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Acta Cirurgica Brasileira

Print version ISSN 0102-8650On-line version ISSN 1678-2674

Acta Cir. Bras. vol.15  suppl.3 São Paulo  2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-86502000000700013 

O PULMÃO NA DOENÇA INFLAMATÓRIA DO CÓLON
ESTUDO EXPERIMENTAL EM RATOS1

 

Maria de Lourdes Pessole Biondo-Simões2, Fernando Hintz Greca3, Antonio Pádua Gomes da Silva4, Maria Cláudia Komatsu5, Bryk Jr A, Luciana Ballardin5, Marcos Asami5, Mariane Cristina Gomes5, Paulo Suzuki5

 

 


Biondo-Simões MLP, Greca FH, Gomes da Silva AP, Komatsu MC, Ballardin L, Asami M, Gomes MC, Suzuki P. O pulmão na doença inflamatória do cólon: estudo experimental em ratos. Acta Cir Bras 2000; 15(supl 3): 61-64.

RESUMO: Embora a colite ulcerativa seja conhecida desde 1875 e muitas sejam as manifestações extra-intestinais descritas nesta doença, só recentemente chamou-se a atenção para o envolvimento do aparelho respiratório. Severas complicações têm sido descritas em pacientes como: estenose traqueal inflamatória, bronquiolite com pneumonia, pneumonite intersticial, granulomatose de Wegener, bronquite crônica com bronquiectasia, nódulos necrobióticos, vasculites, fibrose e alveolites. O presente estudo visa reconhecer as alterações pulmonares, na fase aguda da doença inflamatória do cólon, induzida em ratos com ácido acético à 10% e comparar com controles normais. Foi possível constatar que 100% dos animais com colite apresentaram reação inflamatória pulmonar (p=0,0210) de intensidade moderada à severa (p=0,0340). Vasculite foi vista em 58,33% dos pulmões (p=0,0060) e em 3 animais detectou-se hemorragia focal, necrose e abscesso. Estes achados permitem atribuir uma forte associação entre a doença inflamatória do cólon e alterações do aparêlho respiratório, durante a fase aguda da doença, em ratos.
DESCRITORES: Colite ulcerativa. Pulmão. Pneumopatias.

 

Biondo-Simões MLP, Greca FH, Gomes da Silva AP, Komatsu MC, Ballardin L, Asami M, Gomes MC, Suzuki P. The lung in inflammatory colon disease: experimental study in rats. Acta Cir Bras 2000; 15(supl 3): 61-64.

SUMMARY: Although ulcerative colitis has been known since 1875 and many extraintestinal manifesattions of this disease have been described, it was only that emphasis was placed on the involvement of the respiratory tract. Severe complications have been described in patients, such as inflammatory tracheal stenosis, bronchiolitis with pnemonia, interstitial pneumonitis, Wegener granulomatosis, chronic bronchitis with bronchiectasis, necrobiotic nodules, vasculitis, fibrosis and alveolitis. The objective of the present study was to determine the pulmonary changes occuring during the acute phase of the disease in rats submitted to induction of the disease with 10% acetic acid and to compared to normal controls. It was observed that 100% of the animals with colitis developed a pulmonary inflammatory reaction (p=0,0210) of moderate to severe intensity (p=0,0340). Vasculitis was observed in 58,33% of the lungs (p=0,0060) and focal hemorrhage, necrosis and abscesses were detected in 3 animals. These findings permit us to conclude about the presence of a strong correlation between inflammatory colon disease and changes in the respiratory apparatus during the acute phase of the disease in rats.
SUBJECT HEADINGS: Ulcerative colitis. Lung. Pneumopathy.


 

 

INTRODUÇÃO

Um grande número de manifestações extra-intestinais têm sido descritas em associação com as doenças inflamatórias do cólon. Entre estas manifestações encontra-se: artrite, espondilite anquilosante, eritema nodoso, pioderma gangrenoso, irite, episclerite, hepatite, colangite esclerosante e trombose venosa dos membros inferiores6.

Edwards e Truelove (1964) acrescentam às complicações: esteatose hepática, embolia pulmonar e úlceras de mucosa oral3.

Isenberg e col. (1968) relatam o primeiro caso de envolvimento pulmonar em paciente com doença inflamatória do cólon8 e Kraft e col. (1976) admitem o envolvimento do aparelho respiratório nas doenças inflamatórias intestinais12. Kirsner (1979) descreveu pacientes que desenvolveram bronquite supurativa11. Mais tarde outros envolvimentos foram descritos: estenose traqueal inflamatória9, bronquiolite com pneumonia17, pneumonite intersticial14, granulomatose de Wegener10, bronquite crônica com bronquiectasia1,4. Camus e col. (1993) relatam 27 doentes portadores de colite ulcerativa que apresentavam alterações respiratórias como: estenose subglótica, bronquite crônica, bronquite supurativa, bronquiectasia, bronquiolite crônica obliterante, pneumonite intersticial, infiltrado eosinofílico e nódulos necrobióticos2. Seguiu-se as descrições de vasculites, fibrose e alveolites7,15,16,19.

Sommer e col. (1986) referem que 38% dos portadores de colite ulcerativa e 54% dos portadores de doença de Crohn apresentam algum tipo de alteração respiratória, valor muito significante quando comparado aos controles (p<0,005)15. GODET e col. (1997) encontraram manifestações respiratórias em 55% de seus doentes5.

Tzanakis e col. (1998) observaram diminuição do fator de transferência do monóxido de carbono em pacientes com doença inflamatória intestinal, tanto em colite inflamatória como em Crohn (p<0,05)18.

Ward e col. (1999) estimam que 0,21% de todos os pacientes com doença inflamatória do cólon apresentem complicações pulmonares20.

Se lembrarmos que a colite ulcerativa é uma doença inflamatória e tem como alterações anátomo-patológicas mais importantes as ulcerações da mucosa intestinal pode-se supor que a quebra da barreira intestinal permita translocação bacteriana com todas as suas conseqüências, entre elas o comprometimento pulmonar. Assim pensando é possível compreender as doenças agudas pulmonares descritas por estes autores. As resoluções podem se acompanhar de fibrose justificando as doenças crônicas.

A literatura consultada apresenta a freqüência com que os diversos autores encontraram doenças pulmonares e embora existam muitos trabalhos experimentais relacionados aos modelos de indução da doença inflamatória do cólon, sua evolução e tratamento, descrição de lesões pulmonares não foram localizadas.

O presente estudo visa acompanhar a evolução da colite ulcerativa induzida em animais e sua influência sobre o pulmão.

 

MÉTODO

Utilizaram-se 24 ratos machos (Rattus norvegicus, Rodentia mammalia) com idade entre 140 e 150 dias e peso médio de 310,5 ± 45 g, distribuídos em 2 grupos: controle e experimento. O ambiente de experimentação, a temperatura, a umidade e o ciclo claro-escuro foram os próprios do ambiente, Biotério da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Durante o período de estudo os ratos tinham livre acesso à água e à ração.

Após limpeza mecânica do cólon, introduziu-se 9 cm de uma sonda 6F, perfurada lateralmente com intervalos de 1 cm. Nos animais do grupo controle injetou-se 2 ml de solução salina isotônica e nos do grupo experimento 2 ml de ácido acético à 10%, conforme MacPherson e Pfeiffer (1978)13. Após 6 dias sacrificaram-se os ratos com dose letal inalatória de éter etílico. Na necropsia observou-se as condições do cólon e dos pulmões. Estudou-se microscopicamente estes pulmões em cortes obtidos dos lobos cranial, medial e caudal direitos e da porção cranial e caudal do pulmão esquerdo. Assim estudaram-se 5 cortes histológicos corados pela hematoxilina e eosina. No exame dos cortes, contaram-se os neutrófilos de 10 septos alveolares, obtendo-se uma média.. A leitura foi feita pelo patologista de forma cega. A intensidade do processo inflamatório foi graduada por processo histométrico, classificando-se em: ausentes (quando o número de polimorfonucleares (PMN) presentes era inferior a 5); reação inflamatória mínima ( até 10 PMN); reação inflamatória moderada ( de 11 a 20 PMN) e reação inflamatória severa (mais de 20 PMN). Investigou-se , ainda, a presença de congestão vascular, aqui entendida por vasodilatação.

Analisaram-se os resultados através do teste exato de Fisher estabelecendo-se p ­ 5% para rejeição da hipótese de nulidade.

 

RESULTADOS

Registrou-se o óbito de 3 animais do grupo controle por acidente anestésico, restando para análise deste grupo, 9 animais.

Todos os ratos do grupo experimento desenvolveram colite caracterizada clinicamente por diarréia sangüinolenta. Na necropsia destes animais os cólons apresentavam-se dilatados, com aderências às vísceras vizinhas. Na superfície mucosa encontrou-se áreas ulceradas cobertas por fibrina. Os cólons dos animais do grupo controle mostravam-se macroscopicamente normais.

Os pulmões dos animais do grupo experimento mostravam-se, à macroscopia, de cor vinhosa , com aspecto de macicez e em 2 animais abscessos eram evidentes. Os pulmões dos ratos do grupo controle apresentavam-se de coloração rósea, como é seu aspecto usual normal. À microscopia constatou-se, no grupo controle, nos septos alveolares, em 3 animais, reação inflamatória mínima e em 2 reação inflamatória moderada além de lesões compatíveis com bronquite crônica. Dois pulmões mostravam ausência de reação inflamatória (Figura 1). Nos pulmões dos 12 ratos do grupo experimento a reação inflamatória se fez presente nos septos alveolares (p=0,0210), 6 vezes quantificada como moderada e 6 como intensa (p=0,0340) (Figura 2). Em 7 ratos constatou-se presença de congestão vascular, inclusive com infiltração inflamatória da parede dos vasos, o que permite dizer que não aconteceu só vasodilatação, mas também vasculite (p=0,006). Em 3 deles evidenciou-se: hemorragia focal, necrose e abscesso (p=0,1654).

 

 

 

DISCUSSÃO

Embora a colite ulcerativa seja conhecida desde 1875, quando foi descrita por Wilks e Moxon, só recentemente concluiu-se por sua associação com alterações do aparelho respiratório8,12. Após o relato de Isenberg e col. (1968) de um paciente com doença inflamatória do cólon que apresentava comprometimento respiratório vários outros relatos foram sendo somados e diferentes situações foram identificadas: bronquite supurativa, estenose traqueal, bronquiolite obliterante, pneumonia, pneumonite intersticial, granulomatose de Wegener, bronquite crônica com bronquiectasia, infiltrado eosinofílico e nódulos necrobióticos. Embora a freqüência com que estas alterações sejam vistas ainda não esteja bem determinada, Spira e col. (1998) alertam para esta possibilidade sempre que o paciente se apresentar com tosse produtiva crônica16 .

A indução de doença inflamatória intestinal em ratos permitiu acompanhar o comprometimento pulmonar na fase aguda, uma vez que segundo Tzanakis e col. (1998) as complicações respiratórias são mais comuns durante as fases ativas da doença18. Pode-se constatar que 100% dos animais com doença inflamatória intestinal desenvolveram processos inflamatórios de intensidade moderada à severa, de tal forma a permitir a identificação macroscópica de abscessos em dois animais e microscópica em três. Congestão vascular com característica de vasculite apresentou-se em 58,33% dos pulmões (p=0,006) . Este tipo de anormalidade havia sido descrita em pacientes por Hilling e col. (1994) e por Vesel e Eithz (1998). Hemorragia focal, necrose e abscesso foram evidenciados em 25% dos pulmões à microscopia.

Embora os autores consultados não argumentem a causa destas complicações nesta doença, acreditando-a simplesmente como uma manifestação extra-intestinal da doença é possível admitir que a quebra da barreira intestinal e a translocação bacteriana possa ser uma das possibilidades para explicar estas alterações pulmonares. Assim, este estudo pretende se estender, mas desde já alertar para a observação rigorosa do aparêlho respiratório, pois parece evidente a associação de alteração pulmonar e doença inflamatória do cólon.

 

REFERÊNCIAS

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NOTAS

1. Trabalho realizado na Disciplina de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
2. Prof. Adjunta de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da PUCPR e Prof. Titular de Experimentação em Clínica e Cirurgia da Faculdade Evangélica de Medicina do Paraná. Coordenadora da Disciplina de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da UFPR. Doutora em Cirurgia Experimental pela Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina.
3. Prof. Titular de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da PUCPR e Prof. Adjunto de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Experimental da Universidade Federal do Paraná. Doutor em Cirurgia Experimental pela Universidade Federal de São Paulo _ Escola Paulista de Medicina.
4. Prof. Titular de Anatomia Patológica da PUCPR.
5. Alunos de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental da PUCPR.

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