaryngol Head Neck Surg 1990;116(5):546-50.

Vobel A, O’Gradu K, Toriumi DM. Department of Otolaryngology-Head and Neck Surgery. Arch Otolaryngol Head Neck 1993;9(1):449-57.

 

 

Borba CC, Roubaud Neto E, Val RLR, Borba Jr CO, Soufen MA, Francisco Neto A, Sakotani AY. Use of cyanoacrylate as surgical adhesive in rats skin incisions: experimental study. Acta Cir Bras [serial online] 2000 Jan-Mar;15(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb

SUMMARY: Cyanoacrylate derivates have been used as surgical adhesives, like ethyl-cyanoacrylate(Super-Bonder) and buthyl-cyanoacrylate(Histoacryl) for many years.In this study, the histotoxicity and binding ability of Super-Bonder and Histoacryl were compared.32 rats were operated, and distributed in 3 groups :A, B and C. Each group was subdivived in 2 subgroups , to be studied after 7 and 14 days postoperatory .2 longitudinals incisions with 3 centimetre in lenght, were done in each animal. The left incision was sutured with Nylon 5.0 (group C) as controls and the right incision was sutured with ethil-cyanoacrylate (group A) and buthil-cyanoacrylaty (group B). Our results allowed us to clearly study tissue acute inflammation, the presence of dehiscense and fibrosis that eventualy occured. Throughtout the study period, there was no statistical difference in the viability of buthyl-cyanoacrylate and Nylon. Buthyl-cyanoacrylate showed mild acute inflammation, and mild foreign body giant cell reaction, and had minimal histotoxic effect when compared with ethyl-cyanoacrylate. There was non intolerance to the adhesive nor dehiscense. This method is easy and without side effects on the skin.
SUBJECT HEADINGS: Cyanoacrylates. Rats. Adhesives.

 

 

 

Endereço para correspondência:
Cláudio de Oliveira Borba Jr
Al. Souza Franco, 1276
Mogi das Cruzes – SP
08780-120

Data do recebimento: 23/10/99
Data da revisão: 03/12/99
Data da aprovação: 11/01/2000

 

 

1.Trabalho realizado na disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), apresentado no XIII COMUMC (congresso Médico Universitário de Mogi das Cruzes). Primeiro lugar na categoria de pesquisa clínica experimental.
2.Acadêmico (segundo ano) do Curso de Medicina da UMC.
3.Acadêmico (quarto ano) do Curso de Medicina da UMC.
4.Professor adjunto responsável pela Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental do Curso de Medicina da UMC.
5.Professor auxiliar de Ensino da Disciplina de Patologia do Curso de Medicina da UMC.
6.Professor adjunto da Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UMC.
7.Professor da Disciplina de Neurocirurgia do Curso de Medicina da UMC.

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