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Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.15 n.1 São Paulo Jan./Mar. 2000

https://doi.org/10.1590/S0102-86502000000100010 

AVALIAÇÃO DOS EFEITOS DA LIGADURA DA BASE DO APPENDIX VERMIFORMIS DO COELHO1

 

Félix Carlos Ocáriz Bazzano2
Virgínio Candido Tosta de Souza3
José Carlos Corrêa4
Antônio Mauro Vieira5
Eduardo Chibeni Fernandes Ramos6
Luis Roberto Nascimento6
Neil Ferreira Novo7
Yara Juliano7

 

 

Bazzano FCO, Souza VCT, Corrêa JC, Vieira AM, Ramos ECF, Nascimento LR, Novo NF, Juliano Y. Avaliação dos efeitos da ligadura da base do appendix vermiformis do coelho. Acta Cir Bras (serial online) 2000 Jan-Mar;15(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

RESUMO: Foram estudados 120 coelhos, fêmeas, variando de peso entre 2.400 e 3.100 g. com o objetivo de avaliar o efeito da ligadura da base do appendix vermiformis do coelho e sua ação, do ponto de vista macroscópico e microscópico, sobre este órgão. Para tanto, distribuiu-se em dois grupos de 60 animais chamados de experimento e sham e foram subdivididos em 3 subgrupos de 20 coelhos para cada grupo e denominados de 24 h, 48 h, 72 h, 24 sh, 48 sh e 72 sh que correspondiam ao periodo de observação de 24, 48 e 72 horas. Verificou-se a ocorrência de apendicite tanto macroscópica como microscópica em todos os coelhos do grupo experimento nos três períodos estudados, não se verificando diferenças significantes entre os grupos, notando-se a evidência, em todos os grupos, de apendicites mais avançadas. Não se encontrou alterações nos coelhos dos grupos sham. Na avaliação estatística houve significância na leitura do diâmetro da ponta do apêndice, avaliado no início e no final do período de observação em cada grupo , no entanto, quando se confrontaram os grupos, não houve significância estatística. As avaliações das alterações macroscópicas da aderência, peritonite, necrose, alterações na coloração do apêndice, perfuração e as alterações microscópicas não se mostraram, sob o ponto de vista estatístico, significantes. Conclui-se que a obstrução da base do appendix vermiformis do coelho provoca apendicite aguda macroscópica e microscópica.
DESCRITORES: Apêndice. Apendicite. Experimental. Infecção. Coelhos.

 

 

INTRODUÇÃO

O agente etiológico de origem bacteriana foi estudado experimentalmente por BEAUSSENAT (1897) após traumatizar o appendix vermiformis e injetar via endovenosa Bacillus de Coli. ADRIAN (1901) induziu alterações inflamatórias nos folículos linfóides do appendix vermiformis com injeção endovenosa de diversos microrganismos e concluiu que a apendicite fez parte de uma infecção bacteriana geral. MCMEANS (1917) encontrou mudanças idênticas mesmo após injeção de culturas bacterianas estéreis. ASCHOFF (1931) afirmou que a bactéria entérica foi a causadora da apendicite aguda, identificando o Diplococcus Gram Positivo como agente desta doença. PIEPER, KAGER, LINDBERG, NORD (1979) em culturas de appendix vermiformis normais e inflamados identificaram uma flora idêntica.

VAN ZWALENBURG (1904) encontrou evidência de um agente obstrutivo em todos os casos de apendicite aguda.

ROUX (1895) foi quem iniciou o estudo para produzir apendicite de maneira experimental, estudando em porcos , espécie, que não tem appendix vermiformis, confeccionando uma bolsa e introduzindo diversos objetos estranhos sem obter sucesso.

ADRIAN (1901) relatou que a apendicite foi menos freqüente quando o lúmen do appendix vermiformis foi esvaziado antes da ligadura. HEILE (1925) e WANGENSTEEN, BUIRGE, DENNIS e RITCHIE (1937) relataram a importância do conteúdo fecal em appendix vermiformis obstruído em cães para a produção de experimental apendicite. No entanto, BUIRGE, DENNIS, VARGO e WANGENSTEEN (1940) demonstraram em coelhos, macacos e no homem, que a apendicite se desenvolveu mesmo quando o appendix vermiformis foi lavado antes da ligadura.

KLECKI (1895) relatou o aumento da virulência da bactériaentérica quando o lúmen apendicular foi obstruído. VANZWALENBURG (1904) não aceitou que a virulência tenha aumentado em decorrência da obstrução, sustentou que a oclusão causou distensão por secreção continua da mucosa. A distensão, por sua vez, interferiu com a circulação da parede do órgão. O retorno venoso foi impedido , havendo congestão e ocorreu a parada de toda a circulação devido ao aumento da pressão intraluminal com a necrose da parede a bactéria entérica pôde invadir e penetrar.PEDERSEN, OLESEN e WORNING (1987) através de obstruções com clampes, demonstrou o papel da distensão na apendicite.

PIEPER, KAGER e TIDEFELDT (1982), WANGENSTEEN e col. (1937) WANGENSTEEN e DENNIS (1939, 1940) registraram, através de apendicostomia, as pressões intraluminares crescentes no appendix vermiformis totalmente clampeado. Após nove horas com pressão artificial mantida de 10 cm de água produziu alterações inflamatórias.

Diante destes relatos, decidiu-se investigar a oclusão completa do appendix vermiformis de coelhos, observando a ocorrência de apendicite aguda.

 

OBJETIVO

Avaliar os efeitos da ligadura da base do appendix vermiformis do coelho.

 

MÉTODO

AMOSTRA

Foram utilizados 120 coelhos (Oryculasus Cuniculus), brancos, da linhagem Nova Zelândia, fêmeas, fornecidos pelo Biotério da Universidade de Alfenas, com peso corporal variando entre 2400 e 3100 gramas (g). Os 120 animais foram distribuídos mediante sorteio prévio em 2 grupos de 60 coelhos denominados grupo 1-experimento e grupo 2-sham e subdivididos em 3 subgrupos de 20 animais para cada grupo que foram chamados de 24 h, 48 h, 72 h, 24S h, 48S h, 72S h que corresponderam respectivamente aos periodos de observação de 24, 48 e 72 horas para os grupos experimento e sham.

 

PROCEDIMENTOS

Os animais foram alojados em gaiolas individuais, com livre acesso à água e ração comercial própria para a espécie.

Após jejum de 12 horas para sólidos, com livre acesso à água , os animais foram anestesiados com solução de acepromazina 2 miligrama por quilograma (mg/kg), xilazina 5 mg/kg, quetamina 35 mg/kg, por via intra-muscular. Quando necessário foi ministrado a metade das doses preconizadas assim que o animal apresentou sinais de superficialização anestésica. Aguardou-se 10 minutos para o início do ato operatório e quando o animal atingiu plano anestésico, foi posicionado em decúbito dorsalis, sobre a mesa operatória apropriada, onde a membrum thoracicum e membrum pelvinum foram contidos com cordas. Realizou-se a tosa da regio abdominis caudalis numa extensão de 5 centímetro (cm) e antissepsia com solução de iodo povidona. Utilizou-se técnica asséptica em todas as etapas do procedimento operatório. Através de laparotomia mediana de aproximadamente 5 cm, foi localizado o cecum e appendix vermiformis e mobilizados com cuidado. Identificou-se os vasos do messum-appendix e a 2 cm da base do appendix vermiformis foi passado fio de nylon 4-0, preservando a vascularização, apertou-se a laçada do fio até a obstrução total do appendix vermiformis (figura 1). Este procedimento foi realizado em todos os animais do grupo 1-experimento ( 24 h, 48 h e 72 h.). Observou-se após realizada a ligadura a manutenção da pulsação arterial dos vasos do appendix vermiformis. Neste momento foi feita a medida do diâmetro externo do appendix vermiformis, tendo sido padronizado a sua ponta o local para leitura do seu calibre, com paquímetro. Esta avaliação foi feita em todos os animais dos dois grupos. O cecum e appendix vermiformis foram recolocados na cavum abdominis e a parede fechada em dois planos de sutura contínua com fio de nylon 4-0; peritoneum-linea alba e integumentum, respectivamente. Os animais foram mantidos até a total recuperação anestésica sob observação e após retomar sua posição habitual foram reconduzidos ao local de origem, nas gaiolas correspondentes.

Realizou-se no grupo 2-sham (24S h, 48S h e 72S h) o procedimento de abertura igual ao descrito acima sendo feito a manipulação do cecum e appendix vermiformis sem ter sido ocluídos a base do appendix vermiformis e para tal fim utilizou-se como grupo sham, avaliados nos mesmos períodos para o grupo descrito anteriormente 24, 48 e 72 horas, respectivamente.

 

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FIGURA 1- Fotografia mostrando appendix vermiformis obstruído com laço de fio de nylon 4-0, preservando a vascularização( coelho número 14).

 

Decorrido o tempo de evolução pós-operatório programado para cada subgrupo (24h, 48 h e 72 h) do grupo experimento os animais foram anestesiados e submetidos à eutanásia com injeção endovenosa de 10 mililítro de cloreto de potássio a 10%.

A seguir procedeu-se a abertura da cavum abdominis através de incisão ampla, em forma de "U", com pedículo superior e feita a sua exploração sistemática. Neste momento observou-se as alterações macroscópicas do appendix vermiformis; iniciou-se a avaliação pela observação das aderências de alças ao redor do appendix vermiformis; a seguir observou-se as alterações da coloração do appendix vermiformis com a verificação da perda do brilho caracteristico, hiperemia da serosa, presença de exsudato ao redor do órgão e edema da serosa; prosseguiu-se com a avaliação da presença de secreção purulenta e ou fecalóide na cavum abdominis, localizada ou difusa; e finalmente a avaliação da perfuração apendicular e a presença de necrose. Novamente verificou-se o diâmetro da ponta do appendix vermiformis nos 2 grupos e prosseguiu-se a retirada do mesmo com a secção do appendix vermiformis a 1 cm proximal ao local da obstrução.

As peças foram fixadas em solução de formol tamponado a 10% e após inclusão em parafina foram realizados três cortes com 5 micras de espessura, na ponta do apêndice, no terço médio ou local perfurado e próximo à ligadura.

Foram utilizados para avaliação histológica critérios recomendados por RIBBERT e HAMPERL (1956), BOGLIOLO (1976), STUART (1978), ROBBINS (1991) e ROSAI (1996), , reconhecida como apendicite catarral ou superficial, supurativa ou flegmonosa e gangrenada.

Para análise estatística dos resultados aplicou-se os seguintes testes:

1- Teste do quiquadrado (SIEGEL, 1975) com a finalidade de comparar as diversas alterações observadas entre os tempos do experimento (24, 48 e 72 horas). Utilizou-se o teste exato de Fisher ( SIEGEL, 1975) quando necessário com a mesma finalidade.

2- Teste de Wilcoxon (SIEGEL, 1975) para comparar o diâmetro da ponta do apêndice medidos antes e após o procedimento cirúrgico. Esta análise foi feita para 24, 48 e 72 horas separadamente.

3- Análise de variância por postos de Kruskal-Wallis (SIEGEL, 1975) para comparar a diferença percentual dos valores do diâmetro da ponta do apêndice nos períodos depois menos antes.

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Esta análise comparou os três períodos do estudo.

Em todos os testes fixou-se em 0.05 ou 5% ( a 0,05) o nível de rejeição da hipótese de nulidade, assinalando-se com asterisco os valores significantes.

Todas as observações e procedimentos efetuados em cada animal foram anotados em ficha previamente padronizada .

 

RESULTADOS

 

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FIGURA 2- Fotografia mostrando área de perfuração com necrose do appendix no subgrupo de 72 h (coelho número 29).

 

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FIGURA 3- Fotomicrografia mostrando apendicite do tipo supurativa obsevado no subgrupo de 24 horas ( coelho número 16)

 

Em relação ao grupo 2-sham nenhum dos coelhos operados apresentaram alterações macroscópicas e microscópicas sendo colocadas as tabelas de avaliação estatistica no apêndice.

 

DISCUSSÃO

Apenas o appendix vermiformis de macacos antropóides é homologo ao do humano, (CHRISTELLER e MAYER, 1929). Foi demonstrado a evidência de apendicite expontânea nestes animais, que morreram em cativeiro (WANGENSTEEN e BOWERS, 1937). Esta espécie, entretanto, é de difícil obtenção para estudo experimental, (WANGENSTEEN e DENNIS, 1940). Sendo assim, coelhos e cães são utilizados para estudo experimental. No entanto, em contraste ao coelho, ao macaco e ao homem, o apêndice do cão não secreta muco, sendo considerado impróprio para este tipo de pesquisa (WANGENSTEEN e col. ,1937 e 1939). Estudos anteriores feitos por VAN ZWALENBURG (1904), HEILE (1925), tinham tido resultados variáveis quando realizados em cães. A apendicite expontânea no coelho foi previamente descrita por MORI (1903). Sendo assim, o coelho foi considerado animal ideal e facilmente disponível para estudo.

DENNIS, BUIRGE, VARGO e WANGENSTEEN (1940), relataram a presença de aderências excessivas quando da vigência de gangrena, perfuração e peritonite a partir de 8 horas de obstrução. KING, GURRY, ELLIS-PEGLER, e BROOKE (1970) descrerevam a ocorrência de aderências em coelhos sacrificados após 14 dias do experimento. Não se encontrou na literatura consultada, outros estudos que tenham se preocupado em avaliar e reconhecer tais aderências. No presente trabalho foi verificado a presença, em 96,6% dos casos, de aderências de alças no appendix obstruído, nos três subgrupos estudados do grupo 1-experimento.

DENNIS e col. (1940), BUIRGE, DENNIS, VARGO e WANGENSTEEN (1940) PIEPER, KAGER e TIDEFELDT (1982), JACOBS, CLARKE, SETTLE, SACHDEVA, WHEELER, TREROTOLA, WOLF e ROMBEAU (1985), PEDERSEN, OLESEN e WORNING (1987), afirmaram a presença em animais com obstrução do appendix, de alterações como congestão vascular, hemorragia, edema, perda do brilho na serosa, depósito de fibrina, caracterizando a evidência macroscópica de apendicite. No presente estudo verificou-se, que todos os coelhos apresentaram alterações na cor, em grau maior ou menor, conforme as características descritas acima para o grupo 1-experimento.

DENNIS e col. (1940) verificaram que, após 8 horas de obstrução do appendix, evoluiu para perfuração e peritonite, inicialmente foi localizada e com o passar das horas, normalmente se tornou generalizada.

WELCH e NAVAB (1967), JACOBS e col. (1985), usaram o método de obstruir o appendix do coelho, incluindo vascularização para obter modelo experimental de peritonite e verificaram a presença de necrose e gangrena associada à peritonite.

KING e col. (1975), para obstruir o appendix, utilizaram método semelhante ao realizado neste trabalho e verificaram a presença, após 14 dias de evolução, de peritonite difusa, purulenta, com abscessos múltiplos em todo cavum abdominis, em 8 coelhos. Em 3 coelhos que estavam agonizantes, no terceiro dia de pós-operatório, verificaram peritonite purulenta; no presente trabalho, observou-se freqüência elevada de peritonite, traduzida pelo extravasamento de pus e ou material fecalóide no cavum abdominis, ora localizada, ora generalizada, fato este detectado nos três subgrupos estudados do grupo1-experimento, porém houve predomínio no grupo de 72 h de 65% dos casos contra 30% e 50% para os grupos de 24 e 48 h, respectivamente.

EICHOFF e PFANNENSTIEL (1930), WANGENSTEEN e col. (1937, 1939 e 1940), DENNIS e col. (1940), verificaram a presença de necrose em alguns casos e notaram que houve relação com a pressão do balão colocado na parede da alça intestinal que provocou ulceração, infiltração e necrose. De modo semelhante, BOWERS (1937), estudou histopatologia da apendicite no homem, relatou mudanças mais destrutivas naquela parte do appendix que estava diretamente exposta à pressão do fecalito. Uma explicação para isto foi fornecida por VAN ZWALENBURG (1932) que postulou um ciclo hidráulico vicioso, agindo na obstrução do intestino e de outros órgãos ocos. Um aumento da pressão intraluminal tem acontecido quando a secreção de muco continua durante o evoluir da obstrução. Esta pressão hidráulica tem interferido com a circulação sangüínea na parede intestinal resultando na produção de mais fluído no interior da alça aumentando gradativamente a pressão. O prejuízo da circulação causada pela compressão, priva o tecido de oxigênio, o que resulta em necrose e, assim, as bactérias entéricas, principalmente espécies anaeróbias, são capazes de invadir os tecidos desvitalizados da parede. Observou-se, nos três subgrupos do grupo experimento, a presença de necrose com incidência crescente no decorrer do tempo, qual seja 60% no grupo 24 h, 65% no grupo de 48 h e 80% no período de observação de 72 h, sem significância estatística.

PIEPER e col. (1982) observaram alterações macroscópicas no aumento do tamanho do appendix em 50% dos casos de obstrução. VAN ZWALENBURG (1904, 1907 e 1932), WANGENSTEEN e col. (1937, 1939 e 1940), também demonstraram, usando método de obstrução por balão, aumento do seu diâmetro em quase todos os casos. A explicação para o aumento do volume do appendix e fundamentalmente da sua pressão, foi constatada devido ao volume relativamente grande de fluído aquoso cinza-acastanhado dentro do lúmen do appendix. WANGENSTEEN e col. (1937, 1939, 1940) verificaram que a capacidade de secreção no appendix humano desobstruído é de 1-2 mililitros de fluído em 24 horas e, no appendix obstruído de coelhos, de 20-80 mililitros em 24 horas. No presente estudo, na avaliação do diâmetro da ponta do appendix, notou-se significância estatística quando avaliados no momento da execução da obstrução e no final do processo de observação, caracterizando o aumento de volume, porém, não se verificou significância estatística quando os três períodos de avaliação foram confrontados. No grupo 2-sham não houve alterações no diâmetro da ponta do appendix.

PIEPER e col. (1982) não encontraram perfurações nos appendix dos coelhos estudados sob obstrução com balão e medição da pressão, no período de 12 horas; DENNIS e col. (1940) observaram perfuração regularmente em appendix ligados com mais de 8 horas de evolução. WANGENSTEEN e col. (1937) afirmaram que a perfuração ocorria após 10 a 14 horas de obstrução. No presente estudo, no coelhos do grupo1-experimento foi verificado a presença freqüente de perfuração nos três subgrupos estudados sem, no entanto, encontrar significância estatística quando avaliados entre sí, havendo porém, certo predomínio de perfuração no grupo de 72 h com 45% dos casos, e 30% para os grupos de 24 e 48 h.

BUIRGE, DENNIS e WANGENSTEEN (1940) preocuparam-se em avaliar microscopicamente os appendix de coelhos, chimpanzés e humanos com obstrução na base ou com obstrução e colocação de balão para insuflação e medição da pressão e verificaram alterações inflamatórias dos mais variados graus, sendo que, com a obstrução mais prolongada, os efeitos sobre o appendix sempre foram mais intensos Assim, em coelhos que ficaram com o appendix obstruído por apenas 4 horas, verificou-se que o tempo era insuficiente para causar mudanças histológicas, o que foi também estabelecido pelos estudos de PIEPER e col. (1982).

KING e col. (1975), BUIRGE e col. (1939), WANGENSTEEN e col. (1940), JACOBS e col. (1985), demonstraram a semelhança das alterações histológicas das apendicites provocadas em coelhos e chimpanzés em relação ao homem. No coelho as alterações induzidas pela obstrução do lúmen e a magnitude da pressão intraluminal exercida durante o período de obstrução não foram observados alterações inflamatórias agudas cujo grau pudesse ter antecipado a duração da obstrução ou a pressão alcançada. Foi observado tanto alterações mínimas quanto modificações agudas como gangrena e rupturas apendiculares com intensidades e pressões variadas. O grau de invasão granulocítica no tecido apendicular do coelho foi, geralmente, menor do que aquele encontrado em outras espécies: chimpanzé e homem. Uma reação de macrófagos maior ocorreu nos tecidos apendiculares do coelho. É interessante destacar também que KING e col. (1975), JACOBS e col (1985) verificaram, além das alterações descritas, a presença no apêndice do coelho, de tecido linfóide em abundância maior que nas outras espécies. No presente trabalho, a avaliação histológica não apresentou diferenças em relação aos da literatura consultada; verificou-se uma frequência maior de apendicite mais avançada, consideradas apendicite supurativa e as gangrenadas, não havendo, no entanto, significância estatística entre os períodos de avaliação estudados quando se confrontaram os grupos. Não encontramos apendicite no grupo 2-sham.

No trabalho de PEDERSEN e col. (1987) que utilizaram o mesmo método de obstrução do appendix em coelhos na sua base e no terço médio com anéis em três grupos de animais em que obstrução da luz foi feita na base com compressão parcial da luz, denominada de leve compressão e outros dois grupos com compressão na base e no terço médio com forte compressão e obstrução total da luz. Constatou-se que nos casos em que houve obstrução parcial da luz apendicular, não se verificou aparecimento de apendicite; em contrapartida, naqueles coelhos em que a obstrução foi total, encontrou-se resultados semelhantes aos descritos anteriormente pelos diversos trabalhos pesquisados na literatura.

BUIRGE e col. (1940), WANGENSTEEN e col (1940) destacaram que após obstrução completa da luz do apêndice entre 3 a 6 horas e depois reoperados para liberação da obstrução e, após alguns dias, feita a apendicectomia para avaliação, os apêndices tinham o aspecto quase normal, o quadro microscópico apresentava mudanças mínimas.

 

CONCLUSÃO

A ligadura da base do appendix do coelho provoca apendicite aguda com evidências macroscópicas e microscópicas.

 

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Bazzano FCO, Souza VCT, Corrêa JC, Vieira AM, Ramos ECF, Nascimento LR, Novo NF, Juliano Y. Evaluation the effect of the ligadure in the bottom of the appendix vermiformis of the rabbit. Acta Cir Bras (serial online) 2000 Jan-Mar;15(1). Available from: URL: http://www.scielo.br/acb.

SUMMARY: 120 female rabbits were studied, with a weight range from 2.400 to 3.100 g. with the purpose of evaluating the effect of the ligadure in the bottom of the appendix vermiformis of the rabbit and its action, from macroscopic and microscopic aspects, about this organ. The animals were, therefore, distributed in 2 groups of 60 animals called experiment and sham, and were subdivided in 3 sub-groups of 20 rabbits for each group which were called 24 h, 48 h, 72 h, 24 Sh, 48 Sh and 72 Sh, that corresponded to the observation period of 24, 48 and 72 hours. Its was verified the occurrence of both, macroscopic and microscopic appendicities in all rabbits from the experiment group on the 3 studied periods, with no significant differences between the groups, but observing the evidence, in all groups, of more onward appendicities. There was no alteration in the rabbits of the sham group. In statistic valuation there was significance in the reading of the appendix end diameter, evaluated at the beginning and in the end of the observation period in each group, when comparing the groups, however, there was no statistics significance. The evaluation of the macroscopic changes about adherence, appendix collor changes, peritonitis, necrosis, perforation and the microscopic changes weren’t significant on a statistics view. It follows that the obstruction in the bottom of the appendix vermifomis of the rabbit induces to both, macroscopic and microscopic acute appendicities.
SUBJECT HEADINGS: Appendix. Appendicities. Experimental. Infection. Rabbit.

 

 

 

Endereço para correspondência:
Félix Carlos O. Bazzano
Rua Tomaz Antônio Gonzaga, 130
Pouso Alegre - MG
37550 000

Data do recebimento: 15/10/99
Data da revisão: 01/12/99
Data da aprovação: 12/01/2000

 

 

1. Resumo de Tese de Mestrado apresentado ao Curso de Pós-graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP-EPM).
2. Mestre pelo Curso de Pós-graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP-EPM.
3. Orientador da Tese de Mestrado do Curso de Pós-graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP-EPM.
4. Co-orientador da Tese de Mestrado do Curso de Pós-graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da UNIFESP-EPM.
5. Professor Titular do Departamento de Ciências Fisio-morfológicas da Faculdade de Medicina de Pouso Alegre.
6. Mestres pelo Curso de Pós-graduação em Técnica Operatória e Cirurgia Experimnental da UNIFESP-EPM.
7. Professor Adjunto do Departamento de Bioestatística da UNIFESP-EPM.

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